
O dia de ontem (14/12) foi marcado por uma clara mensagem dos representantes do agronegócio e das mineradoras no congresso brasileiro, a bancada ruralista e outras forças conjugadas, ao presidente Lula, aos membros do Supremo Tribunal Federal e, principalmente, para os povos indígenas.
A mensagem diz o seguinte: não ligamos para os direitos dos povos indígenas ou, tampouco, para acordos internacionais que busquem colocar algum nível de proteção para suas terras, as quais cumprem um lugar fundamental na preservação da biodiversidade amazônica. Lembrando que as terras indígenas cumprem fundamental na regulação climática e no fornecimento de serviços ambientais como a preservação de mananciais hídricos.
Com a derrubada de 41 dos 47 vetos impostos anteriormente pelo presidente Lula, a situação da proteção dos povos indígenas e suas terras retrocede para níveis abaixo do que foram estabelecidos pelo regime militar de 1964, explicitando o nível de ataque que as forças do agronegócio e da mineração pretendem impor aos povos ancestrais que habitam diferentes pontos do território brasileiro.
O presidente Lula que tem preferido jogar parado em face dos crescentes ataques da bancada ruralista no congresso nacional teve que assistir o seu próprio ministro da Agricultura, o ruralista e senador Carlos Fávaro, votar a favor da derrubada dos vetos presidenciais. Fossem outros tempos, Fávaro já estaria hoje apresentando seu pedido de renúncia para o presidente que ele ajudou a humilhar junto com seus parceiros da bancada ruralista. Mas o Lula de hoje é bem diferente daquele que subia na carroceria de caminhões para mobilizar trabalhadores em prol de seus direitos. A versão atual é muito mais ajustada ao agronegócio e sua pauta arrasa quarteirão.
Aliás, não é só o presidente Lula que foi posto em xeque para ação da bancada do agronegócio. Entre as figuras do governo Lula que mais foram atacadas por essa ação avassaladora dos ruralistas e associadas estão as ministras Sônia Guajajara (dos Povos Indígenas) e Marina Silva (Meio Ambiente). No caso específico de Sônia Guajajara, o seu ministério poderia ter aberto (se já abriu um dia) as portas. Ela melhor serviria aos interesses dos povos indígenas se decidisse voltar à posição de liderança indígena fora do governo, pois como está neste momento ela não passa do que os estadunidenses chamam de “lame duck” ou, em bom português, um “pato manco”. Aliás, quanto mais tempo Guajajara ficar neste governo, mais manca ficará.
O fato é que não há como o Brasil ser minimamente levado a sério em seus supostos compromissos com o combate às mudanças climáticas em face das forças que hoje comandam a vida política nacional. Quem em sã consciência acreditaria em qualquer coisa vinda das autoridades brasileiras depois dessa atuação escandalosa da bancada ruralista?
Finalmente, os povos indígenas e seus apoiadores devem se preparar para ataques mais acirrados em 2024, pois os objetivos do agronegócio e dos mineradores são mais do que óbvios. Resistir à avalanche de destruição que virá será uma tarefa hercúlea, dados os interesses econômicos e políticos envolvidos.