Web Rádio Maíra e os 31 anos da UENF: é preciso inventar o Brasil que queremos

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Por Luciane Soares da Silva

Dois livros animam o espírito de nossa rádio: Comunicação ou Extensão, escrito por Paulo Freire no Chile, em 1968 e o romance Maíra do antropólogo Darcy Ribeiro. Sua primeira publicação data de 1976. Podemos traçar aproximações entre ambos. São documentos de um tempo histórico específico. A Ditadura brasileira e processos ditatoriais em outros países latino americanos. Adotam perspectivas críticas nas quais o ato de comunicar é em si, elemento de transformação social

O questionamento central em Comunicação e Extensão é o lugar daqueles que pretendem realizar uma ação transformadora por meio do ensino: devemos “estender” nosso conhecimento aos grupos ou orientar nossa ação a partir de uma comunicação que efetivamente troque com o outro? Educar e educar-se afirmava Freire. Devemos compreender seu ponto de vista. Ao olharmos atentamente para populações indígenas (povos originários), camponeses e trabalhadores fabris, questionamos o ato de ensinar a ler, ensinar as técnicas modernas de produção e adotar o estilo de vida urbano. Que princípios deveriam reger nosso ensino? A partir destes questionamentos podemos alcançar o que significava a substituição de uma concepção de ensino que leva saberes aos que não o tem, por uma relação na qual o diálogo altere estruturalmente a visão do educador e do grupo com o qual ele atua.

O exercício feito por Darcy Ribeiro, adota a perspectiva dos índios com os quais conviveu para contar a história de sua destruição, “ o gozo e a dor de seu índio” Estruturalmente crítico ao processo civilizador, Darcy ambiciona transformar seus olhos nos olhos da tribo Mairum. Um ato apaixonado mas calibrado por seu conhecimento dos hábitos e da cultura destes grupos. O romance Maíra desloca a visão de um índio como uma página em branco para que os catequistas escrevessem para o índio-problema. Avá, mairum destinado a ser chefe guerreiro de sua tribo, é levado a Roma e educado para ser padre e missionário. A tragédia de Avá-Isaías é a tragédia dos povos originários, a perda de sua identidade e a impossibilidade completa de integração ao mundo dos brancos.

Os dois livros animas esta rádio que aceita o desafio da comunicação como troca a partir de uma perspectiva situada: o Brasil, a América Latina e a diáspora africana constituem a base de toda nossa programação. Em um mundo globalizado e dominado por redes sociais, redes de televisão e rádio, sabemos da importância desta decisão.

Ao olharmos para esta obra de Darcy saudamos os trinta e um anos de nossa Universidade .Seria possível ver a UENF  como obra estética de um homem brasileiro e latino-americano. E a poética deste desafio está na atualização de uma memória literária que é política. Ao lado da rádio, nosso projeto de extensão Arte e Memória na Escola realiza o ideal de Paulo Freire. A produção em sala de aula, de materiais que possibilitem aos alunos das escolas públicas de Campos dos Goytacazes construírem saberes sobre música, movimentos socias, identidade cultural e seu lugar na história.

Nenhum destes homens foi neutro diante de seu tempo. Da mesma forma, nossa programação conversa com repentistas do nordeste, rappers de Guarus, fazedores de cultural local. Ao mesmo tempo, aceitamos que a troca também deve dar espaço a trilhas de música para o dia das Mães, Correio Elegante para o dia dos Namorados e o cardápio diário do Restaurante Universitário. Ou seja, acolher a vida cotidiana da UENF.

Este trabalho só é possível pela qualidade e identidade do grupo que o compõe. E pela autonomia dada a cada um para apresentar sua pauta. Espaços como o Centro de Convenções, a Villa Maria, o Bandejão e os saguões de nossos Centros, são nossos pontos de ancoragem para produção de conteúdos.

Um exemplo de nossa programação: começamos as seis da manhã com “Bom dia proletariado”, vinheta e música. Após, cardápio do Bandejão, momento ciência e mulheres na ciência. Ao longo de semana temos programas de entrevistas com artistas, pesquisadores, programação de reggae, o que ocorre na cidade e nas Universidades. Divulgamos o Cine Darcy e temos o Clube da Encruza, um programa de temáticas abertas sobre temas de interesse dos integrantes.

Toda esta programação é idealizada e executada pelos alunos do projeto. O Clube do Som, por exemplo, consiste em uma metodologia extremamente simples. Cada participante apresenta algumas músicas de um álbum de preferência. De punk ao Clube da Esquina, somos convidados a ouvir conjuntamente estas músicas. É um exercício de escuta coletiva guiada.

O espírito que anima Maíra é o espirito que pode animar a Universidade brasileira. Ao acolhermos os saberes de forma a experimentar um fazer-comunicação, temos uma rádio com o potencial de dinamizar um espaço por vezes árido. A autonomia impressa em nosso trabalho é anti-burocrática e nem por isto, menos efetiva em seus resultados. Apenas deixamos que as pessoas façam o que sabem fazer. E possam aprender sobre os instrumentos técnicos de construção. Acredito que realizamos plenamente a proposta de Paulo Freire. Transformamos uns aos outros na construção de uma rádio. E aí reside a potência de nossa extensão que é comunicação.

Para seguir Maíra basta acessar webradiomaira.

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