
Marina Silva profere um óbvio ululante para despistar sobre o papel piromaníaco do agronegócio
Sob pressão para agir em função da situação catastrófica causada pelas queimadas no estado de São Paulo, se saiu com a seguinte declaração:
“Diferentemente do desmatamento, você não fica com um agente dentro da tua fazenda ou da tua casa para ver se ele vai botar fogo. Portanto, não pode dizer que foi uma falha porque as campanhas de conscientização, todos os processos vêm sendo feitos, por isso, as investigações para saber se tem uma ação intencional no caso de São Paulo. Nos outros casos têm fortes suspeitas, sim, de ação intencional. Em São Paulo também, por isso que está sendo investigado”.
Curiosamente já verifiquei que múltiplos atores da internet estão reproduzindo essa retórica seguindo a linha de que foram provocadores de extrema-direita, supostamente articulados em uma campanha de terror contra o governo Lula, que teriam começado os milhares de incêndios que ocorreram em São Paulo nos últimos dias (ver gráfico abaixo).

Ainda que muitos sejam tentados a seguir a linha de raciocínio de Marina Silva, a pergunta que se coloca é a seguinte: quem acredita que campanhas de conscientização deterão as práticas anti-ecológicas do agronegócio, especialmente daquele que depende de queimadas para levar a cabo seu ciclo produtivo?
A ministra do Meio Ambiente escolha essa linha de argumento porque o governo Lula está totalmente alinhado com o chamado agronegócio, e fica assim impedida de falar a verdade sobre a natureza do modelo agrícola que utiliza uma combinação de motosserra, bomba costal e maçarico para continuar operando um processo de destruição ecológica em uma escala inédita.
Sobre a participação da extrema-direita nesse ciclo piromaníaco que está ameaçando neste momento pelo menos 50 cidades paulistas, eu diria que não é preciso ir longe para notar que boa parte dos que se declaram membros dessa categoria elusiva, o agronegócio, estão perfeitamente alinhados com os ideais da extrema-direita, vide o apoio escancarado que foi dado a Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018 e 2022.
Mas o essencial aqui é entender que a causa primária dos grandes incêndios em curso no Brasil neste momento não precisam da extrema-direita ideológica para serem ateados, pois há um sistema agrícola que os torna necessários. Se a extrema-direita se utiliza deles para se propagar, isso é mais ou menos como chover no molhado.
A verdade é que não podemos esquecer do que realmente importa: o latifúndio agro-exportador é intrinsecamente anti-ecologógico e antipopular. É preciso sempre lembrar disso, ainda que parece um daqueles casos de óbvio ululante a que se referia o dramaturgo Nelson Rodrigues. O fato é que tem gente como Marina Silva que já se esqueceu disso.