
Por Douglas Barreto da Mata
Como disse o estudioso em comunicação e semiótica Wilson Ferreira, em seu blog cinegnose, o filme que deu à atriz Fernanda Torres o Globo de Ouro, como protagonista do filme “Ainda estamos aqui”, é um produto sob medida da Globo e da Sony Pictures para controlar a narrativa sobre o golpe militar no Brasil. Não seria a primeira vez que um produto cultural de massas, ou um meio ou plataforma interfere nos rumos da História, utilizado como instrumento de persuasão ideológica. Aliás, toda a indústria de bens culturais é voltada para essa tarefa, apesar de uns poucos ingênuos e outros tantos cínicos dizerem que a arte é uma manifestação livre desses vínculos.
Esse pessoal vai chiar, reivindicando uma leitura estética do filme, exigindo que seja levado em conta seu valor como arte, desprovido de “intenções ou mensagens”. Eu respeito o direito a essa fala, embora desrespeite, por completo, o argumento. O fato é que o “timing” sugere essa lógica, como alertou Wilson Ferreira.
Ninguém duvida da importância de lembrar a selvageria da ditadura. O problema é isolar essa violência como algo resultante da “maldade” ou “sadismo” dos militares. Ferreira presta atenção a esse fato. Concordo com ele
Descolar essa violência de seu contexto histórico, ficando apenas na vida da família do deputado, e nos aspectos pessoais da luta de sua viúva pelo reconhecimento do seu assassinato, é uma forma de “afastar” qualquer relação de causalidade, isentando de culpa a Globo, os EUA e sua indústria cultural geopolítica, e enfim, o pai de Walter Salles, banqueiro dono do Unibanco, na época, senão um articulador do golpe de 64, certamente, beneficiado por ele.
É disso que se trata. No filme parece que o golpe de 1964 é um evento Ex Machina, ou de “combustão espontânea”. Criar uma forma romantizada de contar parte da história, seduzindo a audiência pelo drama da mãe coragem contida e afável, é confirmar essa tese anti histórica.
Sem dúvidas, esse processo de criação discursiva ajuda a perpetuar a invisibilidade de todo o resto da sociedade, em sua maioria, pretos e pobres favelados, que sofreram, e sofrem, até hoje, os efeitos da violência estatal.
Sim, senhor, a violência estatal de hoje está diretamente relacionada àquela violência de 64, e de antes, antes e antes. O sofrimento dos parentes de militantes, quase todos de classe média, tem que ser rememorado. O problema é esquecer os 20, 30, em alguns anos, 40, 50 mil mortos/ano por PAF (projétil de arma de fogo), contingente formado pelos mesmos de sempre (pretos e pobres)
A amnésia seletiva impede a correta reparação e retratação não só a este ou aquele fragmento da sociedade, mas a todo país, ao menos da parte que sempre esteve na base da pirâmide.
Um país que anistiou militares torturadores e assassinos, e segue matando e espancando, ou jogando de pontes, ou matando por asfixia em caçambas de viaturas, ou em abordagens em rodovias, como assistimos nas redes sociais, não tem o que comemorar. E deveria assistir o filme com menos ufanismo.
Afinal, ainda não estamos nem aí, certo?