
Foto da Assembleia da fábrica Putilov em apoio à Revolução, Petrogrado, julho de 1920
Durante o ato realizado no dia de ontem para relembrar a tentativa de golpe de estado ocorrido no dia 08 de janeiro de 2023, o presidente Lula reservou uma parte do seu discurso para apontar para uma suposta ausência de trabalhadores no processo revolucionário que materializou a Revolução de 1917. Nesse sentido, o presidente Lula disse que “Se você pega a fotografia da Revolução Russa de 1917, não tem um operário na foto (…) porque historicamente sempre se pensou que trabalhador não prestava para nada a não ser para trabalhar”.
Como o presidente Lula não é uma pessoa desinformada sobre processos revolucionários, a menção à ausência de trabalhadores no processo revolucionário russo aparentemente se presta a dois tipos de exercícios retóricos. O primeiro é de colocar em xeque o papel dos intelectuais na formulação de ideias e programas que possam alavancar a luta dos trabalhadores, inclusive para impulsionar a realização de processsos revolucionários. O segundo parece estar ligado que o modelo burguês de democracia é uma espécie de ápice do que se pode fazer em termos de organizar a relação social dos seres humanos. Algo como sentido do que foi expresso pelo filósofo alemão Georg Hegel que via no Estado uma espécie de superiodade moral sobre formas anteriores de organização política da sociedade.
Eu nem vou perder tempo com o primeiro exercício sobre os intelectuais, pois Lula já expressou posições de desdém contra os intelectuais, apesar de ter tido sempre o apoio destes para sua própria formação e para a criação do Partido dos Trabalhadores (PT). A questão que me parece mais importante é a defesa da democracia burugesa como ápice, pois ao fazer isso, Lula indica aos membros do PT que não há espaço para transgressões do tipo da Revolução Russa e que o negócio é manter tudo como está no quartel de Abrantes.
O problema é que para fazer isso, teremos ainda mais ataques contra os direitos dos trabalhadores, na medida em que o modelo de democracia burguesa, especialmente o praticado no Brasil, se encaminha para ampliar ao limite o processo de concentração da riqueza nas mãos de uma ínfima minoria de pessoas, os chamados ultrarricos. E para isso se manter nos moldes democráticos burgueses vigentes, um grau ainda maior de violência será aplicado contra a classe trabalhadora.
Mas eu estou devendo uma indicação de leitura para o presidente Lula que é um homem dos livros. Eu estou pensando em comprar uma cópia do livro “Os 10 dias que abalaram o mundo” do jornalista estadunidense John Reed para enviá-la para Lula. Afinal, para quem leu o livro, como o fiz há mais de 40 anos, a mera ideia de que os trabalhadores russos foram meros espectadores da primeira revolução operária do mundo é pulverizada.
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Eu não tenho ilusão de que a leitura do livro de Reed irá mudar a posição ideológica de Lula. Mas como ele é uma pessoa inteligente, a minha expectativa é de que se ele ler, não volte a desafiar a inteligência alheia daqueles que sabem minimamente como ocorreu a Revolução Russa.
E antes que me esqueça, John Reed foi um dos fundadores do Partido Trabalhista Comunista da América e participou, pouco antes de sua morte, do congresso do III Internacional Comunista, que advogava pelo comunismo internacional, na capital russa.