Jogada de mestres: com o DeepSeek, a China deixa escancarada a fraqueza dos EUA e das suas “big” techs

Por Douglas Barreto da Mata

O meu amigo e editor do Blog do Pedlowski, Marcos Pedlowski, tem acompanhado com interesse a guerra da tecnologia, travada entre China e EUA, em um prenúncio de qual será a natureza dos próximos conflitos mundiais.  Para quem tem dúvida sobre o assunto, sugiro ler os textos (Aqui!,Aqui! e Aqui!).

Parece claro que se anuncia um novo tremor geopolítico, daqueles com potencial destrutivo de outros passados, como os que deram ignição a guerras coloniais entre França, Inglaterra, Espanha, Holanda, etc.

Ou outras mais recentes, como as duas grandes guerras, e outros conflitos regionais de repercussões mundiais, como Coréia, Vietnã, Afeganistão, ou Iraque.

Essa situação que se avizinha revela muitas circunstâncias, que não raro são escondidas sob os editoriais da mídia empresarial, ou sob o manto das narrativas ideológicas das elites mundiais. 

Em cada tempo da História, desde sempre, os recursos do Estado sempre estiveram a serviço da classe dominante e seus interesses.  Toda vez que você ouvir um liberal falar o contrário, ignore, pois ele mente.  Não existe capitalismo sem Estado. 

Foi assim que os burgueses acumularam riquezas para a transição do feudalismo para o capitalismo, lançando expedições estatais para os confins de um mundo desconhecido, até aquela época, para subtração de riquezas minerais, e para captura de escravos.

Depois, estabelecido o capitalismo como modo de produção hegemônico, vieram os conflitos e novas expedições coloniais, outra vez, em busca de recursos e novos mercados para os excedentes de produção, que se acumulavam nos países centrais. Claro que cada etapa foi salpicada de enormes embates bélicos, pois “bicudos não se beijam”.

Já recentemente, com a escalada exponencial de acumulação, sobrando dinheiro parado, o capitalismo mundial lançou-se na busca por remuneração em outras paragens, criou-se assim as armadilhas das dívidas públicas em países pobres, seus déficits fiscais, que dão azo às chantagens dos juros como único remédio para conter surtos inflacionários. 

Seja o destino manifesto dos EUA, seja o Lebensraum (o espaço vital alemão), a cada etapa histórica, potências capitalistas disputam a primazia política e/ou militar da dominação de recursos e de mercados, e claro, da remuneração constante, no fluxo permanente de transferência de riquezas dos países pobres para os países ricos. 

Não poderia ser diferente com a nova fase tecnológica. China e EUA estão se estapeando para determinar quem será a dona do mundo digital, e como sempre, os EUA seguem o mesmo padrão de conduta:  Expansão gigantesca de ativos inflados (superestimados), com o objetivo de soterrar concorrentes, tendo como ferramenta principal o poderio do governo que emite a moeda na qual todo o resto do mundo se endivida.

O que a China fez com a DeepSeek foi coisa típica de chineses. Foi, com o perdão da expressão, um “chute nas bolas do Tio Sam”. 

Às vezes leio muita besteira de supostos analistas, alguns até com “background” acadêmico, tentando desvendar uma civilização que está aí faz milhares de anos, e que já resistiu a diversos períodos de assédio por outros impérios, como o inglês, por exemplo.  Ninguém sabe o que vai na cabeça dos chineses, até que eles tomem alguma atitude.

A China disse ao mundo que a indústria de Inteligência Artificial (IA) dos EUA, e suas big techs, somadas à empresa que vende as máquinas necessárias para processamento, NVidia, são uma enorme fraude, um golpe em escala mundial.

Quando os chineses colocaram sua empresa de IA com menos de 10 milhões de dólares para fazer o mesmo que as dos EUA fazem por bilhões, e com a mesma capacidade de processamento destas chamadas gigantes do setor, eles desmascaram, em essência, a própria estrutura de funcionamento do capitalismo estadunidense.  Furaram a bolha de IA dos EUA. O mesmo pode se aplicar ao sistema financeiro, dentre outras tantas atividades.

Hoje sabemos, por exemplo, que a indústria automobilística, que por anos foi dominada pelos padrões dos EUA, poderia ter beneficiado a Humanidade com veículos muito mais eficientes, com menos desperdício de recursos e combustíveis, e óbvio, com impactos sócio-ambientais muitíssimos menores. 

Sabemos que esse modelo que privilegiou soluções privadas e particularizadas de transporte(carros de passeio), em detrimento de opções coletivas e públicas, foi moldado para responder e dar essência à demanda estadunidense de dominação geopolítica, e vice-versa. Junto com esse mercado cresceu toda uma cultura de “culto ao carro”, desde dos filmes de Hollywood até as estruturas pedagógicas estatais.

Em todas estas etapas, o governo dos EUA atuou com toda sua força para beneficiar seus empresários, agindo sempre em contradição ao que vaticina para os “cucarachos” ao redor do mundo, onde intervenção estatal na economia só é aceitável para pagar juros. A mesma fraude se deu no mercado de hipotecas. Toda a estrutura pública e estatal dos EUA atuou para fortalecer a expansão desmedida dos títulos podres, que se dissolveram como açúcar na água, levando o mundo todo junto, assim como aconteceu no Crash de 1929.

As guerras foram travadas pelos orçamentos públicos dos EUA em nome do petróleo, que alimenta os veículos.  Golpes foram patrocinados em países que ameaçavam sair da esfera de influência dessa geopolítica.

Não que os chineses de hoje, os alemães de 1939, ou os portugueses e ingleses do século XV não tenham feito igual, ou tentado fazer, até que foram detidos pelas derrotas militares. A questão é a enorme hipocrisia.  Chineses não alardeiam seus objetivos de conquistas através de narrativas fantasiosas de “liberdade e democracia”, ou “livre comércio ou livre concorrência”.  Só tolos acreditam nessa baboseira. Para sermos honestos, os chineses sequer falam.

Agora, com o golpe dado pelos chineses nas big techs dos EUA, ficou claro por que os mega empresários do setor estão de mãos dadas com o pato laranja.  O contribuinte dos EUA vai pagar a conta, e o contribuinte do resto do mundo idem, com exceção, talvez, dos chineses e russos (e aliados que estão fora do eixo ocidental), e com certeza, não haverá “American Dream” ou “America Great Again”. Dessa vez não vai haver nem fingimento de um “happy end”.

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