
Por Douglas Barreto da Mata
Para quem tem mais passado que futuro, a expressão A Escolha de Sofia é conhecida. Sofia é a personagem vivido por Meryl Streep, uma judia na época do nazismo, que diante da iminência da morte de seus dois filhos, ela tem a chance de escolher salvar um deles. Como se vê, uma escolha dramática, uma sinuca de bico. Claro que essa alegoria não se aplica às escolhas que Eduardo Paes poderá enfrentar em breve, mas é certo que há uma enorme carga de tensão agregada. Explico.
Os movimentos recentes de Paes, em acenos ao bolsonarismo mais extremo, como o pastor Silas Malafaia, ao mesmo tempo que trocou afagos com Cláudio Castro, podem significar muitas coisas, porém, estas são as que enxergo: No plano nacional, Tarcísio de Freitas pode ter sido ungido pelo “Meta Centrão” para concorrer a Presidente da República. “Meta Centrão” é algo acima do conhecido eixo fisiológico do Congresso, e representa o PODER, a grana. Faz parte desse clube gente como Temer, Kassab, Artur Lyra, etc. Cada um desses medalhões tem suas zonas de influência, e no caso de Tarcísio, seu “dono” é Kassab. Logo, se Kassab mandou Tarcísio concorrer, a configuração dos acordos pelos palanques estaduais do PSD tende para a direita. Kassab e o Meta Centrão sabem do potencial do espólio de Bolsonaro, e temem que Lula, na sua última missão, consiga diminuir o tamanho do Centrão.
Todos dizem que a PEC da blindagem e a lei da anistia tentam encurralar o STF, após as sentenças do núcleo principal do golpe. Pode ser, mas o principal motivo da ira parlamentar é o controle que Flávio Dino faz das emendas parlamentares. É uma questão de grana.
A questão de Bolsonaro virou troca de refém, moeda de negociação…um espantalho no milharal. É o dinheiro das emendas que mobiliza, tanto o parlamentar, quanto as empresas que lucram com as obras e compras públicas. Sem grana, a bancada conservadora encolhe, e a Faria Lima empobrece.
Então, sabedores desses riscos, o “Meta Centrão” resolveu romper os laços com o governo Lula e partiu para o ataque. Bem, mas e Paes, o que ele tem a ver com isso? Ora, tudo indica que Paes foi instado a fazer o dever de casa, e atrair o PL, e parte da federação União e PP, esvaziando qualquer chance de uma candidatura alternativa forte.
Nessa conversa entrará Washington Reis, cujo cacife depende da inelegibilidade, que pode ser revogada ou não pelo STF. Paes teria, então, que escolher. Ignorar Lula, romper uma amizade-aliança de anos, que permitiu ao alcaide carioca receber um oceano de recursos federais, eventos globais e etc, e ter um governo federal hostil, caso vença e Lula se reeleja, ou cumprir a missão partidária de se inclinar para direita. Não é uma situação confortável.
O Rio com um Governador sem apoio do Presidente passa fome. Por outro lado, romper com seus padrinhos políticos e o “Meta Centrão” é um problema na certa, inclusive do ponto de vista do financiamento partidário e da manutenção de sua base parlamentar, por exemplo.
Enfim, Eduardo Paes vai caminhar no fio da navalha.