O colapso climático e o dilema dos onivoros: mudar a dieta ou perecer

Por Sonia Corina Hess*

No Brasil, historicamente, as principais fontes de emissão de gases do efeito estufa (GEEs) são a mudança no uso da terra e florestas e a agropecuária, que originaram, respectivamente, 25,0% e 38,0% do total das emissões de 2023. Somadas, resultaram em 63,0% do total de GEEs emitidos no país naquele ano. As mudanças no uso da terra foram ocasionadas, principalmente, pelo desmatamento para a expansão de plantações de soja e milho e de pastagens. Além disso, 57% dos agrotóxicos aplicados no Brasil em 2021 foram utilizados em plantações de soja e 10% em plantações de milho.

Considerando que mais de 90% da soja e mais de 80% do milho produzidos no Brasil são direcionados à alimentação de animais no país ou no exterior, a pecuária é o principal fator gerador dos GEEs e do uso de agrotóxicos no país. Mas ninguém fala sobre isso. Há muitos discursos inflamados defendendo a minimização da emissão de GEEs e do uso de agrotóxicos, mas não se ouve falar na necessidade diminuir-se o consumo de produtos de origem animal para que tais metas sejam alcançadas.

A ONU enfatizou a necessidade dessa medida em documento publicado em 2015, mas não se fala mais nisso. Na COP-30, que vai acontecer em novembro em Belém-PA, certamente nenhum líder mundial tampouco vai falar sobre isso, porque seria constrangedor para um onívoro ser flagrado em contradição ao observar-se as suas refeições.

Mas quem tem a sincera intenção de ajudar a minimizar os sofrimentos ocasionados pelas mudanças climáticas e pelo uso de agrotóxicos, deve refletir sobre isso e mudar a sua dieta. Em troca, vai perceber uma acentuada melhora na sua saúde física e mental, e uma boa sensação de estar evitando muito sofrimento também para os animais.

*Sonia Corina Hess é professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina

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