Estudo revela exposição dupla e prolongada de pescadores ao petróleo no litoral de Pernambuco

 

 

derramamento petróleo Nordeste

Comunidades pesqueiras participaram diretamente das ações de limpeza de praias, manguezais, rios e arrecifes, muitas vezes sem equipamentos de proteção adequados

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Um estudo realizado pelo Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco) e pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) revela que pescadores artesanais sofreram uma exposição dupla e contínua ao petróleo após o derramamento que atingiu o litoral do Nordeste em 2019. As comunidades não tiveram contato com o óleo apenas durante a atividade pesqueira, mas também ao participar diretamente das ações de limpeza de praias, manguezais, rios e arrecifes, muitas vezes sem equipamentos de proteção adequados. Essa combinação de exposições amplia significativamente os riscos à saúde e pode gerar impactos que somente se manifestam muitos anos após o desastre.

Publicado na revista Cadernos de Saúde Pública na segunda (20), o trabalho adotou um desenho epidemiológico transversal e entrevistou 1.259 pescadores artesanais registrados em 27 colônias e associações do litoral de Pernambuco. Mais de 95% dos participantes tinham a pesca como principal atividade produtiva e estavam em pleno exercício da profissão durante o derramamento. Entre os sintomas relatados nos meses seguintes ao desastre, destacaram-se dor de cabeça, enxaqueca e ardência nos olhos, sinais compatíveis com a exposição a compostos tóxicos presentes no petróleo.

O litoral norte de Pernambuco teve a maior porcentagem de pessoas com alta exposição ao petróleo – 17,1% ante 15,4% o total da amostra –, sendo este grupo formado majoritariamente por mulheres.
“O grande diferencial do estudo é mostrar que o desastre não foi um evento pontual. Ele se incorporou ao cotidiano dessas populações, que dependem diretamente do ambiente contaminado para sobreviver. Isso gera uma exposição prolongada, associada ao modo de vida dessas comunidades”, explica José Erivaldo Gonçalves, doutor em Saúde Pública pela Fiocruz Pernambuco e coordenador de campo da pesquisa.

Mesmo anos após o derramamento, os pesquisadores alertam que ainda há motivos para preocupação com a saúde dessas comunidades. Substâncias presentes no petróleo, como benzeno, tolueno e xileno, podem provocar efeitos agudos, subagudos e crônicos. O benzeno, por exemplo, é classificado internacionalmente como carcinogênico, independentemente da dose, e está associado ao desenvolvimento de cânceres e alterações hematológicas que podem surgir entre 20 e 30 anos após a exposição. “Os efeitos da exposição ao petróleo não desaparecem com o tempo. Em muitos casos, eles somente se manifestam décadas depois. Por isso, é fundamental acompanhar essas populações ao longo dos anos”, alerta o pesquisador.

Estudos internacionais sobre grandes derramamentos, como o ocorrido no Golfo do México, indicam maior incidência de doenças respiratórias, cardiovasculares, sofrimento psíquico, como ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático, além de complicações gestacionais. Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de um monitoramento contínuo da saúde dos pescadores e pescadoras artesanais expostos ao petróleo no Brasil.

A pesquisa pode contribuir diretamente para a formulação de políticas públicas de saúde, trabalho e meio ambiente, ao identificar grupos mais vulneráveis e fornecer uma base científica para ações de vigilância em saúde do trabalhador e da população exposta a desastres ambientais. A classificação dos níveis de exposição também pode orientar estratégias de prevenção, cuidado e acompanhamento clínico, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS).

Entre os próximos passos do projeto estão a realização de estudos que buscam associar os níveis de exposição aos sintomas respiratórios, neurológicos e a outros agravos à saúde, além da implantação de uma rede de monitoramento de biomarcadores.

O levantamento integra o projeto “Desastre do petróleo e saúde do povo das águas”, coordenado pelas pesquisadoras Idê Gurgel e Mariana Olívia, da Fiocruz Pernambuco. A pesquisa foi construída em parceria com movimentos sociais e organizações comunitárias para garantir uma abordagem participativa e conectada à realidade dos territórios afetados. O estudo contou com o financiamento do Ministério da Saúde, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe) e do Programa Fiocruz de Fomento à Inovação – Inova Fiocruz.


Fonte: Agência Bori

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