
No creo en brujas pero que las hay las hay
Venho acompanhando o caso envolvendo agora ex-mestranda Beatriz Bueno, que acaba de ser desligada do programa de mestrado em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense por supostas violações das regras acadêmicas. Betriz Bueno alega que, na verdade, sua exclusão dos quadros discentes da UFF se deve à rejeição do seu tema de pesquisa, que propõe uma reorientação (radical eu me arrisco a dizer) sobre a questão das relações raciais tem sido abordadas nas últimas décadas pelas universidsades brasileiras.
Falo aqui da questão da “parditude” pelo qual Betriz Bueno parece propor uma explicitação das nuances que estão presentes na formação da população brasileira, em vez de se assumir que ela se divide basica e estritatamente entre brancos e negros. Não vou me alongar no mérito do debate conceitual que cerca a proposição de Beatriz Bueno para conduzir sua dissertação de Mestrado, pois essa é uma área em que minha ignorância supera a minha capacidade acadêmica de afirmar algo com o necessário suporte teórico-metodológico.
O que eu posso relatar é que este caso de exclusão tão imediata de uma discente de Mestrado em seu primeiro ano de estudos me parece algo bem singular na atual conjuntura da pós-graduação brasileira em que há uma forte leniência para com, digamos, eventuais descumprimentos e faltas por parte dos discentes. E a pena está me parecendo muito grave em relação às faltas declaradas publicamente pela própria UFF.
Agora, o que eu posso relatar é que este não é o primeiro caso que eu conheço em que um jovem pesquisador é punido por apresentar teses que destoam da linha dominante dentro de um programa de pós-graduação. Falo isso porque alguns anos atrás encontrei um ex-aluno que me contou de forma desolada que fora surpreendido com uma reprovação da sua tese de doutorado sobre relações interpessoais dentro do comunidade LGBTQIA+ porque concluira que as mesmas formas opressivas e autoritárias que marcam os relacionamentos heterossexuais estavam presentes. O pior para este ex-aluno foi que até o dia da realização da banca examinadora não tinha recebido qualquer sinalização de problemas por parte do seu orientador sobre a qualidade acadêmica da tese. Em outras palavras, esse ex-aluno foi surpreendido por uma reprovação que se mostrou inapelável, o que, objetivamente, o impediu de demonstrar e tornar públicos os resultados da sua pesquisa. O resultado final foi que este ex-aluno abandonou os estudos e se moveu para uma nova área disciplinar.
A minha expectativa é que, ao contrário, do meu ex-aluno, Beatriz Bueno não abandone o tema que escolheu para pesquisar e que ela possa acessar outro programa de pós-graduação para conduzir sua investigação dentro de um processo guiado pelo uso livre das regras do método científico. Falo isso como professor de Metodologia da Pesquisa desde 1999 no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Durante todo esse tempo, o que sempre procurei apontar que apesar do método científico não ter nada de neutro, o que deve guiar a condução de qualquer estudo científico é um compromisso com o rigor teórico máximo. É que só assim podemos separar o trigo do joio, e avançar no processo de construção de um conhecimento que mereça ser chamado de científico, por mais que isso desafie as ideias eventualmente dominantes dentro de uma determinada área de estudo.
Por ora, fico com o ditado sobre as bruxas….no creo en brujas pero que las hay las hay
