Em artigo aceito pela BioScience, William J. Ripple, Christopher Wolf e colaboradores alertam que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados e afirmam que mudanças graduais já não são suficientes diante da dimensão da crise
Há mais de três décadas, cientistas vêm alertando que a crescente pressão das atividades humanas sobre os sistemas naturais poderia colocar em risco as condições que sustentam a vida e a própria civilização. Em 1992 veio o primeiro World Scientists’ Warning to Humanity. Em 2017, um segundo alerta constatou que, apesar do conhecimento acumulado, a deterioração ambiental continuava avançando. Agora, quase uma década depois, chega uma terceira advertência, e seu diagnóstico é consideravelmente mais grave: a emergência planetária deixou de ser uma ameaça futura e já está acontecendo. Essa é a mensagem central de World Scientists’ Warning to Humanity: A Third Notice, manuscrito aceito para publicação no periódico científico BioScience. O trabalho é liderado conjuntamente por William J. Ripple, da Oregon State University e do Conservation Biology Institute, e Christopher Wolf, da Terrestrial Ecosystems Research Associates (TERA), que contribuíram igualmente para o artigo. Entre os demais autores está Johan Rockström, um dos principais pesquisadores envolvidos no desenvolvimento do conceito de limites planetários.
O ponto de partida de Ripple, Wolf e seus colaboradores é inequívoco. Mudança climática, perda de biodiversidade, poluição, degradação dos solos e das águas doces, esgotamento de recursos e padrões insustentáveis de produção e consumo estão desestabilizando o sistema terrestre. Segundo os autores, as evidências científicas dessa emergência são claras e crescentes. Mais importante ainda, eles afirmam que já não estamos diante apenas da tarefa de evitar crises futuras: precisamos limitar os impactos de processos que estão em andamento, enquanto aumentamos a resiliência das sociedades e dos ecossistemas. O alerta é dirigido explicitamente a governos, instituições financeiras, corporações e cidadãos, em um momento no qual as crises ambientais e sociais interagem e se reforçam enquanto, paralelamente, diminuem a capacidade institucional, a autoridade da ciência e a cooperação multilateral.
Um dos dados mais alarmantes apresentados no artigo é que sete dos nove limites planetários que delimitam o chamado espaço operacional seguro da humanidade já foram ultrapassados. Entre eles estão os relacionados à mudança climática, integridade da biosfera, mudanças no uso da terra, alterações da água doce, fluxos biogeoquímicos de nitrogênio e fósforo, introdução de novas entidades, como substâncias químicas produzidas pelos seres humanos, e, mais recentemente, acidificação dos oceanos. Apenas os limites relacionados à destruição do ozônio estratosférico e à carga atmosférica de aerossóis ainda não foram ultrapassados.
O problema é que essas alterações não acontecem isoladamente. A ultrapassagem simultânea de diferentes limites planetários aumenta a possibilidade de mudanças não lineares, efeitos em cascata e transformações potencialmente irreversíveis do sistema terrestre. Os autores alertam para o risco de uma trajetória de Hothouse Earth, uma espécie de “Terra Estufa” impulsionada por mecanismos de retroalimentação e pela ultrapassagem de pontos de inflexão. Nesse aspecto, o artigo contém uma advertência especialmente importante para o Brasil: os limiares críticos associados às camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental podem já ter sido ultrapassados, enquanto o permafrost boreal, as geleiras de montanha e a floresta amazônica podem estar próximas de seus respectivos pontos de inflexão. Os pesquisadores lembram ainda que a ultrapassagem desses limiares pode comprometer o sistema terrestre com transformações de longa duração e potencialmente irreversíveis, de modo que as condições atuais podem esconder uma instabilidade crescente cujas consequências mais graves somente aparecerão posteriormente.
Outro mérito importante do artigo é não diluir as responsabilidades pela emergência planetária em uma genérica “humanidade”. Ripple, Wolf e seus colaboradores identificam explicitamente os motores da atual desestabilização ambiental como estando concentrados nos países de alta renda, nas indústrias poderosas e nos sistemas econômicos que priorizam lucros de curto prazo e crescimento contínuo, reforçados por instituições e valores sociais que identificam progresso com expansão material. Ao mesmo tempo, aqueles que menos contribuíram para produzir a crise frequentemente enfrentam seus impactos mais severos. Os autores ressaltam que países de alta renda, indivíduos mais ricos e grandes corporações produzem os maiores impactos ambientais e possuem, simultaneamente, maior capacidade de agir. Além disso, parte considerável dos custos ecológicos associados às economias mais ricas é transferida, através das cadeias globais de produção, para regiões distantes e politicamente menos poderosas.
Essa constatação tem consequências políticas importantes, pois significa que não apenas os impactos são desigualmente distribuídos, mas também as responsabilidades por sua produção. Se alguns grupos sociais, países e corporações exercem uma pressão desproporcional sobre os sistemas naturais, não faz sentido distribuir igualmente os custos das transformações necessárias entre aqueles que consomem pouco e aqueles cujos padrões de consumo e produção respondem por parcela muito maior da degradação ambiental. Nesse sentido, o terceiro alerta científico é também uma advertência sobre justiça ambiental e sobre a impossibilidade de enfrentar a emergência planetária sem enfrentar simultaneamente as profundas desigualdades existentes entre países e dentro deles.
Talvez uma das dimensões politicamente mais contundentes do artigo esteja justamente nas soluções propostas. Os pesquisadores identificam seis grandes transformações envolvendo energia, natureza, economia, consumo, sistemas alimentares e justiça social. No campo energético, defendem a rápida eliminação da extração e do uso de combustíveis fósseis e afirmam explicitamente que a redução da demanda energética no Norte Global também é essencial. Na esfera ambiental, propõem proteção imediata dos ecossistemas ainda intactos e restauração em larga escala de terras, rios e oceanos degradados, reconhecendo simultaneamente os povos indígenas como detentores de direitos e a importância dos sistemas indígenas e locais de governança.
Mas é na discussão econômica que o terceiro alerta adquire uma dimensão particularmente significativa. Os autores sustentam que alinhar as economias aos limites planetários exige superar modelos de desenvolvimento dependentes da expansão contínua do uso de materiais e energia. Os sistemas econômicos atuais, argumentam, continuam priorizando o crescimento da produção e do consumo apesar da acumulação de riscos ambientais. Em contraposição, defendem abordagens voltadas prioritariamente para o bem-estar humano, a equidade social e a sustentabilidade ambiental. O sobreconsumo das nações e dos indivíduos mais ricos também é explicitamente apontado como um dos principais motores das pressões ambientais globais. Por isso, os cientistas defendem simultaneamente a satisfação das necessidades básicas de todas as pessoas e a redução do consumo excessivo dos segmentos mais afluentes da sociedade.
Os sistemas alimentares também ocupam posição central nesse diagnóstico. Segundo o artigo, eles respondem por aproximadamente um terço das emissões globais de gases de efeito estufa e exercem forte pressão sobre os solos, a água doce, os ciclos de nutrientes e a biodiversidade. Os pesquisadores defendem mudanças em direção a dietas baseadas predominantemente em alimentos vegetais integrais, redução das perdas e do desperdício de alimentos e ampliação de práticas agrícolas sustentáveis e regenerativas. Ao mesmo tempo, colocam a justiça social como uma das seis transformações necessárias, defendendo acesso universal à educação, saúde, moradia e serviços básicos como componentes da construção de sociedades simultaneamente mais resilientes, equitativas e ambientalmente sustentáveis.
Talvez a afirmação mais desconfortável de todo o artigo seja a de que a emergência planetária não persiste por falta de conhecimento. Segundo os cientistas, ela persiste porque os sistemas humanos não conseguiram se ajustar aos limites físicos e ecológicos do planeta. Cada novo adiamento aumenta a possibilidade de danos irreversíveis, cujas consequências recairão sobretudo sobre aqueles que menos contribuíram para a crise e sobre as futuras gerações. Enfrentar essa emergência exigirá, portanto, responsabilidade, equidade e transformações na escala da própria civilização, incluindo mudanças fundamentais na maneira como as sociedades produzem, consomem recursos e se relacionam com o mundo natural.
Essa constatação deveria provocar uma reflexão profunda. Desde o primeiro alerta de 1992, nosso conhecimento científico sobre o funcionamento do sistema terrestre avançou extraordinariamente. Temos hoje satélites, modelos climáticos, séries temporais globais e uma capacidade de observar mudanças ambientais que seria inimaginável há poucas décadas. O conjunto de indicadores apresentado pelos autores é revelador: continuam crescendo as emissões de gases de efeito estufa, o consumo de energia, o rebanho de ruminantes, a produção de carne, a produção de plástico e a economia mundial, enquanto persistem a perda de cobertura arbórea, o declínio da abundância de vertebrados e outras pressões sobre os ecossistemas. A expansão das energias renováveis constitui uma mudança positiva importante, mas ocorre em meio à continuidade de diversas tendências ambientalmente negativas.
Não estamos, portanto, diante de uma crise produzida simplesmente pela ignorância sobre aquilo que está acontecendo. Estamos diante de uma enorme distância entre aquilo que a ciência já sabe e aquilo que os sistemas políticos e econômicos estão dispostos a fazer. E é precisamente isso que torna especialmente perturbadora a necessidade de um terceiro alerta. A comunidade científica fez uma primeira advertência em 1992, repetiu-a em 2017 e retorna agora, quase uma década depois, afirmando que houve deterioração continuada e que as margens disponíveis para ações corretivas se estreitaram.
Apesar da gravidade do diagnóstico, Ripple, Wolf e seus colaboradores não apresentam um futuro inevitavelmente catastrófico. Eles lembram que a recuperação parcial da camada de ozônio demonstra que ações internacionais rápidas, coordenadas e baseadas em evidências científicas podem reverter danos ambientais graves. A humanidade possui conhecimento, instrumentos e recursos para reduzir rapidamente as pressões ambientais e, ao mesmo tempo, melhorar o bem-estar humano. O problema é transformar esse conhecimento em ação política compatível com a escala da emergência.
É por isso que talvez nenhuma frase sintetize melhor a gravidade deste terceiro alerta do que aquela escolhida pelos próprios autores: “não estamos mais nos aproximando de uma emergência planetária. Estamos vivendo dentro dela”. Para Ripple, Wolf e seus colaboradores, as escolhas feitas nos próximos anos determinarão se a humanidade conseguirá estabilizar o sistema terrestre e assegurar um futuro habitável para as pessoas e para as demais formas de vida.
Depois de três alertas científicos em pouco mais de três décadas, a pergunta já não parece ser se fomos suficientemente avisados. A questão que se impõe é quantos alertas ainda serão necessários para que governos, grandes corporações e sociedades passem finalmente a agir de acordo com aquilo que a ciência já demonstrou.

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