Um estudo publicado em 2026 na revista científica Toxicology Reports acrescenta uma peça importante — e preocupante — ao debate sobre os possíveis efeitos do glifosato sobre a saúde humana. Liderado por Márkó Unicsovics e desenvolvido por uma equipe de pesquisadores vinculados principalmente à Semmelweis University e à Hungarian University of Agriculture and Life Sciences, na Hungria, o trabalho investigou algo ainda pouco estudado: a presença de glifosato diretamente no tecido endometrial humano.
O estudo, intitulado Presence of glyphosate in endometrial cancer tissue: A cross-sectional study, foi publicado na Toxicology Reports, periódico científico de acesso aberto publicado pela Elsevier. Além de Unicsovics, assinam o trabalho Apolka Szentirmay, Györgyi Fekécs, Patrik Plank, Zsófia Molnár, György Nagyéri, Katalin Posta, Nándor Ács, Szabolcs Varbíró, Levente Sára e Zsuzsanna Szőke.
Glifosato não apenas no sangue, mas no próprio tecido
Os pesquisadores compararam mulheres com câncer endometrial e pacientes-controle com doenças endometriais benignas, procurando glifosato tanto no sangue quanto no tecido retirado durante procedimentos cirúrgicos. O desenho incluiu 32 pacientes no grupo de câncer analisado e 32 controles, além de subgrupos definidos pelo tipo e grau das alterações encontradas.
O resultado mais interessante talvez não seja simplesmente a detecção do composto. As concentrações de glifosato encontradas no tecido endometrial foram significativamente superiores às encontradas no sangue em todos os grupos analisados. Além disso, quando os pesquisadores separaram os casos segundo a gravidade da doença, as diferenças estatisticamente significativas em relação aos controles ficaram concentradas nas pacientes com câncer endometrial de alto grau.
Esse resultado abre uma questão que merece atenção: substâncias às quais as populações estão ambientalmente expostas podem apresentar comportamentos nos tecidos que não são adequadamente representados apenas por medições sanguíneas.
O problema pode estar também nas misturas
Outro aspecto especialmente interessante do estudo é que os pesquisadores não analisaram o glifosato isoladamente. Eles investigaram também micotoxinas presentes nos mesmos tecidos e encontraram forte correlação positiva entre os níveis endometriais de glifosato e zearalenona (ZEN), uma micotoxina com atividade estrogênica. Também foi observada correlação positiva com fumonisina B1.
Isso coloca em primeiro plano um problema frequentemente secundarizado na avaliação toxicológica: os seres humanos não estão expostos a uma substância de cada vez. Agrotóxicos, seus metabólitos, micotoxinas e inúmeros outros contaminantes ambientais podem chegar simultaneamente ao organismo. Os próprios autores levantam a hipótese de efeitos sinérgicos ou de coamplificação entre compostos capazes de interferir nas vias hormonais.
Um sinal de alerta, não uma demonstração de causalidade
Aqui é importante não fazer o estudo dizer mais do que ele efetivamente demonstra. Trata-se de uma investigação transversal, realizada com número relativamente pequeno de pacientes. O subgrupo no qual apareceu a associação mais forte — câncer endometrial de alto grau — possuía apenas seis mulheres. Os próprios autores ressaltam, portanto, que não é possível saber se a maior presença de glifosato antecedeu o desenvolvimento do tumor ou ocorreu posteriormente.
Em outras palavras, o estudo não demonstra que o glifosato causou câncer endometrial. Ele demonstra algo diferente e suficientemente importante: o composto foi encontrado no tecido endometrial, apresentou concentrações particularmente elevadas nos casos de câncer de alto grau e apareceu associado à presença de outros contaminantes com atividade endócrina. Os próprios pesquisadores classificam esses resultados como preliminares e defendem sua confirmação em amostras maiores e independentes.
A pergunta que permanece
Há um detalhe do artigo que merece correção. Os autores dizem que a Organização Mundial da Saúde teria classificado o glifosato como “provavelmente carcinogênico” no Grupo 2B. Na realidade, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, classificou o glifosato em 2015 como “provavelmente carcinogênico para humanos”, Grupo 2A. Grupo 2B corresponde a “possivelmente carcinogênico”. A própria IARC mantém essa informação em sua documentação oficial. Esse lapso não altera os resultados experimentais apresentados no artigo, mas vale registrá-lo para que a informação seja reproduzida corretamente.
O ponto central levantado pelo trabalho de Unicsovics e seus colegas na Toxicology Reports talvez esteja justamente em outro lugar. Se resíduos de um dos agrotóxicos mais utilizados mundialmente podem ser encontrados em tecidos humanos e aparecem associados a outros contaminantes capazes de interferir no sistema endócrino, a discussão sobre limites considerados individualmente “seguros” parece cada vez menos suficiente. Os próprios autores concluem que é necessário investigar exposições crônicas de baixa dose, misturas de contaminantes e possíveis efeitos sinérgicos, além de desenvolver métodos mais sensíveis para medir glifosato no endométrio.
Nesse sentido, talvez a principal contribuição do estudo seja mudar ligeiramente a pergunta. Em vez de perguntar apenas quanto glifosato uma pessoa pode receber sem apresentar toxicidade aguda, torna-se necessário perguntar onde esse composto chega, por quanto tempo permanece, com quais outras substâncias interage e quais podem ser as consequências de uma exposição ambiental contínua ao longo de anos. É nesse terreno que o estudo publicado na Toxicology Reports abre uma nova e importante frente de investigação.
