O El Niño pode ser histórico, e a falta de preparação pode tornar seus efeitos ainda piores

Uma reportagem publicada pelo portal Compre Rural, em 13 de outubro, traz um alerta que deveria estar ocupando o centro das preocupações dos governantes brasileiros: o chamado “El Niño Godzilla” está ganhando intensidade e apresenta 83% de probabilidade de atingir uma magnitude sem precedentes nos registros iniciados em 1950. A informação tem como origem a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que prevê a persistência de condições fortes a muito fortes até o primeiro trimestre de 2027.

O percentual de 83% não representa a probabilidade de ocorrência de uma catástrofe específica, mas de o fenômeno atingir ou superar uma anomalia de +2,5 °C no Índice Oceânico Niño Relativo (RONI), na média do trimestre outubro-dezembro. Essa distinção é importante porque, embora um El Niño excepcionalmente intenso aumente a possibilidade de anomalias climáticas, seus efeitos não serão uniformes em todas as regiões.

Para o Brasil, as projeções apontam para um cenário particularmente preocupante: chuvas acima da média no Sul e em partes do Sudeste, condições mais secas em extensas áreas do Norte e em partes do Centro-Oeste e Nordeste, além de temperaturas superiores às médias históricas em grande parte do território nacional. A combinação desses fatores poderá comprometer a produção agrícola, o abastecimento de água, a geração de energia e a segurança das populações expostas a enchentes, secas e ondas de calor. Entretanto, há uma questão que considero ainda mais importante do que a intensidade do fenômeno. O El Niño é um componente natural da variabilidade climática, mas seus efeitos estão ocorrendo em um planeta já aquecido pelas emissões humanas de gases de efeito estufa. Não se pode atribuir automaticamente cada desastre ao El Niño ou ao aquecimento global, mas tampouco é possível ignorar que a elevação das temperaturas amplia determinados riscos climáticos e torna ainda mais urgente a preparação das sociedades.

No caso brasileiro, essa preparação continua marcada por profundas desigualdades sociais e territoriais. Enquanto grandes empresas agrícolas dispõem de instrumentos tecnológicos, seguros e recursos financeiros para reduzir parte de suas perdas, agricultores familiares, trabalhadores rurais e moradores das periferias urbanas frequentemente enfrentam os eventos extremos sem infraestrutura adequada, reservas financeiras ou proteção institucional suficiente. O fenômeno climático pode ser natural, mas a distribuição dos seus prejuízos é profundamente social.

Essa discussão também precisa chegar ao Norte Fluminense, particularmente a Campos dos Goytacazes, onde a combinação de temperaturas elevadas, impermeabilização do solo, redução da cobertura arbórea e ocupação de áreas vulneráveis amplia a exposição da população aos extremos climáticos. Isso não significa prever uma enchente ou uma seca específica para a região, mas reconhecer que a ausência de políticas consistentes de adaptação poderá transformar anomalias meteorológicas em graves problemas sociais.

O mais preocupante é que, apesar da crescente precisão dos sistemas de monitoramento climático, o Brasil continua demonstrando dificuldades para converter conhecimento científico em planejamento territorial, infraestrutura preventiva e proteção das populações vulneráveis. Ainda prevalece uma lógica de atuação posterior aos desastres, quando os prejuízos humanos e materiais já se acumularam.

A reportagem do Compre Rural enfatiza, compreensivelmente, os riscos para a produção agropecuária. Entretanto, seria um erro reduzir a discussão às perdas nas safras de soja, milho ou trigo. A questão central envolve também a segurança alimentar, a disponibilidade de água, as condições de trabalho, a saúde pública e a capacidade das cidades de enfrentar temperaturas e precipitações extremas.

Se existe uma conclusão a retirar desse novo alerta da NOAA, é que não podemos continuar tratando a adaptação climática como um assunto secundário ou uma despesa dispensável. O Brasil precisa abandonar a improvisação e estabelecer políticas permanentes de prevenção, especialmente voltadas à classe trabalhadora e às populações mais vulneráveis. Afinal, o verdadeiro problema não é o apelido cinematográfico dado ao El Niño. É a possibilidade de enfrentarmos um fenômeno climático histórico com a mesma e velha combinação de negligência governamental, desigualdade social e ausência de planejamento.

Deixe um comentário