Bonsay da destruição: em tempos do colapso climático, Campos segue derrubando árvores adultas e população reage

Abaixo-assinado contra a remoção de árvores adultas expõe a contradição de uma Secretaria de Meio Ambiente que deveria proteger e ampliar a cobertura arbórea da cidade, mas participa de intervenções que podem reduzi-la

Uma nova mobilização em defesa da arborização urbana está acontecendo em Campos dos Goytacazes. Desta vez, o motivo é a ameaça de remoção de árvores na Rua Marechal Rondon, que levou à criação de um abaixo-assinado na plataforma Change.org solicitando a suspensão dos cortes.

A iniciativa merece o apoio da população, pois não se trata apenas da preservação de algumas árvores, mas de uma questão muito mais ampla: que modelo de cidade estamos construindo em um momento em que as mudanças climáticas tornam o ambiente urbano progressivamente mais quente e vulnerável a eventos extremos?

Há algum tempo venho informando no Blog do Pedlowski a eliminação de árvores adultas e a realização de podas drásticas em diferentes espaços públicos de Campos. Os episódios registrados no Jardim São Benedito, no bairro Flamboyant e até mesmo nas dependências da própria Secretaria Municipal de Meio Ambiente revelam uma situação que exige explicações e uma mudança de orientação do poder público.

O problema não se limita às observações cotidianas. Pesquisa que desenvolvo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF)  identificou, nos setores Flamboyant I e II, 84 registros de árvores removidas diante de apenas 35 mudas plantadas. Isso representa aproximadamente 2,4 árvores cortadas para cada muda registrada. E é importante lembrar que uma muda recém-plantada não substitui os serviços ambientais prestados por uma árvore adulta, cuja copa levou décadas para se desenvolver.

Mas existe uma contradição ainda mais grave. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade, que deveria liderar a proteção e a ampliação da arborização urbana, participa de intervenções sobre árvores de grande porte sem que Campos disponha de um Plano Municipal de Arborização Urbana concluído, divulgado e efetivamente implementado para orientar essas decisões.

A própria Prefeitura informou, em setembro, que esse plano ainda estava em elaboração. Enquanto isso, a população continua sem conhecer metas claras de ampliação da cobertura arbórea, critérios públicos para remoções, prioridades territoriais de plantio e mecanismos efetivos de acompanhamento das intervenções.

É evidente que determinadas árvores podem apresentar riscos e exigir intervenções técnicas, inclusive sua remoção em situações justificadas. Entretanto, essas decisões precisam estar fundamentadas em laudos transparentes, na avaliação de alternativas menos agressivas e em um planejamento que considere o conjunto da arborização urbana. O que não se pode admitir é que o corte de árvores adultas seja tratado como uma simples rotina administrativa.

A situação é especialmente preocupante porque Campos já apresenta temperaturas elevadas e profundas desigualdades na distribuição da vegetação urbana. As árvores são fundamentais para produzir sombra, reduzir o aquecimento das superfícies, favorecer a evapotranspiração e melhorar as condições de vida de quem precisa circular diariamente pelas ruas. Sua remoção pode ampliar o desconforto térmico e comprometer uma infraestrutura natural indispensável à adaptação climática.

Nesse contexto, a mobilização dos moradores da Rua Marechal Rondon deve ser compreendida como parte de uma luta maior pelo direito à cidade e por uma gestão ambiental que coloque a proteção da vida e do patrimônio arbóreo acima de soluções imediatistas.

O mínimo que se espera da Prefeitura e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente é a suspensão das remoções questionadas até que sejam apresentados os fundamentos técnicos das intervenções, assegurada a participação dos moradores e avaliadas alternativas que permitam preservar as árvores sempre que possível.

Também é urgente que o município apresente publicamente seu Plano de Arborização Urbana, estabelecendo metas, responsabilidades, orçamento e mecanismos de fiscalização social.

Afinal, não faz sentido falar em adaptação climática enquanto se elimina uma das principais formas de proteção que a cidade já possui contra o calor extremo.

Por isso, convido os leitores do Blog do Pedlowski a conhecer, assinar e compartilhar o abaixo-assinado em defesa das árvores da Rua Marechal Rondon.

A defesa das árvores de Campos é também a defesa de uma cidade ambientalmente mais saudável, socialmente mais justa e preparada para enfrentar as mudanças climáticas.

Assine o abaixo-assinado: Suspensão do corte das árvores da Rua Marechal Rondon

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