Das redes às ruas: a juventude mostra o caminho, mas a campanha de Lula precisa agir

A campanha do presidente Lula neste segundo turno está diante de uma oportunidade política que não pode ser desperdiçada. As mobilizações que vêm ocorrendo em diferentes partes do país, muitas delas impulsionadas espontaneamente pela juventude, demonstram uma disposição de participação política que ultrapassa as estruturas partidárias tradicionais. Os jovens não estão apenas comparecendo aos atos: estão ajudando a convocá-los, organizá-los e dar-lhes uma linguagem própria.

Esse protagonismo precisa ser reconhecido pela direção do PT e pela coordenação da campanha de Lula. O pior caminho seria tentar enquadrar essa energia espontânea nas  estruturas partidárias, transformando jovens mobilizadores em figurantes de eventos organizados de cima para baixo. A juventude não está pedindo autorização para participar da política. Ela já está mostrando sua capacidade de organização.

Entretanto, é fundamental construir uma verdadeira simbiose entre redes e ruas, especialmente diante do enorme poder das big techs sobre a circulação de informações. A comunicação digital não pode ser o único meio de acesso às propostas em disputa nesta eleição.  É nesse ponto que cabe cobrar uma ação concreta da direção nacional do PT e da coordenação da campanha: produzir e disponibilizar imediatamente materiais impressos, com linguagem acessível, informações verificáveis e referências às propostas efetivamente apresentadas pelos candidatos. Esses materiais devem permitir que a população conheça e compare as consequências das diferentes propostas sobre remuneração por hora trabalhada, direitos previdenciários, proteção social, educação e condições de trabalho.

Para isso, não basta anunciar uma campanha de comunicação. É necessário estabelecer um calendário público de produção e entrega dos materiais, disponibilizar arquivos para impressão local, garantir recursos às estruturas regionais e criar canais pelos quais coletivos juvenis e organizações sociais possam solicitar apoio logístico. Tudo isso com transparência e respeito à autonomia dos participantes.

A juventude não pode ser tratada apenas como força auxiliar para carregar bandeiras e preencher fotografias de manifestações. Seu protagonismo precisa ser reconhecido também na definição das formas de participação e organização, sem submissão automática às estruturas partidárias.  O segundo turno exige mais do que grandes atos, discursos e disputas de audiência nas plataformas digitais. Exige condições materiais para que o debate político ultrapasse as telas e alcance os espaços públicos, com informações claras e possibilidades reais de participação.

A juventude já demonstrou capacidade de transformar indignação em mobilização. Cabe agora à direção do PT demonstrar que consegue oferecer apoio concreto sem sufocar essa autonomia. Afinal, seria um desperdício político monumental ver a juventude ocupando as ruas enquanto a direção da campanha permanece ocupada apenas em administrar agendas, discursos e fotografias.

A tarefa é simples de enunciar: imprimir, disponibilizar, organizar e prestar contas. Porque algoritmo nenhum substitui organização popular.

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