Abrasco aponta como perigosa a suspensão precoce de máscaras em espaços fechados na cidade do Rio de Janeiro

Suspensão das máscaras em espaços fechados: medida intempestiva que nega a realidade da pandemia

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Foto da arte: Rovena Rosa/Agência Brasil

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) considera precoce e intempestiva a medida anunciada pela Prefeitura do Rio de janeiro de suspender a obrigatoriedade do uso de máscaras em espaços fechados.

O Brasil e o mundo ainda se encontram em uma situação de pandemia, com imensas desigualdades no acesso as vacinas dentro e fora do país. Além disto, ainda não temos a real magnitude do incremento de casos provocados pelas aglomerações do feriado de carnaval, o que exige prudência e precaução até que possamos ter uma avaliação mais sólida da situação da pandemia no município do Rio de Janeiro, bem como na região metropolitana.

Nenhum município é uma ilha. Análises e decisões devem considerar o contexto local, mas também regional. Além disso, com o início das atividades escolares, é fundamental que sejam exigidos passaportes vacinais em todas as escolas (públicas e privadas), principalmente as que envolvem os segmentos com faixas etárias de 5 a 11 anos, uma vez que apenas 8,4% destas crianças possuem esquema vacinal completo. O reforço vacinal (3ª dose), atingindo apenas 42,3% da população, também caminha muito lentamente, fazendo com que a eliminação das medidas de proteção físicas (máscaras, distanciamento social e lavagem de mãos) se torne um ato precoce.

Não será negando a realidade que o Brasil poderá voltar ao normal, senão, ao contrário, enfrentando com responsabilidade e maturidade seus desafios sociais e sanitários, tendo como base os princípios da equidade no acesso às vacinas e da precaução na adoção de medidas de proteção.

Rio de Janeiro, 08 de março de 2022

Abrasco – Associação Brasileira de Saúde Coletiva

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Este texto foi publicado inicialmente pela Abrasco [Aqui!].

Evento online discute a desnaturalização dos desastres, com foco no caso de Petrópolis

Webinário acontece nesta quinta, dia 10/3, com transmissão aberta via YouTube

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Nesta quinta-feira, dia 10, às 18h30, será realizado o webinário “Desnaturalizando os Desastres: o caso de Petrópolis/RJ” . O objetivo é discutir a necessidade de desnaturalização dos desastres, com foco no caso recente ocorrido no município de Petrópolis (RJ), no último dia 15 de fevereiro, que fez mais de 230 vítimas e já está entre as maiores tragédias do País. De acordo com os organizadores, sob a perspectiva da desnaturalização de desastres, não há nada de “natural” nessas catástrofes – e isso se verifica pelo histórico desses eventos na cidade e seus nexos sócio-históricos. 

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Além da abertura às 18h30, estão previstas duas rodas de debates com pesquisadores, especialistas, ativistas da área e comunidade petropolitana. Confira a programação completa  (Aqui!). A transmissão aberta acontece pelo canal da plataforma AirCentre no YouTube (Aqui!). 

Na ocasião, será lançado o 45º volume da Revista Ciência & Trópico. A revista é resultado do “II Seminário de Desnaturalização de Desastres e Mobilização Comunitária: crises ampliadas, redes e resistências”. Em sua última edição, ocorrida de 4 a 8 de outubro de 2021, o seminário abordou temas ligados à desnaturalização de desastres sob diversas perspectivas – sempre com vistas à defesa da vida humana e da preservação ambiental – desde o aspecto da mídia, das mobilizações comunitárias, das questões de gênero e dos desafios da gestão. 

O webinário e a revista são uma iniciativa conjunta de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (RJ); do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres (NEPED) do Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR); do Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais (NESA) da Universidade Federal Fluminense (UFF – Campos); da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); da Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social do Instituto de Psicologia – Programa EICOS, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ); e conta também com o apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). 

Mais informações podem ser acessadas neste documento: [Aqui!].

Entrevista na TV GGN sobre os impactos agrotóxicos sobre o ambiente e a saúde no Brasil

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Na noite de ontem (09/03) começou a ser veiculada uma entrevista que foi dada ao professor Ruben Rosenthal, do blog Chacoalhando, na TV GGN. Nessa entrevista eu e Rosenthal conversamos de forma ampla sobre a problemática representada pelo amplo uso de venenos agrícolas na agricultura brasileira, e dos problemas que isso vem acarretando para a população brasileira.

Dentre os muitos pontos abordados, um que procurei destacar é que as ações em prol de uma agricultura que não seja dependente de venenos agrícolas banidos em outras partes do mundo são fundamentais para que se assegure o direito dos brasileiros a não serem diariamente envenenados quando realizam os atos de se alimentar e ingerir água, como é o caso dos dias atuais em que crescem as evidências que estão sendo submetidos a níveis inaceitavelmente altos de resíduos de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo por sua alta periculosidade.

Abaixo vai o vídeo com a íntegra da entrevista concedida a Ruben Rosenthal.

Privatização da Amazônia: roubo de terras públicas no Brasil pode ser legalizado

Ao longo dos anos, legislação brasileira vem sendo alterada para regularizar prática ilegal responsável por ⅓ da destruição da floresta

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Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Setembro de 2021. © Victor Moriyama / Amazônia em Chamas

São Paulo, 9 de março de 2022 – Enquanto o Brasil segue colecionando recordes de destruição do meio ambiente, a grilagem se destaca como um dos carros-chefes de uma disputa de terras que gera violência, aumenta a devastação florestal em escalas sem precedentes e, consequentemente, contribui para a intensificação dos eventos climáticos extremos que têm assolado diversas regiões do Brasil e do mundo. Ao mesmo tempo, tramita no Congresso o PL da Grilagem (PL 2.633/2020 e PL 510/21) que, se aprovado, irá legalizar um crime que já é responsável por um terço do desmatamento da Amazônia.

Ao longo dos séculos, a prática da grilagem se caracterizou especialmente pela fabricação de documentos falsos a fim de dar ares de legalidade ao roubo de terras públicas. Hoje, porém, vem se modernizando e mudando de tática com o apoio do governo: se antes os falsários eram os protagonistas, hoje o lobby ruralista se destaca ao atuar na construção de maioria legislativa nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional. Com isso, buscam viabilizar a adaptação de leis aos interesses do mercado de terras no Brasil.

“Nos últimos 20 anos, há um claro processo de adaptação da legislação fundiária aos interesses do mercado de terras alimentado pela grilagem das terras públicas; e é esse processo que se tornou o combustível principal para o avanço de tratores e motosserras sobre extensas áreas de floresta nos mais 50 milhões de hectares de terras públicas não destinadas na Amazônia; colaborando para consolidar a economia da destruição que já consumiu 17% do bioma”, declara Danicley de Aguiar, porta-voz do Greenpeace Brasil.

As consequências do aumento da grilagem são devastadoras. Responsável por ⅓ do desmatamento da Amazônia, segundo dados do IPAM, a prática ilegal tem relação direta com a emergência climática que o Brasil e o mundo já experenciam de maneira intensa. Os eventos extremos, como chuvas torrenciais, ondas de calor e secas, aumentam proporcionalmente à medida que aumentam o desmatamento e a destruição do meio ambiente. Além de prejudicar e colocar em risco os povos indígenas e as comunidades tradicionais, as consequências da grilagem já podem ser sentidas nas cidades.

A grilagem na prática

Para demonstrar o risco que a aprovação deste projeto representa, o Greenpeace Brasil analisou uma vasta área na região de Lábrea, no sul do Amazonas, que traz um raio-x de como o lobby da grilagem no Congresso Nacional produz reflexos diretos no chão da floresta, promovendo mais desmatamento e reduzindo a cinzas as florestas que recobrem as terras públicas da Amazônia.

Glebas são áreas não loteadas e geralmente gigantescas, como a Gleba João Bento, que tem 295 mil hectares – o que equivale a cerca de duas vezes o tamanho do município de São Paulo. Alvo de grilagem desde a década de 70, em 2011 a área foi arrecadada e matriculada pela União, mas isso não impediu que um novo processo de grilagem explodisse por lá como resultado direto das discussões de alterações na legislação fundiária debatidas em Brasília, no centro do poder.

Desde 2009, a lei que trata do assunto vem sendo adequada de acordo com os interesses do mercado de terras. Ao traçar uma linha histórica do desmatamento no interior da gleba, é possível perceber sua relação direta com as discussões sobre as propostas de mudanças na lei de regularização fundiária promovidas no Congresso Nacional. Conforme gráfico abaixo, um novo pico significativo acontece entre 2015 e 2017 – período no qual o lobby da grilagem pressionava por uma revisão da lei no Congresso.
 
 

Fonte: Prodes/INPE analisado pelo Greenpeace Brasil

Dos 295 mil hectares de floresta que recobria a área total de floresta local, 93 mil foram derrubados e queimados, dando lugar a imensas áreas de pasto para a criação de bois. Cerca de 57% dessa destruição se deu entre 2019 e 2021, durante o governo Bolsonaro

Imagens de satélite comprovam o avanço do desmatamento na Gleba João Bento. Fonte: © Sentinel Hub tratada GEOLab Greenpeace Brasil
 

O que está em jogo no Congresso

Atualmente, o lobby da grilagem segue com força na tentativa de aprovação do PL da Grilagem, com o claro interesse de anistiar os grileiros de terras públicas e, sobretudo, garantir a transferência destas para o patrimônio privado. Na prática, o projeto de lei irá permitir a regularização de áreas griladas entre 2008 e 2017 sem que estas sejam submetidas a processo licitatório, além de cobrar um valor abaixo do valor real de mercado. A proposta também pretende garantir que grandes áreas griladas após 2017 possam ser privatizadas, desde que com processo de licitação pública.

A pressão pela sua aprovação em 2022 é imensa e a votação está prevista para ocorrer ainda no começo do ano sem o amplo debate com a sociedade e em um momento em que o foco do Legislativo deveria ser combater a crise generalizada do país.
 

Mapa da Água: descubra o que tem na água de Campos dos Goytacazes, mas fique avisado que algumas revelações são assustadoras

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Detecções  acima do limite de segurança na água de Campos dos Goytacazes entre 2018 e 2020:

Substância(s) com o(s) maior(es) risco(s) de gerar doenças crônicas, como câncer:

O arsênio e seus compostos são classificados como cancerígenos para humanos pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde. A exposição prolongada ao arsênio por ingestão de água está relacionada com aumento do risco para câncer de pele, pulmão, bexiga e rins, bem como outros problemas na pele e tecidos. O ácido arsênico e o trióxido de arsênio, dois compostos inorgânicos desse elemento, são usados como descolorante, clareador e dispersante de bolhas de ar na produção de garrafas de vidro e outras vidrarias.

Substância(s) que também gera(m) riscos à saúde:

Os trihalometanos são um grupo de compostos químicos e orgânicos que derivam do metano. Ele inclui substâncias como o clorofórmio, classificado como possivelmente cancerígeno pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC). A exposição oral prolongada a esta substância pode produzir efeitos no fígado, rins e sangue. Os trihalometanos são utilizados como solvente em vários produtos (vernizes, ceras, gorduras, óleos, graxas), agente de limpeza a seco, anestésico, em extintores de incêndio, intermediário na fabricação de corantes, agrotóxicos e como fumigante para grãos. Alguns países proíbem o uso de clorofórmio como anestésico, medicamentos e cosméticos.

O trióxido de antimônio é classificado como possivelmente cancerígeno para o ser humano pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial da Saúde. Os sais solúveis de antimônio, após serem ingeridos, exercem forte efeito irritante na mucosa gástrica e provocam vômito, além de cólica, diarreia e toxicidade cardíaca. Os compostos de antimônio são usados na indústria têxtil, e fabricação de plástico, adesivo, tinta, papel e borracha. Também são usados em explosivos e pigmentos. O antimônio forma ligas com outros metais, que são utilizadas em chapas de solda, tubulações, rolamentos, armas. O sulfeto de antimônio é usado em fósforos. Outros compostos são usados para induzir o vômito em casos de intoxicação, para tratamento de leishmaniose e em produtos veterinários

A exposição prolongada ao bário gera efeitos adversos nos rins, segundo o ministério da saúde do Canadá. O bário e seus compostos são utilizados na fabricação de diversos produtos industriais, como plásticos, vidros, cerâmicas, eletrônicos, têxteis, lubrificantes, ligas metálicas, sabão e borracha. O sulfato de bário é usado como contraste em radiografias.

Todas as substâncias químicas e radioativas listadas nesta página oferecem risco à saúde se estiverem acima da concentração máxima permitida pelo Ministério da Saúde. Elas foram detectadas ao menos uma vez na água que abastece este município entre 2018 e 2020.

Quando essas substâncias estão acima do limite, a água é considerada imprópria para o consumo. Nesses casos, as instituições de abastecimento deveriam informar a população sobre o problema, assim como sobre as medidas tomadas para resolvê-lo. Leia mais nas reportagens do especial Mapa da Água.

Para facilitar o entendimento sobre os riscos dos casos de contaminação, a Repórter Brasil criou uma divisão entre as substâncias, separando-as em dois grupos de periculosidade:

As substâncias com os maiores riscos de gerar doenças crônicas, como câncer” são as que têm maior evidência de risco à saúde. Elas são listadas como “reconhecidamente” ou “provavelmente” cancerígenas, disruptoras endócrinas (que desencadeiam problemas hormonais) ou causadoras de mutação genética. Essas classificações de risco são da Organização Mundial da Saúde ou das agências regulatórias da União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Austrália (links na descrição de cada substância).

Já o segundo grupo substâncias que geram riscos à saúde” reúne todas as outras que também oferecem risco, segundo a literatura internacional e o Ministério da Saúde. Entre elas estão as “possivelmente” cancerígenas”, além das que podem causar doenças renais, cardíacas, respiratórias e alteração no sistema nervoso central e periférico.

Os critérios para fixar os limites de segurança para cada substância na água são do Ministério da Saúde, assim como a lista de substâncias que devem ser testadas na água de 2 a 4 vezes por ano.

Navegue pelo Mapa da Água.

Os riscos são maiores para quem bebe a água imprópria de forma contínua, ou seja, diversas vezes ao longo de meses ou anos. Casos em que a mesma substância aparece acima do limite nos três anos analisados (2018, 2019 e 2020) foram destacados com o alerta máximo no topo da página.

Os testes são feitos pelas empresas ou órgãos de abastecimento e enviados ao Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), banco de dados do Ministério da Saúde que reúne informações de todo o país.

Confira, abaixo, as substâncias detectadas dentro do limite de segurança nesta cidade:

Detecções DENTRO DO LIMITE DE SEGURANÇA na água de Campos dos Goytacazes (RJ) entre 2018 e 2020:

Substância(s) com o(s) maior(es) risco(s) de gerar doenças crônicas, como câncer:

 

Substância(s) que também gera(m) riscos à saúde:


CONHECER SEUS RISCOS


FONTE:
Resultados dos testes: Sisagua/Ministério da Saúde (2018-2020). Dados baixados em novembro de 2021, não contempla atualizações e retificações feitas desde então. Base do Sisagua atualizada.

Divisão das substâncias em grupos: Organização Mundial da Saúde (International Agency for Research on Cancer), União Europeia, agência ambiental dos Estados Unidos (Environmental Protection Agency) e agências de regulação do Canadá e da Austrália.

Este texto foi inicialmente publicado pelo “Mapa da Água” [Aqui!].

Governo Bolsonaro libera mais de um agrotóxico por dia

Em 1.158 dias de governo, foram liberados 1.629 agrotóxicos, a maioria altamente perigosa. Entre os autorizados mais recentemente estão produtos com nomes sugestivos como Sniper, Patrol e Forasteiro

trator-agrotóxicoAs liberações desenfreadas preocupam o Ministério Público do Trabalho. O sistema de saúde muitas vezes não relaciona as enfermidades com a exposição a esses produtos

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O governo do presidente Jair Bolsonaro vai entrar para a história do país como o que liberou mais de um agrotóxico por dia. Uma média de 1,4 por dia, muitos deles altamente perigosos à saúde e ao meio ambiente e por isso proibidos em muitos países. No último dia 25 de fevereiro, quando foram completados 1.158 dias da atual gestão, a Coordenação de Agrotóxicos e Afins do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicou o Ato 11, autorizando mais 26 destes produtos usados pelo agronegócio. Com esta mais recente leva, com produtos com nomes sugestivos como Sniper, Patrol e Forasteiro, que lembram armas e mortes em filmes sempre violentos, o governo Bolsonaro chegou à triste marca de 1.629 agrotóxicos liberados até o momento.

Para o procurador do Ministério Público do Trabalho Leomar Daroncho, o “liberou geral” destas substâncias é um grande problema. Afinal, muitas delas têm formulações banidas em países da União Europeia. E justamente em defesa da saúde e da vida. “Não há nada que justifique esse ritmo alucinante de liberação de novos produtos. Esses produtos químicos tóxicos, quando são banidos nos países do primeiro mundo, onde há preocupação com a saúde e com o meio ambiente, não são banidos por acaso”, disse à RBA.

“São produtos nocivos à saúde, ao meio ambiente e alguns deles têm inclusive impacto que só vai se mostrar ao longo dos anos, afetando gestações, crianças. Há fartura de dados na academia, entre os pesquisadores, sobre esse impacto. Há uma preocupação muito grande com esse ritmo frenético de liberação de agrotóxicos com alto potencial de comprometimento da vida e da saúde humana, além do meio ambiente em geral”, completou.

Sede de agrotóxicos no governo Bolsonaro

O tema está no centro das atenções do Ministério Público do Trabalho (MPT), segundo Daroncho. Isso porque esses produtos são manuseados ou despejados sobre populações sem condições de avaliar a gravidade da exposição.

“Boa parte desses trabalhadores que têm contato com esses produtos tem um nível de instrução muito rudimentar; é alto ainda o analfabetismo funcional nos rincões agrícolas, nas fronteiras agrícolas. Nem sequer há condição de atendimento adequado para os contaminados”, lembrou.

O procurador chama a atenção para o fato de que algumas doenças crônicas são causadas pela exposição aos venenos agrícolas. E o sistema de saúde do interior não tem muitas vezes condições nem de fazer o nexo de que essas enfermidades estão relacionadas com a exposição.

Outra preocupação é com a aprovação na Câmara, em fevereiro, do Pacote do Veneno, agora sob análise do Senado. “Se aprovado, abre a perspectiva de liberação de mais veneno do que a gente já tem, inclusive com mecanismos que admitem a liberação por decurso de prazo caso o agente de análise do governo não conclua a avaliação em um determinado prazo. Preocupa também que tenham sido retirados dos papeis de protagonistas as entidades do governo que cuidam da saúde (Anvisa) e do meio ambiente (Ibama), concentrando o poder apenas nas mãos do Ministério da Agricultura.”

“Um cenário bastante preocupante. Nos faz pensar sobre a necessidade de estabelecer um corredor humanitário para essas populações sujeitas à exposição de grande volume de veneno banido nos países que são rigorosos nesse controle”, disse, comparando com a alternativa pleiteada para saída segura de civis da Ucrânia. “Aos poucos vamos no tornando uma espécie de lixeira do mundo. Aquilo que ninguém mais aceita, continua e segue sendo liberado aqui.”

Ouça o procurador:

Observatório dos agrotóxicos

Em seu observatório dos agrotóxicos, o professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Marcos Pedlowski avalia o Ato Nº 11, das mais recentes liberações. Para ele, é a repetição de características persistentes; a presença de substâncias proibidas na União Europeia em torno de 30% do total liberado, a presença de empresas como Basf, Syngenta e Adama, e ainda a hegemonia de produtos fabricados no exterior.

“E, por último, a inclusão das culturas de exportação como principais usuárias de venenos agrícolas que, por sua periculosidade para o meio ambiente e a saúde humana, estão banidos nos países em que são fabricados, o que revela um duplo padrão de comportamento por essas corporações que pregam sustentabilidade em casa, e enviam produtos banidos para o chamado Sul Global onde serão usados de forma abundante e sem maiores controles.”

Pedlowski disponibiliza planilhas com informações sobre todos os produtos já liberados no governo Bolsonaro, que podem ser acessados por pesquisadores, ativistas sociais e todos os interessados no tema que ele chama de “verdadeira tsunami de aprovações de venenos agrícolas que tem caracterizado as ações do governo Bolsonaro em prol do latifúndio agro-exportador e das grandes corporações químicas que os fabricam”.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

A mulher (ainda) é o negro do mundo

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POR LUCIANE SOARES DA SILVA*

Uma letra da década de 70, composta por John Lennon para Yoko Ono, conduz nossa reflexão neste Oito de Março. Seu conteúdo é interseccional pois aqui a poética põe em íntimo contato formas distintas de dominação. Tão contemporâneas …

Em 2022, já não bastasse a guerra e seus horrores, o medo e a barbárie na condição imposta aos refugiados, temos um novo capítulo do ódio/desprezo às mulheres. Pedirei aqui um pouco de paciência porque me proponho a conectar fatos que estão na ordem do dia. Vamos destacá-los: o deputado que foi à Ucrânia  com um verniz de ajuda humanitária, revelou ao mundo parte de um inconsciente digno do filme Saló de Pasolini[1]. Vamos acordar que não precisamos mais citá-lo, até porque ele é um genérico do Movimento Brasil Livre, cuja troca por outros, resultaria no mesmo conteúdo. Misoginia, racismo, nazismo e violência são a plataforma que elegeu boa parte destes canalhas.

Saló assombrou a Itália e o mundo desde seu lançamento. A lembrança deste filme tem sido uma constante para mim desde 2018. Personagens que se divertem com piadas simplórias, defensores da família indiciados por envolvimento em assédios e violência sexual, racismo, linchamento e defesa da tortura na Câmara de Deputados. Não seria um exagero pensar no roteiro de uma Itália fascista e sua relação com estes anos de governo Bolsonaro.

O deputado em seu “tour” fez o mesmo uso de um linguajar comum entre os políticos eleitos em 2018. Tudo remete a um ato escatológico. No qual alguém submete ou é submetido. No qual o diálogo é objeto de desconfiança. É preciso ofender, atacar, destruir física e moralmente não apenas os inimigos. Não, claro que não. É preciso incorporar todos aqueles que podem ser sequestrados ideologicamente por descuido, vaidade ou pura ingenuidade nesta nova ordem.

Em março de 2018, uma vereadora foi assassinada, a tiros, no centro da segunda maior cidade do país enquanto voltava de uma atividade política. A noite e o ano começavam com uma intervenção, apenas mais uma fracassada e custosa intervenção. A morte de Marielle Franco, após uma semana de seu discurso na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, marcaria definitivamente o presidente que tornou Carlos Brilhante Ustra, seu patrono. Não é possível que se evoque os espíritos sem que eles apareçam. Já sabemos disto em 2022.

O ódio endereçado às mulheres, a misoginia explícita nos espaços públicos, particularmente nas  Câmaras, Assembleias Legislativas e Universidades, não cessaria um dia sequer. Estamos falando dos feminicídios cotidianos, da interrupção de políticas públicas fundamentais para o combate a violência contra a mulher, do avanço desta violência sobre o corpo de mulheres indígenas.

A casa dos homens, o governo Bolsonaro, se assemelha ao filme de Pasolini em sua predileção pela covardia concretizada no ódio aos pobres. Quando o deputado se refere a situação de pobreza das ucranianas, ele o faz em comparação a riqueza de São Paulo. Este misto de alienação, demência e abuso de poder foi o motor de muitas grande parte das ações destes parlamentares. Em algumas delas, deputados eleitos no Rio de Janeiro, não demonstravam qualquer problema em exibir uma placa quebrada com o nome da vereadora Marielle como se fosse uma cabeça de alce, um prêmio de guerra.

Esta masculinidade mal posta favorece o uso de tacos para morte de africanos. Favorece o uso de armas para disparos em vizinhos. Ou ainda, homicídios contra negros em dia claro em situações inaceitáveis.

As mulheres refugiadas são os negros do mundo pela extrema vulnerabilidade a que são expostas. A condição de vendeta em que são violadas. Ou o uso de seu corpo em redes de prostituição em confins inacessíveis dos Estados Nação.

Aí reside o problema que a questão dos refugiados, e particularmente, das mulheres e crianças coloca para o projeto de modernidade. Se falamos de milhões de imigrantes, se sua vida em campos que deveriam se temporários, se torna “a vida que levam”, de que paz estamos falando? O que garantimos com tratados, missões humanitárias e discussões jurídicas? Sempre me preocupa que a relação sobre o território se reduza cada vez mais ao controle de recursos. Imagino a mão invisível e cruel de um sacerdote jogando milhões de pessoas como se fossem dados em pedaços de deserto no México. Ou como uma brincadeira engraçada em barcos de papel no Mediterrâneo. Uns afundam, outros não.

As mulheres ainda são os negros do mundo porque são “pobres” disse o deputado agora acusado também por assédio de menores em 2016 em uma escola do Paraná. Porque sua beleza é resumida a instrumento de troca, venda e violação. São os negros do mundo porque sendo vietnamitas, romenas, angolanas, ucranianas, não são assim … tão europeias. São do leste europeu. Aqui os jornalistas ficaram confusos, afinal, a população de Kiev não era “como Iraque ou Afeganistão”. E o racismo renasce enquanto potência explicativa deste biopoder em ação.

“a mulher é o negro do mundo, sim, ela é, pense a respeito, faça algo contra isso, nós fazemos ela pintar o rosto e dançar, se ela não quer ser nossa escrava, dizemos que não nos ama, se ela é sincera, dizemos que está tentando ser um homem […] fazemos ela parir e criar nossos filhos, e depois a deixamos feito uma velha e gorda mãe galinha , dizemos que ela devia estar em casa, depois reclamamos que ela é provinciana demais para ser nossa amiga […] nós a insultamos todo dia na tv, e questionamos as razões pelas quais ela não tem confiança, quando ela é jovem, matamos seu desejo de ser livre, enquanto dizemos para não ser tão esperta, e a rebaixamos por ser tão boba”.

A luta que se trava nas ruas a cada ano, após cada assassinato é a recusa total e absoluta em seguirmos sendo, como mulheres, trabalhadoras do campo e da cidade, trans, mães, cientistas, vereadoras, subjugadas e escravizadas.

[1] https://estadodaarte.estadao.com.br/salo-fascismo-pasolini-avt/

*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Savanização à vista: estudo sugere que Amazônia está próxima de ponto de inflexão de floresta tropical para savana

A floresta amazônica pode estar se aproximando de um ponto crítico que pode ver o ecossistema biologicamente rico e diversificado transformado em uma savana com gramíneas

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Por Katie Hunt para a CNN

O destino da floresta tropical é crucial para a saúde do planeta porque abriga uma variedade única de vida animal e vegetal, armazena uma enorme quantidade de carbono e influencia fortemente os padrões climáticos globais.

Os cientistas dizem que cerca de três quartos da floresta tropical está mostrando sinais de “perda de resiliência” – uma capacidade reduzida de se recuperar de distúrbios como secas, extração de madeira e incêndios. Seu estudo é baseado em observações mensais de dados de satélite dos últimos 20 anos que mapearam a biomassa (o material orgânico da área) e o verde da floresta para mostrar como ela mudou em resposta às condições climáticas flutuantes.

Essa resiliência decrescente desde o início dos anos 2000 é um sinal de alerta de declínio irreversível, disseram os autores. Embora não seja possível dizer exatamente quando a transição da floresta tropical para a savana pode acontecer, uma vez que fosse óbvio, seria tarde demais para parar.

“Vale a pena nos lembrar de que, se chegarmos a esse ponto de inflexão e nos comprometermos a perder a floresta amazônica, obteremos um feedback significativo sobre as mudanças climáticas globais”, Timothy M. Lenton, um dos autores de um Aqui! e  diretor do Global Systems Institute da Universidade de Exeter, no Reino Unido, em uma coletiva de imprensa.

“Perdemos cerca de 90 bilhões de toneladas de dióxido de carbono principalmente nas árvores, mas também no solo (da Amazônia)”, disse Lenton.

Se a Amazônia não for mais uma floresta tropical, não armazenará tanto carbono.

Vista aérea de um barco em alta velocidade no rio Jurura, no município de Carauari, no coração da Floresta Amazônica brasileira, em 15 de março de 2020.

Vista aérea de um barco em alta velocidade no rio Jurura, no município de Carauari, no coração da Floresta Amazônica brasileira, em 15 de março de 2020

Estudos anteriores baseados em simulações de computador chegaram a conclusões semelhantes sobre um ponto ecológico sem retorno para a floresta amazônica – mas os autores disseram que sua pesquisa, publicada na Nature Climate Change na segunda-feira, usou observações do mundo real.

Quando chegarmos ao ponto de inflexão, os autores disseram que a floresta tropical pode desaparecer rapidamente. “Meu palpite, pelo que vale, (é que) isso pode acontecer no espaço de décadas”, disse Lenton.

O estudo descobriu que a perda de resiliência foi mais acentuada em áreas mais próximas da atividade humana, bem como naquelas que receberam menos chuva. O estudo também observou que a perda de resiliência não equivale a uma perda na área de cobertura florestal – o que significa que a floresta tropical pode estar perto do ponto sem retorno sem mudanças claramente determináveis.

Chantelle Burton, cientista climática sênior do Met Office Hadley Centre no Reino Unido, disse que havia um ponto de interrogação sobre como a floresta amazônica enfrentaria os desafios das mudanças climáticas, mudanças no uso da terra e incêndios. Ela disse que este novo estudo era “realmente importante”.

O que este estudo faz é oferecer algumas evidências baseadas em observações para o que já está acontecendo com esse significativo sumidouro de carbono e mostra que o uso humano da terra e as mudanças nos padrões climáticos e climáticos já estão causando uma mudança importante no sistema”, disse Burton. que não estava envolvido na pesquisa, disse ao Science Media Center em Londres.

“Passar por um ponto de inflexão desse tipo tornaria ainda mais difícil atingir nossa meta de emissões líquidas zero globalmente por causa da perda do ‘serviço gratuito’ fornecido pelo sumidouro de carbono da Amazônia, que atualmente remove algumas de nossas emissões”.

Richard Allan, professor de ciências climáticas da Universidade de Reading, disse que o estudo é uma “avaliação abrangente e rigorosa da durabilidade da Amazônia”.

“Chega à conclusão tentadora de que grande parte da Amazônia está mostrando sinais de que pode estar se aproximando de um ponto de inflexão em direção ao declínio irreversível; mas como vários sensores de satélite são usados ​​para inferir a ‘exuberância’ da vegetação, precisamos ter certeza de que esses dados os registros estão mostrando tendências precisas”, disse Allan, citado pelo comunicado da SMC.

“De qualquer forma, é inegável que as atividades humanas estão travando uma guerra de atrito de vários lados contra o mundo natural, embora felizmente neste caso as soluções sejam conhecidas: cessar o desmatamento enquanto corta rápida e massivamente as emissões de gases de efeito estufa”.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela rede CNN [Aqui!].

Brasileiros pagam caro para receberem água contaminada em suas torneiras. Tratamento inadequado é a principal fonte de contaminação

Exclusivo: água da torneira tem produtos químicos e radioativos em 763 cidades brasileiras. Em SP e SC água esteve imprópria entre 2018 e 2020; 1 em cada 4 cidades que fizeram testes encontraram substâncias acima do limite.

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Por Ana Aranha, Hélen Freitas, Agência Pública/Repórter Brasil

Todos nós bebemos pequenas doses diárias de substâncias químicas e radioativas. São agrotóxicos e outros resíduos da indústria que se misturam aos rios e represas. Alguns especialistas defendem que não há risco se elas estiverem dentro do limite regulamentado. Outros argumentam que as doses aceitas no Brasil são permissivas, pois são bem mais altas que as da União Europeia.

Sobre um ponto não há dúvida: essas substâncias são prejudiciais à saúde quando estão acima do limite brasileiro. O consumo diário aumenta o risco de câncer, mutações genéticas, problemas hormonais, nos rins, fígado e no sistema nervoso – a depender do produto.

Dados inéditos levantados pela Repórter Brasil mostram que são esses os riscos oferecidos pela água que saiu da torneira de 763 cidades entre 2018 e 2020. Substâncias químicas e radioativas foram encontradas acima do limite em 1 de cada 4 municípios que fizeram os testes. Entre eles está São Paulo (13 testes acima do limite), Florianópolis (26) e Guarulhos (11).

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  As informações podem ser consultadas por cidade no Mapa da Água, que destaca quais substâncias extrapolaram o limite e explica seus riscos. Os dados são resultados de testes  feitos por empresas ou órgãos de abastecimento e enviados ao Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), do Ministério da Saúde. Os testes são feitos após o tratamento e a maioria dessas substâncias não pode ser removida por filtros ou fervendo a água.

“Se há substância acima do valor máximo permitido, podemos dizer que a água está contaminada”, afirma Fábio Kummrow, professor de toxicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Uma outra forma de dizer é que essa água não está própria para consumo, como quando um alimento passa da data de validade”. Contaminada ou imprópria, Kummrow confirma que existe risco para quem bebe a água, e ele varia de acordo com a substância e com o número de vezes que ela foi consumida ao longo do tempo.

O risco é maior para quem bebeu diversas vezes ao longo de anos. É o caso de quem mora em São Paulo, Florianópolis, Guarulhos e outras 79 cidades onde a mesma substância foi encontrada acima do limite nos três anos analisados (2018, 2019 e 2020). 

Com impacto silencioso, esses produtos têm dinâmica diferente das contaminações por bactérias, que provocam dor de barriga, diarreia e até surtos de cólera. Os sintomas das substâncias químicas e radioativas podem levar anos, mas, quando aparecem, são na forma de doenças graves. Estudos que associam esses produtos ao câncer, mutações genéticas e diversos outros problemas de saúde são carimbados pelos mais respeitados órgãos de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e as agências regulatórias da União Europeia, Estados Unidos, Canadá e Austrália. 

O Mapa destaca o risco para a saúde e as atividades econômicas em que cada substância é utilizada. O nitrato, por exemplo, terceira que mais vezes excedeu o limite, é usado na fabricação de fertilizantes, conservantes de alimentos, explosivos e medicamentos. Ele é classificado como “provavelmente cancerígeno” pela OMS.

água 2Substâncias químicas e radioativas são imperceptíveis e não podem ser removidas por filtros comuns ou fervendo a água

Empresas escondem os dados

Os testes são financiados com dinheiro público e de quem paga a conta d’água, mas os resultados estão trancados a sete chaves. As companhias de abastecimento deveriam informar à população sempre que uma substância aparece acima do limite, como determina a portaria sobre a potabilidade da água. Mas isso não acontece.

A Sabesp, responsável pela distribuição de água em mais de 370 municípios paulistas, incluindo a capital, divulga apenas o que chama de “parâmetros básicos”, como cor, turbidez e coliformes fecais. Nem mesmo pesquisando no site é possível acessar as substâncias químicas acima do limite.

O mesmo problema foi encontrado com Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan) e Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece).

Nos Estados Unidos e União Europeia, qualquer um pode consultar testes de todas as substâncias presentes na água. E, em muitos desses países, as empresas monitoram um número maior de substâncias e alertam os consumidores em caso de problemas.

“Se contaminantes microbiológicos são encontrados, por exemplo, uma determinação para ferver a água é enviada aos consumidores por e-mail, SMS, rádio etc”, afirma Dorte Skræm, da Danva, organização que representa serviços de água na Dinamarca. Segundo ele, a transparência é total. “Houve um caso [de contaminação] há alguns anos que envolveu 500 mil habitantes, a mídia cobriu e foi usada para informar os consumidores”. 

Avisos assim deveriam ter ocorrido nos 763 municípios que identificaram testes acima do limite. 

“O quadro revelado por esses dados é grave”, afirma Leo Heller, pesquisador da Fiocruz e Relator Especial do Direito Humano à Água da ONU entre 2014 e 2020. “Eles mostram omissões e falhas dos órgãos e serviços que fazem parte de uma importante cadeia de responsabilidades”.

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Estação da Sabesp, empresa nega que resultados acima do limite sejam um problema para a água da capital paulista, mas não divulga esses dados aos consumidores

Contaminação contínua em São Paulo

Quase todos os estados que testaram a água acharam problemas. São Paulo foi o que mais encontrou, com 1.298 resultados acima do limite, mas também foi o que mais testou. Foram 831 mil testes, 45% de todos os realizados no país. 

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A capital paulista traz um retrato preocupante: três substâncias acima do limite, uma delas nos 3 anos analisados. A contaminação contínua, cenário de maior risco, ocorreu em 82 cidades do Brasil.

As substâncias acima do limite estavam em três sistemas importantes que abastecem a cidade. No Guarapiranga, por exemplo, que chega a 4,8 milhões de paulistanos, os trihalometanos excederam o limite diversas vezes ao longo dos três anos.

Os trihalometanos foram o grupo com mais testes fora do padrão em todo o Brasil. Classificado como possivelmente cancerígeno pela OMS, podem causar problemas nos rins e fígado. Esses elementos são usados em agrotóxicos, solventes, anestésicos e extintores de incêndio. Sua principal origem na água, porém, vem do processo de tratamento.

Tratamento que contamina

Ironicamente, as maiores responsáveis pelos problemas com a água no Brasil são substâncias geradas pelo próprio tratamento. Quando o cloro interage com elementos como algas, esgoto ou agrotóxicos, nascem os chamados “subprodutos da desinfecção”.

Eles estão acima do limite em 493 cidades, 21% das que testaram. “Evidente que é importante tratar a água para remover microrganismos, mas não é aceitável eliminar riscos biológicos e gerar riscos químicos”, afirma Heller, da Fiocruz. Além dos órgãos públicos que deveriam fazer o monitoramento, cabe também à indústria e ao agronegócio controlar o despejo de substâncias tóxicas no ambiente. “Mas quem está no centro [empresas e órgãos de abastecimento] é quem deveria garantir a qualidade”.

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Alguém fiscaliza?

A falta de transparência é tamanha que nem sempre os fiscais têm acesso aos dados. Em quase metade dos municípios (48%) as companhias de abastecimento não informaram resultados ao Sisagua. Isso é grave, já que é pelo Sisagua que as secretarias municipais ou estaduais de saúde monitoram a água.

Há problemas até nas cidades que mais testam, como São Paulo. A Sabesp alega que os resultados acima do limite são casos pontuais e que eles não indicam problemas no padrão da água. A empresa informa que faz sua avaliação por uma média móvel, mas não divulga esses dados. Questionada, a Sabesp se negou a enviar os resultados ou os critérios de cálculo da média. Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde admite que também não teve acesso a esses dados (leia respostas na íntegra).

A Prefeitura de Guarulhos negou que existam substâncias acima do permitido, mesmo diante dos dados do Sisagua (leia resposta). Já Florianópolis afirmou estar trabalhando para resolver o problema (leia resposta).

Em alguns casos, fica evidente que a fiscalização não existe. Em Unaí (MG) o mais grave alerta deveria ter soado. Além de ser a cidade que mais teve testes acima do limite (72), havia uma substância radioativa fora do padrão nos três anos: o rádio-228, classificado como cancerígeno e usado em radiografias e outros instrumentos de radiação.

Procurada, a prefeitura admitiu que não havia notado o problema e, depois, afirmou tratar-se de erro de digitação.

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Represa Guarapiranga teve substâncias tóxicas acima do limite geradas pelo processo de tratamento da água nos três anos analisados. Sabesp

Radioatividade e agrotóxicos

As substâncias radioativas aparecem acima do limite em 22 municípios brasileiros, a maioria em Minas Gerais. Elas podem estar na água devido a resíduos da indústria, mas também de forma natural, devido à presença do urânio e outros minérios. Deveria haver uma preocupação dobrada nesses casos, pois elas intoxicam por ingestão e inalação, afirma Viviane Amaral, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. No entanto, elas são as menos testadas, apenas 2% do total de testes feitos entre 2018 e 2020.

Nos casos em que é preciso tirá-las da água, Amaral argumenta que a solução mais viável é mudar a fonte de abastecimento, devido ao alto custo do tratamento. É o mesmo caso de diversos agrotóxicos, já que não há tratamento acessível para todos. 

Há 50 cidades com pesticidas acima do limite. Esses casos também deveriam acender o alerta máximo devido a sua periculosidade: 19 dos pesticidas monitorados na água do Brasil são tão perigosos à saúde que foram proibidos na União Européia. Cinco são “substâncias eternas”, tão resistentes que nunca se degradam. 

Apesar do problema, especialistas pedem cuidado para evitar pânico. “Pegar água no poço do vizinho ou comprar água que você não sabe a procedência pode ser pior”, afirma Paulo Barrocas, pesquisador da Fiocruz. A água de garrafa traz ainda o problema do plástico, que também pode liberar substâncias perigosas.

O ideal é evitar a contaminação dos cursos d’água. “No caso dos agrotóxicos, por exemplo, precisamos de rigor na liberação de novos produtos, assim como discutir a proibição da pulverização aérea [por avião]”, afirma Fábio Kummrow, da Unifesp Agrotóxicos já foram encontrados em poços profundos, lençóis freáticos e até mesmo na água da chuva.

Neste ponto, especialistas falam em coro: não há como se blindar do problema da água no Brasil, ele já afeta ou vai afetar a todos, a única solução passa por políticas públicas.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

Estudo mostra que regeneração natural das florestas tropicais pode ser mais eficiente que reflorestamento – se você permitir

neofrestFloresta tropical emergente nas encostas do vulcão Turrialba na Costa Rica. Em primeiro plano estão os restos de antigas pastagens de gado. Foto: Rens Brouwer

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

As florestas tropicais crescem sozinhas – se você deixar. E então isso acontece mais rápido do que os cientistas pensavam anteriormente. Milhões de hectares de terras agrícolas abandonadas na América Latina e na África poderiam se tornar florestas secundárias e primárias que armazenam carbono sem reflorestamento caro. Isso é demonstrado por um estudo publicado recentemente na revista Science“As florestas tropicais estão desaparecendo do desmatamento em um ritmo alarmante. Mas eles também têm o potencial de voltar a crescer naturalmente em terras em pousio”, escrevem os pesquisadores. O abandono da terra devido à perda de fertilidade do solo ou migração levou a um rápido aumento no crescimento da floresta nos trópicos. Atualmente, as florestas tropicais em regeneração cobrem uma área de 2,4 milhões de quilômetros quadrados apenas na América Latina e no Caribe.

Cientistas da Universidade de Wageningen e do Centro Alemão de Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv) Halle-Jena-Leipzig examinaram o desenvolvimento florestal em 77 regiões e 2.200 áreas de floresta secundária na América Central, Amazônia, região da Mata Atlântica do leste do Brasil e África Ocidental.

Se a regeneração natural da floresta for permitida, os pesquisadores descobriram que essas chamadas florestas secundárias recuperaram em média quase 80% das características características das florestas primárias após apenas 20 anos. Isso se aplica, por exemplo, à fertilidade do solo e sequestro de carbono, diversidade de árvores e estrutura florestal. No entanto, levará mais 100 anos até que uma diversidade semelhante de espécies seja restaurada e tanta biomassa seja armazenada quanto nas florestas tropicais originais.

O estudo conclui que a regeneração natural é uma solução econômica e baseada na natureza para mitigar as mudanças climáticas, preservar a biodiversidade e restaurar os ecossistemas. »Dada a importância local e global das florestas secundárias e sua rápida recuperação após 20 anos, defendemos a regeneração natural (assistida) como uma solução econômica e baseada na natureza para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS), o Década da ONU para a Restauração de Ecossistemas (2020-2030), o Acordo sobre Mudanças Climáticas da ONU e a Convenção sobre Diversidade Biológica”, enfatiza Nadja Rüger, cientista do iDiv e uma das coautoras do estudo.

Essa é a boa notícia. O ruim diz respeito ao Cerrado do Brasil . Da década de 1970 até os dias atuais, mais da metade desse ecossistema central brasileiro, cobrindo uma área original de cerca de dois milhões de quilômetros quadrados, foi desmatado, principalmente para cultivo de soja e milho e criação de gado em pastagens artificiais. Segundo dados do Grupo de Trabalho para Recuperação de Áreas Degradadas do Cerrado (GTPastagens), existem hoje 23,7 milhões de hectares de pastagens degradadas para gado onde o Cerrado poderia se regenerar.

No entanto, pesquisas de várias universidades e institutos paulistas mostram que a regeneração natural do Cerrado é praticamente impossível. Em uma edição de 2017 no Journal of Applied Ecology. No estudo publicado, os pesquisadores examinaram 29 áreas anteriormente utilizadas para pastagem de gado que estavam ociosas por três a 25 anos. Eles descobriram que muitas das espécies vegetais e animais típicas do Cerrado não retornaram, independentemente de quanto tempo as áreas foram pastoreadas pela última vez. “Nosso estudo mostra que a regeneração natural do cerrado é basicamente impossível”, disse a coautora do estudo Giselda Durigan, do Instituto de Pesquisas Florestais de São Paulo. Mesmo 25 anos após o fim do pastoreio de gado, 37% das espécies originais estavam faltando nas savanas recém-criadas – sobretudo as espécies nativas de gramíneas, arbustos e arbustos, que fornecem alimento e habitat para um grande número de mamíferos e aves.

Os pesquisadores identificaram as espécies de gramíneas africanas usadas na pecuária como uma das principais razões pelas quais o cerrado não volta a crescer naturalmente. Por isso é necessária a intervenção humana no Cerrado para restaurar o ecossistema original.

Primeiro, as gramíneas exóticas teriam que ser retiradas das áreas abandonadas, explica o pesquisador. A segunda etapa é a reintrodução de espécies nativas de gramíneas do cerrado. A terceira e mais difícil medida é a reintrodução do fogo como manejo florestal. O Cerrado é um ecossistema que se adaptou a queimadas regulares por milênios, com inúmeras espécies de plantas que não podem se regenerar ou se espalhar sem fogo. Se o Cerrado não queimar a cada três ou quatro anos, diz Durigan, haverá inevitável lignificação e perda de biodiversidade.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].