Entidades divulgam documento em defesa da Sabesp: obra da PPP da Linha 6 do Metrô provocou rompimento do interceptor de esgotos e o surgimento da cratera na Marginal Tietê

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Na manhã de 1º de fevereiro, uma cratera se formou na pista da Marginal Tietê, em São Paulo, com desabamento de parte do solo escavado pelas obras da Linha 6 do sistema de metrô. As imagens dos noticiários mostraram um grande fluxo de esgotos entrando pelos túneis, poços e canteiros. Esses esgotos, coletados de cerca de 2 milhões de pessoas, eram conduzidos até a estação de tratamento de Barueri por um interceptor operado pela Sabesp.

Houve efeitos desastrosos ao tráfego da mais importante via urbana de São Paulo, à implantação da Linha 6 e à qualidade das águas do Tietê. Temos a comemorar a inexistência de vítimas fatais, embora lamentemos que alguns trabalhadores tenham sido contaminados pelo contato com os esgotos.

Obviamente haverá investigação dessa ocorrência por especialistas de solo e de estruturas que avaliarão as suas causas de forma isenta e criteriosa. A engenharia nacional é bastante qualificada para tanto, desde que a isenção e a imparcialidade não sejam subjugadas aos interesses das partes envolvidas, tal como se deu nos crimes de Brumadinho e Mariana.

Entretanto, em face de pronunciamentos de autoridades, divulgados na mídia, que atribuem – ou induzem – à SABESP a responsabilidade dessa ocorrência, devemos esclarecer à opinião pública sobre os seus fatos e as suas circunstâncias.

O interceptor avariado, denominado ITi-7, é um túnel de concreto armado de 4,3 metros de altura por 3,3 metros de largura e 7,5 km de extensão. Foi construído por escavação mecanizada a 15 metros abaixo da pista local da Marginal Tietê. Possui capacidade para transportar, por gravidade, os esgotos coletados nas bacias dos rios Tamanduateí e Anhangabaú, isto é, faz o saneamento de praticamente toda a região central da cidade de São Paulo. Portanto, é uma instalação essencial para a despoluição do Rio Tietê. Entrou em operação há cerca de um ano, substituindo uma antiga tubulação de menor capacidade situada sob a Avenida Marques de São Vicente.

A obra da Linha 6, que ligará Vila Brasilândia até a Estação São Joaquim (Linha 1) executa seus túneis por escavação mecanizada, sob um regime de Parceria Público-Privada (PPP) integral, isto é, sob a responsabilidade do consórcio Acciona / -Linha Uni contratado pelo estado de São Paulo, Toda a execução da obra e a subsequente operação da Linha 6 está sob a responsabilidade desse Consórcio, sem o acompanhamento e a fiscalização da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô-SP)[1].

Ao longo de seus 15 km de extensão há escavações a grandes profundidades, tanto para instalação das estações quanto para desviar de instalações de infraestrutura urbana de grande porte. Nas linhas de metrô em operação, por inúmeras vezes, durante a construção dos túneis houve cruzamentos em desnível com tubulações de abastecimento de água e de transporte de esgotos de grande porte da Sabesp. A experiência da engenharia do Metrô-SP na definição de projetos e na fiscalização da obra, sempre dedicou especial atenção para as adutoras de água e os interceptores de esgotos da Sabesp, evitando qualquer risco de instabilidade para essas estruturas. Não há registro de ocorrências de vazamentos ou rompimentos significativos em mais de 50 anos de obras que envolvam Metrô-SP e Sabesp.

Experientes engenheiros, entrevistados pela mídia, mostram que as vibrações ou movimentações de solo causadas pela escavação de túnel com um shield (o “tatuzão”) provocam movimentações ou pressões que podem causar o rompimento de tubulações metálicas ou de concreto. A boa técnica, adotada em outras tantas situações, é a de escavar o túnel do metrô cerca de 20 metros abaixo de um interceptor ou de uma adutora de grande porte, com velocidade a mais reduzida possível para evitar movimentos do solo[2].

Por isso, a informação preliminar do secretário de Transportes Metropolitanos que o túnel da Linha 6 estaria cerca de três metros abaixo do interceptor ITi-7 causa bastante estranheza[3].

A partir das informações já divulgadas, o empreendimento é executado sem o acompanhamento e a fiscalização da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô-SP) e, aparentemente, sem as precauções de projeto e execução antes adotadas[4]. A situação coloca em xeque decisões que podem ser vinculadas a interesses bastante afastados das melhores técnicas de engenharia. Caberá à investigação – que deverá ser isenta –averiguar esse e as motivações para que lições aprendidas do passado tivessem sido desconsideradas.

Preocupa-nos sobremaneira a propagação em várias mídias, por representantes do estado e da Acciona, de que a causa do surgimento da cratera foi o rompimento do interceptor da Sabesp[5].

Não! A raiz da ocorrência não é o interceptor da Sabesp, mas sim a escavação do túnel da Linha 6 a pequena distância do interceptor em operação, agravada pela ausência de medidas preventivas para estabilização do solo no entorno, em absoluta divergência com as práticas adotadas há várias décadas em obras supervisionadas pelo Metrô-SP.

A SABESP possui larga experiência na execução e operação de tubulações desse porte. Sofrendo as consequências dos danos causados por terceiros, está direcionando esforços para minimizar as consequências ambientais..

A exposição pública da SABESP como causadora do surgimento da cratera é absolutamente equivocada, é uma fake news que desconsidera a sua excelência amplamente reconhecida, nacional e internacionalmente. É uma tentativa de colar uma pecha negativa à imagem da SABESP que serve apenas à sustentação do discurso de desqualificação de uma empresa pública, para escamotear a deficiência de um empreendimento cujo maior objetivo é a geração de lucro.

Não sabemos ainda se a ocorrência se deve à incompetência, à urgência, à ganância ou à omissão, ou à associação desses fatores.

Sabemos sim que a SABESP, a população paulista e o Rio Tietê são vítimas de uma ação cuja origem a obra executada pela PPP da Linha 6, capitaneada pela empresa Acciona[6].

 

AAPS – ASSOCIAÇÃO DOS APOSENTADOS E PENSIONISTAS DAS SABESP

APU – ASSOCIAÇÃO DOS PROFISSIONAIS UNIVERSITÁRIOS DA SABESP

SASP – SINDICATO DOS ADVOGADOS DO ESTADO DE SÃO PAULO

SINTAEMA – SINDICATO DOS TRABALHADORES EM ÁGUA, ESGOTO E MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO

SINTIUS URBANITÁRIOS  – SINDICATO DOS TRABALHADORES NAS INDÚSTRIAS URBANAS DE SANTOS, BAIXADA SANTISTA, LITORAL SUL E VALE DO RIBEIRA

 [1] Disponível em: https://www.seesp.org.br/site/index.php/comunicacao/noticias/item/20880-fiscalizacao-e-solucoes-de-engenharia-poderiam-evitar-acidente-em-obra-do-metro

[2] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/obra-do-metro-desmorona-em-sao-paulo-e-interdita-marginal-tiete/

[3] Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/obra-do-metro-desmorona-em-sao-paulo-e-interdita-marginal-tiete/

[4] Segundo Ivan Carlos Maglio, pesquisador do IEA/USP, “”O Metrô tem expertise para fiscalizar e atuar junto aos contratados. Neste modelo de PPP, ele deixa de acompanhar isso diretamente, o que é um problema.” Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/thiago-herdy/2022/02/02/falta-de-fiscalizacao-em-acidente-poe-em-xeque-modelo-de-ppp-do-metro-de-sp.htm  e em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2022/02/03/cratera-metro-marginal-tatuzao-esgoto.htm

[5] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=h378JsHycAw  e em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2022/02/03/cratera-marginal-tiete-responsabilidade.htm

[6] Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/part-sao-paulo-expressway-collapses-near-metro-construction-site-2022-02-01/

Governos são os principais responsáveis por liderar iniciativas contra as mudanças climáticas, segundo consumidores no Brasil, China, EUA e Reino Unido

Empresas também devem protagonizar responsabilidades climáticas, de acordo com a opinião de 45% dos entrevistados no Brasil e 44% na China e no Reino Unido

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A maioria atribui ao governo federal a responsabilidade de impedir as mudanças climáticas provocadas pela emissão de gases de efeito estufa (GEE). De acordo com uma pesquisa internacional feita em quatro países (Brasil, China, Reino Unido e Estados Unidos) pela consultoria Oliver Wyman, 62% dos brasileiros afirmam que cabe ao governo liderar políticas e ações para controlar e reduzir as emissões de gases até o fim desta década, e zerá-las até 2050.

Em comparação com os demais países participantes do estudo, assim como os brasileiros, grande parte dos entrevistados na China (73%) e no Reino Unido (70%) também diz que é responsabilidade do governo nacional comandar os compromissos climáticos. Nos EUA, pouco mais da metade (53%) dos indivíduos tem a mesma opinião.

Empresas

As empresas também devem assumir a responsabilidade climática, segundo 45% dos entrevistados no Brasil e 44% na China e no Reino Unido. Nos EUA a proporção é menor. Só 34% apontaram para as empresas essa obrigação.

Órgãos Internacionais

Os órgãos internacionais, como a OMS (Organização Mundial da Saúde), são outras instituições que têm papel importante de delegar iniciativas de redução de gases do efeito estufa e zerar as emissões. 57% dos entrevistados na China, 41% no Reino Unido e 39% no Brasil concordam com essa afirmação.

Responsabilidade individual

Ainda segundo o levantamento internacional, o Brasil é o país onde mais pessoas (42%) afirmam que cada indivíduo também é responsável por cuidar do planeta e impedir as mudanças climáticas provocadas pelo homem.

Na China, é menor o número de pessoas que acredita na responsabilidade individual. Apenas 21% se sentem responsáveis pelo clima.

Participaram da pesquisa da consultoria Oliver Wyman 3,5 mil pessoas de 18 a 65 anos residentes nos quatro países — no Brasil foram cerca de 1 mil entrevistados.

Mais informações sobre a pesquisa clique aqui para acessar a plataforma Oliver Wyman Fórum.

Sobre a Oliver Wyman

A Oliver Wyman é uma empresa líder mundial em consultoria de gestão. Com escritórios em mais de 60 cidades em 29 países, a Oliver Wyman combina o profundo conhecimento da indústria com expertise especializada em estratégia, operações, gestão de risco e transformação da organização. A empresa tem mais de 5.000 colaboradores em todo o mundo, que auxiliam seus clientes a otimizar seus negócios, melhorar suas operações e seu perfil de risco, assim como acelerar seu desempenho organizacional para aproveitar ao máximo as melhores oportunidades. A Oliver Wyman é uma subsidiária integral da Marsh & McLennan Companies (NYSE: MMC).

Por que será que no pior momento da pandemia para as crianças, proprietários e MP querem reabrir escolas campistas?

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Venho assistindo com um misto de curiosidade e preocupação o movimento encabeçado por donos de escolas privadas e pelo Ministério Público para forçar o início das aulas para crianças não vacinadas em Campos dos Goytacazes. É que esse movimento opta por desconhecer um fato já apontado por pesquisadores e médicos: vivemos o pior momento da pandemia da COVID-19 para as crianças até 12 anos que fazem parte do grupo de não vacinados contra a infecção pelo novo coronavírus!

A razão para essa “pressa” não me parece estar ancorada em uma preocupação pedagógica, mas sim econômica. É que, por algum estranho motivo, não vi grandes movimentos por parte dos operadores do sistema privado de ensino para estabelecerem calendários que levem em conta os riscos que continuam postos não apenas para os profissionais que atuam nas escolas, mas principalmente para as crianças que estão sendo empurradas para escolas em meio a um agravamento da pandemia entre os mais jovens não vacinados.

Como está noticiado que foi proferida uma liminar em prol dessa demanda que me parece desfocada dos reais interesses das crianças, a minha expectativa é que o setor jurídico da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes aja para derrubá-la em instâncias superiores.

Finalmente, aos pais que estão neste momento, como eu, diante da decisão de recolocar seus filhos nas escolas sem que eles estejam vacinados, eu diria que deveriam se preocupar muito com o que pode acontecer caso os piores cenários de contaminação se confirmem. É que com UTIs em ritmo crescente de lotação, talvez seja melhor aguentar um pouco mais com as crianças em casa do que ceder aos apelos dos donos de escolas que,tudo indica, estão pensando nos cifrões primeiro do que na segurança de seus empregados e clientes.

Justiça do Paraná condena Oswaldo Eustáquio Filho por difamar o PSOL

Blogueiro bolsonarista foi condenado a pagar pena pecuniária de um salário mínimo, além de indenização ao partido no valor de R$ 10 mil

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A Justiça do Paraná condenou o blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio Filho por crime de difamação contra o PSOL. Em sentença proferida no último dia 27 de janeiro foi determinada uma pena pecuniária de um salário mínimo, além de indenização ao partido no valor de R$ 10 mil. A ação foi movida em 2020, após o condenado divulgar em uma matéria na internet que o PSOL teria ligação com Adélio Bispo em sua tentativa de esfaquear o então candidato à presidência Jair Bolsonaro. 

Na ocasião, Oswaldo Eustáquio Filho afirmou que em depoimento à Polícia Federal Luciano Carvalho de Sá, conhecido como Mergulhador, contou que Adélio Bispo mantinha ligações com o ex-deputado federal do PSOL, Jean Wyllys. “A informação mostra fortes indícios de um braço político do esquema que tentou assassinar o então candidato Jair Bolsonaro. O depoimento de Mergulhador à Polícia Federal pode colocar Jean Wyllys e o PSOL como suspeitos de serem os mandantes do crime que tentou tirar a vida do presidente”, disse ele.

De acordo com a sentença da Justiça, o condenado deturpou o conteúdo do depoimento de Luciano à Polícia Federal, “de forma inequívoca atribuindo falas não ditas pelo depoente e ilações desprovidas de qualquer base que lhe possa dar, ainda que remotamente, a interpretação sugerida”. Dessa forma, entendeu como maliciosa a publicação, tendo como única intenção comprometer a dignidade do PSOL.

Uma revolta contra o agronegócio causa alvoroço na França

A campanha “Soulèvements de la Terre” está comprometida com a reviravolta agrícola e está causando alvoroço na França

frança revoltaManifestação contra o agronegócio no sábado em Passenans, França

Por Luc Skaille para o JungeWelt

Uma manhã cinzenta no final de janeiro no Jura francês. Quase 600 pessoas, equipadas com botas de borracha, tesouras de podar e alicates, reúnem-se num parque de estacionamento na aldeia de Passenans. Os coletes amarelos apresentam os recém-chegados. Representantes do sindicato dos agricultores Confédération Paysanne estão em cima de um trator. Os oradores abordarão a política agrícola da UE, as mortes nas quintas e a especulação. Juntamente com o movimento »Soulèvements de la Terre« (revoltas da terra, jW ) foi convocado um dia de ação com ocupação de terras. Apenas alguns gendarmes observavam os acontecimentos coloridos na garoa.

Desde março de 2021, após o seu lançamento em Besançon, a campanha concentrou-se nas principais questões agrícolas. Centenas de ativistas ocuparam fábricas pertencentes à empresa de cimento Holcim-Lafarge no porto de Gennevilliers em junho. Máquinas foram sabotadas, cabos cortados e calçadas bloqueadas. No outono, seguiu-se a sabotagem de bacias de retenção de água para a indústria de milho no sudoeste, acompanhada de confrontos com autoridades policiais. As buscas domiciliares não demoraram a acontecer. A crítica do movimento à devastação industrial do meio ambiente é aparentemente ampla.

O espectro varia desde o sindicato dos agricultores de esquerda e os “Amis de la Terre” (Amigos da Terra, jW ) até partes dos Autônomos. As consequências do crescimento da indústria alimentícia são inúmeras. A França tem menos 16.000 agricultores a cada ano e os danos causados ​​pela expansão das grandes fazendas são enormes. A consolidação de terras, o uso desenfreado de pesticidas e a globalização da indústria levam a enormes emissões de CO2, enquanto os modelos sustentáveis ​​de agricultura familiar quase não recebem nenhum financiamento.

A »Lei de Orientação Agrícola« introduzida em 1960 com a criação do órgão regulador SAFER pretendia limitar a especulação e a grilagem de terras. Mas durante anos, a evasão da lei tornou-se clara. As terras não são compradas como um todo, mas as corporações compram partes de terras. Isso também é evidente no Jura, onde o queijo Comté e as vinhas com o selo de origem AOC são muito procurados. Grandes proprietários de terras da vizinha Borgonha estão cada vez mais interessados ​​na reputação das vinhas do Jura e aumentam os preços. Mas o problema é a internacionalização. “A venda da adega “Ganevat”, que foi comprada em novembro pelo milionário Alexander Pumpjanski por 48.000 euros por hectare, é um exemplo do desenvolvimento”, disse o porta-voz do agricultor Steve Gormally. Isso significava quase dobrar o preço da terra local. Os agricultores coletivos e jovens têm poucas chances de fundar um negócio devido ao aumento dos custos.

A vinha ocupada em 29 de janeiro não é cultivada desde que foi adquirida pela empresa vitivinícola ABJ em 2008. Quando a manifestação chega a Passenans, centenas começam a limpar os vinhedos. Tratores e cavalos de tração recolhem arbustos e estacas desenraizados e os jogam em grandes pilhas; Nuvens de fumaça sobem ao céu. Ginette Meyer, uma agricultora alsaciana de 62 anos com chapéu e capa de chuva, observa o que está acontecendo. “Levamos muito tempo para contrariar a especulação. Milhares de fazendas morrem na França todos os anos e isso se deve a investidores implacáveis ​​e à falta de perspectivas para a nova geração.”

Um porta-voz da campanha anunciou mais atividades: “Em 2022, continuaremos a agir contra a indústria agrícola com demonstrações e ações diretas e arrebatar mais terras do capital!” Intervenções contra a gigante de sementes e  agrotóxicos da Monsanto/Bayer em 5 de março em Lyon já estão em vigor a próxima data de »Soulèvements«. As autoridades anunciaram que danos à propriedade e infrações criminais não seriam mais tolerados. Talvez fique em Lyon com uma aquisição pacífica.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal JungeWelt [Aqui!].

Cidades inundadas são produto de formas tradicionais de governar e não do clima

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Sob pena de parecer repetitivo, volto aqui a mencionar a dissertação de mestrado do meu ex-orientando André Moraes Barcellos Martins, defendida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense, que foi intitulada “O desafio da gestão urbana em Campos dos Goytacazes no contexto das mudanças climáticas: entre a construção da resiliência e a persistência de fórmulas tradicionais de governar.  Começo citando essa dissertação para dizer que boa parte dos problemas que estamos vivenciando nas últimas 24 horas têm mais a ver com a forma pela qual a nossa cidade é governada do que com eventos meteorológicos. E isso deveria causar mais preocupação do que o nível das águas que teima em se manter alto pelas ruas da nossa cidade, inundando bairros inteiros, como, aliás, costuma sempre acontecer em ocasiões que chove forte.

O problema é que “as fórmulas tradicionais de governar” impedem processos de tomada de decisão que olhem para além das chuvas intensas como algo além do controle, e perpetuam uma postura de ignorar a necessidade de planejamento democrático das cidades.  E o que é pior,  deixam a população desarmada para um período de fortes mudanças no comportamento do clima onde uma das características principais é a ocorrência de eventos meteorológicos extremos que se caracterizam por altos níveis de precipitação em períodos curtos de tempo.

Uma curiosidade sobre o governo do prefeito Wladimir Garotinho que eu não me canso de repetir é a ausência de uma secretaria municipal de Meio Ambiente, com o setor tendo sido transformado em uma espécie de puxadinho da Secretaria Municipal de Planejamento. Com isso, não se viu no primeiro ano de governo nada que se possa chamar de uma política ambiental para o município, como se o meio ambiente fosse algo que possa ser ignorado ao mesmo modo em que se fazia, digamos, no final do século 19 quando incontáveis inundações traziam o flagelo para Campos dos Goytacazes. Com isso se esquece que vivemos o tempo das mudanças climáticas em que o despreparo técnico será punido com a perda de incontáveis somas de dinheiro e, pior, de vidas humanas.

Para não dizerem que não falei das flores, mostro abaixo uma figura produzida pelo mesmo André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos para ser incluída em um artigo que estamos preparando sobre as injustiças ambientais ocorrendo na cidade de Campos dos Goytacazes como produto direto da persistência das formas tradicionais de governar.

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Como se vê essa figura mostra os pontos críticos de inundação na região central da malha urbana campista que foram obtidos a partir de um levantamento de notícias publicadas na mídia local sobre pontos de alagamento em dias de chuvas mais intensas.  Além de mostrar onde os alagamentos ocorrem, o que esta figura deixa desnudo é o fato de que a inação do poder público municipal não se explica apenas pela ignorância de onde os fatos ocorrem, mas provavelmente pela postura de não priorizar soluções que não privilegiam a figura do “prefeito ostentação” que Wladimir Garotinho, como outros prefeitos no passado, parece tanto apreciar. Aliás, se nós no Setor de Estudos sobre Sociedade e Ambiente (SESMA) podemos gerar mapas deste “naipe”, o que dirá uma prefeitura bilionária como a de Campos dos Goytacazes, não é?

De toda forma, é preciso que se mova urgentemente da postura negacionista frente às mudanças climáticas para se adotar uma postura pró-ativa no sentido de preparar as cidades brasileiras para o advento de eventos persistentes de chuvas em períodos curtos de tempo que trarão fortes perturbações para a população, especialmente a mais pobre.  No caso de Campos dos Goytacazes, abandonar a postura negacionista requer a imediata recriação da secretaria municipal de Meio Ambiente (SEMA), com a devida dotação de recursos financeiros e humanos. Aliás, com um IPTU tão “salgado” quanto o que está sendo cobrado pelo governo de Wladimir Garotinho em 2022, recriar a SEMA não deveria ser problema, mas prioridade. Afinal de contas, nós que pagamos impostos merecemos uma cidade que esteja minimamente preparada para os desafios presentes e futuros.

Para quem tiver interesse em entender a natureza social dos riscos trazidos pelas mudanças climáticas, sugiro a leitura do artigo “Stop blaming climate for disasters” (ou em português “Parece de culpar o clima pelos desastres” que foi publicado recentemente pela revista  Nature na seção “Communications Earth and Environment”.

Desmatamento na Amazônia brasileira bate novo recorde em janeiro

fogo ilegalIncêndio ilegal na floresta amazônica, no estado de Mato Grosso, em 11 de agosto de 2020 afp_tickers

(AFP) O desmatamento na Amazônia brasileira atingiu um novo recorde para janeiro já nas três primeiras semanas do ano, segundo dados oficiais divulgados nesta quarta-feira (2), um sinal alarmante da destruição da maior floresta tropical do mundo.

Cerca de 360 km² de floresta foram destruidos entre 1º e 21 de janeiro, de acordo com dados preliminares divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Embora o registro pare em 21 de janeiro, a área desmatada até esse dia já é maior do que qualquer janeiro completo desde 2015, quando o Inpe lançou o programa de monitoramento periódico Deter. 

O desmatamento da Amazônia em janeiro do ano passado foi de 83 km², quatro vezes menos do que o registrado nas três primeiras semanas de 2022.  Especialistas ambientais disseram que os dados podem indicar um risco elevado de que 2022 se torne outro ano devastador para a Amazônia do Brasil, onde o desmatamento aumentou desde que o presidente Jair Bolsonaro assumiu o cargo em 2019.

“Um número tão alto em janeiro, que é o pico da estação chuvosa, certamente chama atenção e nos deixa extremamente preocupados”, disse à AFP Claudio Angelo, da ONG Observatório do Clima. 

Em novembro, o Inpe anunciou que o desmatamento da Amazônia brasileira havia se estendido a 13.235 km2 entre agosto de 2020 e julho de 2021, um número inédito em 15 anos.

Foi o terceiro aumento anual consecutivo desde a chegada ao poder de Bolsonaro, que é alvo de críticas internacionais por ter enfraquecido as políticas de proteção à floresta e por ter promovido a mineração e a exploração agrícola em áreas protegidas.

“Precisamos aguardar os próximos meses, mas o sinal não é nada bom”, acrescentou Angelo.

O Observatório do Clima revelou na terça-feira que o Ibama gastou apenas 41% de seu orçamento em 2021.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo SWI swissinfo.ch [Aqui!].

Convocação do II Simpósio Nacional Geografia, Ambiente e Território (II SIMGAT)

Políticas ambientais no Brasil: desconstrução e resistência.  Confirmação do evento em Belém, Pará, novembro de 2022

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O II Simpósio Nacional Geografia, Ambiente e Território (II SIMGAT) é um evento organizado pela Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental/RP-G(S)A.   A sua realização foi prevista, inicialmente, para 2020. Entretanto, em razão da Pandemia da COVID-19, o II SIMGAT foi adiado. Naquele momento, realizamos na modalidade virtual, o “Beiradeando o II SIMGAT” com três mesas de intensos debates que reuniram pesquisadores e representantes dos movimentos sociais, anunciando o tom do evento que será realizado este ano.

Estamos nos organizando para um evento presencial porque, na nossa concepção, os “Varadouros” (incursões de campo), incluídos na programação original, são fundamentais para a discussão sobre as políticas ambientais na Amazônia, além dos importantes “Tapiris” (mesas de debate) e dos “Puxiruns” (apresentações de trabalhos). No entanto, não descartamos que o evento seja on-line, caso não tenhamos condições sanitárias seguras para sua realização.

Em breve divulgaremos as datas para envio dos resumos. Fiquem ligados em nosso site e redes sociais!
https://iisimgat.webnode.com/programacao/

Site RPG(S)A

https://geografia-socio-ambiental.webnode.com/

Facebook

https://fb.watch/6tQ8wyIV3d/

Twitter

https://twitter.com/RPG_S_A

Youtube

https://www.youtube.com/c/GeografiaAmbiental

A conta chegou após 3 anos de destruição ambiental do governo Bolsonaro

IBAMA gastou menos da metade da verba disponível para fiscalização

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Relatório do Observatório do Clima publicado ontem (1/2) mostra que o IBAMA teve R$ 219 milhões à sua disposição em 2021 para fiscalização ambiental, mas usou apenas R$ 88 milhões, ou menos da metade do total (41%). Nos governos anteriores a Bolsonaro, o IBAMA costumava usar entre 86% e 92% dos recursos disponíveis para a fiscalização.

O OC também consolidou um levantamento antecipado em novembro de 2021 mostrando que quanto menor o número de autuações por crimes ambientais, maior foi a taxa de desmatamento.

Sobre números de autuações

O relatório revela que, em 2021, o número de autos de infração por desmatamento foi o menor em duas décadas, ficando 40% abaixo da média da década anterior ao atual governo. Os embargos de propriedade, por sua vez, caíram 70% em relação a 2018. Os embargos são um dos instrumentos mais eficientes contra o desmate, uma vez que áreas embargadas não podem vender carne ou soja, nem tomar crédito rural em bancos públicos. O OC consolidou

Sobre desmatamento

No ano passado, o desmatamento da Amazônia passou de 13 mil km² de floresta – o maior desde 2006. “A Amazônia está entregue ao crime e não há motivos para achar que os criminosos agirão com temperança em 2022, ano eleitoral. Isso é particularmente problemático nos territórios indígenas, alvos preferenciais do Presidente da República”, afirma o OC. O relatório foi noticiado pela Folha, pelo g1 e Reuters, entre outros.

Em tempo

 No UOL, Jamil Chade conta que diplomatas, especialistas, negociadores e representantes de empresas no Brasil e no exterior por ele consultados confirmam que enquanto não houver uma redução constante do desmatamento no país, sua inserção internacional será prejudicada. Ele antecipa que nas próximas semanas ganhará força o debate no Parlamento Europeu sobre a criação de novas regras para impedir a importação de produtos que geraram o desmatamento recente de cobertura florestal. Enquanto o projeto avança a um ritmo intenso em Bruxelas, governos de diferentes partes do mundo costuram a inclusão de um crime ecológico no Tribunal Penal Internacional, equiparando qualquer ação neste sentido a um crime contra a humanidade.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Maior área do mundo com indígenas isolados foi mapeada na Amazônia

Anos de intenso trabalho de documentação renderam provas únicas de grupos indígenas isolados desconhecidos e mapearam os limites de seus territórios . A vasta e intocada área de floresta tropical está sob crescente pressão , colocando em risco a sobrevivência dos grupos isolados 

isolados

Por: Kristin Rødland Buick para a Rainforest Foundation Norway

Lima / Oslo, 9 de dezembro de 2021

 “As propriedades desta área de floresta tropical contíguas são simplesmente de proporções de património mundial, com culturas e natureza únicas. Portanto, é fundamental que esta área e as pessoas vulneráveis ​​que dela dependem obtenham a proteção física e jurídica necessária a que têm direito. É urgente”, diz Toerris Jaeger, secretário-geral da Rainforest Foundation Norway.

O relatório, Corredor Territorial dos Povos Isolados e Florestas Contíguas de Yavari-Tapiche , será lançado na quinta-feira, 9 de dezembro, em Lima, Peru. O trabalho de documentação foi feito pela organização indígena ORPIO com apoio da Rainforest Foundation Norway.

“O corredor inclui territórios de povos indígenas sem contato com o mundo exterior. Atualmente, é seu refúgio. Muitos se isolaram aqui para escapar de doenças, mortes, perseguições e abusos durante o boom da borracha na virada do século 20, mas as ameaças continuam até hoje por meio da invasão de lenhadores e traficantes de drogas, diz Beatriz Huertas, que liderou a pesquisa.

Huertas é um dos maiores especialistas do mundo em povos indígenas isolados. Juntamente com uma equipe de pesquisadores, ela tirou fotos de sobrevoos, coletou depoimentos de povos indígenas que vivem no corredor e na zona periférica da área, conversou com autoridades governamentais e analisou dados de satélite da área. O resultado é um conjunto único de documentação que comprova a existência desses povos indígenas e a área em que habitam, o chamado corredor Yavari-Tapiche de povos indígenas isolados.

A área é de 160.000 quilômetros quadrados, o tamanho do Suriname. Estende-se pelos estados de Loreto e Ucayali no Peru e Acre e no estado do Amazonas no Brasil, e é provável que seja a maior área do mundo habitada por povos indígenas isolados.

A área forma uma ilha com floresta tropical intocada. Segundo o relatório, 95% da floresta tropical na área está intacta e está entre as áreas mais densas em carbono e biodiversas do mundo.

CORRIDOR 1O mapa mostra a extensão da reserva indígena Yavari-Tapiche (norte) e do Corredor Territorial dos Povos Isolados “Panoan, Arawakan e outros” (sul). Gráficos: ORPIO

Lar de um grande número de povos indígenas isolados

A área é habitada por um número desconhecido, mas estimado, de grupos indígenas, que vivem em isolamento auto-imposto com pouco ou nenhum contato com o mundo exterior. É difícil estimar o número de pessoas ou grupos indígenas que vivem na área, mas o relatório conclui que uma grande parte da população pertence ao grupo de língua Pano.

Alguns desses povos indígenas são ramos isolados de grupos que estabeleceram contato com a sociedade externa há relativamente pouco tempo. Eles compartilham território, mas não têm contato. Muitos são grupos não identificados que podem representar tribos inteiras e línguas que ainda são desconhecidas para o mundo.

“O corredor inclui territórios de povos indígenas sem contato com o mundo exterior. Atualmente é seu refúgio. Muitos se isolaram aqui para escapar de doenças, mortes, perseguições e abusos durante o boom da borracha na virada do século 20, mas as ameaças continuam hoje através da invasão de lenhadores e traficantes de drogas. Beatriz Huertas, Antropóloga Social e Chefe de Pesquisa

“O isolamento de nossos irmãos e irmãs indígenas é importante porque eles são altamente vulneráveis ​​a doenças estrangeiras. Sair abruptamente do território seria fatal. A melhor maneira de protegê-los é reconhecer legalmente a área como um corredor para grupos isolados e fortalecer o comunidades locais em seu conhecimento e capacidade de proteger a área. Grupos indígenas vizinhos devem formar um muro de proteção contra ameaças externas”, afirma Jorge Perez, da ORPIO. O direito dos povos indígenas de viver em isolamento autoimposto está consagrado em várias declarações importantes de direitos humanos, incluindo a Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Tanto o Brasil quanto o Peru têm políticas de contato zero para povos indígenas em isolamento autoimposto.

Povos indígenas isolados carecem de defesa imunológica contra a maioria das doenças virais. A história mostra que uma única epidemia de gripe pode matar mais da metade da população em apenas alguns meses.

CORRIDOR 2Povos isolados fotografados durante um sobrevoo na Amazônia brasileira, próximo à fronteira com o Peru, em 2009. Foto: FUNAI

Exposto à pressão de construção

No entanto, a área está sob pressão crescente de vários lados. O relatório revela dezenas de licenças de madeira que se sobrepõem à área. A construção de estradas segue como consequência da exploração madeireira, e isso abre caminho para uma série de invasores que podem entrar em contato e entrar em conflito com os grupos indígenas isolados.

Uma área crescente desta floresta tropical está sendo destruída pela extração de madeira, mineração e agricultura. O contrabando de drogas e o cultivo de coca estão aumentando na área, e o tráfico coloca em risco os povos indígenas isolados. O relatório documenta como os povos indígenas são forçados a deixar suas casas devido à extração de madeira e ao contrabando de drogas.

CORRIDOR 3

O mapa mostra territórios indígenas, circundados em azul, e áreas desmatadas em vermelho. Onde os direitos dos Povos Indígenas aos seus territórios são respeitados, a floresta tropical permanece intacta. Gráfico: ORPIO

O Peru tem territórios oficialmente reconhecidos para pessoas em isolamento em 27% do corredor. O restante da área carece de reconhecimento oficial e toda a área do corredor do lado peruano, 55.000 km2, carece de mecanismos de proteção. No Brasil, os cortes orçamentários para a Diretoria Estadual do Povo Indígena, FUNAI, enfraqueceram a proteção do Vale do Javarí, que cobre a maior parte do corredor do lado brasileiro. Ao mesmo tempo, os interesses econômicos estão pressionando por um projeto rodoviário que cruzará o corredor ao sul através do Parque Nacional Sierra del Divisor. “Devido às qualidades únicas desta área, incentivamos os líderes do Brasil e do Peru, e do resto do mundo, a trabalharem juntos para proteger esta terra de invasões. É fundamental para preservar a diversidade biológica e conter o aquecimento global ,

Para proteger esta área, a ORPIO e a Rainforest Foundation Norway incentivam as autoridades peruanas e brasileiras a:

Reconhecer legalmente o corredor para povos indígenas isolados e florestas de Yavari-Tapiche e adotar iniciativas para protegê-lo.

Cancelar as licenças florestais que permitem que madeireiros e outros atores que se envolvam em atividades ilegais entrem na área.

Estabelecer um diálogo com os representantes dos povos indígenas na área e criar um mecanismo de envolvimento dos povos indígenas na elaboração de políticas e medidas para a área.

Fortalecer a coordenação e aplicação das medidas de proteção na área.

Investir na capacitação das organizações indígenas que vivem na zona periférica da área, para que possam implementar medidas coordenadas de monitoramento e coibição das ilegalidades.

Parar a expansão da extração ilegal de madeira, estradas florestais, agricultura ilegal, venda de terras e tráfico de drogas nas áreas afetadas do corredor.

Proibir projetos de extração ou o estabelecimento de blocos de hidrocarbonetos no corredor.

 

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Rainforest Foundation Norway [Aqui!].