Cidades inundadas são produto de formas tradicionais de governar e não do clima

chuvas 2

Sob pena de parecer repetitivo, volto aqui a mencionar a dissertação de mestrado do meu ex-orientando André Moraes Barcellos Martins, defendida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense, que foi intitulada “O desafio da gestão urbana em Campos dos Goytacazes no contexto das mudanças climáticas: entre a construção da resiliência e a persistência de fórmulas tradicionais de governar.  Começo citando essa dissertação para dizer que boa parte dos problemas que estamos vivenciando nas últimas 24 horas têm mais a ver com a forma pela qual a nossa cidade é governada do que com eventos meteorológicos. E isso deveria causar mais preocupação do que o nível das águas que teima em se manter alto pelas ruas da nossa cidade, inundando bairros inteiros, como, aliás, costuma sempre acontecer em ocasiões que chove forte.

O problema é que “as fórmulas tradicionais de governar” impedem processos de tomada de decisão que olhem para além das chuvas intensas como algo além do controle, e perpetuam uma postura de ignorar a necessidade de planejamento democrático das cidades.  E o que é pior,  deixam a população desarmada para um período de fortes mudanças no comportamento do clima onde uma das características principais é a ocorrência de eventos meteorológicos extremos que se caracterizam por altos níveis de precipitação em períodos curtos de tempo.

Uma curiosidade sobre o governo do prefeito Wladimir Garotinho que eu não me canso de repetir é a ausência de uma secretaria municipal de Meio Ambiente, com o setor tendo sido transformado em uma espécie de puxadinho da Secretaria Municipal de Planejamento. Com isso, não se viu no primeiro ano de governo nada que se possa chamar de uma política ambiental para o município, como se o meio ambiente fosse algo que possa ser ignorado ao mesmo modo em que se fazia, digamos, no final do século 19 quando incontáveis inundações traziam o flagelo para Campos dos Goytacazes. Com isso se esquece que vivemos o tempo das mudanças climáticas em que o despreparo técnico será punido com a perda de incontáveis somas de dinheiro e, pior, de vidas humanas.

Para não dizerem que não falei das flores, mostro abaixo uma figura produzida pelo mesmo André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos para ser incluída em um artigo que estamos preparando sobre as injustiças ambientais ocorrendo na cidade de Campos dos Goytacazes como produto direto da persistência das formas tradicionais de governar.

alagamentos

Como se vê essa figura mostra os pontos críticos de inundação na região central da malha urbana campista que foram obtidos a partir de um levantamento de notícias publicadas na mídia local sobre pontos de alagamento em dias de chuvas mais intensas.  Além de mostrar onde os alagamentos ocorrem, o que esta figura deixa desnudo é o fato de que a inação do poder público municipal não se explica apenas pela ignorância de onde os fatos ocorrem, mas provavelmente pela postura de não priorizar soluções que não privilegiam a figura do “prefeito ostentação” que Wladimir Garotinho, como outros prefeitos no passado, parece tanto apreciar. Aliás, se nós no Setor de Estudos sobre Sociedade e Ambiente (SESMA) podemos gerar mapas deste “naipe”, o que dirá uma prefeitura bilionária como a de Campos dos Goytacazes, não é?

De toda forma, é preciso que se mova urgentemente da postura negacionista frente às mudanças climáticas para se adotar uma postura pró-ativa no sentido de preparar as cidades brasileiras para o advento de eventos persistentes de chuvas em períodos curtos de tempo que trarão fortes perturbações para a população, especialmente a mais pobre.  No caso de Campos dos Goytacazes, abandonar a postura negacionista requer a imediata recriação da secretaria municipal de Meio Ambiente (SEMA), com a devida dotação de recursos financeiros e humanos. Aliás, com um IPTU tão “salgado” quanto o que está sendo cobrado pelo governo de Wladimir Garotinho em 2022, recriar a SEMA não deveria ser problema, mas prioridade. Afinal de contas, nós que pagamos impostos merecemos uma cidade que esteja minimamente preparada para os desafios presentes e futuros.

Para quem tiver interesse em entender a natureza social dos riscos trazidos pelas mudanças climáticas, sugiro a leitura do artigo “Stop blaming climate for disasters” (ou em português “Parece de culpar o clima pelos desastres” que foi publicado recentemente pela revista  Nature na seção “Communications Earth and Environment”.

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