Movimento Pequenos Agricultores e Movimento dos Atingidos por Barragem alertam para as perdas da produção camponesa devido as fortes chuvas
Por Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
As intensas chuvas dos últimos 20 dias no estado do Rio Janeiro afetaram a produção de hortaliças, verduras, legumes e tubérculos da agricultura familiar. Até o momento nenhum dos órgãos ligados à Secretaria de Agricultura do Estado do Rio Janeiro fez contato com as famílias produtoras para mensurar e contabilizar as perdas. Além de afetar as famílias produtoras, as perdas afetam de imediato o consumo, pois o ciclo da produção foi interrompido, havendo possibilidade de aumento de preços dos produtos pela diminuição da oferta.
Para os circuitos agroecológicos de comercialização já é possível ver a redução da disponibilidade dos produtos. Bruno Geraldo, coordenador do Raízes do Brasil e militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), responsável pela logística da produção da Cesta Camponesa, afirma que “já é notável ver as roças vazias devido os estragos das chuvas e diminuição de produtos disponíveis para cesta”.
Segundo a Rosana Martuchelli, presidente da APROLUC (Associação de Pequenos Produtores Rurais de Lúcios e Comunidades Vizinhas) e militante do MPA, “na região do Vale dos Lúcios em Teresópolis a perda foi entre 60 a 70%”. Rosana alerta ainda que todo município foi afetado e a perca para produtores até momento não foi contabilizado.
Em Magé, baixada fluminense, não foi diferente. Matheus Teixeira, presidente da Associação dos Produtores Rurais do Assentamento Fazenda Pau Grande, também militante do Movimento dos Pequenos Agricultores, afirma que muitas famílias perderam batata doce e aipim devido ao excesso de chuvas na região.
No município de Cachoeiras de Macacu, segundo Silas, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) as chuvas afetaram os assentamentos São José da Boa Morte e Marubaí. “Essas inundações atingiram mais de 300 propriedades rurais, onde são cultivados alimentos que abastecem o CEASA-RJ, e deixou algumas famílias desabrigadas” alerta Silas. A previsão é de que isto possa provocar alta no preço de alguns alimentos como, por exemplo, o aipim.
Em caráter de urgência o Movimento Pequenos Agricultores e o Movimento dos Atingidos por Barragem reivindicam do Governo do Estado:
1) Equipe técnica que contabilize as perdas da produção das famílias;
2) Liberação imediata de seguro safra para famílias que perderam a produção;
3) Liberação de linha de credito especial para as famílias voltarem a investir na produção;
4) Chamada pública emergencial para áreas afetadas no formato de um PAA modalidade doação simultânea para garantir comercialização da produção.
Agricultura Camponesa Familiar para Rio de Janeiro não passar fome!
Este texto foi inicialmente publicado pelo “Midia Ninja” [Aqui!].
Feam e MP notificam Vale por duas barragens na mina de Gongo Soco
O Governo do Estado, através da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), e o Ministério Público de Minas Gerais notificaram a Vale para que, no prazo de 10 dias, tome providências quanto a segurança das barragens Sul Superior e Sul Inferior, da mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais, e do dique Paracatu, da mina Fazendão, em Catas Altas, além de outras 15 estruturas, em Itabira, Ouro Preto, Mariana, Itabirito, Nova Lima e Belo Vale.
Está sendo exigido da Vale relatório técnico fotográfico, acompanhado de anotação de responsabilidade técnica (ART), informando quais são as medidas executadas ou o respectivo cronograma detalhado para tomar as seguintes ações: mitigar e corrigir os processos erosivos instalados no
entorno das estruturas; fazer a manutenção e limpeza dos sistemas de drenagem interna, superficial e do extravasor; reduzir a contribuição pluvial da bacia de drenagem para o reservatório da barragem e garantir a manutenção de rotina da estrutura, realizando inclusive o controle de vegetação.
A notificação tem caráter preventivo e foi feita após constatado que as 18 barragens “apresentam ocorrências que devem ser tratadas para evitar prejuízos no funcionamento de suas estruturas, sendo todas elas de responsabilidade da Vale”, segundo informou o Governo do Estado. “Para essas barragens, as notificações solicitam medidas para o tratamento dos processos erosivos nos entornos e para a garantia da manutenção das estruturas”.
Este texto foi inicialmente publicado pelo “Diário de Barão” [Aqui!].
Grupo Bayer Monsanto é um dos maiores criminosos ambientais do mundo, criticaram os ativistas
O slogan “Rebel for Life” é baseado no slogan da Bayer “Science for a Better Life”. Foto: nd/Louisa Theresa Braun
Por Louisa Theresa Brown para o Neues Deutschland
Um grupo de cerca de 15 pessoas atravessou a Müllerstrasse na esquina da Fennstrasse em Wedding na manhã de sexta-feira, quando o sinal verde ficou verde. Quando a luz ficou vermelha, eles pararam ao longo de toda a pista e estenderam faixas que diziam “rebelião animal” e “Não há planeta B”. Um caminhão e vários carros pararam bem na frente deles e buzinaram, mas a rua continuou bloqueada e o tráfego começou a diminuir.
Cerca de 35 ativistas do movimento ambientalista Extinction Rebellion estão bloqueando a entrada do gigante químico Bayer Monsanto em Berlin-Wedding desde as 8h, bem como a rua em frente. O tráfego é bloqueado na Müllerstrasse. Esquina da Fennstr.! PROTEÇÃO DE ESPÉCIES AGORA! #WHES22#voranbringen
A poucos metros da Müllerstrasse, em frente à estação de metrô Reinickendorfer Strasse, outros ativistas do movimento de proteção ambiental Extinction Rebellion (XR) já ocuparam a entrada da sede da empresa química Bayer Monsanto. Cinco deles escalaram a fachada do prédio ecologicamente correto pintado em verde, enquanto tinta de uranina, sinais amarelos com símbolos de perigo químico e abelhas “mortas” de madeira estão espalhadas na neve. A Bayer Monsanto é um dos maiores criminosos ambientais do mundo. Estamos perdendo milhões de espécies de insetos por meio dos negócios de corporações como a Bayer”, disse Annemarie Botzki, da equipe de imprensa da XR.
A Bayer, empresa com sede em Leverkusen, que assumiu o controle do grupo norte-americano Monsanto em 2016, é uma das maiores fabricantes do herbicida glifosato, o chamado herbicida total, conhecido sob o nome de “Roundup”. Ele mata todas as plantas que não foram geneticamente modificadas e são usadas principalmente na agricultura industrial – embora seja extremamente prejudicial ao solo, à água, aos animais e às pessoas. Nos EUA, milhares de pessoas que atribuem o câncer ao contato com o Roundup já estão processando a empresa. “A Bayer Monsanto ganha dinheiro destruindo o solo e espécies moribundas”, diz a ativista da XR Judith . Ela mora ao virar da esquina “e eu me aborreço com essa empresa de merda todos os dias”.
Com a campanha, a XR está exigindo um programa imediato de proteção de espécies do novo governo federal. “O governo tem a responsabilidade de parar as corporações que estão destruindo nossos meios de subsistência. Isso inclui a proibição do glifosato”, diz Annemarie Botzki. O Ministro Federal da Agricultura Cem Özdemir (Verdes) deve impulsionar isso a nível europeu. Este ano, a UE quer decidir se o glifosato pode continuar a ser usado. A licença atual expira em dezembro de 2022. De acordo com o relatório das Nações Unidas sobre diversidade biológica, a Alemanha já perdeu cada uma das metas de biodiversidade estabelecidas para 2020.
“É um sinal de um sistema quebrado. A biodiversidade é nosso sustento”, diz Judith. No entanto, ela enfatiza que os funcionários da Bayer não devem ser acusados disso e pede ao governo de Berlim que crie outros empregos para que os trabalhadores não tenham que ganhar a vida com um poluidor ambiental. No entanto, um palestrante pediu aos funcionários da empresa que “olhassem para a verdade”.
O bloqueio da rua já foi liberado pela polícia, e todos os cerca de 40 ativistas agora se reuniram em frente à entrada da Bayer e afundam no chão coberto de neve para “morrer”. Ao se fingirem de mortos, eles querem chamar a atenção para o fato de que “primeiro os animais morrem, depois os ecossistemas e depois nós humanos também”, disse o ativista XR ao microfone. “Por favor, saia deste sistema!” ele grita. Embora o protesto não tenha sido registrado, a polícia o aprovou como um encontro político. Os ativistas, alguns deles fantasiados de abelhas e outros animais, agora estão dançando a música dos Bee Gees “Stayin’ Alive” e “Your fault” dos “The Doctors”.
@XRBerlin bloqueou a @BayerMonsanto em #Berlin hoje para chamar a atenção para o #Artensterben e a destruição do nosso #Ökosystem |e. Os ativistas pedem um programa #Artenschutz e uma proibição #Glyphosat
A ativista XR Cléo Mieulet chama então a atenção para as desvantagens de outros produtos da Bayer Monsanto. Por exemplo, o fato das sementes híbridas serem geneticamente modificadas de tal forma que os agricultores não podem mais reproduzi-las. “Então, isso os torna dependentes da corporação”, disse ela. Além disso, seriam produzidos agrotóxicos que já são proibidos na União Europeia, mas são exportados para países do Sul Global. Essas exportações deveriam ser proibidas, assim como o glifosato.
Um exemplo é o México, que proibiu o uso do herbicida a partir de 2024. A Bayer quer tomar medidas contra isso tendo como desculpa o livre comércio,porque senão perderia um de seus mercados mais importantes. “O ganho da Bayer Monsanto é a nossa perda”, diz Mieulet. No entanto, a reviravolta agrícola ainda é possível, mas precisa de mão de obra qualificada, transformação do mercado de trabalho e “uma política com espinha dorsal que assuma a associação de agricultores e a Bayer Monsanto”. A Extinction Rebellion quer continuar pressionando por isso.
Mas a política de Berlim deve finalmente agir, exige a porta-voz da XR, Annemarie Botzki. “O governo continua a construir rodovias, mas não consegue encontrar uma resposta sobre como nossos meios de subsistência, como solo e água saudáveis, podem ser protegidos”, diz ela. Botzki conta com o conselho de cidadãos climáticos, que o Senado vermelho-verde-vermelho quer convocar de acordo com seu acordo de coalizão. Aqui, o resgate dos ecossistemas para proteção do clima deve ser considerado.
Depois de três horas, por volta das 11h, a XR encerrou a ação de protesto na sexta-feira. Apenas os ativistas que tomaram conta da sacada se colocaram lá, mas foram pressionados pela polícia para sair. Duas pessoas que se recusaram a fornecer seus dados pessoais foram presas. Entretanto, a Extinction Rebellion classificou a ação de alto perfil contra a extinção de espécies como um sucesso.
Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].
Atos pela Justiça e Memória das 272 vidas ceifadas pelos crimes cometidos contra a vida e contra o meio ambiente; e pela continuidade das buscas até o encontro das 6 “jóias” ainda não encontradas
SEGUNDA-FEIRA, DIA 24 DE JANEIRO, 18 HORAS
Atividade: Carreata pela Justiça Concentração: Cemitério Parque das Rosas
Percurso: do Cemitério até ao letreiro da cidade, percorrendo as principais avenidas e ruas de Brumadinho.
TERÇA-FEIRA, DIA 25 DE JANEIRO, 11 HORAS
Atividade: Ato em Homenagem às 272 vítimas ceifadas e clamor por Justiça Local: no letreiro da cidade.
AVABRUM
Avabrum é a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão, com sede em Brumadinho, há três anos abraçou a causa da justiça. Luta para a responsabilização efetiva dos responsáveis pelos crimes cometidos pela Vale e Tüd Süd contra a vida de 272 pessoas, nossas joias, única forma de reparação que vai representar a vitória da justiça contra a impunidade.
Estamos também reconstruindo nossas histórias, individual e coletivamente, por meio da preservação da memória de nossos familiares para que nunca mais aconteça tamanha negligência com a vida humana, com o ambiente e com as comunidades locais que estão próximas às indústrias de risco.
Convidamos a imprensa para acompanhar os atos previstos e registrar a continuidade da nossa luta e em memória aos 272 familiares, nos dias 24 e 25 de janeiro, em Brumadinho. Teremos fontes da Avabrum para dar informações e entrevistas para os jornalistas.
A bacia do Rio Paraíba do Sul não pode ser vista como no período inicial da sua ocupação, mas também não pode ser considerada como um sistema hidráulico composto por um reservatório, canos, registros e saída controlada de água. Esta me parece a forma mais fácil para olhar um intrincado sistema hídrico que possui inúmeras relações na natureza.
Inicialmente, considero relevante recordar que o desmatamento realizado na bacia do rio Paraíba do Sul teve início no Século XVI com a chegada dos Europeus. No entanto, no Século XIX o desmatamento se intensificou e no Século XX este importante bioma foi reduzido a aproximadamente 15% da sua área original (ex.: 1,3 milhões de km2) e no Século XXI temos cerca de 10% na forma de pequenos fragmentos florestais. Assim, a ocupação das margens do rio, o uso dos solos (ex.: ~70% coberto com pastagens), processo de urbanização e industrialização tem alterado o padrão de qualidade e quantidade das águas que fluem por este importante recurso hídrico que cobre 3 importantes estados do país (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro).
Em seguida, é importante lembrar que suas áreas de inundação, que representam parte integrante da saúde ambiental de uma bacia de drenagem foram literalmente devastadas em quase todo o seu longo percurso nos três estados. Como consequência temos a perda dos benefícios que estas áreas proporcionam para as pessoas tais como o suprimento da água, habitat para peixes entre outros animais, áreas para recreação e zonas naturais de amortecimento das enchentes, foram drasticamente comprometidas. Desta forma, percebo que os gestores de bacias de drenagem precisam estabelecer as bases para restauração das áreas de inundação de forma a recuperar em parte o funcionamento do ecossistema, mas não somente do rio Paraíba do Sul. Aqui fica uma observação que deve ser considerada para inúmeras bacias.
As planícies de inundação foram desconectadas, as matas substituídas por pastagens, a consequência desta destruição é o resultado da falta de manejo adequado que tem como consequência a redução do tempo de residências das águas nos solos, erosão dos solos e encostas e na recarga das águas subterrâneas. Portanto, este evento, de grande intensidade, que ocorreu recentemente em várias cidades, assim como em Campos dos Goytacazes, tende a aumentar sua frequência devido ao Aquecimento do Planeta e as Mudanças Globais. Desta forma, temos que preparar nossas cidades e nossas bacias de drenagem restaurando as áreas de floresta e planícies de inundação. Muitos estudos precisarão ser realizados pelos gestores das bacias de drenagem para restauração das planícies aluviais, calculando a quantidade de água e duração das inundações de forma a sustentar os habitat naturais e restaurar o funcionamento adequado do ecossistema hídrico.
Cheia do Rio Paraíba do Sul no centro de Campos dos Goytacazes, janeiro de 2022
Na bacia do rio Paraíba do Sul, existem cerca de 148 Usinas Hidrelétricas sendo 39 em operação, e a demais distribuídas em categorias como inventariadas, projeto básico, viabilidade e remanescente. Assim, resolver o problema das enchentes ou inundações dos polos urbanos deve seguir outra lógica e não simplesmente a construção de mais barragens para o controle do fluxo e amortecimento das águas dentro da bacia. Ao longo de décadas milhares de barragens foram removidas nos Estados Unidos da América e apenas no ano de 2020 um total de 69 em 23 estados deixaram de existir nos estados da Califórnia, Connecticut, Illinois, Indiana, Iowa, Massachusetts, Michigan, Minnesota, Montana, New Hampshire, New Jersey, New York, North Carolina, Ohio, Oklahoma, Oregon, Pensilvânia, Carolina do Sul, Texas, Vermont, Virgínia, Washington e Wisconsin.
Reservatório da PCH de Queluz no Rio Paraíba do Sul
Não podemos nos deixar levar pela opção mais fácil que é sempre tentadora, que é criar mais reservatórios, seja para amortecimento ou geração de energia, mas deveríamos nos debruçar sobre soluções que tragam algo inovador para a adaptação das cidades. Os eventos extremos estão a cada dia mais intensos e aumentando sua frequência ao longo dos últimos anos. Assim, a realidade trazida pelas mudanças globais aponta para restaurarmos o funcionamento dos ecossistemas considerando as flutuações climáticas. As áreas de inundação desempenham um papel importante na função hidrológica e ecologia dos rios, onde a restauração bem direcionada das planícies de inundação devolverá as funções naturais. Outro aspecto que pode ser considerado pelos gestores da bacia e tomadores de decisão, é que o setor de restauração ecológica emprega, hoje em dia, milhares de profissionais qualificados, contribuindo assim para economia local e regional.
Concluindo, temos a Agenda 2030 que é um plano de ação global com 17 objetivos de desenvolvimento sustentável e cidades sustentáveis (Quadro I). As cidades precisam estar adaptadas, os governos em diferentes escalas (Municipal, Estadual e Federal) precisam iniciar imediatamente ações concretas e com a transparência necessária para a população. Os gestores precisam entender a mudança de paradigma na gestão dos recursos hídricos, soluções baseadas na natureza e assim ampliar a qualidade de vida. Portanto, estou totalmente em desacordo com a Política Ambiental Atual no que diz respeito as áreas de inundação e a omissão ou esquecimento dos objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
Quadro I
Conheça os 17 objetivos da Agenda 2030
Objetivo 1. Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares;
Objetivo 2. Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável;
Objetivo. 3 Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades;
Objetivo 4 Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos;
Objetivo 5 Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas;
Objetivo 6 Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos;
Objetivo 7. Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos;
Objetivo 8. Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos;
Objetivo 9. Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação;
Objetivo 10. Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles;
Objetivo 11. Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis;
Objetivo 12. Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis;
Objetivo 13. Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos;
Objetivo 14. Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável;
Objetivo 15. Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade;
Objetivo 16. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis;
Objetivo 17. Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.
* Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf)
Por Jessica Brice, com análise de dados e gráficos de Andre Tartar e Mira Rojanasakul, Fotografia e vídeo de Jonne Roriz
Este artigo foi produzido com o apoio da Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center
São Félix do Xingu é um Velho Oeste moderno invadido da selva amazônica brasileira por pessoas com pouco a perder. O gado supera as pessoas em quase 20 para 1 e, depois do anoitecer, as estradas de terra cheias de crateras se enchem de grandes plataformas que transportam os troncos gigantescos de árvores roubadas. É um lugar que os forasteiros não têm muitos motivos para visitar, onde os motociclistas não usam capacete porque as pessoas querem saber quem está indo e vindo. Quase todo mundo conhece todo mundo, especialmente Stanisley Ferreira Sandes.
Quatro meses por ano, Ferreira Sandes, 47, cruza os quase 85.000 quilômetros quadrados de São Félix em um Chevrolet quatro por quatro com um chapéu de cowboy no painel e um revólver sob o banco. Ele está em busca de 5.000 cabeças de gado para alimentar um oleoduto que bombeia carne bovina através de matadouros de propriedade da gigante brasileira de frigoríficos JBS SA e outros, depois para mercados de Miami a Hong Kong. Quanto mais rápido ele atingir sua marca, mais cedo ele vai para casa. Mas a concorrência é acirrada, o andamento lento. Ele visita três fazendas por dia – quatro, se ele se apressar – pegando 23 vacas aqui, 68 ali. Para compradores como Ferreira Sandes, não há lugar melhor do que São Félix do Xingu. Com 2,4 milhões de cabeças, abriga o maior rebanho do Brasil. “Se o que você procura é gado”, diz ele, “você não precisa ir a nenhum outro lugar”.
Mas o município que é tão grande quanto a Irlanda também reivindica um título mais notório. É a capital mundial do desmatamento. Entender como a indústria de carne bovina do Brasil e a destruição da floresta tropical estão inextricavelmente interligadas revela uma verdade que a JBS não reconhece: como o maior produtor de carne bovina da região, sua cadeia de suprimentos também está entre os maiores impulsionadores do desmatamento da Amazônia que o mundo já conheceu. Embora se venda como amiga do meio ambiente, a JBS abocanhou mais gado vindo da Amazônia do que qualquer outro frigorífico em um setor que é o principal culpado pelo fim da floresta tropical. Isso ajudou a levar a maior floresta tropical do mundo a um ponto de inflexão em que não é mais capaz de limpar o ar da Terra, porque grandes áreas agora emitem mais carbono do que absorvem. No final do ano passado, nacúpula climática da COP26 em Glasgow, governos e instituições financeiras – incluindo investidores da JBS – assumiram ambiciosos compromissos verdes para alterar drasticamente seus modelos de negócios para salvar o meio ambiente. Com o desmatamento da Amazônia em alta em 15 anos, a JBS é um estudo de caso que ilustra o quão difícil é cumprir tais promessas.
Há mais de uma década, a JBS se compromete a livrar sua cadeia de suprimentos de animais nascidos ou criados em terras desmatadas. A Bloomberg analisou cerca de 1 milhão de registros de entrega que a JBS postou acidentalmente online para mostrar até que ponto sua pegada chegou à Amazônia nesse período. Uma viagem de 10 dias ao coração do país pecuário do Brasil mostrou com toda a facilidade e abertura as vacas das cadeias de abastecimento de terras desmatadas ilegalmente. A JBS diz que estabelece os mais altos padrões para seus fornecedores, mas está usando uma versão greenwashed da origem de um animal e trabalhando dentro de um sistema legal tão cheio de brechas que promotores, ambientalistas e até mesmo fazendeiros consideram isso uma farsa.
Solicitada a responder a este artigo, a JBS disse que “não tolera desmatamento ilegal”. A empresa sediada em São Paulo acrescentou que “mantém, há mais de 10 anos, um sistema de monitoramento geoespacial que utiliza imagens de satélite para monitorar seus fornecedores em todos os biomas” no Brasil.
Em um acordo de 2009 com promotores federais, a JBS e outros frigoríficos concordaram em não comprar animais de terras recém-desmatadas. Embora a JBS tenha intensificado seu monitoramento, também expandiu agressivamente na Amazônia e ainda não sabe de onde vem seu gado.
Para determinar o tamanho da pegada da JBS, a Bloomberg analisou as coordenadas de cerca de 1 milhão de embarques de gado. Desde então, a JBS restringiu a maioria dos dados, que abrangem cerca de 18 milhões de vacas enviadas para abatedouros nos estados de Rondônia, Pará, Acre, Mato Grosso e Tocantins entre 2009 e 2021. A Bloomberg comparou os dados com mais de 50.000 registros de terras e cerca de 520.000 alertas de desmatamento.
A base de fornecedores diretos da JBS na Amazônia dobrou para 16.900 em 2020, de cerca de 7.700 em 2009. Cumulativamente, ela comprou gado de cerca de 60.500 pecuaristas no período.
O número de abatedouros da JBS operando na Amazônia subiu para 21 agora, de 10 em 2009. A JBS diz que “não criou novos abatedouros”, em vez disso expandindo por meio de aquisições e trazendo padrões mais altos.
Os fornecedores da JBS estão entrincheirados em uma parte da Amazônia que foi fortemente arrasada para acomodar um rebanho crescente . Alertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, conhecido como INPE, mostram 8,2 milhões de hectares de corte raso desde 2009.
Os moradores de São Félix do Xingu marcam a passagem do tempo da mesma forma que os moradores da cidade – por tudo que mudou. Mas, em vez de falar sobre o que subiu – um prédio alto ou um shopping center – é o que foi derrubado. Algumas décadas atrás, era tudo floresta tropical; agora, a maior parte do que você vê dirigindo é pastagem. Quase nenhum gado pastava na terra; hoje, mais de um milhão de hectares de mata de São Félix foram substituídos pelos animais. Naquela época, o mundo não sabia da ligação catastrófica entre carne bovina e desmatamento. E então um promotor novato relutante chamado Daniel Azeredo desembarcou no estado do Pará, onde fica São Félix.
Terreno desmatado na estrada para São Félix do Xingu
O cargo estava longe de ser a primeira escolha de Azeredo, mas nenhum de seus colegas mais antigos do Ministério Público Federal queria. Em uma nação devastada pela violência e corrupção, o estado do Pará é particularmente sem lei. “Coloque desta forma”, diz o advogado de 40 anos, “quando cheguei em 2007, havia cerca de 30.000 a 40.000 incêndios individuais queimando em toda a Amazônia a cada ano, e os reguladores e a polícia não tinham ideia de quem era o responsável. ”
Assim que sujou as botas, viu que aquilo era obra da pecuária. Mais de 70% das terras desmatadas na Amazônia se transformam em pastagens, o primeiro passo de uma cadeia produtiva que está entre as mais complexas do mundo.
Em uma extremidade da cadeia de fornecimento de carne bovina brasileira estão 2,5 milhões de pecuaristas, muitos em cantos distantes da Amazônia, sem escritórios governamentais, escolas ou mesmo telefones. Do outro estão compradores corporativos em 80 países, incluindo redes de fast-food, supermercados e fabricantes de sapatos e bolsas de couro. “No meio, estão os matadouros”, diz Azeredo. “Então eu pensei: ‘Bem, é isso. É disso que temos que ir atrás.’”
Em junho de 2009, ele fez. Uma investigação de dois anos culminou com promotores federais sinalizando matadouros comprando gado de terras desmatadas ilegalmente. O Greenpeace pegou o trabalho de Azeredo e publicou um relatório histórico que mudou a compreensão do mundo sobre o desmatamento. O grupo ativista criticou marcas globais por comprarem carne bovina e couro de um trio dos piores criminosos da Amazônia: JBS, Marfrig Global Foods SA e Bertin. Clientes corporativos ameaçaram boicotar se não limpassem suas cadeias de suprimentos, e a equipe de Azeredo elaborou um acordo e um cronograma para fazê-lo.
Sem nenhuma lei nos livros do Brasil que proíba especificamente a compra de bens de terras desmatadas, o acordo com os promotores estabelece as únicas diretrizes que os frigoríficos seguem na Amazônia – mas são voluntárias e, pela própria conta de Azeredo, muito fracas. A crescente pressão de investidores e clientes levou os grandes exportadores a assinarem o contrato, mas vários outros simplesmente recusaram e compraram abertamente seus animais de onde quisessem.
A JBS foi uma das primeiras a assinar, em julho de 2009. Mas também se expandiu agressivamente na Amazônia nos anos seguintes. Ela comprou rivais, incluindo a Bertin, para se tornar a maior produtora de couro do mundo, e atraiu o escrutínio de promotores e ambientalistas.
A empresa se sentiu injustamente apontada. Quatro executivos seniores da gigante da carne bovina disseram em entrevistas no ano passado, concedidas sob condição de anonimato, que o gado lavado e arrastado entre terras desmatadas e fazendas “limpas” é um problema de todo o setor. Dado que muitos frigoríficos não assinaram o acordo dos promotores, os padrões da JBS são muito mais altos do que muitos, dizem eles. A JBS diz que verifica dezenas de milhares de fazendas diariamente e bloqueou mais de 14.000 fazendas fornecedoras por não cumprirem suas políticas.
“Fazemos isso há mais de 10 anos”, disse Wesley Batista Filho, chefe de operações de carne bovina na América do Sul, em entrevista coletiva por vídeo no final de 2020 sobre o monitoramento da empresa. “Cem por cento dos nossos fornecedores do bioma cumprem esses critérios, ou seja, desmatamento zero”, disse Batista, 30 anos, neto do fundador.
A JBS fez tais declarações repetidamente, mas elas vêm com uma ressalva. A cadeia de suprimentos é dividida em dois grupos: fornecedores diretos e indiretos, e a JBS verifica apenas a legalidade dos primeiros, sem saber quase nada sobre os segundos, violando seus acordos. É como dizer que o dinheiro lavado está limpo porque o banco que fiscaliza a conta corrente não cometeu o crime. As instituições financeiras não são deixadas de lado tão facilmente; Os frigoríficos da Amazônia são.
Mesmo alguns dos maiores investidores da JBS parecem não perceber a distinção. “Não entendemos a polêmica”, disse João Carlos Mansur, diretor geral da REAG Investimentos, que é o quarto maior investidor da empresa, com participação de R$ 5,66 bilhões. “Eles já têm toda a sua cadeia produtiva mapeada, desde a origem do bezerro até o abate.”
Mas o gado no Brasil se move em média duas ou três vezes e até seis antes de ser abatido, de acordo com o Laboratório de Uso da Terra e Meio Ambiente Gibbs da Universidade de Wisconsin em Madison. A JBS monitora sistematicamente apenas o último rancho ou confinamento na vida de uma vaca.
Ferreira Sandes, o comprador de gado, começa sua manhã em São Félix do Xingu com um sanduíche de presunto e queijo grelhado e um telefone cheio de mensagens. Os fazendeiros locais lhe enviaram uma dúzia de vídeos de vacas em oferta. Ele observa os animais trotando pela tela, anota os lotes que lhe interessam, depois voa pela cidade até uma pequena fazenda no final de uma estrada de terra.
Em um pequeno lote cercado, 20 bovinos aguardam. São o que é conhecido em português como “gados magros”, vacas magras, com as costelas visíveis através da carne tão solta que balança quando andam. Ferreira Sandes fechou ontem o negócio com o grupo por cerca de 70 mil reais. Tudo o que resta agora é marcá-los. Grunhindo guturalmente — “Oooooy! Hooz-ah! Vaaaai!” — um corretor de gado conduz as vacas em fila única através de um curral estreito. Ferreira Sandes enfia um ferro em brasa incandescente pelas ripas de madeira. Uma fração de segundo no quarto traseiro, uma baforada de fumaça e uma letra T enegrecida para transporte está queimada acima da perna esquerda do animal, ao lado de meia dúzia de outras marcas. Cada um representa um passo diferente em sua jornada até agora.
Ferreira Sandes marca uma vaca antes do transporte
As vacas estão em sua casa atual há apenas alguns dias. O dono da fazenda, um homem ambulante que diz se chamar Tonico Nogueira, ganha a vida vendendo gado para outros. “Todos os dias, há vacas indo e vindo”, diz ele. “Eles chegam, ficam um ou dois dias e depois partem novamente em um caminhão.” Estações de passagem e intermediários como Nogueira são pontos-chave de discórdia para ambientalistas e pesquisadores que dizem ser o cerne da farsa que garante o fornecimento constante de animais de terras desmatadas. Para provar isso, grupos ativistas como o Greenpeace e pesquisadores de Wisconsin à Bélgica examinam centenas de milhares dos chamados GTAs – documentos de sanitização animal que autorizam o transporte de gado – para montar a jornada de uma vaca tão claramente quanto está marcada em sua pele.
O governo brasileiro mantém os documentos ocultos, citando preocupações com a privacidade. Alguns grupos ativistas acumularam bancos de dados por meio de web scrapes que estão em execução há anos usando uma técnica conhecida como força bruta para adivinhar aleatoriamente identificadores alfanuméricos com muitos caracteres. Armados com os bancos de dados, os ativistas às vezes podem conectar os pontos de uma fazenda desmatada onde um animal nasce ao matadouro onde morre.
Ferreira Sandes não pergunta onde esteve o gado antes de comprá-lo e diz que a papelada está sempre em ordem. Tudo o que ele precisa é de um GTA que liste o pequeno terreno de Nogueira como origem e a Fazenda Lageado, a fazenda 10 horas a sudeste para a qual Ferreira Sandes trabalha, como destino. Em um ou dois anos, uma vez que as vacas tenham ganho metade do peso corporal novamente e sua pele tenha ficado tensa sobre o excesso de carne e gordura, outro GTA será emitido para que possam ser enviados para o abate, e uma nova fazenda de origem documentada. Quando Batista Filho disse que 100% dos fornecedores da JBS estão livres de desmatamento, ele estava falando apenas dessa versão editada de sua viagem.
“Chamamos a nossa atenção que a JBS está usando (sua auditoria anual) como prova de que suas práticas totais de abastecimento de gado são livres de desmatamento”, diz DNV GL, ex-auditor da cadeia de suprimentos da JBS, em carta de julho de 2020 à JBS. “Dado que não houve rastreamento de fornecedores indiretos, a JBS não pode utilizar o laudo de avaliação como comprovação de boas práticas em toda a sua cadeia de suprimentos.”
A empresa disse que deixa claro em suas comunicações aos investidores e em declarações públicas que não está falando sobre toda a cadeia de suprimentos. “A JBS reconhece que as verificações da cadeia de suprimentos ainda não incluem fornecedores indiretos”, disse à Bloomberg. Na mesma coletiva de imprensa em que Batista Filho falou, ‘fornecedores de fornecedores’ são mencionados em várias ocasiões, disse a empresa.
Vista aérea enquanto o gado é trotado para venda
Uma balsa transporta gado através de um rio
No estacionamento de Nogueira, a marcação termina em meia hora e Ferreira Sandes está de volta em seu caminhão, atravessando um rio imenso de balsa, dirigindo tão rápido por estradas de terra que a poeira vermelha torna impossível ver muito à frente. Quando seu dia terminar, 12 horas depois, ele terá visitado três outras fazendas, nenhuma das quais está de acordo com as regras e regulamentos do Brasil, de acordo com entrevistas e uma verificação cruzada das coordenadas GPS das propriedades e registros públicos. Um proprietário foi embargado pelo regulador ambiental do Brasil; o segundo foi sinalizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais por desmatamento. Seu gerente falou livremente sobre mover o gado para um terreno ao lado para fazer uma venda. A proprietária do último rancho, uma matriarca independente chamada Divina, médicos abertamente os registros de vacinação com a ajuda de um funcionário do governo local e um balconista de uma loja de suprimentos para animais antes que ela possa emitir seu GTA.
Acordos paralelos, soluções alternativas, trapaças – é assim que sempre foi no país do gado, diz Divina. “Não temos governo, educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.” É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de suprimentos da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento. educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.”
É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de suprimentos da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento. educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.” É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de suprimentos da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento.
Se alguma das vacas que Ferreira Sandes compra vai ou não parar nos frigoríficos da JBS é impossível saber. A fazenda Lageado, assim como milhares de outros fornecedores diretos do ecossistema da empresa, é um caldeirão. Um estudo de 2020 publicado na revista Science descobriu que essa mistura significa que mais da metade de todas as exportações de carne bovina da região para a União Europeia podem ser contaminadas pelo desmatamento.
As leis e regulamentações anti-desmatamento no Brasil são cheias de nuances, e a JBS é uma empresa que vive nas letras miúdas. Os proprietários de fazendas na Amazônia estão legalmente autorizados a desmatar uma parte de suas propriedades, e aqueles que vão longe demais no corte de árvores antigas podem reiniciar as vendas de gado apelando ou prometendo replantar. Por décadas, o governo também fez vista grossa quando as terras da Amazônia são invadidas e arrasadas, estabelecendo mecanismos para que os posseiros possam vender gado legalmente e também perdoando os grileiros, concedendo-lhes títulos de propriedade. “Os grandes frigoríficos estão sempre reclamando de ter que liderar essas iniciativas, quando na verdade o governo deveria liderar”, disse Azeredo, procurador federal. Ele disse que a marcação do gado ao nascer seria a coisa mais próxima de uma bala de prata e não custaria muito, mas tanto as empresas quanto o governo resistiram a esse plano. “Adoraria forçar”, disse Azeredo, “mas, como não há lei, não posso”.
A JBS disse que segue escrupulosamente as regras para fornecedores diretos e é rápida em argumentar que muitas das reivindicações de manchetes contra ela não são realmente ilegais. Mas quando todos os casos podem ser tão facilmente defendidos pela lei brasileira, surge a questão mais ampla se um frigorífico do tamanho da JBS, operando em uma região tão sem lei quanto o Norte do Brasil, pode alegar de boa fé que sua cadeia de suprimentos está perto de ser livre do desmatamento.
Vemund Olsen, analista sênior de sustentabilidade da Storebrand Asset Management, que tem mais de US$ 100 bilhões sob gestão e detinha ações da JBS até que a empresa se envolveu em um escândalo de corrupção em 2018, disse que não. “Todo ano, saem relatórios que documentam gado de áreas desmatadas entrando na cadeia de suprimentos da JBS”, disse ele. “Eles não deveriam precisar da mídia ou das ONGs para fazer esse trabalho para eles.”
Clientes e investidores estão cada vez mais sinalizando que não estão confortáveis com a pegada amazônica dos maiores frigoríficos do Brasil, mesmo que esteja dentro da lei. Em dezembro, as redes de varejo europeias Sainsbury’s e Carrefour disseram que restringiriam as compras de carne bovina do Brasil por causa de ligações ao desmatamento.
No final de 2020, a JBS novamente prometeu rastrear toda a cadeia de fornecedores indiretos, desta vez usando um aplicativo construído na tecnologia blockchain para registrar os documentos de transporte do GTA. Analistas financeiros e alguns investidores elogiaram a medida. “Quando eles elegem algo como prioridade máxima, eles entregam”, disse Pedro Leduc, chefe de pesquisa da BLP Asset, na época. Mas para observadores de longa data da Amazônia, como Azeredo e ambientalistas, parecia muito com as promessas que a gigante da carne bovina fez uma década antes.
Em uma tarde abafada no início de outubro, alguns dos maiores pecuaristas do estado do Pará se reúnem em um parque de exposições para uma feira de quatro dias de painéis industriais, música e um leilão de gado. Em um pequeno estande entre vendedores de equipamentos agrícolas, Lorena Geyer, analista de sustentabilidade da JBS, prepara uma apresentação sobre as iniciativas de monitoramento da JBS. Geyer, 27, dirige um JBS Green Office. Como os auditores da empresa, ela nunca fez a viagem para o frigorífico através do campo de gado para conversar com os fazendeiros em suas fazendas. Nem os outros nove analistas do Green Office da JBS na Amazônia, que estão espalhados por uma região maior que a Europa continental. Em vez disso, eles se sentam ao lado de compradores de gado em uma mesa dentro de um abatedouro da JBS.
Toda vez que um fazendeiro entra em um matadouro para vender gado, Os compradores da JBS verificam suas propriedades em relação aos registros de desmatamento emitidos por órgãos governamentais. Quando um fazendeiro não faz o corte, Geyer intervém para ajudá-los a descobrir como sair das listas negras do governo para que possam começar a vender legalmente. “A abordagem da JBS é incluir fornecedores e não excluí-los”, diz ela, pecuarista do parque de exposições, acrescentando que a JBS pode dar suporte para que a documentação esteja em ordem. “Também é do nosso interesse tê-lo em nossa cadeia de suprimentos – precisamos dessa matéria-prima.”
A legalização de fornecedores ajudando-os a arquivar a documentação é o cerne da estratégia da JBS para limpar sua cadeia de suprimentos. Isso não é o mesmo que eliminar o desmatamento. “Consumidores e governos se unindo não querem ilegalidade zero – eles querem desmatamento zero”, disse Holly Gibbs, que dirige o laboratório de uso da terra na Universidade de Wisconsin. “Há uma grande diferença.”
Editor: Ethan Bronner, Com a ajuda de: Brittany Harris e Jin Wu
Metodologia
A partir de 2020, a divisão de carne bovina Friboi da JBS passou a permitir que os clientes rastreiem a carne por meio de um site de “Garantia de Origem” . A carne comprada em supermercados inclui no rótulo uma data de abate e um identificador de matadouro conhecido como SIF, que o consumidor pode acessar no site para ver o nome e a localização da fazenda de origem do corte de carne.
Para investigar a cadeia de suprimentos da JBS, a Bloomberg compilou uma lista de abatedouros regionais identificados nos relatórios anuais da JBS de 2009 a 2021. Isso abrange o período em que o compromisso anti-desmatamento da JBS entrou em vigor.
Os números do SIF para esses matadouros foram obtidos de fontes públicas. A Bloomberg usou esses números para verificar no site do Friboi quaisquer dados disponíveis sobre carne bovina de 1º de agosto de 2009 a 30 de setembro de 2021. Isso resultou em cerca de 1 milhão de registros de embarque, cada um representando uma entrega de gado de uma fazenda brasileira para frigorífico operado pela JBS.
A Bloomberg identificou 35 abatedouros, alguns dos quais a JBS possuía, mas foram fechados, e outros desde então. As instalações estavam concentradas em cinco estados amazônicos: Acre, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Os frigoríficos adquiriram carne bovina de fazendas desses estados, bem como dos estados vizinhos do Amazonas, Maranhão e Mato Grosso do Sul.
Os registros de entrega que a Bloomberg analisou incluíam a data de embarque, número do lote, coordenadas de coleta, nome da fazenda, nome do produtor e um número de identificação fiscal do produtor conhecido como CPF para pessoas físicas ou CNPJ para pessoas jurídicas. A JBS reconheceu que partes das informações foram publicadas online de forma não intencional. Após saber que os dados eram públicos, a JBS o restringiu no final do ano passado. A Bloomberg reteve uma cópia de todos os logs originais analisados.
Como parte de seus acordos anti-desmatamento com o Ministério Público Federal, os frigoríficos são obrigados a consultar mapas de propriedades encontrados em cartórios conhecidos como CARs, que significa Cadastro Ambiental Rural, ou Cadastro Ambiental Rural. No entanto, o acesso público aos documentos do CAR não é uniforme em todas as regiões, com informações detalhadas sobre os proprietários restritos por muitos estados. Ambientalistas e pesquisadores também alegam que os CARs são fáceis de manipular para excluir o desmatamento porque os limites das propriedades são autodeclarados e não estão sujeitos à confirmação do governo.
Para obter uma imagem mais precisa, a Bloomberg executou os números de identificação fiscal nos registros de entrega da JBS disponíveis por meio de um banco de dados nacional de terras conhecido como Sigef . Quase um terço dos 56.000 fornecedores da JBS conhecidos pela Bloomberg foram encontrados no banco de dados do Sigef, retornando arquivos de mapeamento geoespacial conhecidos como shapefiles em mais de 50.000 lotes, cobrindo mais de 80.000 milhas quadradas. Para as fazendas visitadas pessoalmente, foram consultados os CARs e o banco de dados do Sigef para obter os limites das propriedades. Embora longe de um quadro completo, a análise fornece uma noção mais precisa da escala das fazendas na cadeia de fornecimento direto da JBS, bem como uma indicação de outras propriedades pertencentes a esses fornecedores.
Para entender melhor a relação da empresa com o desmatamento nos últimos 13 anos, a Bloomberg comparou a rede acima de fornecedores diretos da JBS com cerca de 500.000 alertas de desmatamentochamados Prodes, que foram emitidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, conhecido como INPE, entre 2009 e 2020 . Também foram comparados com cerca de 25.000 embargos emitidos pelo órgão regulador ambiental do país, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, conhecido como Ibama, entre 2010 e 2019. Estes últimos foram obtidos por meio de um pedido de liberdade de informação.
De acordo com o INPE, cada alerta do Prodes se refere ao período de 12 meses até 31 de julho do ano listado, com resultados preliminares – cobrindo pelo menos 90% do desmatamento observado – divulgados até dezembro do mesmo ano.
A Bloomberg estimou o número total de gado assumindo que cada lote representa uma carga média de 18 vacas. Essa é uma suposição padrão de pesquisadores que analisam os documentos de transporte de gado, conhecidos como GTAs, há uma década, incluindo o Gibbs Lab da Universidade de Wisconsin. A Bloomberg pediu à JBS que confirmasse essa suposição, e a empresa se recusou a comentar.
Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pela Bloomberg Green [Aqui! ]. A reportagem em inglês traz gráficos e animações que não puderam ser incluídas nesta postagem.
A cheia de 2022 do Rio Paraíba do Sul ameaçou uma Campos dos Goytacazes desprovida de estruturas de governança para mitigar os efeitos das mudanças climáticas globais, o que revela paroquialismo e despreparo
A minha postagem sobre o caráter arcaico do sistema municipal de trânsito em Campos dos Goytacazes suscitou uma observação interessante nas redes sociais acerca da completa ausência de menções ao Plano Diretor Municipal (PDM) nos debates que ocorrem na Câmara de Vereadores. Esse observador notou que “precisamos urgentemente discutir Campos como cidade de médio porte, não como uma cidadezinha minúscula, sem estudos de impacto social e ambiental, planejamento e engenharia de tráfego.”
Como já citei várias vezes neste blog a dissertação de Mestrado defendida pelo cientista social André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos acerca dos obstáculos criados pelas formas tradicionais de governar que perduram em Campos dos Goytacazes, busquei no documento dois elementos que reforçam a necessidade de que o PDM seja um instrumento que sirva minimamente a gestão urbana em nossa cidade. O primeiro dado é que dos cinco candidatos melhores colocados no primeiro turno das eleições municipais ocorridas em 2020, apenas dois (Wladimir Garotinho e Caio Vianna) mencionaram o PDM em seus planos de governo, ainda que com um olhar restrito sobre as chamadas “áreas verdes urbanas”. Por outro lado, nem Wladimir Garotinho ou Caio Vianna mencionaram a chamada “Agenda 2030” em suas prioridades de governo, o que demonstra um claro afastamento com quaisquer preocupações com os desafios que estão ali postos, a começar pelos objetivos 11 (desenvolvimento de cidades e comunidades sustentáveis) e 13 (ação contra as mudanças climáticas globais).
A questão é que a ausência de qualquer conexão das práticas de governo com o PDM e com a Agenda 2030 reflete o claro despreparo que temos nas esferas de poder no plano local no tocante à assumir formas mais democráticas e articuladas com os processos de governança que extrapolam os acordos paroquiais que continuam regendo a política municipal. O resultado disso é que passada a ameaça da inundação, tudo parece voltar ao normal (quando este está longe de ser o caso).
O problema é que as chuvas de 2022 mostram que há efetivamente um padrão de agravamento climático que é marcado pela ocorrência de eventos meteorológicos extremos que claramente colocaram em xeque a capacidade de governos estaduais e municipais de responder à ação destrutiva das águas das chuvas. E está claro que governantes que não entenderem o que está acontecendo poderão até fazer poses para postar nas suas redes sociais, mas isto não ajudará em nada o estabelecimento de políticas de enfrentamento dos efeitos adversos das mudanças climáticas.
Quem quiser ler um artigo muito interessante sobre a necessidade de inserir o tema das mudanças climáticas no interior dos PDMs, basta clicar [Aqui!].
Maioria dos estados e municípios brasileiros seguem ignorando a emergência climática
Município de Mário Campos em Minas Gerais – Foto: Gabriele Lanza/TV Globo
São Paulo, 20 de janeiro de 2022 – Desde o mês de novembro de 2021, o Brasil tem presenciado a intensificação de eventos extremos como fortes chuvas, temperaturas altas, estiagens e secas que vêm ocasionando enchentes, deslizamentos de terras, ameaças de rompimento de barragens e dezenas de vidas perdidas. Estados como Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Tocantins, Goiás, Piauí, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina são exemplos de regiões impactadas diretamente pela crise climática.
Dados apresentados pelo Boletim da Defesa Civil Estadual de Minas Gerais registram que, entre outubro de 2021 até o presente mês, as fortes chuvas totalizaram em cerca de 19 mortes, 3.481 desabrigados e 13.756 desalojados, além de 145 municípios em estado de emergência. Só na Bahia, por exemplo, o governo estadual decretou situação de emergência em 136 cidades.
De acordo com um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas),o impacto da crise climática na América do Sul inclui um significativo aumento da precipitação média no sudeste do continente, o que aumenta a ocorrência de chuvas extremas. Pesquisadores também alertam que temperaturas extremas, como altas ondas de calor, podem ser até nove vezes mais frequentes já na próxima década. Em resumo: não há nada de “normal” no que estamos vivendo.
Diante deste quadro aterrorizante, deve-se ressaltar o papel dos governos estaduais no enfrentamento da crise climática. É urgente que os governantes, de modo geral e em todas as esferas, elaborem estratégias com a finalidade de zelar pela vida das populações de seus estados por meio da elaboração ou execução de planos de adaptação climática, além de mapeamento de áreas de risco e orçamento destinado a perdas e danos materiais para populações vulneráveis. Apesar disso, a maioria dos estados brasileiros não estão preparados para lidar com a crise: atualmente, somente sete unidades da federação (PE, MG, SP, AC,TO, RS e GO) possuem um plano de adaptação climática e, mesmo nesses casos, faltam ações efetivas.
Para o porta-voz do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, cobrar atitudes dos governos estaduais é um passo importante para a prevenção dos impactos da crise climática a nível local, em especial das populações em situação de vulnerabilidade: “Precisamos cobrar uma atuação efetiva dos governos estaduais para criar medidas de adaptação e desenvolver ações estruturais de enfrentamento. A situação de emergência enfrentada por populações de diversos estados atualmente escancara e denuncia o descaso político e a negligência do Brasil com a crise climática”.
Com participação de cientista da UFSCar, artigo publicado na Nature indica que geometria de nanopartículas afeta resposta imune a vacinas
Pesquisador da UFSCar coordena etapa de investigação teórica e modelagem (Imagem: André Moura)
Para desencadear a resposta imune que nos protege em infecções futuras, vacinas carregam, além do antígeno – vírus inativados ou partes dele, dentre outras estratégias –, os chamados adjuvantes, compostos que ajudam na ativação do sistema imune. Artigo publicado ontem (19/1) na Nature, com participação de cientistas brasileiros, mostra que a atenção a um atributo geométrico de nanopartículas usadas como adjuvantes, a quiralidade, pode resultar em vacinas mais eficazes.
A quiralidade define um objeto – ou molécula – com tal distribuição espacial que não pode ser sobreposto à sua imagem refletida em um espelho. Macroscopicamente, um exemplo conhecido são as nossas mãos direita e esquerda. Microscopicamente, podemos dizer que a vida é quiral, pois moléculas essenciais como aminoácidos e açúcares apresentam quiralidade.
Assim como, ao cumprimentarmos alguém, o encaixe é melhor entre mãos direitas (ou esquerdas), a interação de uma molécula biológica com compostos com orientação à esquerda ou à direita acontece de formas distintas, sendo mais precisa se há encaixe entre elas, ou seja, se ambas têm, por exemplo, orientação à esquerda (ou, mais precisamente, são enantiômeros à esquerda, nome dado aos isômeros das moléculas quirais).
Por isso, a quiralidade pode resultar em diferentes propriedades e, importante no caso de materiais usados nas vacinas, em respostas biológicas distintas. O encaixe, no entanto, não significa, necessariamente, algo bom, como a capacidade de prevenção ou tratamento de doenças, podendo também levar a algo que é tóxico ou venenoso.
Um exemplo famoso é a talidomida, fármaco usado para tratar náuseas em gestantes que, na década de 1960, descobriu-se causar má formação nos fetos. No medicamento, enquanto um dos enantiômeros tem o efeito terapêutico, o outro causa os problemas no desenvolvimento fetal. Como, neste caso, não é possível manter apenas um dos enantiômeros, não existe possibilidade de uso seguro da substância por gestantes.
Porém, no caso de nanomateriais, é possível obter a forma enantiopura estável, ou seja, composta apenas por um dos enantiômeros.
Na pesquisa relatada na Nature, o objetivo foi justamente comparar nanomateriais quirais – enantiômeros à esquerda e à direita – e seu correspondente aquiral (simétrico) no que diz respeito à resposta do sistema imune. Para tanto, foram usadas nanopartículas de ouro. Em estudos in vitro (com células de origem animal) e in vivo (em animais – camundongos – vivos), os resultados mostraram maior eficácia na ativação da resposta imune nas nanopartículas orientadas à esquerda.
Para a realização do estudo, o primeiro passo foi a preparação das nanopartículas com os atributos desejados – aquiral, quiral à esquerda e quiral à direita –, induzindo a quiralidade desejada por meio de uma combinação de peptídeos e luz circularmente polarizada, que é uma forma quiral de luz. Depois, o estudo in vitro consistiu na incubação dessas partículas junto a células do sistema imune, com acompanhamento de diversas respostas, como a velocidade de entrada das nanopartículas nessas células; a expressão, pelas células, de marcadores bioquímicos associados à ativação da resposta imune; dentre outros parâmetros. In vivo, as medidas confirmaram os resultados encontrados nas células e, para testar as respostas no nível sistêmico, os pesquisadores usaram as nanopartículas como adjuvantes em vacinas contra uma cepa do vírus influenza (H9N2) aplicadas nos camundongos.
Em todos os experimentos, a resposta gerada pelos enantiômeros à esquerda foi ampliada em relação aos enantiômeros à direita e às partículas aquirais. Além dessa constatação, os pesquisadores também investigaram e descrevem no artigo os mecanismos biológicos que podem explicar essas diferenças. Segundo os responsáveis, a descoberta abre caminho para o uso dessas nanoestruturas produzidas com controle de sua quiralidade na produção de respostas imunes sob medida. Além disso, alertam para a importância da parametrização da quiralidade em estudos biomédicos e toxicológicos, já que enantiômeros distintos de um mesmo princípio ativo podem ter impactos muito distintos sobre os organismos vivos.
“As pessoas podem se perguntar por que não realizamos o estudo pensando na COVID-19, ou mesmo com a cepa de influenza que circula atualmente. No entanto, a pesquisa começou muito antes da pandemia, e é importante lembrar que as vacinas contra a Covid só puderam ser produzidas tão rapidamente porque o conhecimento aplicado veio sendo produzido nas últimas décadas”, situa André Farias de Moura, docente no Departamento de Química (DQ) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que é um dos autores do artigo. “Temos agora um primeiro passo dado, uma prova de conceito, e sabemos que podemos seguir nessa direção”, complementa Moura, vinculado também ao Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF).
O trabalho é mais um capítulo na parceria de Moura com o grupo de pesquisa coordenado por Nicholas A. Kotov, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e com o grupo de Chuanlai Xu, na Universidade de Jiangnan, na China. Além deles, assinam o artigo outros pesquisadores da Universidade de Michigan; parceiros na Universidade de Jiangnan; e os brasileiros Felipe M. Colombari, Weverson R. Gomes e Asdrubal L. Blanco, todos eles egressos do Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFSCar.
A parte experimental da pesquisa acontece nos laboratórios parceiros. Na UFSCar, Moura coordena a etapa de investigação teórica e modelagem e simulação computacional, que ajuda a compreender os mecanismos por trás dos resultados encontrados empiricamente.
No Brasil, a pesquisa teve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além de bolsa do Programa de Educação Tutorial (PET) do Ministério da Educação. Contou também com o uso de recursos de computação científica de alto desempenho do Laboratório Nacional de Computação Científica (supercomputador Santos Dumont) e da Cloud@UFSCar.
O artigo publicado na Nature é intitulado “Enantiomer-dependent immunological response to chiral nanoparticles” e já está disponível no site da revista (Aqui!).
Prefeitura de Mangaratiba (RJ) interdita obra irregular no Terminal da Vale
Do Rio de Janeiro
A Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura de Mangaratiba (SMMA), com apoio do Grupamento de Proteção Ambiental da Guarda Municipal (GPA), interditou nesta terça-feira (18) uma obra irregular no Terminal da VALE, na Ilha Guaíba. A intervenção estrutural, que acontecia no píer e na ponte, não possuía nenhuma autorização ambiental para ser executada.
A equipe de fiscalização promoveu a paralisação da obra após a mesma ser denunciada por uma equipe da TV Globo, durante reportagem exibida na última segunda-feira pelo RJTV. Para executar reformas estruturais em área marítima, a VALE, que tem sua licença ambiental vencida desde 2011, deveria apresentar, obrigatoriamente, um parecer técnico emitido pelo INEA autorizando a reforma, conforme preconiza a condicionante de n° 22 da referida licença.
Fotos da Secretaria de Meio Ambiente de Mangaratiba/ RJ
Além da empresa não apresentar a autorização da obra de manutenção sobre o espelho d’água, o GPA e a equipe da SMMA ainda flagraram operários trabalhando em andaimes indevidamente instalados na estrutura do píer.
“Não temos nenhum interesse em prejudicar as atividades da VALE, mas, temos compromisso com o meio ambiente, a biodiversidade marinha e com a saúde pública, já que muitas pessoas se alimentam do pescado da nossa região. Uma obra irregular, pode impactar a vida marinha, poluindo a água e prejudicando as espécies. Como se já não bastasse a operação de terminal cuja a licença está vencida desde 2011 e num processo de renovação que não termina nunca, a empresa insiste em desrespeitar as leis e a natureza, que é nosso maior patrimônio. Com base nas leis em vigor, não vamos baixar a guarda”, explicou o Secretário de Meio Ambiente, Antonio Marcos Barreto.
Imbróglio se estende desde 2019
Desde 2019, a Prefeitura de Mangaratiba vem promovendo fiscalizações constantes nas atividades realizadas pelo terminal da VALE. Neste tempo, devido aos flagrantes de crime ambiental e licença de operação pendente, a SMMA já realizou três interdições e aplicou mais de R$ 55 milhões de reais em multas ambientais à companhia. A empresa judicializou todas as sanções ambientais e administrativas impetradas contra ela, e segue com suas operações de exportação de minério no Terminal da Ilha Guaíba causando comprovada poluição.
Recentemente, em uma análise solicitada pelo Ministério Público Federal, a Secretaria de Meio Ambiente emitiu um parecer técnico de 62 páginas que evidenciam a poluição no entorno do terminal da Ilha Guaíba. Amostras coletadas e analisadas por um laboratório especializado credenciado pelo INEA, e atestado por 12 técnicos especialistas da SMMA, apontam concentração de metais pesados e outros componentes 5.600 vezes superior dos parâmetros internacionais aceitáveis em mexilhões e moluscos, capturados no mar de Mangaratiba e comumente consumidos pela população. A sobrecarga de metais também foi identificada em peixes, praias, efluentes, e outros.
As análises foram comparadas com as referências da empresa americana The Food and Drug Administration (FDA), que é uma espécie de Agência Nacional de Vigilância Sanitária e referência mundial em pesquisas e parâmetros de saúde pública.
O parecer técnico, finalizado em dezembro de 2021, foi submetido a análise do Ministério Público Federal e Estadual, INEA, IBAMA e a Câmara Municipal solicitando providências urgentes.
Plurale procurou a Vale, através da sua assessoria de imprensa,que enviou este posicionamento:
“A Vale esclarece que a obra que está sendo realizada na ponte que dá acesso ao píer do Terminal Ilha Guaíba (TIG) não afeta suas operações. Trata-se de uma intervenção de manutenção, previamente comunicada ao órgão licenciador competente, com previsão de conclusão no segundo semestre deste ano. A Vale não medirá esforços para adotar as medidas cabíveis para retomar a obra.
Diferentemente do que indica o parecer técnico apresentado pela prefeitura, não é possível concluir que as atividades da Vale são responsáveis pelos impactos ambientais na região, alegados pela municipalidade, o que será demonstrado no curso das investigações.
A Vale ressalta ainda que a Licença Ambiental de Operação do Terminal da Ilha Guaíba, permanece válida e vigente e que atua de acordo com as diretrizes estabelecidas na legislação e pelo órgão ambiental licenciador.”
Este texto foi inicialmente publicado pelo site “Plurale” [Aqui!].