A notícia de que 10% dos atletas que compõe a delegação brasileira se recusarem a serem vacinados antes de se dirigem para o Japão para participar dos “Jogos Olímpicos” está passando de forma quase que batida pela mídia corporativa brasileira. Mas isto não me impede de dizer que essa posição dessa minoria é escandalosa e representa uma falta de responsabilidade grotesca.
É que um evento de menor envergadura como foi a Copa América (ou seria Cova América?) que foi recentemente realizada no Brasil trouxe pelo menos uma nova variante da Sars-Cov-2 vinda da Colômbia para dentro do território nacional, uma adição completamente desnecessária para um cenário já complexo que é marcado pela presença de várias cepas que, inclusive, podem estar se recombinando.
A posição do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), como era de se esperar, tem sido também de “passar o pano” e isentar esses atletas negacionistas de qualquer tipo de punição, já que o Comitê Olímpico Internacional (COI), não coloca a obrigação de vacinação como uma condição que os atletas participem das Olímpiadas. Esse movimento do COI só pde ser explicado pelos seus interesses comerciais junto aos patrocinadores desse mega evento esportivo.
A verdade é que a realização das Olimpíadas em um momento em que diversos países estão em meio a um crescimento desenfreado da pandemia da COVID-19 já seria escandaloso. Ao permitir que que parte dos atletas participe sem ser vacinada, o COI acaba transformando o seu megaevento em uma poça biológica de onde poderão ser transportadas para todo o planeta cepas que estão confinadas em determinadas áreas. E isso com a colaboração direta dos atletas negacionistas.
O que deveria ser feito no momento de retorno da delegação brasileira seria colocar todos os atletas em um período de confinamento obrigatório para evitar que eventuais portadores do coronavírus possam passar da condição de atletas para a de difusores de coronavírus. Mas sabemos que isso não irá ocorrer dada frouxidão que está sendo observada em relação aos negacionistas da vacina.
Uma coisa curiosa é que o último levantamento pelo DataFolha mostrou que 6% dos brasileiros não querem se vacinar contra a COVID-19, um valor muito próximo do total dentro da delegação olímpica brasileira que se recusa a ser vacinada.
Finalmente, para surpresa de ninguém, já se sabe que o hotel que hospeda a delegação brasileira de judô que está no Japão para participar das Olimpíadas se transformou no foco de um surto de COVID-19. É quase certo que os judocas negacionistas estejam sendo os primeiros a ser infectados, mas certamente não serão os únicos, o que apenas reforça a irresponsabilidade com que eles trataram o cuidado com seus colegas de delegação.
Estudo envolvendo pesquisadores de oito instituições mostra que doenças tropicais se espalham por áreas agrícolas e agroextrativistas da região
Agentes sanitários em ação contra a malária no interior do Pará: estudo mostra que desmatamento facilita disseminação de doenças na Amazônia (Foto: Agência Pará – 18/04/2021)
Por Agência Fiocruz de Notícias
A dispersão de doenças na Amazônia está diretamente relacionada à trajetória de desenvolvimento agrícola dos municípios e à perda de biodiversidade. Malária prevalece em municípios com perfil agroextrativista e com cobertura florestal, ou seja, metade do território amazônico. A dengue e chikungunya ocorrem com mais frequência em municípios de expansão urbana recente, como no limite sul da Amazônia em transição para o Cerrado. A leishmaniose cutânea prevalece em municípios com grandes rebanhos onde há maiores taxas de desmatamento e perda de biodiversidade. Já a COVID-19 se espalhou com facilidade em todos municípios, pois relaciona-se com o tráfego de pessoas. É o que aponta o estudo Epidemiology, Biodiversity, and Technological Trajectories in the Brazilian Amazon: From Malaria to COVID-19, publicado na revista Frontiers in Public Health, de autoria dos pesquisadores do projeto Trajetórias, do Centro de Síntese em Biodiversidade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Os municípios da Amazônia convivem atualmente com elevadas taxas de desmatamento, perda de biodiversidade e alta carga de doenças tropicais negligenciadas. Aproximadamente dois terços desse bioma estão localizados em território brasileiro. Lá, as transformações socioeconômicas e ambientais da paisagem estão ligadas à dinâmica da economia agrária regional. Buscando integrar abordagens da economia, epidemiologia e de biodiversidade, os autores do estudo identificaram duas perspectivas principais de se relacionar com a terra e que se subdividem.
O primeiro conjunto de práticas (chamadas pelos pesquisadores de “trajetórias tecnoprodutivas”) se enquadram no modelo agropecuário, associado à intensa mudança da paisagem, homogeneizador e promotor de grande perda da cobertura florestal. A lógica envolvida nessas trajetórias tem como foco a eficiência do capital, orientada pelo lucro. “Existem algumas ideias de que o desenvolvimento econômico melhora a saúde e a qualidade de vida. Mas nem sempre isso é verdade, às vezes é o contrário”, afirma a epidemiologista Cláudia Codeço, professora e pesquisadora da Fiocruz e uma das autoras do estudo.
O segundo conjunto de trajetórias é relacionado ao modelo agroextrativista que se apoia no acúmulo de conhecimento local e na histórica adaptação ao bioma, descrevendo sua realidade rural a partir de referências históricas e de ocupação da terra. As trajetórias agroextrativistas são dominantes em metade do território Amazônico e estão concentradas em áreas cobertas por floresta contínua, nas quais amalária é uma doença importante e causa de grande mortalidade.
Essas trajetórias agropecuárias estão associadas com grande perda de biodiversidade e o aumento das doenças tropicais negligenciadas, como a leishmaniose, doença de Chagase aquelas relacionadas à transmissão pelo mosquito Aedes. “A criação de gado e plantio de grãos têm associação com altas taxas de desmatamento e têm se tornado trajetórias dominantes nos últimos anos”, comenta a pesquisadora da Fiocruz.
A trajetória da COVID-19 iniciou nas cidades, porém se espalhou rapidamente pelas comunidades rurais, ribeirinhas e que vivem nas florestas. “Esse fluxo se deu pela cadeia de contatos que envolveu os profissionais de saúde e assistentes sociais que transitam entre as regiões, assim como pelos moradores que saíram das grandes cidades rumo às áreas mais remotas”, explica a epidemiologista Claudia Codeço.
A COVID-19 foi agravada pela desigualdade de acesso a serviços básicos de saúde e de bens e serviços que assola a região. Além de abrir horizontes para monitorar o potencial avanço de doenças nos municípios amazônicos, o estudo inova com uma abordagem sistêmica na qual as perspectivas epidemiológicas, econômicas e ambientais são consideradas em conjunto.
O estudo foi elaborado pela equipe do projeto Trajetórias, vinculado ao Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose) do CNPq e conta com pesquisadores cientistas sociais, naturais, da computação, da saúde e economia. Neste estudo colaboraram pesquisadores da Fiocruz, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Universidade do Acre (Ufac), Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Este texto foi produzido pela Agêncio Fiocruz de Notícias e publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].
Pesquisadores mediram os fluxos de metano e dióxido de carbono em 23 pontos dos reservatórios da usina e no curso do rio Xingu antes e após o início das operações da hidrelétrica
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O trabalho contribui para a obtenção de estimativas precisas das emissões de gases de efeito estufa pela matriz elétrica brasileira, que tem grandes usinas hidrelétricas como principal recurso energético – Foto: Usina Hidrelétrica de Belo Monte
Por Fabiana Mariz para o Jornal da USP
A implantação da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, aumentou em até três vezes as emissões de gases de efeito estufa (GEE) na região amazônica. As conclusões são de um estudo coordenado pela Instituto de Geociências (IGc) da USP, em parceria com a Universidade de Linköping, na Suécia, a Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e a Universidade Federal do Pará (UFPA).
Os pesquisadores chegaram a esse resultado depois de medirem os fluxos de metano (CH4) e dióxido de carbono (CO2) em 23 pontos dos reservatórios da usina e no curso do rio Xingu. As amostras foram coletadas durante as estações seca e cheia no primeiro e no segundo ano após a inundação dos reservatórios (2016 e 2017) e comparadas com as emissões de GEE antes da construção e implantação da usina (2012 e 2014).
O aumento das emissões de GEE, em especial o metano, é causado pela decomposição de matéria orgânica em áreas inundadas. Estudos anteriores mostraram que a desaceleração da água do rio, que ocorre em todos os tipos de reservatórios, induz à sedimentação de partículas que aumentam a quantidade de matéria orgânica disponível para degradação e alta ebulição. No estudo, os cientistas observaram que áreas rasas de inundação chegam a representar até 45% da liberação total de gases do sistema.
“A importância do nosso estudo está no fato de conseguirmos fazer medições antes e depois da implantação de Belo Monte e compará-las”, ressalta Dailson Bertassoli Júnior, geólogo e primeiro autor do estudo. “Quantificamos de forma detalhada as emissões de Belo Monte e podemos afirmar que a liberação de gases aumentou na região.”
Os cientistas também avaliaram o oxigênio dissolvido na água, a velocidade do vento, o pH da água e a temperatura local e na superfície da água, mas não encontraram grandes variações.
“A importância do nosso estudo está no fato de conseguirmos fazer medições antes e depois da implantação de Belo Monte e compará-las”, ressalta Dailson Bertassoli Júnior, geólogo e primeiro autor do estudo. “Quantificamos de forma detalhada as emissões de Belo Monte e podemos afirmar que a liberação de gases aumentou na região.”
“O trabalho contribui para a obtenção de estimativas precisas das emissões de gases de efeito estufa pela matriz elétrica brasileira, que tem grandes usinas hidrelétricas como principal recurso energético”, afirma André Oliveira Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências (IGc) da USP e orientador de Bertassoli. “Estimativas precisas e transparentes das emissões de gases de efeito estufa devem estar disponíveis à sociedade que utiliza a energia hidrelétrica”, diz.
(A) Bacia do rio Amazonas e a localização do Complexo da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. (B) Mapas de uso da terra representando áreas inundadas, o canal original do rio e amostras de sítios para avaliar pré e pós-represamento – Foto: Science Advances
Demanda global de energia
O complexo de Belo Monte no rio Xingu é a maior usina hidrelétrica da Amazônia. Foi instalado ao longo de um sistema de múltiplos canais rochosos, conhecidos como Volta Grande do Xingu. Tem uma das maiores capacidades de geração de eletricidade do mundo e foi construída usando a tecnologia chamada fio d’água (da sigla ROR – Run Of the River, em inglês), que se baseia no fluxo natural do rio e requer reservatórios menores do que projetos baseados em armazenamento, como a Itaipu Binacional. Por esse motivo, é considerada uma alternativa mais sustentável.
No entanto, como explica Sawakuchi ao Jornal da USP, usinas de grande porte a fio d’água possuem reservatórios de área considerável, o que não garante baixas emissões de GEE. “Os dois reservatórios de Belo Monte ocupam área superior a 500 quilômetros quadrados (km²) e inundaram áreas de florestas marginais, ilhas de floresta aluvial (inundação sazonal) e áreas já desmatadas, além de reduzirem a velocidade da água em trecho de aproximadamente 80 km do rio Xingu”, explica o professor. “Mesmo com a retirada de grande parte da vegetação antes do alagamento, a matéria orgânica dos solos afogados é convertida em dióxido de carbono ou metano pela ação de micróbios.”
Sawakuchi diz, ainda, que por ser um rio de águas claras, também há grande produção de algas no rio Xingu. Ao morrerem, elas se depositam nas áreas de remanso dos reservatórios devido à redução da velocidade da água. “Isso também contribui para a produção de gases de efeito estufa.”
Outro dado que deve ser levado em consideração é a temperatura elevada das águas dos rios tropicais (cerca de 30 graus Celsius no rio Xingu) e a baixa concentração de oxigênio nas partes mais profundas ou de águas mais paradas, que induzem à ação dos micróbios produtores de metano – gás mais prejudicial que o dióxido de carbono. “Portanto, o fato de uma usina ser do tipo fio d’água não garante baixas emissões, pois há diversas outras variáveis envolvidas”, alerta o professor.
Para Bertassoli, o trabalho é importante pois dá uma ideia do impacto ambiental e social causado por uma usina desse porte. “Gases de efeito estufa são uma fração do problema. Para realizar um projeto como esse, precisamos entender os prós e os contras.”
Já Sawakuchi diz que aferir as emissões de gases de efeito estufa é importante para orientar decisões sobre planos de expansão da matriz elétrica brasileira. “Já há diversas usinas hidrelétricas de grande porte planejadas em rios da Amazônia.”
Um artigo com todos os detalhes da pesquisa foi publicado em junho na revistaScience Advances.
Este texto foi originalmente publicado pelo “Jornal da USP” [Aqui!].
As evidências de que o chamado “agronegócio” (cujo nome verdadeiro é latifúndio agro-exportador) é um dos principais responsáveis pela ampla circulação do Sars-Cov-2 no Brasil são inúmeras e já estão sendo documentadas pelos pesquisadores brasileiras sob a forma de artigos científicos (Aqui! e Aqui!). Mas agora uma reportagem do Portal Viu mostra que mesmo aqui na planície dos Goytacazes, temos o agronegócio sucro-alcooleiro jogando o papel de reunir trabalhadores em condições propícias para a contaminação e ampla circulação do vetor da COVID-19.
Como bem mostra a reportagem publicada pela Agência Fonte Exclusiva sobre o assunto, um total de 40 trabalhadores envolvidos no corte da cana foram identificados como portadores do coronavírus dentro de uma pousada que abrigava duas dezenas de cortadores de cana, o que demonstra que há um surto em curso, enquanto os trabalhadores são deixadas à mercê da própria sorte após dias exaustivos no corte da cana.
O mais curioso é que segundo novas matérias sobre o assunto apontando que até agora o Ministério Público do Trabalho (MPT) aparentemente ainda não se moveu para apurar as responsabilidades por essa contaminação em massa dos trabalhadores da cana em Campos dos Goytacazes. Tal fato me parece incompreensível, mas apenas confirma que quando se trata de enfrentar as mazelas causadas pelo modelo agro-exportador, a velocidade dos entes estatais é muito lento, mas muito lento mesmo.
Carta enviada em maio recebe apoio de nove gigantes do varejo e produção de alimentos do Reino Unido e da Holanda
Uma carta de empresários europeus ao congresso brasileiro alertando para não aprovarem o PL da grilagem acaba de ganhar a adesão de mais empresas do Reino Unido e da Holanda:
Nando’s,
Albert Heijn
Aquascot (produtor de salmão)
Centraal Bureau Levensmiddelenhandel (CBL)
C.I.V. Superunie B.A.
Jumbo Supermarkten B.V.
Nevedi (ração animal)
Ocado
Woolworths Group
Em maio, 38 grandes supermercados e produtores de alimentos britânicos e europeus já tinham enviado ao Congresso Nacional uma carta com ameaças de boicote caso o PL510/21 fosse aprovado. Segundo os empresários, a nova lei levaria a um desmatamento maior da Floresta Amazônica e de outros biomas.
Tanto o PL 510/2021, que tramita no Senado, quanto o PL 2633/2020, que tramita na Câmara dos Deputados, buscam legalizar a grilagem de terras. O requerimento para tornar o PL 2633/2000 pauta urgente foi aprovado com folga na sessão plenária desta terça-feira (13), por 330 votos a favor e 109 contrários. O fato de o assunto tramitar duplamente no Congresso mostra que a aprovação da matéria é provável.
Acadêmicos e ativistas brasileiros emitem alerta em meio a novo ataque às proteções ambientais
Os críticos temem que a Amazônia esteja sendo empurrada a um ponto sem volta com Jair Bolsonaro. Fotografia: Joédson Alves / EPA
Por Jonathan Watts para o “The Guardian”
O colapso dafloresta amazônica é inevitável se Jair Bolsonaro permanecer presidente do Brasil, alertaram acadêmicos e ativistas ambientais em meio a um novo ataque do governo às proteções para a floresta.
Apesar das evidências de que o fogo, a seca e o desmatamento estão empurrando a Amazônia para um ponto sem volta, eles dizem que o líder de extrema direita está mais interessado em aplacar o poderoso lobby do agronegócio e explorar os mercados globais que recompensam o comportamento destrutivo.
O ataque às salvaguardas florestais acelerou. Na quarta-feira, a Câmara dos Deputados deveria votar uma legislação que recompensaria os grileiros legalizando a posse de propriedades que haviam sido ilegalmente invadidas e desmatadas antes de 2014.
No dia anterior, o governo transferiu a responsabilidade pelo monitoramento por satélite de incêndios florestais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, uma organização cientificamente robusta que realizou a tarefa por décadas. O controle foi entregue ao Instituto Nacional de Meteorologia, que está sob a influência do Ministério da Agricultura e do setor agropecuário.
Nos últimos meses, o Congresso também diluiu os padrões para avaliações de impacto ambiental e uma comissão aprovou um projeto de lei – PL 490 – que foi descrito como o maior atentado aos direitos indígenas desde o lançamento da Constituição brasileira em 1988.
Todas essas medidas perfuram a estrutura de proteção da Amazônia e vão contra os pareceres científicos e os problemas no terreno. O Brasil está passando por uma seca crescente, que fez com que o fluxo de água em algumas usinas hidrelétricas caísse para mínimos de 91 anos. Esta é uma causa e um efeito do desmatamento.
Desde que Bolsonaro assumiu o poder em 2019, o desmatamento e os incêndios na Amazônia atingiram seus níveis mais altos em mais de uma década. Os últimos três meses mantiveram essa tendência, embora um pouco atrás dos picos do ano passado. Dadas as condições de seca em muitas partes da Amazônia, há temores de que o pico usual da temporada de incêndios em julho e agosto possa ser pior que o normal.
Os cientistas suspeitam que a floresta tropical pode estar entrando em uma série de ciclos viciosos. Em nível local, o desmatamento e as queimadas levaram a secas prolongadas e temperaturas mais altas, o que, por sua vez, enfraquece a resiliência do ecossistema e leva a mais incêndios.
Em nível regional, isso pode intensificar a seca porque a respiração da floresta tropical normalmente atua como uma bomba para impulsionar os sistemas de clima úmido em uma ampla área do Brasil, América do Sul e Atlântico. Quando a floresta enfraquece, essa bomba é menos eficaz.
Também há repercussões globais porque o desmatamento está transformando a região amazônica de amiga do clima em inimiga do clima. Um estudo publicado na Nature revela que a queima da floresta agora produz cerca de três vezes mais CO2 doque a vegetação remanescente é capaz de absorver. Isso acelera o aquecimento global.
As forças do mercado global são parcialmente responsáveis.O desmatamento tende a aumentar quando os preços da soja, da carne bovina e do ouro estão altos. Nenhum governo de qualquer tipo conseguiu parar completamente o desmatamento nas últimas quatro décadas. Mas as políticas governamentais fazem a diferença.
O desmatamento na Amazônia reduziu 80% entre 2004 e 2012 sob a administração do Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva. Bolsonaro desmantelou ou desacreditou continuamente os mecanismos que conseguiram isso – monitoramento por satélite, pessoal no local e legislação para punir os infratores e demarcar terras indígenas e áreas de conservação.
“A principal coisa que este governo fez foi minar a capacidade do estado de enfrentar o desmatamento ilegal”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório Brasileiro do Clima, uma rede de 50 organizações da sociedade civil.
Já no Congresso, Bolsonaro e o lobby do agronegócio “ruralista” colocaram mais apoiadores em posições-chave: Arthur Lira como líder do Congresso, Carla Zambelli como presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara e Bia Kicis como presidente da Comissão de Justiça. Esses políticos permitiram que a agenda dos ruralistas avançasse de forma mais agressiva.
“O governo brasileiro está fazendo exatamente o contrário do que precisa ser feito. Está estimulando ativamente o desmatamento por meio de suas políticas ”, disse Erika Berenguer, especialista em mudanças no uso da terra na Amazônia nas Universidades de Lancaster e Oxford. “Até recentemente, isso acontecia por meio de decretos e mudanças na política ministerial que cortavam orçamentos para o combate ao desmatamento. Agora, eles assumiram papéis mais importantes no Congresso, por isso estamos vendo projetos de lei ainda mais perigosos sendo aprovados ”.
Esta é uma preocupação global. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o presidente da França, Emmanuel Macron, alertaram sobre os perigos representados pelo declínio da floresta tropical. Supermercados e organizações financeiras no Reino Unido, Noruega, Alemanha, França e Austrália ameaçaram boicotar os produtos brasileiros, a menos que as cadeias de abastecimento possam ser garantidas sem desmatamento.
Na quarta-feira, 40 empresas, incluindo Islândia, Waitrose, Lidl, Tesco e Sainsbury’s emitiram uma carta aberta alertando que futuras erosões da legislação ambiental e dos direitos indígenas as forçariam a reconsiderar o uso de commodities agrícolas brasileiras. “Gostaríamos de reiterar que consideramos a Amazônia uma parte vital do sistema terrestre, essencial para a segurança do nosso planeta, além de ser uma parte crítica de um futuro próspero para os brasileiros e toda a sociedade”, disseram. Grupos verdes disseram que agora esperam que essas empresas coloquem suas ameaças em prática.
Entre muitos consumidores, o Brasil é visto como uma marca tóxica e a Bolsonaro parece cada vez mais isolada no cenário mundial. Mas essa pressão internacional teve pouco impacto. No mês passado, Bolsonaro demitiu seu ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, após uma denúncia da embaixada dos Estados Unidos sobre seu suposto envolvimento no contrabando ilegal de madeira. Mas Salles já havia destruído os órgãos de fiscalização e fiscalização florestal, e o verdadeiro poder por trás dele – a ministra da Agricultura, Tereza Cristina Dias – permanece no local.
Isso ocorre em parte porque os preços das commodities permanecem altos e a demanda é forte, especialmente na China, onde o governo coloca a aquisição de recursos acima da ética ambiental e a pressão da mídia é limitada por censura estrita. A China é o maior mercado do Brasil por uma grande margem.
Mas o principal motivo é a ideologia nacionalista do presidente. Segundo Astrini, Bolsonaro está tão exclusivamente focado na política doméstica que é indiferente à reputação internacional ou aos mercados globais. “Ele é o primeiro presidente brasileiro que tem uma agenda aberta de destruir proteções ambientais para ganhos políticos. Ele não se preocupa com o país, apenas com a reeleição. É tudo uma questão de base eleitoral ”, diz Astrini.
Em uma nota mais positiva, ele vê o Bolsonaro como um catalisador para a mudança. Desde que ele assumiu o poder, a floresta amazônica mudou para o centro do debate político. Vários candidatos nas eleições presidenciais do próximo ano agora têm compromissos de desmatamento zero em seus manifestos.
“Até Lula está dizendo que o desmatamento na Amazônia não pode mais ser sustentado por nenhum governo brasileiro. Ele nunca disse isso antes ”, disse Astrini. “Agora está claro que uma solução para a Amazônia só será possível se mudarmos de governo. Não há esperança se Bolsonaro for reeleito presidente. É a Amazônia ou o Bolsonaro. Não há espaço para ambos. ”
Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].
A redução das emissões é mais urgente do que nunca, dizem os cientistas, com a floresta produzindo mais de um bilhão de toneladas de dióxido de carbono por ano
O estudo descobriu que os incêndios produziram cerca de 1,5 bilhão de toneladas de CO2 por ano, com o crescimento da floresta removendo 0,5 bilhão de toneladas. O 1 bilhão de toneladas restantes na atmosfera é equivalente às emissões anuais do Japão. Fotografia: Carl de Souza / AFP / Getty Images
Por Damian Carrington Editor de Meio Ambiente do “The Guardian”
A floresta amazônicaagora está emitindo mais dióxido de carbono do que é capaz de absorver, confirmaram os cientistas pela primeira vez.
As emissões chegam a um bilhão de toneladas de dióxido de carbono por ano, de acordo com um estudo. A floresta gigante antes era um sumidouro de carbono, absorvendo as emissões que impulsionavam a crise climática, mas agora está causando sua aceleração, disseram os pesquisadores.
A maioria das emissões são causadas por incêndios, muitos deliberadamente destinados a limpar terras para a produção decarnee soja . Mas mesmo sem incêndios, temperaturas mais altas e secas significam que o sudeste da Amazônia se tornou uma fonte de CO2, em vez de um sumidouro.
O cultivo de árvores e plantas absorveu cerca de um quarto de todas as emissões de combustíveis fósseis desde 1960, com a Amazônia desempenhando um papel importante como a maior floresta tropical. Perder o poder da Amazônia de capturar CO2 é um forte aviso de que reduzir as emissões de combustíveis fósseis é mais urgente do que nunca, disseram os cientistas.
A pesquisa usou pequenos aviões para medir os níveis de CO2 de até 4.500 m acima da floresta na última década, mostrando como toda a Amazônia está mudando. Estudos anteriores indicando que a Amazônia estava se tornando uma fonte de CO2 foram baseados em dados de satélite, que podem ser dificultados pela cobertura de nuvens ou medições do solo de árvores, que podem cobrir apenas uma pequena parte da vasta região.
A destruição das florestas mundiais aumentou drasticamente em 2020
Os cientistas disseram que a descoberta de que parte da Amazônia estava emitindo carbono mesmo sem incêndios foi particularmente preocupante. Eles disseram que provavelmente era o resultado do desmatamento e dos incêndios a cada ano, tornando as florestas adjacentes mais suscetíveis no ano seguinte. As árvores produzem grande parte da chuva da região, portanto, menos árvores significam secas mais severas e ondas de calor e mais mortes de árvores e incêndios.
Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil e que liderou a pesquisa, disse: “A primeira notícia muito ruim é que a queima da floresta produz cerca de três vezes mais CO2 do que a floresta absorve. A segunda má notícia é que os locais onde o desmatamento é de 30% ou mais apresentam emissões de carbono 10 vezes maiores do que onde o desmatamento é inferior a 20%. ”
Menos árvores significam menos chuva e temperaturas mais altas, tornando a estação seca ainda pior para a floresta remanescente, ela disse: “Temos um ciclo muito negativo que torna a floresta mais suscetível a incêndios descontrolados”.
Grande parte da madeira, carne bovina e soja da Amazônia é exportada do Brasil. “Precisamos de um acordo global para salvar a Amazônia”, disse Gatti. Algumas nações europeias disseram quebloquearão um acordo comercial da UE com o Brasile outros países, a menos que Bolsonaro concorde em fazer mais para combater a destruição da Amazônia.
Marcas de alimentos desafiam as regras de desmatamento na lei ambiental do Reino Unido
A pesquisa, publicada na revista Nature, envolveu o levantamento de 600 perfis verticais de CO2 e monóxido de carbono, que é produzido pelas queimadas, em quatro locais na Amazônia brasileira de 2010 a 2018. Ela encontrou incêndios que produziram cerca de 1,5 bilhão de toneladas de CO2 a ano, com o crescimento da floresta removendo 0,5 bilhão de toneladas. O 1 bilhão de toneladas restantes na atmosfera equivale às emissões anuais do Japão, o quinto maior poluidor do mundo.
“Este é um estudo verdadeiramente impressionante”, disse o Prof Simon Lewis, da University College London. “Voar a cada duas semanas e manter medições laboratoriais consistentes por nove anos é um feito incrível.”
“O feedback positivo, onde o desmatamento e as mudanças climáticas impulsionam a liberação de carbono da floresta remanescente, o que reforça o aquecimento adicional e mais perda de carbono, é o que os cientistas temiam que acontecesse”, disse ele. “Agora temos boas evidências de que isso está acontecendo. A história do sumidouro até a fonte do sudeste da Amazônia é mais um forte aviso de que os impactos climáticos estão se acelerando ”.
O professor Scott Denning, da Colorado State University, disse que a campanha de pesquisa aérea foi heróica. “No sudeste, a floresta não está mais crescendo mais rápido do que está morrendo. Isso é ruim – ter o absorvedor de carbono mais produtivo do planeta mudando de um sumidouro para uma fonte significa que temos que eliminar os combustíveis fósseis mais rápido do que pensávamos. ”
Um estudo de satélite publicado em abril descobriu que a Amazônia brasileira liberou quase 20% mais dióxido de carbono na atmosfera na última década do que absorveu. Uma pesquisa que rastreou 300.000 árvores ao longo de 30 anos, publicada em 2020, mostrou que asflorestas tropicais estavam absorvendo menos CO2 doque antes. Denning disse: “Eles são estudos complementares com métodos radicalmente diferentes que chegam a conclusões muito semelhantes”.
“Imagine se pudéssemos proibir incêndios na Amazônia – poderia ser um sumidouro de carbono”, disse Gatti. “Mas estamos fazendo o oposto – estamos acelerando as mudanças climáticas.”
“A pior parte é que não usamos a ciência para tomar decisões”, disse ela. “As pessoas pensam que converter mais terras para a agricultura significará mais produtividade, mas na verdade perdemos produtividade por causa do impacto negativo nas chuvas.”
Estudo mostra que a maioria dos produtos liberados tem ingredientes ativos proibidos nos países europeus, devido à toxicidade. E que muitos deles foram aprovados no Brasil anos após o banimento por lá
Contaminação: avião agrícola pulveriza agrotóxicos em lavouras próximas ao rio
Por Cida de Oliveira, da RBA
São Paulo – A política de Jair Bolsonaro em relação aos agrotóxicos causa indignação não só pelo número recorde de produtos autorizados desde que assumiu, em janeiro de 2019. De lá para cá foram liberados 1.257 no total, dos quais apenas 160 de ação biológica. É como se um produto químico diferente chegasse ao mercado a cada dia.
O problema é que muitos desses “novos” produtos já foram proibidos em países da União Europeia há 20 anos. Uma proibição, aliás, decidida a partir de políticas baseadas em estudos científicos sobre os impactos trazidos à saúde humana e a outros organismos. Mas que são desprezados por órgãos do governo brasileiro.É o caso do herbicida Ametrina, banido em 2002. De 2019 para cá foi liberado para 20 “novos” produtos. Diretamente associado ao surgimento de câncer na próstata e no ovário, causa alterações nos organismos dos peixes. A Anvisa e o Ministério da Agricultura entendem que apesar disso vale a pena autorizar seu uso contra plantas invasoras em lavouras de abacaxi, algodão, banana, café, cana-de-açúcar, citros, mandioca, milho e uva, entre outras.
Agrotóxico contra a saúde
E também do herbicida Tebutiurom, banido na União Europeia no mesmo ano. Estudos mostram que a molécula deixa resíduos persistentes na água e em organismos em geral. Ou seja, segue causando danos por anos e anos. Mais recentemente, foi descoberto que a produto se acumula em peixes, nos quais causa alterações no sistema endocrinológico. Ou seja, tem ação sobre hormônios e pode prejudicar todo o funcionamento do organismo. Mesmo assim, de 2019 para cá, foi liberado como ingrediente ativo de 23 produtos ou em combinações, para cultivos de cana e as pastagens.
Sem contar o inseticida e acaridicida Clorfenapir, proibido em 2001. O mais velho da lista foi liberado para compor dez “novos” produtos destinados a culturas de acerola, algodão, alho, amora, amendoim, batata, cebola, citros, couve, crisântemo, eucalipto, feijão, framboesa, maracujá, mamão, melancia, melão, milho, morango, pimentão, pitanga, repolho, rosa, soja e tomate. Itens muito presentes na alimentação dos brasileiros.
“São moléculas muito antigas, que correspondem a 70% do total liberado. E muitos foram autorizados no Brasil depois de terem sido banidos em outros países. É uma vergonha um país fazer papel de lixeira”, disse à RBA Sonia Corina Hess, professora aposentada do curso de Engenharia Florestal e Agronomia do campus Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Juntamente com o professor e pesquisador Rubens Onofre Nodari,do Centro de Ciências Agrárias da mesma universidade, e a pesquisadora Mônica Lopes Ferreira, do Instituto Butantan,ligado ao governo estadual paulista, Sonia analisou as autorizações para a comercialização e o consumo de agrotóxicos no país na última década.
Liberações no governo Bolsonaro
E com olhos mais atentos sobre as liberações nos três primeiros semestres do governo Bolsonaro. Os resultados foram publicados no último dia 30, em artigo na revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A edição foi toda dedicada à discussão do agronegócio em tempos de colapso planetário.
Diante dos dados encontrados, a professora passou a analisar o conjunto das autorizações recorde do Ministério da Agricultura, comandado pela ruralista Tereza Cristina, a “musa do veneno”. O apelido foi dado em 2018, quando a ainda deputada federal, então presidente de comissão especial, conseguiu aprovar o substitutivo para o PL 5.622 – o Pacote do Veneno –, que está pronto para ser votado pelo plenário. Se for aprovado, a importação, produção, rotulagem, venda, distribuição, uso e armazenamento de agrotóxicos ficarão facilitados. Por isso o tema desperta o interesse de todos.
Do total de “novos” produtos autorizados recentemente, há 522 (41,5%) contendo 153 ingredientes ativos, dos quais 53 banidos ou sequer registrados nesses países, conforme apurou Sonia Hess. Mas isso não foi motivo suficiente para serem excluídos.
A tabela a seguir mostra quais são os principais ingredientes banidos, o ano da proibição e em quantos “novos” produtos são utilizados. Repare os danos à saúde humana e ambiental atribuídos ao seu contato.
“E ainda autorizam produto ‘venenosíssimo’, proibido na União Europeia, para ser usado em alface, repolho, couve”, disse a professora, referindo-se à Bifentrina. O ingrediente ativo banido há 11 anos está em 22 dos “novos” produtos, para uso nas culturas de acelga, agrião, alface, almeirão, brócolis, centeio, cevada, chicória, couve, couve-chinesa, couve-flor, couve-de-bruxelas, espinafre, repolho, rúcula e tomate, entre outros.
E também ao inseticida e acaricida Tolfenpirade, autorizado no final de dezembro passado. Muito perigoso ao meio ambiente e altamente tóxico, é autorizado para o cultivo de brócolis, mandioca, alface, couve, couve-de-Bruxelas, couve-flor, repolho e tomate.
A produção de hortaliças, entretanto, não está entre os principais alvos dos agrotóxicos, e sim às lavouras de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, que se estendem por latifúndios. Essas culturas consomem 80% de todo o agrotóxico vendido no Brasil, conforme o atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia,de Larissa Bombardi.
Pulverizações aéreas
Embora esses produtos sejam de exportação no mercado de commodities, o Brasil sofre com as consequências do uso desses produtos. As pulverizações aéreas de misturas de venenos contaminam o solo, os rios e lençóis freáticos a quilômetros de distância da aplicação, sem contar os impactos à saúde das populações atingidas.
Mais de 60% das empresas que têm obtido registros no Brasil estão sediadas na China, que por sua vez é o maior comprador da soja brasileira produzida sob banhos de agrotóxicos. Para o agrônomo Leonardo Melgarejo, coordenador-adjunto do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, esses empresários estariam se aproveitando de vantagens.
Por um lado usufruem das facilidades para despejar aqui esses produtos todos. “É uma enxurrada de venenos proibidos na União Europeia que vão sendo produzidos com outros nomes, em combinações com outros nomes, sem submeter a análises. Então, sem ser avaliados, estes antigos aparecem aqui como ‘novidade’, de ‘ficha limpa’. Uma vergonha com articulação internacional para ‘lavagem’”, disse.
Lucros com agrotóxicos
Por outro lado lucram com a soja comprada. “Até porque o volume de veneno aplicado supera em milhares de vezes o que retorna, dentro dos grãos. E em todas as nações, mesmo no socialismo chinês, a morte de pessoas por sequelas dos agrotóxicos não é considerada problemática. Afeta especialmente os mais pobres e idosos”, disse à RBA.
Entre 2010 e 2018 a venda de agrotóxicos no Brasil aumentou 43%. Partiu de 384.501,28 toneladas para 549.280,44 em 2018. No mesmo período, porém, a área cultivada para as culturas temporárias e permanentes cresceu apenas 20%, passando de 65.374.591 hectares para 78.502.422 hectares em 2018, conforme o IBGE.
O sinal verde de Bolsonaro aos agrotóxicos banidos na União Europeia já era comum em outros governos, mas não com a mesma intensidade. Em 2003 foram aprovados dez produtos, dos quais sete banidos no ano anterior. E sete banidos em 2009 foram autorizados no Brasil em 2010, 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, conforme o gráfico.
Este texto foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].
Em mais uma manobra para enfraquecer o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e por tabela a ciência de excelência que seus pesquisadores realizam há décadas, o governo Bolsonaroretirou da alçada do órgão a atribuição de divulgar os dados sobre queimadas e incêndios florestais na Amazônia,repassando a tarefa para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), este órgão abrigado mais do que convenientemente no Ministério da Agricultura, comandado pela “pesticide lover”, Tereza Cristina (DEM/MS).
A explicação estapafúrdia dada para justificar mais este ataque ao Inpe e à ciência brasileira é de que esse movimento irá facilitar a integração de dados, visto que o Inmet cuidaria da parte meteorológica e agora irá também cuidar da divulgação dos dados de queimada e incêndios florestais. Essa explicação não faz o menor sentido cientificamente, pois a “expertise científica” estabelecida no Inpe, onde existem pesquisadores de renome internacional justamente por causa dos estudos ali conduzidos sobre queimadas e incêndios florestais, que o movimento contrário seria o mais óbvio, até porque no Inpe está localizado o chamado “Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos” (Cpetec), que é outro nicho de excelência científica operando dentro do Inpe.
Esse movimento é do tipo “jogar fumaça nos olhos” não apenas da comunidade científica que depende dos dados gerados pelo Inpe para fazer estudos justamente sobre queimadas e incêndios, mas também para dificultar o monitoramento por parte dos principais parceiros comerciais brasileiros que hoje cobram não apenas um maior controle sobre o desmatamento, mas também dos pontos de queimadas e incêndios florestais.
Lembro aqui que no artigo que foi publicado na Science em setembro de 2020, identificamos a área atingida pelos incêndios florestais e demonstramos que eles são um dos principais agentes de degradação da floresta amazônica. Assim, fica evidente que não está se operando um esforço para dificultar a transparência sobre o que, de fato, está ocorrendo em termos da área atingida e degradada por incêndios, mas principalmente que se identifique onde incêndios criminosos estão sendo iniciados para acelerar a degradação dos biomas amazônicos.
Por outro lado, há que se lembrar que 2021 deverá ter um dos maiores ciclos de queimadas e incêndios florestais das últimas décadas em função do desmatamento recorde que vem ocorrendo na Amazônia brasileira ao longo deste ano. Assim, é quase certo que os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, via o Inmet, não terão o mesmo nível de excelência do trabalho realizado pelos pesquisadores do Inpe nas últimas décadas.
Mas uma coisa parece estar sendo ignorada pelos mentores dessa manobra: a expertise criada pelo Inpe sobre a incidência de queimadas e incêndios florestais já gerou dezenas de projetos de pesquisa em universidades brasileiras e internacionais, e que irão continuar monitorando de forma mais fidedigna a ocorrência de queimadas e incêndios florestais não apenas na Amazônia, mas nos demais biomas florestais brasileiros. Em outras palavras: a ciência pode ser atrapalhada e boicotada, mas dificilmente se consegue impedir o seu funcionamento dada a capilarização que mais de 200 anos de avanços científicos já garantiram.
Equipar comunidades indígenas na Amazônia com tecnologia de monitoramento remoto pode reduzir o desmatamento ilegal, concluiu um novo estudo.
Entre 2018 e 2019, pesquisadores implementaram programas de monitoramento florestal de base tecnológica em 36 comunidades na Amazônia peruana.
Em comparação com outras comunidades onde o programa não foi implementado, aquelas sob o programa viram 52% e 21% menos desmatamento em 2018 e 2019, respectivamente.
Os ganhos foram concentrados em comunidades com maior risco de desmatamento devido a ameaças como extração de madeira e mineração ilegal.
Por Sheryl Lee Tian Tong para o Mongabay
Ensinar comunidades indígenas na Amazônia a usar tecnologias de monitoramento remoto durante o patrulhamento florestal pode reduzir o desmatamento ilegal, concluiu um novo estudo.
Pesquisadores, cujo trabalho foi publicado em 12 de julho nos Anais da Academia Nacional de Ciências (PNAS), implementaram programas de monitoramento florestal de base tecnológica em 36 comunidades em Loreto, departamento mais ao norte do Peru, entre 2018 e 2019. Eles treinaram e pagaram três representantes de cada comunidade para patrulhar suas florestas mensalmente e verificar relatórios de suspeita de desmatamento usando um aplicativo de smartphone e dados de satélite.
Em comparação com outras 37 comunidades em Loreto onde o programa não foi implementado, aquelas sob o programa viram 52% e 21% menos desmatamento em 2018 e 2019, respectivamente. Os ganhos foram concentrados em comunidades com maior risco de desmatamento devido a ameaças como mineração ilegal, extração de madeira e plantio de safras ilícitas como coca para a fabricação de cocaína, descobriram os pesquisadores.
A colaboração entre Rainforest Foundation US (RFUS), o World Resources Institute (WRI), líderes indígenas e pesquisadores independentes é a última em um crescente corpo de pesquisa que afirma que reconhecer e proteger os direitos indígenas é a maneira mais eficaz de preservar as florestas tropicais naturais. Na América Latina, estudos têm mostrado que os povos indígenas são, de longe, os melhores guardiões das florestas da região, com taxas de desmatamento até 50% mais baixas em seus territórios do que em outros lugares.
Um terço da Floresta Amazônicaestá dentro de territórios indígenas formalmente reconhecidos. Os programas de monitoramento florestal comunitário, juntamente com o apoio de autoridades locais, podem economizar um quinto dos 2,7 milhões de hectares (6,7 milhões de acres) de floresta tropical nos territórios indígenas brasileiros e peruanos que provavelmente serão perdidos na próxima década, estimou o RFUS.
Os indígenas Kichwa de Pucayayu se localizam enquanto avançam pelos manguezais da floresta tropical para investigar alertas de desmatamento. Crédito da foto: Gilbertano Salazar MamallactaLíderes comunitários de Buen Jardín del Callaru se juntam a agentes ambientais para investigar uma derrubada ilegal de floresta tropical em seu território. Crédito da foto: Miguel Rivera Cruz
Alertas de desmatamento de dados de satélite estão disponíveis publicamente há muito tempo. A ferramenta Global Forest Watch (GFW) do WRI depende de um algoritmo desenvolvido por pesquisadores universitários para detectar mudanças na cobertura florestal por meio de imagens de satélite. No Peru, a plataforma nacional Geobosques usa dados GFW para emitir alertas precoces de suspeita de desmatamento.
No entanto, esses alertas raramente chegam a grupos remotos de floresta tropical sem acesso confiável à Internet, resultando em comunidades que geralmente detectam atividades ilegais de desmatamento apenas quando estão em andamento e são difíceis de interromper.
“A questão é colocar as informações de desmatamento nas mãos dos mais afetados por suas consequências e quem pode tomar medidas para impedi-lo”, disse Tom Bewick, que é o diretor do RFUS no Peru e que esteve envolvido no estudo. em um comunicado.
Durante o estudo de dois anos, os pesquisadores contrataram mensageiros para atravessar o rio Amazonas e seus afluentes todos os meses para entregar drives USB contendo relatórios de geoboscópios de suspeita de desmatamento para comunidades remotas.
Representantes treinados, ou monitores, então carregariam essas informações em um aplicativo de smartphone especializado, que eles usariam para navegar até os locais de distúrbios florestais durante suas patrulhas mensais. Quando identificassem casos de desmatamento não autorizado, os monitores tirariam fotos como evidência e sinalizariam para a comunidade, que poderia decidir denunciá-lo às autoridades locais.
Camila Montoya, uma monitora Ticuna, investigando e documentando uma área recentemente incendiada no Baixo Rio Amazonas. Crédito da foto: ORPIO / RFUSOs monitores usam o aplicativo para smartphone Locus Map para identificar coordenadas GPS de desmatamento para suas patrulhas regulares. Crédito da foto: Cameron Ellis
“Estamos ajudando-os a estabelecer este sistema pelo qual eles podem coletar as evidências, mas nossa esperança é que então vamos embora”, disse Suzanne Pelletier, diretora executiva do RFUS, em um vídeo. “Eles podem então treinar outras pessoas e ser o modelo para milhares de outras comunidades em toda a Amazônia.”
Mas embora os créditos baseados na natureza tenham sido tradicionalmente afetados pelo problema de vazamento – onde projetos de conservação de ecossistemas, mesmo se bem-sucedidos em uma área, muitas vezes transferem o desmatamento para outro local – os pesquisadores não observaram tal deslocamento de desmatamento para as comunidades em seu estudo.
Eles teorizaram que isso poderia ser devido à inacessibilidade das florestas em Loreto. “Na região que estudamos, na ausência geral de estradas, a maior parte do transporte ocorre por barco. Como resultado, as áreas mais vulneráveis ao desmatamento estão localizadas próximas a rios navegáveis ”, escreveram em seu relatório. Como as comunidades indígenas em Loreto também tendem a viver ao longo do rio, os programas de monitoramento florestal comunitário aumentam o custo da extração de recursos, disseram eles.
O monitor Kichwa Mao Ketano aponta para um alerta no mapa de satélite da bacia do rio Napo. Crédito da foto: ORPIO / RFUSUm monitor Kichwa preenche um relatório confirmando a ocorrência de desmatamento ilegal após retornar de uma patrulha florestal. Crédito da foto: Melvin Shipa Sihuango
“O estudo fornece evidências de que apoiar nossas comunidades com a mais recente tecnologia e treinamento pode ajudar a reduzir o desmatamento em nossos territórios”, disse Jorge Perez Rubio, presidente do Grupo Indígena Organização Regional do Povo da Amazônia Oriental (ORPIO), em um comunicado . ORPIO trabalhou com RFUS e WRI para implementar os programas de monitoramento florestal no estudo.
“Nossa rede está pronta para fazer parceria com a Rainforest Foundation US para aplicar este modelo de tecnologia às nossas iniciativas comunitárias de proteção florestal em toda a bacia”, disse Gregorio Mirabal, coordenador geral do Coordenador de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), em uma afirmação. A COICA, que não participou do estudo, é uma associação guarda-chuva de organizações indígenas da baixada amazônica, da qual a ORPIO faz parte.
Imagem de banner dos Kichwa indígenas de Pucayayu navegando por manguezais na floresta tropical a caminho para investigar alertas de desmatamento por Gilbertano Salazar Mamallacta.
Nota do editor: Esta história foi apoiada por XPRIZE Rainforestcomo parte de sua competição de cinco anos para melhorar a compreensão do ecossistema da floresta tropical. Em relação à política do Mongabay sobre independência editorial, XPRIZE Rainforest não tem o direito de atribuir, revisar ou editar qualquer conteúdo publicado com seu apoio.
Citações:
Slough, T., Kopas, J., & Urpelainen, J. (2021). Alertas de desmatamento por satélite com treinamento e incentivos para patrulhamento facilitam o monitoramento comunitário na Amazônia peruana. Proceedings of the National Academy of Sciences. doi:10.1073 / pnas.2015171118
Walker, W. S., Gorelik, S. R., Baccini, A., Aragon-Osejo, J. L., Josse, C., Meyer, C., Schwartzman, S. (2020). O papel da conversão, degradação e perturbação florestal na dinâmica do carbono dos territórios indígenas e áreas protegidas da Amazônia. Proceedings of the National Academy of Sciences , 117 (6), 3015-3025. doi:10.1073 / pnas.1913321117
Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo Mongabay News [Aqui!].