Pondo fumaça nos olhos: governo Bolsonaro retira do INPE a divulgação dos dados de queimadas e incêndios na Amazônia

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Em mais uma manobra para enfraquecer o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e por tabela a ciência de excelência que seus pesquisadores realizam há décadas, o governo Bolsonaro retirou da alçada do órgão a atribuição de divulgar os dados sobre queimadas e incêndios florestais na Amazônia, repassando a tarefa para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), este órgão abrigado mais do que convenientemente no Ministério da Agricultura, comandado pela “pesticide lover”, Tereza Cristina (DEM/MS).

A explicação estapafúrdia dada para justificar mais este ataque ao Inpe e à ciência brasileira é de que esse movimento irá facilitar a integração de dados, visto que o Inmet cuidaria da parte meteorológica e agora irá também cuidar da divulgação dos dados de queimada e incêndios florestais. Essa explicação não faz o menor sentido cientificamente, pois a “expertise científica” estabelecida no Inpe, onde existem pesquisadores de renome internacional justamente por causa dos estudos ali conduzidos sobre queimadas e incêndios florestais, que o movimento contrário seria o mais óbvio, até porque no Inpe está localizado o chamado “Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos” (Cpetec), que é outro nicho de excelência científica operando dentro do Inpe.

Esse movimento é do tipo “jogar fumaça nos olhos” não apenas da comunidade científica que depende dos dados gerados pelo Inpe para fazer estudos justamente sobre queimadas e incêndios, mas também para dificultar o monitoramento por parte dos principais parceiros comerciais brasileiros que hoje cobram não apenas um maior controle sobre o desmatamento, mas também dos pontos de queimadas e incêndios florestais.

Lembro aqui que no artigo que foi publicado na Science em setembro de 2020, identificamos a área atingida pelos incêndios florestais e demonstramos que eles são um dos principais agentes de degradação da floresta amazônica. Assim, fica evidente que não está se operando um esforço para dificultar a transparência sobre o que, de fato, está ocorrendo em termos da área atingida e degradada por incêndios, mas principalmente que se identifique onde incêndios criminosos estão sendo iniciados para acelerar a degradação dos biomas amazônicos.

Por outro lado, há que se lembrar que 2021 deverá ter um dos maiores ciclos de queimadas e incêndios florestais das últimas décadas em função do desmatamento recorde que vem ocorrendo na Amazônia brasileira ao longo deste ano. Assim, é quase certo que os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, via o Inmet,  não terão o mesmo nível de excelência do trabalho realizado pelos pesquisadores do Inpe nas últimas décadas. 

Mas uma coisa parece estar sendo ignorada pelos mentores dessa manobra: a expertise criada pelo Inpe sobre a incidência de queimadas e incêndios florestais já gerou dezenas de projetos de pesquisa em universidades brasileiras e internacionais, e que irão continuar monitorando de forma mais fidedigna a ocorrência de queimadas e incêndios florestais não apenas na Amazônia, mas nos demais biomas florestais brasileiros.  Em outras palavras: a ciência pode ser atrapalhada e boicotada, mas dificilmente se consegue impedir o seu funcionamento dada a capilarização que mais de 200 anos de avanços científicos já garantiram.

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