Palestinos convocam greve geral

No Oriente Médio, os ataques de Israel e do Hamas continuam. Os palestinos estão expandindo o conflito. Os EUA continuam a rejeitar um papel ativo de mediador.

crianças gaza

As crianças estão sendo levadas para um local seguro na Cidade de Gaza. © Anas Baba / AFP / Getty Images

No conflito entre Israel e o radical islâmico Hamas, os palestinos convocaram uma greve geral nacional na terça-feira. A mídia local informou que a intenção era protestar contra os ataques israelenses a Gaza, o deslocamento forçado de palestinos de Jerusalém e a violência dos colonos israelenses. Marchas de protesto são esperadas em todas as grandes cidades e nos postos de controle entre Israel e a Cisjordânia.

Enquanto isso, militantes israelenses e palestinos continuam seus ataques com severidade inalterada. Os caças israelenses voltaram a atacar alvos na Faixa de Gaza. Segundo os militares, as casas de nove comandantes de alto escalão da militante organização palestina Hamas e túneis de extremistas com extensão total de 15 quilômetros foram destruídos. Hasam Abu Harbid, líder do grupo militante Jihad Islâmica, também foi morto nos ataques.

Mais feridos em Ashdod – situação precária na Faixa de Gaza

Testemunhas falaram sobre os piores ataques desde o início da guerra, há uma semana. O prefeito de Gaza, Jahja Sarradsch, disse à estação de televisão Al-Jazeera que os ataques aéreos haviam causado estragos em estradas e outras infraestruturas. Combustível e peças sobressalentes se tornariam escassos na Faixa de Gaza. Um porta-voz da empresa local disse que o combustível para a usina que alimenta Gaza duraria dois ou três dias. As linhas destruídas não podem ser reparadas no momento por causa dos ataques israelenses.

Por outro lado, os ataques com foguetes de Gaza também continuaram. As milícias da Jihad Islâmica também relataram que novamente dispararam foguetes na direção de Tel Aviv. Em Israel, o alarme disparou, principalmente perto da Faixa de Gaza. Dez feridos tiveram que receber atendimento médico em Ashdod. Três deles ficaram feridos por vidros quebrados, disse o serviço de ambulância Magen David Adom.

De acordo com o exército israelense, um total de cerca de 3.200 foguetes foram disparados da Faixa de Gaza em direção a Israel desde a última segunda-feira, mais de um terço dos quais foram interceptados pelo sistema de defesa Iron Dome. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou em um discurso na televisão que a “campanha contra organizações terroristas” continuaria com força total.

EUA ainda apenas em um papel passivo

Os apelos internacionais para o fim da violência desapareceram até agora. Acima de tudo, o Egito está tentando intermediar um cessar-fogo. Um diplomata no Cairo disse que há duas questões principais: encerrar os ataques de ambos os lados e interromper as operações israelenses em Jerusalém, que contribuíram para o conflito. O governo dos Estados Unidos deve pressionar Israel para encerrar sua ofensiva.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, deixou claro que os EUA não se juntariam a essas iniciativas. Os EUA lutaram por si próprios no quadro da “diplomacia intensiva”. No entanto, “em última análise, cabe às próprias partes deixar claro que estão lutando por um cessar-fogo”, disse Blinken. Pela terceira vez, o governo dos Estados Unidos está bloqueando uma declaração conjunta do Conselho de Segurança da ONU sobre a escalada da violência.

O líder do Hamas, Ismail Haniya, que vive no exterior, disse ao jornal libanês Al-Akhbar que sua organização foi contatada pelas Nações Unidas, Rússia, Egito e Qatar como parte dos esforços para garantir um cessar-fogo. Mas nenhuma “solução será aceita que não corresponda às vítimas do povo palestino”.

fecho

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pela revista Zeit [Aqui!].

Nova assembleia constituinte chilena deverá enterrar Constituição de Pinochet e sua ordem neoliberal

manifestantes-en-plaza-italia_336964_1_60a1f8ae2eddf

As apurações para a Assembleia Constituinte que deverá escrever a nova carta magna do Chile apontam por um lado para uma vitória retumbante dos candidatos independentes e dos partidos de esquerda e, por outro, para uma derrota fragorosa dos partidos de direita liderados pelo presidente Sebastián Pinera que conseguiram pouco mais de 20% dos votos (em torno de 37 deputados constituintes), o que impedirá que possam brecar propostas mais radicais da constituição herdada do regime militar de Augusto Pinochet (ver imagem abaixo).

chile elige

Além disso, a capital do Chile, Santiago, elegeu uma comunista, Iraci Luiza Hassler, para ser a sua próxima prefeita,  o que por si só demonstra o tamanho do baque sofrida pelos partidos da direita e até da centro-esquerda que se acostumaram ao revezamento no poder desde o final do regime militar de Pinochet. 

TVenserio.com 📺 (@tvenseriocom) | Twitter

O fato é que com essa derrota acachapante da direita, que perde o direito a vetar mudanças drásticas na Constituição pinochetista, o povo chileno acaba de enterrar a ordem neoliberal que foi imposta pelo regime militar.  Essa derrota do modelo neoliberal deverá servir de exemplo para toda a América Latina.

Uma lição importante é que a derrota eleitoral da direita no Chile só foi possível após poderosas mobilizações sociais, inclusive aquela que impôs a realização de uma assembleia constituinte que agora tem seus deputados eleitos. E que isto sirva para a esquerda que continua apostando em um parlamento controlado pelos defensores do neoliberalismo para obter mudanças pontuais, enquanto acumulamos derrotas estratégicas.

Sequelas graves da COVID-19, uma crise de oculta que piora o caos na saúde brasileira

sequelas

Uma das formas mais insidiosas de minimizar o impacto da pandemia da COVID-19 é contrapor o score dos casos de pessoas infectadas pelo coronavírus contra os de pessoas “recuperadas” da infecção.  Essa contraposição dá a ideia de que alguém que se livrou da infecção causada pelo coronavírus volta imediatamente para as condições em que se encontrava anteriormente.

Esse tipo de mensagem está longe de ser a realidade de uma proporção significativa dos casos de pessoas de infectadas que acabam com sequelas graves por causa da COVID-19.  Relatos de um número considerável de pessoas dão conta de problemas variados, incluindo problemas permanentes no sistema pulmonar, dificuldades de circulação sanguínea chegando a alterações no funcionamento do sistema nervoso.

A consequência disso é que o sistema brasileiro de saúde ficará sobrecarregado com casos de pessoas que desenvolveram sequelas causadas pelas formas mais graves da COVID-19, e o que é pior, em um contexto de encurtamento do financiamento dos serviços públicos de saúde por causa da aplicação da PEC do Teto de Gastos.

Por isso mesmo é que o afrouxamento das medidas de isolamento social que estão sendo aplicadas não fazem o menor sentido, na medida que isso criará inevitavelmente as condições propícias para mais uma onda (está mais para tsunami) não apenas de novos casos de infecção, mas também de pacientes que desenvolvem sequelas graves quando acometidas pelas formas mais graves da COVID-19.

O fato é que enquanto o Brasil não realizar uma efetiva vacinação em massa, o mais indicado é a manutenção de formas mais estritas de isolamento social, a despeito das pressões que estão sendo feitas no sentido contrário.

Insegurança: não há espaço para reabertura das escolas, diz professor de Medicina da USP

Em audiência no Senado, líder do laboratório que monitora a COVID-19 em tempo real na USP, o benefício do retorno às aulas pode ser superado pelas perdas

volta-as-aulas-não

A volta às aulas presenciais na pandemia é considerada uma falsa solução para o problema da pandemia

Por Cida de Oliveira para a RBA

São Paulo – A reabertura das escolas sem a testagem em larga escala antes da vacinação contra a COVID-19 é condenada pelo professor de medicina Domingos Alves, da USP de Ribeirão Preto. Em audiência pública no Senado nesta sexta-feira (14), para discutir estratégias para o retorno seguro às aulas presenciais, ele afirmou que os benefícios em reabrir escolas e universidades para aulas presenciais não podem ser ultrapassados pelas perdas acarretadas pela iniciativa.

“O que é necessário é uma solução real para o problema. E não uma solução falsa, que torne o problema da pandemia ainda mais grave. Os níveis seguros (para a reabertura) resultam da redução da transmissão comunitária, que deve ser a medida real para autorizar o retorno das atividades presenciais. Para isso é preciso rastreamento de casos e isolamento”, explicou Alves, que lidera o Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS), que monitora a COVID-19 em tempo real com base na ciência de dados.

O especialista contestou dados apresentados pelo médico Márcio Sommer Bittencourt, do Hospital Universitário (HU) da USP, de que crianças se contaminam menos e transmitem menos o novo coronavírus, além de sofrerem menos complicações e óbitos que os adultos.

Retorno às aulas presenciais

“Até agosto de 2020, o número de mortes na faixa etária de 0 a 19 anos causadas pela COVID-19 era de 718, o que correspondia a 0,68% do total de óbitos pela doença em todo o país. No começo de abril, o número subiu para 5.216, equivalente a 1,43% do total de casos”, disse, com base em estatísticas de boletins do Ministério da Saúde.

Alves também contestou argumento do epidemiologista Wanderson de Oliveira, então técnico da pasta e da equipe do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. Atual secretário de Serviços Integrados de Saúde do Supremo Tribunal Federal (STF), Wanderson defendeu a reabertura das escolas, especialmente em municípios onde o número de novos casos diários em grupos de 100 mil habitantes seja inferior a 5. “Até onde eu sei, nenhum município chegou a esse patamar”, afirmou.

Defendida pelo Fundo Internacional da ONU para a Infância (Unicef) para a redução das desigualdades sociais e educacionais, a reabertura das escolas, inclusive universidades federais, é tema do projeto de Lei (PL) 5.595/2020. A proposta inclui a educação no rol dos serviços essenciais. Aprovado na Câmara, o PL que agora tramita no Senado é de autoria da deputada e empresária apoiadora de Bolsonaro Paula Belmonte (Cidadania-DF). Ela é casada com Luis Felipe Belmonte, Aliança pelo Brasil, mas o projeto naufragou. Luís Felipe Belmonte, um dos fundadores da Aliança Pelo Brasil, partido criado para abrigar Bolsonaro, mas cujo projeto naufragou. Por sua vez, ele é investigado em inquérito que apura financiamento de atos antidemocráticos, além de ser suspeito de enriquecimento ilícito. .

Faltam recursos

Na audiência, o representante do Ministério da Educação, Mauro Luis Rabelo, defendeu o retorno imediato das aulas presenciais, alegando que repasses de programas mantidos pelo governo federal são suficientes para garantir a implementação de medidas de segurança. Mas não acenou recursos novos para essa finalidade.

A fala de Rabelo foi contestada pela gestora de educação no município de Oliveira (MG), Andrea Pereira da Silva, que representou a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). E também pela vice-presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Joana Angélica Guimarães, reitora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

“Não há como fazer educação remota, porque a maioria dos alunos não tem computadores e nem acesso à internet. E o direito à educação pressupõe o direito à vida: Não podemos fechar os olhos a todos os problemas nas escolas que impedem um retorno seguro. E os recursos para isso são insuficientes”, disse Andrea. O veto do presidente Jair Bolsonaro à Lei da Conectividade, que prevê recursos para compra de tablets e acesso à banda larga deverá ser apreciado no Senado nesta próxima semana.

escola_vazia-1024x643

Governo e apoiadores de Bolsonaro querem a reabertura das escolas Foto: Agência Senado

Aulas presenciais

Joana afirmou que as universidades vêm se preparando para o retorno às aulas. Já há aulas presenciais em alguns cursos em diversas instituições, ao passo que avança o ensino híbrido. Mas quaisquer medidas requerem investimentos, enquanto o setor enfrenta cortes orçamentários e recursos em patamares iguais aos de 2004. “Essa discussão é muito importante. Educação é essencial. Mas não há vacinas para todos. E pensar em um retorno fica muito difícil com grande redução de recursos. Esta é a grande questão”.

A crítica ao retorno e ao PL que o determina foram criticados ainda pela deputada Professora Dorinha Seabra Rezende (DEM-TO), relatora do PL 2.949/2020, do retorno seguro. “Precisamos construir condições para que escolas funcionem para receber os alunos”, disse, destacando a situação de quase metade delas. Segundo dados oficiais, 49% sequer tem água, carteira e pátio para atividades externas. Já muitas outras chegam a ter a circulação de 1.500 alunos.

A senadora Zenaide Maia (Pros-RN) fez coro à fala de Dorinha: “Quem lida com educação está mais do que consciente do papel da escola além do ensino, da socialização e também na segurança alimentar de grande parte de alunos – pilares estes que foram apropriados pelos defensores da reabertura das escolas. E questionou a importância do PL em discussão. “Paula (Belmonte), com todo respeito, não há necessidade desse PL para melhorar a educação. A gente já sabe o que precisa para o retorno: vacinação”.

PL do retorno seguro

Iniciativa do senador Jean Paul Prates (PT-RN), a audiência ouviu ainda, entre outros palestrantes, o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Heleno Araújo. O dirigente pediu a aprovação do “PL do retorno seguro” e a derrubada dos vetos no PL da Conectividade . “O PL 5.595 nos leva à infecção e morte.”

Também manifestou-se o professor da Faculdade de Educação da USP, Daniel Cara, que pediu ao Senado mudanças no PL 5.595 aprovado na Câmara. Entre elas, retirar a menção da educação presencial como serviço ou atividade essencial. E inserir que o retorno presencial deverá ser quando for seguro do ponto de vista epidemiológico. “Reitero a necessidade de o Senado fazer as alterações necessárias e encaminhe no sentido de construir um retorno seguro às atividades presenciais nas escolas brasileiras”

fecho

Este texto foi publicado inicialmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Bolsoflix, uma plataforma que divulga conteúdos que mostram o governo Bolsonaro como ele é

bolsoflix

Sem muito alarde comercial acaba de ser lançado o “Bolsoflix“, uma plataforma que, segundo seus idealizadores, foi criada por um coletivo “independente e apartidário” que não aguenta mais o (des) governo Bolsonaro.

O “teaser” abaixo já dá uma boa ideia de que o “Bolsoflix”  está sendo produzido por gente que entende do riscado, pois o uso de imagens é bastante criativo, tendo como foco, obviamente, a figura do presidente Jair Bolsonaro.

O “Bolsoflix” opera nos mesmos moldes do “Netflix”, mas com a peculiaridade do menu composto por itens como “Pandemia”, “Corrupção”, “Violência”, “Mentiras”, “Economia” e “Arrependidos” está todo composto por vídeos associados ao presidente Bolsonaro, seus ministros ou mesmo seus filhos com cargos parlamentares.

Além disso, os interessados em obter os conteúdos para eventual distribuição podem fazer isso na página do “Bolsoflix”, em mais uma estratégia inovadora de difusão de material “anti-Bolsonaro”.

Resta saber agora o grau de adesão dos “assinantes” ao Bolsoflix, o que deverá ficar evidente já nas próximas semanas, quando o material disponibilizado pelo site chegar nos telefones dos brasileiros.

Universidade de Oxford promove webinário para discutir as crises climática e da COVID-19 no Brasil sob o governo Bolsonaro

wp-1621012733629.jpg

Em 2020, o Brasil registrou o maior nível de desmatamento na Amazônia em 12 anos. Esse aumento preocupante está relacionado ao desmantelamento de importantes políticas e regulamentações ambientais, à redução ou congelamento de recursos para a proteção das florestas e de suas populações tradicionais, e às propostas de legalização da ocupação privada de terras públicas.

O país está agora sob pressão crescente devido à Covid-19, que causou o pior colapso do sistema de saúde da história brasileira  A pandemia da COVID-19 já causou mais de 400.000 mortes de brasileiros, o segundo maior número de mortes causadas pela pandemia no mundo.

O Brasil também enfrenta crises econômicas e de fome. Um estudo lançado recentemente constatou que mais da metade da população vive com algum nível de insegurança alimentar.

Junte-se a nós neste webinar de uma hora e meia para discutir como os brasileiros foram profundamente afetados por este momento catastrófico e conecte-se com o trabalho e as reflexões de organizações ambientais e escritores no Reino Unido.

banner
Palestrantes:
– Adriana Ramos, Coordenadora de Políticas e Leis do Instituto Socioambiental (ISA), membro coordenador do Observatório do Clima
– Douglas Belchior, professor de História, fundador da Uneafro Brasil, membro da Coalizão Negra pelos Direitos do Brasil e do Fundo Brasil de Direitos Humanos
– Eliane Brum, jornalista, escritor e documentarista brasileiro, colunista do El País
– Erika Berenguer, Pesquisadora Associada Sênior do The Environmental Change Institute, membro da Amazon Brazilian the Sustainable Amazon Network
– Jay Griffiths, escritor britânico premiado, autor de ‘Wild, an Elemental Journey’, ‘Kith: The Riddle of the Childscape’, e agora lançando ‘Why Rebel?’
– Niki Mardas, Diretora Executiva da Global Canopy
– Sonia Guajajara, líder indígena brasileira, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

Mediada por Jonathan Watts, Editor de Meio Ambiente Global da Guardian. Hospedado pela Global Canopy e pelo Oxford Centre for Tropical Forests.

Haverá interpretação ao vivo para inglês e português.

Os interessados em se increver neste evento, podem clicar [Aqui!].

Grilagem em florestas públicas responde por um terço do desmatamento na Amazônia

defore1

Brasília, 13 de maio de 2021 – Um novo estudo do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) mostra que a invasão de florestas públicas não destinadas impulsiona o desmatamento ilegal e as queimadas na região. No primeiro trimestre de 2021, um terço da derrubada registrada na Amazônia aconteceu nessas áreas, segundo dados do sistema Deter.

Um dos indícios da grilagem é o aumento do Cadastro Ambiental Rural (CAR) sobre essas florestas: a área pública declarada como imóvel rural particular aumentou 232% desde 2016, chegando a 18,6 milhões de hectares em 2020. É mais que três vezes o território do Distrito Federal e 32% de todas as florestas públicas não destinadas na Amazônia.

No primeiro trimestre de 2020, 75% do desmatamento registrado nessas áreas aconteceu onde existe CAR; em 2021, o índice foi para 79%. A quantidade de focos de calor também é superior, 2,2 vezes maior, nos terrenos declarados irregularmente como propriedade particular.

Os números reforçam a conexão entre invasão por particulares e derrubada da floresta. “Como o CAR é um registro eletrônico e autodeclarado, é frequentemente usado para simular uma titularidade da terra que não existe na realidade”, explica o pesquisador sênior do IPAM, Paulo Moutinho. “É uma grilagem institucionalizada, que usa sistemas oficiais para legitimar a invasão de um patrimônio natural coletivo e que deveria ser preservado.”

Ilegalidade

As florestas públicas não destinadas da Amazônia somam 57,5 milhões de hectares, uma área maior do que o território da Espanha e 14% do bioma. Espalhadas na região, elas são patrimônio público e deveriam ser designadas para conservação ou uso sustentável, como regra uma lei desde 2006. O atraso nesta destinação abre caminho para a grilagem.

A maior parte das florestas estão sob responsabilidade estadual (56%). Contudo, é naquelas de domínio federal que a grilagem mais avança, com 73% dos cadastros irregulares, ou 13,6 milhões de ha, em 2020, e 93% do desmatamento registrado no mesmo ano.

“O combate ao desmatamento ilegal na Amazônia começa nas florestas públicas. É preciso avaliar e cancelar imediatamente o CAR nessas áreas, sem prejudicar as comunidades tradicionais”, diz a diretora de Ciência do IPAM, Ane Alencar, principal autora do estudo.

O projeto de lei 510/2021, sobre regularização fundiária, atualmente em discussão no Senado, pode ter impacto direto sobre a situação dessas florestas. Se aprovado, ele pode anistiar ocupações realizadas até 2014, mas principalmente dar a indicação de que a grilagem vale a pena. “De tempos em tempos, as leis no Brasil são reformadas para acomodar irregularidades passadas. Esse é o tipo de incentivo positivo que a grilagem entende, e que precisamos combater”, afirma Moutinho. “Os impactos do desmatamento e do fogo para o clima são terríveis, assim como a redução de chuvas para o agronegócio. É hora de tratar as florestas como ativos, que precisam ser conservados.”

Com a precarização do licenciamento ambiental, Brasil abre caminho para mais desastres e violência

batatas

Ao aprovar por esmagadora maioria uma lei que fragiliza enormemente o processo de licenciamento ambiental ao isentar, por exemplo, e licenciamento ambiental sistemas e estações de tratamento de água e de esgoto e usinas de triagem de resíduos sólidos, além de pecuária extensiva, semi-intensiva e intensiva de pequeno porte e cultivos agrícolas, a Câmara Federal também declarou guerra aos povos indígenas e quilombolas que agora terão suas terras ainda mais acossadas por uma série de atores que veem nas suas terras preservadas como um obstáculo à predação desenfreada da natureza no Brasil.

Curiosamente, esse projeto anti-ambiental começou a tramitar tendo como autor o deputado federal Luciano Zica (PT/SP) e teve sua costura final realizada pelo deputado Neri Geller (PP-MT), ex-ministro da Agricultura no governo de
Dilma Rousseff (PT).  Assim, ainda que se fale que a passagem desse projeto de destruição ambiental foi operada com inaudita maestria por Arthur Lyra (PP/AL), as digitais petistas estão presentes nessa verdadeira declaração de guerra ao meio ambiente e às comunidades que o defendem enquanto forma de preservação suas formas peculiares de produção e reprodução social.

Um dos detalhes mais vexaminosos dessa aprovação é que essa fragilização ocorre na esteira de dois grandes desastres ambientais causadas pela mineração de ferro em Minas Gerais (i.e., Mariana e Brumadinho), estado que hoje vive a antessala de novos mega desastres ambientais causados pela forma relaxada com que o processo de licenciamento ambiental tem sido aplicado pelo governo estadual daquele estado, em clara combinação com o governo federal, independente de quem seja o presidente.

A ideia de que o processo de licenciamento ambiental é uma barreira ao processo de desenvolvimento econômico reflete apenas uma forma primitiva de retirar recursos dos sistemas naturais. Já está mais do que demonstrado que o que se precisa mesmo é de sistemas de proteção ambiental que tenham processos técnicos rígidos para impedir que atividades poluidoras causem prejuízos sociais e ambientais maiores do que a renda que eventualmente os empreendimentos aprovados possam gerar. 

Um bom exemplo local, e que eu tive o desprazer de olhar “in loco” como tem sido realizado o licenciamento ambiental do Porto do Açu, que teve e continua tendo um processo de avaliação de impactos altamente fracionado e com praticamente qualquer salvaguarda para sequer monitorar os danos ambientais que estão ocorrendo no V Distrito de São João da Barra. A simples ideia de que vários dos componentes ainda em fase de planejamento sendo dispensados de licenciamento torna o Porto do Açu em uma espécie de bomba relógio que irá explodir bem longe dos especuladores financeiros que controlam o fundo de “private equity” que controla a Prumo Logística, o chamado EIG Global Partners cuja sede se localiza em escritórios para lá de confortáveis em Washington DC.  Este conforto que é negado a centenas de famílias de agricultores familiares que não só tiveram suas terras tomadas, como hoje tem que conviver com a salinização de suas águas.

Um fato que os deputados federais e os grupos que impulsionaram este ataque frontal à regulação ambiental é de que a maioria das grandes corporações hoje é obrigada a responder a sistemas internas de governança que impedem o seu envolvimento direto em projetos que degradem o ambiente.  Assim, restará para o Brasil depender de empresas que não possuem estes sistemas  e que por isso tendem ter menos freios para os danos ambientais que suas atividades causa. Além disso, a passada de boiada ambiental significará o aumento dos conflitos sociais nas áreas mais sensíveis ecologicamente para onde se quer levar o gado e a soja. Tudo isso somente aumentará o isolamento político e econômico do Brasil. Mas por hoje que se repita o que dizia o personagem Quincas Borba do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas“.

Clorpirifós, agrotóxico associado a danos cerebrais em crianças, deverá ser finalmente banido nos EUA

Um tribunal  dos EUA decidiu que a EPA deve banir o polêmico agrotóxico clorpirifós – ou provar sua segurança

tractor spraying pesticides

tractor spraying pesticides on soy bean

Este artigo foi produzido por Earth | Food | Life , um projeto do Independent Media Institute.

Um tribunal federal de apelações decidiu que, a menos que a Agência de Proteção Ambiental (EPA) possa provar que o agrotóxico clorpirifós é seguro, ele deverá ser banido nos EUA. O produto químico, que tem sido amplamente utilizado em plantações agrícolas há mais de 50 anos, tem sido associado a problemas de desenvolvimento neurológico em crianças, com evidências crescentes que implicam seu papel no autismo, TDAH, motor e perda de QI.  Na decisão 2 para 1 de 29 de abril, os juízes do Tribunal de Apelações dos EUA para o 9º Circuito deram ao governo federal 60 dias para rescindir todos os usos de clorpirifós relacionados a alimentos ou para mostrar evidências de que, em certos casos, é seguro para a saúde pública.

Na opinião da maioria no caso  Liga dos Cidadãos da América Latina Vs. Regan , que foi arquivado em 2007, o juiz Jed Rakoff, nomeado por Clinton, escreveu: “[A] EPA passou mais de uma década reunindo um registro de clorpirifós efeitos nocivos e determinou repetidamente, com base nesse registro, que não pode concluir, de acordo com o padrão exigido por lei de certeza razoável, que as tolerâncias atuais não estão causando nenhum dano ”, acrescentando que“ o atraso flagrante da EPA expôs uma geração de crianças americanas ao risco níveis de clorpirifós. ” Rakoff foi acompanhado pela juíza Jacqueline Nguyen, uma nomeada por Obama.

“No entanto, em vez de banir o agrotóxico ou reduzir as tolerâncias a níveis que a EPA pode considerar que não causam danos,  o órgão ambiental procurou fugir, por meio de uma tática de adiamento após a outra, de seus deveres estatutários simples ”, escreveu Rakoff no parecer, no qual quase não exigiu que a agência proibisse o produto químico, mas deixou pouco espaço para mantê-lo no mercado. “A EPA deve agir com base nas evidências e deve revogar ou modificar imediatamente as tolerâncias ao clorpirifós.” Mulheres grávidas e seus fetos, crianças pequenas e trabalhadores rurais estão particularmente sob risco de clorpirifós , que foi registrado pela primeira vez para uso em 1965.

“Existem vários estudos que mostram que a exposição ao clorpirifos no útero prejudica o desenvolvimento do cérebro das crianças”,  disse o  Dr. Warren Seigel, presidente da Academia Americana de Pediatria do Estado de Nova York. “A ciência é clara e este agrotóxico deveria ter sido proibido anos atrás.”

A decisão “praticamente garante ” que a EPA revogará os pedidos de clorpirifós relacionados a alimentos, de acordo com o juiz dissidente Jay Bybee, nomeado por George W. Bush, que  argumentou  que seus colegas superaram e “interpretaram mal” as obrigações da agência de revisar usos específicos de o produto químico que havia determinado anteriormente era seguro. Ele criticou a maioria, dizendo que ela “substituiu a decisão da EPA por seu próprio julgamento”.

A EPA está revisando a decisão,  dizendo  em um comunicado que a agência está “comprometida em ajudar a apoiar e proteger os trabalhadores agrícolas e suas famílias, garantindo que os pesticidas sejam usados ​​com segurança na agricultura do país.  A EPA continuará a usar ciência sólida no processo de tomada de decisão sob a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas ”(FIFRA).

A decisão veio quase dois anos depois que o governo Trump  rejeitou  uma proposta de proibição da era Obama do polêmico agrotóxico, mantendo-o no mercado apesar de apelos contra seu uso contínuo por grupos de saúde pública e ambientalistas. A decisão da Trump EPA, tomada em julho de 2019, foi um grande presente para a Dow Chemical, fabricante do agrotóxico, no que pareceu um ato de troca. Em 6 de dezembro de 2016, menos de um mês após a eleição de Trump, o gigante agroquímico doou US $ 1 milhão para seu comitê inauguralEntão, em 17 de janeiro de 2017, apenas três dias antes de Trump ser empossado no Salão Oval, a Dow entrou com uma petição junto à EPA para rejeitar a proposta da era Obama de banir o agrotóxico. Em 29 de março de 2017, o então administrador da EPA, Scott Pruitt, anunciou sua decisão de cancelar a proibição proposta.

“Isso é o que sabemos agora é o modus operandi de Trump e seu EPA: corrupção expressa como política”, disse Ken Cook, presidente do Grupo de Trabalho Ambiental sem fins lucrativos, após a decisão de Pruitt. “Trump e seus nomeados políticos na agência mostram quase todos os dias que não estão lá para proteger a saúde dos americanos, mas para atender aos caprichos dos poluidores. Se você está procurando por evidências de conluio corrupto com interesses sinistros, aqui está tudo à vista. ”

Que diferença faz uma nova administração. Em seu primeiro dia no cargo, o presidente Joe Biden  assinou  uma ordem executiva instruindo a EPA a revisar a decisão do governo Trump de negar a petição de 2007 para banir o clorpirifós relacionado a alimentos. É improvável que a Biden EPA se oponha à decisão do tribunal de apelação.

Grupos ambientais e de trabalhadores agrícolas aplaudiram a decisão do tribunal. “Hoje, comemoramos esta grande vitória ao lado dos homens e mulheres que colhem nossos alimentos, que esperaram muito pelo banimento deste agrotóxico”,  disse  Teresa Romero, presidente da United Farm Workers, em um comunicado. “Estamos aliviados que os trabalhadores agrícolas e suas famílias não terão mais que se preocupar com a miríade de maneiras como este pesticida pode impactar suas vidas.”

A decisão poderia chamar mais atenção para os riscos para a saúde pública e para o meio ambiente de outros agrotóxicos prejudiciais, como os neonicotinóides, que são mortais para as abelhas e outros polinizadores essenciais para a polinização das culturas. Friends of the Earth, uma organização sem fins lucrativos, lançou uma  petição pública  instando os americanos a dizerem a seus representantes no Congresso para co-patrocinar a  Lei de Proteção às Crianças da América contra agrotóxicos , introduzida em 2020 pelo Senador Tom Udall (DN.M.) e Rep. Joe Neguse (D-Colorado).

O projeto visa fortalecer a autoridade da EPA sob a FIFRA para regular a distribuição, venda e uso de agrotóxicos, e banir alguns dos produtos mais tóxicos usados ​​em todo o país, incluindo todos os neonicotinóides, organofosforados (uma classe de inseticidas à base de fósforo que inclui clorpirifós ) e o paraquat, um herbicida que tem sido associado a  danos renais, hepáticos e respiratórios e que já foi  proibido em 32 países .

Os agrotóxicos são mesmo necessários? Alguns especialistas acreditam que, embora haja compensações óbvias na pulverização de produtos químicos tóxicos nas plantações, o uso adequado de agrotóxicos pode, na verdade, proteger algumas partes do meio ambiente. Os agrotóxico “nos permitem maximizar a produção na menor área de cobertura de terra. Isso é chamado de ‘economia de terra’ ”,  disse Tim Durham, professor de agronomia e ciências agrícolas no Ferrum College em Ferrum, Virginia. “Se decidíssemos [renunciar] aos agrotóxicos, precisaríamos nos apropriar de um pedaço de terra muito maior para fazer o mesmo trabalho e ter a terra mais biodiversa e em risco”. Durham, que também faz parte da fazenda de vegetais de sua família em Long Island, Nova York, acrescenta: “Os agrotóxicos fornecem alguma medida de previsibilidade no mundo da agricultura, de outra forma imprevisível, ajudando a estabilizar os preços das commodities e mantendo os preços baixos no corredor dos supermercados.”

No entanto, alguns defensores da agricultura orgânica, que está comprometida com zero agrotóxicos, ou uso limitado de agrotóxicos de acordo com os padrões do Programa Orgânico Nacional, dizem que a agricultura industrial convencional que depende fortemente do uso de produtos químicos não é necessária para alimentar a população mundial.

“O mito de que os alimentos orgânicos não podem alimentar o mundo não é apenas errado, é totalmente contraproducente”, de  acordo com o Rodale Institute, uma organização sem fins lucrativos com sede em Kutztown, Pensilvânia, que apóia a pesquisa em agricultura orgânica. “Orgânico pode competir com os rendimentos convencionais e superar o convencional em clima adverso. Os pequenos agricultores que usam métodos orgânicos têm enorme potencial para expandir a produção global de alimentos. E apenas os métodos orgânicos regeneram ativamente os recursos e protegem o meio ambiente da poluição e dos resíduos tóxicos. Para um futuro saudável, não podemos pagar por nada menos. ”

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela “Nation of Change” [Aqui! ]. 

Em editorial, revista Nature aponta Brasil e Índia como exemplos do custo humano de se marginalizar a ciência

Os governos que ignoram ou atrasam a ação de acordo com os pareceres científicos estão perdendo uma oportunidade crucial de controlar a pandemia

covid india

Um centro de atendimento COVID-10 em Nova Delhi. A Índia tem registrado 400.000 casos e mais de 3.500 mortes por dia de COVID-19. Crédito: Imtiyaz Khan / Agência Anadolu / Getty

Na semana passada, o número total de mortos no Brasil no COVID-19 ultrapassou 400.000. Na Índia, a pandemia está ceifando cerca de 3.500 vidas todos os dias e gerou uma resposta global, com ofertas de oxigênio, ventiladores, leitos de terapia intensiva e muito mais. Embora esses dois países estejam separados por milhares de quilômetros, as crises em ambos são o resultado de falhas políticas: seus líderes falharam ou demoraram a seguir os conselhos dos pesquisadores. Isso contribuiu para uma perda inescrupulosa de vidas.

A maior falha do Brasil é que seu presidente, Jair Bolsonaro, caracterizou erroneamente o COVID-19 como uma “gripezinha” e se recusou a seguir os conselhos científicos na definição de políticas , como impor o uso de máscaras e limitar o contato entre as pessoas.

Os líderes da Índia não agiram tão decisivamente quanto era necessário. Eles têm, por exemplo, permitido – e, em alguns casos, encorajado – grandes reuniões. Essa situação não é nova. Como vimos durante a administração do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, ignorar as evidências da necessidade de manter o distanciamento físico para combater o COVID-19 tem consequências catastróficas. Os Estados Unidos registraram mais de 570.000 mortes pela doença – ainda o maior número de mortes COVID-19 do mundo em termos absolutos.

Como relata a Nature em um artigo da World View , os líderes da Índia tornaram-se complacentes depois que os casos diários de COVID-19 atingiram um pico de quase 96.000 em setembro antes de diminuir lentamente – para cerca de 12.000 no início de março. Durante esse tempo, as empresas reabriram. Seguiram-se grandes reuniões, incluindo protestos contra as polêmicas novas leis agrícolas que trouxeram milhares de agricultores às fronteiras de Nova Delhi. Os comícios eleitorais e as reuniões religiosas também continuaram durante os meses de março e abril.

Dificuldades de acessar dados

E a Índia tem outros problemas. Uma é que não é fácil para os cientistas acessarem os dados da pesquisa do COVID-19. Isso, por sua vez, os impede de fornecer previsões precisas e conselhos baseados em evidências ao governo. Mesmo na ausência de tais dados, os pesquisadores alertaram o governo em setembro passado para ser cauteloso quanto ao relaxamento das restrições do COVID-19 ( Lancet 396 , 867; 2020 ). E no início de abril, eles avisaram que uma segunda onda poderia ver 100.000 casos COVID-19 por dia até o final do mês.

Em 29 de abril, mais de 700 cientistas escreveram ao primeiro-ministro Narendra Modi, pedindo melhor acesso a dados como resultados de testes COVID-19 e desfechos clínicos de pacientes em hospitais (consulte go.nature.com/3vc1svt ), bem como um programa de vigilância do genoma em grande escala para identificar novas variantes (consulte go.nature.com/3vd7fak ). No dia seguinte, Krishnaswamy Vijayraghavan, o principal assessor científico do governo, reconheceu essas preocupações e esclareceu as maneiras pelas quais pesquisadores de fora do governo podem acessar esses dados. Essa medida foi bem recebida pelos signatários da carta, mas eles disseram à Nature que alguns aspectos do acesso aos dados permanecem obscuros.

Uma carta de protesto não deveria ser necessária em primeiro lugar. Ao se identificar, os signatários correram um risco: no passado, o governo Modi não reagiu bem à organização de pesquisadores para questionar suas políticas. Dois anos atrás, uma carta de mais de 100 economistas e estatísticos instando o fim da interferência política nas estatísticas oficiais não foi bem recebida pelas autoridades. A carta foi escrita após a renúncia de altos funcionários da Comissão Nacional de Estatística da Índia sobre o que consideraram uma interferência no momento da divulgação dos dados do governo .

Nunca é bom quando as comunidades de pesquisa têm um relacionamento difícil com seus governos nacionais. Mas isso pode ser fatal no meio de uma pandemia – quando as decisões precisam ser rápidas e baseadas em evidências. Ao colocar seus cientistas de lado, os governos do Brasil e da Índia perderam uma oportunidade crucial de reduzir a perda de vidas.

Durante uma pandemia, todos nós precisamos que nossos governos tenham sucesso. No entanto, é difícil tomar boas decisões rapidamente, ainda mais com informações incompletas – é por isso que os dados de saúde precisam ser precisos e acessíveis a pesquisadores e médicos. Negar ou ocultar esse acesso corre o risco de prolongar a pandemia.

fecho

Este editorial foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista Nature [Aqui!].