Agronegócio esquizofrênico: supersafras bilionárias e um povo faminto

O Ministério da Agricultura comemora a supersafra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos. E a fome cada vez mais ronda famílias brasileiras

fome-no-brasilA China compra 80% da soja produzida no Brasil. A maior parte vai para a produção de ração para bovinos, suinos e aves

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O Ministério da Agricultura está exultante com a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos anunciada esta semana. Isso porque o resultado recorde representa 15,4 milhões de toneladas a mais que na safra 2019/2020. Um feito e tanto em tempos de pandemia de covid-19, que esfriou a economia ao afetar negócios e empregos e levar o país a um tombo de 4,1% em seu PIB, que já estava encolhido. E mais grave ainda: empurrou milhões de brasileiros para situação de pobreza extrema e de fome.

O milho teve uma produção recorde, de 108 milhões de toneladas, e com isso deve superar em 5,4% a safra anterior, diz o Ministério. No caso da soja, segue a tendência de crescimento na área cultivada, e ainda pode crescer 4,1%, com 135,1 milhões de toneladas. Já o arroz e o feijão de cada dia, que são base da dieta dos brasileiros, não alcançam tais patamares. Foram apenas 3,3 milhões de toneladas de feijão e 11 milhões de toneladas de arroz.

“Salvação da lavoura”

Há anos a agropecuária é considerada a “salvação da lavoura” quando o assunto é produção, exportações e balança comercial. Beneficiado por subsídios, como descontos e isenção de ICMS e de imposto de importação, fora o perdão de PIS e Cofins, o setor se acha. Tanto puxa brasa para a sua sardinha que se autointitulou “pop, tech e tudo”. E com tudo isso, a fome aumenta no país das supersafras e volta a assombrar milhões de brasileiros. Como isso é possível?

Dois anos antes da pandemia, entre junho de 2017 e julho de 2018, mais de 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer conforme a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE. Desse total, perto de 8 milhões moravam na zona urbana e pouco mais de 2 milhões na zona rural, onde a rigor se produzem alimentos. 

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Entre 2017 e 2018, 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer. Inação do governo na pandemia agravou a situação da fome no país. (Arquivo/Agência Brasil)

De acordo com a pesquisa, a insegurança alimentar grave – quando a pessoa relata passar fome – atingiu em cheio 4,6% das famílias brasileiras, o equivalente a 3,1 milhões de lares. E ainda segundo o IBGE, o quadro vem piorando. Aumentou 43,7% em cinco anos.  

Mais desigualdade

A tendência é que tenha se agravado com a pandemia, pois esta ao chegar já encontrou um Brasil marcado pelo aprofundamento da desigualdade social a partir do golpe de 2016. “Parte significativa dos trabalhadores está sem a proteção social do trabalho formal devido à crise estrutural do capitalismo”, destaca a socióloga Sirlândia Schappo. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sirlândia observa que essa crise de dimensões globais assola o país mais intensamente a partir de 2014. Em seu artigo “Fome e insegurança alimentar em tempos de pandemia da COVID-19“, ela assinala: “O reflexo imediato foi a ampliação do trabalho informal, que passou de 39,1% da população ocupada em 2014 para para 41,5% em 2018, segundo o IBGE”.

Ainda segundo Sirlânia, a pandemia pode ter ampliado em 56% a pobreza em países como o Brasil, como prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trabalhadores domésticos perderam o emprego. E, sem o apoio de políticas sociais, se viram diante da subnutrição e da falta de serviços básicos, como saneamento básico e saúde.

Plano safra

Logo que assumiu, o governo Bolsonaro apresentou um Plano Safra para 2019/2020 que já sinalizava as dificuldades que viriam pela frente. Dos R$ 225,59 bilhões destinados à agropecuária, o crédito rural ficou com R$ 222,74 bilhões. O problema é que desse montante, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) recebeu apenas R$ 31,22 bilhões. Como custear a produção e a comercialização?

“A partir de 2016, com o golpe e a Emenda 95, do teto de gastos, as políticas sociais e programas de transferência de renda foram sendo esvaziadas. Equipamentos de segurança alimentar, como banco de alimentos, foram fechados. Assim que tomou posse, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) não foi extinto, mas tem orçamento ridículo, de R$ 500 milhões. Esse montante, aliás, resulta de muita pressão das organizações da agricultura familiar durante a pandemia. Mas mesmo assim, esse orçamento ainda insuficiente não foi totalmente executado”, disse à RBA a assessora de Direitos Humanos da Fian BrasilNayara Côrtes.

combate à fomePequenos agricultores têm sido atacados. Alternativa econômica de geração de trabalho e renda e combate à fome não está na agenda do governo de Bolsonaro (Itesp)

Mais golpes

Para piorar, Jair Bolsonaro escolheu a agricultura familiar como inimiga. Além de ter excluido esses trabalhadores do auxilio emergencial de R$ 600, vetou quase que integralmente o Projeto de Lei (PL) 735/20. Apresentado em abril e só aprovado em agosto, foi quase que integralmente vetado, pois, de 20 itens, 17 foram derrubados.

Entre os pontos vetados estão o auxílio emergencial no valor de R$ 600 pagos em cinco parcelas, como aos trabalhadores urbanos, recursos para compras públicas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), renegociação e adiamento de dívidas e linhas de crédito emergenciais. Tudo o que era considerado essencial pelos agricultores. Até hoje é aguardada apreciação dos vetos, que depende de muita pressão para ser pautada.

Para Bolsonaro, não há previsão financeira para essas ações. No entanto, o governo concedeu benefícios ao agronegócio, facilitando o acesso a crédito e a financiamento de dívidas de grandes produtores e desoneração do segmento em contribuições à Seguridade Social.

Segundo levantamento da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e pelo Fórum Brasileiro pela Soberania e Segurança Alimentar (FBSSAN), em 2019 o rendimento total da agricultura familiar foi de aproximadamente R$ 27 milhões. O número de produtores de alimentos era 4,5 mil. Até setembro de 2020, os mesmos produtores venderam o equivalente a R$ 3,6 milhões.

Sem recursos para plantar

“Muitos não têm recursos para plantar e muitas vezes falta o que comer”, disse Nayara Côrtes. “Levamos anos para construir uma política de segurança alimentar para ser totalmente desconstruída em pouco tempo. E pensar que em 2014, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome para voltar 6 anos depois.”

O retrocesso é tão grande que há no Congresso a proposta de votação em regime de urgência de um projeto de interesse das indústrias. Trata-se do PL 3.292/2020, de autoria do deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO), que propõe mudar o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Entre as mudanças, abolir a compra de alimentos, da prioridade dada a comunidades tradicionais indígenas e de remanescentes de quilombos.

E a supersafra?

Conforme os autores do Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos –, não é de hoje que o discurso do combate à fome é utilizado para alavancar o desenvolvimento tecnológico com fins prioritariamente comerciais. Assim, a aplicação de mais tecnologia na produção agrícola é difundida como a única solução capaz de eliminar a escassez de alimentos e a carência de nutrientes.

Na realidade, porém, as supersafras servem apenas para dar lucro, e não para matar a fome da população. Nessa perspectiva, toneladas e toneladas de soja, milho, cana e outras commodities têm como destino o mercado mais lucrativo no momento, seja a produção de alimentos, agrocombustíveis ou ração para bovinos, suínos e aves. Esta aliás, tem sido a principal aplicação da soja comprada pela China, que corresponde a 80% da produção brasileira. É preciso alimentar a fome dos novos padrões alimentares adotados pelos chineses; ninguém come tanta soja assim.

Ironicamente, esse sistema alimenta a fome e a subnutrição. E por outro lado, o crescimento da obesidade, transtornos alimentares diversos e doenças crônicas. “Da mesma forma, as desigualdades e as injustiças socioambientais também fazem parte das contradições desse modelo em que a comida aparece como mercadoria, e a fome como um negócio com segmentos diversificados, que vão da ausência ao excesso”, dizem os autores do Atlas.

Engordar lucros

O cultivo de soja ou outros grãos nos latifúndios que avançam sobre assentamentos e terras indígenas e de povos tradicionais, ou nas lavouras que invadem a Amazônia, assim como o gado, não vão matar a fome daqueles que ainda possa comprar comida no Brasil. E sim engordar o lucro de empresas de exportação e importação desses produtos. É o caso da Archer Daniels Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company. E também das empresas de sementes transgênicas e agrotóxicos, como a Bayer, dona da Monsanto, a Basf, Dow e outras.

A saída, segundo especialistas, está em novas práticas que contribuam não apenas para a produção de alimentos e a soberania alimentar. Mas também com a produção sustentável de alimentos de verdade, livres de venenos, com a reconexão com a natureza, com respeito a quem produz e com a democratização do acesso ao direito à terra.

Terminal da Cargill Amsterdam, Holanda. Contraste com um mundo de fome (Alf van Beem/Wikimedia Commons)

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Este texto foi publicado originalmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Governo dos EUA pressionou Brasil a não comprar a ‘maligna’ Sputnik V

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Por John McEvoy para o Brasil Wire

Enquanto o número de mortos no Brasil com a pandemia COVID-19 se aproxima de 275.000, documentos revelam que Washington pressionou o governo brasileiro a não comprar a vacina “maligna” Sputnik V da Rússia – uma decisão que pode ter custado milhares de vidas.

Influências malignas

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos publicou recentemente seu Relatório Anual para 2020.

“2020 foi um dos anos mais desafiadores da história do nosso país e da história do Departamento de Saúde e Serviços Humanos”, apresenta o ex-secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, Alex Azar.

“Há um fim à vista para a pandemia”, ele continua, “com a entrega de vacinas seguras e eficazes por meio da Operação Warp Speed”.

Escondido na página 48, o relatório revela de forma chocante como os EUA pressionaram o Brasil a rejeitar a vacina russa Sputnik V.

Sob o subtítulo “Combatendo influências malignas nas Américas”, o relatório anuncia:

brasil wire

Também é surpreendente que os EUA tenham dissuadido o Panamá de aceitar médicos cubanos, que estão na linha de frente global contra a pandemia , trabalhando em mais de 40 países .

Além do Brasil, os Estados Unidos enviaram Adidos de Saúde para a China, Índia, México e África do Sul, provavelmente encarregados de realizar atividades semelhantes.

Os documentos demonstram como Washington vê a saúde global em termos estritos de poder, disposto a sacrificar inúmeras vidas para negar aos Inimigos Oficiais a vitória do soft power.

Resposta catastrófica

O Brasil sofreu o  segundo pior número de taxas de mortalidade por COVID-19 do mundo, com a política do governo Bolsonaro sendo descrita como “homicida negligente”.

Ao longo de 2020, o governo brasileiro se recusou consistentemente a buscar qualquer vacina, exceto a AstraZeneca, desconcertando especialistas médicos.

Um grupo de prefeitos brasileiros exortou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, a renunciar, escrevendo : “Sua liderança não acreditava na vacinação como saída da crise e não fez o planejamento necessário para a aquisição das vacinas”.

Com o número de mortes aumentando, Bolsonaro eventualmente e tardiamente abriu discussões para a entrega de vacinas contra o Sputnik V.

Documentos secretos publicados pela Brasil Wire também revelaram que o Reino Unido fez lobby no Brasil em nome da AstraZeneca e também das mineradoras britânicas, mostrando que os EUA não são o único país a alavancar poder em nome de multinacionais farmacêuticas na América Latina.

Este é apenas o último episódio escandaloso na forma como Bolsonaro lida com a pandemia e a maligna interferência dos EUA na região.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo Brasil Wire [Aqui!].

Sistemas alimentares são responsáveis por mais de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa

sistema alimentarA base de dados EDGAR-FOOD representa um marco para a compreensão de como o sistema alimentar global se desenvolveu.  Foto | FAO

Os sistemas alimentares mundiais são responsáveis por mais de um terço das emissões antropogênicas globais de gases de efeito estufa, de acordo com um novo estudo pioneiro publicado na Nature Food.

O estudo, de co-autoria do estatístico sênior e especialista em mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Francesco Tubiello, em colaboração com pesquisadores do Centro de Pesquisa Conjunta da Comissão Europeia em Ispra, Itália, oferece um tesouro de dados e, pelo menos em nível de importância, apresenta uma nova base de dados – EDGAR-FOOD – que remonta a 1990 e permite o rastreamento granular de tendências atuais e futuras. A nova ferramenta, baseada nos principais dados de uso da terra do FAOSTAT, fornece uma série de dados completa e consistente abrangendo vários setores que serão essenciais no projeto de ações de mitigação eficazes e caminhos de transformação para sistemas alimentares sustentáveis.

Abrangendo desde mudanças no uso da terra e produção agrícola até embalagem e gestão de resíduos, as emissões do sistema alimentar foram estimadas em 18 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2015. Isso representa 34% do total, uma parcela que está diminuindo gradualmente – era de 44% em 1990 – mesmo com as emissões dos sistemas alimentares aumentando em quantidades absolutas.

O estudo também oferece uma compreensão e estimativa mais precisa dos efeitos climáticos da produção, distribuição e consumo de alimentos antes da Cúpula dos Sistemas Alimentares das Nações Unidas de 2021 no final deste ano. O Relatório Especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), sobre Mudanças Climáticas e Terras, recentemente atribuiu aos sistemas alimentares entre 11 e 19 bilhões de toneladas de emissões por ano, uma ampla gama que ressalta a necessidade de reduzir nossas lacunas de conhecimento.

A base de dados EDGAR-FOOD representa um marco para a compreensão de como o sistema alimentar global se desenvolveu. Ele permite avaliações de como as mudanças no comportamento do consumidor ou evolução tecnológica podem impactar as emissões de GHG (Gases de Efeito Estufa) do sistema alimentar e pode servir como uma ferramenta preciosa para pesquisadores com foco em setores específicos, bem como formuladores de políticas encarregados de projetar estratégias de mitigação que não apenas deslocam emissões para outros setores.

A FAO tem poderosos conjuntos de dados de emissões sobre a agricultura e o uso da terra e está construindo um novo para apoiar o trabalho da Cúpula dos Sistemas Alimentares da ONU.

Principais conclusões

Cerca de dois terços das emissões dos sistemas globais de alimentos vêm do setor baseado na terra, compreendendo agricultura, uso da terra e mudanças no uso da terra. Esse número é mais alto para os países em desenvolvimento, mas também está diminuindo significativamente com a redução do desmatamento e o aumento das atividades a jusante, como processamento de alimentos e refrigeração.

Em termos de sua participação em todas as emissões antropogênicas de GHG, os sistemas alimentares dos países industrializados são amplamente estáveis em cerca de 24%, enquanto nos países em desenvolvimento diminuíram notavelmente – em parte devido a aumentos muito elevados nas emissões não alimentares – para 39% em 2015 para 68% em 1990.

Os principais emissores são, pela ordem: China, Indonésia, Estados Unidos da América, Brasil, União Europeia e Índia.

Os estágios de produção que levam os alimentos para a fazenda – incluindo insumos como fertilizantes – são agora os principais contribuintes para as emissões gerais do sistema alimentar, constituindo 39% do total. O uso da terra e fatores relacionados contribuem com 38%, enquanto a distribuição é responsável por 29%, uma parcela que está crescendo e deve continuar crescendo.

EMISSÕES

Emissões de GEE do sistema alimentar. a, b, gráficos de pizza mostram a contribuição dos diferentes setores do sistema alimentar (baseado em terra, energia, indústria e  resíduos) às emissões de GEE provenientes de alimentos em 1990 (a) e 2015 (b). As cores no mapa mostram a parcela das emissões de GEE dos sistemas alimentares como uma fração do total de emissões de GEE (as participações detalhadas de GEE no sistema alimentar por país são relatadas na Tabela Suplementar 4). Emissões totais de GEE (incluindo CO2, CH4, N2O e gases F) são expressos como CO2  equivalente (CO2e) calculado usando os valores GWP100 usados no IPCC AR5, com um valor de 28 para CH4 e 265
para N2O. OCDE, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

O metano (CH4) é responsável por cerca de 35% das emissões de GHG do sistema alimentar, praticamente o mesmo em países desenvolvidos e em desenvolvimento, e provém principalmente da pecuária e do cultivo de arroz.

A pesquisa destacou como os sistemas globais de alimentos estão se tornando mais intensivos em energia, refletindo tendências nos setores de varejo, embalagem, transporte e processamento, cujas emissões estão crescendo rapidamente em alguns países em desenvolvimento. Os países industrializados, por sua vez, aumentaram a emissão de gases fluorados com efeito estufa – que têm um efeito turboalimentador no aquecimento global – usados na refrigeração e em outras aplicações industriais. A refrigeração é responsável por quase metade do consumo de energia do setor de varejo e supermercado, cujas emissões aumentaram mais de quatro vezes na Europa desde 1990. As atividades da “cadeia de frio” mundial respondem por cerca de 5% das emissões globais do sistema alimentar, um número esperado para aumentar.

Ele também revelou que a embalagem agora contribui com cerca de 5,4% das emissões globais do sistema alimentar, mais do que qualquer outro fator da cadeia de abastecimento, incluindo transporte. No entanto, a intensidade das emissões varia notavelmente por produto, com o vinho e a cerveja sendo responsáveis por uma parcela significativa dos impactos das embalagens, enquanto as bananas e o açúcar de beterraba têm maiores emissões de transporte.

Em média, as emissões globais per capita anuais relacionadas aos alimentos diminuíram de 1990 a 2015 em cerca de um terço, para 2 toneladas de CO2 equivalente. Esse número não deve ser entendido como o mesmo que uma “pegada do consumidor”, pois variam de acordo com padrões dietéticos específicos, mas pode ser usado para avaliar os esforços nacionais de mitigação para reduzir as emissões de GHG do sistema alimentar como um todo.

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Este texto foi originalmente publicado pela seção brasileira da Organização das Nações Unidas [Aqui!].

Bolsa agrotóxico: Estados prorrogam descontos e até isenção de ICMS para agrotóxicos

Os fabricantes desses produtos continuarão gozando desses benefícios fiscais até 2025, quando o convênio voltará a ser discutido

 

São Paulo – O Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) desprezou mais uma vez apelos de organizações que pedem o fim de subsídios fiscais aos agrotóxicos. E manteve os afagos às poderosas indústrias de agrotóxicos e transgênicos.

Em reunião nesta sexta-feira (12), os secretários estaduais da Fazenda que compõem o Conselho prorrogaram até 2025 a vigência do Convênio 100, firmado em 1997. A medida reduz alíquotas e até isenta produtos agropecuários da tributação de ICMS em operações estaduais internas e interestaduais.

A exceção fica por conta dos fertilizantes, para os quais foi adotada tributação progressiva nas vendas. Adubos importados terão uma alíquota de 1% a partir de 2022, que subirá gradualmente até chegar a 4% em 31 de dezembro de 2025.

Em carta divulgada nesta quinta-feria, 123 organizações e movimentos ligados à defesa do direitos humanos, da saúde, meio ambiente, consumidor, agroecologia e reforma agrária fizeram um apelo. Pediram aos secretários que não renovassem as cláusulas 1ª e 3ª do Convênio. São vários os argumentos.

Conforme a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, o Brasil é que mais gasta com agrotóxicos no mundo. As lavouras de soja, milho e cana ocupam 76% de toda a área plantada do Brasil. E nela são despejadas 82% de todo agrotóxicos, segundo dados de 2015. Essa produção toda é exportada como commodities, com diversos outros subsídios fiscais. Não se trata, portanto, de alimentos.

ONU pelo fim dos subsídios

Relatores de Direito à Alimentação Adequada e de Resíduos Tóxicos das Nações Unidas recomendaram ao Brasil a eliminação de subsídios. E em vez disso o pagamento de taxas pela utilização desses produtos.

As entidades alegam também que 70% dos estabelecimentos rurais têm área de um e 50 hectares, cuja base é a agricultura familiar. Responsável pela produção de mais de 60% do alimento que chega à mesa, esses produtores gastam pouco com agrotóxicos, algo em torno de 4% do custo de produção. Assim, esses alimentos e esses produtores é que deveriam contar com benefícios fiscais.

A carta destaca ainda dados de um relatório do Tribunal de Contas da União. Os auditores vão direto ao ponto: “ao reduzir o preço dos agrotóxicos por meio de renúncia tributária para a importação, a produção e a comercialização interestadual de defensivos químicos, o governo brasileiro incentiva o uso de agrotóxicos. E atua de forma contraditória e contraproducente aos objetivos das políticas que buscam garantir sistemas sustentáveis de produção de alimentos”. 

Isenção aos agrotóxicos no STF

Ainda segundo o documento, a renúncia de arrecadação com os agrotóxicos é no mínimo paradoxal, considerando que o país vive uma crise financeira. Sob efeitos da Emenda Constitucional nº 95/2016, do teto de gastos, em 2019 os recursos da saúde encolheram R$ 20,19 bilhões, segundo o Conselho Nacional de Saúde. “Em um momento de colapso do SUS pela propagação da pandemia de Covid-19, é um contrassenso que o país permaneça estimulando, via benesses fiscais, o uso de produtos tóxicos que acarretam em internações por intoxicações crônicas ou agudas”, diz um trecho. 

As cláusulas que permitem a redução da base de cálculo e até isenção de ICMS estão sendo questionadas noSupremo Tribunal Federal (STF), por meio da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5.553, apresentada em 29 de junho de 2016 pelo Psol. 

No início de novembro, o ministro Gilmar Mendes pediu vista do processo. O único que votou até agora é o ministro relator da ação, Edson Fachin. Em seu voto, ele pondera sobre a falta de relação de causa e efeito entre a desoneração tributária e a redução do preço dos alimentos ao consumidor. E, consequentemente, a segurança alimentar – o principal argumento do agronegócio.

“O consumo de agrotóxicos no Brasil é concentrado em quatro commodities, cujo preço é determinado pelo mercado mundial. Em 2014, a soja representava 49% do uso dos produtos no Brasil; a cana, 10,1%; o milho, 9,5%; e o algodão, 9,1%, o que soma 77,7%”, destaca o ministro em seu voto. Ou seja, grande parte do agrotóxico vai para ração animal, etanol e indústria têxtil.

Desoneração seletiva

Pondera ainda sobre a desoneração tributária seletiva a partir de mercadoria e processo produtivo menos nocivo à saúde e ao meio ambiente. E a criação de um fluxo de receita que poderia ser direcionado para mitigar os impactos ambientais dos agrotóxicos. É o caso de práticas agrícolas mais sustentáveis e promoção de pesquisa e desenvolvimento de alternativas tecnológicas menos nocivas, como ocorre na Dinamarca e na França.

“O objetivo da tributação não é apenas fazer com que os poluidores paguem pelos danos causados (princípio do poluidor-pagador), mas também induzir mudanças de comportamento, incentivando o uso de produtos menos nocivos”.

O Convênio 100/1997 vinha sendo renovado anualmente, sem alteração. Em outubro foi formado grupo de trabalho para apresentar uma proposta definitiva de alteração do benefício.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Que supermercado frequenta Paulo Guedes?

paulo guedes

Após visualizar o vídeo abaixo, pense profundamente e responda: que supermercado frequenta o dublê de banqueiro e ministro da Economia, o Sr. Paulo Guedes?

Erro
Este vídeo não existe

Eu pessoalmente penso que ele deve frequentar um daqueles estabelecimentos que só “Faria Limers” podem entrar. Eu que frquento os “Super Bons” da vida, não consigo me imaginar agradecendo a Guedes. 

Seis em dez casos de intoxicação por agrotóxicos no RS acontecem em casa

agrotóxicosFOTO: IBADAH MIMPI / UNSPLASH

bori conteudo

Pesquisadoras da Escola de Saúde Pública e do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, em Porto Alegre, ao analisar 3.122 casos suspeitos de intoxicação  por agrotóxicos notificados no Rio Grande do Sul entre 2011 e 2018, mostram que o cenário mais comum de contaminação acontece de forma acidental, em 40% dos casos, e na própria residência do trabalhador, em 59% dos casos. Seis em cada dez casos notificados estão relacionados à produção agrícola do estado. O estudo foi publicado em 7 de dezembro na revista “Epidemiologia e Serviços de Saúde”

Na maioria dos casos, as notificações foram de homens (63,7%), brancos (86,9%) com baixo nível de escolaridade. Apenas 4,3% haviam cursado ou completado o ensino superior. Embora a faixa etária mais atingida tenha sido de 20 a 29 anos (20,3%), a maioria (60,6%) das intoxicações suspeitas foi notificada a partir dos 30 anos. Em 82% dos casos, a intoxicação foi do tipo aguda, quando há apenas um evento de exposição do indivíduo à substância tóxica em 24 horas. O diagnóstico da intoxicação foi feito por meio de avaliação clínica em 61% dos casos notificados.

O fato de quase seis entre dez notificações terem ocorrido por contato na própria residência, superando o ambiente de trabalho (33,7), não surpreendeu as autoras. “Esse dado levanta as hipóteses da existência de problemas no armazenamento e de descumprimento da distância mínima recomendada entre a lavoura e a casa. Além disso, no ambiente domiciliar se utilizam também inseticidas, raticidas e produtos destinados ao tratamento de piolhos e outros parasitas, aumentando ainda mais o risco de intoxicação”, observa a sanitarista da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul, Amanda Brito de Freitas, que assina a autoria do estudo ao lado da sanitarista Vanda Garibotti. 

Como evitar intoxicações 

A contaminação acidental (40%) foi o principal motivo de intoxicação. Mais do que isso, registrou o dobro da contaminação por uso habitual (20%) e supera também o uso ambiental e tentativa de suicídio. As principais motivações associadas com esses acidentes são o armazenamento em local de fácil acesso, manejo inadequado destas substâncias (incluindo também a reutilização das embalagens) e falta de equipamento de proteção individual (EPI). 

A orientação técnica e a fiscalização nestes casos são fundamentais para evitar os riscos à segurança e à saúde dos trabalhadores rurais. Na agricultura, explica Amanda Freitas, o objetivo do uso do EPI é evitar os riscos químicos que podem levar às intoxicações de forma aguda e crônica, em decorrência da utilização de agrotóxicos. As atividades de pulverização (42%) e diluição (18%) foram as de maior exposição ao agrotóxico. 

“É importante que o empregador proporcione capacitação aos trabalhadores com orientação quanto ao risco à saúde inerente à utilização desses produtos, quanto aos locais adequados de armazenamento e forma correta de manuseio e aplicação, de acordo com os rótulos e as bulas do fabricante; assim como o uso correto da vestimenta adequada incluindo: calças e camisas compridas, que cubram toda a pele, botas, luvas, avental, óculos de segurança ou viseira de proteção, chapéu ou capuz com máscara. Além disso, é importante orientar também sobre as recomendações quanto à manutenção, lavagem, descarte e armazenamento destes EPIs”, detalha.

As autoras vislumbram que o estudo seja utilizado como subsídio para o planejamento das ações da vigilância em saúde e políticas públicas para a proteção da saúde da população. Ela também concluem que é necessário avançar na identificação dos casos de intoxicação por meio do desenvolvimento de novos métodos diagnósticos a partir de biomarcadores e melhor qualidade da coleta de dados. 

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Minta, minta, minta de novo

A fuga para a frente de Jair Bolsonaro

bolsonaro mascara

Por Peter Steiniger para o Neues Deutschland

Lula deu-lhe uma facada: no primeiro discurso depois de recuperar seus direitos políticos na semana passada, o ex-presidente do Brasil leu o ato de motim contra Jair Bolsonaro. Ele exortou as pessoas a não seguirem as “decisões tolas” de Bolsonaro na crise causada pelo coronavírus e a se vacinarem contra a COVID-19. Não importa de que país venha a vacina. Com esse ataque ao demagogo de direita, Lula afetou muitos brasileiros diante de uma política de saúde catastrófica e de um alto número de mortes causadas pela COVID-19. Bolsonaro sabe muito bem que não se compara ao excepcional político que Lula é, e teme a continuidade da grande popularidade do ex-presidente de esquerda do Partido dos Trabalhadores. Pode haver um grande duelo nas eleições de 2022.

O Brasil se tornou o foco mundial da pandemia da COVID-19. Tendo em vista os milhões  que vivem em condições miseráveis de trabalho e de vida no Brasil, grande parte da população está em maior risco desde o início do que no “Primeiro Mundo”. Isto sem falar nos indígenas. O preço que o Brasil está pagando pelo caos das vacinas que foi causado pela política ultraliberal é ainda mais amargo. Primeiro o país jogou dinheiro pela janela comprando a hidroxicloroquina que se mostrou inadequada para combater a COVID-19. Depois Bolsonaro rotulou a Coronavac como uma “vacina da China”. Depois da forte atuação de Lula, o clã Bolsonaro de repente ganha uma nota diferente: a vacinação é ótima e ajuda a economia.

O presidente Jair Bolsonaro agora declara que nunca foi contra a vacinação. E que ele nunca considerou a COVID-19 uma “gripezinha”. Mentir está em seu sangue.  Uma prova que o Lula funciona.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui!].

Edição especial relaciona áreas protegidas e conservadas com a atual pandemia

Publicação traz 150 artigos sobre o impacto da pandemia de COVID-19 na conservação


parks

 

A IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) lança uma edição especial da revista científica PARKS , sobre os impactos da pandemia do coronavírus na conservação da natureza em todo o mundo. A publicação é uma iniciativa da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da IUCN e traz nesta edição o compilado mais abrangente até o momento da pesquisa científica mundial sobre as ligações e os impactos de COVID-19 na conservação da natureza.

A revista estima que no Brasil o número reduzido de visitantes pode levar a uma perda de US﹩ 1,6 bilhão em vendas para empresas que trabalham direta e indiretamente com o turismo em áreas protegidas. Enquanto na Namíbia, as Unidades de Conservação comunais podem perder US﹩ 10 milhões em receitas de turismo direto, segundo estimativas iniciais.

Os estudiosos apontam que mais da metade das áreas protegidas da África e 1/4 das áreas protegidas da Ásia foram forçadas a interromper ou reduzir suas ações de conservação, como patrulhas anti-caça, e um em cada cinco guardas florestais relataram ter perdido seus empregos. 

Dentre os ensaios, escritos por cerca de 150 autores, estão textos de Mariana Napolitano, gerente de ciências do WWF-Brasil; Yolanda Kakabadse, ex-presidente da Rede WWF; Juan Manuel Santos, ex-presidente da Colômbia e ganhador do Prêmio Nobel da Paz; Mary Robinson, ex-Presidente da Irlanda e ex-Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos; e Sir Richard Roberts, bioquímico e vencedor do Prêmio Nobel de Medicina.

Doenças zoonóticas e a natureza como prevenção

“A natureza é uma rede de segurança para muitas das comunidades afetadas por essa pandemia e pode ser uma das nossas maiores aliadas contra futuras pandemias”, comenta Mariana Napolitano, gerente de Ciências do WWF-Brasil e autora de um dos artigos da revista PARKS.

No ensaio “Causas de doenças zoonóticas”, ela e a equipe do WWF-Brasil trazem uma visão geral sobre como áreas protegidas e conservadas podem desempenhar um papel significativo na minimização da ameaça de transbordamento de doenças do mundo natural para as pessoas.

As chamadas doenças zoonóticas, ou simplesmente zoonoses, são diversos tipos de enfermidades que são transmitidas dos animais para os humanos.

• As zoonoses representam 60% das doenças contagiosas conhecidas.
• Dessas, 72% foram transmitidas por animais silvestres (em comparação com animais domésticos).
• 3/4 de todos os patógenos emergentes são zoonóticos.

As principais atividades que ajudam essas doenças a escaparem do mundo natural e nos infectarem são as mudanças no uso da terra, especialmente pela intensificação da produção agrícola e pecuária, o comércio de animais silvestres e o consumo da carne desses animais”, comenta Mariana.

As áreas protegidas e a conservação da vida selvagem são a forma mais eficaz de controlar essas atividades e minimizar os perigos associados a elas. Além disso, elas são aliadas na necessária recuperação verde frente à atual crise.

Esta edição do PARKS também revela que pelo menos 22 países propuseram ou promulgaram retrocessos nas regulamentações ou cortes orçamentários na conservação do meio ambiente. Os pacotes e políticas de estímulo econômico pós-COVID analisados pela revista continuam a minar em vez de apoiar a natureza, nossa melhor esperança contra futuras pandemias e atuais crises planetárias, como as mudanças climáticas.

“Cuidar do nosso planeta nunca foi tão urgente. A crise do coronavírus nos mostrou o que acontece quando estamos em desequilíbrio com a natureza. 2021 precisa ser o ano em que mudamos de rota, para uma economia mais justa, menos intensiva no uso de recursos naturais e de menor emissão de gases de efeito estufa. Precisamos nos unir como sociedade”, reflete Mariana.

Além do artigo sobre zoonoses, a Rede WWF contribuiu com mais quatro artigos nesta edição de PARKS: “Uma visão geral global e perspectivas regionais”; “Áreas marinhas protegidas e conservadas em um mundo pós-COVID-19”; “Turismo em áreas protegidas e conservadas em meio à pandemia” e “O impacto da COVID-19 nos guardas florestais”.

Confira a revista (em inglês) em: https://parksjournal.com/parks-27-si-march-2021/