Justiça condena França por falhas contra o aquecimento global

Em decisão histórica, Corte aponta fracasso parcial do país em cumprir suas metas climáticas

O Tribunal Administrativo de Paris decidiu hoje (3/02) que os Estado francês é culpado por não ter cumprido seus compromissos de reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

A ação, apelidada pela imprensa francesa de “Caso do Século”, foi aberta em 2019 por um grupo de ONGs francesas e contou com o apoio de mais de 2 milhões de cidadãos. A iniciativa faz parte de um esforço global de ativistas para levar à justiça governos que não agem para mitigar a crise do clima. Os autores da ação são as ONGs Oxfam France, Notre Affaire à Tous, Fondation pour la Nature et l’Homme e Greenpeace France.

Os juízes identificaram uma relação causal entre o dano ecológico (aquecimento global) e as diversas falhas do Estado na luta contra a mudança climática, prejudicando o interesse coletivo. O tribunal condenou o Estado a pagar a quantia simbólica de 1 euro em compensação pelo “prejuízo moral”, uma prática comum na França. O caso ainda não está encerrado: uma segunda decisão da mesma corte, deve determinar que ações o país deve tomar para atuar efetivamente contra o aquecimento global. Para isso, os juízes ordenaram uma investigação suplementar, com um prazo de dois meses.

O presidente francês Emmanuel Macron tem sido muito vocal sobre seu apoio à ação contra a mudança climática. Em dezembro, ele fez pressão para aumentar as metas da União Europeia para 2030 a fim de reduzir os gases de efeito estufa em pelo menos 55% em comparação com os níveis de 1990 – acima da meta anterior de 40%. O que as quatro organizações que processaram o Estado alegam é que o discurso de Macron não tem lastro em medidas concretas para reduzir as emissões responsáveis pelo aquecimento global.

“Esta é uma vitória para todas as pessoas que já estão enfrentando os impactos devastadores da crise climática que nossos líderes não conseguem enfrentar”, comemora Cécilia Rinaudo, diretora executiva da Notre Affaire à Tous. “A decisão histórica prova que a inação climática da França não é mais tolerável, é ilegal.”

“Embora a inação climática do Estado francês já esteja prejudicando as pessoas e a natureza, é um alívio para nossas ONGs – e para os 2,3 milhões de pessoas que apoiaram nosso caso – ver que a Corte decidiu a favor da verdade e da ciência” , avalia Célia Gautier, consultora de Energia e Clima na Fondation Nicolas Hulot. “Esta grande vitória nos faz ter esperança para o segundo passo de nosso caso, que é conseguir que o país tome medidas climáticas adicionais.”

“Esta decisão não só leva em consideração o que os cientistas dizem e o que as pessoas querem das políticas públicas francesas, mas também deve inspirar as pessoas em todo o mundo a responsabilizar seus governos pelas mudanças climáticas em seus tribunais”, defende o diretor executivo do Greenpeace France, Jean-François Julliard.

Cécile Duflot, diretora executiva da Oxfam France, também vê na decisão um precedente legal que pode ser usado por pessoas afetadas pela crise climática em diferentes partes do mundo. “[a decisão] Também é um lembrete oportuno para todos os governos: ações falam mais alto do que palavras.”

Bolsonaro está se livrando de possíveis processos de impeachment, mas a conta será salgada

A eleição de seus aliados como presidentes do parlamento dá ao presidente Bolsonaro um impulso na corrida pela reeleição no próximo ano. Porém, a nova aliança com os partidos de centro-direita do Centrão não é grátis

bolso flagO presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, celebra cerimônia para abaixar a bandeira nacional do Brasil durante a noite, no Palácio da Alvorada, em meio ao surto da COVID-19, em Brasília, Brasil, em 15 de julho de 2020. REUTERS / Ueslei Marcelino

Por Thomas Spleen, Rio de Janeiro, para o  Neue Zürcher Zeitung

Quem quiser governar o Brasil deve, mais cedo ou mais tarde, aliar-se aos partidos do chamado Centrão, ou seja, os partidos de centro-direita. Politicamente, você sempre inclina a balança. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, sabe disso, porque nos trinta anos de sua carreira política foi membro de quase todos esses partidos em algum momento. O mais irônico é que ele jurou na campanha eleitoral de 2018 que a política do pós-xadrez típica do Centrão acabaria de uma vez por todas. Em vez disso, uma “nova política” começa com seu mandato, sem os partidos de centro-direita marcados pela corrupção.

Mas o mais tardar com a vitória dos dois deputados do Centrão Arthur Lira e Rodrigo Pacheco na eleição dos presidentes do Congresso na noite de segunda-feira, Bolsonaro finalmente voltou à rejeitada “velha política”. Ele já havia buscado e encontrado o apoio do Centrão nos últimos meses, quando foi duramente atingido devido à catastrófica corona política e ao envolvimento de seus filhos em diversos escândalos. Os votos deram-lhe uma minoria de bloqueio para evitar possíveis processos de impeachment.

64 pedidos de impeachment provavelmente irão desaparecer na gaveta

Isso só pode ser iniciado pelo presidente da Câmara dos Representantes. Este cargo está nas mãos do confidente do Bolsonaro, Arthur Lira, desde segunda-feira à noite. O advogado, cuja carreira política é orlada por denúncias de corrupção, provavelmente vai colocar na gaveta todas as 64 ações de impeachment contra o Bolsonaro que foram apresentadas até o momento. Ele também ajudará o presidente a finalmente aprovar sua agenda política no Congresso. Isso inclui leis mais flexíveis sobre a aquisição de armas e uma redução nas regulamentações ambientais. Rodrigo Pacheco também preside o Senado com um político do Centrão que enfrenta o Bolsonaro.

Mas o presidente brasileiro pagará caro por esse apoio. Nos últimos dias, ele teria cortejado os favores do Centrão com cargos importantes no governo e orçamentos extras generosos para os constituintes, conforme relatado por fontes internas. Para isso, ele agora terá de dispensar alguns de seus seguidores leais para abrir espaço para os novos amigos no gabinete. Sua promessa feita na eleição de 2018 de encher seu governo de especialistas e não de aliados foi quebrada para sempre.

A crescente influência dos novos aliados é devastadora para a  economia brasileira. Com a entrada do Centrão no governo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, pode ter que esquecer a liberalização da economia. Em vez de privatizar as empresas estatais não lucrativas, as posições mais lucrativas agora serão divididas entre os novos aliados. E nos discursos inaugurais dos dois novos presidentes do congresso na segunda-feira, dada a situação de pandemia ainda tensa, outra rodada de ajuda custosa contra a crise causada pelo coronavírus foi solicitada. O Brasil não pode pagar por isso.

Mas desde que a ajuda contra a crise causada pelo coronavírus expirou no final do ano, a popularidade do Bolsonaro diminuiu. Além disso, muitos cidadãos culpam o presidente pela falta de oxigênio para os pacientes da COVID-19 em algumas regiões e pelo lento início da vacinação. No meio da segunda onda corona, mais de mil brasileiros morrem todos os dias. Caso a luta contra a pandemia e, portanto, a recuperação econômica tenha sucesso, o “Centrão” pode servir de base para a reeleição de Bolsonaro no final de 2022. No entanto, os partidos do centro são muito sensíveis ao estado de espírito das pessoas. Se cair contra o Bolsonaro, os lados serão trocados durante a noite. A presidente de esquerda Dilma Rousseff teve recentemente essa experiência dolorosa. Ela foi destituída do cargo em 2016 pelo até então aliado Centrão.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo  Neue Zürcher Zeitung [Aqui!]. 

O pífio fim da Lava Jato curitibana e suas lições

Lá pelos idos de 2015 um jornalista alemão que visitava a região do Porto do Açu me solicitou um encontro para que eu pudesse lhe passar as minhas impressões sobre o que estava ocorrendo com os agricultores do V Distrito de São João da Barra. Como vivíamos naquele momento o que viria a ser o auge da “Operação Lava Jato”,  o jornalista me perguntou se eu acreditava que o Brasil estava passando finalmente por uma espécie de imunização contra o processo sistêmico de corrupção.  Para aparente surpresa do meu interlocutor, respondi com um simples não. E adicionei que eu estava surpreso que Deltan Dallagnol e Sérgio Moro não tivessem sido ainda liminarmente defenestrados por aqueles que efetivamente detém o poder no Brasil.

Passados menos de seis anos daquela conversa,  com o Brasil engolfado por evidentes casos de corrupção e centenas de milhares de mortos pela COVID-19, chega a informação que o Ministério Público Federal resolveu acabar com o grupo especial da chamada “Operação Lava Jato” em Curitiba, dando fim aos espetáculos matinais que geralmente traziam membros do Partido dos Trabalhadores, tendo o ex-presidente Lula sido transformado no principal troféu dos menudos judiciais paranaenses.

fim lava jato

A verdade é que toda o circo que se criou em torno da Lava Jato já tinha sido atingido parcialmente desmontado com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, pois esse era aparentemente o real objetivo do que se realizou nos gabinetes da Lava Jato curitibano, sendo o combate à corrupção apenas um espantalho útil. Após o objetivo ser alcançado, o fato é que a Lava Jato deixou de interessar a quem a promoveu de forma tão ardente. 

Tanto isto é verdade que não se vê grandes lamentações por parte daqueles lustrosos supostos patriotas que lotavam avenidas com a camisa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para jurar amor a Sérgio Moro e seus pupilos da Lava Jato. A coisa está sendo encarada com grande naturalidade e, para mim, sem nenhuma surpresa. 

Que o fim insosso da Lava Jato sirva de lição principalmente para aqueles segmentos da esquerda parlamentar que se puseram a defender que a operação comandada desde Curitiba traria qualquer avanço para as lutas dos trabalhadores.  O fato inescapável é que quem na esquerda se pôs a defender a Lava Jato, agora no mínimo carrega na testa o selo de “inocente útil’.

Enquanto isso, os grandes beneficiários das ações da Lava Jato, incluindo banqueiros e latifundiários, vão apoiando o desmanche do pouco que existe no Brasil em termos de mecanismos de proteção social para os mais pobres. Que isso sirva de lição para os inocentes úteis que acreditam que há avanço possível sem organização da classe trabalhadora, e que a vida se resume em gerar lacrações e ter atitudes de boa etiqueta no processo da luta de classes.

Alemanha: Creches abertas? sim, mas!

Educadores de Brandemburgo estão pedindo melhores conceitos de proteção para creches, testes para COVID-19 e um rápido processo de vacinaçãoUma criança não testada mede febre em um brinquedo macio

Uma criança não testada mede a temperatura de um brinquedo de pelúcia. Foto: iStock / lithiumcloud
 
Por Ulrike Wagner para o Neues Deutschland

“Entre o Natal e o Ano Novo, dez professores de nossa instituição adoeceram com o coronavírus”, disse a educadora de Potsdam, Jana Müller, em uma entrevista coletiva sobre a situação nas creches de Brandenburg nesta terça-feira. Eles não sabem onde foram infectados. Mas: Havia cinco crianças com resfriados na época. No final das contas, uma criança sem sintomas de resfriado testou positivo para  a COVID-19.  A membro do Conselho de tTrabalhadores pede ao governo estadual de Brandenburg que forneça mais proteção contra a COVID-19 para os educadores em Brandenburg.

Com ela, mais de 530 outras pessoas (na tarde de terça-feira) que assinaram uma petição online de Verdi desde domingo, estão pedindo isso. “O funcionamento regular só é possível com educadores saudáveis”, diz o sindicato. “Apelamos ao governo do estado para finalmente agir e enfrentar a discussão com os educadores”, diz Frank Wolf. Uma carta do sindicato ao primeiro-ministro Dietmar Woidke e à ministra da Educação Britta Ernst (ambos SPD) permanece sem resposta até agora, de acordo com o chefe regional do Verdi de Berlin-Brandenburg. Especificamente, os signatários da petição exigem o fornecimento regular de máscaras de proteção, testes rápidos semanais para detectar a infecção por coronavírus, e a oferta de serem vacinados o mais rápido possível,

O governo estadual “apela” aos pais para que cuidem dos filhos em casa. As creches só devem permanecer fechadas em regiões com número particularmente alto de infecções, como é o caso atualmente nos distritos de Oberspreewald-Lausitz e Ostprignitz-Ruppin. No momento, as 1900 creches em Brandenburg estão abertas quase normalmente, com capacidade de 70 a 90%, de acordo com a coletiva de imprensa. Isso corresponde aproximadamente à taxa de ocupação de janeiro passado. O Ministério da Educação de Brandemburgo contradiz esta informação. De acordo com os departamentos sociais responsáveis ​​dos distritos urbanos, a ocupação das creches é de apenas 45 a 60%, de acordo com a porta-voz do ministério Ulrike Grönefeld. Isso corresponde, a grosso modo, aos valores do pronto-socorro quando as creches estavam fechadas. A estratégia de teste nas creches também terá continuidade. As capacidades de testagem ainda estão sendo negociadas.

A petição online, entretanto, critica o fato de não haver exigência de máscara nem testes abrangentes. No site do ministério está escrito: »Geralmente não é necessário que os profissionais da educação usem máscaras FFP2 ou FFP3 como equipamento de proteção individual.”

Diana Walluks, educadora em Kremmen e presidente do grupo de especialistas regionais do Verdi para o bem-estar social, infantil e juvenil, relata a existência de um grande medo de infecção entre os educadores. Os regulamentos inconsistentes também inquietaram seus colegas.

Esse quadro também se reflete nos mais de 250 comentários sobre a petição que já estavam lá na tarde de terça-feira. “Como educadores, também temos famílias em casa que queremos proteger. Cada vez que vou para casa com um sentimento de medo – de arrastar este vírus comigo hoje e transmiti-lo à minha família «, escreveu uma pessoa que assinou a petição. Não é possível manter distância de crianças menores de seis anos, escreve Antje Graßhoff-Meyer: »As crianças não apresentam sintomas e não são testadas. De acordo com relatos de meus colegas de outras creches do nosso provedor, as crianças chegam sem fazer o teste e ambos os pais estão infectados. “

Desde segunda-feira, educadores da cidade de Potsdam podem fazer um teste de saliva duas vezes por semana. Não as crianças – muitas vezes sem sintomas. Claudia Mühlmann da VSB Child and Youth Welfare em Potsdam não consegue, como ela diz, “encontrar uma resposta politicamente correta” para o porquê disso. Ela suspeita que isso tenha motivos financeiros. Além de vários testes rápidos por semana, a proteção vacinal deve ter alta prioridade para os educadores. O sindicato Verdi pede que os educadores tenham a maior prioridade, ao lado das profissões médicas. No entanto, a vacinação não deve ser obrigatória, afirma o sindicalista Wolf. A educadora de Potsdam Jana Müller mencionada no início explica: »Creches abertas, sim, mas, por favor, vacine primeiro os educadores.

Na situação atual, segundo o sindicato e os educadores presentes, não deveria haver um atendimento regular. Deve ser claramente regulamentado quem pode fazer uso dos cuidados de emergência. “O que queremos evitar é que a gerência do Kita no local tenha que discutir com os pais se eles são sistemicamente relevantes ou não”, diz Frank Wolf.

A situação também é desafiadora para pais e filhos. “Não há conversas com os pais”, explica Sylvia Papendorf, presidente do conselho geral de trabalho da Volkssolidarität. É difícil explicar às crianças que não devem se misturar com os outros grupos no parquinho. “Mas as crianças se dão muito bem com as situações”, diz Papendorf.

Liane Sachse, de Ludwigsfelde, quer que as decisões do governo sejam comunicadas mais cedo. “Até os educadores precisam de planejamento de segurança, eles também têm filhos e famílias”, diz o gerente do Kita.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland [Aqui!].

Água e esgotos privatizados: o real objetivo é lucrar, e muito

Busted Uni policy must be re-set." - Coffs Coast Outlook

O estado do Rio de Janeiro está em vias de privatizar a sua empresa de águas e esgotos, a Cedae, sob pressão dos privatistas instalados no Ministério da Fazenda comandado pelo dublê de ministro e banqueiro, o Sr. Paulo Guedes. As promessas que guiam esse processo de privatização segue o discurso de sempre que é o de ampliar serviços de qualidade para toda a população assistida hoje por uma empresa estatal que aufere lucros e não perdas.

Mas quem não quiser cair na conversa neoliberal de que privatizar melhora a qualidade e barateia os custos dos serviços antes oferecidos pelo Estado deve vir a Campos dos Goytacazes onde o monopólio do fornecimento de água e do recolhimento de esgotos está a cargo da empresa “Águas do Paraíba”, provavelmente o braço mais lucrativo do grupo “Águas do Brasil“.  Depois de chegar na cidade, é só pedir uma conta mensal emitida pela “Águas do Paraíba” a um dos seus clientes cativos para verificar como é enorme a distância entre o discurso e a prática neoliberal.

Posto abaixo a conta que recebi após deixar a minha residência trancada por 25 dias e com o hidrômetro fechado para impedir a entrada de ar na tubulação (ar esse que seria contabilizado como água).

conta ap

O leitor desta postagem poderá observar que, apesar de gasto impressionantes 6 metros cúbicos mesmo em viagem e com o hidrômetro trancado, acabei pagando o “valor mínimo” que é de 10 metros cúbicos. De quebra, ainda paguei o mínimo no tocante ao recolhimento de esgotos que também é de 10 metros cúbicos. Em outras palavras, paguei por aquilo que não consumi (água) e mais ainda por aquilo que não despejei na rede de coleta (esgoto).

No meu caso, o valor de R$ 92,64 não me impedirá de comprar comida ou remédios, em que pese o fato de estar sem reajuste salarial (incluindo a perda inflacionária) desde 2015.  Isso ao contrário da empresa “Águas do Paraíba” que obteve um generoso reajuste de 7% nos estertores do governo de Rafael Diniz, o qual foi mantido pelo prefeito Wladimir Garotinho, em troca aparentemente de outra obra de maquiagem no histórico canal “Campos-Macaé”.

O que mais impressiona na matemática financeira que turbina os lucros milionários cada vez maiores desde que a “Águas do Paraíba” iniciou seu monopólio em Campos dos Goytacazes é o fato de que nenhum prefeito ou legislatura da Câmara Municipal se deu ao trabalho de exercer de fato o poder de fiscalização sobre a qualidade dos serviços prestados e, muito menos, da planilhas contábeis da empresa.

Como orientei uma dissertação de mestrado sobre os impactos da privatização da água em Campos dos Goytacazes, no âmbito do Programa de Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e que foi defendida com êxito no cada vez mais longínquo ano de 2012, posso afiançar que as precariedades observadas por aquele estudo acadêmico permanecem ou até se agravaram ao longo dos últimos nove anos. E nenhum dos problemas constatados impediu reajustes generosos ou causou qualquer movimentação séria por parte dos poderes constituídos e dos órgãos de fiscalização para examinar a qualidade dos serviços prestados pela “Águas do Paraíba”.

Dada a possibilidade de que o grupo que controla a “Águas do Paraíba” venha a adquirir a Cedae, Campos dos Goytacazes é certamente um bom indicador do que poderá acontecer nos municípios em que a água será privatizada: manutenção de serviços de qualidade questionável e contas para lá de salgadas, repetindo o bordão de que “eu sou você amanhã”.

Barragem de Belo Monte enfrenta fiasco econômico

belo monteBarragem de Belo Monte (a Volta Grande, vindo da esquerda abaixo). Foto: Christian Russau (2016)

Por Christian Russau para a Kooperation Brasilien

O operador da barragem de Belo Monte alerta para enormes prejuízos econômicos se a redução da drenagem de água da área da barragem até a grande curva do Volta Grande, que foi decidida recentemente pelo órgão ambiental do Ibama, for implementada para proteger os interesses dos  moradores locais.  A empresa quer reverter decisão do Ibama. Mas mesmo antes do início da construção, anos atrás, os críticos alertaram para o conflito da “lucratividade da barragem contra os interesses dos moradores locais”.

Ao longo de uma década, muitos críticos da barragem monstro de Belo Monte repetidamente apontaram que ela transformaria a grande curva da Volta Grande para a operação lucrativa da barragem de 11 GW,  apontando para o fato de que a natureza e as pessoas no local serem maciçamente afetadas, porque uma redução de até 80% na quantidade de água de um rio de quase 100 km traria estagnação do corpo hídrico, com todas as consequências, tais como falta de oxigênio, mortandade de peixes, aumento da formação de mosquitos. Os críticos repetidamente apontaram que apesar da estação das chuvas sempre houve estações secas e que, portanto, o conflito entre a rentabilidade da barragem e os interesses dos moradores locais da Volta Grande era inevitável. Agora, o conflito anunciado ameaça chegar ao auge.

Depois que moradores uniram forças para realizar um protesto em novembro do ano passado e  bloquearam a Transamazônica  para exigir um aumento do volume mínimo de vazão livre para a Volta Grande, o  Ibama decidiu que no canal que se ramificava em frente à primeira barragem do Pimental, a máximo de 10.900 metros cúbicos por segundo deve ser desviado para a barragem de Belo Monte a fim de garantir uma vazão mínima de 16.000 m3 /s na Volta Grande do Xingu, de modo a permitir a reprodução da fauna e da flora durante o período Piracema.

Mas agora a operadora Belo Monte Norte Energia confronta essa decisão em uma notificação formal ao Ibama. A redução do volume de água para 10.900 metros cúbicos por segundo para a operação da barragem de Belo Monte não seria suficiente para garantir uma produção lucrativa de energia elétrica, segundo a revista IstoÉ Dinheiro. Segundo o relatório, essa objeção formal também foi encaminhada aos ministérios federais em Brasília. O relatório cita fontes segundo as quais está em risco não apenas a lucratividade da maior barragem de Belo Monte, mas também a da barragem menor de Pimental que fica a montante. Um dos outros argumentos do operador da barragem agora inverte o argumento da proteção dos peixes: Uma redução na quantidade de água a ser fornecida ao reservatório da barragem acarreta o risco de que os níveis de água impactem as áreas de lagoas fechadas em que os peixes então capturados morreriam ou ficariam impossibilitados de realizar a tão importante desova, afirma IstoÉ Dinheiro. Um aumento abrupto do fluxo de água em Pimental também acarreta o risco de uma formação repentina de inundação na Volta Grande, o que significa inundação e destruição de propriedades e posses das pessoas, bem como uma ameaça à flora e fauna. 

O conflito chegará ao ápice. Como se nada disso tivesse sido avisado com antecedência

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Servidores municipais e o governo Wladimir: uma lua de mel fugaz

5 maneiras de superar o término do namoro - VIX

Esta postagem pode parecer uma continuidade da minha última sobre os servidores municipais sendo tratados como “Geni” no governo Garotinho, e realmente é. Mas tendo acabado de ouvir uma gravação que circula em grupos de Whatsapp, centrada na forma pela qual o vice-prefeito Frederico Paes é retratado pela sua forma de trato com os servidores, penso que a lua de mel entre o governo de Wladimir Garotinho e boa parte dos servidores foi tão fugaz quanto o casamento do cantor Fábio Junior com a atriz Patrícia de Sabrit.

Pesam para que a lua de mel esteja tendo um fim fugaz a impressão que já grassa entre um número considerável de servidores de que o vice-prefeito acha que está no comando de uma das usinas da Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro Ltda (Coagro), e que os servidores estatutários da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes são cortadores de cana. Como há muito servidor municipal que teve gerações inteiras de suas famílias que padeceram com a catana da mão nos canaviais de onde os barões do açúcar retiraram suas fortunas enquanto deixavam para trás dívidas trabalhistas colossais, essa associação não é nada positiva não apenas para Frederico Paes, mas, e principalmente, para Wladimir Garotinho.

As próximas semanas, ainda que com um Carnaval pelo caminho, deverão ditar se a lua de mel fugaz não será transformada em um divórcio conturbado. Mas pelo que eu ouvi na gravação que me foi enviada, a coisa pode azedar bastante e bastante rapidamente.

Para evitar isso, duas coisas terão de acontecer: a primeira é que seja cessada a avidez que aparentemente está tomando conta do governo municipal de retirar direitos dos servidores que, afinal, carregam o piano nas costas. A outra seria, como já indicou Chico Buarque em relação a ministros, constituir um “secretário do Vai dar Merda”. Talvez assim, e somente talvez, o divórcio conturbado não se materializará. A ver!

O servidor municipal será feito de “Geni” no governo Wladimir Garotinho?

Não se deve jogar pedra na Geni | Opinião | Valor Econômico

Conversando com um amigo que considero uma das mentes mais astutas da cidade de Campos dos Goytacazes, ele me informou que eu talvez tenha de encurtar o prazo de cem dias que dei ao honorável prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Prontamente perguntei a este interlocutor a razão da previsão, e ele me adiantou que depois de salgou em mais 3% a contribuição dos servidores municipais, o prefeito ainda em início de gestão estaria planejando um pacote de maldades direcionado especificamente para os servidores da área da saúde.

Meio pasmo perguntei se isso aconteceria ainda em meio ao alastramento da pandemia da COVID-19 que segundo previsões do ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, tem tudo para virar uma tsunami por causa da variante amazonense do SARS-COV-2. A resposta foi tão direta quanto rápida: sim. A lógica que estaria guiando esse próximo ataque seria de executar um “pacote de maldades” nos primeiros seis meses de governo, para gerar dinheiro extra que então seria apresentado como “dinheiro novo”.

Pois bem, estará errando gravemente o prefeito Wladimir Garotinho se começar a tratar os servidores municipais, independente do setor em que atuam, como uma espécie de “Geni” (lembrando a famosa canção de Chico Buarque) onde todas as pedras são jogadas, enquanto os verdadeiros sugadores das receitas municipais continuam intocados.

A verdade é que são os servidores municipais que têm evitado que uma situação ainda pior tivesse se estabelecido no município de Campos dos Goytacazes.  O caminho a ser trilhado deveria ser o do fortalecimento da qualidade de trabalho e o respeito aos direitos que não estão sendo cumpridos.  

Aos servidores municipais, resta o caminho da organização e da pressão para que seus representantes sindicais atuem para defender direitos e impedir que ocorra uma regressão ainda maior na qualidade de vida de milhares de trabalhadores.

Feijão com excesso de agrotóxicos é mais um grave risco à saúde dos brasileiros

Embrapa já tem alimentos transgênicos liberadosExcesso de agrotóxicos no cultivo de feijão representa outra grave ameaça à saúde dos brasileiros

Tendo nascido no sul do Brasil no meio de uma família de produtores de itens básicos da dieta brasileiro sou um fã confesso do feijão. Nos anos em que morei fora do Brasil em países em cuja a dieta o feijão era ausente, realizei esforços incríveis para mantê-lo como ingrediente da minha dieta costumeira. Aliás, da minha e de milhões de brasileiros.

Pois bem, eis que lendo o Boletim “Só feijão” produzido pelo Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), descobri que estamos vivenciando um grave problema com o uso intensivo de agrotóxicos por produtores rurais, e que o problema já chegou a tal gravidade que “cargas de Feijão sendo devolvidas por resíduos excessivos de defensivos (isto é, agrotóxicos). Testes rápidos têm permitido que, antes de descarregar o produto, se tenha um resultado prévio e o empacotador não pode descarregar.

O Boletim do Ibrafe informa ainda que o “Ministério da Agricultura tem lavrado multas contra os empacotadores e, repito, que chegam a R$ 490.000 por uma carreta“.   O autor da nota ainda enfatiza que a razão da multa ser tão alta “certamente não é em busca de gerar receita a partir de multas, mas para que se pare com o uso inadequado de defensivos (isto é, agrotóxicos).

Um detalhe curioso nesse informe se refere à informação de que “as empresas de defensivos (isto é, as mesmas corporações que produzem venenos agrícolas, muito deles proibidos em outras partes do mundo) estão preocupadas e sabem que podem ser corresponsáveis pelo mau uso.” 

É interessante lembrar que no livro publicado em 2017 pela geógrafa e docente do Departamento de Geografia da USP, Larissa Miers Bombardi, o “Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, há uma referência específica ao limite de resíduos permitidos no feijão para o inseticida malationa que está entre os mais vendidos no nosso país, e que aqui possui uma tolerância quatrocentas vezes maior do que na União Europeia (ver imagem abaixo).

feijão malationa

 Mas a malationa é apenas um dos muitos agrotóxicos utilizados no cultivo do feijão.  Ao se acessar o site da Ihara, um dos principais fabricantes de venenos agrícolas no Brasil, é possível ver que a empresa vende 25 produtos direcionados diretamente para esta cultura, entre eles os fungicidas Clorotalonil, Cloridrato de Cartape e o inseticida da classe dos neonicotinóides, Dinotefuram, que são proibidos pela União Europeia (EU) por seus danos ao ambiente e à saúde humana.

É interessante notar que, por força de decisão judicial, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está tendo que reavaliar a autorização para uso de outro fungicida também proibido pela EU amplamente utilizado no cultivo de feijão, o Carbendazim, por causa dos danos à saúde humana, incluindo a infertilidade, malformações fetais e câncer (ver imagem abaixo).

carbendazim globo

O brasileiro, pelo menos aquele que ainda possui dinheiro para comprar comida, está sob mais uma grave ameaça que é a contaminação excessivo de agrotóxicos no feijão. E há que se notar que agrotóxicos como o Clorotalonil e o Cloridrato de Cartape tem sua produção fortemente associada à empresas chinesas, o que novamente explicita toda a hipocrisia que cerca o tratamento dado pelo governo Bolsonaro, a começar pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, à vacina Coronavac,  que é produzida pela empresa Sinovac. Como se vê agora, vacina chinesa não pode, mas feijão contaminado com agrotóxico chinês pode.

Fãs de K-pop se engajam no ativismo climático

Solidariedade leva alívio a vítimas de chuvas extremas na Indonésia, que já superou a marca de 200 desastres ambientais só em 2021

O K-pop entrou de vez para as playlists nos últimos anos, não só na Ásia Oriental, mas também nos países ocidentais, conquistando milhares de fãs – os chamados k-poppers. Com coreografias animadas e letras descontraídas, o estilo está longe de ser militante, mas o mesmo não se pode dizer dos fãs, que têm demonstrado cada vez mais solidariedade e conscientização política. Eles já se mobilizaram contra o discurso de campanha de Donald Trump em Tulsa, arrecadaram fundos para a campanha #BlackLivesMatter e protestaram pela democracia na Tailândia.

Na Indonésia, 16 fã-clubes de K-pop participaram de uma captação de recursos na última semana para ajudar vítimas de eventos climáticos extremos no país. Eles arrecadaram US $100 mil em poucos dias, de acordo com Kitabisa, uma plataforma de doação online da Indonésia. Considerando que o salário mínimo da Indonésia é de cerca de US $300 dólares por mês e que o valor mínimo de doação era de Rp 1.000 (US $0,071), a escala e a velocidade da campanha de arrecadação chamam a atenção. Os fãs estão deixando comentários na página de doação em nome de seus artistas favoritos, dizendo que desejam às vítimas uma rápida recuperação e que não haja mais desastres no país.

O ativismo climático dos K-poppers foi notado pela primeira vez a partir do “Kpop4Planet”, uma campanha online para justiça climática que é liderada pelos fãs do estilo. A campanha foca na conscientização sobre a crise climática e estimula os participantes a tomar medidas. Nurul Sarifah, organizadora do Kpop4Planet, vê a ação como um movimento coletivo. “Para evitar os impactos da mudança climática no futuro, precisamos fazer ações climáticas agora”, defende.

No campo da justiça climática, a base de fãs na Indonésia tem sido uma das mais ativas. Eles se manifestaram contra o desmatamento indonésio, plantaram várias florestas em homenagem a suas celebridades e já tinham financiado anteriormente apoio a vítimas de desastres naturais, como o terremoto de Lombok de 2018.

Arendeelle (que não quis dar seu nome verdadeiro) administra o Elf Indonésia Com, um fã-clube da popular boyband Super Junior. O Elf já se juntou a vários esforços de doação para afetados por desastres naturais, como o tsunami de Palu de 2018 e a erupção de Bali de 2017. Arendeelle diz que os fãs foram inspirados pela doação dos ídolos e pela valorização do trabalho voluntário e usa como exemplo o membro da banda Siwon Choi, que se tornou embaixador da UNICEF. “Já estamos promovendo redução, reutilização e reciclagem nas atividades de base do fã-clube e sempre rezamos para que não haja desastres na Indonésia, mas até onde sei não podemos evitar o clima extremo”, lamenta

Indonésia: 200 desastres naturais só em 2021

Este ano, a Indonésia já sofreu mais de 200 desastres naturais, de acordo com o Conselho Nacional Indonésio de Gestão de Desastres (BNPB). Estes eventos têm sobrecarregado uma nação que se debate com o aumento dos casos de COVID-19.

Janeiro é a estação de pico de chuvas na Indonésia, mas este ano tem visto tempestades muito mais intensas do que a média, com inundações e danos generalizados – especialmente no sul de Kalimantan, onde foram descritas pelo presidente indonésio Joko Widodo como “as piores inundações dos últimos 50 anos na região”. Mais de 60 mil pessoas foram desalojadas e ao menos 21 pessoas morreram na última contagem oficial.

A Indonésia também é conhecida por seus frequentes terremotos. Em 15 de janeiro, a ilha de Sulawesi foi atingida por um terremoto de 6,2 graus de magnitude, que desalojou mais de 30 mil pessoas e resultou em 91 mortes. As autoridades de gestão de desastres dizem que já registraram 54 terremotos em janeiro de 2021, superando o recorde de janeiro passado.

Desde setembro de 2020, a Agência Nacional de Meteorologia, Climatologia, Geofísica da Indonésia (BMKG) alerta para o potencial de eventos climáticos extremos em todo o país devido ao aquecimento global. A agência também apontou que houve um aumento da temperatura na Indonésia nos últimos 30 anos de 0,1 para 1,0 graus Celsius. Parece pequeno, mas o impacto pode ser severo, explica a agência.

Grupos ambientalistas argumentam que o impacto dos desastres é exacerbado pelo desmatamento, que está relacionado à produção de carvão e de óleo de palma. Na semana passada, Dwi Korita, presidente da BMKG, reforçou essa percepção: “As chuvas extremas de janeiro a março serão mais desastrosas nos locais ambientalmente degradados”.