No país da carne, aos mais pobres restará comer coração (e olhe lá!)

CORAÇÃO DE BOI ACEBOLADO E BEM MACIO! - YouTubeA mensagem do governo Bolsonaro aos mais pobres pode ser traduzido como “se não tem picanha que comam coração”

A imagem abaixo mostra uma tabela com os preços praticados para diversos cortes de carne bovina em um supermercado típico do Brasil, e a realidade que emerge desses números é que, apesar de sermos os maiores exportadores de carne bovina desde 2004 e temos o maior rebanho comercial, a maioria dos brasileiros está fadada a comer coração, já que os demais cortes (incluindo os de miúdos como fígado e língua) se tornaram inatingíveis para eles.

tabela de carne

Uma das razões para os preços estratosféricos para o preço da carne bovina (que deverá arrastar junto o de outras carnes como porco e galinha) resulta da inexistência de qualquer medida de estabelecimento de um estoque doméstico que impedisse justamente a ocorrência desse caráter explosivo dos preços.

Ao mesmo tempo, há que se notar que boa parte da produção nacional está sendo destinada para a China cujo governo está tendo uma ação modelar no controle da pandemia da COVID-19, o que habilitou o gigante da economia global a retomar rapidamente os níveis de produção e consumo. Tudo isso representa o caminho contrário do que foi adotado pelo governo ultraneoliberal comandado pela dupla formada por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

Há que se salientar que a elevação da inflação em itens consumidos mais diretamente pelos segmentos mais pobres da população já vinha ocorrendo com outros itens, resultando no fato de que o aumento de preços para as famílias brasileiras mais pobres  tivesse sido mais de 10 vezes maior que a alta sentida pelas pessoas mais ricas de janeiro até setembro de 2020.  E é justamente esta parcela da população que está sendo mais fortemente afetada pelo agravamento do desemprego que já era alto antes, mas que aumentou ainda mais após a erupção da pandemia da COVID-19.

A situação que se abre no Brasil com essa combinação de alta inflacionária para os mais pobres e aumento do desemprego é geradora de uma situação potencialmente explosiva.  Essa situação deverá ser agravada ainda mais pela insistência do governo Bolsonaro em aprofundar sua agenda ultraneoliberal com a promoção de privatizações e ataques aos direitos sociais e trabalhistas. 

Ao seu modo, Jair Bolsonaro parece estar adaptando o famoso trágico bordão atribuído (erroneamente dizem os historiadores) à imperatriz francesa Maria Antonieta que teria dito- pouco antes da Revolução Francesa- que “se não tem pão que comam brioches”- para “se não tem picanha que comam coração”.  O resultado acontecido com Maria Antonieta a história já nos conta. Resta saber o que acontecerá com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

E antes que eu me esqueça, ofereço uma reminiscência familiar. Sendo filho de um agricultor transformado em metalurgico, passei boa parte da minha infância e juventude tendo uma dieta que era turbinada com partes menos nobres do boi, incluindo fígado, rins e bucho. Ainda bem que minha mãe era uma mestra em transformar esses miúdos em deliciosas iguarias. O meu ponto aqui é que passadas seis décadas, com o Brasil tendo um plantel gigantesco de animais que são criados às custas de muita destruição ambiental, não há de nada de romântico ao que está sendo imposto aos pobres por um governo que não possui qualquer preocupação com o que está sendo colocado (na maioria das vezes isso é nada) de uma parcela significativa dos brasileiros.

Um debate urgente: o papel dos frigoríficos na persistência da COVID-19 no Brasil

frigorificos

Postei hoje mais uma notícia vinda da China sobre a descoberta de carregamentos de carne bovina vinda do Brasil contaminados pelo Sars-Cov-2, o vetor causador da pandemia da COVID-19.  Ao mesmo tempo, se olharmos para informações acerca do comportamento econômico dos maiores frigoríficos brasileiros vamos ver que, ao contrário da maioria dos setores de economia, eles estão surfando na onda da pandemia. O caso do segundo frigorífico brasileiro, o  Marfrig, é uma confirmação direta disso, na medida em que o grupo acaba de divulgar lucros milionários, com vendas turbinadas para os mercados globais.  Os ganhos do Marfrig em um ano de pandemia mortal são estonteantes, representando um ganho 6 vezes maior para o terceiro trimestre de 2020 em relação ao ano anterior.

Pois bem, uma mente minimamente inquieta poderia se perguntar sobre como andam os níveis de contaminação dos trabalhadores de setor da carne animal em meio a esta pandemia letal. Aí eu indico que os interessados façam uma busca no Google usando as seguintes palavras “pandemia, coronavírus, contaminação e frigoríficos”.   Para quem não estiver interessado em Googlar, mas quer saber o que anda saindo na imprensa empresarial e na alternativa sobre o assunto, eu posso resumir dizendo que o grau de contaminação por coronavírus continua forte nos frigoríficos, que vem optando por não reforçar as medidas de segurança dos seus empregados. Um exemplo de matéria que fala sobre o assunto foi publicada pelo jornal El País com a manchete que diz “Como frigoríficos propagaram o coronavírus em pequenas cidades do país“.  Um aspecto particularmente importante que a jornalista Rute Pina mostra nessa matéria de jornalismo investigativo é o papel que os frigoríficos tiveram no processo de interiorização da pandemia da COVID-19. 

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Um dos aspectos chaves do papel ocupado pelos frigoríficos na difusão acelerada do coronavírus é o fato quem em suas plantas normalmente estão empregados habitantes de diferentes municípios localizados nas regiões de entorno das plantas de abate de animais. Ao serem infectados no ambiente de trabalho, os trabalhadores voltam para as suas cidades onde jogam o papel involuntário de propagadores do coronavírus. Isso ocorre porque a maioria dos frigoríficos não faz o nível de testagem que seria necessário e, tampouco, disponibiliza os equipamentos de proteção individual que permitiriam aos trabalhadores realizarem suas tarefas com uma condição mínima de segurança. Em outras palavras, os lucros fabulosos do Grupo Marfrig acontecem às custas da saúde de seus trabalhadores e das áreas onde eles vivem. 

Desta forma, os frigoríficos funcionam como “super spreaders” de coronavírus ao facilitar a contaminação de seus empregados que se tornam dispersores de uma doença mortal. 

Mas para conseguirem fazer o que estão fazendo, os frigoríficos estão contando com ajuda célere do governo Bolsonaro, principalmente por meio da inação dos ministérios da Saúde e da Agricultura. Esses dois ministérios deveriam estar fiscalizando de forma próxima o que está acontecendo dentro das plantas industriais. Mas em vez de garantir a sanidade do ambiente de trabalho, o que se vê é uma forma objetiva de “licença para contaminar”.  Em julho, apesar das informações em contrário, representantes do Ministério da Agricultura rejeitaram a pressão vinda da China por testagem da produção de carne animal sob o pretexto de “não existir embasamento científico para o risco de contaminação  nesse tipo de ambiente.

corona risco

Por outro lado, há que se notar o papel majoritariamente “passa pano” da mídia corporativa que aborda de forma frouxa o papel dos grandes conglomerados de carne animal na persistência da pandemia no Brasil. A cobertura que ainda ocorre é cada vez mais exígua dando a entender que o problema da contaminação dos trabalhadores nas plantas de abate de animais em todos os cantos do território brasileiro. 

Um aspecto que me parece curioso com a detecção continuada do coronavírus nas cargas exportadas nos países receptores é que não se tem notícia que algo similar esteja sendo feito nos estados que importam a carne produzida principalmente na Amazônia e na região sul do Brasil. Aí o consumidor que vai aos grandes estabelecimentos varejistas é até obrigado a usar máscaras quando está comprando, mas sem qualquer garantia de que não está adquirindo produtos que contenham o coronavírus.  O fato é que está mais do que provado que se a testagem for ampliada, o mais provável é que encontremos mais evidências da presença do Sars-Cov-2 no que estamos trazendo para dentro de casa, sem sequer levarmos em conta a possibilidade de que o produto esteja contaminado.

A verdade é que com a chegada da segunda onda da pandemia da COVID-19, vamos ter que ampliar todos os cuidados para não estarmos nos contaminando de forma inadvertida.  Isso quase certamente passará por cobrar mais controle sobre a gravidade com que a pandemia está ocorrendo dentro das plantas de produção de carne animal.

Carne bovina brasileira testa positivo para coronavírus em Shanxi, norte da China

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Três lotes de carne bovina importada do Brasil continham o coronavírus em sua embalagem interna em Taiyuan, província de Shanxi do norte da China, disseram autoridades locais na terça-feira. Os 20 produtos de carne bovina em questão foram lacrados antes de entrarem no mercado.

Durante uma inspeção de carnes congeladas importadas e produtos aquáticos em Taiyuan na segunda-feira, três amostras da embalagem interna de carne bovina importada do Brasil enviadas de Zhengzhou na província de Henan na China central apresentaram coronavírus, de acordo com o comunicado divulgado pelo Center for Disease Controle e prevenção em Taiyuan.

Medidas de emergência, incluindo rastreabilidade de alimentos, investigação e isolamento de pessoal e desinfecção do local foram imediatamente tomadas pelas autoridades locais. Os testes de ácido nucléico do coronavírus foram realizados em todos os contatos e cargas no mesmo veículo, e os resultados foram todos negativos.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal Global Times [Aqui!].

Dicas para o futuro prefeito: Campos dos Goytacazes precisa caminhar para frente

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Em que pese o fato de que até as pedras que se movem no Paraíba do Sul sabem que, salve o efeito do judicialismo eleitoral, o futuro prefeito de Campos dos Goytacazes. Mas como as urnas sempre podem render surpresas, vou me dedicar minhas humildes dicas para Caio Vianna.

Olhando o que os dois candidatos enviados pelo voto popular para o segundo turno, notei poucas propostas concretas. No caso Caio Vianna, identifiquei a ideia de retomar o financiamento de bolsas de estudos em instituições privadas como uma daquelas propostas que a experiência feita no governo de seu pai e mentor resultou em quase nada o que é muito próximo de ser nada. Já no rol de Wladimir Garotinho, apesar de visualizar a intenção de retomar as políticas sociais destroçadas por Rafael Diniz, mas sem muita convicção.

Entretanto, os dois candidatos compartilham para mim o mesmo problema: não ofereceram propostas que permitam tirar o município do atoleiro em que se encontra no período pós petrorrentismo. O baú de ideias dos dois parece repetir uma mistura de velhas ideias e práticas com a ignorância das urgências que estão postas.

Além disso, mesmo o bordão de que Wladimir é melhor do que Caio porque vai repetir a busca de recursos em Brasília, que marcou até aqui seu mandato para deputado federal, não é algo que pode ser tomado como sério por uma simples fato: a PEC do Teto dos Gastos impede qualquer tipo de investimento vultoso nos municípios, e não será com as migalhas fornecidas por emendas parlamentares que iremos criar um novo ciclo virtuoso na economia local.

As respostas que precisamos estarão no plano municipal, essa é a verdade. Nesse caso, o futuro prefeito terá que entender que há um potencial muito grande para que o município seja um criador e difusor de tecnologia. É que aqui existem instituições universitárias que produzem ciência e tecnologia e que já mostraram ter um enorme potencial para contribuir para o necessário alavancamento de iniciativas em prol do desenvolvimento econômico do município. Obviamente falo aqui do IFF, da Uenf, da Uff e UFRRJ, já que a pesquisa é algo incipiente (para não dizer completamente ausente nas instituições privadas de ensino superior). Uma forma de agilizar e potencializar a produção de tecnologia a partir das instituições públicas de ensino seria a criação da Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia, a quem seria destinada a tarefa de apoiar aquelas iniciativas de interesse direto do município. Aliás, o atraso na criação desta secretaria é algo que mostra quão atrasada tem sido a forma de gerir o município. Se tivéssemos imitado o que fez Campinas a partir da instalação da Unicamp, o mais provável é que Campos dos Goytacazes já estivesse auferindo ganhos econômicos com seus avanços no campo da ciência e da tecnologia.

Outro setor que os dois candidato a prefeito apenas murmuram propostas foi na área agrícola. Ambos falaram em apoiar a agricultura municipal, mas não deixaram explícito como fariam isso. No caso de Wladimir Garotinho, a presença do aplicado Frederico Paes já sinaliza que a agricultura que será privilegiada será a da monocultura da cana-de-açúcar, o que considero um equívoco colossal. A razão é simples: o ciclo sucro-alcooleiro está encerrado em Campos dos Goytacazes em função da concorrência desproporcionalmente mais capitalizada de outros centros, a começar por São Paulo. A saída aqui seria investir no processo de agregação de valor na agricultura familiar, aproveitando a existência não apenas de 10 assentamentos de reforma agrária, mas de centenas de pequenos produtores que produzem grandes quantidades de alimentos, os quais acabam sendo exportados para outras partes do Brasil. O futuro prefeito deveria criar uma secretaria do desenvolvimento agrário que focasse na criação de cooperativas e agro-indústrias de base familiar. Com isso, haveria uma dinamização de diversos setores da economia familiar e a ampliação da renda agrícola.

Um terceiro aspecto essencial que precisa ser atacado é a reconstituição das políticas sociais. Ao contrário do que pleiteiam as cassandras do fiscalismo, as políticas sociais são um elemento chave para a retomada da atividade econômica, especialmente em um período de forte desemprego causado, entre outras coisas, pela pandemia da COVID-19. Assim, o futuro prefeito deverá resistir às pressões e chantagens para ter a coragem de remanejar partes do orçamento que permitam não apenas a reabertura do restaurante popular, mas também a volta da passagem social e de algum programa assemelhado ao Cheque Cidadão. A verdade é que só com essas políticas sociais reestabelecidas teremos a capacidade mínima dos mais pobres de se alimentar todos os dias.  Aqueles que se opõe à volta dessas políticas sociais o fazem porque querem que esses recursos para si mesmos, mantendo a lógica de que a retirada de recursos públicos para as elites é investimento e o financiamento de programas que minimizem a miséria é “populismo”. 

Lembro ainda ao futuro prefeito de que vivemos um período de mudanças climáticas que irão afetar o município de Campos dos Goytacazes das mais diferentes formas. A inexistência de qualquer setor que possa discutir os ajustes às mudanças climáticas significa nos condenar a um futuro ainda miserável.  As modelagens científicas permitem dizer que partes da Baixada Campista deverão ser invadidas pelo mar, enquanto que a malha urbana principal deverá sofrer cada vez mais com eventos meteorológicos extremos, condenando vários bairros a permanecerem alagados por várias semanas por ano.  Nesse sentido, uma administração minimamente moderna terá que estar antenada com a questão das mudanças climáticas, pois elas e suas consequências são imparáveis.

Parando por aqui, um elemento final de reflexão: todas as indicações vindas da Europa e dos EUA (com a eleição de Biden) é de que o ciclo neoliberal entrou em seu processo de agonia final.  Com isso, teremos uma retomada da primazia do Estado como elemento norteador da economia global. Tentar impor a continuidade mesmo modelo de destruição do Estado implantando por Rafael Diniz e seus menudos neoliberais resultará no aprofundamento da crise atual.  Uma administração minimamente capacitada de ser chamada de democrática terá que entender essa mudança da direção dos ventos da economia global sob pena do eleito ser amanhã o que Rafael Diniz se tornou hoje.

Em resposta ao Greg News, Frente Parlamentar da Agropecuária ataca o De Olho nos Ruralistas

Programa conduzido por Gregório Duvivier repercutiu reportagens do observatório sobre a FPA, expoente da bancada ruralista no Congresso; perfil da frente no Twitter comparou o veículo jornalístico a sites investigados por divulgação de notícias falsas

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Por Alceu Luís Castilho

Em resposta ao programa Greg News de sexta-feira, que falou sobre financiamento da bancada ruralista, o perfil oficial da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Twitter partiu para o ataque contra o De Olho nos Ruralistas, na tarde desta terça-feira (17), dois dias após o primeiro turno das eleições municipais. O observatório tem como uma de suas missões fiscalizar o poder político e econômico que gira em torno da bancada ruralista, da qual a FPA é o expoente oficial mais conhecido.

“Compartilhar De Olho nos Ruralistas como fonte é o mesmo que divulgar o Jornal da Cidade ou Conexão Política”, diz o perfil da FPA, organização presidida pelo deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS). “Páginas utilizadas para disseminação de notícias falsas, sem informações de patrocínios e envolvidos”. A frente que reúne 245 deputados e 39 senadores refere-se a sites e blogs investigados na CPMI da Fake News e que divulgaram informações falsas sobre a pandemia — o que, em nenhuma dessas situações, é o caso deste observatório.

O deputado Alceu Moreira foi um dos entrevistados pelo De Olho nos Ruralistas em 2016, quando a equipe fazia reportagem sobre bancada ruralista e mudanças climáticas. Pouco após entrevistas com ele e com o atual senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) sobre o tema, o secretário-executivo do Instituto Pensar Agro (IPA), a organização que banca a frente parlamentar, João Henrique Hummel, decidiu expulsar a equipe da casa. “Saiam da minha casa”, dizia ele.

Mesmo assim, com a expulsão e as posições dos parlamentares registradas no documentário “Sem Clima — Uma República Controlada pelo Agronegócio“, o perfil da FPA no Twitter diz que o observatório nunca ouve o “outro lado”. “Um site de ativismo digital, com informações falsas, sem comprovações legais e oficiais”, escreve a assessoria da frente parlamentar na rede social. Sempre se dirigindo ao Greg News, apresentado por Gregório Duvivier, o perfil da FPA completa esse post dizendo: “Estamos sempre à disposição para fazer o debate. Vem falar com a gente!”

Em debate, o financiamento da própria bancada ruralista

A última edição do Greg News — um programa humorístico baseado em informações jornalísticas — tratou do tema “Siga a Grana”. Ao falar da bancada ruralista, citou reportagem publicada em maio de 2019 pelo De Olho nos Ruralistas, assinada pela jornalista Priscilla Arroyo: “Multinacionais são financiadoras ocultas da Frente Parlamentar da Agropecuária. O observatório se baseou em informações fornecidas pelas próprias organizações.

Essa reportagem mostra a cadeia de financiadores que desemboca no Instituto Pensar Agro (IPA) e, por sua vez, na FPA. O IPA é financiado por associações ligadas ao agronegócio. Estas, por sua vez, sobrevivem graças às empresas ou pessoas físicas a elas associadas. No momento da expulsão da equipe de jornalistas, por exemplo, o principal executivo do IPA — e da FPA — segurava a pasta da Aprosoja, uma dessas associações.

A sequência de dez posts da Frente Parlamentar da Agropecuária no Twitter, em resposta ao Greg News, busca emplacar a tese de que o Brasil e o agronegócio são defensores eficazes do ambiente: “A pergunta que fazemos é por que não mostrar que somos vanguarda na preservação, enquanto alguns países concorrentes não possuem nenhuma floresta preservada?”

Leitores podem contribuir com o Observatório, a partir de R$ 12 mensais

De Olho nos Ruralistas sobrevive de sua base de assinantes, aqueles que acessam a página De Olho nos Mil Parceiros, e de financiamentos pontuais — de editais fundações, institutos — para projetos pontuais. O último dele foi a cobertura eleitoral, reunida na série “O Voto que Devasta”, sobre a participação de políticos na destruição de biomas no Brasil, em particular a Amazônia.

No pé de cada reportagem consta o apoio do Rainforest Journalism Fund, em seu braço para a Amazônia, administrado pelo Pulitzer Center, uma instituição reconhecida mundialmente. O observatório foi escolhido pela sua expertise em temas políticos e ambientais.

*Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas. |

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Este texto foi originalmente publicado pelo “De olho nos ruralistas- Observatório do agronegócio no Brasil [Aqui!].

Especialistas apontam causas para temporada recorde de furacões no Atlântico

Mudanças climáticas e diminuição da poluição do ar desde 1980 podem ter contribuído para elevação da temperatura dos oceanos

iota 1Moradores se movem na rua que mal foi limpa dos destroços da última tempestade, antes do furacão Iota atingir a costa de La Lima, Honduras, segunda-feira, 16 de novembro de 2020. O furacão Iota se fortaleceu rapidamente na segunda-feira, transformando-se em uma tempestade de categoria 5 que provavelmente causará danos catastróficos ao a mesma parte da América Central já atingida por um poderoso furacão Eta há menos de duas semanas. (AP Photo / Delmer Martinez)

O furacão Iota é a 30ª tempestade nomeada a se formar no Atlântico em 2020, consolidando este como um ano sem precedentes para a frequência desses fenômenos. O recorde do maior número de tempestades nomeadas em um único ano já havia sido quebrado em 10/11 pela tempestade Theta, a 29ª da atual temporada, superando o recorde anterior estabelecido em 2005.

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Tempestades no Atlântico são denominadas quando a velocidade do vento excede 34 nós (62 km/h) – momento em que passam a ser chamadas de tempestades tropicais; se a velocidade do vento excede 64 nós (119 km/h), são classificadas como furacões, embora “ciclones” também seja uma denominação genérica para esses eventos, chamados de “tufões” quando ocorrem em outros oceanos.

Apesar do número dessas poderosas tempestades ter permanecido em grande parte constante globalmente, no Atlântico houve um aumento sustentado de eventos nomeadas desde 1980. O número inédito de 2020 está associado à elevação da temperatura do oceano (ver gráfico abaixo), que está em maior ou menor medida ligado à mudança climática causada pelo homem.

Os cientistas também apontam outros fatores que podem estar aumentando o número de ciclones tropicais na região, particularmente uma redução regional na poluição do ar desde os anos 80, que permitiu mais aquecimento oceânico, e o fenômeno La Niña, que está em atividade este ano. Os estudiosos também não descartam que a melhoria da tecnologia de satélite ao longo do século XX permite aos cientistas hoje identificar tempestades de curta duração que poderiam ter sido ignoradas anteriormente.

“Nossa previsão estatística de pré-temporada previa até 24 tempestades nomeadas, a mais alta de todas as previsões de pré-temporada, mas não suficientemente alta. O total real já ultrapassou esse número”, explica Michael Mann, diretor do Centro de Ciências do Sistema Terra dos EUA e professor da Universidade Estadual da Pensilvânia. “À medida que continuamos a aquecer o planeta e o Atlântico tropical, há mais energia para alimentar uma quantidade maior de fortes tempestades e furacões tropicais. Quando acontece de termos um evento La Nina, como neste ano, isso reforça o impacto que a mudança climática está tendo e temos os tipos de tempestades devastadoras que estamos testemunhando”.

Em seu trajeto, Iota devastou a Ilha de Providencia (Colômbia), onde o hospital central perdeu parte do teto, e o arquipélago (que reúne as ilhas de San Andrés, Santa Catalina e Providencia) se encontra sem luz. Nesta terça-feira (17/11) o furacão se desloca para Honduras e Nicarágua, onde deve se enfraquecer. Os dois países ainda se recuperam dos estragos causados pelo furacão Eta há apenas duas semanas.

Combinação de fatores

Segundo Kevin Trenberth, cientista sênior do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, com o aquecimento global causado pelas atividades humanas, há mais energia disponível, intensificando temporadas inteiras e também as tempestades individuais: maior número; maior intensidade; maior duração; e, em todos os casos, maior pluviosidade e potencial para enchentes.

“Em 2020 no Atlântico o número tem sido excepcional”, avalia Trenberth. “Todos os furacões tiram calor do oceano na forma de resfriamento evaporativo, que fornece o combustível para a tempestade via aquecimento latente, e tempestades muito grandes e intensas deixam um pronunciado rastro de frio atrás de si, em detrimento de tempestades subseqüentes. A capacidade das tempestades de encontrar o oceano virgem aumenta suas perspectivas de desenvolvimento”.

O professor Kerry Emanuel, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), afirma que o melhor candidato à causa é na verdade outro efeito antropogênico: aerossóis de sulfato, que resultam da combustão de combustíveis fósseis. Eles subiram muito rapidamente dos anos 50 até os anos 80, e depois desceram também aceleradamente como resultado de políticas para a melhoria do ar.

“Tem havido uma tendência inequívoca de aumento em todas as métricas da atividade ciclônica tropical atlântica desde o início dos anos 80. Mas está ficando cada vez mais claro que isto se deve principalmente a uma mudança climática regional e não global”, defende. “O efeito indireto da poluição no passado foi resfriar o Atlântico tropical e causar uma seca de furacões nos anos 70 e 80. O aumento desde então pensamos que é devido à redução da poluição do ar.”

Para Hiroyuki Murakami, cientista de projeto da Corporação Universitária de Pesquisa Atmosférica e do Laboratório de Dinâmica dos Fluidos Geofísicos da NOAA, há ao menos três hipóteses para explicar o maior número de ciclones. A primeira seria a diminuição da emissão de aerossóis antropogênicos durante o período 1980-2020, como apontado por Emanuel. “O declínio da poluição particulada devido às medidas de controle da poluição aumentou o aquecimento do oceano, permitindo que mais luz solar fosse absorvida pelo oceano. Este aquecimento local levou ao aumento da atividade dos ciclones tropicais nos últimos 40 anos no Atlântico Norte”, afirma Murakami.

A segunda causa estaria relacionada ao vulcanismo. Segundo o pesquisador, os furacões no Atlântico Norte ficaram relativamente inativos entre os anos 80 e 90 devido às grandes erupções vulcânicas em El Chichón no México em 1982 e Pinatubo nas Filipinas em 1991, que causaram o resfriamento da atmosfera do hemisfério norte. “O aquecimento oceânico recomeçou desde 2000, levando a uma recuperação da atividade dos furacões no Atlântico Norte.”

A terceira hipótese seria o fenômeno La Niña no Pacífico tropical, em atividade este ano. “O primeiro e segundo fatores estão relacionados à mudança climática a longo prazo, enquanto o terceiro fator está relacionado à variabilidade interna. Eu especulo que a temporada ativa de furacões de 2020 foi uma combinação da mudança climática a longo prazo e da variabilidade interna.”

Além da possível ligação entre o aquecimento do oceano a longo prazo e o número de tempestades no Atlântico este ano, há várias outras formas de aumentar a ameaça dos ciclones tropicais.

Tempestades mais fortes

As temperaturas dos oceanos têm aumentado nos últimos anos devido às emissões antropogênicas de gases de efeito estufa. Os cinco anos mais quentes no oceano desde 1955 foram os últimos cinco. Um estudo publicado em junho confirmou esta tendência, constatando que a proporção das tempestades mais fortes está aumentando cerca de 8% por década. O furacão Eta foi um dos mais intensos de 2020, tendo alcançado categoria 4 após rápida intensificação.

Intensificação rápida

Uma proporção crescente de ciclones tropicais está se desenvolvendo rapidamente, um fenômeno conhecido como intensificação rápida. Essa característica cada vez mais prevalente em ciclones tropicais é uma ameaça porque torna mais difícil prever como uma tempestade se comportará. Nove das tempestades tropicais da temporada do Atlântico 2020 (Hannah, Laura, Sally, Teddy, Gamma Delta, Epsilon, Zeta e Eta) sofreram uma rápida intensificação.

Chuva mais intensa

Uma atmosfera mais quente pode conter mais água, provocando chuvas extremas durante os ciclones, o que aumenta a ameaça de enchentes. Os cientistas relacionaram diretamente o aumento da umidade atmosférica com a mudança climática causada pelo homem, e o número de eventos pluviométricos que quebram recordes globalmente aumentou significativamente nas últimas décadas.

Mais tempestades

O aumento da onda de tempestades relacionada à mudança climática pode ser devido à elevação do nível do mar e ao aumento da velocidade dos ventos das tempestades. O nível global do mar já aumentou cerca de 23 cm como resultado das emissões de carbono de atividades humanas.

A UENF em transe: Dos bons tempos às dificuldades estruturais

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Os bons tempos: Oscar Niemeyer,  Leonel Brizola e Darcy Ribeiro em frente da maquete da Uenf, a quem Darcy preferia chamar de “Universidade do Terceiro Milênio”

Por Carlos Eduardo de Rezende*

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, a Uenf, foi criada com base no desafio em que pesquisa, o ensino e a experimentação se integrem no estudo de temas e problemas atuais relevantes para o desenvolvimento do Brasil. Ainda sobre isto, cita no Plano Diretor da Uenf, o sucesso dos modelos institucionais promovidos nas universidades estaduais paulistas, entre outras, onde se ressalta que o sucesso está diretamente atrelado a competência de seus pesquisadores, principalmente em nível de pós-graduação. E por este motivo, a Uenf foi criada com um corpo docente composto por 100% de doutores e iniciamos graduação e pós-graduação simultaneamente. Não precisaria, mas reafirmo que foi devido a estas características que obtivemos inúmeros resultados de destaque na Iniciação Científica e nos rankings que avaliam as universidades.

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Carlos Eduardo de Rezende junto ao ex-governador Leonel Brizola e a deputada Cidinha Campos durante visita realizada ao campus da Uenf durante a greve pela autonomia em relação à Fenorte.

Um primeiro ponto a ser abordado neste texto é a forma como estão sendo tratadas internamente suas próprias regras. O Estatuto da  Uenf foi publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro (DOERJ) em 19 de fevereiro de 2002 através do Decreto número 30.672; enquanto o regimento da instituição foi aprovado, e publicado, em reunião do Conselho Universitário (CONSUNI) em 6 de julho de 2006. Desde então, nenhum ex-reitor implantou o Conselho Consultivo que tem funções que consideramos fundamentais para o desempenho da instituição e norteador de uma política institucional que visa de certa forma, a manutenção de um modelo basilar que define os parâmetros de desempenho para universidade, envolvendo o corpo docente e técnico.

Esse conselho também pode sugerir a criação de novos cursos e áreas de atuação, assim como gerar as condições necessárias para ampliar a interação com a comunidade local, regional e nacional. É chegada a hora, portanto, do atual reitor e diretores demonstrem o compromisso com o estatuto da instituição, porque depois de 18 anos de estabelecimento destas normas não me parece minimamente razoável que este Conselho Consultivo não tenha sido instituído. Este descaso me parece muito grave para o desempenho institucional.

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Como disse o nosso eterno Patrono e responsável pelo projeto inicial da Uenf, o Prof. Darcy Ribeiro, “O futuro é imprevisível, mas o que aconteceu até agora podemos avaliar com base em dados concretos”. Assim, passo a considerar o que temos feito, e, também não temos feito adequadamente, ao longo de 27 anos de enf e este exercício deveria ser estendido a cada gestão – seja de Reitoria, Diretoria e Coordenações (Pós-Graduação, Graduação e Extensão) – que se inicia e termina, obviamente com os devidos indicadores.

A Ciência e seus critérios de avaliação

As instituições de ensino e pesquisa, assim como as agências, avaliam o progresso e desenvolvimento institucional a partir das notas das avaliações do MEC, da inserção no mercado, isto é, para onde estão as/os profissionais que formamos e o impactado das pesquisas como uma das formas de aferir o desempenho acadêmico individual e institucional. Esta prática tem sido usada e não devemos fugir destas métricas, indicadores e ferramentas analíticas, mas sim aperfeiçoá-los de forma que possamos atender, de fato, aos melhores critérios da função acadêmica.

A publicação dos artigos em revistas que estejam indexadas a alguma base de dados é de importância fundamental. A partir destas bases que são calculados os índices h, que indica quantas vezes os artigos foram citados por outro artigo e de certa forma integra a carreira do pesquisador. Outro cuidado a ser ressaltado é não publicar em revistas consideradas predatórias, são revistas que não possuem um sistema de avaliação das publicações. Portanto, o pior resultado para um cientista é saber que seus estudos são simplesmente invisíveis e escolher boas revistas é fundamental, mas também não garante a visibilidade das suas pesquisas (Marques, F. 2020; O Medo da Indiferença na Revista da FAPESP).

As revistas de acessos aberto tem possibilitado outro tipo de avaliação, pois a ideia de não citação de um artigo pode ser substituída, por exemplo, pelo número de vezes que um artigo científico foi arquivado ou carregado para leitura “download” em ferramentas acadêmicas. Outra importante informação que pode ser trazida a discussão é que muitos destes artigos, não citados, muitas vezes trazem elementos para plataformas das mídias sociais (Marques, F. 2020; O Medo da Indiferença na Revista da FAPESP). Assim, “blogs”, sites de divulgação ou entrevistas que tratam com seriedade assuntos acadêmicos podem promover excelentes resultados que podem ser facilmente quantificáveis dentro de um processo de avaliação de desempenho acadêmico.

Entendemos que existem várias e sérias críticas ao uso das métricas nas publicações científicas, mas não podemos deixar de considerar que apontar caminhos alternativos me parece uma das contribuições que devemos fazer o invés de simplesmente rejeitar o processo de avaliação por si só. Eu considero que outros fatores, como apontados acima, possam ser considerados, mas em geral existe uma boa correlação entre as métricas das publicações e o envolvimento institucional como coordenação de projetos de pesquisa e extensão aprovado em agências de fomento nacional e internacional, orientações e supervisões (graduação, pós-graduação e pós-doutorado; extensão). Não posso deixar de considerar obviamente a atuação em sala de aula como um elemento balizador e fundamental em uma universidade, assim como o estabelecimento de um processo de avaliação dos docentes.

O novo PCV será um estímulo ao ócio?

Em 2017 fui indicado pelos membros do Conselho Universitário (CONSUNI) para presidir uma Comissão que tinha por finalidade atualizar o Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) da Uenf. Lembro a todos que naquele momento estávamos com nossos salários atrasados e muitas pessoas tinham dificuldades em participar de reuniões e, portanto, nossas reuniões tiveram um início um pouco tardio, mas em fevereiro de 2019 apresentamos o resultado da comissão ao CONSUNI.

Primeiro, devo ressaltar que entendemos que a progressão vertical dos docentes é positiva e uma conquista que trará muitas vantagens para o corpo docente, principalmente em um país que sistematicamente tem alterado o regime previdenciário e com este mecanismo, evitariamos que os profissionais perdessem os seus direitos adquiridos ao longo do tempo. No entanto, também entendemos que deve ser mantida uma liturgia no processo de progressão e traçar o perfil orientador para o Professor Titular da nossa instituição assim como os mecanismos de progressão. Então, qual seria o Professor Titular da Uenf? Atendendo ainda ao chamado da administração, que muitas vezes tem dificuldades em formar comissões e conselhos, consideramos como experiência acadêmica as atuações profissionais em diferentes níveis internos (ex.: participação em conselhos, colegiados, chefias, coordenações, comissões) e externos (ex.: revisores e membros de corpo editorial, assessorias) para docentes e técnicos.

Por outro lado, foram realizados levantamentos nos indicadores acadêmicos de todos os Professores Titulares, não são muitos na Uenf, para se estabelecer os critérios balizadores. Inclusive, a ideia seria de manter a liturgia de avaliação para progressão para Professor Titular com a presença de uma banca composta por membros internos e externos, o ritual de defesa do memorial e projeto de pesquisa para instituição. Afinal, se espera de um Professor Titular que ele represente uma liderança acadêmica na sua área de conhecimento e que atenda a vários requisitos. Na ocasião foram propostos os seguintes critérios, a saber: 8 mestrados, 5 doutorados; uma taxa de publicação de 3 artigos nos últimos 6 anos; e aprovação de 8 projetos como coordenador. Estes números poderiam ser negociados, mas não poderiam jamais ser ignorados ou desqualificados, pois surgiram a partir da média dos currículos dos Professores Titulares da Uenf. Ao invés de iniciarmos uma discussão, houve uma clara obstrução, com total falta de liderança do presidente do CONSUNI e o resultado foi à criação de outra comissão.

Neste momento, uma terceira comissão apresentou uma proposta, mas os pleiteantes ao cargo de Professor Titular precisam atender apenas a dois dos critérios apresentados, sendo eles: 1) Iniciação Científica em vigência ou concluído nos dois últimos anos, mestrado ou doutorado concluídos, mestrado ou doutorado vigente ou concluído nos dois últimos anos; 2) 25 artigos publicados sendo 5 nos últimos 5 anos (1,6 artigos por ano sendo, 1 artigo por ano nos últimos 5 anos); 3) 5 projetos de pesquisa ou extensão sendo 1 aprovado nos 2 últimos anos.

Esta proposta coloca como experiência acadêmica apenas o número de anos e não considera qualquer tipo de atividade acadêmica propriamente dita; importante deixar registrado que a média e mediana do total de publicações dos docentes até a data de apresentação da primeira proposta era de 47 e 42, respectivamente, com uma taxa de 3 artigos por ano até a concurso para Professor Titular. A falta de um número absoluto nos critérios de orientação e a não exigência atuar como coordenador de projetos financiados por agências de fomento representam um retrocesso muito sério. Não podem usar o argumento da falta de financiamento atual, pois um profissional com uma atuação de 15 anos teve oportunidades para aprovar, como coordenador de projeto, propostas em agências nacionais e internacionais.

Encaminhando para o fechamento desta reflexão, por mais de uma vez afirmei que o problema na Uenf tem sido a omissão institucional de profissionais qualificados. Esta omissão se inicia nos laboratórios e se refletem consequentemente nos conselhos e colegiados. A minha afirmativa se baseia em um artigo do nosso estatuto que prevê que um laboratório é chefiado por um docente com as características explicitadas no Artigo 39 e muitas vezes, por omissão destas lideranças, jovens pesquisadores, alguns até recém-doutores em regime probatórios, que muitas vezes não preenchem estes requisitos, são colocados na chefia gerando um efeito cascata nos diferentes conselhos e colegiados onde as chefias possuem representação. Inclusive, este tipo de atitude prejudica o próprio jovem pesquisador e tem criado algumas deformidades na carreira destes profissionais.

artigo 39

 O mesmo se aplicaria aos cargos de diretor, reitor e vice-reitor da Uenf conforme os artigos abaixo. Algum desavisado poderia questionar o que seria notória experiência acadêmica, mas afirmo que todas as características foram supracitadas e mais uma vez, a chegada de profissionais a cargos sem a observância do estatuto gera o que poderíamos identificar como inadequação ao cargo. Não é possível que os artigos 19, 35 e 39 sejam negligenciados pela comunidade universitária, seus conselhos e colegiados, pois parte daí o comprometimento com a instituição e as suas representações acadêmicas. 

artigo 19 e 35

Assim, fazendo uma rápida apresentação dos representantes máximos da instituição das gestões eleitas até o momento me parece satisfatória para exemplificar a situação imposta pela falta de posicionamento dos conselhos (Figura 1). As informações básicas foram retiradas dos Curriculum Vitae da Plataforma Lattes e refletem a atuação acadêmica de cada ex-reitor do período que entrou como docente na Uenf até suas escolhas como reitores pela comunidade universitária (Docentes, Técnicos e Alunos; com seus respectivos percentuais conforme a LDB). O total de publicação (Intervalo de 246 até 5) mostra uma diferença marcante entre os 4 primeiros reitores eleitos e os dois últimos. A escala do eixo primário está logaritmizada para suavizar a apresentação gráfica. No entanto, alguns podem dizer que a diferença poderia ser um reflexo do momento de cada profissional e estes números criariam uma discrepância. Desta forma, fizemos uma normalização do total de publicação a partir do doutorado pelo número de anos até chegada à reitoria. Esta normalização foi necessária, pois existe o caso de um profissional que não publicou nada desde que entrou na UENF. O resultado desta normalização, mostra o mesmo padrão de comportamento com os dois últimos reitores onde suas taxas de publicação são inferiores a 1 artigo por ano.

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Primeiro ano do mandato do reitor

Figura 1: Indicadores de desempenho dos nossos ex-reitores e do atual reitor. O círculo fechado representa do total de publicações normalizado pelos anos do doutorado até chegar a reitoria; o quadrado vazado representa o total de publicações até chegar a reitoria.

Finalizando, reconheço a legitimidade de todos os docentes desejarem a Progressão Vertical até Professor Titular assim como ocupar todos os cargos da instituição, mas existe uma clara necessidade que os critérios acadêmicos sejam observados pelos conselhos e colegiados evitando as situações deste tipo sejam evitadas. E mais, de um tempo para cá tenho observado uma forte tendência ao fisiologismo e carreirismo administrativo na Uenf. No meu entendimento este processo está íntima e diretamente associado à omissão das lideranças acadêmicas da instituição e, por fim, nossa instituição está se perdendo dentro da simples disputa pelo poder. Não é possível que uma instituição esteja discutindo um PCV que retrocede aos critérios que vêm sendo praticados há anos e ignore solenemente aspectos quantitativos do desempenho tais como orientações na pós-graduação, as publicações e as coordenações de projeto.

Já participei de mais de um PCV, reuniões sobre o tema com representantes do governo e não é possível que os membros do Egrégio Conselho Universitário acreditem que o afrouxamento da progressão vertical e aumento de salário passará dentro do governo. E digo mais, a atual administração possui várias profissionais que já ocuparam cargos de coordenação de pós-graduação, de graduação, possuem bolsas de Produtividade em Pesquisa do CNPq, Cientista do Nosso Estado pela FAPERJ, e aceitarem transformar ao atual PCV em uma “prova de vida” é totalmente inaceitável. Desta forma, infelizmente considero que esta administração está estimulando definitivamente o ócio nesta instituição e comprometendo o futuro de todos os programas de pós-graduação e cursos de graduação.

*Carlos Eduardo de Rezende é um dos fundadores da Uenf, atuando desde 1993 no Laboratório de Ciências Ambientais, onde atua como professor titular. 

Desmatamento na Amazônia dispara em outubro, revertendo a tendência de 3 meses

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Por Mongabay

O desmatamento na Amazônia brasileira aumentou 50 por cento em outubro, encerrando uma sequência em que a taxa de desmatamento da região caiu por três meses consecutivos, de acordo com dados divulgados sexta-feira pelo instituto nacional de pesquisas espaciais INPE. A notícia veio logo depois que o presidente brasileiro Jair Bolsonaro pareceu ameaçar a perspectiva de usar força militar contra os Estados Unidos caso este tentasse impor sanções ao país sul-americano por seu fracasso em desacelerar o aumento do desmatamento.

Desmatamento mensal conforme sistema de alerta de desmatamento do INPE, DETER e sistema SAD do Imazon.  O Imazon é uma ONG brasileira que monitora o desmatamento independentemente do governo brasileiro.
Desmatamento mensal conforme sistema de alerta de desmatamento do INPE, DETER e sistema SAD do Imazon. O Imazon é uma ONG brasileira que monitora o desmatamento independentemente do governo brasileiro.

O sistema de alerta de desmatamento por satélite do INPE mostra que 836 quilômetros quadrados de floresta amazônica – uma área 246 vezes o tamanho do Central Park da cidade de Nova York – foram cortados em outubro de 2020. O desmatamento do mês traz a área de perda de floresta para o ano- até o momento, para 7.899 quilômetros quadrados, 6% abaixo de onde estava no mesmo período do ano passado, quando o desmatamento atingiu o maior nível registrado desde 2008.

Os dados de outubro também mostraram um aumento de 3% na degradação florestal e corte seletivo – que muitas vezes precedem o desmatamento completo – e um salto de 66% na área afetada por incêndios no ano passado. O INPE estimou a extensão das “cicatrizes de queimaduras” em 14.487 quilômetros quadrados, uma área maior que o estado americano de Connecticut.

Desmatamento mensal acumulado de acordo com o sistema de alerta de desmatamento do INPE, DETER.  Esta tabela mostra o desmatamento desde o início de agosto, que é o período de referência que o Brasil usa para rastrear o desmatamento na Amazônia.

Desmatamento mensal acumulado de acordo com o sistema de alerta de desmatamento do INPE, DETER. Esta tabela mostra o desmatamento desde o início de agosto, que é o período de referência que o Brasil usa para rastrear o desmatamento na Amazônia.

Desmatamento mensal acumulado de acordo com o sistema de alerta de desmatamento do INPE, DETER.  Esta tabela mostra o desmatamento desde o início de janeiro.Desmatamento mensal acumulado de acordo com o sistema de alerta de desmatamento do INPE, DETER. Esta tabela mostra o desmatamento desde o início de janeiro.

O aumento da área queimada não é surpreendente. O monitoramento aéreo e imagens de satélite mostraram incêndios generalizados em toda a Amazônia brasileira e áreas adjacentes, como o Pantanal , a maior área úmida tropical do mundo, nos últimos meses. Alguns desses incêndios atingiram densas florestas tropicais , áreas protegidas e territórios indígenas . Os incêndios foram tão fortes durante o verão que o presidente Bolsonaro enviou o exército para tentar sufocá-los.


Hots spots em áreas com avisos do Prodes indicando desmatamento entre 2017 e 2019. Área próxima aos limites do território indígena Kaxarari em Lábrea, no estado do Amazonas.  Tirada em 17 de agosto de 2020. CRÉDITO: © Christian Braga / Greenpeace
Incêndio em área próxima aos limites da Terra Indígena Kaxarari, em Lábrea, no Estado do Amazonas. Tirada em 17 de agosto de 2020. CRÉDITO: © Christian Braga / Greenpeace

Na terça-feira, o presidente Bolsonaro ganhou as manchetes internacionais quando advertiu o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, que o Brasil responderia com “pólvora” se os Estados Unidos tentassem impor sanções econômicas pelo aumento do desmatamento na Amazônia. Biden sugeriu que poderia haver “consequências econômicas” não especificadas durante o primeiro debate presidencial no final de setembro. Ele também disse que o mundo deve oferecer ao Brasil US $ 20 bilhões para combater o desmatamento na Amazônia.

“Vimos recentemente um grande candidato a chefe de estado dizer que se eu não apagar o fogo na Amazônia, ele colocará barreiras comerciais contra o Brasil”, disse Bolsonaro à Reuters , referindo-se a Biden, que Bolsonaro ainda não foi reconhecido como presidente eleito. “E como podemos lidar com tudo isso? Só a diplomacia não basta … Quando acaba a saliva, é preciso ter pólvora, senão não adianta ”.

Bolsonaro é conhecido por fazer declarações controversas e retórica inflamada. Por exemplo, ele culpou ambientalistas, povos indígenas e o ator Leonardo DiCaprio pelo desmatamento na Amazônia para desviar as críticas internacionais aos esforços de seu governo para reverter a aplicação da lei ambiental, conceder anistia a desmatadores ilegais e incentivar a mineração, extração madeireira e agricultura industrial . O desmatamento aumentou drasticamente desde que Bolsonaro assumiu o cargo em janeiro de 2019.

Floresta queimada, em Porto Velho, estado de Rondônia.  18 de agosto de 2020 CRÉDITO: © Christian Braga / Greenpeace

Floresta queimada, em Porto Velho, estado de Rondônia. 18 de agosto de 2020 CRÉDITO: © Christian Braga / Greenpeace

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo site Mongabay [Aqui!].

Em Campos dos Goytacazes, Rafael Diniz colheu o que plantou e ressuscitou o “Garotismo” como principal força política

Família-GarotinhoPopulação puniu Rafael Diniz por seu estelionato eleitoral, e promoveu a ressurreição do “Garotismo” que tem agora a chance real de voltar a comandar a prefeitura de Campos dos Goytacazes

Os resultados das eleições municipais em Campos dos Goytacazes marcam no caso das escolhas para quem será o próximo prefeito o enterro inapelável das políticas de extermínio das políticas sociais executadas pelo jovem prefeito Rafael Diniz. A colocação em quarto lugar, pouco acima da professora Natália Soares (uma candidata com muito menos dinheiro e tempo de TV) mostra que o estelionato eleitoral que Rafael Diniz cometeu não passou, felizmente, em brancas nuvens para a maioria da população que o elegeu de forma acachapante em primeiro turno em 2016. É a consumação do famoso bordão “colheu o que plantou”.

Mas além de afundar nas urnas de forma igualmente acachapante, Rafael Diniz propiciou a ressurreição do grupo político do ex-governador Anthony Garotinho que quase logrou eleger em primeiro turno o deputado federal Wladimir Garotinho.  E nem as manobras feitas para judicializar mais uma vez as eleições municipais vão servir para obscurecer o fato de que o “Garotismo”, tal como uma Fênix, renasceu das cinzas para voltar a ser a principal força política do município. Até porque o “Arnaldismo” é uma espécie de gene mutante do Garotismo e que, dada a questão etária do principal representante dessa variante, tenderá a se confrontar com um beco evolutivo porque isso é o que acontece com variações mutantes na natureza. E  há que se lembrar que entre cópia e original, a população já mostrou muitas vezes que prefere o original.

Quero notar ainda a minha satisfação com os votos recebidos pela Professora Natália Soares do PSOL. É que com uma campanha bem menos turbinada financeiramente foi possível difundir uma proposta de gestão municipal que finalmente nos ofereça um caminho para além das disputas entre grupos cuja gênese é basicamente a mesma, e cuja diferenciação se deu por motivos que não são exatamente aqueles que deveriam ser.  A minha expectativa é que o bom trabalho iniciado pelo PSOL se amplie para além do cacoete identitário, e que os membros do partido consigam fazer conexões para aquelas amplas faixas da população que se movem mais pelas necessidades que lhes são historicamente negadas do que por identidades que não lhe caem bem por não resolverem uma questão básica: quem tem fome, tem pressa.

Um último detalhe. Há agora quem venha dizer que previu isso ou aquilo, e que se sabia desde sempre que esse ou aquele candidato chegaria aqui ou ali. Essa tipo de atitude chamada nos EUA de “Monday morning quarter back” (ou artilheiro de futebol de segunda-feira de manhã) é não apenas oportunista, mas de péssimo gosto já que ficava óbvio que as previsões feitas eram daquelas do tipo “joga-se o papel picado do alto do prédio para ver que bicho dá”.   Nesse caso, há que se notar que há “artilheiro de segunda feira” que questionou as pesquisas eleitorais da agência de monitoramento “Fonte Exclusiva“, ligada ao Portal Viu que acabaram sendo aquelas que chegaram bem mais perto dos resultados finais do primeiro turno.

Finalmente, quero dizer que os dois candidatos que foram para o segundo turno (Wladimir Garotinho e Caio Vianna) aproveitem a oportunidade que lhes foi oferecida pela população para apresentarem seus planos concretos de governo. Essa será a única garantia de que não sigam o mesmo destino trilhado pelo agora defenestrado Rafael Diniz. É que está mais do que demonstrado que a população de Campos dos Goytacazes não aceitará mais o tipo de estelionato eleitoral que foi cometido por Rafael Diniz. E que vença aquele que convencer a população que seu plano de governo é melhor. Afinal de contas, essa cidade precisa sair da beira do abismo em que se encontra.

Votei para marcar o fim da onda Bolsonarista

ondaOnda bolsonarista não se repetirá nas eleições de 2020, e isso deverá aumentar os problemas de Jair Bolsonaro

Acabo de retornar do campus da Uenf onde fui votar nos meus candidatos para prefeita (Profa. Natália Soares – 50) e vereador (Cristiano Papel – 50123).  Afora as ruas do entorno que foram emporcalhadas por candidatos sujismundos, a área de votação estava bastante calma e a tranquilidade imperava.

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Além dos meus votos específicos, essa eleição marca para mim o fim da breve onda Bolsonarista que varreu o Brasil em 2018. Pela forma que as eleições transcorreram em meio à pandemia letal da COVID-19 não tenho dúvidas de que o breve reinado de Jair Bolsonaro e  as forças retrógradas chegará ao fim já neste primeiro turno com a derrota da maioria dos candidatos que tentaram colar a sua imagem no presidente da república.

Em Campos dos Goytacazes, a vitória eleitoral pode até não ser dela, mas o lançamento da candidatura do PSOL marcou um ponto de inflexão em relação à inação das forças de esquerda ocorrida em 2016. Além disso, a desenvoltura apresentada pela Professora Natália Soares em um plantel de candidatos majoritariamente masculino é um excelente sinal que aponta para as possibilidades existentes de se fazer uma forma diferente de política, que começa por não ter nenhuma ligação com as oligarquias familiares que controlam a política local.

Entendo que em ocorrendo um segundo turno, o melhor seria que se evitasse a judicialização da disputa e que os candidatos restantes façam vários debates em  que se concentrem a explicar as suas propostas e não em atacar o DNA alheio. Só assim o eventual vencedor poderá ter a real legitimidade para mudar o rumo catastrófico em que o jovem prefeito Rafael Diniz entregará a cadeira de prefeito a quem quer que vença. 

Aliás, falando no brevemente ex-prefeito Rafael Diniz, eu só espero que ele possa aprender algo com o resultado amargo que as urnas deverão lhe confirmar que a maioria da população de Campos dos Goytacazes não mais o quer como chefe de executivo, muito em parte em função do estelionato eleitoral que sua gestão representou desde o dia em que ele tomou posse. Quem sabe assim, ele possa um dia voltar a transitar com alguma tranquilidade pelas ruas da cidade.

Já no plano nacional, antecipo que os resultados das urnas não apenas trarão mais dissabores ao presidente da república que, certamente, será o maior derrotado de um processo eleitoral em que ele não conseguiu lançar o seu próprio partido político. Com isso, seus apoiadores espalhados por dezenas de siglas caminham em sua maioria para a derrota, fato esse que deverá se somar a uma série de dificuldades já vividas por Jair Bolsonaro.