Universidade brasileira confirma presença do novo coronavírus em cães pela primeira vez no Brasil

Animais tiveram sintomas leves de COVID-19 e passam bem; tutores também tiveram diagnóstico confirmado.

DOG

Por *Assessoria de Imprensa e Jornalismo da UFPR

A Universidade Federal do Paraná (UFPR) confirmou a presença de SARS-CoV-2 em dois cães de Curitiba, cidade no Sul do Brasil, na última semana, sendo um da raça buldogue francês e um sem raça definida. Estes são os primeiros casos identificados no Brasil, junto ao estudo multicêntrico coordenado pela UFPR, que irá examinar amostras de cães e gatos em seis capitais. No último mês, a equipe já havia contribuído com a identificação da presença do vírus em uma gata de Cuiabá, no Centro-Oeste, detectada pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). 

O primeiro caso foi de um macho, adulto, raça Bulldog Francês, cujo tutor, de Curitiba, testou positivo para SARS-CoV-2 no RT-PCR na última semana, sem saber onde se infectou. Ele contou à equipe de pesquisa que percebeu uma discreta secreção nasal no cão, que dorme na mesma cama que ele. Num segundo teste, o tutor negativou, mas o cão estava positivo, já com uma quantidade pequena de vírus no organismo. No segundo teste realizado com o buldogue no dia seguinte, o animal também negativou.

O segundo caso foi de um cão macho, adulto, sem raça definida, cuja tutora também testou positivo para SARS-CoV-2. Segundo seu relato à equipe de pesquisa, seus quatro cães, que dormem na cama com ela, tiveram discretos episódios de espirros. Todos os moradores humanos da casa testaram positivo e, dentre os quatro cães, apenas um confirmou a presença do vírus.

De acordo com o professor Alexander Biondo, da UFPR e coordenador do estudo nacional, os dados serão registrados junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Todas as amostras estão sendo enviadas para confirmação no TECSA Laboratório Animal, para que sejam testadas em outro laboratório de referência. Apesar dos primeiros resultados positivos, não existe nenhum caso confirmado de cães e gatos transmissores do vírus ou com registro da doença COVID-19.

Segundo Biondo, os animais podem se infectar pelo vírus SARS-CoV-2, inclusive cães e gatos, mas isso não se equivale a dizer que eles têm a doença ou são transmissores. Estudos já publicados indicam que gatos podem se infectar e transmitir para outros gatos, mas não há dados para cães. O professor ainda reforça que o contato mais íntimo entre humanos e pets pode infectar os bichinhos, sendo indicado o distanciamento e o uso de máscara em caso de confirmação para tutores que testarem positivo.

Gata foi o primeiro pet confirmado no país

Uma gata foi o primeiro pet com SARS-CoV-2 identificado no Brasil, confirmado na UFPR, no Laboratório do Departamento de Genética, com coordenação institucional do professor Emanuel Maltempi. No teste de RT-qPCR , a presença do RNA viral foi verificada no animal de Cuiabá. Agora, os cientistas trabalham no sequenciamento do genoma do vírus encontrado na felina e no seu tutor. No sequenciamento, será possível determinar a ordem exata dos nucleotídios do RNA genômico do vírus. ” Vai servir para confirmar que é o SARS CoV-2, pois a RT-qPCR identifica só um pedaço do genoma, mas também qual a estirpe ou cepa. Poderemos saber de onde veio”, explica Maltempi.

De acordo com Maltempi, uma hipótese é que só uma estirpe de vírus possa infectar animais. O sequenciamento poderá contribuir com respostas às perguntas que já vêm sendo traçadas nas pesquisas de Biondo, que, com um grupo de outros cientistas, publicou recentemente uma revisão sobre o panorama acerca da contaminação animal por SARS-CoV-2 no mundo.

O projeto

O projeto em andamento coordenado pela UFPR será realizado em Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Campo Grande (MS), Recife (PE), São Paulo (SP) e Cuiabá (MT). Serão dois momentos de avaliação, com amostras biológicas coletadas com intervalo médio de sete dias, entre animais cujo tutor esteja em isolamento domiciliar, com diagnóstico laboratorial confirmado por RT-qPCR ou resposta imunológica apenas por IgM.

Em Curitiba, uma equipe de pesquisadores fará a coleta em domicílio. Caso necessário, o trabalho também poderá ser feito no Hospital Veterinário. “Se possível, também coletaremos sangue para realizar a sorologia”, explica Biondo, reforçando que “o estudo pode dar resposta definitiva sobre a susceptibilidade e o papel de cães e gatos como reservatórios do vírus”.

Os resultados dos testes serão o mais brevemente possível informados aos tutores ou familiares através de contato telefônico e pela emissão de laudo eletrônico, que será enviado por e-mail ou aplicativo de comunicação. Em caso positivo, de acordo com ele, os demais animais da residência também serão testados em pool por espécie. Além disso, os familiares serão orientados a estabelecer o acompanhamento veterinário por 14 dias, intensificando medidas de higiene e proteção individual e coletiva.

A pesquisa pretende contribuir para a tomada de decisão pelo poder público quanto a medidas de prevenção e controle de COVID-19 em animais de estimação. “Espera-se estabelecer propostas de ações intersetoriais entre as instituições de pesquisa e as secretarias municipais de saúde, para que essas, por meio de ações integradas entre a Vigilância Ambiental e a Atenção Primária à Saúde, possam estabelecer fluxogramas internos de atenção à saúde animal e proteção à saúde humana”.

fecho

*Assessoria de Imprensa e Jornalismo,  Superintendência de Comunicação e Marketing (Sucom), Universidade Federal do Paraná (UFPR), +55 41 3360-5251/5008/5007/5158. Para envio de demandas ao jornalismo da Sucom/UFPR, favor copiar o e-mail jornalismo.sucom@ufpr.br

Mídia local embarca com a cara e coragem na previsão eleitoral do Paraná Pesquisas: jornalismo ou fake news?

parana pesquisas

A mídia corporativa local embarcou com fervor na “pesquisa” eleitoral que o “Paraná Pesquisas” realizou para o segundo turno que irá determinar o futuro prefeito da cidade de Campos dos Goytacazes. Houve quem enfatizasse a “respeitabilidade” da empresa de pesquisas eleitorais que ascendeu para a glória nas eleições presidenciais de 2018.

Pois bem, e o que disse a pesquisa que foi curiosamente bancada pelo próprio “Paraná Pesquisas” e que boa parte da mídia campista saudou efusivamente? A incrível virada do candidato Caio Vianna (PDT) que derrotaria Wladimir Garotinho (PSD), impondo uma espetacular mudança de disposição do eleitorado que há tempos não é vista em Campos dos Goytacazes.

Não vou nem alongar na pesquisa em si, pois nada melhor que o resultado das urnas para se verificar se a previsão feita por uma dessas muitas empresas que vivem de gerar pesquisas eleitorais chegou perto ou não.

O que eu quero indicar aqui é a minha surpresa com a completa falta de apuração jornalística sobre como o “Paraná Pesquisas” chegou a resultados tão bombásticos. É que todos sabem que no primeiro turno, Wladimir Garotinho alcançou 42,94% e Caio Vianna 27,71%.  Com isso, para que os números encontrados pela apuração feita por conta própria fossem críveis, haveria que praticamente todos os votos válidos dados a todos os demais nove candidatos tivessem migrado para Caio Vianna, sobrando apenas uma migração residual para Wladimir Garotinho. E isso me parece o que os gringos chamam “wishful thinking” (ou seja, pensamento fantasioso).

Eu que não sou proprietário de veículo de imprensa mandaria apurar como o Paraná Pesquisas chegou a esses resultados antes de sair disseminando números que parecem ser mais propaganda do que notícia. Mas vá lá, cada um dos com seus motivos.  Mas que ninguém depois reclame se forem, mais uma vez, expostos ao vexame de terem seu produto descoberto como “fake news” e não como aquilo que dizem entregar que seria jornalismo de qualidade.

Após semanas no escuro, Macapá oferece uma janela para o futuro do Brasil

wp-1606051923821.jpgO presidente Jair Bolsonaro desfila do lado de fora de um carro pelas ruas de Macapá, onde seus apoiadores o aplaudiam, enquanto ele era vaiado pela maioria dos populares que assistiam à passagem da caravana presidencial

Após dezenove dias do apagão causado pelo descaso da empresa multinacional espanhola Isolux, o presidente Jair Bolsonaro realizou uma visita à Macapá, capital do Amapá, onde desde a chegada ao Aeroporto Internacional Alberto Alcolumbre (que vem a ser um tio falecido do atual presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre), foi alvo de pesados protestos por parte da população (ver abaixo vídeo da passagem da comitiva presidencial por uma avenida em Macapá).

Afora os xingamentos mais grossos, o que mais me impressionou foi a forma nada contida de pessoas que estavam nas calçadas (e o local não me parece ser da periferia profunda que existe em qualquer cidade brasileira) convidavam o presidente da república a se retirar da cidade de Macapá.

A postura da população me fez verificar sobre qual teria sido o resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2018 em Macapá, e o resultado foi de 55,15% para Bolsonaro contra 44,85% para Fernando Haddad.  Isso indica que, apesar de não ter sido uma maioria esmagadora, o hoje presidente Jair Bolsonaro ganhou sem dificuldades na capital do Amapá.

Assim, ver a recepção que ele teve ontem é um indicador de que dificilmente ele repetirá o mesmo índice em uma hipotética corrida para reeleição em 2022.  As razões para isso são muitas, mas a principal deve ser a clara inaptidão de mostrar um mínimo de sensibilidade com os problemas reais da população brasileira, sejam eles os causados pelo desemprego, pela pandemia da COVID-19 ou pela incompetência de uma empresa multinacional que está transformando a vida de quase 800 mil brasileiros em um completo inferno.

Mas a situação de perda de popularidade causada pela combinação de fatores que criaram uma espécie de “tempestade perfeita” no Amapá não deverá ficar restrita a Jair Bolsonaro, devendo também atingir a família Alcolumbre. É que ficou evidente de que nada adianta ter um milionário local na presidência do Senado Federal se nem conseguir que a eletricidade seja garantida a todos os que vivem no Amapá, e não apenas aos abastados que vivem enclausurados dentro de condomínios de luxo.  É até possível que em um futuro não muito distante, o nome do aeroporto internacional de Macapá tenha que ser trocado.

Por esses fatores todos é provável que mais do que qualquer outra capital brasileira, Macapá esteja sendo neste momento uma espécie de janela para o futuro.

O racismo integra a formação e desenvolvimento do Capitalismo a la brasileira, negar a sua existência também

joão albertoO assassinato de João Alberto Silveira Freitas por seguranças da rede Carrefour em Porto Alegre deixa mais uma vez nu o racismo estrutural que permeia as relações capitalistas no Brasil

Como muitos leitores já devem saber, morei alguns anos nos EUA e em regiões de estados onde as relações raciais são ainda muito tensas (i.e., Tennessee e Virginia).  Em minha convivência com colegas de universidades e instituições de pesquisa, um dos momentos de constrangimento certo era aquele em que eu recusava o cumprimento pelo fato do Brasil ser uma suposta democracia racial, terra do samba e do futebol. Para surpresa dos meus interlocutores que me dirigiam o cumprimento por ser brasileiro, eu retrucava dizendo que éramos tão ou mais racistas que os EUA.  O meu exemplo da existência  do elevador de serviço para onde deveriam se dirigir os trabalhadores domésticos ou prestadores de serviço como uma prova do racismo brasileiro deixava sempre as pessoas atônitas, pois esse tipo de elevador não existe por lá.

Aliás, falando no elevador de serviço (uma forma escondida de segregação), os incorporadores imobiliários portugueses tiveram que após mais de quatro décadas começar a reincluir este tipo de aparato nas plantas dos novos prédios, especialmente em Lisboa, após a enxurrada de brasileiros de classes abastadas chegarem por lá para comprar imóveis após o golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff em 2016.

Esse preâmbulo todo é para dizer que não há como deixar de reconhecer que a escravidão (primeiro indígena e depois negra) foi a base da criação do Brasil como país, e que o nosso modelo peculiar de desenvolvimento capitalista esteve sempre ligado ao uso do trabalho escravo. A forma pela qual transitamos da escravidão legal também teve vários traços singulares desse capitalismo escravocrata, a começar pela promulgação da Lei de Terras em 1850, a qual objetivamente impediu que indígenas e negros pudessem ter o direito a possuir títulos de terras, na medida em que essa lei determinou que só poderia ter título de terra quem pudesse pagar por ele. E naquele momento exato da história do Capitalismo brasileiro, isso serviu como uma senha para impedir que membros dos povos originários e os negros escravizados pudessem ter a propriedade da terra.

Desde a independência do Brasil, o desenvolvimento do Capitalismo “a la brasileira” nunca teve como prioridade superar as injustiças e desigualdades causadas por mais de 300 anos de escravidão.  Ainda que formalmente uma série de leis tenham sido criadas para alcançar mais equidade social (ou, na prática, uma menor iniquidade), avançamos muito pouco na reparação da herança do escravismo e, por isso, o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais e segregados do planeta.

Ser indígena ou negro no Brasil nunca foi fácil, pois o Estado  brasileiro sempre dedicou aos que não tem pele branca o uso da mão pesada para conter demandas e manter a insatisfação prisioneira em territórios guetizados, fossem eles reservas indígenas ou favelas.  

O estabelecimento do “Dia da Consciência Negra” pela Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011 é para mim mais um exemplo em que formalmente se avança para ficar no mesmo lugar. Ainda que seja correto lembrar e celebrar a contribuição dos negros na formação e no desenvolvimento do Brasil, o fato é que nem nesse dia os afrodescendentes podem usufruir de um dia de paz e tranquilidade. A prova maior disso foi o brutal assassinato a sangue frio de  João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, espancado e morto em uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre, e que está causando tanta comoção nos últimos dois dias.

Mas o assassinato de João Alberto é apenas mais um e não será o último, essa é a verdade. A certeza disso vem das declarações do presidente Jair Bolsonaro e do seu vice-presidente Hamilton Mourão que não só negam a existência de algo inegável que é o racismo no Brasil, mas também se dão ao trabalho de culpabilizar os que se revoltaram e protestaram contra mais essa morte de um trabalhador negro. De forma objetiva, querendo ou não, Bolsonaro e Mourão explicitam de forma crua e direta a lógica racista que naturaliza as mortes e aponta o dedo acusador contra quem se revolta.

Aos meus orientandos que se interessam pelas questões sobre a existência do brasileiro negro em uma sociedade tão racista como a nossa, eu sempre recomendo a leitura da obra de Florestan Fernandes “A integração do negro na sociedade de classes“.  É que com a leitura desse livro se pode compreender as raízes da persistente desigualdade e das agudeza do processo de exploração ao qual os negros brasileiros continuam sofrendo após a passagem da escravidão para o trabalho supostamente livre vigente em uma sociedade capitalista (o vídeo abaixo é bastante didático sobre o conteúdo dessa obra seminal de Florestan).

O fato é que não vejo como se alcançar qualquer nuance do que pode ser chamado de “democracia racial” enquanto perdurarem no Brasil as relações sociais, econômicas e políticas determinadas pela posição periférica do Brasil no sistema capitalista.  Se o Capitalismo já traz em si vírus fundamental da negação da democracia enquanto um elemento que possa ser pertinente a todas as classes sociais, como escreveu a marxista canadense Ellen Meiksins Wood em seu livro “Democracia contra capitalismo”, no Brasil essa negação é mais profunda e severa, já que nem os aspectos formais dos sistemas democráticos ocidentais foram efetivamente implantados.

O caminho de saída, como vem mostrando o marxista negro estadunidense Adolph Reed terá de ser pelo reconhecimento de que a luta anti-racista só poderá ter um desfecho positivo se for involucrada pelo elemento de classe. Entender essa condição inescapável certamente deveria merecer uma profunda reflexão dos partidos e movimentos sociais que se colocam na linha de frente das lutas anti-racistas no Brasil.

Quanto mais cedo nos antenarmos para essa indissociabilidade, melhor será, especialmente para aqueles milhões de brasileiros que acordam todos os dias com medo de serem o próximo João Alberto.

Finalmente, uma reminiscência pessoal. Graças ao meu amigo Edilberto Rocha Silveira, professor titular da Universidade Federal do Ceará, pude visitar uma senzala, hoje transformada no “Museu Senzala Negro Liberto“, no município de Redenção, que foi justamente o primeiro lugar no Brasil, cinco anos antes da promulgação da Lei Áurea, a libertar todos os seus escravos. Essa visita me fez ver as condições de horror e claustrofobia em que viviam os negros escravizados. Quem tiver dúvida do que se deu a escravidão negra no Brasil, sugiro uma visita a este museu.  Ah, sim, se seu sangue não ferver vendo as condições em que viviam os escravos, você provavelmente não sente nada pelos milhões de brasileiros a quem tudo é negado por descender deles. Por isso, sim, você é um racista a la brasileira.

Na trilha da campanha: Wladimir Garotinho oferece visão para ações em áreas estratégicas caso seja eleito

Em um esforço para oferecer clarificação sobre alguns aspectos que considero importantes para a próxima administração municipal, formulei quatro perguntas para serem respondidas pelos dois candidatos que participarão do segundo turno em Campos dos Goytacazes. Contactado, o candidato Wladimir Garotinho (PSD) já enviou suas respostas que publico logo abaixo. Convite similar já foi feito a Caio Vianna, e continuo aguardando a posição do candidato do PDT. Caso ele envie suas respostas, as mesmas serão também  publicadas na íntegra.

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Blog do Pedlowski (BP):  Um dos principais desafios que as áreas urbanas irão enfrentar nos próximos anos e décadas serão os efeitos das mudanças climáticas. Entre estes efeitos estão as chuvas extremas e os longos períodos de seca. Como você pretende atuar para deixar o município melhor preparado para responder a estes desafios?

Wladimir Garotinho (WP): É preciso equilibrar as contas e vou governar com pessoal técnico, capacitado e comprometido com a cidade, para recuperar capacidade de investimento em infraestrutura. Precisamos avançar com obras, há recursos do Banco Mundial, verbas federais e estaduais, vamos buscar diálogo para soluções de um grande projeto de irrigação. O atual governo não investiu nada em obras, que aquecem a economia, a construção civil, garantem mobilidade, preparam a cidade para os efeitos dessas mudanças climáticas. Vou integrar os órgãos da Administração Pública em nível municipal, estadual e federal, formar um plano de contingência.

BP: O município de Campos possui diversas instituições universidades que desenvolvem projetos de pesquisa com grande potencial de geração de renda. No entanto, até hoje não foi criada uma secretaria de Ciência e Tecnologia. Se for eleito, qual seria sua posição em torno da criação dessa secretaria?

WP: Eu sou deputado federal e em meu mandato uni partidos de diferentes linhas ideológicas para aprovar uma emenda coletiva para retomar as obras do campus da UFF, liberando mais de R$ 40 milhões. Quadros de universidades participaram de um grupo de mais de 114 técnicos, pesquisadores, professores, pessoas capacitadas, que durante 10 meses discutiram um projeto para a cidade. O nosso projeto para a cidade tem na inovação e na tecnologia uma prioridade para reduzir custos, garantir serviços e eficiência na gestão pública, e também para agregar valor à agricultura, à indústria, ao comércio, e atrair novas empresas e gerar oportunidades. Vamos discutir todas essas questões com os polos de ensino superior, dos centros de pesquisa, das universidades em um projeto de apoio ao processo de retomada da economia.

BP: município possui 11 assentamentos de reforma agrária que produzem grande quantidade de alimentos que em sua maioria acaba exportada para outros centros urbanos. Se eleito, o que faria para apoiar o desenvolvimento desses assentamentos e da agricultura familiar como um todo?

WP: Nós vamos apoiar o pequeno produtor local, vamos ajudar a organizar a agricultura familiar, com a participação das universidades, para agregar valor e gerar renda no campo. A nossa ideia é criar um selo municipal de qualidade de nossos produtos. Não basta produzir, mas também apoiar a distribuição, com um moderno centro de distribuição, que pode atrair pequenas indústrias para beneficiamento. Vou apoiar a organização dos pequenos produtores em modelo de associativismo e, por isso, vamos ter ao nosso lado as universidades, as instituições e centros de pesquisa e extensão, e também a Organização das Cooperativas do Brasil para inovar, capacitar, qualificar e ajudar a organizar a atividade produtiva.

BP: Há algo que eu não perguntei e que você acha importante falar para a população de Campos?

WP: O nosso governo vai ter o olhar voltado para as pessoas, para o cidadão. Vou montar uma equipe técnica para propor a modernização de nossa legislação, tornar mais ágil a estrutura pública para atrair e instalar novas empresas. Vamos instalar a Zona Especial de Negócios na Baixada Campista ao lado do Porto do Açu. Vamos governar com justiça social, reabrindo o Restaurante Popular e garantindo a segurança alimentar. Fazer com que as Vilas Olímpicas voltem a atender crianças, jovens e idosos. Estou me reunindo com técnicos, trabalhadores e empresas para a gente ter um transporte coletivo que funcione de verdade. E logo no início de nossa gestão vamos acabar com aquela estação de passageiros feita com tendas e banheiros químicos, toda improvisada. A mobilidade urbana eficiente oferece acesso a serviços públicos, irriga a economia no comércio, gera empregos.

Preparação para a COP 26 reúne múltiplos atores em busca de agenda comum para a América Latina

sinop

Plantações de soja e milho avançam sobre o território da floresta em Sinop, Mato Grosso. Se o aquecimento na Amazônia passar de 4ºC – já chegou a 1,5ºC –, a floresta pode se transformar em uma savana. GEORGE STEINMETZ/NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

Por Fabíola Zerbini*

Ainda falta um ano, mas os preparativos e conversações em torno da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), adiada para novembro de 2021 por conta da pandemia, já envolvem múltiplos atores em todo o mundo. No que se refere à América Latina, é grande a nossa responsabilidade ao participarmos deste momento crucial da agenda global para o clima, a sustentabilidade e, portanto, o futuro da humanidade.

Na nossa região, o processo de construção da COP 26 é participativo, amplo e vertical (entre produtores e compradores). Em 29 de setembro foi realizado o primeiro diálogo multissetorial, reunindo mais de 100 atores-chave no continente, o que tornou possível o intercâmbio e a sistematização de prioridades em torno de políticas públicas prioritárias para o avanço da agenda de uso sustentável da terra em nossos países, e, para a consolidação da América Latina como uma região líder na agenda de equilíbrio climático, segurança alimentar e conservação florestal.

Muitos países latino-americanos enfrentam hoje desafios semelhantes, como receitas fiscais em declínio, sociedades cada vez mais polarizadas e incertezas em relação à natureza da recuperação pós-COVID. Neste contexto, governantes e governados têm a responsabilidade e a oportunidade de colocar as agendas de uso sustentável da terra, equilíbrio climático, segurança alimentar e redução da desigualdade social, no centro de todas as decisões políticas destinadas a reconstruir nossas economias e sociedades.

Para este projeto catalisado em torno da COP 26, o diálogo entre os países produtores e compradores, entre os agricultores e o lado da demanda, entre o público e o privado, é fundamental. Uma reconstrução econômica baseada em princípios de uso sustentável da terra deve ser feita em conjunto com as ações do solo e políticas públicas.

E para isso, precisamos lançar mão de uma de nossas principais forças como região: um capital político incomparável, que se confirma pela quantidade, legitimidade e alcance das coalizões nacionais. Brasil, Colômbia e Peru já hospedam coalizões fortes que trabalharam arduamente para desenvolver agendas comuns de Uso Sustentável da Terra entre o setor privado e a sociedade civil local. Outros países também contam com alianças em torno de cadeias sustentáveis de produção e estão alinhados na busca da melhoria de sua governança suprasetorial em direção à consolidação de coalizões nacionais multiatores.

No diálogo de 29 de setembro, as coalizões e fóruns da sociedade civil e do setor privado de seis países latino-americanos foram as vozes atuantes que convergiram para uma pauta básica que inclui:


1. O esforço pela implementação do Pagamento pelos Serviços Ambientais, em particular mobilizando os mercados locais de carbono, biodiversidade e água;
2. A implantação de mecanismos de financiamento sustentáveis, que potencializam e atraem recursos públicos e privados para a agenda de transição;
3. A importância dos sistemas de rastreabilidade nacionais ou setoriais, públicos e privados, que contribuam para a transparência e credibilidade de nossos países perante os mercados e consumidores nacionais e internacionais; e
4. A ação em nível jurisdicional, que tem o potencial de estabelecer agendas no terreno, combinando produção e proteção em paisagens-chave.

Em escalas nacionais, as pautas identificadas como prioritárias pelas coalizões são as seguintes:

A TFA Colombia Alliance enfatiza a importância do avanço do avanço do mercado interno e externo de carbono, o desenvolvimento e a efetiva implementação de produtos financeiros internos e externos, adaptados ao desenvolvimento inteligente do clima e à conversão sustentável das cadeias de produção de cacau, óleo de palma, carne e leite, a efetiva implementação de acordos público-privados referentes ao desmatamento zero nestas cadeias, e a rastreabilidade público-privada da Política Nacional de Pecuária Sustentável.

No Peru, a Coalizão pelo Uso Sustentável da Terra destaca a relevância estratégica da consolidação dos compromissos setoriais para a produção sustentável de cacau, óleo de palma, café e frutas amazônicas, atualmente sob negociação pelos setores público e privado, para avançar em direção à Sustentabilidade Jurisdicional, que inclui a apresentação de cases de sucesso, o fortalecimento da governança e a mobilização de investimentos para a conversão de territórios nos quais há alto risco de conversão para propósitos produtivos, especialmente na Amazônia Peruana; e a implementação do Protocolo Verde no Ecossistema Financeiro, que garantirá investimentos públicos e privados para o financiamento e o pagamento combinado por serviços ambientais.

No nosso país, a Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura reforça a importância de ações públicas relacionadas a seis áreas prioritárias para enfrentar o desmatamento, que incluem o fortalecimento das ações de comando e controle para a erradicação do desmatamento ilegal, a implementação integral do Código Florestal, a alocação de 10 milhões de hectares de floresta para proteção e uso sustentável, a melhoria dos sistemas de rastreabilidade e monitoramento do desmatamento legal, e a suspensão dos processos de ocupação de terras para propriedades desmatadas após julho de 2008. A agenda relacionada à saturação do mercado de carbono associado à política nacional de pagamento por serviços ambientais é também identificada como essencial para o país.

O momento requer ação planejada, informada e acordada no nível político. A sequência e o aprofundamento deste diálogo multissetorial ao longo de 2021 deverá resultar no fortalecimento das ações e conquistas em nível nacional, bem como na definição de uma agenda regional. A América Latina, seus governos e povos, tem uma oportunidade única de encontrar uma voz coletiva que conecte as discussões globais com os desafios e oportunidades das iniciativas existentes, de forma a que cheguemos unidos e fortalecidos à COP 26.

*Fabíola Zerbini é Doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM/USP e Diretora Regional da TFA (Tropical Forest Alliance) para a América Latina

Plano Mourão rima com destruição: mais da metade da Amazônia poderá ser legalmente desmatada

amazonia

Por ClimaInfo

O mapa desenhado no Plano Mourão é assustador: há áreas já consolidadas, outras onde o verde representa a floresta intacta – que ele chama de “economia florestal” – e uma enorme área marcada em vermelho de “expansão da ocupação”. Esta última corresponde, grosso modo, a toda a área ao sul da Transamazônica e a metade do estado de Roraima. A área verde é menos da metade do mapa. Se é verdade que o ponto sem volta da floresta é uma perda entre 20% a 25%, o Plano Mourão fará a floresta virar uma savana degradada (ver abaixo)

Plano para Amazônia mostra visão híbrida | Brasil | Valor Econômico

Ontem, Daniela Chiaretti, conversou no Valor com especialistas que apontaram a não menção do INPE no plano de Mourão, apesar do instituto ser responsável pelo monitoramento do desmatamento e das queimadas. Os Povos Indígenas e Quilombolas foram praticamente ignorados. O mesmo para Ibama e ICMBio que, aliás, aparecem só na linha que fala de sua reestruturação.

O temor com o plano aumenta com a intenção de Mourão de fazer de seu Plano algo “algo que permaneça, independentemente do governo de turno. Que não seja rasgado e que seja um planejamento factível”.

fecho

Este artigo foi tirado de postagem publicado pelo ClimaInfo e acrescida de informações pelo Blog do Pedlowski

Álcool em gel fora do padrão pode atuar como proliferador de bactérias, alerta microbiologista da UFPR

Consequências da existência de sanitizante adulterado no mercado vão além de lacunas na prevenção contra o novo coronavírus, aponta estudo. UFPR oferece testagem gratuita de álcool

O álcool gel pode ser responsável pelo desenvolvimento de outras bactérias, além de não funcionar como agente antisséptico, se produzido com insumos de má qualidade ou em desacordo com as diretrizes oficiais. Esse é o alerta da professora de Microbiologia Marcia Regina Beux, do Departamento de Patologia Básica da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em 2011, na época da epidemia de H1N1, ela conduziu uma pesquisa que confrontou marcas de álcool gel com espécies de bactérias comuns na microbiota das mãos e chegou a conclusões apropriadas também para a atual pandemia de Covid-19.

Ao utilizarmos um produto de má qualidade ou com o prazo de validade vencido, podemos contribuir para que bactérias que estejam na pele ou na superfície se proliferem, causando o efeito contrário daquele esperado. “Há um leque de microrganismos que podem se desenvolver em uma má formulação como bactérias Gram negativas e Gram positivas, esporuladas e até mesmo fungos”, conta a especialista que alerta sobre o risco de produtos de má procedência. “Podem causar infecções e até abscessos (bolsas de pus), caso haja algum ferimento na pele que sirva como porta de entrada para as bactérias no organismo”.

O álcool de boa qualidade, quando utilizado na pele, atua como um agente antisséptico, reduzindo a microbiota, ou seja, diminuindo a quantidade de microrganismos como bactérias, fungos, protozoários e vírus, residentes ou transitórios, naquele ambiente. Em superfícies, o álcool é um agente de desinfecção que reduz ou inativa a carga microbiana. “Sua ação é reportada pela capacidade de desnaturar as proteínas e remover a camada lipídica de algumas bactérias e vírus envelopados”, explica Marcia.

Fórmula ideal

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda que o álcool gel seja produzido conforme as diretrizes traçadas pelo Formulário Nacional de Farmacopeia Brasileira. De acordo com a normativa, a forma farmacêutica do álcool gel é:

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Para a professora, quanto mais próxima a fórmula do produto for da recomendada, mais confiável é seu uso. “A formulação básica não contém agentes odorizantes ou hidratantes. Algumas fórmulas contêm óleos essenciais que teriam também uma função de antimicrobianos naturais”.

Outros vilões

Os sabonetes, sejam líquidos ou em barra, outros produtos de higiene pessoal e cosméticos, assim como desinfetantes, também podem se comportar como meios de cultura para microrganismos diversos. Para comprar um produto que qualidade, é importante observar no rótulo se a formulação contém agentes de conservação como ácido benzóico, ácido sórbico, clorhexidina e cloreto de benzalcônio.

Marcia não aconselha usar o álcool gel como substituto da água e do sabonete. “A utilização desse produto é viável apenas na impossibilidade de lavar adequadamente as mãos com água e sabonete”, finaliza.

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Testes gratuitos

O Laboratório de Ressonância Magnética Nuclear (LabRMN), do Departamento de Química da UFPR, oferece testes gratuitos de álcool gel desde junho. O serviço de análise começou para apoiar as polícias Civil e Federal, que apuram casos de fraudes nessa indústria, e a partir de agosto foi aberto à comunidade em geral (pessoas físicas e pequenas empresas) de forma gratuita.

Para solicitar a análise, basta entregar entrar em contato através do e-mail alcoolgel@c3sl.ufpr.br e levar uma amostra do produto à guarita do Centro Politécnico da UFPR (Av. Cel. Francisco H. dos Santos, 100, Jardim das Américas).

Quem não mora em Curitiba pode enviar amostra pelo correio — apenas um mililitro é suficiente para o teste –, informando dados pessoais e de contato. O resultado é encaminhado por e-mail.

LINKS

Matéria no Portal da UFPR: https://bit.ly/38ZKu2i

Matéria sobre os testes gratuitos oferecidos pelo LabRMN/UFPR: https://bit.ly/3fiPSii

Um pedido aos marqueteiros: libertem Caio Vianna da sua versão”Supernatural”

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ão sei quantos leitores deste blog assistiram a um episódio sequer do seriado “Supernatural“, mas eu confesso que assisti muitos até que  cansei das esquinas criativas adotadas por seus roteiristas para prolongar a saga sobrenatural dos irmãos Winchester e sua luta contra anjos e demônios.

Mas por que lembrar dos irmãos Winchester e ligá-los a Caio Vianna que acaba de iniciar a sua campanha publicitária para a disputa do segundo turno das eleições municipais em Campos dos Goytacazes? É que o Caio Vianna que apareceu em pelo menos em um  dos “episódios” é muito parecido com um dos irmãos Winchester quando Sam e Dean estão possuídos por entidades não amigáveis. É tanta citação aos alegados casos de corrupção da família do seu adversário, Wladimir Garotinho, que parece que o Caio Vianna que eu conheço foi substituído por um “evil twin” saído, sim, de algum episódio de “Supernatural”.

Alguém precisa avisar aos marqueteiros de Caio Vianna que os candidatos que enveredaram por esse viés “supernatural” já foram fragorosamente derrotados no primeiro turno, a começar pelo agora ex-prefeito ainda exercício Rafael Diniz. O outro, Rodrigo Calil, sequer está conseguindo manter a base de vereadores que ajudou a eleger que já mostrou estar em processo de debandada para a campanha de Wladimir Garotinho, a começar pelo retornante Rogério Matoso.

Reconheço que não estou nem perto de ser conselheiro de Caio Vianna, mas eu diria a ele que é melhor se concentrar nas suas propostas e esquecer as eventuais provocações que sofra. É que, convenhamos, a tarefa dele já é muito difícil com ele tentando ser um candidato propositivo. Se insistirem em mantê-lo como um personagem possuído saído de “Supernatural”, o risco é que acabe tendo menos votos do que no primeiro turno. É que, entre outras coisas, os eleitores estivessem levando em conta as acusações de corrupção que pesam contra pais e mães de candidatos nem Caio nem Wladimir teriam chegado ao segundo turno.

A verdade é que a maioria da população está interessada em ouvir os candidatos falando em seus projetos de governo e não em picuinhas nascidas nas redes sociais. Isso funcionou temporariamente em 2016 e 2018, mas já fracassou redondamente em 2020. Está claro que a rede de intrigas das mídias sociais não foi e continuará não sendo decisiva no atual pleito.

Então, renovo os meus pedidos aos marqueteiros de Caio Vianna: libertem o “good Caio” e se livrem da sua versão “Supernatural”. É que ganhando ou perdendo, essa não deverá ser a última campanha eleitoral da qual Caio Vianna participará. Assim, melhor perder apresentando projetos do que personificando um político possuído por entidades sobrenaturais.

No país da carne, aos mais pobres restará comer coração (e olhe lá!)

CORAÇÃO DE BOI ACEBOLADO E BEM MACIO! - YouTubeA mensagem do governo Bolsonaro aos mais pobres pode ser traduzido como “se não tem picanha que comam coração”

A imagem abaixo mostra uma tabela com os preços praticados para diversos cortes de carne bovina em um supermercado típico do Brasil, e a realidade que emerge desses números é que, apesar de sermos os maiores exportadores de carne bovina desde 2004 e temos o maior rebanho comercial, a maioria dos brasileiros está fadada a comer coração, já que os demais cortes (incluindo os de miúdos como fígado e língua) se tornaram inatingíveis para eles.

tabela de carne

Uma das razões para os preços estratosféricos para o preço da carne bovina (que deverá arrastar junto o de outras carnes como porco e galinha) resulta da inexistência de qualquer medida de estabelecimento de um estoque doméstico que impedisse justamente a ocorrência desse caráter explosivo dos preços.

Ao mesmo tempo, há que se notar que boa parte da produção nacional está sendo destinada para a China cujo governo está tendo uma ação modelar no controle da pandemia da COVID-19, o que habilitou o gigante da economia global a retomar rapidamente os níveis de produção e consumo. Tudo isso representa o caminho contrário do que foi adotado pelo governo ultraneoliberal comandado pela dupla formada por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

Há que se salientar que a elevação da inflação em itens consumidos mais diretamente pelos segmentos mais pobres da população já vinha ocorrendo com outros itens, resultando no fato de que o aumento de preços para as famílias brasileiras mais pobres  tivesse sido mais de 10 vezes maior que a alta sentida pelas pessoas mais ricas de janeiro até setembro de 2020.  E é justamente esta parcela da população que está sendo mais fortemente afetada pelo agravamento do desemprego que já era alto antes, mas que aumentou ainda mais após a erupção da pandemia da COVID-19.

A situação que se abre no Brasil com essa combinação de alta inflacionária para os mais pobres e aumento do desemprego é geradora de uma situação potencialmente explosiva.  Essa situação deverá ser agravada ainda mais pela insistência do governo Bolsonaro em aprofundar sua agenda ultraneoliberal com a promoção de privatizações e ataques aos direitos sociais e trabalhistas. 

Ao seu modo, Jair Bolsonaro parece estar adaptando o famoso trágico bordão atribuído (erroneamente dizem os historiadores) à imperatriz francesa Maria Antonieta que teria dito- pouco antes da Revolução Francesa- que “se não tem pão que comam brioches”- para “se não tem picanha que comam coração”.  O resultado acontecido com Maria Antonieta a história já nos conta. Resta saber o que acontecerá com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

E antes que eu me esqueça, ofereço uma reminiscência familiar. Sendo filho de um agricultor transformado em metalurgico, passei boa parte da minha infância e juventude tendo uma dieta que era turbinada com partes menos nobres do boi, incluindo fígado, rins e bucho. Ainda bem que minha mãe era uma mestra em transformar esses miúdos em deliciosas iguarias. O meu ponto aqui é que passadas seis décadas, com o Brasil tendo um plantel gigantesco de animais que são criados às custas de muita destruição ambiental, não há de nada de romântico ao que está sendo imposto aos pobres por um governo que não possui qualquer preocupação com o que está sendo colocado (na maioria das vezes isso é nada) de uma parcela significativa dos brasileiros.