Na “The Lancet”, médicos brasileiros desafiam os fatos e defendem as ações do governo Bolsonaro no controle da COVID-19

hospitais covid-19

Na “The Lancet”,  médicos brasileiros defendem as ações do governo Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19, em que pese os mais 135 mil mortes ocorridas no Brasil

Há quem não entenda algumas situações envolvendo a falta de reação da comunidade médica brasileira às ações do governo Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19 no Brasil, especialmente quando o presidente Jair Bolsonaro está a meses defendendo um medicamento, a cloroquina, que não possui nenhuma comprovação de que tenha qualquer utilidade no combate ao coronavírus.

Mas uma carta publicada hoje pela revista “The Lancet” lança luz sobre essa situação ao publicar uma carta assinada por um coletivo de médicos brasileiros (alguns detentores de títulos de doutorado) que não só defendem ardorosamente as ações do governo Bolsonaro, como também exigem que uma das principais revistas científicas da área médica do mundo retire do ar um editorial em que critica duramente as ações do governo Bolsonaro.

Em meio ao bombardeio de declarações pseudo-nacionalistas, uma me chamou a atenção. É que aquela que afirma que “Brasil está se saindo melhor do que o Reino Unido em resposta à pandemia COVID-19. Os casos, óbitos e taxas de letalidade do COVID-19 ajustados pela população são muito mais elevados no Reino Unido do que no Brasil.”

Essa afirmação por si só já deve ter divertido os editores da “The Lancet” a ponto deles decidirem publicar uma carta que, se por um lado tem elementos que envergonham os autores da mesma, por outro, oferecem uma rara entrada no que pensam respeitáveis representantes da classe médica brasileira.

Quem se der ao trabalho de ler a “resposta” abaixo, notará que não se pode culpar os pobres pela eleição e manutenção de Jair Bolsonaro no posto de presidente do Brasil. É que a defesa apaixonada que emerge do texto nos mostra quem racionalmente opta por defender as práticas indefensáveis de um governo indefensável.

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Resposta COVID-19 do Brasil

Por Mauro RN Pontes e Julio Pereira Lima

Foi decepcionante ler o Editorial 1  sobre a resposta do Brasil ao COVID-19, criticando o presidente brasileiro que “desencorajou [ed] as medidas sensatas de distanciamento físico e bloqueio”. Sim, ele insistiu que o bloqueio é ineficaz e terrível para a economia. 

As evidências sugerem que ele estava certo. Um estudo europeu concluiu que o bloqueio pode não ter salvado vidas.

2 Um estudo brasileiro descobriu que um aumento de 1,0% na taxa de desemprego estava associado a um aumento de 0,5% na mortalidade por todas as causas.

 3 A taxa de desemprego esperada (23%) causaria 120 mil mortes no Brasil, segundo projeções dos autores. 3 Portanto, o governo brasileiro implementou medidas de proteção; distribuiu US $ 5,6 bilhões às cidades, estados e diretamente à população por meio de um salário de salvamento de emergência; criaram leitos para unidades de terapia intensiva; e entregou equipamentos de proteção e ventiladores. Esta resposta mostra um “vácuo de ações políticas”?1

Até o momento, o Brasil está se saindo melhor do que o Reino Unido em resposta à pandemia COVID-19. Os casos, óbitos e taxas de letalidade do COVID-19 ajustados pela população são muito mais elevados no Reino Unido do que no Brasil. O Lancet deveria criticar seu próprio país, antes de criticar o nosso.

Sentimos que o preconceito abundou durante a editoria de Richard Horton, incluindo o imbróglio da vacina MMR4(colocando a vida das crianças em risco) e a correspondência incendiária sobre a situação em Gaza5O Lancet elogiou a resposta chinesa à pandemia de COVID-19, mesmo depois que a China foi acusada de encobrir a propagação inicial e a transmissão de humano para humano de COVID-19. O Lancet foi mais duro com o Brasil, sugerindo que deveríamos expulsar o presidente de sua cadeira.

Desconsideramos seu editorial desinformador, 1 que sentimos ser claramente tendencioso contra nosso governo de direita. Infelizmente, o The Lancet não publicou nada contra o governo de esquerda brasileiro, que priorizou estádios de futebol em vez de hospitais.

Como médicos brasileiros, damos a vocês uma resposta clara: o Editor do The Lancet deve abandonar o viés político, retratar o Editorial,1  e focar na ciência, ou então ele “deve ser o próximo a ir”.1

Declaramos não haver interesses conflitantes. Os signatários desta correspondência estão listados no apêndice

No Brasil de Bolsonaro, a única palavra de ordem é o lucro

Em quase todo o mundo civilizado, a agricultura é um setor bastante protegido e regulado. Já no Brasil de Bolsonaro a única palavra de ordem é o lucro a quaisquer custos. Não se planeja nada, mas se concede tudo aos grandes produtores

ALIMENTOS

Por Marcelo Zero*

O Brasil é o segundo maior produtor de alimentos do mundo. Perde apenas para os EUA. Além disso, praticamente todos os anos há recorde de safras.

No entanto, nosso país vive hoje gravíssima insegurança alimentar, com forte inflação de alimentos e desabastecimento de produtos básicos, como o arroz. Já ocorrem saques em supermercados.

Entre janeiro e agosto deste ano, a inflação medida pelo IPCA foi de apenas 0,7%. Porém, a inflação da alimentação no domicílio foi de 6,7%, ou seja, quase 9 vezes acima da inflação média, com tendência a acelerar ainda mais.

Essa inflação de alimentos afeta muito intensamente os mais pobres, que gastam quase tudo o que ganham justamente em alimentação. Segundo levantamento feito pelo professor Gerson Teixeira, especialista na matéria, alguns alimentos básicos subiram bem mais. O arroz subiu 27,5% (mas aumentou bem mais neste mês), o leite longa vida aumentou 32,8%, o feijão subiu 17,3%, o tomate aumentou 17,7%, o óleo de soja subiu 26,6%, e por aí vai.

Como isso é possível?

Em primeiro lugar, há uma questão estrutural. Devido aos lucros muito maiores da chamada agricultura de exportação, que é remunerada em dólar, em relação à agricultura destinada ao mercado interno, tem havido um deslocamento da área plantada e dos recursos investidos da última para a primeira.

Ao final da década de 1970, a área plantada destinada ao arroz e ao feijão, base da alimentação do brasileiro, era de aproximadamente 28% do total, ao passo que a área destinada à soja, principal cultura de exportação, era de somente 21%. Entretanto, hoje em dia a soja responde por 57% da área plantada no país, enquanto o arroz e o feijão, somados, respondem por meros 6,9%.

Em suma, houve grandes investimentos na agricultura de exportação e grande desinvestimento na agricultura destinada ao consumo interno, feita, em sua maior parte, por pequenos produtores familiares.

Obviamente, essa tendência se agrava e se acelera quando há grande valoração do dólar, como agora. Deixada ao sabor do “mercado”, ou seja, da ganância dos grandes produtores, a produção de alimentos vai massivamente para a exportação, provocando carestia e desabastecimento internos.

Nos governos progressistas anteriores, essa tendência era mitigada e controlada pelas políticas de apoio à agricultura familiar e, sobretudo, por uma política de compra de alimentos básicos e constituição de estoques públicos, que impediam grandes oscilações de preços e desabastecimento.

Contudo, após o golpe de 2016, essas políticas foram muito fragilizadas ou praticamente extintas.

A política de constituição de estoques públicos de alimentos, em particular, sofreu grande ataque, tanto no governo Temer, quanto no governo Bolsonaro.

Hoje, os estoques públicos de alimentos feitos pela Conab estão praticamente “zerados” e não sustentariam sequer um dia de consumo. Conforme levantamento feito pelo professor Gerson Teixeira, os estoques de arroz estão em apenas 623 toneladas, para um consumo diário de quase 30 mil toneladas. No caso do feijão, os estoques estão em míseras 38 toneladas, para um consumo diário de quase 8,5 mil toneladas.

Observe-se que a FAO considera que idealmente um país teria de ter uma capacidade de estocagem 1,2 maior que a sua capacidade de produção.

Em nítido contraste com o Brasil bolsonarista, a China tem hoje estoques de cereais que equivalem a 75% do seu consumo anual de alimentos. A Índia tem 23%, os EUA têm 25% e a Rússia tem 18%.

Considere-se, adicionalmente, que a Comissão Europeia, em função da crise desencadeada pelo COVID-19, está ampliando consideravelmente sua política de estocagem reguladora de alimentos. É a chamada estratégia Farm to Fork (da fazenda para o garfo), que visa blindar a população europeia de crises na oferta de alimentos. Aqui ao lado, na Argentina, o governo Fernández voltou impor taxas às exportações de alimentos (retenciones), de forma a assegurar segurança alimentar e financiar sua recuperação econômica e seu desenvolvimento.

Em quase todo o mundo civilizado, a agricultura é um setor bastante protegido e regulado.

Já no Brasil de Bolsonaro a única palavra de ordem é o lucro a quaisquer custos. Não se planeja nada, mas se concede tudo aos grandes produtores.

Somada à extinção do Plano Safra para Agricultura Familiar e à paralisação da Reforma Agrária, entre outras medidas destrutivas, não estranha que extinção dos estoques públicos de alimentos venha contribuindo significativamente para a atual insegurança alimentar em um país que tem uma das agriculturas mais competitivas do mundo.

Claro está que as exportações agrícolas são muito importantes para a economia brasileira. Elas geram vultosos superávits comerciais e grandes divisas em moeda forte para o país. Mas sem políticas estatais reguladoras, que apoiem a agricultura familiar, a Reforma Agrária e a produção para o mercado interno, como quer o governo ultraneoliberal de Bolsonaro, inevitavelmente vai se gerar carestia e desabastecimento, ainda mais numa conjuntura de grande desvalorização cambial.

Assim, essa incúria vem se revelando insustentável, do ponto de vista social.

Mas ela é também insustentável, do ponto de vista ambiental.

Os grandes incêndios ocorridos no ano passado na Amazônia e, agora, no Pantanal, são, em grande parte, originados por ações criminosas de setores atrasados do chamado agronegócio, ante um governo que lhes assegura impunidade e que vê as justas preocupações ambientais como “frescuras”, obstáculos inaceitáveis ao crescimento e ao lucro. 

O desgoverno Bolsonaro não consegue sequer perceber que a insustentabilidade social e, sobretudo, ambiental deste modelo de laissez faire bandido vão acabar por provocar também insustentabilidade comercial. Com efeito, a tendência é que os mercados mundiais, alarmados com a atitude hostil do governo brasileiro frente às grandes questões ambientais, se fechem aos produtos agrícolas do Brasil.

A resistência crescente ao Acordo Mercosul/UE é somente o começo desse processo já em curso.

Ademais, no longo prazo, a destruição ambiental vai restringir seriamente nossa grande capacidade natural de produzir alimentos, já que as chuvas que alimentam as colheitas do Centro-Oeste e do Sudeste vêm justamente dos “rios voadores”, originados pela evotranspiração da floresta amazônica

Enquanto isso, Bolsonaro faz piadas com a carestia e com a destruição de um dos principais ecossistemas do mundo. Afinal, quem faz piadas com a morte, faz piadas com tudo.

bolso fogo

Ao que tudo indica, o grande legado de Bolsonaro para o Brasil e o mundo se constituirá de morte, fome e fogo.

E daí?

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

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Este texto foi originalmente publicado no site “Brasil em Debate” [Aqui].

Parlamento alemão discute sustentabilidade: Alemanha é um tigre desdentado na hora de agir

Os ecologistas estão pedindo uma política de sustentabilidade diferente. A interação entre ciência e política precisa mudar

Nachhaltigkeit

“Temos de tratar a crise com uma crise”.  Imagem: DPA

BERLIN taz | Segundo importantes pesquisadores ambientais, a política de sustentabilidade alemã precisa mudar urgentemente para ter um impacto maior na natureza e na sociedade. Metade de todas as metas da “Estratégia de Sustentabilidade Alemã” estão sendo implementadas “na faixa do amarelo profundo ao vermelho” – o que significa: paralisação ou deterioração, explicou Adolf Kloke-Lesch, Diretor Executivo da Rede Alemã de Soluções de Desenvolvimento Sustentável (SDSN). Também cientistas do Conselho para o Desenvolvimento Sustentável (RNE) e da Plataforma de Sustentabilidade Científica 2030 (wpn) expressaram-se por ocasião da “Semana da Sustentabilidade” no Bundestag, na qual vários temas de transformação – desde a reviravolta agrícola ao transporte – serão debatidos pela primeira vez até sexta-feira.

A interação entre ciência e política, a interface da transferência de conhecimento, tem que mudar, disse Patrizia Nanz, que dirige a plataforma científica Sustentabilidade 2030, que foi fundada especialmente para esse fim no Instituto de Pesquisa em Sustentabilidade Transformativa (IASS) de Potsdam. “O registro de nossos artigos científicos não funciona mais como antes”, disse Nanz. Outros países, como a França, são mais eficazes com os seus “Conselhos de Cidadãos do Clima”.

Wolfgang Lucht do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK), como membro do Conselho Consultivo para Questões Ambientais (SRU), fez a experiência de que a “Estratégia de Sustentabilidade Alemã”, que é coordenada pela Chancelaria e, portanto, politicamente bem colocada, é em última análise “um tigre desdentado” na hora de agir. As recomendações do Conselho de Sustentabilidade iriam “perder-se na votação interministerial”, queixou-se Lucht. Para ele, é necessária uma “nova arquitetura” para o debate da sustentabilidade na política e na sociedade. Lucht: “Para colocá-lo como Greta Thunberg  faz: temos que finalmente tratar a crise como uma crise.”

Os eco-pesquisadores elogiaram o debate geral sobre sustentabilidade no Bundestag como uma abordagem positiva. É necessário um “novo diálogo com a população” sobre os caminhos para o desenvolvimento sustentável, principalmente após os cortes causados ​​pela crise da coroa. Por exemplo, um “Conselho de Justiça Intergeracional” poderia ser estabelecido. Essas novas pedras angulares também devem ser incluídas nos programas partidários para as eleições federais de 2021. Em sua agenda de sustentabilidade na quinta-feira, o Bundestag debateu 16 moções sobre o tema do crescimento sustentável e uma economia de mercado ecológico-social. Posteriormente, o foco educacional foi em “mais educação para o desenvolvimento sustentável”.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo TAZ.de [Aqui!].

Acordo UE-Mercosul corre risco por causa do desmatamento acelerado na Amazônia

A comissão formada pelo ex-primeiro-ministro Edouard Philippe tirou duras conclusões sobre o acordo firmado em 2019 entre a União Europeia e o Mercosul formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

madeireiraDesmatamento da Amazônia no Estado do Pará, Brasil, em 2019. NELSON ALMEIDA / AFP

Por Julien Bouissou   para o Le Monde

acordo comercial entre a União Européia (UE) e o Mercosul é uma “oportunidade perdida” em questões ambientais e de saúde. Esta é a dura conclusão do relatório da comissão de peritos formada pelo ex-primeiro-ministro Edouard Philippe, a que o Le Monde teve acesso, para avaliar o impacto do acordo de livre comércio no desenvolvimento sustentável. Assinado no verão de 2019, após vinte anos de negociações, ainda precisa ser ratificado por cada Estado-Membro da UE e pelo Parlamento Europeu antes de ser implementado.

No documento de 194 páginas, que deve ser apresentado sexta-feira, 18 de setembro, ao primeiro-ministro, Jean Castex, a hipótese mais provável adotada pelos especialistas é a de desmatamento a uma taxa anual de 5% durante os seis anos seguintes ao implementação do acordo, num total de 700.000 hectares. Em outras palavras, o custo ambiental medido a partir das emissões adicionais de CO 2 , a um custo unitário de US $ 250 por tonelada, seria maior do que os benefícios econômicos.

A comissão baseia seus cálculos no desmatamento causado principalmente pela criação de pastagens para aumentar a produção de carne nos quatro países do Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A criação de carne é, na verdade, muitas vezes o primeiro passo do desmatamento antes de dar lugar às culturas agrícolas.

Impacto “difícil de quantificar”

A pegada de carbono da produção de um quilo de carne bovina também é três vezes maior na América Latina em comparação com a Europa, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). No entanto, essa hipótese está longe de chegar a um consenso na comissão, que reuniu um representante da indústria da carne, economistas, um veterinário ou mesmo um especialista em direito. Para alguns, o custo ambiental é amplamente subestimado, porque o relatório não leva em consideração outros vetores de desmatamento, como cultivo de soja, cultivo de milho ou avicultura.

“É muito mais difícil quantificar seu impacto sobre a biodiversidade”, explica Stefan Ambec, economista ambiental da Escola de Economia de Toulouse e presidente do comitê. Outros consideram, ao contrário, que o impacto foi sobrestimado, se mantivermos a hipótese de um ligeiro aumento das exportações de carne para a União Europeia, ou de uma intensificação da pecuária que evita a criação de novas pastagens. A redução de direitos aduaneiros prevista no acordo diz respeito apenas a uma cota de 99 mil toneladas de carne bovina, enquanto a produção do Mercosul é de 8 milhões de toneladas.

O acordo também ignora muitos aspectos da saúde, de acordo com o comitê. Produtos como agrotóxicos, de uso proibido na Europa, são autorizados nos países do Mercosul. “Seria, sem dúvida, necessário definir melhor as especificações, em particular sobre o bem-estar animal, e integrá-las nos textos”, sugere Stefan Ambec.

“Incompatível com o Acordo Verde”

Um estudo de impacto, encomendado por Bruxelas à Universidade Britânica da London School of Economics e publicado em julho, afirmou que esse acordo de livre comércio não resultaria em emissões adicionais de gases de efeito estufa. “Mas essa auditoria subestima o impacto nas emissões de gases de efeito estufa, analisa Stefan Ambec, porque o modelo padrão utilizado não leva em consideração o uso do solo e minimiza as consequências do desmatamento. “

O comitê também se interessou pelo impacto climático, segundo ele relativamente baixo, do aumento da produção industrial. No Brasil, Paraguai ou Uruguai, onde a produção de energia hidrelétrica é importante, a pegada de carbono da matriz energética não é tão distante da Europa, enquanto na Argentina é maior que a da Europa. ‘Cerca de 30 %. As exportações de tecnologias europeias na produção de energia limpa, como a eólica ou a solar, facilitadas pelo acordo de comércio livre, teriam, portanto, um impacto limitado.

“O acordo com o Mercosul é incompatível com o Green Deal europeu e com as questões globais”, conclui Mathilde Dupré, do Instituto Veblen, think tank especializado em reformas econômicas necessárias para a transição ecológica. Acusado de acelerar o desmatamento, o acordo inclui, no entanto, cláusulas sobre a proteção da biodiversidade e o combate às mudanças climáticas. Mas estes últimos não são vinculativos e “oferecem garantias relativamente frágeis” , lamenta a comissão Ambec. “O conteúdo do acordo com o Mercosul não condiz com as orientações políticas apresentadas por Bruxelas,observa Sébastien Jean, diretor do Centro de Estudos Prospectivos e Informação Internacional (CEPII) e membro da comissão Ambec. Os aspectos comerciais dominam amplamente o resto. “

“Desmatamento Contínuo”

Como Bruxelas pode encorajar ou forçar seus parceiros a adotarem políticas sociais ou ambientais virtuosas graças aos seus acordos de livre comércio? Este é um dos desafios da consulta lançada em junho pela Comissão Europeia para a revisão da sua doutrina comercial, prevista para o início de 2021.

Os acordos comerciais podem servir como importantes alavancas de negociação para obter progresso nas áreas de mudança climática, biodiversidade ou direitos humanos. No entanto, as ONGs acusam a UE de não considerar suficientemente as questões de saúde e ambientais nos seus acordos. “Novas cláusulas ambientais e sociais foram incorporadas aos acordos comerciais, mas a relutância da União Europeia em aplicá-las no passado exige cautela quanto à sua eficácia”, disse Sébastien Jean, que, no entanto, reconhece que “a Comissão obteve resultados mais através da cooperação do que da coerção ”.

Os parlamentos austríaco e holandês já rejeitaram o acordo com o Mercosul em sua forma atual. Berlim, para quem a implementação do texto abriria muitas saídas para sua indústria automotiva, recentemente deu uma reviravolta. A chanceler Angela Merkel pela primeira vez, no dia 21 de agosto, expressou “sérias dúvidas” sobre o acordo, apontando “continuação do desmatamento” e “incêndios” .

No verão de 2019, o presidente francês Emmanuel Macron ameaçou não ratificá-lo se o governo brasileiro de Jair Bolsonaro não tomasse as medidas necessárias para proteger a floresta amazônica. Para o Instituto Veblen e a Fundação Nicolas Hulot, o acordo deve ser abandonado. “Não podemos ficar satisfeitos com as declarações políticas de Emmanuel Macron em relação a Jair Bolsonaro”, disse Samuel Leré, chefe de defesa da Fundação Nicolas Hulot, porque deixam uma ambigüidade sobre se a assinatura é assinada ou não no acordo com o Brasil, independentemente de seu líder. “

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Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Commodities e desmatamento: como o Reino Unido pretende virar esse jogo e os impactos para o Brasil?

stolen goods graphic

Por Lucas Mastellaro Baruzzi*, Jeferson Manhae** e Thiago Munhoz Agostinho***

Na esteira das iniciativas do Pacto Ecológico Europeu lançadas pela União Europeia para conter as mudanças climáticas e conservar os recursos naturais, o Reino Unido anuncia uma força tarefa para implementar 14 ações prioritárias para conter o desmatamento ilegal a nível global. Com isso, visa contribuir para alcançar sua meta de neutralidade de emissões de CO2 até 2050. A principal é implementar um sistema de verificação para impedir a comercialização de commodities agrícolas provenientes de áreas de desflorestamento ilegal – as chamadas “forest risk commodities”.

A iniciativa deve ser interpretada tendo em vista o novo protagonismo que o Reino Unido pretende exercer externamente: efetivado o Brexit, o país volta a ser independente na definição de suas políticas públicas internas e a disputar influência global de temas como meio ambiente, segurança e comércio exterior. O Reino Unido terá, já no curtíssimo prazo, duas oportunidades para essa diplomacia pós-Brexit: em maio de 2021, participará da Convenção da Diversidade Biológica (a COP15, em Kunning, na China); e, em novembro do mesmo ano, será anfitrião da COP26 na cidade de Glasgow (a próxima conferência da ONU para a Convenção do Clima).

nz_supermarket_250834Os supermercados britânicos serão proibidos de vender carne, soja e outras commodities importantes provenientes de terras desmatadas ilegalmente, de acordo com novos planos do governo.  FOTO: REUTERS

Internamente, o pontapé para ações concretas foi dado: encontra-se em consulta pública uma proposta para obrigar que empresas adotem um sistema de controle de origem de produtos agrícolas que distribuem ou comercializam, sob pena de multa e sanções civis. A consulta é promovida pelo Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (ou DEFRA, na sigla em inglês).

Faz parte da tradição política e jurídica britânica se apoiar na capacidade e liberdade privadas para implementar as ações necessárias, cabendo ao Estado definir e fiscalizar os standards a serem observados. Precedente semelhante é a legislação sobre a cadeia de produtos madeireiros, que proíbe a colocação no mercado de produtos cuja origem seja de extração ilegal (o Forest Law Enforcement, Governance and Trade – FLEGT).

A proposta em consulta pública tornaria ilegal a utilização, por empresas, de commodities agrícolas por que não foram produzidas de acordo com a legislação do seu local. Para garantir a origem legal de tais commodities, as empresas seriam obrigadas a conduzir due diligences (ou seja, verificações conjuntas) junto aos seus fornecedores para garantir que o produto não seja proveniente de área de desmatamento ilegal. As commodities agrícolas alvo são aquelas que o Reino Unido mais consome: proteína animal, couro, cacau, óleo de palma, papel e celulose, madeira, borracha e soja.

Outra característica importante da legislação em estudo é a definição abrangente do que se entende por commodity agrícola, bastando que tenha sido colocada no mercado Britânico pela empresa – quer o produto esteja in natura (grãos, carnes), quer incorporado a algum produto final (por exemplo óleos vegetais, estofados de couro em veículos, cosméticos, alimentos).

O Reino Unido sabe que essas commodities agrícolas fazem parte de cadeias globais de produção e que, para banir de seu mercado interno a chegada de produtos que tenham uma origem ilegal, precisará alcançar os países fornecedores. Portais de grande audiência (The Independent, Bloomberg) e iniciativas especializadas (sites de monitoramento de produtos agrícolas) repercutiram a abrangência da iniciativa, chamando-a de uma repressão contra atividades ilegais em cadeias globais.

Parliament resolves to tackle EU's role in driving illegal deforestation  through imports of agro-commodities | Earthsight

Em que pese a iniciativa britânica se tratar ainda de uma consulta inicial, reflexos possivelmente serão sentidos no Brasil e empresas terão que se adaptar para continuar integradas ao comércio internacional com o Reino Unido. Ilustrativo desse desafio é o estudo recém-publicado na revista Science, segundo o qual aproximadamente 20% das exportações brasileiras de proteína e soja são provenientes de áreas desmatadas ilegalmente.

As contribuições recebidas, no âmbito da consulta pública em andamento, irão influenciar a visão do DEFRA sobre o assunto, que, posteriormente, poderá propor uma legislação específica.

Embora ainda não se conheça as contribuições enviadas até aqui, algumas questões centrais podem ser antecipadas: o perfil das empresas obrigadas a conduzir as verificações a periodicidade e forma com que as informações deverão ser prestadas, bem como seu grau de acesso público; delimitação da extensão das due diligences a serem conduzidas na cadeia; o rol de leis locais abrangidas; a adoção ou não de uma lista de produtos que possuem commodities agrícolas incorporados; a definição de outras sanções civis a serem estabelecidas.

Encerrada a consulta pública, caso o governo decida prosseguir, uma proposta de lei será apresentada, estabelecendo as obrigações legais e quais empresas estarão obrigadas a atendê-las. Posteriormente, uma norma regulamentadora deve definir os detalhes necessários para a implementação da lei.

Em que pese os movimentos do Reino Unido e da União Europeia terem como pano de fundo as mudanças climáticas, um novo padrão de normas socioambientais está sendo definido para reformular o comércio internacional. Outros países desenvolvidos podem acabar seguindo caminho semelhante, como Canadá, Japão e Coreia do Sul, cabendo ao Brasil retomar e repactuar com urgência a concepção de uma agenda propositiva de políticas públicas, sob pena de não voltar a participar e influenciar as esferas internacionais de negociação.

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*Lucas Mastellaro Baruzzi é mestrando em Políticas Públicas (King’s College London) pesquisador em Londres, mestre em Direito (USP), advogado (PUC-SP) e cientista político (USP). Atua com políticas públicas e relações governamentais. Sócio do escritório Barros Filho & Almeida Prado Advogados.

**Jeferson Manhaes é especialista na intersecção entre Inovação e Sustentabilidade, mestre em Relações Internacionais (Sorbonne), mestrando em Ecoinovação (Paris-Saclay), possui longa experiência internacional, atuando atualmente na co-criação de soluções que impactam tecnologia e meio ambiente.

***Thiago Munhoz Agostinho é advogado (PUC-SP), especialista em Direito Tributário (FDUSP), sócio de Buccioli | Braz de Oliveira | Agostinho Advogados Associados. Atua em temas regulatórios, assessorando empresas, principalmente italianas, de grande, médio e pequeno porte.

Degradação na Amazônia é maior que o desmatamento

desmatamentoO acúmulo de distúrbios na floresta (como queimadas e extração de madeira) causa a degradação da Amazônia, que entre 1992 e 2014 superou o desmatamento em termos de área afetada. Crédito da imagem: Bruno Kelly / Amazônia Real , sob licença Creative Commons 2.0

  • Embora o foco seja o desmatamento, a degradação da Amazônia é um grande risco
  • Autores alertam que ambos os fenômenos afetam 30 por cento do bioma
  • Menos atenção à degradação pode ser porque é mais difícil de medir do que o desmatamento
Por: Washington Castilhos

Mais de um milhão de quilômetros quadrados podem ter sido destruídos na Amazônia brasileira não só pelo desmatamento, mas pela degradação, fenômeno menos conhecido, mas que entre 1992 e 2014 superou o desmatamento em termos de área afetada, apurou um estudo.

Enquanto a degradação destruiu 330.427 quilômetros quadrados do bioma, 308.311 quilômetros quadrados foram desmatados neste período.

Os dados, publicados em estudo da revista Science , chamam a atenção para uma equação preocupante: somando a estimativa oficial de 20 por cento do desmatamento com a taxa de degradação de 10 por cento medida pelos autores, há apenas um máximo de 70 por cento da floresta preservada.

Esse cálculo sugere que mais de um de seus mais de cinco milhões de quilômetros quadrados de floresta já foi afetado.

“Toda a narrativa foi construída sobre o desmatamento. Não desmatar não significa que a floresta está sendo deixada intacta. Muita atenção tem sido dada ao desmatamento, enquanto o ritmo de degradação pode estar ocorrendo muito mais rapidamente “, alertou Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro, e um dos autores do estudo. 

“Muita atenção tem sido dada ao desmatamento, enquanto a taxa de degradação pode estar ocorrendo muito mais rapidamente.”

Marcos Pedlowski, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil

Pedlowski explicou por telefone ao SciDev.Net que desmatamento e degradação não são necessariamente fenômenos coexistentes.

Provocado pela expansão da agricultura e da mineração , entre outros fatores, o desmatamento se refere à conversão total das florestas para outro tipo de uso do solo. Por sua vez, a degradação ocorre quando o acúmulo de distúrbios na floresta (queimadas e extração de madeira, por exemplo) altera todo o ecossistema e o funcionamento da floresta, afetando sua capacidade de armazenar carbono e água.

Esses distúrbios têm consequências ambientais importantes, incluindo a liberação de gases de efeito estufa, mudanças no balanço hídrico, perda de biodiversidade e aumento na incidência de doenças infecciosas.

No artigo, os pesquisadores destacam que, no período de 22 anos em que comparam um fenômeno a outro, a área degradada ultrapassou a área desmatada porque o desmatamento tem recebido maior atenção dos órgãos de controle e em desenvolvimento.

Eles também enfatizam que o desmatamento é mais fácil de medir. O desafio no monitoramento da degradação, observam os autores, é que ela ocorre dentro das florestas, então o dossel da floresta – o dossel superior da floresta, composto de copas de árvores – torna difícil a detecção de satélite.

Portanto, “a degradação é mais difícil de confirmar” porque “visualmente pode parecer normal”, disse Pedlowski. “Muitas madeireiras, por exemplo, usam estratégias para esconder a área perturbada. Nem tudo é óbvio ”, acrescentou.

Para estimar a área calculada, 1.200 imagens de satélite foram analisadas. Mas como o sensoriamento remoto não é absoluto, os cientistas foram a campo validar as informações do satélite.

Considerando que as medidas não são exatas, os especialistas acreditam que a área associada à degradação pode ser pelo menos igual à área desmatada, tornando os índices comparáveis. Como resultado, a taxa de destruição pode chegar a cerca de 40% e a soma da degradação com o desmatamento pode chegar a um milhão de metros quadrados.

Em particular, o trabalho mostra um alto índice de degradação em áreas protegidas e reservas indígenas .

“Considerando que a Amazônia representa 60% do território brasileiro, é uma área colossal”, alertou o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que não participou da investigação , alertou por telefone o SciDev.Net .

“O estudo é importante porque mostra que o bioma está sendo mais afetado do que revelam os números oficiais projetados pelo Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], e a perda de carbono é muito maior do que o estimado”, acrescenta Artaxo, que trabalhou na NASA e é membro do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC).

Os pesquisadores acreditam que entender o que está acontecendo na Amazônia exige considerar todas as formas de degradação que podem ser prejudiciais à floresta, e não apenas o desmatamento.

“As estruturas de controle precisam funcionar tanto para um fenômeno quanto para outro. O governo brasileiro não pode continuar dizendo que 80% da floresta ainda está intacta, quando na verdade é muito menos ”, concluiu Pedlowski.

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Este texto foi originalmente publicado em espanhol pela SciDev.Net [Aqui!].

As trapalhadas do vice-presidente Hamilton Mourão mostram os limites da militarização do meio ambiente

mourãoO vice-presidente Hamilton Mourão comentou que a medição do Inpe acusa “focos de calor” nas imagens de satélite, “o que não significa incêndio”Imagem: Adriano Machado/Reuters

Uma questão cada vez mais evidente é que o governo Bolsonaro é caracterizado por uma forte militarização de vários ministérios importantes, a começar pelo Meio Ambiente. A suprema demonstração deste processo é a colocação do general Hamilton Mourão para presidir um natimorto Conselho Nacional da Amazônia Legal. É que do alto dos seus poderes, o general Hamilton Mourão fez a mesma coisa que seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro já vem fazendo, qual seja, optar por colocar mais militares, da ativa há que se frisar, para cuidar de postos essencialmente técnicos em uma área que agora se mostra um verdadeiro calcanhar de Aquiles para o Brasil que é exatamente a área ambiental.

Como um bom general de 5 estrelas que é, o vice presidente Hamilton Mourão, pressionado pelos fatos, vem insistindo em uma tática que só vem piorando e enfraquecendo sua própria posição que é a de optar por usar táticas que se assemelham a exercícios militares agressivos, começando pela tentativa de eximir o governo a que ele pertence de qualquer responsabilidade pelo aumento explosivo das queimadas na Amazônia.

Aliás, não contente em ter tentar negar (aliás, negar é o forte deste governo) responsabilidade pelas imensas queimadas que consomem áreas significativas da Amazônia e do Pantanal, o vice-presidente avisou que vai convidar embaixadores de países críticos ao desmantelamento ambiental em curso no Brasil para um  “tour de force” pela Amazônia, supostamente para mostrar que a coisa não está tão feia como pintam os satélites da NASA.

Melhor faria para si e para seu próprio governo o vice-presidente se exigisse a imediata demissão do ministro (ou seria anti-ministro?) Ricardo Salles e enviasse de volta para os quartéis todos os militares hoje lotados nas agências ambientais, fazendo retornar a seus postos os técnicos que realmente entendem do riscado. É que só assim o Brasil poderia começar a sair do atoleiro diplomático em que está afundado neste momento. 

Mas sinceramente não vejo a menor possibilidade em uma reviravolta na postura do vice-presidente, e ele terá que continuar a desempenhar um papel que deveria estar cabendo a Ricardo Salles que é o de cometer trapalhadas pavorosas, enquanto nossas florestas ardem e nossa fauna é incinerada viva. Tudo isso para abrir mais áreas de pastagens e de monocultura de uma soja que eventualmente será renegada pelos nossos principais parceiros comerciais, a começar pela União Europeia.

Depois disso ainda não ouviremos a cantilena de que os culpados pela transformação do Brasil em um pária rejeitado pela comunidade internacional foram Greta Turnberg e Leonardo DiCaprio. Esperem e verão.

Queimadas: veja dados de focos por regiões e no bioma Amazônia, segundo o  Inpe | Natureza | G1Focos de queimadas registrados pelo Inpe, com dados gerados no dia 22 de agosto. — Foto: Reprodução/Inpe

Ah, sim, me ocorreu o pensamento de que se o vice-presidente Hamilton Mourão ainda não tiver lido o clássico “A Arte da Guerra” de Sun Tzu,  general chinês que viveu no Século IV a.C., ele deveria fazê-lo. E se tiver lido, que o faça novamente.  Entre outras coisas, Sun Tzu dizia que “o general que desenha planos antes da batalha sempre vence o general que não se planejou”. E me desculpe o vice-presidente Mourão, ele cada vez mais parece um general que não desenhou seus planos antes da batalha. E que se ele tivesse feito isso, ele teria sabido que os dados de queimadas do INPE são públicos, e não teria passado pelo vexame de ser informado disso em público.

 

A ciência está ficando mais difícil de ler

De siglas obscuras a jargões desnecessários, os trabalhos de pesquisa são cada vez mais impenetráveis ​​- até mesmo para cientistas

linguaggio

 Por Dalmeet Singh Chawla

A ciência está se tornando mais difícil de entender devido ao grande número de siglas, frases longas e jargão impenetrável na escrita acadêmica.

Essa linguagem complicada não apenas afasta os não-cientistas e a mídia, mas também pode dificultar a vida dos pesquisadores juniores e daqueles que estão em transição para novos campos.

Adrian Barnett, estatístico da Queensland University of Technology, na Austrália, descreve a quantidade de siglas novas e obscuras usadas em artigos científicos hoje como “exaustivos” – e está apenas piorando.

Embora algumas siglas sejam úteis porque são amplamente conhecidas (AIDS, HIV, DNA), muitas dificultam a legibilidade porque são mais difíceis de absorver do que se o termo fosse escrito por extenso.

Pegue esta frase de um artigo de 2002 que estudou a resistência óssea de jovens atletas, por exemplo: ” RUN teve significativamente (p <0,05) maior CSMI e BSI com tamanho ajustado do que C, SWIM e CYC; e maior tamanho, idade e YST -ajustado CSMI e BSI do que SWIM e CYC . “

“Os cientistas adoram escrever essas siglas”, diz Barnett, “mas outros cientistas não necessariamente as escolhem, e elas acabam perdendo o tempo e causando muita confusão”.

Barnett e seus colegas analisaram o uso de siglas em mais de 24 milhões de títulos de artigos e 18 milhões de resumos indexados pela base de dados biomédica PubMed entre 1950 e 2019.

O estudo, publicado na eLife , descobriu que 19% dos títulos de artigos e 73% dos resumos incluíam pelo menos uma sigla. Dos cerca de 1,1 milhão de siglas identificadas, a grande maioria (79%) foi usada menos de 10 vezes na literatura científica.

O estudo também descobriu que a frequência de acrônimos usados ​​em resumos aumentou dez vezes desde 1956, de 0,4 acrônimos por 100 palavras para 4 acrônimos por 100 palavras.

Barnett diz que é “bastante condenatório” que a grande maioria das siglas sejam usadas tão poucas vezes. Ele incentiva os pesquisadores a pensar duas vezes antes de introduzir novas siglas em seus artigos. Se um resumo é difícil de entender, diz ele, é menos provável que o artigo incentive as pessoas a ler o manuscrito inteiro.

Títulos longos, resumos mais longos

Não só o uso de novas siglas aumentou dramaticamente em artigos recentes, mas também o tamanho geral dos títulos e resumos, descobriu o estudo da eLife .

Isso lembra os resultados de uma análise de 2017 de mais de 700.000 resumos em artigos publicados em revistas biomédicas e de ciências da vida entre 1881 e 2015. Também publicado na eLife , este estudo descobriu que o número médio de sílabas em cada palavra, a porcentagem de palavras difíceis , e a extensão das sentenças aumentou constantemente nos estudos publicados desde 1960.

As frases muito prolixas e as palavras difíceis não só tornam os artigos menos legíveis, mas também podem prejudicar a probabilidade de serem citados. Uma análise realizada no ano passado em características de artigos altamente citados descobriu que os títulos com maior impacto tinham apenas 10 palavras.

William Hedley Thompson, neurocientista do Instituto Karolinska em Estocolmo, Suécia, coautor da análise de 2017, diz que a ciência não deve se limitar a escrever para seus colegas.

“Se o seu público-alvo é apenas o seu subcampo científico, isso é ótimo, mas espero que a ciência não se limite a escrever para a sua bolha”, diz ele.

Jargão em alta

artigo eLife de 2017 também mostrou um rápido aumento no uso de linguagem complexa em artigos acadêmicos, o que sugere que os cientistas estão optando por termos de jargão onde palavras mais simples seriam suficientes.

“Embora a ciência seja complexa e alguns jargões sejam inevitáveis, isso não justifica a tendência contínua que mostramos”, escrevem Thompson e colegas .

“Também vale a pena considerar a importância da compreensibilidade dos textos científicos à luz da polêmica recente sobre a reprodutibilidade da ciência ”, acrescentam. “A reprodutibilidade requer que os resultados possam ser verificados de forma independente. Para conseguir isso, o relato de métodos e resultados deve ser suficientemente compreensível. ”

Um estudo pré-impresso publicado no início deste ano analisou a relação entre o uso de jargão e citações em 21.486 artigos. Os autores concluíram que o jargão do título e do resumo reduz significativamente o número de citações que um artigo recebe.

Kipling Williams, psicólogo da Purdue University em West Lafayette, Indiana, que escreveu sobre jargões e siglas que dificultam a comunicação científica , diz que o aumento da linguagem técnica apenas isola leitores não especializados.

Ele acrescenta que os artigos acadêmicos devem ser escritos de uma forma mais confortável para leitores informados que não são pesquisadores, como formuladores de políticas, jornalistas e pacientes.

“O público está pagando por muitas dessas pesquisas e, portanto, eles devem ser capazes de pelo menos ter um controle razoável sobre o que está sendo dito.”

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Nature [Aqui! ].

Descaso no Pantanal e Amazônia ameaça negócios do Brasil enquanto Governo se isenta de responsabilidade

Carta assinada por oito países alerta para dificuldade crescente em manter negócios com o país e empresas de agronegócios se unem a ONGs para cobrar ações contra desmatamento amazônico

onça águaUma onça ferida nos incêndios do Pantanal repousa na beira de um riacho no Parque Nacional Encontro das Águas, no Mato Grosso, que já teve mais de 60% de sua área destruída pelo fogo.MAURO PIMENTEL / AFP

Por Afonso Benites para o El País

Enquanto o Pantanal queima e a Amazônia registra índices de degradação cada vez maiores, o Brasil sofre a ameaça de ficar para escanteio na economia. Além dos alertas já emitidos por fundos de investimentos e bancos brasileiros e da ameaça de que o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul não se conclua, nesta terça (15) o vice-presidente Hamilton Mourão recebeu uma carta assinada pelos embaixadores de oito países europeus – Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Holanda, Noruega, Dinamarca e Bélgica. O recado da carta é claro: enquanto a questão do desmatamento e da preservação são foco dos governo e das empresas do continente, o “Brasil está tornando cada vez mais difícil para empresas e investidores atender a seus critérios ambientais, sociais e de governança”.

A pressão internacional se soma a uma inédita reação de mais de 200 organizações, entre ONGs, empresas de agronegócio e do setor financeiro, que enviaram um recado ao Governo nesta terça cobrando medidas para reduzir o desmatamento na Amazônia. “Não somente pelo avanço das perdas socioambientais envolvidas, mas também pela ameaça que a destruição florestal na região impõe às questões econômicas nacionais. Há uma clara e crescente preocupação de diversos setores da sociedade nacional e internacional com o avanço do desmatamento”, diz o texto, assinado pela chamada Coalizão Brasil Clima, Bosques e Agricultura. O grupo colocou lado a lado ONGs como a WWF, as indústrias JBS, Marfrig, além de Basf e Bayer. Entre as propostas do grupo, estão mais transparência nas ações e fiscalização nas florestas.

A pressão, porém, não tem mudado a resposta do Governo Bolsonaro apesar de fatos concretos mostrarem que a gestão está aquém da necessidade. “O comportamento que vemos na crise ambiental é um espelho da postura do governo na pandemia de COVID-19. Ele nega que seja um problema grande, nega a gravidade e alimenta a narrativa por meio de falas que não têm nenhuma substância científica”, diz Rômulo Batista, um dos porta-vozes do Greenpeace.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), responsável pelo Conselho da Amazônia, descarta que o Governo esteja errando, e fala em “seletividade na divulgação dos dados” no que diz respeito ao desmatamento. “Quando o dado é negativo o cara vai lá e divulga. Quando é positivo, não divulga, entendeu?”, acusou o vice em declaração à imprensa na tarde do dia 15. Indagado sobre quem seria essa pessoa, Mourão respondeu: “Não sei, não sou diretor do INPE”. O que o vice-presidente não diz é que os dados são públicos. Basta acessar o site do INPE para saber quase em tempo real quantos focos de calor ocorreram em cada bioma.

Mourão defende que uma das saídas para combater os incêndios é manter os militares em operação constante na floresta até 2022 e decretar uma moratória do fogo, que está em vigor desde julho, uma estratégia que já foi questionada no Supremo Tribunal Federal pelo Partido Verde.

Brigadista em Porto Jofre, no Pantanal mato-grosssense, em 14 de setembro.Brigadista em Porto Jofre, no Pantanal mato-grosssense, em 14 de setembro.MAURO PIMENTEL / AFP

O vice-presidente e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entraram em uma campanha para desacreditar os discursos de ambientalistas e seus apoiadores. Usando trechos de um vídeo do Greenpeace sem autorização, o vice-presidente diz no Twitter: “De que lado você está? De quem preserva de verdade ou de quem manipula seus sentimentos? O Brasil é o país que mais preserva suas florestas nativas no mundo. Essa é a verdade. Nós cuidamos”. O vídeo foi uma resposta a outra postagem da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Na peça, a organização diz que a “Amazônia é o coração do Brasil. Quem coloca fogo nela é inimigo do país”. Ainda pede que em defesa da Amazônia, o presidente brasileiro deveria deixar de ser financiado.

“Discutimos hoje temas que não deveríamos estar discutindo, que já tinham sido superados. Temos de provar que o fogo existe, que os dados são fatos, e não ideologia. Temos de lutar contra lendas de que o fogo é para subsistência e de que ele foi criminoso, não provocado por um raio”, diz a diretora-adjunta do ICV, Alice Thuault.

A realidade se impõe

Enquanto o governo briga com os fatos, a realidade segue se impondo no Pantanal. A Polícia Federal deflagrou no início desta semana a Operação Matáá, que cumpriu dez mandados de busca e apreensão Mato Grosso do Sul. De acordo com a instituição, investigações apontam que o fogo na região foi provocado deliberadamente para transformar a mata nativa em pastagem para o gado. Além disso, no período atual de seca na região ― que só se encerra em novembro ―, raramente caem raios na pastagem. Por isso, há a clara sinalização de que os incêndios foram causados por interferência humana.

A impunidade aliada à política de Bolsonaro de reduzir o número de infrações são outros fatores que interferem no aumento do fogo. Mesmo com o recorde de queimadas, neste ano houve uma queda de 48% nas infrações aplicadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, os dois estados pantaneiros. Dados publicados pela BBC, e confirmados pelo EL PAÍS, mostram que de janeiro a 14 de setembro o Ibama aplicou 223 infrações nos dois Estados neste ano, contra 425 no mesmo período de 2019.

Ao analisar imagens de satélites do INPE e da NASA, o ICV também constatou que até agosto apenas nove pontos eram os responsáveis por 67% dos focos de incêndio em todo o Pantanal mato-grossense. Em cinco deles, é possível apontar que a propriedade onde iniciou o fogo era privada e estava registrada no cadastro ambiental rural (CAR). Ou seja, pode-se saber quem deveria estar preservando essa área e, como não o fez, poderia ser responsabilizado criminalmente. Outros três pontos eram de áreas não cadastradas. E um, em uma terra indígena. “As multas estaduais pagas no Mato Grosso é de mais ou menos 2% da quantidade de multas aplicadas. O ciclo da responsabilização não fecha. É uma impunidade que garante a continuidade dos incêndios ano após ano”, diz Thuault, do ICV.

Devastação

Em 33 dias, os incêndios no Pantanal praticamente dizimaram o Parque Estadual Encontro das Águas, na divisa entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Imagens de satélite analisadas por técnicos da ONG Instituto Centro de Vida (ICV) mostram que, no dia 9 de agosto, alguns focos de incêndio provinham apenas da parte norte do parque, conhecido ponto de ecoturismo da região. Em 13 de setembro, no entanto, o fogo já vinha de todos os lados, atingindo 85% dos seus 108.000 hectares (veja vídeo abaixo).

As chamas se tornaram rotina diante de uma clara falta de planejamento dos órgãos ambientais, principalmente da esfera federal. A avaliação foi feita ao EL PAÍS por representantes de quatro organizações da sociedade civil que atuam principalmente na área ambiental: ICV, Greenpeace, WWF e Observatório do Clima. Desde o início do ano já se sabia que a região enfrentaria a sua maior seca em quase cinco décadas, que um dos principais rios da região, o Paraguai, teriam seu fluxo diminuído consideravelmente e que a falta de atuação no principal bioma vizinho, o cerrado, teria impacto direto no Pantanal.

Ainda assim, o governo demorou quase três meses para mobilizar os brigadistas e reduziu o orçamento para o combate ao incêndio em até 48%. “Essa situação no Pantanal está se repetindo. Também tivemos uma grande catástrofe. 2019 queimou mais que nos últimos dez anos. Já era um indicativo de que era necessário planejar. Mas nada foi feito”, disse Cássio Bernardino, analista em Conservação do WWF-Brasil.

Análise da ONG Instituto Centro de Vida com base em imagens de satélite apontam que até o dia 13 de setembro de 2020, mais de 92.000 hectares haviam sido atingidos pelo fogo no Parque Estadual Encontro das Águas. Isso representa 85% da área total do parque, que tem 108 mil hectares.ICV

Até o último dia 15, o Pantanal já tinha registrado 15.453 focos de calor, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). É o maior índice da série histórica, iniciada em 1998. Mais de 15% de todo o território pantaneiro foi destruído. Na Amazônia, os números também não são nada animadores. No mesmo período, o bioma amazônico superou o total de focos registrados em todo mês de setembro de 2019. Já foram registrados 20.486 focos de incêndio, um crescimento de 86% em relação ao mesmo período do ano passado.

Queda de recursos

Uma das críticas feitas à gestão Salles- Mourão-Bolsonaro é quanto a redução dos recursos de prevenção e de fiscalização ambiental. Os dois principais órgãos federais que atuam nesta área são o Ibama e o ICMBIO. Entre 2019 e 2020, a rubrica controle de fiscalização ambiental do Ibama perdeu quase 35% de seu orçamento (caiu de 102,8 milhões de reais anuais para 66,2 milhões de reais). Já a de prevenção e controle de incêndios florestais teve queda de 16% no mesmo período, caindo de 45,9 milhões de reais anuais para 38,6 milhões. No ICMBIO, a queda proporcional foi maior. A área de fiscalização ambiental e prevenção e combate a incêndios florestais perdeu 48,6% de seu orçamento. Eram 37,1 milhões de reais em 2019. Agora, são 19 milhões de reais.

No início de 2019, a mando do presidente Bolsonaro, o ministro Salles desconstituiu o conselho do Fundo Amazônia, que geria recursos internacionais usados na área ambiental de todo país. Seus principais doadores são os governos da Noruega e da Alemanha. Hoje, há 1,5 bilhão de reais congelados em uma conta que não podem ser usados por ninguém porque não há quem administre esses recursos. “Enquanto nos deparamos com cortes no orçamento, temos dinheiro internacional parado que poderia estar sendo usado na prevenção e no combate aos incêndios”, destaca a especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, Suely Araújo.

A resposta do Governo é investir na militarização do combate aos incêndios. A operação Verde Brasil 2, comandada por Mourão, é a principal delas. Por mês ela custa cerca de 60 milhões de reais e mobiliza cerca de 4.000 militares. “Com dois meses desta operação pagamos os salários de mil fiscais do Ibama por um ano”, diz Araújo. Para ela, o problema não é, necessariamente, a falta de recursos, mas a ausência de vontade política para aplicá-los.

Nesta semana, os Governos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul decretaram estado de calamidade e situação de emergência, respectivamente. Por meio desses decretos, é possível facilitar a burocracia para o uso de recursos no combate ao fogo. Para as próxima semanas, contudo, ainda nos depararemos com as chocantes imagens de animais mortos carbonizados.

jacaré mortoUm jacaré morto por causa de incêndio próximo à rodovia Transpantaneira.MAURO PIMENTEL / AFP

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo jornal El País [Aqui!].

Entrevista com Djalma Valois na “Rádio Olhos D´Água”

meio ambiente

No início deste mês fui convidado pelo jornalista Djalma Valois para participar de um interessante projeto de difusão de conhecimentos que ele vem impulsionando no interior de Goiás, a Rádio Olhos D´Água. Prontamente aceitou o convite, e o resultado da conversa que tive com ele resultado em vídeo postado no canal que Valois mantém no Youtube e que segue logo abaixo. 

A conversa de mais de uma hora girou obviamente em torno da situação política brasileira e de seus impactos sobre a economia e a degradação do meio ambiente.

Considero que em uma conjuntura histórica marcada pela competição entre diferentes versões da realidade, projetos como a Rádio Olhos D´Água são essenciais para haja a devida disputa pela hegemonia da produção das narrativas que têm impacto direto sobre o nosso cotidiano.