Desmatamento recorde na floresta amazônica mostra o tamanho do desafio de Lula

Satélites mostram destruição recorde para o mês de fevereiro, enquanto o novo governo tenta desfazer os danos causados ​​​​por Bolsonaro

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O desmatamento atingiu a maior alta em 15 anos durante a presidência de Jair Bolsonaro. Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters

Por Constança Malleret no Rio de Janeiro para o “The Guardian”

O desmatamento na floresta amazônica brasileira aumentou em fevereiro para o nível mais alto já registrado para o mês, destacando a escala do desafio enfrentado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva , que tenta desfazer a destruição ambiental causada pelo ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Satélites do governo mostram que um recorde de 322  km2 de floresta amazônica foi destruído em fevereiro, um aumento de 62% em relação ao ano passado e o maior número para o mês desde o início dos registros.

Lula, que assumiu o cargo em 1º de janeiro deste ano, prometeu acabar com a extração ilegal de madeira depois que o desmatamento atingiu uma alta de 15 anos durante os anos de Bolsonaro.

Com o Ministério do Meio Ambiente novamente comandado pela ambientalista Marina Silva , que liderou a forte queda do desmatamento na mesma função durante o primeiro mandato de Lula, o governo reativou o Fundo Amazônia, ferramenta fundamental para a preservação, e recriou uma sociedade civil conselho do meio ambiente – ambos abandonados no governo Bolsonaro.

Silva também ignorou e atualizou um plano de prevenção e controle do desmatamento que formava a espinha dorsal de suas políticas bem-sucedidas há quase duas décadas.

São passos importantes, mas “a inovação é necessária, pois a Amazônia hoje não é a mesma de 10, 20 anos atrás”, disse o porta-voz do Greenpeace Brasil , Rômulo Batista.

O crime e a violência explodiram no governo anterior, pois o desdém de Bolsonaro pela floresta tropical e pelas pessoas que a protegem encorajou criminosos de todos os tipos, incluindo os assassinos do especialista indígena Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips . Enfrentar a crise exigirá a reconstrução da mão de obra das agências ambientais que foram estripadas pelo populista de extrema direita, um processo que não pode acontecer da noite para o dia, disse Batista.

“O grileiro, o desmatador, o garimpeiro, estão aproveitando esse tempo para correr para derrubar a floresta”, disse Batista.

Após dados preliminares apontarem para o aumento da destruição em fevereiro, Silva disse a repórteres no mês passado que os madeireiros estavam trabalhando mesmo durante a estação chuvosa da Amazônia como uma “espécie de vingança” contra a repressão do atual governo.

Os números do desmatamento são tipicamente mais baixos no início do ano, já que a estação chuvosa na Amazônia dificulta o desmatamento e a cobertura de nuvens significa que os satélites têm menos probabilidade de detectá-lo. Por esse motivo, os analistas alertaram contra a comemoração de uma queda no desmatamento em janeiro.


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Este texto foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Em fevereiro, desmatamento chega a 322 Km2 na Amazônia e bate novo recorde; governo Lula precisa encontrar soluções

A volta do PPCDAm e do Fundo Amazônia pode auxiliar no combate ao desmatamento que registrou em fevereiro um aumento de 61,8% em relação ao mesmo mês no ano passado

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Monitoramento de Desmatamento e Queimadas na Amazônia em 2022 | Foto: Christian Braga / Greenpeace Brasil

São Paulo, 10 de março de 2023 – Fevereiro bateu o recorde de alertas de desmatamento da série histórica, chegando a 322 km², conforme os dados apresentados hoje (10) pelo sistema Deter-B, do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). Os dados representam um aumento de 61,8% em relação ao mesmo mês no ano de 2022, que chegou a 199 km² de área desmatada. Os estados que concentram as maiores áreas de alertas de desmatamento são o Mato Grosso com 162 km² (50,3% do total), seguido de Pará e Amazonas, ambos com 46 km² (14.2% do total).

Já no mês de janeiro, o acumulado de alertas de desmatamento foi de 167 km², registrando uma queda de 61% em relação ao mesmo período em 2022. Para Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, o aumento dos alertas de desmatamento em fevereiro, comparado ao ano anterior, pode ser interpretado por inúmeros fatores: “Primeiro, é necessário entender a metodologia do programa de monitoramento realizado pelo INPE, que é referência nacional e internacional. Os sistemas são baseados em satélites ópticos e eles não conseguem enxergar abaixo das nuvens. Isso pode ter sido responsável por essas diferenças tão grandes nos dois primeiros meses, tendo em vista que estamos no inverno amazônico que se caracteriza pelas chuvas e coberturas de nuvens muito intensas. Ou seja, parte do desmatamento que foi registrado agora em fevereiro poderia ser do mês de janeiro ou até mesmo de outros meses anteriores, e também não basta olharmos apenas a quantidade de nuvens que temos a cada mês, mas também entender onde elas estão, já que a região sul e sudeste da Amazônia são as fronteiras de desmatamento mais ativos e a cobertura de nuvens não são homogénea na Amazônia”.

A troca no comando do governo federal, considerando que o anterior era favorável ao desmatamento, também pode ser um dos fatores que corroboram esse aumento: “Acabamos de sair de um governo que apoiava o desmatamento. Enquanto a fiscalização e o controle não chegam em todo território, os desmatadores ilegais podem estar aproveitando para expandir esse desmatamento enquanto essas ações do Estado não incidem sobre o território”, salienta Rômulo.

Há uma movimentação por parte do atual governo para redução do desmatamento, como os retornos do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e do Fundo Amazônia, este que tem mais de R$ 3 bilhões para financiar ações de fiscalização, ambos foram essenciais para redução do desmatamento entre 2004 e 2012 mas ainda não é o bastante: “Foram iniciativas que já surtiram efeito no passado, no entanto o momento agora é outro. A Amazônia e o Brasil de hoje não é o mesmo de 10, 20 anos atrás. Vai ser necessário muito mais trabalho repondo os quadros de fiscais ambiental e também inovações tecnológicas, legais e infralegais, para combater as queimadas, o desmatamento, a violência contra os povos da florestas e o garimpo ilegal, que não só estiveram fora do controle, como foram apoiados pelo último governo”. Finaliza Rômulo.

Assessoria de imprensa Greenpeace Brasil

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O Greenpeace Brasil é uma organização ativista ambiental sem fins lucrativos, que atua desde 1992 na defesa do meio ambiente. Ao lado de todas as pessoas que buscam um mundo mais verde, justo e pacífico, a organização atua há 30 anos pela defesa do meio ambiente denunciando e confrontando governos, empresas e projetos que incentivam a destruição das florestas.

Cientistas mapeiam ponto em que ecossistemas serão afetados de forma irreversível por mudanças climáticas

geloFOTO: MELISSA BRADLEY / UNSPLASH

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Ecossistemas importantes à vida na Terra, como as camadas de gelo, recifes de corais ou a floresta amazônica podem atingir pontos de ruptura nas próximas décadas, com alterações irreversíveis e catastróficas caso as mudanças climáticas não sejam atenuadas nos próximos anos. É o que observam doze pesquisadores do Brasil, Canadá, China, Estados Unidos e Reino Unido que mapearam as evidências científicas atuais acerca de pontos de não retorno para dez elementos, descrevendo mecanismos, riscos humanos e ecossistêmicos. Ao atingir o ponto de ruptura, tais elementos passam por mudanças drásticas em relação ao seu estado original, que podem iniciar um efeito cascata sobre outros sistemas terrestres, como aponta o estudo publicado na revista internacional “Reviews of Geophysics”.

O artigo de revisão considerou dez elementos com risco de ruptura, incluindo mudanças em correntes oceânicas, liberação de metano do assoalho marinho, perda de grandes camadas de gelo, liberação de carbono de camadas congeladas do solo, mudanças na floresta boreal, alterações em ventos de monções, dispersão de nuvens estrato cumulus, perda do gelo do Ártico no verão, transformações na floresta amazônica e o branqueamento de corais de águas rasas. Tais aspectos permitem prever riscos atuais e futuros, direcionando as ações da sociedade para o combate às alterações climáticas.

“Sobre a perda do recife de coral das águas rasas tropicais, por exemplo, temos nível de entendimento científico muito alto, com uma condição muito boa de prevê-los. Este limiar mostra que se a temperatura aumentar mais que 1.5ºC, os impactos serão dramáticos e severos em uma escala de décadas”, exemplifica Liana Anderson, coautora e pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

A Amazônia também enfrentará mudanças severas em décadas caso não haja mitigação das mudanças climáticas. Ameaçada pelo estresse climático e pela ação humana, secas extremas, desmatamento, corte seletivo e queimadas levariam à falta da umidade necessária para sua manutenção, em um ciclo de menos chuvas e maior mortalidade de espécies. “A floresta teria esse ponto de não retorno, em que fica pequena o suficiente para não conseguir sustentar sua umidade e vai se transformando em outro tipo de floresta, tendo uma degradação climática, porque não consegue se manter, e não haveria uma forma de voltar ao estado original, ao menos na escala de séculos”, afirma Liana.

Por sua vez, a degradação da floresta amazônica influencia os padrões climáticos ao redor do mundo, mas Liana Anderson acrescenta que ainda há um baixo conhecimento científico sobre o efeito cascata provocado pelas conexões entre estes processos. Porém, sabe-se que seus impactos podem ser duradouros, perdurando por séculos ou milênios, e que ainda é possível minimizar o risco da ruptura, como através de atitudes e políticas públicas para reduzir tanto a pressão por degradação que impactam localmente e na escala regional a floresta quanto as emissões de combustíveis fósseis, que atuam em extremos climáticos e colocam ainda mais pressão nesse ecossistema.

“Essas mudanças podem passar de um determinado limiar em que não vão voltar, e isso vai impactar de modos sem precedentes talvez a nossa geração, mas seguramente  a de nossos filhos e netos. Então é uma responsabilidade muito grande que a gente precisa incorporar como sociedade e como prática diária, de repensar nossas ações, nossas decisões, e isso inclui em quem vamos votar, porque são os representantes políticos em última instância que realmente movimentam e direcionam em grande escala as decisões nacionais”, conclui a especialista.


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Este foi originalmente publicado pela Agência Bori  [Aqui!].

Presidente do IBAMA revoga instrução que previa destruição de equipamentos usados em práticas ilegais, mas “esquece” de apontar novas diretrizes

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O Diário Oficial da União traz hoje a curiosa (na ausência de melhor palavra) Instrução Normativa  Nº 6,  de 6 de março de 2023 que a Instrução Normativa nº 3, de 23 de janeiro de 2018, que estabelece os procedimentos para a aplicação da medida cautelar de destruição ou inutilização de produtos, subprodutos ou instrumentos utilizados na prática da infração ambiental, no âmbito das ações de fiscalização ambiental.

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O problema é que a nova instrução não traz nenhuma instrução sobre será feito com os equipamentos que vierem a ser encontrados dentro de unidades de conservação e terras indígenas sendo usados na prática de crimes. O ideal é que a anulação de uma instrução já trouxesse novas diretrizes na nova, mas não foi o que aconteceu.

Como existem muitas pressões sendo feitas sobre o governo Lula por parte de membros de sua própria base parlamentar para que não haja a devida repressão contra crimes ambientais, a situação criada pela remoção da Instrução Normativa nº 3, de 23 de janeiro de 2018 deverá ser acompanhada de perto. É que se não for colocado nada que explicitamente puna a presença desses equipamentos dentro de terras protegidas, o que teremos é a continuidade da boiada passando para alegria completa de Ricardo Salles e seus antigos colegas do governo Bolsonaro.

A refinaria e as jóias, tudo junto e misturado

Ainda que sirva muito bem para a campanha de limpeza ideológica para erradicar (ou menos tentar) Jair Bolsonaro do posto de “mito”, a história das jóias não declaradas também se presta para não discutir o essencial, que foi o crime de lesa-pátria cometido na privatização da Refinaria Landulfo Alves (Rlam) para o fundo soberano Mubadala por US$ 1,8 bilhão quando avaliadores tinham dito que a unidade valia entre US$ 3 e US$4 billhões.

Ao não determinar imediatamente que sejam tomadas as devidas providências para anular essa venda absurda, o que são os US$ 16 milhões que as jóias apreendidas pela Receita Federal no Aeroporto de Guarulhos equivale ao que os gringos chamam de “saco de amendoins”. 

Aliás, como voltamos a beirar os R$ 6,00 pelo litro de gasolina na cidade de Campos dos Goytacazes, há que se lembrar que uma das promessas de campanha do candidato Lula era rever uma outra situação de lesa-pátria que é o chamado Preço de Paridade Internacional (PPI) é uma política de preço criada em 2016, durante o governo do ex-presidente de facto Michel Temer. É que graças ao PPL que estamos pagando muito mais do que devíamos enquanto país produtor de petróleo, com os principais beneficiários sendo os acionistas minoritários da Petrobras.

Se não houver imediatamente a realização de esforços para anular tanto a privatização da Rlam como a vigência do PPL, o governo Lula estará cometendo um estelionato eleitoral grave, visto que mudanças efetivas na gestão da Petrobras e da política de combustíveis estavam sim entre as promessas de campanha.

Por último, é importante ver se alguma medida vai ser tomada para rever o lote de jóias que passou batido pela Receita Federal em Guarulhos e que hoje estão no acervo pessoal de Jair Bolsonaro. Aliás, pensando bem, o que será mais que passou pela alfândega nas muitas viagens realizadas pelo ex-presidente que hoje estão em seu “acervo pessoal” e não nos depósitos de bens públicos que são os lugares onde esses “regalos” deveriam estar?

O futuro que as rochas de plástico nos indicam

unnamed (16)Ilha de Trindade/Foto Marinha do Brasil

Por Ademilson Zamboni*

A notícia de rochas formadas por detritos plásticos na Ilha de Trindade (litoral do Espírito Santo) acende, na sociedade, o espanto sobre os impactos da poluição marinha sobre o meio ambiente. A descoberta foi feita por cientistas que, em artigo publicado no periódico Marine Pollution Bulletin, demonstraram como a poluição por plásticos nos mares está afetando padrões geológicos, modificando até formações rochosas.

A partir da coleta de rochas compostas por plásticos, numa reserva marinha a 1.140 quilômetros de Vitória (ES), foi possível observar os impactos da ação humana e, ao mesmo tempo, reconhecer um dos problemas ambientais mais graves e complexos do mundo contemporâneo: a produção excessiva de plásticos – sobretudo, os chamados descartáveis de uso único. O Brasil produz mais de 2,95 milhões de toneladas desse material por ano.

A Oceana e a comunidade científica internacional vêm demonstrando os riscos desses poluentes sobre o ecossistema marinho. No Brasil, estudos mostram que um em cada dez animais marinhos que ingerem plástico morrem, e que ele é responsável por 70% do lixo encontrado nas praias. São mais de 325 mil toneladas lançadas no mar anualmente.

A Ilha de Trindade é um local remoto, monumento natural que integra um território marítimo abundante de recursos naturais, berço de espécies singulares. Próximo ao local, onde a cientista Fernanda Avelar Santos identificou tais formações, há um berçário de tartarugas-verdes (Chelonia mydas). Trata-se, portanto, de um ecossistema vulnerável que se encontra impactado por esses poluentes levados pelas correntes marinhas.

Os impactos das rochas “não-naturais” da Ilha de Trindade que nasceram dessa imensa massa de plástico precisam ser melhor investigados. Mas já sabemos que esses derivados do petróleo afetam a biodiversidade marinha, que ingere os fragmentos, e pode trazer riscos também para a saúde por meio dos microplásticos já encontrados em fetos, placenta, no sangue e no pulmão humanos.

Essa formação rochosa híbrida está associada à queima de detritos plásticos em locais à beira-mar. Uma vez derretido, forma-se o chamado “cimento plástico”, que se mistura a sedimentos naturais, como cascalho, areia e rochas vulcânicas.

A Oceana trabalha pela diversidade e abundância da vida marinha e temos certeza que, para reverter o quadro de poluição que inunda os nossos oceanos, precisamos reduzir a produção e oferta de itens descartáveis, desnecessários e problemáticos.

Essa abordagem está alinhada com os princípios da Economia Circular e abre espaço para o desenvolvimento de negócios inovadores, novas tecnologias e mercados que favorecem a reutilização de embalagens e a posterior redução do descarte no meio ambiente, parte crucial da solução para a poluição plástica.

A base dessa mudança é uma demanda da sociedade brasileira e sustenta o Projeto de Lei (PL) 2524/2022, que aguarda por uma tramitação urgente no Senado Federal. Uma pesquisa nacional realizada pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) em 2021, a pedido da Oceana, revelou que 68% da população brasileira consideram que a poluição por plástico no meio ambiente diminuirá se o Congresso aprovar uma lei restringindo a produção de descartáveis, enquanto 92% dos respondentes entendem a poluição plástica como muito problemática para o meio ambiente.

As rochas de plástico da Ilha de Trindade possuem no mínimo vinte anos de existência e indicam um futuro diante dos nossos olhos no qual – em breve – seremos tragados por esse mar de detritos que, ironicamente, foram feitos para durar alguns minutos nas mãos ávidas dos tempos modernos, mas seguem, sem pressa, atravessando fronteiras e devastando a natureza.

Ademilson Zamboni é  Diretor-geral da Oceana, oceanólogo, Mestre e Doutor em Engenharia Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e diretor-geral da Oceana no Brasil.


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Este texto foi originalmente publicado pelo site Oeco [Aqui!].

“Quanto mais subimos na carreira científica menos mulheres cientistas encontramos” | Camila Silveira da Silva

Pesquisadora fala da violência e discriminação que as mulheres ainda enfrentam nos meios científicos e sobre as ações de projeto que busca dar maior visibilidade às mulheres cientistas e estimular meninas a seguir carreira acadêmica

Premio-Estrategia-ODS9O projeto Meninas e Mulheres nas Ciências foi finalista do prêmio Estratégia ODS que destaca projetos que contribuem para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Foto: Divulgação Estratégia ODS

Por Ciência UFPR

A Ciência UFPR conversou com a professora do Departamento de Química da UFPR, Camila Silveira da Silva. A pesquisadora falou sobre os obstáculos que as mulheres ainda encontram no ambiente da produção científica e sobre o trabalho do projeto Meninas e Mulheres nas Ciências (MMC), que coordena.

A professora, que é licenciada em Química pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) onde também cursou mestrado e doutorado em Educação para Ciência, vem estudando as trajetórias das mulheres cientistas, especialmente nas ciências exatas, buscando destacar suas contribuições e estudando as dificuldades que a discriminação de gênero impõe para mulheres nas carreiras científicas, tendo trabalhos também com a temática de museus de ciência e desenvolvimento de materiais didáticos.

Os materiais e atividades desenvolvidas no projeto de extensão já foram adotados em escolas por todo o Brasil. A iniciativa dá visibilidade às trajetórias de mulheres que marcaram a história da ciência, oferecendo formação para professores e atuando na criação de material didático com foco em pesquisadoras de destaque, além de atividades aplicadas diretamente a estudantes tanto de forma presencial quanto online.

A ideia é oferecer uma perspectiva que rompa com o viés masculino que normalmente é dado para o ambiente científico nesse tipo de material, oferecendo uma alternativa que estimule meninas a se interessar pelo campo científico, rompendo com o estereótipo machista prevalecente. A iniciativa também apoia a pesquisa em torno do tema orientando trabalhos de pesquisa na graduação e pós-graduação

Trechos

“O que mais me chamava a atenção, era o apagamento das mulheres nos materiais didáticos, a dificuldade de elaborar práticas educativas pela falta de referências pedagógicas nas Ciências Exatas, os obstáculos para localizar dados biográficos das cientistas”

“O que eu passei a notar foi a naturalização que elas tinham incorporado em suas práticas profissionais dos processos de exclusão de mulheres, da violência e discriminação de gênero ao partilharem suas trajetórias de vida e acadêmica”

“Os trabalhos liderados por mulheres, em diversas ocasiões, são menos valorizados que aqueles que contam com liderança masculina. São em menor número: as citações de mulheres em artigos, teses, dissertações; as aprovações de projetos com financiamento; as conferências principais nos congressos; a composição nas bancas de concursos; as bolsas de produtividade em pesquisa; a presidência de sociedades científicas; etc. Há, ainda, laboratórios, grupos de pesquisa, orientadoras(es) que não aceitam trabalhar com mulheres, ou se aceitam, as discriminam por seu gênero”

“Outra experiência que gosto de compartilhar é de várias alunas negras, de uma escola pública periférica do Distrito Federal, querendo tirar fotografias com os desenhos de cientistas negras que elas estavam colorindo e dizendo o quanto elas se pareciam com elas, com suas mães e irmãs”

“É fundamental que as meninas sejam motivadas com exemplos positivos de mulheres cientistas, encorajadas em seus sonhos pela escola e familiares, e tenham as condições para que possam seguir seus estudos”

“Como inspirar jovens para as Ciências se o campo científico continuar sendo sexista, racista, elitista, excludente? Como despertar o interesse de crianças e jovens se não temos boas condições de trabalho nas escolas? Essas reflexões precisam gerar ações e políticas públicas que tornem a carreira científica atrativa para as(os) jovens”

Veja a entrevista no site da revista Ciência UFPRhttps://ciencia.ufpr.br/portal/?p=23008

Madeireiras com selo de sustentabilidade tiveram mais de R$ 100 milhões em multas do Ibama

Investigação internacional mostra que empresas com certificado exigido para exportação cometeram crimes ambientais

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Por Allan de Abreu, Bernardo Esteves, Guilherme Waltenberg, Mario Cesar Carvalho, Rafael Oliveira, Luiz Fernando Toledo para a Agência Pública

O paranaense Idacir Peracchi chegou ao Sul do Pará em 1980 para trabalhar na extração de madeira. Investiu dinheiro na empreitada e não tardou a colher os frutos. Em poucos anos, se tornou o “rei do mogno” da cidade de Tucumã, comandando batalhões de mateiros e operadores de motosserra que ficavam no mato por até dois meses para extrair a madeira que, na época, era a mais valorizada da Amazônia. Junto com seu irmão, Idemar, fundou em 1983 a Exportadora Peracchi. A empresa cresceu rapidamente, às custas de crimes ambientais: ainda no final dos anos 1980, a Funai flagrou funcionários da madeireira extraindo mogno em áreas públicas griladas no meio da Terra Indígena Apyretewa, onde vivem indígenas da etnia Parakanã. Segundo o Ministério Público Federal, a Juruá devastou cerca de 5 mil hectares de floresta e construiu mais de 100 km de estradas para escoar a madeira ilegal até Tucumã.

Os irmãos Peracchi reconheceram a irregularidade e se comprometeram a recuperar a mata destruída na terra indígena — o que nunca aconteceu. Enquanto isso, fizeram uma repaginação nos negócios. No começo dos anos 1990, abriram uma nova empresa, dessa vez com roupagem ecológica: a Juruá Florestal. A madeireira virou referência no ramo. Em 2000, tornou-se uma das primeiras companhias desse tipo no Brasil a ser certificada pela FSC, a Forest Stewardship Council, ou Conselho de Manejo Florestal, ONG mundialmente conhecida que atesta a exploração responsável de produtos florestais. O certificado funciona como uma garantia de que a madeira da empresa não foi desmatada ilegalmente nem extraída por trabalhadores em condições degradantes. Ou assim deveria funcionar.

Ocorre que a nova empresa, mesmo certificada pela FSC, manteve o antigo padrão de infrações. Entre 2000 e 2017, a Juruá foi multada doze vezes pelo Ibama por destruir floresta sem autorização do poder público e transportar madeira sem documentação. Ao todo, as multas aplicadas nesse período somaram R$ 1,6 milhão em valores nominais.

O certificado da FSC acabou servindo como um salvo-conduto para as fraudes. Enquanto cometia infrações em série, a Juruá se valia da grife FSC para informar aos seus clientes dentro e fora do Brasil que explorava madeira de forma legal e sustentável. Em 2004, Idacir Peracchi chegou a aparecer em um anúncio do ABN, banco holandês que operou no Brasil no começo dos anos 2000. Na peça, ele foi apresentado como exemplo de um empresário comprometido com o meio ambiente. É um caso típico do que os ambientalistas chamam de greenwashing (lavagem verde): a prática de algumas empresas e governos de se mostrarem empenhados com a causa ambiental quando, na verdade, agem no sentido oposto.

Banner de divulgação da madeireira Juruá
Dono da Juruá, Idacir Peracchi já foi estrela de campanha publicitária exaltando o meio ambiente. Reprodução

O levantamento Agência Pública, da revista piauí e do Poder 360, em parceria com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) e com os projetos Data Fixers e Fiquem Sabendo, mostra que ao menos 60 empresas certificadas pelo FSC e com unidades industriais na Amazônia Legal já foram autuadas pelo Ibama. Juntas, somam mais de R$ 100 milhões em multas por todo tipo de infração: desmatamento ilegal, transporte de madeira sem documentação, fraudes em guias florestais, grilagem de terras, entre outros.

A reportagem, resultado de três meses de investigação, integra a série Deforestation Inc, do ICIJ, que reúne 39 veículos de mídia ao redor do mundo. A apuração global revelou que, desde 2004, mais de 300 empresas de produtos florestais certificadas foram acusadas de crimes ambientais e outras infrações. No caso do Brasil, os dados usados na análise consideram todas as multas registradas no sistema do Ibama até dezembro de 2022, independentemente do status atual de cobrança. O registro da multa não significa necessariamente que a empresa é culpada. Ela pode recorrer da decisão e, eventualmente, a multa pode ser anulada.

Multada pelo Ibama, madeireira usou selo da FSC como argumento em processo

Em casos como o da Juruá, no entanto, não se trata de uma multa eventual. Há um padrão de repetidas infrações ambientais. Além de ter sido autuada por explorar madeira ilegalmente, a empresa já foi multada por fraudar o sistema de créditos do Sisflora, que monitora a comercialização de madeira em cada estado do Brasil. O sistema funciona assim: quando uma empresa obtém autorização do governo estadual para extrair determinada quantidade de madeira, a Secretaria de Meio Ambiente daquele estado insere no Sisflora o nome das espécies e a quantidade de madeira que a empresa está autorizada a extrair. No momento em que a madeira é vendida, o comprador recebe uma confirmação do Sisflora atestando a legalidade do produto. No entanto, há casos em que, com a conivência do poder público, madeireiras aprovam planos de manejo fictícios ou com quantidades de madeira superfaturadas. Essa sobra no saldo do Sisflora permite às empresas “esquentar” madeira retirada de áreas proibidas, como unidades de conservação e terras indígenas. Segundo o Ibama, a Juruá recorreu a esse estratagema irregular ao menos duas vezes em 2016.

Em 2011, o Ministério Público Federal cobrou da Juruá uma indenização por ter extraído 737 metros cúbicos de madeira ilegalmente — o suficiente para encher quinze caminhões com capacidade para quinze toneladas cada um. A empresa foi condenada na Justiça a pagar R$ 307 mil pelo crime. Em outro imbróglio judicial, na hora de se defender, os advogados da madeireira se agarraram ao selo da FSC, “espécie de honraria e/ou certificado conferido às empresas, dando conta da seriedade de seu trabalho na esfera florestal”, escreveram.

A FSC afirma que, quando uma empresa certificada é acusada de irregularidades, o certificado de boas práticas ambientais é suspenso ou cancelado. Mas não foi o que aconteceu com a Juruá. Ao longo de dezessete anos, a empresa renovou periodicamente seu certificado, mesmo acumulando multas do Ibama e ao menos uma condenação por crime ambiental nesse período. A Juruá só perdeu o certificado em 2017, por motivos não informados nem pela empresa nem pela FSC. Em 2022, retomou o selo. Procurada pela reportagem, a Juruá afirmou, por meio de nota, que não recebeu multas ambientais desde a última certificação da FSC, ano passado. Ressaltou, além disso, que “nenhuma empresa deve sofrer discriminação por ter sido autuada por órgãos de fiscalização antes do término do processo recursal”.

Fiscais do Ibama durante ação de fiscalização contra madeireiras que exploram ilegalmente a Amazônia

Ibama durante ação de fiscalização da cadeia de custódia da madeira e desmatamento ilegal em 2018. Fernando Augusto/Ibama

A FSC é uma organização multinacional sem fins lucrativos fundada em 1993 e sediada em Bonn, na Alemanha. Os selos emitidos por ela atestam que a madeira e outros produtos florestais comercializados por uma determinada empresa têm origem sustentável e são produzidos de forma a minimizar impactos socioambientais. É um selo de bom comportamento ambiental, uma chancela ecológica. Essa certificação é muito visada por empresas em todo o mundo porque lhes permite cobrar mais por seus produtos e abre as portas para mercados exigentes – como os da Europa – que, cada vez mais, querem se ver livres de produtos associados ao desmatamento e outros crimes ambientais. Além disso, o selo facilita a captação de investimentos externos e melhora a imagem das companhias junto à opinião pública.

Existem seis tipos de certificado FSC, mas os mais relevantes são dois: o de manejo florestal, fornecido para determinada área explorada comercialmente por uma empresa, e o de cadeia de custódia, que analisa e valida todas as etapas da manufatura da madeira, do corte até a venda final, de uma determinada empresa. No Brasil, os selos FSC são emitidos por onze empresas certificadoras, a um custo que varia conforme o tamanho da indústria e das áreas exploradas.

A partir da última década, a FSC, formada por centenas de ONGs ambientais, madeireiras e sindicatos pelo mundo, passou a sofrer fortes críticas, sobretudo por parte de entidades ligadas à defesa do meio ambiente, que a acusam de leniência na concessão dos certificados a infratores ambientais contumazes. “Identificamos falta de consistência em vários certificados deles, inclusive no Brasil”, diz Daniel Brindis, porta-voz para o tema de florestas do Greenpeace. “Infelizmente a FSC faz vista grossa para muitas empresas, porque depende do setor privado e é muito pressionada pelas madeireiras.” Em 2018, o Greenpeace encerrou sua parceria de longa data com a FSC acusando a entidade de falta de transparência e rigor na certificação de empresas.

As informações sobre as empresas certificadas usadas nesta reportagem foram coletadas em uma plataforma online da FSC. O site, contudo, permite apenas a visualização dos dados, não a extração, o que, na prática, impede que seja analisado todo o universo de empresas certificadas (estima-se que, no mundo, sejam dezenas de milhares). A reportagem solicitou acesso aos dados repetidas vezes, mas a FSC se recusou a fornecê-los. Na última resposta, alegou que “leis de privacidade” dificultariam o compartilhamento das informações.

Prisão de sócios não foi suficiente para perda do certificado

Entre as madeireiras certificadas pela FSC que acumulam multas, a Alecrim Indústria de Madeiras é um caso peculiar: a empresa não apenas foi autuada dezenas de vezes, como seus donos, os gaúchos Aldir Schmitt e Milton Schnorr, cumpriram pena em regime semiaberto em Santarém (PA), condenados por crimes ambientais. Ser preso no Brasil por esse tipo de delito é extremamente raro, já que as penas costumam ser pequenas. Além disso, é necessário que o réu seja reincidente — caso de ambos — para que um juiz possa mandá-lo à prisão. Os dois sócios foram presos em 2019. Mas, mesmo assim, a empresa não perdeu o selo da FSC, emitido em 2015.

Fundada por Schnorr em 1994, a Alecrim foi autuada 31 vezes entre 1997 e 2021. As multas somam 3,1 milhões de reais em valores nominais. Ao menos seis delas foram emitidas depois de a empresa obter o selo FSC. As infrações são diversas: venda de madeira sem licença adequada, exploração de madeira em terra indígena sem autorização e armazenamento irregular de madeira. Quase todas foram registradas no Pará. Muitas já foram pagas, mas algumas ainda se encontram em processo de julgamento no Ibama. Há dezenas de registros de exportação de madeira feitos pela Alecrim desde 2020. A lista de compradores inclui países como Estados Unidos, Panamá, Colômbia, Espanha, França e Reino Unido.

Os donos da Alecrim aparecem no quadro societário de duas outras empresas do mesmo ramo. Uma delas — a Algimi Florestal — acumula oito multas e já foi condenada na Justiça por poluir um igarapé. A despeito das condenações, Aldir Schmitt constava, até abril de 2022, como vice-presidente da Associação das Indústrias Madeireiras de Santarém (Asimas). Recentemente, a Asimas anunciou uma parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) “em busca de estratégias sustentáveis para a colheita florestal”.

Procurada pela reportagem, a Alecrim enviou uma nota alegando que “os autos de infração [do Ibama] são controversos e passíveis de nulidades, emitidos, ao nosso ver, por equívoco ou interpretação equivocada do agente autuador”. Quanto à prisão dos dois sócios da empresa, a nota diz que “foi injusta e arbitrária, ainda assim já cumprida, não devendo os pretendidos autores nada à Justiça”.

Assim como a Juruá Florestal e a Alecrim, a Pampa se vende como uma empresa sustentável. Fundada em 1987 pelo empresário gaúcho Demorvan Tomedi, a madeireira é um caso de sucesso. Prosperou com a exportação de madeiras e acumula hoje um capital social de R$ 34 milhões, um parque industrial de 100 mil m2 e um porto privado no Pará. Mas, assim como as outras empresas, acumula infrações ambientais. Foi multada doze vezes pelo Ibama, sendo quatro delas depois de ter obtido seu certificado FSC, em 2012.

As multas recebidas pela Pampa somam R$ 5,1 milhões, em valores nominais. A maioria dos casos é por fraudes no Sisflora: segundo os agentes do Ibama, a empresa “esquentou” madeira retirada ilegalmente de áreas próximas à Rodovia Transamazônica.

Imagem aérea de campanha do Greenpeace contra madeireiras que exportam madeira ilegal da Amazônia para o mundo. Na imagem é possível ver um cartaz em amarelo do Greenpeace com os dizeres em preto "lavando madeira para fora" em meio à centenas de toras de madeiraGreenpeace. Madeireira Pampa, multada 12 vezes pelo Ibama, foi alvo de manifestação do Greenpeace em 2014

As reiteradas multas renderam à Pampa processos na Justiça Federal. Em uma delas, a empresa foi condenada em duas instâncias a pagar R$ 962 mil por danos morais e ambientais e recuperar 195 hectares de mata nativa. Em outra ação, Tomedi, dono da Pampa, foi condenado por falsidade ideológica por inserir créditos de madeira fictícios no Sisflora. Tempos depois, o empresário deixou o comando da empresa. As condenações ocorreram quando a madeireira já era certificada pela FSC. Por meio de nota, a Pampa afirmou que todas as autuações do Ibama, bem como as condenações judiciais, estão em fase de recurso, e que a empresa “foi certificada e se mantém certificada porque cumpre o padrão” da FSC.

Outro caso semelhante é o da Madeireira Rancho da Cabocla. Sediada em Santarém, a empresa acumula 49 multas do Ibama. Ao menos catorze delas foram registradas depois que a madeireira obteve o selo da FSC, em 2018. Um dos sócios da empresa, Moacir Ciesca, foi preso numa operação da Polícia Federal, em 2004, acusado de corromper funcionários do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para invadir terras públicas no sudoeste do Pará. Ciesca responde, ainda hoje, a um processo por contrabando de madeira.

Por meio de nota, a Rancho da Cabocla alegou que todas as multas que recebeu quando já tinha o certificado FSC tratam de questões puramente administrativas — ou seja, infrações menos graves, que não prejudicam o meio ambiente. É verdade: desde 2018, a empresa foi multada por transportar madeira de forma irregular e preencher informações falsas no Sisflora. Segundo o Ibama, porém, o transporte irregular de madeira e o uso de dados falsos frequentemente são adotados por madeireiras para disfarçar madeira de origem ilegal.

Na nota, a Rancho da Cabocla insinuou que está em curso uma tentativa de criminalização da atividade madeireira. Sem citar nomes, a empresa afirmou que “interesses internacionais não confessáveis e escusos tentam marginalizar a atividade madeireira no sentido de auferirem vantagens pessoais e de grupos que não vivem aqui, não temos outra explicação”.

Empresa autuada dezenas de vezes já foi defendida publicamente por certificadora

Uma das primeiras empresas brasileiras a conquistar a certificação FSC para o manejo florestal sustentável foi a Mil Madeiras Preciosas. Fundada em 1994 em Itacoatiara (AM), a empresa é uma filial da Precious Woods, multinacional do setor madeireiro com sede na Suíça, e está entre as maiores exportadoras de madeira do Brasil. A empresa obteve o certificado da FSC em 1997 e, desde então, renovou a credencial várias vezes, apesar das dezenas de multas ambientais que recebeu desde então. Juntas, as autuações passam dos R$ 7 milhões. A Mil Madeiras foi acusada pelo Ibama de destruir áreas de floresta sem autorização, apresentar informações enganosas referentes ao seu plano de manejo e abrir uma estrada no meio da floresta sem a anuência das autoridades.

Uma das multas mais onerosas foi aplicada em 2002, quando fiscais do Ibama flagraram o transporte irregular de 24 mil m3 de toras de abiurana, castanharana e outras espécies de árvores — uma quantidade enorme, capaz de encher 480 caminhões. A Mil Madeiras Preciosas recorreu da decisão, e o caso segue em aberto até hoje. Atualizado com juros e correção monetária, o valor da multa passava de R$ 26 milhões em setembro de 2021. (Na mesma ocasião, a empresa também foi multada por transportar uma leva de toras sem autorização – mas, nesse caso, a multa foi anistiada por decisão do Ministério do Meio Ambiente, em 2006.)

A Mil Madeiras Preciosas afirmou, por meio de nota, que nunca teve seu certificado FSC suspenso ou cancelado, medida prevista em casos de irregularidades. Para a empresa, não há contradição entre as multas e o certificado de boas práticas, uma vez que o auto de infração “não representa, por si só, a condenação”. Além disso, diz a nota, as multas são controversas, já que “muitos órgãos ambientais interpretam a legislação brasileira para aplicar penalidades para meras irregularidades administrativas, como, por exemplo, o equívoco no preenchimento da guia de transporte de produto florestal”.

Quando as multas foram aplicadas contra a Mil Madeiras Preciosas em 2002, o Imaflora — certificadora vinculada à FSC — saiu em defesa da madeireira. Divulgou uma nota afirmando que as autuações eram “questionáveis”, e que as infrações apontadas pelo Ibama “não colocaram em risco o manejo florestal e/ou o controle de origem da matéria prima”. As multas “não faziam o menor sentido”, disse o engenheiro florestal Tasso Azevedo, que é membro da câmara econômica do FSC e na época coordenava o núcleo amazônico do Imaflora. “Não é que a empresa explorou madeira onde não devia”, afirmou. “Não houve problema ambiental algum, é um problema de documentação.”

Para Azevedo, as autuações recebidas pela Mil Madeiras Preciosas e por outras empresas certificadas não põem em xeque a validade do selo FSC. Ele argumentou que, para manter a certificação, elas passam por monitoramentos anuais nos quais são obrigadas a informar as multas que receberam. “Toda vez que se faz uma auditoria, a empresa tem que declarar tudo o que tem de passivos e quais procedimentos está tomando para resolvê-los. Ela deve se justificar e informar o que vai fazer para que isso não se repita”, explica o engenheiro. Na avaliação de Azevedo, o fato de que eventuais infrações sejam tratadas nessas auditorias é um sinal de que o sistema funciona. “Qualquer empresa tem infrações, e tem que evitar que elas se repitam, mas a ideia de que isso seja um problema sistêmico das empresas certificadas é uma falácia”, disse Azevedo.

O engenheiro florestal lembrou que as regras para a obtenção do selo FSC são rígidas. “As empresas certificadas têm o acampamento certinho e funcionários registrados, com equipamentos de segurança, que vão a campo com o plano de manejo para extrair o mínimo de cada árvore — e cada uma delas tem uma etiqueta com o número rastreado. É outro universo.” Na avaliação de Azevedo, as maiores ameaças ao meio ambiente vêm das madeireiras que não oferecem qualquer garantia de boas práticas. “Não tem como comparar isso com as atividades baseadas na ilegalidade.”

De acordo com o gerente de certificação do Imaflora, Ricardo Cardoso, as certificadoras fazem monitoramentos anuais para verificar se as empresas continuam em conformidade com seus princípios. Casos de suspensão temporária acontecem com alguma frequência, mas a perda definitiva da certificação é rara, explicou.

O próprio Imaflora, no entanto, reconhece que o sistema de certificação não é perfeito. “Atores locais ou partes interessadas não devem ter a expectativa de que uma empresa certificada FSC não tem — ou nunca teve — problemas socioambientais”, afirmou a certificadora, por meio de nota. “A certificação FSC e as empresas florestais certificadas não substituem o papel de governos locais e estaduais na regulação das atividades privadas ou na promoção de desenvolvimento socioeconômico.”

Imagem de campanha do Greenpeace contra madeireiras que exportam madeira ilegal da Amazônia para o mundo. Na imagem é possível ver um cartaz em amarelo do Greenpeace com os dizeres em preto "Made in Brazil", seguida de "Origin: Unknown" em meio à centenas de toras de madeiraGreenpeace. Empresas certificadas receberam mais de R$ 100 milhões em multas no Brasil

Ao ICIJ, FSC disse desconhecer situação das empresas certificadas no Brasil

O ICIJ perguntou à FSC se o certificado de boas práticas ambientais ainda tem algum propósito, já que várias empresas cometeram infrações e não perderam o selo. Na resposta, a entidade alegou que, só nos últimos cinco anos, 88 empresas tiveram seus certificados suspensos devido a infrações ambientais. (A FSC não informa o total de empresas certificadas no mundo, mas é possível afirmar que são milhares: a ONG diz ter emitido 53 mil certificados de cadeia de custódia, que validam as etapas da manufatura da madeira.)

Os mecanismos de controle, segundo a entidade, vêm se tornando mais rígidos nos últimos anos. “A FSC está guiando novas tecnologias para a identificação de madeira, de forma que sua proveniência possa ser cientificamente atestada”, diz a nota. “A FSC também está desenvolvendo uma ferramenta baseada no blockchain para monitorar dados em tempo real sobre transações que acontecem entre diferentes detentoras de certificados.”

Questionada sobre o uso do certificado para a prática de greenwashing, a entidade afirmou apenas que o selo de boas práticas ajuda no combate ao desmatamento e à degradação ambiental. “Nossas exigências garantem que as empresas de manejo florestal certificadas mantenham ou aumentem a estrutura, função, biodiversidade e produtividade de suas florestas.” A FSC afirmou que suas políticas também garantem que os direitos de trabalhadores e comunidades indígenas sejam respeitados. Mas ressaltou: “A FSC não alega que pode resolver sozinha problemas de múltiplas camadas como o desmatamento e reconhece a necessidade de que muitos atores e stakeholders se envolvam com essa empreitada.”

No caso específico do Brasil, o ICIJ perguntou à FSC como é possível que empresas certificadas acumulem tantas multas, mas a entidade disse que não estava informada sobre o assunto: “Não estamos cientes dessas investigações pelo Ibama que podem ou não ser relevantes para as atividades cobertas por nossos padrões”, afirmou a entidade. A FSC alegou ainda que suas normas e procedimentos poderão ser atualizados para que se adequem melhor à realidade brasileira.

Esta reportagem faz parte do especial #DeforestationInc, que investiga as falhas da indústria de madeira certificada na Amazônia e no mundo. O #DeforestationInc é uma investigação transnacional coordenada pelo ICIJ (International Consortium of Investigative Journalists ou Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, em Português) e contou com 39 veículos parceiros aoredor do planeta. No Brasil, além da Agência Pública, a revista piauí e o Poder360 participaram da investigação.


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Este texto foi originalmente publica pela Agência Pública [Aqui!].

O combate ao feminicídio e às formas de dominação masculina

feminicidio

Por Luciane Soares da Silva

Para todas as mulheres, o Estado deve ser laico. E devemos refletir sobre esta frase a considerar o que esta sentença significa na conjuntura brasileira nestes últimos quatro anos. Principalmente para as mulheres que vivem sob regras religiosas restritivas. Não é mais possível negar os abusos que ocorreram (e ocorrem) em nome de Deus. Não só contra mulheres, mas contra crianças. Observando o sagrado de cada um, combater estes abusos deveria ser também um caminho concreto para avançarmos nas pautas feministas.

Frequentemente por uma distorção lamentável de fundamentalistas religiosos, cria-se um fosso entre religião e a luta pela vida das mulheres. E a partir desta distorção, inaugura-se o reino do obscurantismo quando falamos destes temas. Projetos como “Escola sem Partido” e o combate ao que chamam “ideologia de gênero” são apenas alguns exemplos de nossa regressão nos últimos quatro anos. A ausência de educação sexual integral nas escolas perpetua o desconhecimento de crianças e adolescentes sobre seu corpo e coopera para naturalização do abuso. Quando não há informação, como reconhecer quando um tio, padrasto, padre, pastor, irmão ou “amigo” da família, o praticou?

Mulheres vivem sob regimes de dominação. E esta sentença não pode ser relativizada. E por que? Pelos inúmeros casos de feminicídio, pela crueldade envolvendo estes crimes (filhos mortos como vingança após uma separação, mortes que desfiguram o corpo, processos judiciais que retiram os direitos das mulheres e comprometem um sustento digno de sua família ), pelo regime de trabalho no qual o assédio é uma constante, pelas diversas formas de violência cotidiana contra mulheres.

O aborto, cuja discussão ainda é um tabu em nossa sociedade, constitui uma destas violências. Não preciso repetir o trauma vivido por uma mulher que, por qualquer razão privada (se trata exatamente de seu corpo), precisa interromper uma gravidez. Mas seria preciso dizer que não são as mulheres que abortam seus filhos. Pois uma vida não é concebida apenas pela mulher. Qualquer pesquisadora sabe que ao entrar em áreas de periferia ou da classe trabalhadora irá encontrar famílias chefiadas por mulheres. Nossa luta é para alterar uma percepção estranhamente comum sobre aborto como uma “solução fácil”. Nada está mais longe da verdade a considerar a morte de mulheres ao realizarem um aborto inseguro. E neste caso, são as mulheres negras, pobres e com pouca escolaridade que padecem em um ambiente clandestino e insalubre.

A culpabilização de uma mulher que sofre violência doméstica (as vezes ainda é julgada depois de morta), constitui parte desta dominação masculina. Costumamos aplicar uma régua moral que justifica o comportamento masculino. Basta procurar os comentários à época do assassinato de Eliza Samúdio. Entre as conversas que ouvi no Rio de Janeiro, “não ser feito de otário” era parte das justificativas para o ato indefensável cometido pelo goleiro Bruno. Um dos milhares de crimes praticados contra o corpo de namoradas, esposas, ex companheiras.

Dúvidas são mais constantes que a proteção do Estado. A atualização da frase “com que roupa você estava” segue entre nós. Em fevereiro deste ano, lia sobre o desaparecimento de uma jovem em uma pacata cidade dos Estados Unidos. Um crime sem solução, ocorrido 20 anos atrás. Em uma terça feira, início do mês, enquanto eu postava uma frase sobre a banalização da morte de mulheres, recebi a notícia da morte de Yasminny Ribeiro, farmacêutica de 28 anos. Ela voltava para casa em Sumidouro, na região serrana do Rio de Janeiro, quando foi morta com quatro tiros no rosto. Em uma cidade com menos de 20 mil habitantes, uma notícia desta causa um trauma coletivo. O ex-namorado confessou o crime. Ele tem 32 anos. E segundo as investigações, premeditou o ato. E tentou fugir.

Este fato teve dois impactos imediatos sobre minha psique: estar escrevendo sobre casos de feminicídio, tentando mostrar esta teia que nos amarra sem que tenhamos exatidão sobre quantas de nós são mortas diariamente naquele instante, foi o primeiro. O segundo foi o abalo por conhecer e nutrir grande admiração pelo padrasto de Yasminny, valoroso lutador público da justiça do Rio de Janeiro com o qual convivo desde 2020. Foi como um soco intenso no estômago. Foram dias com o pensamento na família, lendo dez vezes a mesma matéria. O quão perto sempre estamos de um ato como aquele?

Quando saímos da letra fria da lei, da manchete de mais um caso de violência, quando saímos das estatísticas, tudo dói.  Dói saber que Yasminny estava vivendo a plenitude de sua vida, que ela tinha uma mãe, que sonhava ser mãe ou uma grande profissional de sua área. Que estudara, que enfrentara toda a violência dos olhares de cobiça sobre sua juventude para formar-se e ter sua própria farmácia. Víamos mais uma família destroçada. Por motivo fútil, infinitamente fútil. Um homem ferido em seu ego. Quando não é esse o caso?

Estas mulheres têm uma história, têm uma família, alguém que as ama e a quem amam. Então, longe de soar algo sentimental ou do terreno do privado, estou reivindicando duas percepções: o feminicídio tem características muito específicas. Não é fruto de maldade intrínseca ou doença mental. Em segundo lugar, e mais importante, uma das formas mais potentes de combater a morte de mulheres, é combater a desigualdade a que foram submetidas historicamente. E combater as formas de dominação familiar, jurídica, religiosa.

Não haverá mudança real se seguirmos evitando tocar em assuntos como aborto, namoros abusivos, divórcios violentos, mortes cruéis e outros temas no almoço de domingo. Este fantasma da paz familiar tem nos custado um preço mais alto do que podemos pagar.

Será preciso ouvir mais, acolher mais, politizar mais. E estruturar de forma eficiente as políticas de suporte às mulheres. Que, a considerar a cidade de Campos, estão aquém do aceitável.


Luciane Soares da Silva é Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Cidade Cultura e Conflito NUC UENF e também chefia o Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado  LESCE/UENF

Observatório dos Agrotóxicos: Capina química noturna pode estar expondo campistas a riscos graves

Capina-química

Imagem ilustrativa

Não sei quantos leitores deste blog já presenciaram, mas está em curso em Campos dos Goytacazes o uso da chamada “capina química” para impedir o crescimento de vegetação nas calçadas da cidade. Eu mesmo já presenciei várias vezes um profissional trajando o chamado Equipamento de Proteção Individual (EPI) aspergindo algum produto químico sobre as calçadas com o intuito de impedir o crescimento de vegetação. 

A primeira consequência “benigna” do uso dessa estratégia é ver vegetação ressecada pelas ruas e praças. Por outro lado, ainda que não se saiba qual substância está sendo usada nesta prática é que, dependendo do produto que está sendo utilizado, estamos sendo expostos a um risco químico sem que a maioria sequer saiba disso, já que o processo está ocorrendo de noite. Além disso, como muitos campistas saem com seus animais para passear, a possibilidade é que também os pets estejam correndo risco de intoxicação química.

Um dos produtos mais prováveis para uso na capina química é o herbicida RoundUp fabricado pela Bayer/Monsanto a qual está sendo atribuído a ocorrência do chamado Linfoma de Non-Hogdkin, uma espécie de câncer do sangue. Porém outros menos badalos, como é o caso do 2,4-D, o chamado Agente Laranja, também podem causar doenças graves quando somos expostos a eles.

Como o uso da capina química em vez do uso mais seguro de trabalhadores com instrumentos de limpeza só é explicado pelo esforço de diminuição o custo do trabalho, há que se pensar se essa opção é efetivamente necessária e ainda a mais desejável em termos de saúde pública.

Finalmente, há que se lembrar que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já proibiu o uso da capina química urbana no distante ano de 2010, justamente por causa que essa prática traz para a saúde humana e para o meio ambiente urbano. Há ainda que se lembrar que como os produtos estão sendo usados em áreas relativamente impermeáveis, os mesmos podem chegar facilmente à nossa principal fonte de abastecimento de água que é o Rio Paraíba do Sul.