O PT e sua singularidade

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 Não há Lula sem PT, mas haverá PT sem Lula?

Por Douglas Barreto da Mata

Não é desejável, mas é aceitável que nos tornemos mais ranzinzas com o avançar da idade.  Seja o desconforto com as inovações tecnológicas, que parecem alterar nossa percepção, nos dando a impressão de que falta ainda muito menos tempo que nos resta, seja com a descoberta de que tudo aquilo que acreditamos por décadas não era, exatamente, o que pensávamos (nunca é, ainda bem), ou enfim, porque tudo fica mais difícil mesmo.

Voltar ou começar a fazer exercícios físicos, abandonar velhos vícios (ou criar novos), cortar pêlos que insistem em nascer em locais horríveis, tudo é muito mais difícil pelo simples fato de que tudo acelera lá fora, enquanto ficamos mais e mais lentos.

No entanto, o tempo vivido (e vívido, parafraseando Back in Bahia de Gilberto Gil) traz uma vantagem (para alguns, não todos) de poder olhar esse período de uma perspectiva bem mais ampla, simplesmente porque você tem esse passado, que antes, era apenas uma expectativa (futuro). É o que ando fazendo com minhas crenças políticas.

Falo da militância orgânica por mais de 20 anos no Partido do s Trabalhadores, o PT, desde 1986 até meados de 2007/2008, quando passei a ser um simpatizante/militante, mais afastado, sem deixar de acreditar que aquela legenda seria a ferramenta de transformação social que o país precisava. Olhando hoje, após 38 anos, posso dizer que tenho tempo suficiente para acreditar que não é mais, e pior, pode nunca ter sido como eu acreditei.

Tenho escrito muita coisa ácida e deselegante sobre o PT nesses últimos tempos, e mais sobre Lula, cuja imagem abraçado comigo, capturada no jantar do Hotel Palace, na campanha presidencial de 1998, senão me engano, mantenho em minha sala de estar, em um porta retratos que minha filha mandou fazer para mim.

É um sentimento ambíguo, que mistura memórias afetivas com decepções, as quais me impedem de guardar o quadro, talvez para a sua exposição faça com que me recorde sempre que aquilo que eram esperanças nunca se concretizaram.

Vejam bem, decepção nem sempre é melancolia, e neste caso, é remédio amargo para os sentidos, que aguça a razão.  Em algum momento, o PT, eu corrijo, nós do PT deixamos de cuidar daquilo que deveria ser a coisa mais importante.

Explico.  O espectro político brasileiro, por suas injunções históricas, nunca contou com partidos políticos que materializassem a noção básica de um ajuntamento desta natureza.

Talvez o PTB de Getúlio Vargas, os partidos comunistas, os demais sempre foram agrupamentos de individualidades políticas, de personagens, onde a grande massa de filiados e militantes corressem atrás de lideranças carismáticas, com maior propensão à reunião em tempos eleitorais, e com pouca ou nenhuma densidade e penetração em movimentos sociais.

Para sermos justos, em todos os cantos do mundo, é mais ou menos assim, e o debate político mais robusto fica a cargo de poucos grupos e partidos.

O PT, nesse sentido, veio como uma novidade, apesar de contar com uma liderança de calibre, Lula.  Podemos dizer que durante anos, o PT reivindicava ser o único partido cuja sigla fazia sentido, que combinava com sua trajetória política, era um partido dos trabalhadores, isto é, para os trabalhadores e feito por trabalhadores.

Esse corte de classe parecia claro.  Ao contrário dos demais partidos, que levam sempre “democrático”, “social”, “progressista”, mas que nunca agiam como tais, o PT dizia guardar essa coerência como um diferencial.

Para nós, a compreensão da luta para a melhoria de vida dos trabalhadores percorria muitas vias, e também isso era a grandeza do partido, sua vida interna, pulsante, intensa, e às vezes, extremada, mas nunca omissa ou cúmplice do crime histórico praticado pelas elites, no processo que chamávamos de democracia interna.

Bem, era nisso que eu acreditava.  De certa forma, não quero crer que, em algum momento, que essa visão do PT ingênua não tenha correlação com alguma porção de verdade, mesmo pequena, que seja.

É essa a questão.  Era verdade, ou melhor, havia a  busca por essa verdade?

Dói dizer, de onde me encontro, que o PT, a meu ver, olhando para trás, nunca foi, ou em algum momento deixou de ser um instrumento de luta da classe trabalhadora contra as elites.

Observando mais de perto a sua principal liderança, Lula, podemos afirmar que, na verdade, Lula nunca pretendeu ser esse veículo da luta de classes.  Simplesmente porque Lula é, dito por ele mesmo, uma pessoa que acredita que há conciliação entre esses segmentos da sociedade, e que o Estado, através do governo representativo, pode dar conta de cimentar esse pacto através de ações políticas nessa direção, sempre equilibrando os lados em conflito. Ele, portanto, nunca negou essa condição de “amortecedor” destas disputas.

Talvez nossa ingenuidade, ou melhor dizendo, a minha, tenha sido acreditar que pudéssemos estar à sombra do líder popular, para em alguma forma de gradualismo reformista, fizéssemos a ruptura com o sistema que gera enormes desigualdades, o capitalismo.

Imaginamos (será?) que dava para “melhorar” as desumanas condições dos trabalhadores no capitalismo, enquanto lutamos para acabar com ele?  Ou sequer lutamos para isso?

Ou pior, quem sabe esperávamos que algum conforto econômico proporcionado por alguns anos de consumo (churrasco de picanha, e viagens de avião, como brada o presidente) fizessem os trabalhadores, por milagre, entenderem a sua posição na luta de classes, e tomando consciência dessa condição subordinada, dedicassem o apoio político irrestrito ao PT e seu governo, para atacar a causa de seus infortúnios, a desigualdade e o sistema que a gera?

Não.  O que aconteceu foi a simbiose de um partido com seu líder, que maior que a legenda, a engoliu, e sim, o matou.  Como um ser político antropófago, Lula deglutiu o partido e tomou para si a sua essência, como acreditavam os povos originários, que dedicados ao ritual, quando apenas comiam aqueles que admiravam e respeitavam.

Pode ter sido tudo isso.  Pode ter sido tudo isso, e algo mais. Aprendemos que é pouco provável que mudemos o passado, e o futuro que nos resta é tão escasso que nossa atenção acaba se diluindo em menos futuro, para termos mais presente.

Lula tem pouco tempo, e sabe disso também.  No fim, “olhando em perspectiva”, como disse lá em cima, não tinha como dar certo, porque já nasceu errado.  A sigla PT hoje não significa o que as letras dizem, e bem dizendo, não querem dizer mais nada. Lula não assusta mais ninguém, domesticado pelas elites nacionais, incensado como um bem arqueológico nas reuniões internacionais, como este porta-retratos que tenho na minha sala.

Uma lembrança incômoda de derrota. Sorte que ainda restou algum afeto.  Mas de que serve afeto a esta altura das coisas?

Esperando por Godot, o PT de Campos foi buscar lã e voltou tosquiado

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Por Douglas Barreto da Mata

O PT esperou Godot, e Godot não veio.

A tática do partido, em sua seção local de Campos dos Goytacazes, em emplacar a candidatura da Deputada Estadual Carla Machado, ex-prefeita de SJB, não deu certo. Deu a lógica, e o TSE confirmou o que todos sabiam, que um prefeito de município vizinho (limítrofe) não pode concorrer a um terceiro mandato na cidade ao lado, mesmo que tenha renunciado ao cargo no meio do segundo mandato.

Defendi essa tese no programa da Rádio Aurora, com meus amigos Léo Puglia e José Alves, e disse na ocasião que mesmo que houvesse uma mudança de entendimento da jurisprudência, ela não poderia valer neste pleito, dada sua natureza normativa e de amplo espectro, isto é, o novo entendimento alteraria, significativamente, a situação jurídica de vários interessados.

Ressalte-se que tais renovações têm se tornado tão comuns na Justiça brasileira, que já são chamadas de F5 (aquele comando do computador para atualização da página). É certo, como já apontou o juiz Nunes Marques, acompanhado de outro, que há chance de reexame do tema. Não é esse o assunto aqui, que merece até outro texto. Quero falar de outra questão.

O fato de que o PT se transformou em um partido-ônibus ou partido hospedeiro. Incapaz de elaborar uma estratégia política de médio e longo prazos, carente de quadros e de renovações destes quadros, a legenda repete os mesmos erro, enquanto espera resultados diferentes. Impossível.

O PT optou sempre por ser rabo de elefante, a ser cabeça de mosquito, e agora não faz diferente.  Em lugar de traçar um caminho próprio, ainda que modesto, o PT de Campos prefere embarcar nos projetos do anti-garotismo local, sem perceber que esse garotismo se alterou, com a atual administração do prefeito Wladimir Garotinho, mas mesmo assim, mantém sua indiscutível hegemonia.

Seria o momento de manter alguma interlocução com o atual prefeito?  Os petistas podem argumentar, com certa razão, que o atual prefeito simboliza hábitos políticos da direita, e ele mesmo admite isso, e que tal circunstância tornaria qualquer conversa um incômodo.

Há também cicatrizes históricas no embate do PT com a família Garotinho, certamente, com culpas para todos.  Porém, o fato é que parte dos antagonistas que o PT escolheu para se associar, como um partido auxiliar, agora retornam ao ninho garotista, como a família Vianna, dentre outros, todos recrutados pela extrema habilidade do atual prefeito Wladimir, que transita com facilidade nas esferas superiores de comando do próprio PT.

Para levar adiante esse plano equivocado, a nosso ver, o PT foi procurar aconchego nos rivais do atual prefeito, que nem de longe podem ser identificados como progressistas, os Bacellar, ele mesmo presidente estadual do União Brasil, aliado do governador bolsonarista, que administra o estado onde essa facção política joga quase todas as suas fichas, junto com SP.

Então, vamos combinar, a questão não é ideológica ou apego ao histórico de lutas do partido.  No campo do cálculo eleitoral, há ainda a constatação de que os aliados que o PT procurou, os Bacellar, apesar de terem uma dimensão estadual considerável e nada desprezível, na cidade de Campos dos Goytacazes carecem de maior densidade, o que pode ser comprovado na ausência de um nome de peso do grupo para concorrer com o prefeito que tenta reeleição.

Se fosse, com certeza, a candidata não seria Carla Machado, que entrou e saiu do partido como se ali houvesse uma “catraca livre”, servindo-se da legenda sem trazer nada em troca, ou quase nada. Na trajetória da deputada, nada que se identifique com o PT, ao contrário, ela foi a patrocinadora de primeira hora de um dos maiores escândalos financeiros e da política nacional, protagonizado por Eike Batista e sua “grilagem” do V Distrito de SJB, onde até hoje as populações locais sofrem os efeitos do desterro, da salinização da água e do solo, e das violências praticadas em nome da propriedade portuária instalada ali.

Como se não bastasse, mesmo SJB sendo uma das cidades com maior orçamento per capita do país, com quase 1 bi para 2025 e 36 mil habitantes, o que dá R$ 27.777,00 por habitante, a cidade ostenta o maior nível de pessoas abaixo da linha da pobreza do Estado, e claro, do país.

O PT desperdiçou, novamente, um belo quadro, Jefferson Azevedo, ex reitor do IFF, ou sequer fez um debate de alianças, partindo para um adesismo barato, uma espécie de prostituição chamada, eufemisticamente, de “pragmatismo”.  Não!  Pragmatismo é quando se cede para ganhar algo.  E o PT não ganhou nada com Carla Machado, nem com os Bacellar, ou se ganhou, ninguém quis contar, e não ousamos dizer a razão do segredo.

Agora, o partido espera eleger ao menos um vereador. Pouco provável. Sem uma cabeça de chapa digna desse nome, que pelo menos mantivesse a densidade nos estratos eleitorais que já votaram no PT, ou da esquerda, é muito difícil.

Ao mesmo tempo, o ressurgimento das lutas campesinas poderia oferecer ao PT uma base de apoio social, mas o partido parece anêmico.  Agarra-se no SindiPetro/NF, um sindicato que parece atônito com a gestão privatista que foi colocada pelo Governo Lula na Petrobrás, cujo plano de ação em nada parece resgatar o aspecto crucial da estatal, ao contrário, domesticado pelo mercado, Lula, o seu governo, o PT e a Petrobrás adernam para o naufrágio iminente.

Agora, Inês está morta.  O PT de Campos foi buscar lã e voltou tosquiado.

E Godot? Será que vem?

Microplásticos e nanoplásticos foram encontrados em todo o corpo humano – até que ponto deveríamos estar preocupados?

microplastico

Por Michael Richardson e Meiru Wang para o “The Conversation”

O mundo está ficando entupido de plástico. Partículas de plástico tão pequenas que não podem ser vistas a olho nu foram encontradas em quase todos os lugares, desde as profundezas dos oceanos até o topo das montanhas . Estão no solo, nas plantas, nos animais e estão dentro de nós. A questão é: que danos, se houver, eles estão causando?

Quando o lixo plástico é despejado em aterros sanitários ou no mar, ele se decompõe muito lentamente. A luz solar e as ondas fazem com que a superfície do plástico se torne quebradiça e as partículas sejam lançadas no meio ambiente. Conhecidas coletivamente como “pequenas partículas de plástico”, elas variam em tamanho de cinco milímetros ou menos (microplásticos) a menos de um milésimo de milímetro (nanoplásticos). Os menores só podem ser detectados com instrumentos científicos especiais.

Ainda não está claro como os microplásticos e nanoplásticos entram nos seres vivos, mas vários pontos de entrada foram sugeridos. Por exemplo, podem passar através do intestino através de alimentos ou bebidas contaminados com pequenas partículas de plástico. Ou podem ser inalados ou absorvidos pela pele.

Uma pesquisa que publicamos na revista científica Environmental International sugere que, pelo menos para alguns animais, os nanoplásticos são uma má notícia. Injetamos nanopartículas de plástico em embriões de galinha, os pesquisadores descobriram que as partículas viajavam rapidamente no sangue para todos os tecidos, especialmente coração, fígado e rins. Eles também foram excretados pelos rins embrionários. Nós também que as nanopartículas de plástico tendem a aderir a um certo tipo de célula-tronco no embrião. Estas células são essenciais para o desenvolvimento normal do sistema nervoso e de outras estruturas. Qualquer dano às células-tronco pode colocar em risco o desenvolvimento do embrião.

Suspeitamos que as células-tronco do embrião de galinha tenham substâncias em sua superfície, chamadas “moléculas de adesão celular”, que aderem às nanopartículas de poliestireno que usamos. Estamos a acompanhar esta descoberta, porque quando os nanoplásticos aderem às células e entram nelas, podem causar a morte celular e até defeitos congênitos graves em galinhas e ratos.

É claro que estudos semelhantes não podem ser realizados em seres humanos, pelo que ainda não é possível dizer quais são as implicações da nossa investigação animal para os seres humanos. O que sabemos é que os nanoplásticos são encontrados no sangue dos seres humanos, em outros fluidos corporais e em vários órgãos importantes e tecidos essenciais do corpo.

Nos últimos anos, microplásticos e nanoplásticos foram encontrados no cérebro , coração e pulmões de humanos. Eles foram descobertos nas artérias de pessoas com doenças arteriais, sugerindo que podem ser um fator de risco potencial para doenças cardiovasculares. E foram detectados no leite materno , na placenta e, mais recentemente, no pênis .

Mãe amamentando bebê
Nanoplásticos foram encontrados até no leite materno. Dzmitry Kliapitski / Alamy Banco de Imagem

Pesquisadores chineses relataram no início deste ano que encontraram microplásticos em testículos humanos e de cães . Mais recentemente, outra equipa chinesa encontrou microplásticos em todas as 40 amostras de sêmen humano testadas. Isto segue-se a um estudo italiano que encontrou microplásticos em seis em cada dez amostras de sémen humano.

O nosso receio é que os microplásticos e os nanoplásticos possam agir de forma semelhante às fibras mortais de amianto. Tal como o amianto, não são decompostos no corpo e podem ser absorvidos pelas células, matando-as e depois sendo libertados para danificar ainda mais células.

Tranquilizador, por enquanto

Mas há necessidade de cautela aqui. Não há evidências de que os nanoplásticos possam atravessar a placenta e entrar no embrião humano.

Além disso, mesmo que os nanoplásticos atravessem a placenta, e em número suficiente para danificar o embrião, esperaríamos ter visto um grande aumento nas gravidezes anormais nos últimos anos. Isso porque o problema dos resíduos plásticos no meio ambiente tem crescido enormemente ao longo dos anos. Mas não temos conhecimento de qualquer evidência de um grande aumento correspondente de defeitos congênitos ou abortos espontâneos.

Isso, por enquanto, é reconfortante.

Pode ser que os microplásticos e os nanoplásticos, se causarem danos aos nossos corpos, o façam de uma forma subtil que ainda não detectámos. Seja qual for o caso, os cientistas estão trabalhando arduamente para descobrir quais podem ser os riscos.

Uma via promissora de pesquisa envolveria o uso de tecido placentário humano cultivado em laboratório. Tecidos especiais de placenta artificial , chamados “organóides trofoblásticos”, foram desenvolvidos para estudar como as substâncias nocivas atravessam a placenta.

Os pesquisadores também estão investigando usos potencialmente benéficos para os nanoplásticos. Embora ainda não estejam licenciados para uso clínico, a ideia é que possam ser usados ​​para fornecer medicamentos a tecidos específicos do corpo que deles necessitam. As células cancerígenas poderiam, desta forma, ser alvo de destruição sem danificar outros tecidos saudáveis.

Qualquer que seja o resultado da investigação sobre nanoplásticos, nós e muitos outros cientistas continuaremos a tentar descobrir o que os nanoplásticos estão a fazer a nós próprios e ao ambiente.


Brasil: importação de agrotóxicos banidos na União Europeia segue em alta

Brasil aparece como o principal importador das substâncias proibidas, segundo dados mais recentes. Especialistas denunciam “colonialismo químico”. “A Europa segue enriquecendo às custas da saúde de países mais pobres”

agrotoxicos aspersaoAtualmente, a proibição das exportações já existe em alguns estados-membros da UE, mas o avanço nacional também é alvo de disputas, como no caso da Alemanha. Foto: Countrypixel/IMAGO

Por Matheus Gouvea de Andrade para a Deutsche Welle 

Mesmo após a Comissão Europeia ter prometido em 2020 banir os envios a outros países de agrotóxicos que são proibidos no bloco, as exportações seguem ocorrendo.

Ambientalistas europeus buscam proibir as exportações a outros países, mas o movimento esbarra em dificuldades diante do quadro político do bloco.

Em 2018, o Brasil apareceu como o principal receptor das substâncias banidas na União Europeia, seguido pela Ucrânia e Marrocos. Lançado em abril deste ano, o estudo Pesticidas da UE proibição de exportação: quais podem ser consequências?, apontou que  36% do volume total de agrotóxicos importados da UE pelo Brasil são consituídos por substâncias proibidas para uso no no bloco europeu, segundo os dados mais atualizados disponíveis. Em casos como Peru e México, o porcentual ultrapassou os 50%.

Por outro lado, para o ano de 2022, a pesquisa mostrou que 8,2% das exportações de agrotóxicos da Alemanha foram de substâncias banidas na União Europeia (UE).

O pesquisador da Corporate Europe João Camargo é um dos coautores do estudo, e afirma que a publicação ocorreu justamente no final do ciclo política em Bruxelas, já que o tema “ficou esquecido” ao final do mandato da última Comissão e do Parlamento Europeu. Em sua visão, “não faz sentido” permitir as exportações de produtos que foram proibidos no bloco justamente pelos perigos que representam à saúde. O grupo apela também pelo fim da produção destes materiais na UE.

Uma investigação conduzida pela ONG Public Eye mostra que um total de 81.615 toneladas de 41 pesticidas proibidos foi exportado pela UE para uso agrícola em 2018. A liderança neste quesito ficou com a Itália, com a Alemanha na segunda colocação. Em seguida, vieram Holanda, França, Espanha e Bélgica.

Márcia Montanari, pesquisadora do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (Neast/IST/UFMT), afirma que uma pesquisa recente com amostras de alimentos consumidos com frequência no Brasil mostrou a presença de 40 substancias perigosas, destas, 11 são proibidas na UE.

“A Europa segue produzindo estes agrotóxicos e enriquecendo às custas da saúde da população de países mais pobres”, afirma. Especialistas na área cunharam o termo “colonialismo químico” para descrever este cenário. Atualmente, cerca de 30% dos agrotóxicos usados no Brasil não são permitidos em outros países, aponta Montanari.

No bloco, há temores com o chamado “efeito bumerangue”, já que há consumo de produtos de importantes fontes de alimentos que podem contar com substâncias perigosas. No caso das amostras do Neast, agrotóxicos banidos na UE foram encontrados em commodities típicas do Brasil, como na soja.

Processo de contaminação múltipla

De acordo com Montanari, está em curso um processo de “contaminação múltipla”, no qual tanto a água quanto os alimentos estão fortemente afetados pelas substâncias perigosas. Além disso, outro efeito colateral está nos animais, com destaque para as abelhas, que tanto na Europa quanto no Brasil vem sofrendo processos de contaminações que levam à dizimação de comunidades, o que pode repercutir de diversas maneiras nos processos de polinização.

Entre as muitas substâncias em circulação, está a atrazina, que Montanari diz ser “sempre encontrada nas amostras”. O produto está ligado a disrupções endócrinas e neurológicas, além do adoecimento hepático. Somente em 2019, o Brasil importou 200 toneladas do produto da UE, onde ele é banido desde 2004, por sua “extensiva contaminação da água”.

Outra importação de destaque foi do paraquat, um herbicida que foi proibido no Brasil recentemente, mas que teve sua comercialização permitida até o final dos estoques no país. Em 2018, houve a chegada de 9.000 toneladas do produto – que é banido na UE desde 2007 – com origem do bloco. O paraquat está associado a doenças graves, incluindo Parkinson e fibrose pulmonar.

O Atlas de Agrotóxicos do Escritório Brasil da Fundação Heinrich Böll – instituição ligada ao Partido Verde alemão -, a partir de uma revisão sistemática de análises realizadas e publicadas no Brasil entre 2012 e 2019, mostrou que 77 poluentes diferentes foram encontrados nas amostras de água, incluindo agrotóxicos. Foram detectados 21, entre eles flutriafol, alfa e beta endosulfan, metolacloro e atrazina.

Segundo Montanari, o Brasil costuma ser prejudicado pelas diferentes legislações ainda de outra forma. De acordo com a pesquisadora, quando um produto do país chega à UE com substâncias perigosas medidas acima do permitido no bloco, a tendência é que não haja descarte, mas sim a de que a produção volte ao mercado nacional, onde os parâmetros são mais flexíveis.

Especialistas convergem na visão de que, nos últimos anos, especialmente durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, houve grande flexibilização sobre a permissão de substâncias potencialmente danosas à saúde. O Legislativo seguiu aprovando novas propostas, como o projeto de Lei que ficou conhecido como “PL do veneno”, sancionado em dezembro de 2023 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Montanari avalia que, nos anos de Bolsonaro, havia uma “mobilização maior, e uma pressão mais forte” contra os agrotóxicos, inclusive do exterior, e que, atualmente, há a impressão de que “tudo foi amenizado”, o que não corresponde às tramitações. “A pasta da Agricultura segue tomada pelas grandes indústrias do setor da mesma maneira”, avalia.

pesticidas
Uma investigação conduzida pela ONG Public Eye mostra que um total de 81.615 toneladas de 41 pesticidas proibidos foi exportado pela UE para uso agrícola em 2018Foto: Ohde/Bildagentur-online/picture alliance

Cenário europeu travado

Camargo espera que o tema da proibição em nível europeu das exportações volte à tona em Bruxelas, mas reconhece que o cenário é complicado. Levando em conta os resultados das eleições para o Parlamento Europeu, ele afirma que avançar uma legislação será difícil dentro da configuração dos próximos anos. “Dependerá das alianças que serão construídas. A extrema-direita vem tentando descrever as questões agrícolas como algo cultural”, afirma.

“Houve uma aliança entre a extrema-direita e os agricultores”, aponta Camargo. Segundo o pesquisador, ao final, o cenário atual é contraproducente até mesmo para os produtores europeus, já que cria uma concorrência desleal, uma vez que as contrapartes podem seguir utilizando os agrotóxicos proibidos na UE, que são mais baratos. Para Camargo, “houve muito oportunismo da indústria, que mudou a narrativa, e passou a atacar qualquer proposta de sustentabilidade”.

Atualmente, a proibição das exportações já existe em alguns estados-membros, mas o avanço nacional também é alvo de disputas, como no caso da Alemanha. Segundo Camargo, atuação dos Partido Verde na atual coalizão de governo alemã foi decepcionante, já que, segundo ele, o partido também acabou seguindo o interesse da indústria, o que travou os projetos para banimento dos envios. Em 2022, o país exportou 18.360 toneladas de agrotóxicos proibidos na UE.

Um dos grandes argumentos para não proibir as exportações é o de um eventual efeito nos postos de trabalho. Camargo aponta que o estudo, usando como comparação o banimento em estados membros, mostrou que os efeitos nos rendimentos e nos empregos seriam mínimos. No caso francês, a pesquisa mostra que, na verdade, uma grande parte dos empregadores foi simplesmente realocada para outras funções após o banimento das exportações.


Fonte : Deutsche Welle

‘Não há orgulho na ocupação’: palestinos queer sobre ‘lavagem rosa’ israelense sobre a guerra em Gaza

pinkwashing 1Uma das duas imagens do soldado israelense Yoav Atzmoni que foi postada no Instagram pelo governo israelense em novembro de 2023 com a legenda: “A primeira bandeira do orgulho hasteada em Gaza”. Fotografia: @stateofisrael/instagram 

Por Emma Graham-Harrison em Jerusalém para o “The Guardian”

Israel apresenta-se como um refúgio LGBT no Oriente Médio, mas para os palestinos não oferece refúgio nem solidariedade.

Quando Daoud, um ativista queer veterano, recentemente passou por bandeiras arco-íris penduradas para o mês do Orgulho LGBT na antiga cidade portuária de Jaffa, um centro histórico da cultura palestina, foi dominado por uma onda de repulsa.

O símbolo mais famoso da libertação LGBTQ+ foi tão cooptado pelo Estado israelita que, para um palestiniano homossexual como ele, serve agora apenas como um lembrete do horror que se desenrola a apenas 60 milhas a sul.

Em Novembro passado, o governo de Israel publicou duas imagens de Gaza na sua conta nas redes sociais. Uma delas mostra o soldado israelense Yoav Atzmoni, em uniforme de batalha, em frente a edifícios reduzidos a escombros pelos ataques aéreos israelenses. Ele segura uma bandeira de arco-íris com uma mensagem rabiscada à mão: “ Em nome do amor ”.

Na segunda, ele posa ao lado de um tanque, sorrindo enquanto exibe uma bandeira israelense com bordas de arco-íris. “A primeira bandeira do Orgulho hasteada em Gaza ”, diz a legenda de ambas as imagens.

Naquela altura, os ataques israelitas mataram mais de 10.000 palestinianos em Gaza , incluindo mais de 4.000 crianças, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza. O número de vítimas já aumentou para mais de 37 mil e mais de um milhão de pessoas estão à beira da fome.

“Vi o uso repugnante de bandeiras do Orgulho em Gaza”, disse Daoud, um cidadão palestino de Israel cujo nome foi mudado. Ele pediu anonimato porque os palestinos enfrentaram prisão e perseguição por expressarem solidariedade aos civis em Gaza e por criticarem a guerra.

“Agora, neste período em que uma morte terrível paira sobre todos nós, não consigo ver a bandeira do Orgulho de outra forma. Realmente me revirou o estômago vê-los; foi revoltante”, acrescentou.

Na Parada do Orgulho LGBT em Jerusalém, em maio, as pessoas estão deitadas na rua, a maioria de jeans e shorts, segurando fotos de palestinos mortos, com outras pessoas ao seu redor, algumas segurando uma faixa com palavras em hebraico
Ativistas seguram fotos de palestinos mortos na Parada do Orgulho LGBT de 30 de maio, que viu milhares de pessoas LGBTQ+ e apoiadores marcharem por Jerusalém. Fotografia: Abir Sultan/EPA

A reação de Daoud é partilhada por muitas pessoas queer em todo o mundo, disse Phillip Ayoub, professor de relações internacionais na University College London, que investiga a intersecção da política e dos direitos LGBTQ+ .

“Aquela desconexão cognitiva de ver o que mais está na imagem – escombros que eram as casas das pessoas – e depois ver a bandeira sendo hasteada de forma comemorativa. É uma violação massiva para as pessoas que lutaram pelos seus direitos sob esta bandeira.”

Essas imagens de Gaza fazem parte de uma longa campanha internacional que os críticos chamam de “ pinkwashing porque dizem que visa reforçar o Estado israelita, ligando-o à homossexualidade, apresentando-o como uma contrapartida explícita a uma identidade palestina retratada como exclusiva e violentamente homofóbico.

Explora o apoio global aos direitos LGBTQ+ para promover uma agenda política ultranacionalista israelita e legitimar a opressão dos palestinianos, disse Sa’ed Atshan, presidente do departamento de estudos de paz e conflitos do Swarthmore College e autor de Queer Palestine and the Empire of Critique .

Esta mensagem não foi motivada por um entusiasmo genuíno pelos direitos LGBTQ+ por parte de um governo que inclui um autoproclamado “ homófobo fascista ” como ministro das Finanças, disse ele, mas foi implementada estrategicamente para fins políticos.

“O Estado israelense tem públicos diferentes”, disse Atshan. “Se se dirige a um público doméstico favorável aos LGBTQ em Israel ou no mundo, então lança este discurso cor-de-rosa tentando retratar Israel como um paraíso gay.”

Para o público homofóbico, inclusive no país e para os sionistas cristãos no exterior, “apresenta um discurso homofóbico sobre o conservadorismo religioso e a adesão aos ‘valores familiares’ e a repulsa pela homossexualidade”.

Quando Rauda Morcos , uma cidadã palestiniana de Israel, advogada de direitos humanos e ativista premiada, ouviu que Tel Aviv planejava celebrar o Orgulho este ano, ficou chocada. “Não há sentido de humanidade em perceber que há pessoas sendo bombardeadas todos os dias em Gaza pelo seu próprio país [Israel]? E você está pedindo orgulho e direitos iguais para pessoas queer? Quem se importa neste momento se vocês têm direitos iguais [como queers]? Sinceramente, não me importo, porque se não tivermos direitos iguais aos humanos, isso não importa.”

A advogada e ativista de direitos humanos Rauda Morcos.
A advogada e ativista de direitos humanos Rauda Morcos. Fotografia: Rauda Morcos

Morcos diz que ela foi levada de volta quase duas décadas até 2006. Naquele ano houve um ataque israelense a Gaza e, como chefe de um grupo ativista palestino queer, ela fez campanha por um boicote à parada WorldPride organizada pelo Jerusalem Open House.

“Que momento errado, que momento ruim. Não só naquela época, mas agora”, disse ela. “Na verdade, é sempre a hora errada e é sempre o tema errado, porque ‘não há orgulho na ocupação ’, seja em 2006 ou agora.”

A escala de mortes e destruição em Gaza tornou a luta pelos direitos queer menos urgente para muitos palestinos LGBTQ+. “Para mim agora, a bandeira palestina deveria ser hasteada, não a bandeira do Orgulho”, disse Daoud.

O histórico de Israel em matéria de direitos LGBTQ+ inclui a proibição da discriminação com base na orientação sexual, o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo no estrangeiro (embora não tenha sido legalizado no país) e a permissão da adoção por casais do mesmo sexo.

Israel tem uma classificação melhor do que a maioria dos vizinhos no índice de igualdade LGBT Equaldex , em 50º lugar globalmente. A Palestina está classificada em 146º lugar, com atos sexuais consensuais entre pessoas do mesmo sexo legais na Cisjordânia, mas não em Gaza.

Mas a ideia de que Israel serve como um refúgio regional para a comunidade queer parece particularmente cruel e hipócrita, disseram ativistas e acadêmicos,  em um momento em que a população LGBTQ+ de Gaza não tem mais refúgio das bombas israelitas do que qualquer outro palestiniano.

“Não há nenhuma ‘porta rosa’ no muro para os palestinos queer deixarem Gaza e construírem uma vida em Israel”, disse Ayoub da UCL.

“A retórica israelense apenas torna as coisas ainda mais difíceis para os palestinos LGBTQ, porque reforça a ideia de que a condição de queer não existe em nenhum outro lugar… Ela apaga o fato de que existem ativistas palestinos, palestinos queer.”

paradaApesar da Covid, milhares de pessoas marcharam durante a Parada do Orgulho LGBT de 2020 em Tel Aviv, sede da maior parada do Orgulho LGBT do Oriente Médio. Fotografia: Jack Guez/AFP/Getty Images

Há um registro longo e bem documentado de exploração da sexualidade dos palestinianos LGBTQ+ pelos serviços de segurança israelitas na Cisjordânia ocupada e em Gaza, com resultados devastadores e por vezes fatais.

“Durante o meu curso de formação em preparação para o meu serviço nesta função designada, aprendemos a memorizar e filtrar palavras diferentes para ‘gay’ em árabe”, testemunhou um membro do corpo de inteligência de Israel há uma década .

“Se você é homossexual e conhece alguém que conhece uma pessoa procurada, e precisamos saber disso, Israel tornará sua vida miserável.”

No ano passado, um palestino de Nablus foi executado publicamente. Ele confessou colaboração com a agência de inteligência doméstica de Israel, Shin Bet, dizendo que eles usaram um vídeo dele fazendo sexo com outro homem para chantageá-lo para que se tornasse informante .

Os palestinos LGBTQ+ sofrem discriminação e abusos generalizados, tanto em público como em ambientes familiares nos territórios ocupados, afirmam grupos de direitos humanos .

Mas aqueles que atravessam clandestinamente o muro de separação dos territórios ocupados para Israel, em busca de um ambiente mais favorável aos queer, muitas vezes encontram, em vez disso, hostilidade racista, burocracia burocrática e um estado de vulnerabilidade a longo prazo.

Os palestinos queer que procuram asilo em Israel são regularmente impedidos de receber cuidados de saúde e lhes são negadas autorizações de residência. Eles lutam para ter acesso a abrigo e, portanto, enfrentam abuso e exploração , uma “vida infernal” documentada num relatório da revista +972.

tanqueA segunda imagem de Yoav Atzmoni da postagem do governo israelense no Instagram de novembro de 2023. Fotografia: @stateofisrael/instagram

Muito antes da guerra actual, Daoud percebeu que tinha pouco em comum com a maioria dos judeus israelitas queer. Ele se lembra de trazer palestinos transexuais da Cisjordânia ocupada para a praia.

A maioria passou a vida a apenas uma hora de carro do Mediterrâneo, mas foi impedida de viajar para a sua costa devido às restrições israelitas. Alguns, ao verem o mar pela primeira vez, choraram.

“Pensei: ‘O que é que tenho em comum com os homossexuais, cuja luta é conseguir que os seus parceiros da Alemanha ou de Espanha venham viver com eles aqui, quando nem sequer tenho permissão para trazer o meu familiar para uma visita [do país]. territórios ocupados]?’”, disse ele. “Não é nem o mesmo universo.”

A guerra em Gaza apenas aguçou para ele a compreensão de que, mesmo que os palestinianos queer não enfrentassem problemas tão radicalmente diferentes, há pouco espaço para uma luta conjunta com os judeus israelitas porque a maioria valoriza o seu privilégio num Estado judeu em detrimento da sua condição de queer “partilhada”. .

Muitos homólogos judeus em Israel ancoraram a sua reivindicação de igualdade na sua vontade de servir o Estado e morrer nas suas campanhas militares, em grande parte dirigidas contra os palestinianos, acrescentou.

Na verdade, eles dizem: “Estamos dispostos a participar na opressão dos palestinianos para que [o Estado] não nos oprima”, disse ele. “Eles obtiveram os seus direitos nas costas dos palestinos.”

Yahli, uma mulher judia transgênero que, no dia do Orgulho de Tel Aviv, se juntou a uma manifestação anti-guerra sob o grito de guerra “Não há lavagem de sangue em nosso nome”, partilha esta crítica à comunidade LGBTQ+ dominante em Israel.

“Muitas pessoas na comunidade queer são atraídas pela ideia de obter aceitação sendo úteis nacionalmente e submissas ao Estado”, disse Yahli. “Não porque somos seres humanos, mas porque prestamos serviço.”

Essa visão da identidade nacional queer foi proeminente no Orgulho LGBT de Tel Aviv este mês. O desfile habitual foi cancelado devido a um concerto silencioso à beira-mar que incluía apelos à libertação de reféns e celebração dos israelitas queer servindo nas forças armadas, mas não houve menção aos civis palestinianos mortos em Gaza.

As histórias partilhadas no evento incluíram a decisão de uma mulher transexual de não mudar a sua identidade de género oficial para que ainda pudesse servir nas reservas e lutar em Gaza.

Morcos fica perplexo com os israelenses que descrevem seu país como um refúgio democrático para a comunidade LGBTQ+ em uma região hostil, especialmente quando a tolerância real raramente se estende além dos limites de Tel Aviv, dizendo: “Como você pode se orgulhar de sua democracia para queers que então oprime? milhões de palestinos?”


 

Sustentabilidade de biocombustíveis é mito: estudo mostra que produção de biocombustíveis é fonte de poluentes atmosféricos perigosos

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Por Dana Drugmand para o “The New Lede”

Os poluentes atmosféricos perigosos emitidos na produção de biocombustíveis são quase tão graves como a poluição atmosférica proveniente das refinarias de petróleo e, para vários tipos de poluentes perigosos, tal como o formaldeído, as emissões provenientes da produção de biocombustíveis são muito maiores, conclui um novo relatório .

A avaliação, que foi conduzida por pesquisadores do grupo de vigilância ambiental Environmental Integrity Project (EIP), analisou as emissões geradas por 275 instalações de etanol, biodiesel e diesel renovável nos Estados Unidos. Os investigadores descobriram que as instalações violavam frequentemente as licenças de poluição do ar, ao mesmo tempo que beneficiavam de isenções legais e apoios políticos federais, tais como mandatos de mistura de combustível.

À medida que a indústria dos biocombustíveis continua a expandir-se com mais de 30 novas instalações em construção ou propostas, a indústria deve ser vista como uma ameaça à saúde pública, alerta o relatório. É necessária uma supervisão regulatória mais forte por parte da Agência de Proteção Ambiental (EPA), de acordo com a EIP.

“Apesar da sua imagem verde, a indústria dos biocombustíveis liberta uma quantidade surpreendente de poluição atmosférica perigosa que coloca as comunidades locais em risco – e este problema é agravado pela regulamentação frouxa da EPA”, disse Courtney Bernhardt, diretora de investigação da EIP, num comunicado. 

Fonte: Relatório do Projeto de Integridade Ambiental

De acordo com o relatório EIP divulgado na quarta-feira, a fabricação de biocombustíveis gerou 12,9 milhões de libras de poluentes atmosféricos perigosos em 2022. Isso se compara a 14,5 milhões de libras de poluentes atmosféricos perigosos emitidos pelas refinarias de petróleo naquele ano, de acordo com dados do Inventário de Liberação de Tóxicos da EPA.

As emissões das fábricas de biocombustíveis foram significativamente superiores às das refinarias de petróleo para quatro tipos de poluentes perigosos – formaldeído, acetaldeído, acroleína e hexano, de acordo com o relatório EIP. Em 2022, as instalações de biocombustíveis relataram liberações de quase 7,7 milhões de libras de hexano, mais de 2,1 milhões de libras de acetaldeído, 235.125 libras de formaldeído e 357.564 libras de acroleína. Em comparação, as refinarias de petróleo emitiram naquele ano 2,6 milhões de libras de hexano, 10.420 libras de acetaldeído, 67.774 libras de formaldeído e zero libra de acroleína.

O formaldeído é cancerígeno para humanos (de acordo com a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer ) e o acetaldeído é um provável carcinogênico humano, de acordo com a EPA. A acroleína é “tóxica para humanos após exposição por inalação, oral ou dérmica” e pode causar irritação do trato respiratório superior, náuseas, vômitos e falta de ar, enquanto a exposição ao hexano pode afetar o sistema nervoso central e causar irritação nos olhos e na garganta.

Tal como explica o novo relatório, estes “mesmos quatro poluentes também contribuem para a formação de ozono troposférico, ou smog, que está ligado a uma grande variedade de doenças respiratórias; bem como partículas microscópicas semelhantes a fuligem que podem desencadear ataques cardíacos e de asma.”

A indústria de biocombustíveis é a maior fonte de emissões de acroleína nos EUA, e a fábrica de etanol da Cargill localizada em Blair, Nebraska, é o maior emissor de acroleína do país. Em 2022, esta instalação relatou liberações de 34.489 libras do poluente tóxico, de acordo com o EIP. Os pesquisadores também descobriram que o maior emissor industrial de hexano no país é a instalação de processamento de etanol e grãos da Archer-Daniels Midland (ADM), localizada em Decatur, Illinois. A usina liberou 2,2 milhões de libras do poluente em 2022.

Nem a ADM nem a Cargill responderam a um pedido de comentário.

Geoff Cooper, CEO da Renewable Fuels Association, discordou do relatório da EIP, dizendo que este era “fundamentalmente falho” na sua compreensão da indústria de combustíveis renováveis ​​dos EUA e que estava a confundir a produção de etanol, biodiesel e diesel renovável. Ele disse, por exemplo, que o hexano não é usado no processo de produção de etanol em nenhum lugar dos EUA, mas “atribui falsamente as emissões de hexano ao etanol combustível”. Além disso, disse ele, as empresas listadas com as maiores emissões não são fábricas de etanol em si, mas sim fábricas húmidas onde o etanol é apenas um dos vários produtos. Mais de 90% do etanol combustível é produzido em usinas secas, de acordo com Cooper.

“Além disso, as instalações de etanol dos EUA são rigorosamente regulamentadas quanto às suas emissões e os produtores cumprem todos os limites de emissões federais e estaduais. Quando foram detectadas violações, o que é muito raro, os produtores tomaram imediatamente medidas corretivas e rapidamente agiram em conformidade”, disse ele.

Além dos poluentes atmosféricos perigosos, a produção de biocombustíveis gera emissões de gases com efeito de estufa que estão a provocar alterações climáticas perigosas. As fábricas de biocombustíveis dos EUA emitiram mais de 33 milhões de toneladas métricas desta poluição climática em 2022, concluiu o relatório, o que é comparável a mais de oito centrais eléctricas a carvão a funcionar 24 horas por dia. “Essa é uma quantia notável para uma indústria que se apresenta como amiga do clima e ambientalmente sustentável”, disse Bernhardt durante uma coletiva de imprensa na quarta-feira.

Fonte: Relatório do Projeto de Integridade Ambiental

Pesquisas anteriores também lançaram dúvidas sobre a percepção destes combustíveis vegetais como uma alternativa mais verde ao petróleo. Um estudo de 2022, por exemplo, sugeriu que a produção de etanol à base de milho não é menos intensiva em carbono, e pode ser ainda mais, do que a gasolina , especialmente quando se consideram os impactos do ciclo de vida completo, incluindo o consumo de fertilizantes e a conversão do uso da terra.

Os EUA são o maior produtor mundial de biocombustíveis, com 18,5 mil milhões de galões produzidos só em 2022 (cerca de 40% do total global). A grande maioria dessa produção, cerca de 15 bilhões de galões, foi de etanol, que é feito principalmente de milho e também de soja. Como observa o relatório, quase metade de toda a soja e mais de um terço de todo o milho cultivado não se destina à alimentação, mas sim à produção de combustível.

Apoiada por milhares de milhões de dólares em subsídios governamentais e dezenas de políticas e incentivos federais, a indústria de biocombustíveis dos EUA cresceu rapidamente nas últimas décadas. E a indústria continua a expandir-se, com pelo menos 32 instalações novas ou ampliadas em construção ou propostas que poderiam aumentar a capacidade de produção em 33% em relação aos níveis de 2023, de acordo com o relatório EIP. Grande parte desta nova produção planeada destina-se aos chamados “combustíveis de aviação sustentáveis” feitos a partir de madeira ou matéria-prima vegetal.

Mas as instalações de biocombustíveis existentes, sugere a nova investigação, têm um fraco historial de conformidade ambiental e contribuem consideravelmente para a poluição atmosférica e perigosa do clima, que corre o risco de pôr em perigo a saúde dos residentes, em grande parte rurais, que vivem perto ou a favor do vento destas fábricas.

A fábrica da ADM em Illinois, uma das maiores instalações de biocombustíveis do país, foi a maior poluidora da indústria em 2022, libertando 4 milhões de toneladas métricas de gases com efeito de estufa e cerca de 3 milhões de libras de poluentes atmosféricos perigosos.

“As pessoas perto de Decatur, IL, estão constantemente expostas à poluição do ar que pode prejudicar o cérebro e causar tonturas e náuseas. A planta de etanol da ADM também emite mais gases de efeito estufa do que locais como as refinarias de petróleo em Illinois”, disse Robert Hirschfeld, diretor de política hídrica da Prairie Rivers Network, uma organização ambiental com sede em Illinois.

Eliot Clay, diretor de uso da terra no Conselho Ambiental de Illinois, afirmou durante a coletiva de imprensa que o setor agrícola industrial “continua a fazer uma lavagem verde nos biocombustíveis”. Clay disse que o novo relatório ajuda a expor a verdade de que as pessoas no centro e no sul de Illinois “vivem com um nível alarmante de exposição a emissões industriais tóxicas”.

E, no entanto, como explica o relatório, os biocombustíveis estão isentos de controlos mais rigorosos da poluição atmosférica, uma vez que a EPA, em 2007, retirou o etanol à base de milho da lista de instalações sujeitas a limites de poluição mais rigorosos ao abrigo da Lei do Ar Limpo. O relatório também descobriu que mais de um terço das fábricas de biocombustíveis (com dados disponíveis) não cumpriram a Lei do Ar Limpo em matéria de poluição atmosférica, conforme medido através de “testes de pilha” e que 41% das instalações violaram as suas licenças de controlo da poluição atmosférica pelo menos uma vez entre julho de 2021 e maio. 2024.

Além de uma melhor fiscalização, o relatório EIP recomenda que os reguladores federais parem de permitir isenções para os fabricantes de etanol, melhorem o monitoramento e o controle de poluentes atmosféricos perigosos provenientes de instalações de biocombustíveis, exijam que os produtores aumentem a precisão de seus relatórios de emissões e apela ao fim dos biocombustíveis. subsídios e mandatos como o Padrão de Combustíveis Renováveis.

“Os benefícios ambientais destes apoios governamentais são, na melhor das hipóteses, questionáveis”, disse Bernhardt.


Fonte: The New Lede

Na tesourada na extensão da Uenf, contas que não batem geram sentimento de “indigxidade” entre professores e estudantes

perplexo

Postei ontem um texto da lavra da professora Luciane Soares da Silva dando conta de uma tesourada que teria impactado uma série de projetos de extensão dentro da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o que teria gerado algo que poderia ser classificado como “indigxidade”, que vem a ser uma mistura de indignação e perplexidade.  

A indignação viria com a aparente falta de divulgação de critérios que foram adotados para dar notas que terminaram decidindo quais projetos receberiam teriam ou não o aporte de recursos via a Pró-Reitoria de Extensão da Uenf.  Já a perplexidade se deu por conta dos óbvios impactos que o não financiamento terá sobre projetos de grande impacto social, bem como na capacidade dos estudantes sobreviverem sem suas bolsas de extensão.

Pois bem, hoje tive acesso aos editais de extensão de 2023 e 2024 onde pode ser visto algo no mínimo curioso em termos dos valores alocados para cada ano, sendo que de um para outro os projetos aprovados terão em torno de 14% a mais de recursos financeiros (ver imagem abaixo).

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Com isso, fica anulada qualquer explicação em torno da causa dos cortes, pois bastaria ter mantidos os valores de 2023 para que um número maior de projetos fosse aprovado, sem necessidade de criar a agora infame lista de espera por recursos que provavelmente nunca virão, visto que o cenário dominante não é favorável ao surgimento de mais recursos, dado o aperto financeiro que o estado do Rio de Janeiro vive. Como recursos adicionais terão de vir do tesouro estadual, é muito fácil ver que esperar por novos recursos seria, pelo menos um ato de fé, uma coisa que não coaduna com uma instituição que se gaba de fazer ciência.

Outro detalhe que tem causado farta “indigxidade” é o fato de que o projeto classificado em primeiro lugar para recebimento de verbas foi proposto pela reitora Rosana Rodrigues (ver imagem abaixo).

aprovados extensão

Aqui não cabe nenhum julgamento ao mérito do projeto, pois desconheço o conteúdo e seus objetivos. Mas o que deixou muita gente com altos graus de “indigxidade” é que em um momento em que se descontinuarão projetos de impacto social, ver que a reitora não só concorreu, mas como encabeça a lista dos aprovados está sendo visto com uma contrassenso, especialmente em uma instituição em que a transparência e a equidade de oportunidades deveria ser a pedra angular do processo de gestão.

Nesse caso específico, gostaria de lembrar do provérbio “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Esse provérbio teria nascido com a decisão do imperador romano Júlio César de se divorciar de sua segunda esposa, Pompéia, após um imbróglio envolvendo um jovem patrício chamado Clódio que conseguiu entrar disfarçado de mulher em uma festa que ela havia organizado, aparentemente com o objetivo de seduzi-la, mas que era proibida para homens. Apesar de Pompéia ser completamente inocente em relação à invasão e aos planos de Clódio,  Júlio César se divorciou dela, afirmando que: “minha esposa não deve estar nem sob suspeita”.

Em outras palavras, a reitora Rosana Rodrigues pode nem ter nada a ver com a colocação do seu projeto em primeiro lugar e que o feijão seja mesmo uma maravilha (eu particularmente sou fã), mas isso não resolve a cisma que assola as mentes dos que tiveram seus projetos preteridos e, em função disso, fadados à interrupção.  Afinal, como o caso de Pompéia bem demonstrou, não basta ser honesta, deve parecer honesta”. 

Por fim, o que me parece mais necessário é que haja a devida transparência não apenas acerca dos critérios utilizados para avaliar os projetos de extensão, mas, principalmente, sobre os mecanismos de distribuição de recursos que abarcam várias áreas importantes dentro da Uenf, incluindo a extensão, mas não apenas aí. Talvez seja a hora de acionar o Conselho Curador da instituição para que se tenha o devido controle sobre esses mecanismos.

Queda abrupta de populações de insetos no Reino Unido faz especialistas pedirem redução do uso de agrotóxicos

Ativistas dizem que o próximo governo deve reduzir o uso e a toxicidade de agrotóxicos antes que seja tarde demais

abelhas guardianUma abelha paira sobre um tojo em Devon, no sudoeste da Inglaterra. Um projeto de ciência cidadã que monitora insetos voadores no Reino Unido encontrou um declínio de 60% entre 2004 e 2021. Fotografia: Odd Andersen/AP 

Por Helena Horton para o “The Guardian”

As populações de insetos no Reino Unido estão diminuindo a taxas alarmantes e o próximo governo deve implementar planos para monitorar e reduzir o uso e a toxicidade de agrotóxicos antes que seja tarde demais, dizem especialistas em vida selvagem.

Nos últimos anos, surgiram preocupações sobre as populações de minhocas, que diminuíram um terço nos últimos 25 anos. Entretanto, um projeto de ciência cidadã que monitora insetos voadores no Reino Unido encontrou um declínio de 60% entre 2004 e 2021. A trajetória global, como mostram os números de monitoramento do governo, tem sido descendente desde a década de 1970.

No entanto, apesar da evidência do efeito prejudicial dos agrotóxicos na nossa população de insectos, a acão governamental tem sido lenta e os especialistas estão preocupados com o facto de o Reino Unido não estar a monitorar corretamente a utilização de agrotóxicos .

“Há uma falta quase total de monitoramento eficaz do uso de agrotóxicos na agricultura do Reino Unido”, disse Nick Mole, responsável político da Pesticide Action Network UK. “O pouco que temos está incompleto, desatualizado e numa escala tão ampla que é praticamente sem sentido.

“O Reino Unido precisa urgentemente de um registo acessível ao público de todos os agrotóxicos utilizados nas explorações agrícolas em todo o Reino Unido, que seja apresentado no prazo de seis meses após a aplicação e mostrado ao nível da exploração agrícola ou, no mínimo, por captação fluvial. Deveríamos também ter acesso aos dados de vendas de agrotóxicos , informação que está atualmente escondida sob o manto da confidencialidade comercial. Sem dados precisos, é impossível avaliar adequadamente o impacto dos agrotóxicos ou tomar decisões eficazes. Neste momento estamos legislando no escuro.”

O governo conservador deveria publicar o Plano de Ação Nacional sobre a Utilização Sustentável de Agrotóxoicos (NAP) em 2018, que estabeleceria metas e planos para a redução e monitoramento de agrotóxicos Mas seis anos depois ainda não se concretizou.

A “Pesticides Collaboration”, composta por 81 ONG, acadêmicos e grupos agrícolas, incluindo a RSPB, a Buglife, a Associação Britânica de Apicultores, a Greenpeace e a Rede de Agricultura Amiga da Natureza , estabeleceu as suas “linhas vermelhas” para o que precisa estar no plano adiado.

Afirmava: “O Reino Unido comprometeu-se a ‘reduzir o risco global de agrotóxicos e produtos químicos altamente perigosos em pelo menos metade’ no Quadro Global de Biodiversidade Kunming-Montreal acordado na Cop15. Isto deve agora refletir-se na política nacional, e a regulamentação nacional de agrotóxicos deve ir mais longe do que isto e usar as palavras ‘uso’ e ‘toxicidade’ em vez de risco.”

Fontes trabalhistas disseram que consultarão imediatamente os cientistas do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) se e quando a equipe entrar no departamento após a eleição.

O partido já anunciou que acabará com as isenções para pesticidas que matam abelhas que foram proibidos na UE, mas que o governo do Reino Unido aprovou durante quatro anos consecutivos.

Este ano, o governo conservador permitiu a utilização de tiametoxame, também conhecido como Cruiser SB, nas culturas de beterraba sacarina – contra o conselho dos seus cientistas, que afirmaram que representaria uma ameaça para as abelhas. O professor Dave Goulson, especialista em abelhas da Universidade de Sussex, alertou que uma colher de chá do produto químico é suficiente para matar 1,25 bilhão de abelhas. Mesmo um traço minúsculo desta toxina pode perturbar a capacidade de navegação e reprodução de uma abelha, reduzindo significativamente a sua probabilidade de sobrevivência.

Há também uma lacuna crescente na ambição em matéria de pesticidas entre o Reino Unido e a União Europeia (UE). O Reino Unido não conseguiu proibir 36 agrotóxicos que são proibidos na UE, embora os ministros ingleses tenham prometido que o Reino Unido não diluiria os padrões ambientais derivados da UE após o Brexit. 

Um trator pulverizando campos com pesticidas
O Reino Unido não proibiu 36 pesticidas cujo uso não é permitido na UE. Fotografia: Loop Images Ltd/Alamy

Os ativistas apelam ao próximo governo para implementar uma estratégia adequada para a redução de agrotóxicos. Vicki Hird, líder agrícola do The Wildlife Trusts, disse: “Insetos polinizadores, como abelhas e mariposas, e predadores de pragas agrícolas, como joaninhas e libélulas, são a base para um sistema alimentar produtivo e sustentável. No entanto, estes dois grupos de insetos diminuíram 18% e 34%, respectivamente, desde 1970. Uma dependência excessiva de produtos químicos – combinada com a perda de habitat e as alterações climáticas – poderá fazer com que estes números caiam ainda mais. Isto tornaria a situação muito pior para a vida selvagem do Reino Unido e poderia significar um desastre para a produção alimentar do Reino Unido.

“Apesar de delinear alguma intenção positiva de reduzir o uso de agrotóxicos, o atual governo do Reino Unido não conseguiu dar a esta questão a atenção que merece. No início deste ano, enviou sinais ao resto do mundo de que os insetos não importam, ao autorizar a utilização de um agrotóxico proibido, o tiametoxame, nas culturas de beterraba sacarina, pelo quarto ano consecutivo. Queremos ver o fim destas autorizações de emergência e um plano adequado para reduzir drasticamente o uso de pesticidas nos próximos anos. Esta questão – e na verdade produtos químicos perigosos – não deve ser jogada na grama alta.”

Richard Benwell, CEO da Wildlife and Countryside Link, disse: “O Reino Unido assinou um compromisso internacional de reduzir pela metade o risco de agrotóxicos e produtos químicos perigosos até 2030. Os partidos políticos devem oferecer maiores incentivos aos agricultores para reduzirem ou cessarem o uso de agrotóxicos em todo o mundo. suas fazendas, proibir o uso de agrotóxicosem áreas urbanas e rever a abordagem às autorizações para que os produtos químicos proibidos não possam continuar a ter uso emergencial”.

Ao abrigo dos novos pagamentos agrícolas pós-Brexit, os regimes de gestão ambiental dos solos, os agricultores são recompensados ​​por utilizarem menos agrotóxicos. No entanto, as empresas agrícolas argumentam que é necessário mais apoio e educação para que os agricultores não temam abandonar os agrotóxicos dos quais dependem há muito tempo para cultivar as suas culturas.

Martin Lines, CEO da Nature Friendly Farming Network, disse: “Temos estado numa jornada de mudança nos últimos 10 a 15 anos. Lembro-me de ver campos sendo cultivados com muito poucas minhocas e quase nenhum pássaro seguindo o arado, por isso mudamos a forma como gerimos o nosso solo para reduzir a perturbação e aumentar a matéria orgânica que alimenta as minhocas. Como resultado, tenho visto os números aumentarem bastante, juntamente com a melhoria da saúde do solo.

“Ter um solo mais saudável leva a culturas mais saudáveis, o que, por sua vez, leva a menos doenças e a uma menor utilização de fungicidas para as controlar. Adquirir conhecimento sobre o papel dos insetos predadores, polinizadores, invertebrados e besouros na gestão e controle de pragas levou-me a mudar práticas e a colocar mais diversidade de habitats na nossa paisagem agrícola. As margens ricas em flores e as margens de relva que colocamos dentro e à volta dos nossos campos são o lar de insectos predadores e polinizadores que agora controlam a maioria das nossas pragas. Isso me permitiu parar completamente de usar inseticidas.”

A Defra foi abordado para comentar.


MPF e DPU defendem atuação do Incra em imóvel após ataques a acampados em Silva Jardim (RJ)

Órgão pede celeridade na tomada de medidas para evitar conflitos em área
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Homens armados colocam fogo em acampamento de famílias em Silva Jardim, no RJ

O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) posicionaram-se a favor das medidas requeridas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) após ataques violentos ocorridos contra famílias que ocupam área já em posse do Incra, em projeto de assentamento localizado em Silva Jardim (RJ). Para o MPF, os ataques são graves porque indicam a tentativa de enfrentar as instituições e afrontar o Poder Judiciário quanto ao cumprimento de suas decisões.

Diante da gravidade da situação e das ameaças enfrentadas pelas famílias que ocupam a área, o Incra requereu a reexpedição do mandado de reintegração de posse, com expedição de ofício às Polícias Federal e Militar para o cumprimento, devido à real possibilidade de conflito.

O Incra também requereu à Justiça o perdimento do gado que se encontra na área (estimado em 50 cabeças) por total descumprimento da boa-fé processual e, subsidiariamente, caso não seja cabível o perdimento do gado, solicitou que a Secretaria Estadual de Agricultura seja oficiada para que o gado fique no curral público em Rio Bonito até o leilão, cujo leiloeiro será designado pelo Incra através de lista oficial da Advocacia Geral da União.

O MPF considerou as medidas necessárias, adequadas e proporcionais para garantir a imissão na posse com a maior celeridade possível, destacando a importância do apoio policial indicado no mandado de reintegração como forma de assegurar o cumprimento da decisão judicial e evitar conflitos.

O MPF também considerou a medida de perdimento do gado como fundamental e proporcional, demonstrando apoio às ações do Incra para garantir a paz social no campo e evitar danos maiores.

Na manifestação perante a Justiça Federal, o MPF destaca que, independentemente dessas tratativas, é necessário assegurar que as decisões da Justiça sejam devidamente cumpridas. “Nesse ponto, é certo que o Incra se omitiu gravemente nos últimos anos em seus deveres constitucionais. Não obstante, considerando que a autarquia tem manifestado em reuniões com o MPF e neste processo judicial – o compromisso de levar a cabo as medidas necessárias para o cumprimento de decisão desse juízo, torna-se fundamental que o Poder Judiciário atenda ao pleito com vistas a garantir paz social no campo”, registra o documento.

Além disso, o Ministério Público Federal, por meio da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, já vem alertando para o risco de formação de milícias rurais, as quais buscariam impedir o cumprimento de políticas públicas de reforma agrária.

Ataque ao assentamento

Entre os dias 3 e 4 deste mês, cerca de 110 famílias do Movimento Sindical da Fetag-RJ foram atacadas em Silva Jardim, com tiros e incêndios em carros e barracas e as famílias tiveram que fugir e se esconder. As vítimas procuraram a delegacia e o Ministério Público do Rio de Janeiro para denunciar o atentado. A Polícia Civil está investigando o caso.

Amazônia: Modernização via desmatamento e extermínio

O legado da ditadura militar brasileira: projetos de desenvolvimento continuados e um genocídio não resolvido dos povos indígenas

195988Abrindo caminhos de destruição na floresta: construção de estradas na bacia amazônica no início da década de 1980

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

Os generais que derrubaram o governo do atual presidente João Goulart no Brasil há uns bons 60 anos, em 31 de março de 1964, com o apoio de setores da sociedade civil e com a ajuda de operações secretas da CIA, governaram o maior país do Sul América por 21 anos. A ditadura militar caracterizou-se sobretudo por graves violações dos direitos humanos; aqueles que se opunham ao regime foram sujeitos a duras repressões, incluindo tortura e assassinatos.

Segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) brasileira publicado em 2014, os ditadores assassinaram ou desapareceram para sempre 434 não indígenas e 8.350 indígenas. Além disso, torturaram mais de 20 mil pessoas, segundo um estudo de 2019 da Human Rights Watch. No entanto, os historiadores assumem que o número real de pessoas assassinadas é muito maior, especialmente nas zonas rurais. A Comissão Independente da Verdade Rural do Brasil (CCV), fundada em 2012, concluiu em 2015 que pelo menos 1.196 pequenos agricultores foram vítimas do regime entre 1964 e 1985.

“Não foram apenas os opositores políticos e os activistas que sofreram com as políticas repressivas do regime”. “Toda a sociedade brasileira, talvez com exceção dos perpetradores, foi afetada por esta violência”, escreve Rogério Sottili, diretor do instituto de direitos humanos “Instituto Vladimir Herzog”, em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelos militares ditadura em 25 de outubro de 1975.

Derrubando a floresta tropical

O regime, apoiado pela inteligência dos EUA, não só agiu implacavelmente contra os membros da oposição do campo de esquerda, mas também contra os espaços de vida dos povos indígenas e dos grupos populacionais tradicionais. Foi o governo militar que lançou a destruição em grande escala do Cerrado central brasileiro e da floresta amazônica. Uma campanha de destruição florestal que os governos sucessores eleitos democraticamente continuaram até hoje em nome do “desenvolvimento”.

O regime incentivou a imigração de produtores agrícolas, como o futuro barão da soja Blairo Maggi, do sul do Brasil para as planícies da região do Cerrado, que antes era habitada por dezenas de povos indígenas, especialmente no estado de Mato Grosso, a fim de converter em um mar de campos de soja. Em 1965, o Brasil produziu 523,2 mil toneladas de soja. Em 1985 eram mais de 18 milhões de toneladas e hoje são quase 300 milhões de toneladas anuais. No Mato Grosso, a área cultivada com soja passou de doze hectares em 1970 para 795.438 hectares no final da ditadura. Esta área aumentou mais de dez vezes sob a nova democracia, atingindo hoje 12,13 milhões de hectares.

Outro legado vivo da ditadura militar é a construção de estradas e a destruição associada da floresta tropical na Amazônia. A mais conhecida é a construção da infame “Transamazônica” para assentar principalmente pequenos agricultores sem terra do nordeste e do sul da floresta amazônica, em vez de resolver o problema da distribuição injusta de terras. “Terra sem gente para gente sem terra” era o lema da época. O traçado de 4.260 quilômetros, oficialmente denominado BR-230 e inaugurado em 1972, foi um projeto do governo do general Emílio Garrastazu Médici.

Menos conhecida, mas ainda mais ameaçadora para a maior floresta tropical do mundo, é a rodovia federal BR-319, que deveria ligar Manaus a Porto Velho, e que corre paralela aos rios Purus e Madeira, e foi encomendada pelo regime militar no coração da região amazônica. As obras da rota da floresta tropical, inaugurada oficialmente em 1976, começaram em 1968. Mas apenas 20 anos depois, em 1988, a rodovia federal foi abandonada por razões econômicas e deixada à própria sorte. Desde 2015, esta trilha na floresta tropical voltou a ser parcialmente acessível durante a estação seca, graças a um novo programa de manutenção governamental. Se for totalmente restaurada e pavimentada, como pretendido pelo atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a BR-319 e suas estradas secundárias planejadas conectariam o infame “arco de desmatamento” do já fortemente desmatado sul da Amazônia com Manaus. Os atores da destruição florestal, como os especuladores de terras, as empresas madeireiras, os criadores de gado e a agricultura industrial, poderiam avançar ao longo da rota asfaltada. Isto ameaçaria a preservação do último grande bloco intacto de floresta tropical na bacia amazônica brasileira.

Mas sem uma floresta tropical intacta na Amazónia Central, grandes partes do Brasil poderiam ficar altas e secas, teme o investigador climático e amazónico Philip Martin Fearnside, que descreve a BR-319 como a pior ameaça atual para toda a região Amazônica e mais além. Seu asfaltamento poderia levar a um aumento de cinco vezes no desmatamento da floresta tropical até 2030 e causar o colapso de todo o ecossistema amazônico. O cientista, que pesquisa no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, INPA, em Manaus, desde 1978, tem certeza de que os prejuízos para o Brasil seriam enormes.

O lema “Ocupar para não perder” foi o fio condutor da ditadura militar para a construção das primeiras estradas terrestres amazônicas, como a BR-319, para ocupar as áreas povoadas por indígenas, mas, na opinião dos generais, “desertado” com os brasileiros e, portanto, uma possível tentativa de impedir a tomada de poder por potências estrangeiras, diz Fearnside. Ironicamente, hoje a BR-319 pavimentada facilitaria a exploração dos recursos naturais da Amazônia por interesses estrangeiros, particularmente pela empresa petrolífera russa Rosneft, que já adquiriu concessões do estado brasileiro na região da floresta tropical.

Energia hidrelétrica destrutiva

Outro legado da ditadura militar são os megalomaníacos planos hidroeléctricos e de barragens na bacia amazónica para “desenvolver” e industrializar a região. Em 1974, os generais iniciaram a construção da primeira megabarragem da Amazônia, no Rio Tucuruí. A hidrelétrica de mesmo nome, com reservatório gigante de 2.875 quilômetros quadrados, foi finalmente inaugurada em 1984, o que ecologistas e protetores de florestas tropicais de todo o mundo denunciaram na época como um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil.

Graças à resistência obstinada e apoiada internacionalmente do povo indígena Kayapó contra a usina hidrelétrica de Altamira, no rio Xingu, que também foi planejada na década de 1970 e mais tarde rebatizada de Belo Monte, os grandiosos planos militares de barragens na bacia amazônica desapareceram novamente. a gaveta. Foi apenas Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), quem tirou do armário os planos hidrelétricos durante seu primeiro mandato como presidente brasileiro. Foi assim que foram construídas as megabarragens Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, e Belo Monte, no Rio Xingu, sob os governos petistas de Lula e sua sucessora Dilma Rousseff, financiadas com bilhões de dinheiro e dívidas dos contribuintes, apesar de todos os protestos dos indígenas. e ativistas ambientais.

Planos de energia nuclear militar

A situação é semelhante com o programa nuclear brasileiro, outro legado da ditadura, que também está intimamente ligado ao então governo federal alemão. Embora a pesquisa nuclear já existisse no Brasil desde a década de 1930, foi somente com o golpe militar de 1964 que o programa nuclear começou a decolar. Os militares não queriam apenas produzir electricidade a partir da energia nuclear, mas sim tornar-se uma potência nuclear e dominar toda a cadeia atómica: desde a extracção de urânio e o enriquecimento de urânio até aos submarinos nucleares e à bomba atómica. Para esse programa de armas nucleares, ainda secreto na época, os generais já estavam de olho e desenvolveram um local para testes subterrâneos: uma base da Força Aérea Brasileira na Serra do Cachimbo, na região amazônica do estado de Pára.

Mas para concretizar estes sonhos de grande potência, era necessário um reactor nuclear funcional. A ditadura comprou-o nos EUA em 1972 à Westinghouse com uma produção de 627 megawatts. A usina nuclear foi construída com o nome de Angra 1 no litoral sul do Rio de Janeiro, no território do povo Guaraní-Mbyá, nativo da região. Três anos depois, o então presidente brasileiro Ernesto Geisel assinou um acordo abrangente sobre cooperação nuclear com a República Federal. Dentro de 15 anos, oito usinas nucleares alemãs seriam construídas no Brasil pela Kraftwerk Union AG, uma cooperação entre AEG e Siemens. Além disso, o acordo também previa a exploração de jazidas de urânio e o desenvolvimento do enriquecimento de urânio e também considerava o reprocessamento de combustível nuclear.

A primeira mina de urânio do Brasil iniciou suas operações em 1982, no estado de Minas Gerais. A primeira usina nuclear, Angra 1, entrou em operação em 1985. A construção da segunda usina nuclear, Angra 2, iniciada em 1981, demorou um pouco mais. Devido à falta de fundos, o primeiro governo civil de transição interrompeu temporariamente o projecto em 1986. Somente no final de 1994 as obras de construção de Angra 2 foram retomadas, e a usina nuclear conseguiu gerar eletricidade pela primeira vez sete anos depois, no início de 2001. O terceiro reator nuclear planejado da Alemanha e já adquirido pelos militares, o Angra 3, foi trazido em navios de Hamburgo para o Brasil em 1984, mas nunca foi construído. A tecnologia das usinas nucleares permaneceu desativada na zona sul do Rio de Janeiro por décadas.

Lula e a energia nuclear

O presidente Lula se lembrou da central nuclear desactivada durante o seu primeiro mandato e surpreendentemente reviveu o programa nuclear congelado da ditadura a um custo de milhares de milhões – para deleite dos militares. Em 2007 anunciou que concluiria Angra 3 e construiria mais usinas nucleares. O Brasil possui todos os requisitos básicos para completar o ciclo nuclear. Não deveria mais faltar dinheiro, disse Lula da Silva à mídia na época. O Brasil se tornará, assim, um dos poucos países do mundo que domina todo o processo de enriquecimento. O presidente de esquerda até iniciou a construção do primeiro submarino nuclear sul-americano, sonho de longa data da Marinha do Brasil.

Talvez tenha sido precisamente este legado dos ditadores de direita que ele aceitou que levou Lula a colocar agora um ponto final na história e a não comemorar o 60º aniversário do golpe militar de Março passado. Ele até proibiu seu Ministério Federal de Direitos Humanos de realizar um evento memorial planejado com o título: “Sem memória não há futuro”. O presidente brasileiro disse em entrevista à televisão que não queria mais “mexer” no passado e acrescentou: “ Para ser sincero, não direi: “Continuaremos a abordar o assunto, mas sim tentaremos fazer este país avançar”. Em fevereiro anterior, Lula já havia afirmado em entrevista que o golpe era coisa do “passado” e que. ele não queria ter que se lembrar sempre disso. Segundo pesquisa do Datafolha, 59% dos brasileiros apoiaram a proibição imposta por Lula às comemorações do golpe de 1964.

No entanto, vítimas da ditadura e ativistas dos direitos humanos manifestaram-se em São Paulo e em outros locais do Brasil para assinalar o aniversário. Centenas deles gritavam “Chega de ditadura!” e “Punições para os generais!” Os manifestantes em São Paulo exigiram a punição dos golpistas, torturadores, estupradores e assassinos que ainda estavam protegidos de uma punição justa pela lei de anistia de 1979. O governo também deveria prosseguir uma política de memória e restabelecer a prometida comissão especial para os mortos e desaparecidos da ditadura.

Genocídio impune

Um capítulo particularmente sombrio e ainda não resolvido da ditadura é o genocídio dos povos indígenas do Brasil, especialmente na região do Cerrado e na Amazônia. Até hoje, os crimes cometidos contra os povos indígenas naquela época permanecem em grande parte obscuros e os perpetradores permanecem foragidos e impunes. Por exemplo, a construção da rodovia federal perimetral BR-210, que liga os estados do Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, no norte da Amazônia, teria trazido “devastação, violência, fome, doenças e a morte de milhares de Yanomami”. ”. O número exato de vítimas não é conhecido. A Comissão Nacional da Verdade estima vários milhares de vítimas entre o povo Yanomami.

O mais importante e primeiro documento até o momento que lista inúmeras violações de direitos humanos contra os povos indígenas durante o governo militar é o chamado Relatório Figueiredo de 1968, que ficou perdido 45 anos após sua conclusão. O relatório original de 7.000 páginas do procurador-geral Jader de Figueiredo Correia foi encomendado pelo ministro do Interior, general Albuquerque Lima, durante a ditadura, com o objetivo real de expor a corrupção na Autoridade Indígena da Funai.

Correia viajou mais de 16 mil quilômetros pelo Brasil com sua equipe de investigação. Eles viram um horror de proporções bíblicas. Nas cerca de 5 mil páginas do relatório, redescobertas no Museu do Índio, no Rio de Janeiro, em 2013, Figueiredo Correia escreve sobre o extermínio de povos inteiros, torturas e todo tipo de atrocidades cometidas contra a população indígena, principalmente por grandes proprietários de terras e funcionários do Estado: assassinatos, prostituição forçada, trabalho escravo. O promotor também relatou caçadas humanas, com indígenas sendo metralhados de aviões ou explodidos com dinamite. Diz-se que populações indígenas isoladas foram deliberadamente infectadas com varíola mortal ou envenenadas com açúcar misturado com estricnina.

Segundo documentos do Congresso Nacional, segundo Marcelo Zelic, vice-presidente do grupo de pesquisa paulista “Chega de Tortura”, havia cerca de 300 mil indígenas no Brasil em 1963. Cinco anos depois, em 1968, havia apenas 80 mil. O que aconteceu com os 220 mil indígenas não registrados?

Não está incluído nessas estatísticas de 1968 o sofrimento dos Waimiri Atroari, que se autodenominam Kinja: sua área tribal fica entre os estados do Amazonas e Roraima, no norte da Amazônia, exatamente onde os militares bloquearam a rodovia federal BR-174 de Manaus a Boa Vista e Venezuela, a exploração de minerais e a “absurda” hidrelétrica econômica e ecologicamente “absurda”. Os povos indígenas atrapalharam o “modelo progressista” dos ditadores e, portanto, mataram quase 90 por cento desses povos indígenas. Segundo o cofundador do Conselho Missionário Indígena Católico (Cimi), Egydio Schwade, que atuou na região na década de 1970, a planejada hidrelétrica de Balbina, da Eletronorte, e a pretendida exploração de minérios na região pela mineradora Mineração Taboca , fundada em Pitinga em 1968, teve participação ativa no genocídio do povo Waimiri Atroari.

Os estudos do projeto da barragem de Balbina, concluído em 1987, tiveram início em 1968. Naquela época, existiam pelo menos oito aldeias indígenas na parte sul do território indígena, na área do atual reservatório de Balbina, com 2.360 quilômetros quadrados, diz Schwade. Outras nove aldeias Kinja desapareceram na área da atual mina de Pitinga, na zona norte. Em 1972, a Funai contava com cerca de três mil Kinja em seus territórios ao norte de Manaus. Em 1983, apenas 350 deles ainda estavam vivos porque não se deixaram expulsar voluntariamente das suas áreas tribais. O que exatamente aconteceu entre 1968 e 1983 ainda não foi totalmente revelado.

O certo é que os indígenas resistiram desde o início às obras de construção de estradas, como se pode ler no livro “História da Amazônia” do historiador brasileiro Márcio Souza. Em 1973, uma tentativa de contato teria culminado na morte de quatro funcionários da Autoridade Indígena da Funai. Um ano depois, os Kinja teriam matado quatro madeireiros contratados do Maranhão, no Nordeste do Brasil, porque estavam derrubando árvores em seu território para a construção de estradas. Na época, a mídia noticiou o “massacre dos Maranhenses”. Mesmo assim, os militares não desistiram do projeto da BR-174. A estrada era importante e precisava ser concluída a todo custo, disse na época um coronel do sexto batalhão de engenharia e construção da ditadura. Como resultado, os indígenas rebeldes foram simplesmente bombardeados e baleados, de acordo com o primeiro relatório publicado em 2012 pela Comissão Estadual da Verdade do estado federal do Amazonas. De acordo com relatos de sobreviventes, as aldeias Waimiri Atroari também foram bombardeadas com pólvora “semelhante a poeira” de aeronaves.

Os afetados tinham medo de falar sobre os massacres; era proibido, diz o antropólogo Stephen Grants Baines. Mesmo assim, os indígenas relataram aviões voando sobre suas cabeças e poeira caindo. E que eles respiraram essa poeira e como resultado pessoas morreram. “Portanto, é muito provável que tenham jogado veneno ou gás para destruir a população”, disse Baines em entrevista de 2019 à Universidade Estadual de Roraima (UFRR). O antropólogo iniciou suas pesquisas em 1982 na área Waimiri Atroari até ser proibido pelo governo e pela Funai. Baines: “Quando cheguei (para a região) em janeiro de 1982, a Mineração Taboca já estava lá explorando e minerando as jazidas de minério. Já vi a poluição do rio Alalaú e seus afluentes que vinha da área de mineração da Taboca. Os resíduos da mina Pitinga amarelaram o Alalaú. Hoje Pitinga é considerada um dos maiores produtores mundiais de estanho”. Além da matéria-prima primária estanho, também produz tântalo, nióbio e urânio em mineração a céu aberto, segundo o relatório “Matérias-primas estratégicas, projetos e oportunidades de negócios para empresas alemãs” da Câmara de Comércio e Indústria Teu-Brasileira de São Paulo. Paulo e a Agência Alemã de Matérias-Primas (Dera-BGR) o ano de 2019. A produção de estanho em Pitinga em 2018 foi de cerca de 7 mil toneladas.

Assim como os Kinja, muitos outros povos indígenas foram um obstáculo desagradável à colonização e ao desenvolvimento industrial e, sobretudo, aos grandes proprietários de terras e empresas agrícolas que se apropriavam cada vez mais de terras no centro e norte do Brasil, razão pela qual, além de assassinatos , o reassentamento forçado também fazia parte da tarefa dos generais. Talvez o exemplo mais marcante disso seja o dos Xavante de Marãiwatsédé, no Mato Grosso. Em 1966, por atrapalharem o grande proprietário paulista Ariosto da Riva, que se apropriara de cerca de 800 mil hectares de terras na região, os militares obrigaram os últimos 263 Xavantes de Marãiwatsédé a embarcar em um avião de transporte da Força Aérea e os levaram na estação missionária da Ordem Salesiana de São Marcos, a 400 quilômetros de distância. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, 83 deles morreram pouco depois de chegarem à missão, em consequência de um surto de sarampo. Um pouco mais tarde, em 1971, Ariosto da Riva vendeu com lucro as terras agora “livres de índios” para a empresa italiana Liquifarm.

Alguns dos Xavante de Marãiwatsédé sobreviveram à ditadura e ao proselitismo. Hoje, em 2024, eles lutam contra a continuação e asfaltamento da rodovia federal BR-080, de Brasília ao Ribeirão Cascalheira, no Mato Grosso, porque ameaça um de seus lugares mais sagrados. O agronegócio, porém, considera a BR-080 necessária para escoar a safra crescente de soja da região do Araguaia.

*Norbert Suchanek viajou ao Brasil pela primeira vez em 1987, durante o período de transição da ditadura militar para a democracia. Um dos primeiros relatórios que publicou na Alemanha foi sobre o desmatamento e a destruição da floresta amazônica nessa época. O jornalista, autor e cineasta de Würzburg trabalha como correspondente estrangeiro no Rio de Janeiro desde 2006.


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Fonte: JungeWelt