A Uenf está sendo corroída pela precarização e ficando muito aquém das tarefas deixadas por Darcy Ribeiro

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O incêndio que ocorreu no último 17/05 e consumiu a sala que abrigava uma secretaria no prédio do Centro de Ciências do Homem é apenas o sinal de uma profunda precarização que vem sendo imposta à universidade criada por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.  Nascida sob demanda da população de Campos dos Goytacazes, entretanto, é o principal instrumento de desenvolvimento econômico do interior do estado do Rio de Janeiro, tendo gerado um ciclo de formação de profissionais e dinamizado a economia do município de Campos dos Goytacazes em um patamar muito acima do que os bilhões produzidos pelos royalties do petróleo.

Mas se a Uenf é isso tudo, por que precarizá-la a ponto de inviabilizar sua capacidade criativa e de inovação e reduzi-la a mais uma instituição que não gera potencial de desenvolvimento? Uma explicação muito provável tem a ver com a indiferença dos governos estaduais com as necessidades das regiões Norte e Noroeste Fluminense, e também dos grupos de poderes locais que não querem que mais pessoas estejam capacitadas para articular novas formas de governança que possam abalar os arranjos oligárquicos que guiam a política em nível municipal.

Entretanto, o que vem afogando a Uenf é o uso abusivo do chamado Programa de Recuperação Fiscal que asfixia financeiramente a instituição ao não possibilitar, por exemplo, que salários altamente defasados sejam colocados em um patamar de competividade com o que é praticado em outras instituições universitárias. Como agora sequer se há o acréscimo por tempo de serviço, é quase impossível atrair professores doutores de outras partes do Brasil e, menos ainda, de outros países. Essa foi a fórmula que possibilitou que a Uenf funcionasse em nível de excelência em anos iniciais, a ponto de se tornar uma referência de qualidade para outras universidades brasileiras.

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Um problema que vem aprofundando o nível de desgaste do projeto revolucionário elaborado por Darcy Ribeiro é que tem faltado à Uenf a atuação de lideranças capacitadas para manter a respeitabilidade que foi obtida nos seus primeiros anos. As diferentes reitorias que foram se sucedendo desde 1999, quando foi eleito o primeiro reitor, terminaram possibilitando a ascensão de uma visão altamente populista de integração com a sociedade regional,  a qual pode ser sintetizada na ideia de que bastaria abrir os gramados do campus Leonel Brizola para a realização de confraternizações e atividades esportivas para que a Uenf cumpra seus desígnios históricos. Com isso, o máximo que se tem conseguido é difundir a ideia de que a Uenf seria uma espécie de “Ibirapuera dos campistas”, e não o poderoso motor de desenvolvimento científico e tecnológico que Darcy Ribeiro idealizou e colocou para funcionar com os recursos alocados pelo governo de Leonel Brizola.

Disse recentemente em uma assembleia dos professores que é urgentemente necessário que a categoria retome urgentemente a primazia da ação política que possibilitou que a Uenf tenha chegado até onde chegou. Sem a liderança de um grupo altamente capacitado não há como qualquer instituição universitária atingir seus objetivos estratégicos, e a Uenf não é exceção. Caberá aos seus quadros mais capacitados garantir que, entre outras coisas, o governo do Rio de Janeiro decida pagar salários que sejam compatíveis com o papel de liderança que a Uenf deve exercer para catapultar as regiões Norte e Noroeste para um ciclo de desenvolvimento que finalmente as faça superior décadas de atraso econômico e social.

E eu lamento dizer:  ou os docentes assumem o papel de liderança que o modelo institucional lhes exige ou a Uenf nunca chegará a cumprir a trajetória pensada por Darcy Ribeiro. É que não se cumpre desígnios mais desafiadores aceitando projetos de mediocridade e de subalternidade que podem até soar “moderninhos” e “antenados” com as modas do momento, mas que são intrinsecamente desprovidos de substância.  Ou alguém acha que um punhado mal arrumado de conversas ocas sobre o papel de start ups e do uso de inteligência artificial resolverão o abissal atraso econômico e social que envolve o Norte e Noroeste do Rio de Janeiro?

Estudo mostra que a degradação florestal por extração seletiva de madeira avança para novas áreas no estado do Pará

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Pátio de estocagem de madeira extraída no interior de uma floresta na Amazônia brasileira

Desde um artigo publicado na revista Science em 2020 ficou demonstrado que o processo de degradação florestal causado pela extração seletiva de madeira e por incêndios se tornou mais abrangente em termos de área afetada do que o processo de desmatamento. O aumento das áreas afetadas pela degradação em combinação ou não com o desmatamento representa uma ameaça séria à capacidade das florestas amazônicas de oferecer uma série de serviços ecossistêmicos, a começar pela regulação das temperaturas.

Agora em um artigo publicado ontem (07/6) pela revista Ciência Florestal  se toronou possível entender melhor a abrangência e a distribuição temporal dos impactos da extração seletiva de madeira nas florestas do estado Pará.  Neste estudo, foram analisadas a dinâmica espacial e temporal das florestas perturbadas pela exploração seletiva de madeiras no estado do Pará, utilizando uma série temporal (1992 a 2018) de imagens Landsat e técnicas de sensoriamento remoto. Assim, as florestas afetadas por atividades de exploração seletiva foram mapeadas aplicando interpretação visual e técnicas de sensoriamento remoto semiautomática.

Os resultados deste estudo mostraram que aproximadamente 20% das florestas exploradas seletivamente para fins madeireiros foram desmatadas no período estudado no estado do Pará.  Além disso, o estudo mostra que a área total de florestas alterada pela exploração seletiva de madeiras superou a área desmatada em alguns anos analisados.

Um aspecto especialmente preocupante foi a detecção do aumento de florestas exploradas seletivamente dentro de áreas protegidas (Unidades de Conservação e Terras Indígenas) entre 1992 e 2018 (ver imagem abaixo).

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Áreas afetadas por extração seletiva de madeira no estado do Pará entre 1992 e 2018.

Além disso, a maioria das florestas exploradas seletivamente estava localizada na região conhecida como Arco do Desmatamento na Amazônia brasileira. Entretanto, nos anos mais recentes da análise, as florestas impactadas por atividades madeireiras foram detectadas nas novas fronteiras de desmatamento localizadas na região oeste do estado do Pará. Com isso, há uma ampliação do processo de degradação florestal e, consequentemente, da diminuição da capacidade das florestas de ofereceram serviços ecossistêmicos.

Quem desejar baixar este artigo, basta clicar [Aqui!].

Retorno do MST ao Norte Fluminense acomete latifundiários campistas da síndrome de Regina Duarte

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A ex-atriz e latifundiária Regina Duarte parece estar fazendo escola em Campos dos Goytacazes

Como estudioso dos assentamentos de reforma agrária no Norte Fluminense, sempre me pergunto o porquê da luta pela criação de mais unidades desse gênero não ser uma prioridade do governo federal, responsável constitucional pelo cumprimento da função social da terra no Brasil via o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra. Afinal, por aqui sobram grandes propriedades improdutivas e propriedades cujos donos somam dívidas vultosas com a União.  Se fosse seguido o exemplo do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) que se aproveitou das dívidas existentes pelos latifundiários para criar o Assentamento Zumbi dos Palmares, a produção familiar já estaria transformando terras improdutivas em celeiros de produção de alimentos. 

Uma das razões para a paralisação da reforma agrária no Norte Fluminense, que teve a última criação de assentamento há mais de 10 anos com o estabelecimento do Assentamento Osvaldo de Oliveira em Macaé, foi a diminuição da presença do MST cujas atividades de mobilização ocorridas entre 1997 e 2007 resultaram na criação de 12 assentamentos de reforma agrária,  fato que beneficiou diretamente 1.200 pobres que puderem retornar à terra para se envolver na produção de alimentos, como já foi documentado pelo meu grupo de pesquisas na Universidade Estadual do Norte Fluminense.

Agora, após mais de uma década de paralisia, a luta pela reforma agrária está de volta com o aparente retorno do MST à região. Com isso, o que está se vendo é uma espécie de pânico das entidades ligadas ao patronato rural. Isso ficou mais que evidente em uma curiosa reunião ocorrida no dia de ontem (07/6) na sede do “Sindicato Rural” e que contou com a presença até do ilustre desconhecido senador Carlos Portinho (PL/RJ).

Lendo relatos da cobertura feita pela mídia corporativa local do evento, só posso chegar à conclusão de que a simples menção da volta do MST está causando uma espécie de síndrome de Regina Duarte  (aquela que instala medo e pavor  nas mentes e corações em face de adversários reais ou imaginados) nos latifundiários campistas ou, pelo menos em suas lideranças.  Pelo menos, é o que pode se depreender, por exemplo, da fala registrada do presidente do Sindicato Rural, que teria afirmado que “não somos favoráveis a isso. Não queremos isso por aqui, porque isso traz insegurança para a gente. A gente não consegue trabalhar, os funcionários das propriedades ficam com medo desse pessoal do MST, que ameaça de morte os funcionários e até proprietários. A gente precisa dar um freio nisso, não tem condição. A gente se sente ameaçado porque a todo momento você pode receber uma visita, com o pessoal querendo invadir a sua propriedade, sem nenhum critério para a invasão“.

Movimento Sem-Terra ocupa propriedade em Campos e enfrenta policiais -  J3News

Ocupação no Distrito de Morro do Côco serviu para disparar a síndrome de Regina Duarte nos latifundiários campistas

Aqui vale algumas observações sobre a fala do presidente do Sindicato Rural. Não haveria qualquer motivo para insegurança se as terras altamente concentradas nas mãos do latifúndio (5% das maiores propriedades em Campos controlam 59,05% do estoque de terras) estivessem cumprindo sua função social. É que os movimentos que lutam pela reforma agrária não perdem tempo com a ocupação de terras produtivas, pois sabem que jamais conseguirão sua desapropriação. Ocupação de terra se dá sempre em propriedade improdutiva o que, convenhamos, há de sobra no Norte Fluminense. Além disso, quem teve diversas lideranças assassinadas nos últimos anos foi o MST, sendo o caso de Cícero Guedes apenas o mais emblemático. Por outro lado, quem deveria ter medo dos funcionários (ou pelo menos preocupação) são os latifundiários, já que as fileiras dos que lutam pela reforma agrária estão cheias de ex-empregados que se cansaram de não receber direitos devidos e resolveram se integrar aos movimentos sociais.  E para dar um freio na situação a coisa é bem simples: que se comece a fazer o uso produtivo das terras, de preferência sem os gordos subsídios oferecidos pelos cofres públicos.

Já em relação às demais falas, a que merece uma ênfase é o desconhecido senador Portinho.  Em uma das falas retratadas pela mídia campista, Portinho teria dito que “Eu vi aqui uma grande união, o que é muito positivo, porque geralmente dá resultado, juntando  federação, sindicatos dos produtores rurais e muitas autoridades que a gente conseguiu trazer pra esse evento (…) E aqui a gente pôde entender o problema dessa tensão no campo, que não é exclusividade da região, é do país. Infelizmente, o produtor rural está sendo muito sacrificado por políticas econômicas e por insegurança no campo (…) E eu acredito muito na força do nosso interior e aqui é o grande vetor de desenvolvimento do nosso estado”.

Ora, esse tipo de fala parece vinda de quem nunca pisou em uma área rural e chega aqui para reproduzir um discurso que passa ao largo da realidade.  Se fosse para falar de tensão no campo, haveria que abordar a criação em certos estados de milicias rurais que atacam assentados, indígenas e quilombolas para invadir terras de usufruto coletivo. É dessas milícias que parte a violência e não dos assentados e membros de comunidades tradicionais. Além disso, se tem uma coisa que o latifúndio não tem no Brasil é alguma ideia de sacrifício. Historicamente os latifundiários viveram e vivem sob as asas protetoras do estado brasileiro que lhes oferece todo tipo de regalias, desde as financeiras, entrega de maquinários e a proteção policial. Quem entende mesmo de sacrifício são os assentados de reforma agrária, indígenas e quilombolas que juntos produzem os alimentos que chegam nas mesas dos brasileiros.

Por isso tudo, essa repetina síndrome de Regina Duarte pode até servir para agitar discursos feitos em auditórios apertados, mas está longe de explicitar os reais problemas que estão borbulhando nas entranhas da sociedade brasileira, e especificamente no Norte Fluminense.  O fato inescapável é que enquanto terra improdutiva sobrando, haverá combustível pela luta pela reforma agrária. 

 

Querer nem sempre é poder, especialmente quando se trata de governar municípios

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A delegada  da Polícia Civil e pré-candidata a prefeita de Campos dos Goytacazes Madeleine Dykeman ao lado do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, e pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro

Por Douglas Barreto da Mata

Há um tempo atrás, escrevi no  Blog do Pedlowski um texto sobre a ampla vantagem construída pelo atual prefeito Wladimir Garotinho, que pode ser lido[Aqui!].  Pois bem, hoje cedo, ouvi a entrevista da candidata, melhor dizendo, pré-candidata Madeleine Dykeman.

É difícil falar sobre ela, porque por questões relacionadas à profissão, construí com ela, e com o marido dela, uma relação afetuosa, de carinho mesmo. Preciso dizer que respeito muito a coragem dela. Não é fácil despir-se do senso de autopreservação para se expor dessa maneira, ainda mais sendo o début dela nas disputas políticas.

Sem dúvida, Madeleine é uma mulher de coragem, e essa qualidade não pode lhe ser subtraída. Porém, nesta seara, coragem não é tudo. É nítido que falta à pré-candidata a embocadura, para dominar temas que escapam ao seu conhecimento. Não é vergonha não saber, diga-se.

No entanto, uma das características principais de raposas felpudas desse negócio é saber como driblar essa deficiência, e trazer a conversa para sua zona de conforto. Brizola era um craque nisso. Garotinho também não ficava atrás.Neste quesito, para a delegada, a porca torce o rabo.

Explico. Há um notório desconhecimento da delegada sobre temas que ela repisou em sua entrevista.  Primeiro, ela mencionou a questão dos empregos. Pareceu estranho uma conservadora (e por isso mesmo, uma adepta do capitalismo de direita) reivindicar para o Poder Público o papel de indução de empregos, ou de gerador de empregos.

Qualquer um que se aventure na questão saberia dizer que gerar riqueza e emprego é papel da iniciativa privada. Pois bem, mesmo aceitando esse falsete de esquerda no discurso conservador da Madeleine, fica a questão:  Ela sabe do que está falando, além do lugar comum que é veiculado em boatos (para os mais novos, “fakes”)?  Não me parece.

A insistência em palavras-chave, como “autoridade, gestão, inovação”, e a preferida dela, “humanização”, não consegue preencher a falta de conhecimento.  A cidade de Campos dos Goytacazes tem, reiteradamente, aparecido entre as três primeiras cidades geradoras de emprego dentre as 92 cidades do Estado, de acordo com o CAGED/IBGE.

Outro dado que a delegada parece não dominar é sobre a origem do investimento público na cidade, quando repete o jargão de que o Prefeito tomou para si a paternidade de recursos que seria da esfera estadual.

Eis os dados:

2021:   R$ 11.127.373,38

2022:   R$ 202.331.966,45

2023:   R$ 187.402.672,46

2024:   R$ 115.049.186,33

Total da  PMCG: R$ 515.911.198,62

Total de investimento na cidade :

R$ 828.011.434,99

Logo, teremos que o valor empenhado pelo Estado é de R$312.100.236,37, ou seja, 37.7% menor que o valor empenhado pelos cofres da cidade.

Há outros desconhecimentos, como a reivindicação comum na cidade, de que há uma desindustrialização, e que isso seria reflexo da má gestão.Aliás, esse indicador é usado também por uma certa parte da Academia dedicada aos estudos de Economia.  Fica evidente que está mais para econometria do que para o entendimento de Economia como ciência social que é.

Mesmo assim, mesmo que resumida à pobreza e frieza dos parâmetros econométricos, esses econometristas pecam pelo desconhecimento dos demais fenômenos e circunstâncias que levam à desidratação da atividade industrial.

O PIB da indústria decresce no país todo desde 1990 (e no mundo desde 1980), e só no ano passado recuou no país em 12%, aproximados, enquanto só o setor de serviços e comércio, e também da construção civil, conseguiram crescer, todos induzidos pelos massivos investimentos públicos em obras, e reconstrução da estrutura de bens e serviços.

Aqui na cidade de Campos dos Goytacazes, como mostraram os números recentes, e como já mencionamos, avançou muito em geração de empregos, e foi bem melhor nesse governo que outros com muito mais recursos per capita, como informou o economista José Alves de Azevedo Neto, em seu blog.

Olhar para o cenário de TODAS as cidades petro rentistas é reconhecer um fato:  Nenhuma cidade, nem Maricá, que hoje é a maior em arrecadação per capita, conseguiu criar um ciclo de industrialização sustentável.

O dado importante talvez tenha escapado, propositalmente ou não, à maioria, e também à Delegada:  Como estão a desigualdade e os níveis de pobreza? Olhemos ao redor próximo.

A cidade governada por outra pré-candidata do mesmo grupo que apadrinha Madeleine ostenta números de pobreza dramáticos, quando observamos que o valor per capita disponível para aquela cidade é muito maior que Campos dos Goytacazes, Macaé, e Rio das Ostras, por exemplo, que estão em situação muito melhor que São João da Barra (ver blog do José Alves Azevedo Neto).

A cidade está menos desigual, com menos pobres, longe do ideal, diga-se, mas ao menos recuperou a rede de atendimento social que foi destruída pelo seu antecessor, Rafael Diniz, que por coincidência foi apoiado também pelo mesmo grupo que hoje lançou a pré-candidata, embora na entrevista ela tenha procurado se desvincular desta condição.

Voltando aos empregos “industriais”, é preciso dizer que quem entende um pouco de economia, e nem precisa ser economista, sabe que os montantes de acumulação primitiva de capital necessários à criação de um arranjo industrial não se resumem às rendas não-tributárias (royalties).

Ao longo da História, estas acumulações necessárias à industrialização nunca foram resultantes de acumulações orçamentárias públicas, como é o caso da Inglaterra, o clássico motor da Revolução Industrial.

Portugal, Espanha, e etc, todos países que foram pioneiros na acumulação colonial não conseguiram dotar seus países das condições de industrialização, que só aconteceu onde os primitivos excedentes das cidades comerciais (burgos) possibilitou uma dinâmica própria e independente dos humores dos reis e do clero.

Atualmente, quando o mundo está abandonando a indústria, ou pelo menos, implantando esses arranjos industriais em locais de altíssima rentabilidade e ultra exploração de mão-de-obra, como Sudeste Asiático, e outras áreas, como Índia, China, etc, as chances de atração de indústrias vão requerer ações muito mais complexas.

Em Campos dos Goytacazes, se não fossem os investimentos públicos, a economia estaria em situação ainda pior, muito pior.

A cidade é presa secular do capitalismo de monocultura, e agora, há, pela primeira vez, a inversão dessa lógica, com o crescimento de receitas próprias do município, talvez como retorno de arrecadação, por certo, dos investimentos públicos em obras, que geram empregos, e empregos geram impostos locais.

Pode-se discutir as escolhas do prefeito Wladimir Garotinho sobre os setores atendidos, e/ou as prioridades a serem adotadas.

Porém, hoje, não só os dados de aceitação eleitoral lhe favorecem, mas os resultados da gestão também, por mais que eu hesite em admitir.

Em resumo, falta à Madeleine Dykeman talvez o que lhe sobra coragem: entender os limites que a História impõe.

Observatório dos Agrotóxicos- Tsunami de venenos: em um só ato, governo Lula libera 80 agrotóxicos

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Como ocorre desde o início do governo Bolsonaro,  como parte do monitoramento de liberações de agrotóxicos, via o Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski, venho observando diariamente o Diário Oificial da União para verificar se algum novo ato foi publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. Eis que hoje, após vários meses de pausa, o Diário Oficial da União trouxe a publicação do Ato No. 26 de 04 de junho de 2024 que libere o incrível número de 80 agrotóxicos em uma só vez.

Esse é um verdadeiro recorde desde que comecei a acompanhar as publicações do MAPA em janeiro de 2019 e revela que a publicação da lei do “Pacote do Veneno” (Lei No. 1459/2022), que posteriormente teve os vetos impostos pelo presidente Lula derrubados pelo Congresso, acabou de arrebentar as poucas travas que existiam e que, agora, a boiada está literalmente passando diante dos nossos olhos.

Uma rápida verificação da lista de produtos liberados indicou a presença de agrotóxicos com conhecidos efeitos negativos sobre a saúde humana, tais como o Acefato, a Atrazina e o Glifosato, todos com potencial de gerar diversos tipos de enfermidades, a começar pelo câncer. Além disso, a lista ainda traz pelo menos um exterminador de polinizadores, o neonicotinóide Imidacloprido.

O fato é que com a aprovação do Pacote do Veneno, o Brasil avança em um terreno bastante movediço em se tratando da proteção ambiental e do cuidado com a saúde humana. Ainda que os vilões preferenciais sejam sempre os membros da bancada ruralista que forçaram a aprovação de dispositivos totalmente incoerentes com a necessidade de se proteger a saúde dos brasileiros, há que se ressaltar o papel das multinacionais que fabricam agrotóxicos altamente perigosos e agora vão poder despejá-los no Brasil com facilidade ainda maior.

Em relação ao governo Lula, a inexistência de uma resistência real às pressões realizadas pelo latifúndio agro-exportador e pelas multinacionais do veneno representa um selo de cumplicidade. A verdade é que existe pouca ou nenhuma diferença em relação ao governo de Jair Bolsonaro, ainda que, de tempos em tempos, o presidente Lula ou a ministra Marina Silva entoem discursos de preocupação com o estado da agricultura brasileira que está cada vez mais dependente de venenos para se manter viável no mercado global de commodities.

A verdade é que estamos diante de uma poderosa aliança política e econômica em prol do uso praticamente irrestrito de venenos agrícolas que estão envenenando os alimentos e a água que os brasileiros consomem.

Peixes e praias de Ubatuba (SP) estão contaminados com microplásticos, revela estudo

Praia do Perequê-Açú UbatubaPesquisadores investigaram vestígios de partículas sintéticas nas águas, areias e peixes de Perequê-Açú (na foto) e Barra Seca, em Ubatuba

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Fragmentos de microplásticos estão presentes em peixes e nas águas e sedimentos das praias de Barra Seca e Perequê-Açú, no município de Ubatuba, em São Paulo. É o que constata um estudo da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e Universidade Estadual Paulista (Unesp) publicado nesta sexta (7) na  revista científica “Neotropical Ichthyology”.

O trabalho, realizado ao longo do ano de 2021, coletou 120 peixes da espécie Atherinella brasiliensis, ou peixe-rei, em três regiões da costa ubatubense, e encontrou partículas sintéticas de plástico no corpo de 38% dos peixes analisados. Além dos peixes, foram examinadas cinco amostras de água da superfície marinha e cinco porções de areia coletadas nas diferentes regiões no inverno e no verão. A ideia era comparar a presença de microplásticos no ambiente e no trato digestivo dos animais. Para completar as análises, os cientistas avaliaram variáveis como a temperatura, a acidez e a presença de sólidos suspensos ou turbidez da água, utilizando uma sonda.

O pesquisador George Mattox, da Ufscar, um dos autores do estudo, explica que o peixe-rei é uma espécie onívora, que se alimenta de plantas, algas e outros peixes, e pode consumir esses fragmentos de plástico por engano. “Muito provavelmente, ele ingere as partículas sintéticas porque elas têm o mesmo tamanho e a mesma cor do alimento natural”, destaca. A maior parte das partículas coletadas era transparente ou azul e contava com formato fibroso, enquanto o tamanho da fibra se mostrou relacionado com o porte do peixe.

Na água e no solo, a quantidade de detritos sintéticos variou entre as praias. O valor máximo ocorreu nas águas de Barra Seca, com 490 partículas por metro cúbico no verão. Para fins de comparação, o valor mínimo registrado pelo trabalho – 300 partículas por metro cúbico – ocorreu também no verão, na porção da praia de Perequê-Açú classificada como brava pela pesquisa.

Barra Seca também foi o local onde os peixes coletados apresentaram maior taxa de contaminação – cerca de metade dos indivíduos analisados tinham resquícios de material sintético no organismo. Isso indica a relação entre a concentração de partículas no ambiente e sua presença no organismo dos animais. Os pesquisadores explicam que a praia Barra Seca é mais calma e tende a acumular mais sujeira por conta do regime de correntes. Mattox pontua ainda que a praia de Barra Seca é o destino de desembocadura de rios, os principais aportes de resíduos e partículas plásticas que vêm do continente.

Segundo o autor, as consequências da presença de micropartículas sintéticas nesses ambientes têm efeitos muito além dos imediatos. “Quando ingeridos pelos peixes, esses plásticos não são digeridos e vão se acumulando no organismo. Eventualmente, o peixinho pode morrer entupido de plástico”, diz. Mattox também salienta que podem haver graves repercussões para o ecossistema e para os seres humanos. “Qualquer animal que coma esse peixe vai comer o plástico que está dentro dele, inclusive os pescadores artesanais, ribeirinhos e caiçaras, por exemplo”, completa.

Para evitar que esse cenário continue se perpetuando, os pesquisadores indicam que é necessário um esforço conjunto entre as autoridades e a população. “Esperamos que, com esses resultados, possamos fomentar políticas públicas no sentido de conscientizar a população e os tomadores de decisão para darem o destino adequado para o plástico e atuarem em prol dos famosos três Rs: redução, reutilização e reciclagem”, conclui Mattox.


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Fonte: Agência Bori

Turbinado pelo desmatamento, vírus Oropouche está em ascensão na América do Sul e pode sobrecarregar sistemas de saúde

O desmatamento e as mudanças climáticas podem ajudar os mosquitos a espalhar o vírus Oropouche para muito além da Bacia Amazônica

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Casos de febre Oropouche em Manaus, na Amazônia brasileira, têm sido associados ao desmatamento. Michael Dantas/ AFP via Getty Images

Por Sofia Moutinho para a Science

Um patógeno pouco conhecido chamado vírus Oropouche está em movimento na América do Sul, alarmando cientistas e especialistas em saúde pública. O Brasil notificou 5.530 casos até agora este ano, em comparação com 836 em todo o ano de 2023. Bolívia, Colômbia e Peru também registraram aumentos. Embora o vírus tenha sido tradicionalmente endêmico na Bacia Amazônica, agora está adoecendo pessoas distantes da floresta tropical. Em maio, Cuba relatou seus primeiros casos.

O aumento deixou os cientistas preocupados com o fato de que o vírus, transmitido principalmente por mosquitos que picam, possa ser o próximo a causar um grande surto na América Latina, que lutou contra grandes epidemias de Zika e Chikungunya na última década e agora está no meio de uma das maiores epidemias de zika e chikungunya. as piores epidemias de dengue de todos os tempos. A maioria dos casos de febre Oropouche são leves, com sintomas como dor de cabeça, dores no corpo, náuseas e erupções cutâneas – mas o vírus também pode causar inflamação cerebral e problemas neurológicos, incluindo vertigens e letargia. E mesmo uma epidemia ligeira poderia sobrecarregar os sistemas de saúde do continente.

 “O que mais nos preocupa é a expansão de uma doença que estava praticamente restrita à Amazônia, que tem baixíssima densidade populacional, para áreas com maior densidade populacional”, diz Marcus Lacerda, pesquisador de infectologia da Fundação Oswaldo Cruz ( Fiocruz).

A estirpe que provocou o surto teve origem numa alteração genética há uma década, mas o vírus Oropouche foi identificado pela primeira vez em 1955, na aldeia de Oropouche, em Trinidad e Tobago. Em 1960, apareceu em amostra de sangue de uma preguiça doente durante a construção da rodovia Belém-Brasília. Um ano depois, muitas pessoas em Belém adoeceram com o que se acreditava ser a febre Oropouche. A maioria dos cerca de 30 surtos na América Latina desde então também ocorreu na Bacia Amazônica. Na floresta, o vírus circula entre primatas, preguiças e aves; não está claro qual inseto o espalha lá. Em ambientes urbanos, o mosquito Culicoides paraensis, do tamanho de uma cabeça de alfinete , transmite a doença entre humanos.

Os primeiros casos do surto atual foram detectados em Roraima, estado do norte do Brasil, no final de 2022. Desde então, a doença surgiu ao longo da populosa Costa Leste do Brasil, incluindo os estados do Rio de Janeiro, Santa Catarina, Bahia, e Minas Gerais. Alguns pacientes viajaram pela região amazônica, mas outros não, o que significa que o vírus agora circula localmente. Os números provavelmente estão subestimados: os sintomas do Oropouche se assemelham aos da dengue, do zika e de várias outras doenças, e uma infecção só pode ser confirmada por meio da reação em cadeia da polimerase ou testes de anticorpos.

Para os poucos cientistas que estudam a febre Oropouche, nada disto foi uma grande surpresa. Desde 2000, o vírus tem se aventurado cada vez mais fora de sua região endêmica, diz a virologista Socorro Azevedo, do Instituto Evandro Chagas, centro de pesquisa de doenças tropicais na Amazônia brasileira. “O que estamos vendo é a crônica de uma tragédia anunciada”, diz ela.

O aumento da circulação de pessoas em todo o continente e entre áreas florestais e urbanas poderá estar a contribuir para a propagação. Os cientistas também veem uma ligação clara com o desmatamento , que poderia deslocar os animais hospedeiros do vírus e fazer com que os mosquitos se alimentassem de pessoas em vez de animais. Em Manaus, capital do estado do Amazonas, os primeiros casos do atual surto foram detectados perto de áreas recentemente desmatadas. Estudos utilizando imagens de satélite confirmaram a ligação. “Em vários locais onde o vírus foi detectado na América do Sul, detectamos consistentemente padrões de desmatamento”, diz Daniel Romero-Álvarez, epidemiologista da Universidade Internacional SEK em Quito, Equador.

As alterações climáticas provavelmente também desempenharam um papel. As temperaturas mais altas aceleram a maturação dos mosquitos, e o aumento das chuvas e das inundações criam mais água parada onde os insetos podem se reproduzir.

O Brasil agora está intensificando a vigilância. No passado, apenas laboratórios da região amazônica faziam testes para a doença, mas em janeiro o país decidiu testar 10% das amostras de pacientes em todo o país cujos sintomas correspondem à febre Oropouche, mas apresentam resultado negativo para zika, chikungunya e dengue. A Organização Pan-Americana da Saúde instou outros Estados-membros a intensificarem também a vigilância e organizou um workshop para formar investigadores e médicos de todo o continente sobre como diagnosticar a doença e realizar análises genómicas do vírus.

Não se sabe se a febre Oropouche matou alguém, mas algumas suspeitas de morte estão sob investigação, afirma o virologista da Fiocruz, Felipe Naveca. “À medida que aumenta o número de pessoas infectadas, aumenta também a chance de descobrirmos impactos inesperados”, diz Naveca, que observa que o Zika, uma doença que inicialmente parecia relativamente inócua, levou a uma onda de bebês nascidos com cérebro subdesenvolvido de mulheres infectadas com o vírus. O vírus Oropouche também pode infectar o cérebro, ressalta.

Controlar Oropouche é um desafio. C. paraensis é “um vetor negligenciado de uma doença negligenciada”, diz Joaquim Pinto Nunes Neto, entomologista do Evandro Chagas. “Ninguém se importou em estudar como controlá-lo.” Os minúsculos mosquitos passam facilmente pela malha dos mosquiteiros e os repelentes comuns de insetos podem não funcionar, diz Nunes Neto. O que pode ajudar é eliminar o desperdício de alimentos e as folhas mortas que atraem os insetos e drenar os reservatórios de água onde as fêmeas depositam os ovos.

Até onde a doença pode se espalhar não está claro. C. paraensis foi encontrado desde os Estados Unidos até o norte da Argentina, mas nem todos os lugares apresentam as condições adequadas para a propagação do Oropouche. Um modelo publicado em 2023 por Romero-Álvarez que levou em consideração o clima atual e a perda de vegetação sugeriu que até 5 milhões de pessoas nas Américas estão em risco . Mas o número é provavelmente subestimado, uma vez que o modelo não previu a atual expansão da doença para grandes cidades como o Rio de Janeiro e não teve em conta a desflorestação e as alterações climáticas futuras. Também não levou em conta a possibilidade de que o mosquito doméstico comum ( Culex quinquefasciatus ) – e talvez outros insetos – possam transmitir o Oropouche, como sugerem alguns estudos.

Os cientistas temem que, à medida que o vírus se espalha, possa sofrer alterações genéticas que o tornem mais perigoso. Os genomas da maioria dos vírus transmitidos por insetos consistem em apenas um segmento de RNA, mas o vírus Oropouche possui três. Quando duas cepas diferentes infectam a mesma célula, elas podem trocar segmentos, resultando em uma combinação nova e diferente de genes. Naveca, que lidera um grupo que rastreia mutações de Oropouche, atribuiu o atual surto a uma variante que surgiu no Brasil em 2015 a partir de um rearranjo entre linhagens de vírus do Peru e da Colômbia. Não está claro se essa troca tornou o vírus mais transmissível, diz Naveca.

Com tantas perguntas a responder, é urgente que os testes sejam alargados e que mais investigadores estudem o vírus Oropouche e rastreiem as alterações no seu genoma, Naveca diz: “Precisamos tirar este vírus das sombras”.

Sofia Moutinho é jornalista científica no Rio de Janeiro


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Fonte: Science

Dias cinzentos

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Por Gilce Sampaio

Era noite, estava dormindo tranquila quando fui acordada pela chuva forte. Enquanto para muitas pessoas é convidativo dormir com chuva, para os gaúchos é assustador.

Moro em uma região que não foi tão atingida dessa vez, mas o trauma do que vivi no dia 12 de julho de 2023 agregado a tudo que tem acontecido ultimamente, me fez mais do que perder o sono, ficar em alerta.

Corri para o quarto da minha filha pequena, que já estava acordada e assustada, para acalmá-la. Ela se aninhou nos meus braços tampando os ouvidos tentando não ouvir o temporal. Enquanto eu dizia para ela que tudo iria ficar bem, mentalmente eu rezava para Deus e para a Mãe Natureza ter piedade de nós e não levar o telhado da nossa casa, como tinha acontecido para muitos em Campo Novo e no Município vizinho Sede Nova.

Diferente deste mês de maio, daquela vez estávamos quase entrando em férias, sou professora e naquele dia eu tinha aula só até o recreio, ou seja, até o meio da tarde. Exatamente a hora que iríamos ser atingidos pelo Ciclone.

Estava dando aula para o ensino médio em Bom Progresso, município que fica a cerca de 10 minutos de Campo Novo. Parecia ser mais um dia normal de inverno: com chuva e frio, um dia cinzento. Por aqui somos acostumados, ou éramos, acostumados a ficar mais de quinze dias debaixo ou dentro das nuvens.

Porém, minutos antes de acabar a aula e dar o sinal para o recreio, a chuva se intensificou com raios e trovões, tivemos uma queda de luz e, um estudante percebeu que seu celular estava tocando sem parar. Pediu licença para pegá-lo na mochila. Era o pai dele que estava ligando. Pediu licença e foi atender fora da sala de aula mas o suficiente para escutarmos a conversa.

-“Como?

-Calma pai!

-Meu Deus!

-Paaiii!”

Ele voltou atordoado para a sala de aula. Parecia não estar falando coisa com coisa: “- Meu pai disse que os porcos estavam voando, que tudo estava voando, que não temos mais nada…E a ligação caiu!” Naquele momento a luz também e não voltaria mais durante alguns dias.

Havia um som ensurdecedor e nada mais funcionava, nem internet, nem sinal de celular. Dou aula de geografia e tive um insight onde entendi que a trajetória do vento passando por Sede Nova, a propriedade do meu estudante, seguiria para Campo Novo onde estavam quase todas as pessoas que eu mais amo.

Enquanto todos corriam para se abrigar no lugar mais seguro da escola eu peguei o meu material e entrei no meu carro. A chuva era cada vez mais torrencial e o vento inexplicável, mas eu não estava nem um pouco preocupada comigo. Era instintivo.

Quando eu estava na estrada a caminho de Campo Novo eu vi passar pela minha frente o vento castanho avermelhado levando – semelhante a cor da nossa terra – tudo o que tinha pela frente, postes, o telhado da Empresa Três Tentos e, como se estivesse hipnotizada eu continuei dirigindo o meu carro até que o carro e o caminhão pequeno que estavam na minha frente pararam no meio da pista, as árvores que costeavam a rodovia estavam no chão, impedindo a passagem para qualquer lado. Eu queria continuar andando porque de onde eu estava eu via tudo aquilo chegando em Campo Novo.

Mas se eu saísse do carro o risco de morte era muito grande, porque a chuva e vento continuavam. Aí desabou sobre mim a sensação de impotência, a percepção de somos nada diante da força da natureza e eu chorei sozinha no carro entre uma fila de outros veículos que balançavam com a força do vento e chacoalhava as últimas certezas absolutas que tinha na vida, como de que poderia controlar muita coisa.

Como que eu não percebi que isso iria acontecer, estava nítido, todo esse desmatamento, a mudança do curso dos rios, mudamos até os rios voadores, que idiota pensar que não iria acontecer conosco o mesmo que aconteceu com quem já fez isso antes, como nos EUA.

Fiquei presa naquela fila na estrada durante mais de uma hora e meia, até que a Defesa Civil e os Bombeiros conseguiram tirar uma quantidade de árvores que permitisse passagem em mão única. A sensação de liberdade de quanto tivemos a autorização de continuar a 20km por hora, foi imediatamente substituída pelo terror das imagens do que havia sobrado ao redor: sequência de postes de energia quebrados ao meio, um capão de mato inteiramente retorcido, com troncos de árvores centenárias que pareciam ser de uma maquete de filme de terror. Restos de placas, madeiras de casas ou galões que tinham que ser desviados ao longo da pista.

Na entrada da cidade de Campo Novo tinha muitos galhos e folhas no chão, quando fui me aproximando da escola da minha filha vi fios de luz esparramados por todos os lados, e uma árvore com as raízes para cima, como se o vento tivesse puxado e invertido ela, a vice- diretora da tarde estava no portão, saí do meu carro sentido o meu coração na boca, nos ouvidos… Já que árvores tinham caído sobre o telhado. Ouvi ela dizer:- Acho que essa foi a última, não tem mais nenhuma criança na escola. Quando cheguei junto a ela mal conseguia falar, mas nos entendemos pelo olhar e, ela me disse: Teu marido levou ela, ela só está assustada, mas está bem, ninguém se feriu. É um milagre!

Fui até a casa da minha mãe, ela não estava em casa, mas aparentemente não havia grandes estragos, nem na casa do meu irmão que mora ao lado dela, segui para a minha casa, pela rua de baixo, aí voltei a me assustar, uma árvore imensa tinha caído e derrubado postes e fios, mas a nossa casa não foi atingida. Não tinha ninguém na minha casa também, sem celular e ser internet fui até a casa do meu irmão mais velho, que aparentemente parecia estar intacta, mas ao descer até a esquina enxerguei o rastro da destruição, dois bairros inteiros tinham sido radicalmente atingidos.

Nunca vi nada igual aquilo, e as pessoas ao redor do que do que havia sobrado estavam desoladas, perdidas, muitas chorando, e eu não sabia nada de ninguém da minha família ainda então voltei para a casa da minha mãe, meu marido coincidentemente também estava chegando lá, com a minha filha pequena junto, nos abraçamos como em um reencontro. Fomos para casa, logo minha mãe chegou com o meu padrasto contando que estavam todos bem.

Os dias seguintes continuaram sem luz e em muitas casas sem água, sem teto, sem nada. Muitas famílias foram para casas de parentes ou amigos, o Ginásio Municipal se tornou o principal ponto público de acolhimento.

Campo Novo e Sede Nova receberam doações de vários lugares. As pessoas reconstruíram suas casas, quem pode com maior segurança, mas nada será como antes. Agora sabemos que estamos na rota dos ventos e os cientistas dizem que isso irá acontecer novamente e cada vez com maior gravidade.

Como viver neste lugar sabendo disso? Talvez o mais racional fosse ir embora, ir para um lugar onde a natureza ainda não foi tão agredida, ir para um lugar mais seguro. Mas porquê poucos fazem essa escolha? A maioria de nós opta por ficar e reconstruir tudo no mesmo lugar porque queremos permanecer ligados às nossas origens, a essa conexão ancestral com esta terra, com estes costumes e histórias. O que as pessoas mais procuravam entre os entulhos eram fotos ou pequenos objetos que haviam elegido como relíquias pelo seu valor simbólico. Devido ao vento ter levado quase tudo que elas tinham de material, elas buscavam o patrimônio criado pelas suas vivências e memórias, aquilo que as identificam com o lugar ou a quem amam. Elas tentavam encontrar por algo que é imaterial, para seguir a vida, algo que lhes devolvesse a fé ou esperança.

E, sem dúvida a resiliência é importante e necessária para nos reerguemos diante atrocidades ou catástrofes. No entanto, com esse sentimento também necessitamos de conhecimento e novas atitudes. Diante do que passamos e do que sabemos é irracional reconstruir a casa do mesmo jeito e no mesmo lugar. É preciso criar uma nova relação com a natureza, com mais respeito e humildade, para que talvez, daqui alguns anos, possamos voltar a dormir tranquilos em noites de chuva.

 

* Gilce Sampaio é professora de História da Educação Básica e Mestre em Arqueologia e Patrimônio Cultural

O poder das árvores na mitigação de inundações

arboles-inundaciones-1-996x567Mais de 580 mil pessoas estão desabrigadas e mais de 2,3 milhões foram afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, sul do Brasil. As inundações podem ser mitigadas com ações locais baseadas nos recursos naturais, como preservação e plantio de árvores. Crédito da imagem: Thales Renato/Midia NINJA , licenciado sob Creative Commons CC BY-NC 2.0 Deed

Por Luiz Felipe Fernandes para a SciDev 

[GOIÂNIA] Enquanto o Sul do Brasil enfrenta uma das piores tragédias de sua história, causada por chuvas intensas que elevaram o nível dos rios e causaram enchentes devastadoras, alguns especialistas lembram a importância das árvores para a prevenção e mitigação do impacto da subida das águas .

Mais de 90% das 497 cidades do estado do Rio Grande do Sul, que faz fronteira com o Uruguai e a Argentina, foram afetadas. Até 31 de maio, a Defesa Civil do estado já havia confirmado 169 mortos e 806 feridos. Mais de 580 mil pessoas estão desabrigadas e mais de 2,3 milhões foram afetadas de alguma forma.

O problema não é isolado. Neste momento, a Colômbia também enfrenta inundações e inundações, especialmente com as chuvas que provocaram o rompimento da barragem de Caregato, na região de La Mojana, no departamento de Bolívar.

Consequência direta de fenômenos climáticos extremos derivados do aquecimento global , as enchentes que atingem diversos países podem ser mitigadas com ações locais baseadas nos recursos naturais, como a preservação e o plantio de árvores.

“As árvores são algumas das ‘pontes’ mais importantes para um futuro com um clima estável num planeta habitável”, disse a diretora executiva do Centro Internacional de Pesquisa Florestal e Agroflorestal Global (CIFOR-ICRAF), Éliane Ubalijoro, em recente artigo de opinião.

Especialista em agricultura e genética molecular, Ubalijoro explicou ao SciDev.Net que as árvores aumentam a matéria orgânica do solo, transformando-a em uma “esponja” capaz de absorver até 50 vezes mais água em comparação com solos degradados.

“Essa barreira [de árvores, arbustos e outras plantas] garante um processo de desaceleração do fluxo de água que se desloca na superfície. Isso permite uma absorção de água mais eficiente e também contribui para reduzir os picos de inundação.”

Karla Maria Silva de Faria, professora do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (Iesa/UFG)

As raízes também fortalecem as camadas do solo, criando pilares naturais de apoio contra o movimento do solo. Além disso, as árvores podem reduzir os níveis de umidade do solo através da interceptação, evaporação e transpiração, diminuindo o risco de deslizamentos de terra.

Karla Maria Silva de Faria, professora do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (Iesa/UFG), no Brasil, acrescentou que a presença de árvores, arbustos e outras plantas nas faixas marginais dos canais de drenagem atua como uma barreira natural, contribuindo para a absorção da água da chuva e reduzindo a quantidade de água que correrá diretamente para os rios.

“Essa barreira garante um processo de desaceleração do fluxo de água que se desloca pela superfície. Isso permite uma absorção de água mais eficiente e também contribui para a redução dos picos de enchentes”, destacou Faria ao SciDev.Net .

Porém, a conservação e o plantio de árvores devem ser feitos com planejamento. Portanto, ao orientar as iniciativas de restauração e florestamento, o CIFOR-ICRAF defende a abordagem “árvore certa, no lugar certo, para o propósito certo”.

Segundo Ubalijoro, nem todas as árvores servem para todos os lugares. “A escolha das espécies e da localização é essencial para maximizar os benefícios da proteção contra inundações e aumentar a probabilidade de sobrevivência das plantações a longo prazo”, explicou.

Portanto, a seleção das espécies deve levar em consideração o ecossistema e as particularidades do relevo. A plantação de espécies de árvores grandes e pesadas demasiado perto de cursos de água, por exemplo, pode aumentar o risco de inundações.

Faria destacou que, no Brasil, a legislação prevê que o plantio de árvores esteja incluído no processo de ocupação. O especialista integra a equipe técnico-científica do Plano Diretor de Drenagem Urbana de Goiânia (PDDU-GYN), outra capital brasileira que sofre com inundações.

“O plano diretor preverá quais áreas serão ocupadas e indicará as estratégias do projeto de arborização e os mecanismos regulares de ocupação que evitarão problemas socioambientais”, observou.

A organização do espaço urbano deve ter em conta estes corredores naturais de prevenção de inundações. Faria explicou que as Áreas de Proteção Permanente (APP), que correspondem a faixas de vegetação marginal ao longo dos canais de drenagem, não devem ser ocupadas por atividades humanas, por serem áreas naturalmente sujeitas a inundações.

Os especialistas também destacam a necessidade de envolver as comunidades locais e outras partes interessadas no planeamento. A escolha de espécies que proporcionem benefícios à segurança alimentar e aos meios de subsistência, como frutas colhíveis, por exemplo, pode aumentar as chances de aceitação e proteção local.

O cumprimento da legislação e a criação de mais dispositivos legais para a preservação ambiental são o foco das discussões sobre o problema que ocorre no Sul do Brasil, diante das acusações que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem flexibilizado o regime de proteção jurídica para APLICATIVOS. O governador foi chamado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para prestar esclarecimentos.

Além dos efeitos locais nos centros urbanos, as árvores são importantes aliadas na mitigação dos problemas climáticos globais. “As árvores são as máquinas mágicas de que precisamos para combater as alterações climáticas . São essenciais para reparar os nossos sistemas alimentares danificados, fornecer alimentos, nutrientes e pontos críticos de biodiversidade e apoiar a agricultura sustentável ”, concluiu o diretor executivo do CIFOR-ICRAF.


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Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe do  SciDev.Net 

Estudo mostra que oceanos enfrentam uma “ameaça tripla”: calor extremo, perda de oxigênio e acidificação

Um terço da superfície oceânica do mundo é particularmente vulnerável a ameaças causadas pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento, segundo uma nova pesquisa

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“Os oceanos não são apenas um belo cenário para as tuas selfies no verão, nós dependemos deles para as nossas vidas”, disse um cientista. Fotografia: hdere/Getty Images 

Os oceanos do mundo enfrentam uma “ameaça tripla” de aquecimento extremo, perda de oxigênio e acidificação, com condições extremas a tornarem-se muito mais intensas nas últimas décadas e a colocarem uma enorme pressão sobre a panóplia de vida marinha do planeta, descobriu uma nova investigação.

Cerca de um quinto da superfície oceânica do mundo é particularmente vulnerável às três ameaças que ocorrem ao mesmo tempo, estimuladas pela atividade humana, como a queima de combustíveis fósseis e a desflorestação, concluiu o estudo. Nos 300 metros superiores do oceano afetado, estes eventos compostos duram agora três vezes mais e são seis vezes mais intensos do que no início da década de 1960, afirma a investigação.

O principal autor do estudo alertou que os oceanos do mundo já estavam a ser empurrados para um estado extremamente novo devido à crise climática. “Os impactos disto já foram vistos e sentidos”, disse Joel Wong, pesquisador da ETH Zurique, que citou o conhecido exemplo da “bolha” de calor que causou a extinção da vida marinha no Oceano Pacífico. . “É provável que eventos extremos intensos como estes voltem a acontecer no futuro e irão perturbar os ecossistemas marinhos e a pesca em todo o mundo”, acrescentou.

A investigação, publicada na AGU Advances , analisou ocorrências de calor extremo, desoxigenação e acidificação e descobriu que tais eventos extremos podem durar até 30 dias, com os trópicos e o Pacífico Norte particularmente afetados pelas ameaças agravadas.

Os cientistas climáticos ficaram alarmados com o aumento implacável do calor no oceano, que atingiu níveis extraordinários nos últimos meses . “O calor tem estado literalmente fora de escala, é surpreendente ver”, disse Andrea Dutton, geóloga e cientista climática da Universidade de Wisconsin-Madison, que não esteve envolvida na nova investigação. “Não podemos explicar completamente as temperaturas que vemos no Atlântico, por exemplo, o que é parte da razão pela qual a temporada de furacões é tão preocupante este ano. É bastante assustador.”

Mas, para além do calor, que obriga os peixes e outras espécies a deslocarem-se, se puderem, para climas mais adequados, os oceanos também estão a pagar outro preço elevado por absorverem enormes volumes de calor e dióxido de carbono provenientes das emissões de combustíveis fósseis, o que caso contrário, aquecerá ainda mais a atmosfera para as pessoas em terra. O CO 2 extra está a tornar a água do mar mais ácida, dissolvendo as conchas das criaturas marinhas, bem como privando o oceano de oxigénio.

“Isso significa que a vida marinha está sendo expulsa de lugares onde consegue sobreviver”, disse Dutton. “Este artigo deixa claro que isto está a acontecer agora e que estas ameaças compostas irão empurrar os organismos para além dos seus pontos de viragem. As pessoas têm de reconhecer que os oceanos têm-nos protegido da quantidade de calor que sentimos em terra enquanto seres humanos, mas que isso não tem acontecido sem consequências.”

Dutton disse que a combinação de queda nos níveis de oxigênio, aumento da acidificação e aumento do calor dos oceanos também foi observada no final do período Permiano, há cerca de 252 milhões de anos, quando a Terra experimentou o maior evento de extinção conhecido em sua história, conhecido como a Grande Morte .

“Se olharmos para o registo fóssil, podemos ver que havia este mesmo padrão no final do Permiano, onde dois terços dos gêneros marinhos foram extintos”, disse ela. “Não temos condições idênticas a essas agora, mas vale ressaltar que as mudanças ambientais em curso são semelhantes.

“Os oceanos não são apenas um belo cenário para as suas selfies no verão, contamos com eles para as nossas vidas, é muito importante reconhecer isso”, acrescentou Dutton.


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Fonte: The Guardian