Fóssil de dinossauro premiado será finalmente devolvido ao Brasil

Após acusações de roubo, um museu alemão deve entregar um espécime de dinossauro único com estruturas semelhantes a penas

bira jubatus

O fóssil Ubirajara jubatus é um holótipo – um espécime modelo que define a espécie. crédito: Felipe L. Pinheiro

Por Meghie Rodrigues para a “Nature”

Após mais de dois anos de negociações, um polêmico fóssil está a caminho de casa. O espécime – que representa o primeiro dinossauro não aviário com estruturas semelhantes a penas encontrado na América do Sul – retornará ao Brasil em junho, de acordo com o Instituto Guimarães Rosa, de Brasília, órgão do Ministério das Relações Exteriores do Brasil voltado para a cultura e diplomacia educacional.

O fóssil de 110 milhões de anos, atualmente no Museu Estadual de História Natural de Karlsruhe, na Alemanha, está desde dezembro de 2020 no centro de uma disputa entre autoridades brasileiras e alemãs. e o Reino Unido publicaram um trabalho de pesquisa descrevendo o espécime e seu dinossauro, Ubirajara jubatus , na revista Cretaceous Research 1 . Os pesquisadores obtiveram o fóssil na década de 1990 na Bacia do Araripe, no Brasil, e o guardaram no museu alemão.

No entanto, o Brasil possui uma lei, promulgada em 1942 , que estabelece que os fósseis são de propriedade federal e não podem ser retirados de suas fronteiras sem permissão. Os autores do artigo disseram ter uma autorização de um funcionário da mineração brasileira permitindo a exportação do espécime de Ubirajara . Rafael Rayol, promotor público de Juazeiro do Norte, Brasil, que está trabalhando no caso Ubirajara , disse à Nature que não houve doação explícita do fóssil quando ele foi removido do Brasil. “Houve uma doação de caixas contendo algum material fóssil desconhecido”, disse ele. “Em teoria, é possível que Ubirajara estava naquelas caixas — de qualquer forma, a autorização emitida pelo antigo Departamento de Produção Mineral do Brasil na década de 1990 não seguiu os trâmites legais.”

Vai e volta

O caminho do fóssil de Ubirajara de volta ao Brasil foi longo e tortuoso.

Após a publicação do artigo na Cretaceous Research , uma campanha online com a hashtag #UbirajaraBelongsToBrazil pediu a devolução do espécime, citando o colonialismo paleontológico , no qual cientistas de nações ricas retiram fósseis de nações de baixa e média renda. Por ser o único espécime conhecido de seu tipo e estar bem preservado, os pesquisadores consideram o fóssil de Ubirajara um holótipo – um espécime padrão-ouro usado para descrever uma nova espécie.

A representação deste artista mostra como o Ubirajara jubatus , com lanças semelhantes a penas projetando-se de seus ombros, poderia ter sido. Crédito: Pavel Galvan

Os holótipos, em particular, são protegidos por uma lei brasileira de 1990 que proíbe sua exportação do Brasil. À luz das questões legais em torno do caso, a Cretaceous Research acabou retirando o artigo.

Em setembro de 2021, o museu de Karlsruhe disse que não repatriaria o espécime. O Ministério Público no Brasil então entrou com um pedido oficial ao governo alemão, pedindo a devolução do fóssil. Mas o Ministério Federal das Relações Exteriores da Alemanha emitiu uma nota em abril do ano passado afirmando que o país não o devolveria.

Em julho de 2022, no entanto, o estado alemão de Baden-Württemberg, onde está localizado o museu Karlsruhe, decidiu a favor da repatriação, em resposta a uma proposta da então ministra da ciência do estado, Theresia Bauer.

Segundo Gustavo Bezerra, conselheiro do Instituto Guimarães Rosa, o exemplar de Ubirajara deve ser entregue em junho ao Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, durante a visita de um oficial alemão. Este museu pegou fogo em 2018 após uma falha elétrica em seu sistema de ar condicionado e agora está sendo reconstruído.

“O museu quer a peça como uma contribuição para sua reconstrução”, diz Alexander Kellner, seu diretor. Mas ainda há alguma incerteza. O museu ainda não teve contato com o governo alemão sobre a transação, diz Kellner.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil disse à Nature que designou o Museu Nacional para receber o fóssil. A embaixada da Alemanha em Brasília disse à Nature que, no momento, parceiros brasileiros e alemães estão em “conversas em vários níveis” sobre como e em que contexto a entrega ocorrerá.

Uma nova era?

A comunidade científica brasileira espera que o retorno do fóssil de Ubirajara abra um novo capítulo para a paleontologia mundial.

“O retorno desse material significa muito”, diz Aline Ghilardi, paleontóloga da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em Natal, Brasil, e uma das pesquisadoras que liderou a campanha #UbirajaraBelongsToBrazil.

É uma “mensagem importante contra o colonialismo da ciência no século XXI e abre um forte precedente para que mais fósseis voltem aos seus países de origem”, diz ela. Mas ela teme que ainda haja batalhas a serem travadas sobre o “colonialismo interno” – em que instituições em regiões mais ricas de um país exploram as mais pobres. Em particular, ela está preocupada com o fato de o fóssil de Ubirajara ir para o Museu Nacional e não para o Museu Paleontológico Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, que fica próximo à Bacia do Araripe, onde o espécime foi coletado.

Para Hermínio Araújo, paleontólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e também presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia, a devolução do fóssil passa outra mensagem importante: ações como a de devolução de Ubirajara são importantes e mostram o poder que um comunidade pode ter quando “fala e denuncia tais situações”.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-023-01603-y

Referências

  1. Smyth, RSH, Martill, DM, Frey, E., Rivera-Sylva, HE & Lenz, N. Cretac. res . https://doi.org/10.1016/j.cretres.2020.104686 (2020).


Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Nature” [Aqui!].

O Porto do Açu e a extrema pobreza em São João da Barra: dados mostram que o tão prometido desenvolvimento econômico não passou de miragem

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Eike Batista e o lançamento da pedra fundamental do Porto do Açu no distante ano de 2006

Em função das minhas múltiplas tarefas semanais na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), acabei não cometendo mais uma excelente postagem vinda do blog do economista José Alves Neto. Me refiro ao texto em que ele aborda a prevalência da miséria extrema na região Norte Fluminense. Segundo dados apresentados pelo José Alves Neto, a  extrema pobreza afeta 17.294 pessoas ou 47,08% dos habitantes do município de São João da Barra (36.731), o que vem a ser o índice mais alto de todo o Norte Fluminense. José Alves Neto lembra ainda que  é justamente São João da Barra que abriga o Porto do Açu onde alegadamente foram investidos mais R$20 bilhões de desde 2014 e se deverá investir outros R$ 22 bilhões até 2033, conforme está anunciado no site do empreendimento.

Como tenho estudado o empreendimento com profundida desde que começou a sua implantação, sou obrigado a apontar para o fato de que a maior parte desses investimentos realizados serviram apenas para criar um enclave geográfico com pouquíssimo contato com as áreas externas pertencentes ao município de São João da Barra.

Além disso, a verdade é que, apesar de todo o dinheiro aplicado na custosa implantação do Porto do Açu, o empreendimento até hoje é  “mais espuma do que chopp”. Segundos dados levantados por movimentos sociais, o Porto do Açu funciona hoje com menos de um terço de sua capacidade na área de óleo e gás, reforçando o óbvio que é o fato de que todo o dinheiro ali investido pelo Estado brasileiro foi basicamente um grande desperdício econômico. É que, como mostram os dados levantados por José Alves Neto, o Porto do Açu não só não serviu para aliviar a extrema miséria, mas acabou retirando as fontes de geração da renda de milhares de famílias de agricultores e de pescadores artesanais que vivam modestamente, porém com dignidade, no território de onde foram defenestradas para a instalação do empreendimento.

A concorrência do Porto Central deverá aumentar a inoperância do Porto do Açu e agravar a extrema pobreza no Norte Fluminense

Mas como desgraça pouca é bobagem, o jornal “A Gazeta”  informou ontem (11/5) que o presidente do IBAMA, Rodrigo Agostinho, informou que foi emitida a licença de instalação do Porto Central que ficará sediado no município de Presidente Kennedy (ES).  O Porto Central é uma espécie de cópia minimizada do Porto do Açu, mas irá oferecer uma concorrência direta para um empreendimento que nunca esteve à altura das promessas mirabolantes de Eike Batista (ver imagem abaixo).

Porto Central colocará  o Estado no caminho de  mais cargas

Maquete do Porto Central que teve sua construção em Presidente Kennedy (ES) liberada pelo IBAMA

O pior é que estando localizado a apenas 160 km de distância rodoviária de São João da Barra, o Porto Central deverá agravar os problemas ambientais que já foram gerados nas áreas ao norte do Porto do Açu, atingindo diretamente as cidades de Bom Jesus de Itabapoana e São João da Barra o que, por sua vez, deverá agravar os problemas sociais, com o risco de aumentar ainda mais a extrema pobreza nesses dois municípios. 

Não tenho dúvidas de que o somatório desses dois portos irá causar estragos ainda incalculáveis para toda a região Norte Fluminense, mas principalmente para os segmentos que hoje se encontram nas piores condições de vida.   É que esses enclaves geográficos não estão sendo idealizados para gerar desenvolvimento regional, mas sim formas ainda mais absurdas de exploração dos territórios onde são instalados. Aliás, no dia de hoje foi iniciada mais uma greve de trabalhadores no Porto do Açu que demandam  reajustes de até 30% em algumas categorias, além de reivindicar melhores condições de trabalho. Como se vê, mais um bom exemplo de que a miragem não resiste a um exame mínimo dos fatos.

Degradação florestal deve ser foco da agenda ambiental, afirmam pesquisadores

Por meio de policy brief, grupo de pesquisadores defende a atualização do PPCDAm para alinhar combate à degradação e ao desmatamento de maneira eficiente.

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O combate à degradação florestal deve ser uma das prioridades do PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), principal projeto para conter o desmatamento no país, de acordo com o policy brief apresentado ao governo federal. O IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) integra o grupo de organizações que elaborou e entregou o documento ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) em 25 de abril.

A degradação florestal é o processo de deteriorização das florestas remanescentes da Amazônia, resultado de distúrbios causados pela ação humana, como o fogo e a exploração madeireira ilegal. Enquanto o desmatamento remove toda a vegetação de uma área, a degradação mantém alguma parte, mas em um estado enfraquecido e ainda mais vulnerável, podendo contribuir para queimadas de grande extensão e perda de biodiversidade, por exemplo.

Entre 1992 a 2014, foram degradados 337.427 km², enquanto o desmatamento atingiu 308.311 km², segundo o policy brief. Áreas degradadas também respondem por um volume de emissões de CO² semelhante ao das áreas desmatadas. Pesquisas estimam que florestas degradadas bombeiam um terço a menos de água para a atmosfera do que florestas intactas, afetando diretamente o abastecimento hídrico e a produção de chuva em diversas regiões do país.

“O policy brief demonstra claramente que a situação das florestas da Amazônia vai muito além do desmatamento. A degradação, e principalmente aquela causada por incêndios florestais e a exploração madeireira desordenada, causa impactos que devem ser levados em consideração”, afirma a diretora de Ciência do IPAM e uma das autoras do documento, Ane Alencar.

Atualmente, as políticas públicas brasileiras estão concentradas no controle e na redução do desmatamento. Contudo, as características do fenômeno de degradação tornam ações focadas no combate e na fiscalização do desmatamento pouco eficazes, segundo o estudo, que também responde algumas concepções equivocadas sobre as florestas degradadas.

“A degradação acaba sendo um mal invisível. Ouvimos muito falar de cortes rasos, desmatamento e queimadas, mas muito pouco sobre a degradação que vai destruindo as florestas e minando os estoques de carbono, a biodiversidade, os serviços ecossistêmicos. Isso fica imperceptível até nos satélites que monitoram as florestas”, aponta Alencar.

Propostas

O policy brief apresentado pelos pesquisadores busca o aprimoramento das técnicas de mapeamento de florestas degradadas e defende a criação de um fundo de emergência capaz de apoiar a proteção de áreas degradadas consideradas prioritárias. O documento defende a criação de mecanismos específicos para garantir a qualidade das áreas dentro de reservas legais e outras áreas protegidas, além da necessidade de um grupo de trabalho técnico-científico que atue junto ao MMA no desenvolvimento de novas políticas.

“O principal ponto são as recomendações que nós fazemos com medidas específicas para o controle do problema da degradação amazônica. Recomendamos que seja criada a lista dos municípios que mais degradam e o aperfeiçoamento dos métodos de monitoramento. Temos as ferramentas e o conhecimento para isso e é possível aplicar”, destacou a pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, Joice Ferreira.

Para os pesquisadores envolvidos na criação do documento, a cooperação entre institutos de pesquisa públicos e civis, órgãos de fiscalização e autoridades é parte fundamental do combate à degradação. Nesse sentido, as atualizações sugeridas ao PPCDAm permitiram a união entre as técnicas desenvolvidas por pesquisadores e os bancos de dados mantidos pelo poder público.

“O governo pode atuar auxiliando com dados para que áreas consumidas pela degradação da atividade madeireira sejam monitoradas e fiscalizadas. Existem áreas, por exemplo, em que a extração irregular de madeira é indicada por inconsistências nos dados apresentados pelas empresas. É importante que tenhamos ferramentas e mecanismos que consigam monitorar essas áreas para que a gente qualifique o debate à degradação”, destaca o pesquisador do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), Dalton Cardoso.

policy brief foi resultado do encontro “Degradação das florestas amazônicas: um diálogo entre ciência e sociedade em busca de soluções”, ocorrido em Belém (PA), no mês passado. Participaram da elaboração, além do IPAM, CEMADEN (Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais), Museu Paraense Emílio Goeldi, EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), SEMA-PA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente) do Pará, Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), Woodwell Climate Research Center, UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), Universidade Federal Rural da Amazônia, NASA (National Aeronautics and Space Administration), UFPA (Universidade Federal do Pará), Universidade de Yale, Universidade de Oxford e Universidade de Lancaster.

Abril registra queda de 67.9% no desmatamento na Amazônia, em relação ao mesmo período em 2022

Dados do sistema Deter-B mostra 329 km² de alertas de desmatamento em abril de 2023, a menor taxa nos últimos três anos

unnamed (2)Floresta próxima ao Rio Manicoré, no sul do Amazonas – Foto: Valdemir Cunha / Greenpeace Brasil

São Paulo, 12 de maio de 2023 – Divulgados nesta sexta-feira (12), dados do sistema Deter-B, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apontam uma queda de 67,9% nos alertas de desmatamento na Amazônia, em comparação ao mesmo período no ano passado. Ao todo, foram registrados 329 km² de alertas de desmatamento, sendo a menor taxa dos últimos três anos. Os estados do Amazonas (89 km²), Pará (86km²) e Mato Grosso (80km²) foram os estados com maiores alertas em abril de 2023.

A queda, entretanto, não significa que o desmatamento esteja mais brando. Ao contrário, as áreas de alertas acumuladas continuam muito altas. “Se considerarmos o período fiscal do desmatamento que determina a taxa oficial publicada anualmente, que vai de agosto de 2022 a julho de 2023, este acumulado até abril, em comparação com os anos anteriores, é o maior da série histórica iniciada em 2015, registrando 5.977 km² de alertas de desmatamento”, declara Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil.

O que explica a queda no desmatamento

Alguns fatores podem explicar esta queda significativa nos alertas de desmatamento no mês de abril, como a cobertura de nuvens, considerando que em abril de 2022 esse dado não estava disponível para todo o mês, e algumas iniciativas do governo federal, e de alguns estados da Amazônia, em defesa do meio ambiente, que inclui a ação coordenada de combate ao garimpo ilegal, exploração ilegal de madeira e outros ilícitos ambientais, considerando que tais práticas criminosas também contribuem para o avanço da destruição das florestas. Além disso, houve reestruturação nos ministérios e um aumento significativo no número de atividades de fiscalização ambiental, resultando no aumento de multas e áreas embargadas nos últimos meses.

Entretanto, para continuar avançando na premissa de zerar o desmatamento, o Brasil precisa de uma frente de trabalho estruturada e tecnológica para o combate ao desmatamento na Amazônia: “É muito importante ter um trabalho integrado entre diversos órgãos, atuando no comando e controle no chão da floresta. Mas é preciso promover inovações tecnológicas, legais e infralegais, considerando que a destruição da floresta hoje é operacionalizada por meios tecnológicos inovadores. Além disso, é preciso atuar diretamente na fiscalização de instituições financeiras que têm coparticipação direta no aumento do desmatamento”, finaliza Rômulo.

Estudo publicado pela Frontiers in Public Health relaciona dieta contendo alimentos contaminados por agrotóxicos ao desenvolvimento de câncer no Brasil

agrotoxicos

A partir dos últimos dados publicados liberados em 2018 pelo “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos” (PARA), um grupo de pesquisadores de diferentes instituições públicas de ensino superior do Paraná e de Santa Catarina, do Instituto Nacional do Câncer e da Universidade de Montréal do Canadá produziram um estudo publicado na revista científica Frontiers in Public  Health que lança luz sobre o consumo de alimentos contaminados por diferentes tipos de agrotóxicos e sobre o risco de desenvolvimento de diferentes tipos de câncer associados diretamente à dieta alimentar dos brasileiros.

Uma das novidades deste estudo é que os pesquisadores não apenas identificaram o número de agrotóxicos presentes em cada alimento analisado , mas também apontaram os tipos de câncer que estão relacionados a cada um desses agrotóxicos. Além disso, o estudo aponta para a necessidade de que se leve em conta a interação que acaba ocorrendo no organismo dos indivíduos que consomem múltiplos tipos de agrotóxicos, cada um deles sendo potencial causador de diferentes formas de câncer (ver figura abaixo).

alimentos residuos

Os autores alertam para a gravidade do problema relacionado à exposição a alimentos contaminados por agrotóxicos e lembram que “aproximadamente 80% dos agrotóxicos autorizados no Brasil não são permitidos para uso em pelo menos três países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), incluindo países que têm a agricultura como atividade econômica essencial”.   O problema é que várias das principais empresas fabricantes dessas substâncias proibidas estão sediadas em países que são fornecedores diretos de agrotóxicos utilizados em larga escala pelo latifúndio agro-exportador no Brasil e na maior parte do chamado Sul Global.

Os autores argumentam ainda que a exposição a agrotóxicos no Brasil viola muitos direitos humanos da população, na medida em que o direito à vida é potencialmente violado quando os agrotóxicos contaminam os alimentos e a água para consumo humano. 

O que mostrará o PARA após quatro anos de liberou geral do governo Bolsonaro?

Há que se lembrar que o PARA ficou paralisado durante os quatro anos de governo de Jair Bolsonaro, o mesmo período em que foram liberados 2.030 agrotóxicos, muitos deles inclusos na lista de agrotóxicos banidos na União Europeia. Como nesse período também foram afrouxados os mecanismos de comando e controle, o que inevitavelmente deve ter aumentado o uso descontrolado de agrotóxicos, inclusive naquelas culturas produzidas para abastecer o mercado interno de frutas e legumes.

A questão é que muito certamente a próxima edição do PARA deverá trazer informações que confirmarão a extrapolação dos limites considerados seguros para a presença de resíduos de agrotóxicos nos alimentos consumidos pelos brasileiros. E com isso, como mostrado neste estudo, a chance de que as relações de sinergia entre os diferentes agrotóxicos presentes nos alimentos produzidos para alimentar os brasileiros também estejam mais aceleradas não é nada desprezível.

Garimpo ilegal significa etnocídio, corrupção e destruição

etnocidio-mineria-996x567Os povos indígenas da Amazônia brasileira estão seriamente ameaçados em sua saúde e integridade pela mineração ilegal. Crédito da imagem: Tainá Xavier/Apib Comunicação , sob licença Creative Commons (CC BY-SA 2.0)

Os dados são do relatório da Aliança em Defesa dos Territórios, resultado de uma articulação inédita entre os povos Yanomami, Kayapó e Munduruku, os mais afetados pela mineração , com apoio técnico de pesquisadores do Instituto Socioambiental ( ISA ) .

A área ocupada pelo garimpo ilegal já supera a do garimpo industrial. O relatório destaca que em 2021 a mineração ilegal cobriu 106,6 mil hectares contra 97,7 mil ocupados pela mineração formal.

E revela que os números da produção irregular de ouro também superam os da produção legal. No Pará, estado que junto com o Mato Grosso concentra mais de 90 por cento das autorizações de exploração mineral do Brasil, “30,4 toneladas de ouro foram produzidas a partir da mineração, das quais 22,5 toneladas (74 por cento) foram extraídas de forma irregular”, aponta.

Segundo o documento, a falta de controle, a negligência das autoridades e a fragilidade das leis facilitaram irregularidades que vão desde a concessão de licenças para exploração de determinadas áreas por mineradoras até a falta de fiscalização das instituições financeiras autorizadas a comprar ouro.

“Toda a cadeia está contaminada. Observamos uma blindagem dos pontos de venda, um sucesso do lobby da mineração para que essas instituições não sejam obrigadas a informar de onde vem o ouro”, disse à SciDev.Net a antropóloga Luisa Pontes Molina, pesquisadora do ISA e organizadora do relatório. .

Ela reconhece que o garimpo ilegal vem crescendo em diferentes momentos, como durante a alta do ouro na crise mundial de 2008. Mas, segundo a antropóloga, o trabalho dos garimpeiros se expandiu durante o governo Jair Bolsonaro.

“A partir de 2019, a mineração saiu do controle e avançou”, diz. “Avançar implica o uso de maquinários, o recrutamento de indígenas e o desmonte total dos órgãos de controle”, esclarece.

Segundo Molina, a mineração funciona como um mecanismo etnocida: uma tentativa de apagar a cultura e as especificidades desses povos.

Estima-se que mais de 20.000 invasores tenham entrado nos territórios Yanomami nos últimos anos, gerando violência, doenças e mortes, culminando na relatadacrise humanitáriano início de 2023.

Segundo o Ministério da Saúde, até 30 de abril, houve 97 mortes indígenas por doenças infecciosas, desnutrição e outras causas, 45% das quais em menores de quatro anos: 21 meninas e 23 meninos. As mortes ocorreram nos povos Yanomami (76 óbitos), Sanuma (17), Ye’kuana (2), Shiriana (1) e Shirixana (1).

No Brasil, é o lar de mais de 1,6 milhão de indígenas. Milhares deles se reuniram em Brasília entre os dias 24 e 28 de abril na 19ª edição do “ Acampamento Terra Livre ”, evento organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil ( Apib ) sob o lema de demarcação de territórios.

No final de abril, milhares de representantes dos povos indígenas se reuniram em Brasília, na 19ª edição do “Acampamento Terra Livre”, solicitando a demarcação de seus territórios, entre outras reivindicações. Crédito da imagem: Christian Braga/MNI , licenciado sob uma licença Creative Commons (CC BY-SA 2.0) .

Em seudiscurso de encerramentodo evento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que seu governo trabalhará para demarcar “o maior número possível de terras indígenas” nos próximos quatro anos. Após seu discurso, Lula aprovou o reconhecimento de seis terras indígenas e prometeu combater o garimpo ilegal. Durante o mandato do ex-presidente Bolsonaro não houve demarcação de territórios indígenas.

Por sua vez, a líder indígena e chefe do Ministério dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, afirmou que 10% das terras reconhecidas estão nas mãos do garimpo ilegal, do narcotráfico e sob a modalidade denominada “grilagem”, ou seja, posse de terras estrangeiras por meio de títulos falsos, o que, em sua opinião, “deixa claro que o Estado não estava atento aos nossos povos”.

Para Luisa Molina, fazer apenas operações pontuais não adianta, pois é preciso articular todos os órgãos de controle, além de somar esforços com os países fronteiriços por onde transitam garimpeiros ilegais e que fazem parte das rotas do tráfico de mercúrio na região metal utilizado para separar o ouro dos sedimentos e que, por ser altamente tóxico, causa sérios problemas ambientais e de saúde .

“É preciso conter mais poluição, preservar a terra e evitar impactos futuros no meio ambiente e nos grupos vulneráveis”.

Luis Fernández, diretor executivo do Centro de Inovação Científica da Amazônia

Para o ecologista Luis Fernández, diretor executivo do Center for Amazon Scientific Innovation (CINCIA)da Wake Forest University, na Carolina do Norte, Estados Unidos – iniciativa que investiga os impactos da mineração artesanal e da contaminação por mercúrio na Amazônia peruana–, não há “ pílula mágica ou solução rápida”.

Antes de tudo, mais poluição precisa ser contida , para preservar a terra e evitar impactos futuros no meio ambiente e nos grupos vulneráveis”, disse ele ao SciDev.Net.

Fernández explica que o mercúrio é um elemento muito persistente que pode ser transportado pela água e pelo ar. “Ele é quase 100% absorvido, incorporado e contamina a cadeia alimentar. Há estudos que mostram que atinge mais de 500 quilômetros rio abaixo e dura centenas de anos”, especifica.

Sua emissão no ar é produzida pela queima de amálgamas, processo utilizado para liberar o ouro da mistura formada com o mercúrio. Um estudo mostrou que florestas intactas na Amazônia peruana perto de minas de ouro absorvem mercúrio e também se contaminam, acumulando altos níveis do elemento na atmosfera, folhas e solo.

Segundo o relatório da Aliança, a solução para o controle da mineração passa por maior fiscalização, bloqueio de rotas de tráfico ilegal, destruição de pistas clandestinas, meios de transporte e maquinário, além da interrupção de serviços como a internet para garimpo em territórios indígenas.

Link para a reportagem Terra Rasgada: Como avança a mineração na Amazônia brasileira (em português)

Este artigo foi produzido pela edição América Latina e Caribe de  SciDev.Net


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Este texto escrito originalmente em espanhol foi publicado pela SciDev [Aqui!  ].

Agronegócio e congresso agem juntos e misturados para manter retrocessos ocorridos durante o governo Bolsonaro

Autor do livro ‘Formação Política do Agronegócio’, o antropólogo Caio Pompeia explica como o Instituto Pensar Agropecuária multiplicou a influência do setor ao articular associações de fazendeiros a corporações empresariais, ampliando o poder da bancada ruralista no parlamento para interferir em reformas de Estado, políticas de alimentação e até na organização dos ministérios

Fire Monitoring in the Amazon in Brazil in September, 2021
Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Setembro de 2021

Gado pasta ao lado de área desmatada e recém-queimada em Candeias do Jamari, Rondônia, em setembro de 2021. Foto: Victor Moriyama/Amazônia em Chamas

Por Cristiane Fontes para o “Sumaúma”

Há quase dez anos, e minuciosamente, o antropólogo Caio Pompeia investiga o agronegócio brasileiro como um fenômeno político, tema de seu livro Formação Política do Agronegócio, lançado em 2021 (Editora Elefante). Em entrevista exclusiva a SUMAÚMA, o pesquisador, de fala suave e palavras escolhidas com cuidado, descreve como se deu a formação e a consolidação do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), estratégico para o fortalecimento da atuação política do agronegócio na última década. Com sede em Brasília, equipe especializada, agenda de trabalho permanente e orçamento de mais de meio milhão de reais por mês, o IPA é responsável pela convergência de discursos das elites regionais, nacionais e transnacionais do agronegócio e pela atuação empresarial-parlamentar que fortaleceu a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso.

Essa rede sustentou, por exemplo, ações orquestradas contra a demarcação de terras indígenas e a criação de Unidades de Conservação (UCs). Nos últimos anos, passou a tratar ainda de políticas públicas ligadas à alimentação, como sua tentativa de alterar o Guia Alimentar para a População Brasileira, para melhorar a imagem dos ultraprocessados – produtos apresentados como bebidas e alimentos que passam por processos industriais e sofrem a adição de substâncias, estando relacionados ao aumento de várias doenças e a problemas de saúde pública, como a obesidade.

Compreender como a aliança entre associações de fazendeiros e corporações de alimentos se fortalece cada vez mais é essencial para enfrentar a crise climática, que já levou ao aumento do número de eventos extremos, como o que, neste ano, matou e desabrigou pessoas e destruiu casas no litoral de São Paulo, no sudeste do Brasil, e no estado do Acre, na Amazônia. Estudo recém-lançado por cientistas norte-americanos, intitulado Future Warming from Global Food Consumption (Aquecimento futuro devido ao consumo global de alimentos), revela que, se os atuais padrões de consumo forem mantidos até o fim deste século, será adicionado 1 grau Celsius ao aquecimento global até 2100. Se isso acontecer, a meta de redução da emissão de gases de efeito estufa estabelecida pelo Acordo de Paris será severamente afetada. Os principais vilões são os alimentos com alto teor de metano (CH4), como carne e laticínios.

O metano é o segundo gás de efeito estufa mais abundante, depois do dióxido de carbono (CO2) – representa 17,6% das emissões globais. O Brasil é o quinto maior emissor de metano do mundo, e a agropecuária é responsável por 71,8% dessas emissões, geradas, majoritariamente, pelo processo digestivo do rebanho bovino, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima. Além disso, a agropecuária é a segunda maior fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil e o principal vetor de desmatamento e de conflitos fundiários, especialmente na Amazônia. De acordo com o último relatório da organização internacional Global Witness, de 2022, o Brasil foi o país mais letal do mundo para ativistas ambientais na última década.

Indígenas protestam contra a PEC 215 Na Esplanada Dos Ministérios, Brasília, Em novembro de 2015. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Atualmente vivendo na Inglaterra, professor visitante do Latin American Centre, da Oxford School of Global and Area Studies, Caio Pompeia pretende, ao longo de 2023, estudar como as diferentes correntes do agronegócio vão se reorganizar a partir da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se elegeu com um discurso pró-Amazônia e pró-enfrentamento da crise climática. A gestão do petista já começou bastante movimentada. Nas últimas semanas, representantes do agronegócio apresentaram emendas à medida provisória que reestrutura os ministérios sob Lula e que, se aprovadas, enfraquecerão órgãos como o Ministério do Meio Ambiente e aFundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O setor reagiu à fala do presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), o petista Jorge Viana, sobre a relação do agronegócio com o desmatamento na Amazônia durante recente visita à China e publicou uma nota de repúdio. Também acaba de ser aprovada na Câmara dos Deputados uma medida provisória que permite o desmatamento de vegetação primária e secundária em estágio avançado de regeneração na Mata Atlântica, hoje o bioma mais ameaçado do Brasil.

 

O antropólogo Caio Pompeia investiga o agronegócio brasileiro como um fenômeno político. Ele é autor do livro ‘Formação Política do Agronegócio’, Lançado em 2021 pela Editora Elefante. Foto: Divulgação

Segundo Caio Pompeia, o termo “ruralismo” não dá conta de explicar a complexidade desse bloco de poder que envolve o agronegócio no Brasil e “protege a reputação de corporações que exercem expressiva influência política, mas preferem não estar na vidraça”. “Evidentemente, [o termo ruralismo] tem a sua importância histórica e atual no Brasil, mas está longe de dar conta de identificar a participação, ao lado de fazendeiros, das grandes corporações agroalimentares nos espaços de concertação política em Brasília, que operam para definir posições que depois serão defendidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária”, afirma o antropólogo.

Setembro de 2020: homenagem ao então presidente da república, o extremista de direita Jair Bolsonaro, em Sinop, no Mato Grosso. Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

SUMAÚMA: O que seu trabalho de pesquisa revela sobre a agenda política do agronegócio no Brasil?

Caio Pompeia: Analiso o agronegócio como um fenômeno político dinâmico e heterogêneo, caracterizado tanto por conflitos quanto por articulações entre seus atores, como, por exemplo, a [articulação] que levou à retirada de Dilma Rousseff do poder [em 2016]. A mobilização contrária ao governo de Dilma começou em segmentos de bovinicultores com posições mais extremistas e distanciamentos mais ideológicos em relação aos governos petistas e levou aproximadamente um ano para ganhar espaço relevante na Frente Parlamentar da Agropecuária [FPA], no Conselho do Agronegócio da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] e até na própria Abag [Associação Brasileira do Agronegócio]. Em 2023, vou pesquisar como as diferentes correntes do agronegócio vão se reorganizar a partir da vitória de Lula.

Como se deu o fortalecimento da articulação política do agronegócio em Brasília?

Existia um escritório político ainda informal mantido por representações do algodão e da soja de Mato Grosso, juntamente com alguns poucos deputados da chamada bancada ruralista no Congresso Nacional. Foi esse escritório que, em 2011, se tornou o Instituto Pensar Agropecuária [IPA]. Com a consolidação do IPA, em meados dos anos 2010, houve mudanças importantes na representação de interesses do agronegócio em Brasília. A primeira foi colocar em processo convergente as elites dos sistemas alimentares no Brasil, disciplinando a captação de recursos, unificando os discursos políticos e organizando um aparato técnico mais robusto. Outra mudança importante foi o aluguel de uma grande casa no Lago Sul [bairro nobre de Brasília que concentra a maior renda per capita do país] e a montagem de uma equipe focada na representação de interesses empresariais, que deu impulso à especialização na defesa dos interesses desses atores. A terceira grande mudança foi o fortalecimento do núcleo estratégico da Frente Parlamentar da Agropecuária, composto de aproximadamente duas dezenas de parlamentares. Esse núcleo ampliou sua atuação em uma série de temas em que não tinha tanta capacidade de influência. É por meio do Instituto Pensar Agropecuária que o agronegócio se fortalece de maneira inigualada.

 

Brasília, 6 De outubro de 2021: Bolsonaro toma café da Manhã com a Frente Parlamentar da Agropecuária. Foto: Isac Nóbrega/PR

Mas o agronegócio já era um setor muito forte politicamente mesmo antes do IPA, não?

As elites agrárias detêm, historicamente, muito poder no Brasil, com certeza. Mas a articulação política sustentada delas com representantes de atividades industriais e terciárias, que caracteriza o agronegócio, foi perseguida desde os anos 1980 para enfrentar a perda de influência das cadeias de commodities [produtos primários] agropecuárias na política nacional, em razão de um conjunto de alterações econômicas no país. O IPA representa o êxito mais notável desse programa de articulação política. Com o IPA, o “agro” começa a ter maior incidência em temas nos quais antes era mais defensivo, como a agenda ambiental. Nos últimos anos, ampliou muito a atuação em inúmeros assuntos, passando, por exemplo, a tratar de políticas ligadas à alimentação, inclusive com movimentações para alterar o Guia Alimentar para a População Brasileira. Agora, no terceiro mandato de Lula, o agronegócio tem disputado, por exemplo, os rumos das principais reformas e a própria estrutura organizacional da Esplanada dos Ministérios, como estamos acompanhando.

Qual o papel e a participação das indústrias no Instituto Pensar Agropecuária?

O IPA nasceu como um escritório montado por entidades de representação da agropecuária, de fazendeiros. Durante as discussões sobre as mudanças no Código Florestal, algumas das corporações industriais começaram a participar mais ativamente e a contribuir financeiramente para o fortalecimento do instituto. Em 2015, houve uma mudança bastante relevante quando o Supremo [Tribunal Federal] proibiu o financiamento empresarial de campanhas eleitorais. Foi justamente depois dessa proibição que aumentou de forma significativa a presença de associações industriais que financiam o IPA. A partir de 2017, as indústrias passaram inclusive a ser preponderantes numericamente em comparação com associações de fazendeiros. E isso se revelou também no aumento da participação delas na liderança de algumas das comissões do IPA, como meio ambiente, questões agrárias, relações internacionais e alimentação.

Quais são as principais fontes de financiamento do IPA e qual é seu orçamento anual?

São os recursos transferidos mensalmente por cerca de meia centena de associações ligadas ao agronegócio que são membros do instituto. As transferências, somadas, superam meio milhão de reais mensais.

 

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e o deputado federal Pedro Lupion, na Cerimônia de posse da nova diretoria da Frente Parlamentar da Agropecuária, para o biênio 2023-2024. Foto: Divulgação

A atuação dessas comissões do Instituto Pensar Agropecuária tem correlação com a atuação da Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso?

Sim, justamente. A consolidação do IPA amplia a desestabilização das fronteiras entre o público e o privado na representação de interesses. O que ocorre é um processo conjunto de criação de propostas que possam ter efetividade política na capital do país. Anteriormente, atores empresariais do agronegócio tentavam construir uma posição de forma mais individual ou mais coletiva e, a partir disso, engajar o parlamentar A, B ou C para conseguir que aquela posição fosse defendida no Congresso. Agora, com o instituto, ocorre uma construção coletiva desde o começo. Um diálogo que é sistemático, com um conjunto de mediações, dentro desse casarão em Brasília. Há, portanto, uma construção que de saída é empresarial-parlamentar. O IPA é um bloco que organiza as principais elites regionais, nacionais e transnacionais do agronegócio no Brasil, assessoradas por agentes técnicos especializados e atuando juntamente com um núcleo de parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária. A partir dessas decisões empresariais-parlamentares, as bandeiras defendidas no Congresso se espraiam por meio de negociações com as presidências e lideranças partidárias das duas Casas do Congresso [Câmara e Senado], de trabalhos fragmentados com parlamentares e de negociações com lideranças do governo.

Como essa aliança pragmática do agronegócio se expressou em relação aos direitos territoriais dos povos indígenas e comunidades tradicionais?

A resistência aos direitos territoriais de povos indígenas e populações tradicionais é, obviamente, muito antiga e, regionalmente, envolve as elites agrárias, mas nos grandes fóruns intersetoriais do agronegócio isso ganhou expressividade. O caso da Raposa Serra do Sol [terra indígena situada no estado de Roraima, homologada em 2005, onde vivem os povos Ingarikó, Macuxi, Patamona, Taurepang e Wapichana] foi importante nesse sentido, pois, além de despertar muita animosidade por parte de elites do estado em que as disputas aconteceram, mobilizou líderes do agronegócio de todas as regiões do país que temiam que desdobramentos de decisões relacionadas a esse caso pudessem influenciar seus empreendimentos.

 

Mulher indígena protesta contra o Marco Temporal e o Pacote do Veneno no acampamento Terra Livre (ATL) realizado em Brasília em 2022. Foto: Mídia Ninja

O tema da demarcação dos territórios indígenas passou a ganhar maior notoriedade a partir de dois êxitos políticos [do agronegócio]: o enfraquecimento da criação de assentamentos rurais para fins de reforma agrária e a mudança do Código Florestal. Foi depois disso que eles [lideranças do agronegócio] decidiram que o próximo passo seria uma atuação orquestrada contrária à demarcação de terras indígenas, aos territórios de outras populações tradicionais e à criação de novas unidades de conservação.

Esse processo foi muito bem construído dentro do instituto ao longo dos anos seguintes, a ponto de ser montada, no Instituto Pensar Agropecuária, uma comissão de assuntos relacionados às questões fundiárias. A oposição aos direitos indígenas foi ganhando força na Frente Parlamentar da Agropecuária e passou a exercer uma influência considerável sobre o governo de Dilma Rousseff. É importante lembrar que nessa época teve muita relevância a tramitação no Congresso Nacional da Proposta de Emenda Constitucional [PEC] 215, que transfere os processos demarcatórios do Executivo para o Legislativo [a proposta foi arquivada depois de muita luta de organizações indígenas e socioambientais]. Esse processo ganhou ainda mais ímpeto com Michel Temer [MDB], mas foi durante o governo Bolsonaro que as posições anti-indígenas receberam um espaço de intervenção mais avançado.

Se até 2017 as agendas diziam respeito sobretudo a desmobilizar o reconhecimento dos territórios indígenas, a partir de então começa a ganhar força, em âmbito nacional, o intuito de abrir as terras indígenas já homologadas para a sua inserção em circuitos nacionais e internacionais de produção de commodities agropecuárias. Durante o governo Bolsonaro, como sabemos, houve estímulo à entrada de atores não indígenas com equipamentos, sementes e seus processos de produção em terras indígenas já homologadas.

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é favorável à demarcação de territórios indígenas. Qual o significado disso como contraponto à agenda do agronegócio no Congresso?

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que nasceu entre 2014 e 2015, não mencionava os territórios indígenas em seu manifesto de lançamento. A iniciativa passou a tratar desse tema principalmente no fim de 2018 e, desde então, tem chamado a atenção para isso em alguns de seus posicionamentos. Essa é uma mudança bastante relevante quando comparada às posições de representações do agronegócio que estão fazendo pressão contrária aos processos demarcatórios. Entretanto, não se notou até o presente momento uma atuação efetiva, com os instrumentos de pressão em Brasília, em prol desses direitos. É preciso que os posicionamentos sobre o tema ganhem maior concretude, sobretudo nos grandes embates travados no Congresso ou nos julgamentos do Supremo, e haja interlocução ampla e horizontal com os povos tradicionais. Em 2023, a Frente Parlamentar da Agropecuária tem como um de seus principais objetivos defender a “tese do marco temporal”, que condiciona as demarcações à comprovação de que os povos indígenas ocupavam suas terras em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. É importante que a coalizão mobilize seus instrumentos de influência, juntamente com sua inserção privilegiada na esfera pública, para fazer oposição efetiva a isso.

Como descreveria os posicionamentos de correntes do agronegócio nas eleições de 2022 e o que esperar nos próximos anos?

Uma boa parte das bases da agropecuária lideradas por sojicultores e bovinocultores teve uma adesão quase que irrestrita às agendas de Jair Bolsonaro no governo. Esses atores e suas entidades representativas, como a Aprosoja [Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso], são os que têm mostrado maior animosidade ao governo Lula. As principais razões de sua oposição ao atual governo são ideológicas, mas também estão ligadas a agendas fundiárias e ambientais.

A segunda corrente importante é formada por algumas das principais associações nacionais da agropecuária, com uma posição um pouco mais modulada, que eu chamaria de conservadora. Elas nutrem desconfiança significativa em relação a agendas do governo, mas são mais pragmáticas e menos fechadas a negociações.

Uma terceira corrente de atores, que eu tenho chamado de volúvel, é composta de grandes agroindústrias, tanto as nacionais quanto as transnacionais. Entre Lula e Bolsonaro, muitas preferiram Bolsonaro, mas foram hábeis politicamente, como costumam ser sempre, para dialogar e manter canais abertos com as duas candidaturas. Para elas, foi muito importante o aumento dos preços das commodities agrícolas. Esse aumento operou para contrabalançar algumas insatisfações com o governo Bolsonaro, como algumas derrapadas diplomáticas em relação à China. Existe, por parte das indústrias, uma preocupação com as relações capital-trabalho, como elas podem ser modificadas durante um governo petista.

Já os descarbonizadores, como tenho chamado a atuação de algumas associações nacionais do agronegócio, como a Abag [Associação Brasileira do Agronegócio], fizeram críticas claras ao governo Bolsonaro, principalmente a suas políticas antiambientais, porque são muito suscetíveis a riscos de imagem e a pressões de investidores, importadores e segmentos organizados da sociedade civil, em especial na Europa. Se elas rechaçavam Bolsonaro, tampouco queriam Lula. Esses atores optaram por fortalecer o que se convencionou chamar de terceira via, a candidatura de Simone Tebet [MDB], que apoiaram de maneira muito firme. Não que esperassem que ela pudesse vencer, mas achavam que ela contribuiria para levar as eleições para o segundo turno, o que de fato ocorreu, e, com seu apoio a Lula, se inserisse como líder influente dentro do governo.

Como poderá avançar a agenda de direito à terra no Brasil nos próximos anos, considerando-se o tamanho e a força da bancada ruralista?

É fundamental que os valores e as expectativas das pessoas que subiram a rampa do Planalto em 1º de janeiro de 2023 sejam de fato respeitados, entre eles os direitos territoriais dos povos indígenas e das populações tradicionais. Que o governo, nos momentos em que sofrer pressões ou tiver que arbitrar entre conflitos internos e dificuldades com sua base no Congresso, priorize esses direitos, porque, obviamente, são esperados conflitos.

É importante também que o governo implemente, já no início de seu mandato, ações vigorosas e de longo prazo para a promoção de atividades econômicas que sejam ambientalmente sustentáveis e socialmente justas. O anúncio, neste início de ano, da retomada dos processos demarcatórios em algumas terras indígenas é muito bem-vindo.

Seria muito pertinente também a criação de um centro estratégico estatal, como a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], com uma equipe especializada e com recursos substanciais, para que o país dê um salto, que pode dar, para fomentar atividades econômicas que contribuam para fortalecer a biodiversidade, manter as florestas em pé e respeitar os modos de vida e os mundos das populações tradicionais.

Durante um evento no ano passado, você afirmou que tem muita coisa misturada no que a gente chama hoje de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), práticas agrícolas mais sustentáveis e com baixa emissão de carbono. Que problemas você identifica no Plano e no Programa Agricultura de Baixo Carbono, que fazem parte da Política Nacional de Mudanças Climáticas?

Chamo a atenção para a necessidade de que sejam adotadas métricas mais claras quanto às práticas abrangidas na expressão “agricultura de baixo carbono”. Houve avanços muito expressivos com relação ao plantio direto na palha [técnica de semeadura na qual a semente é colocada no solo não revolvido], mais até do que no sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Há ainda muito espaço para ampliar a recuperação de pastagens degradadas. Todas essas ações têm relevância. Elas não são só questões técnicas, seus aspectos políticos também precisam ser considerados. É salutar, por exemplo, que pastagens que estão sendo subutilizadas pela pecuária extensiva possam ser incorporadas em outros processos produtivos, e espero que isso aconteça em escala. Agora, como está muito bem descrito na literatura nacional e internacional, parte dos atores que operam de forma muito significativa com ganhos de produtividade não abre mão da incorporação de novas terras. O que eu quero dizer com isso é que a ação específica de “baixo carbono” em si não garante que a pressão pela expansão horizontal [sobre florestas e outros ecossistemas] vá diminuir. É importante, portanto, que iniciativas técnicas que são bem avaliadas sejam tratadas em conjunto com ações políticas que desestimulem a especulação imobiliária em áreas rurais e a continuidade do avanço sobre vegetações nativas e territórios tradicionais. Além disso, como sabemos, os recursos para o Programa ABC+ e as linhas de financiamento do Plano ABC ainda são muito pouco representativos em relação ao total de crédito rural disponibilizado. Em 2023, é possível que a recuperação de pastagens degradadas ganhe impulso. Vamos ver como isso se traduzirá no Plano Safra [a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, têm discutido a inclusão de critérios do ABC no Plano Safra].

 

Uma grande Castanheira se mantém em pé cercada de campos desmatados para plantação, em Sinop, Mato Grosso. Foto: Pablo Albarenga

Com exceção dos movimentos sociais, tem havido um desuso proposital de termos adotados para descrever o setor agropecuário, como “latifúndio”?

As palavras, dependendo de como são mobilizadas, têm muito poder político-econômico. Vou dar outro exemplo. “Ruralismo” é um termo muito usado na esfera pública brasileira. Evidentemente, tem a sua importância histórica e atual no Brasil, mas está longe de dar conta de identificar a participação, ao lado de fazendeiros, das grandes corporações agroalimentares nos espaços de concertação política em Brasília, que operam para definir posições que depois serão defendidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária. Ou seja, esse termo está longe de dar conta do bloco de poder que lidera o agronegócio no Brasil e assim protege a reputação de corporações que exercem expressiva influência política, mas preferem não estar na vidraça.

Com o aumento da participação de mulheres indígenas na política institucional e a centralidade dada ao combate à crise climática no novo governo, como o setor deve se movimentar para manter o mote “o agro é pop”?

Elites dos sistemas alimentares lideram, desde o começo dos anos 2010, uma estratégia organizada para cativar corações e mentes no país. Com isso, disputam o imaginário nacional, com notórios desdobramentos políticos, econômicos, sociais e culturais. Essa tem sido uma operação parcialmente exitosa. É esperado que tais elites deem maior impulso às iniciativas comunicacionais, adaptando-as à nova configuração de forças no Brasil.

Revisão ortográfica (português): Elvira Gago
Tradução para o espanhol: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: James Young

 


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Sumaúma” [Aqui! ].

Racionalidade coreógrafica tem dia de campo na Faculdade Cândido Mendes com presença de responsável de comunidades do Porto do Açu

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Em meus estudos sobre os impactos socioambientais causados pela implantação do Porto do Açu, acabei de entrar em contato com o conceito de “Racionalidade Coreográfica” que vem a ser   cálculo deliberado da conformidade social aos interesses econômicos do mercado.  Em outras palavras, a racionalidade coreográfica é composta por  movimentos harmônicos que buscam promover um engajamento político das empresas em detrimento de uma responsabilidade social efetiva. Assim, por detrás da imagem de preocupação, o que prevalece mesmo é a usura e a busca da maximização de lucros estratosféricos.

Agora, graças a uma ação desenvolvida pela Faculdade Cândido Mendes em Campos dos Goytacazes, todos os que estudam os impactos de grandes empreendimentos portuários sobre comunidades locais terão uma espécie de “dia de campo” para melhor entender a aplicabilidade da “racionalidade coreográfica. É que dentro da “Jornada Profissional:  Açu Greenport“, os participantes terão um encontro face-a-face com o Gerente de Relacionamento com Comunidades do Porto do Açu Operações S/A, o biólogo Wanderson Primo (ver imagem abaixo).

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Como conheço o normalmente boa praça Wanderson Primo praticamente desde que cheguei para trabalhar na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) sei que ele terá uma narrativa bem alinhada à racionalidade coreográfica para, digamos, “vender o peixe” de responsabilidade sócio-corporativa do Porto do Açu.

O problema é que conhecendo um pouco da realidade em que as populações que tiveram o tremendo azar de ficar sob a sombra do Porto do Açu,  não há racionalidade coreográfica que resista ao exame dos fatos como eles realmente se dão no chão arenoso do V Distrito de Sâo João da Barra. E uma coisa para mim é certa, a única realmente “green” no Porto do Açu é o “greenwashing” (ou em português “lavar com tinta verde”) que é feito de forma meticulosa pelos donos do empreendimento para ocultar todos as consequências ambientais negativas que já foram causadas pela implantação e funcionamento do empreendimento.

Aliás, já que é de relacionamento com comunidades que Wanderson Primo deverá falar, reposto abaixo o vídeo mostrando a ação truculenta de polícias militares e de empregados da Gás Natural do Açu (GNA) contra agricultores que estabeleceram cultivos em áreas que estão sendo arrestadas para a implantação da chamada “faixa de servidão”.  Quem sabe o Gerente de Relacionamento com Comunidades do Porto do Açu possa explicar o porquê de tanta violência contra quem só quer produzir alimentos.

Rede Alerta Contra Desertos Verdes revela face nada amigável da Suzano Papel em cartilha

O que você precisa saber sobre a empresa Suzano Papel e Celulose

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A Suzano é uma multinacional brasileira que planta eucalipto para produzir celulose. Ela é uma das principais empresas do setor no mundo.

A Suzano se tornou a maior empresa de plantações de eucalipto no Brasil ao comprar, em 2018, a Fibria, seu principal concorrente. A Fibria, por sua vez, resultou da fusão, em 2009, entre duas outras empresas: a Votorantim Celulose e Papel e a Aracruz Celulose. Desde o ano 2018, 50% da empresa Veracel Celulose também pertence a Suzano.

Como resultado, as plantações de eucalipto da Suzano ocupam hoje uma área imensa, inclusive diversos territórios que pertencem a povos e comunidades indígenas, quilombolas e camponesas, que foram invadidos por essas empresas.

A Suzano é responsável por graves danos sociais, ambientais e climáticos, incluindo desmatamento, poluição e escassez da água, e destruição de terras férteis que deveriam produzir alimentos, dentre outros.

Leia esta cartilha e conheça alguns fatos importantes sobre a Suzano, fatos muitas vezes invisíveis por trás da máquina de propaganda dessa megaempresa.

Boa leitura!

Clique aqui para baixar a cartilha


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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Alerta contra Desertos Verdes [Aqui!].

Série sobre destruição da Amazônia, que investigou assassinato de Dom e Bruno, é finalista do Prêmio Pulitzer de jornalismo

O correspondente Terrence McCoy e o fotojornalista brasileiro Rafael Vilela formam parte da equipe que realizou a série “The Amazon, Undone”, publicada pelo Washington Post ao longo de 2022.  Nomeada na categoria Reportagem Explicativa, a série revela como o crime, a corrupção e acordos políticos promovem a destruição da maior floresta tropical do mundo

unnamed (2)Gado em uma área próxima a um desmatamento recente em uma propriedade privada no estado do Acre, Brasil. Foto: Rafael Vilela para o The Washington Post

São Paulo, maio de 2023 – Desde 1917, o Prêmio Pulitzer reconhece projetos e pessoas que realizam trabalhos de excelência na área do jornalismo, literatura e composição musical. No dia 8 de maio, os concorrentes e ganhadores da edição de 2023 foram anunciados por meio de uma live no canal oficial do Prêmio Pulitzer no YouTube. A série de reportagens The Amazon, Undone do jornal estadunidense Washington Post, conduzida pelo repórter Terrence McCoy, com participação do fotojornalista brasileiro Rafael Vilela, é finalista na categoria de Reportagem Explicativa. The Amazon, Undone conta detalhes sobre o desmatamento da Amazônia e como os poderes público e político estão diretamente ligados a isso, além de destacar os envolvidos por trás da destruição, as autoridades que permitem que eles operem com impunidade, o papel dos Estados Unidos e as implicações para o planeta, sempre trazendo o olhar dos indígenas para os temas abordados. A série documentou histórias em diversos estados brasileiros como Acre, Amazonas e Pará.

Além do Prêmio Pulitzer, a série foi laureada no George Polk, uma das maiores honras do jornalismo estadunidense, na categoria de reportagem ambiental. No Overseas Press Club, recebeu o prêmio Robert Spiers Benjamin por melhor reportagem em qualquer mídia na América Latina.

Os jornalistas dedicaram mais de um ano à execução do projeto. Entre os que participaram das matérias ao lado de Terrence Mccoy estão Rafael Vilela, Raphael Alves e Alexandre Cruz-Noronha, responsáveis por fotos e vídeos; Júlia Ledur, John Muyskens e Simon Ducroquet, para gráficos; e Cecilia deLago, para relatórios de dados.

Matthew Hay Brown foi o editor principal; outros editores e colaboradores importantes foram Chloe Coleman, pela edição de fotos; Alexa Juliana Ard e Avener Prado, pelo vídeo; Allison Mann, Joe Moore e Matt Callahan, pelo design e desenvolvimento; Kate Rabinowitz, Laris Karklis, Lauren Tierney e Monica Ulmanu, pelos gráficos; Julie Vitkovskaya e Jay Wang, pelo gerenciamento de projetos; Meghan Hoyer e Reinaldo Chaves, pela edição e análise de dados; Vanessa Larson e Martha Murdock, pela edição de textos; e Gabriela Sá Pessoa, pelo apoio à pesquisa.

Para o fotógrafo brasileiro Rafael Vilela, “o jornalismo é ainda uma das poucas ferramentas em uma democracia capaz de ter, ao mesmo tempo, autonomia e potência para abordar certas problemáticas. No caso da crise climática, são muitos interesses estruturais que impedem qualquer tipo de reação efetiva ao desmonte das florestas. Ir a campo e usar o privilégio de ter tempo e recursos para fazer esse tipo de pesquisa em profundidade é altamente revelador para quem participa. A prática jornalística democratiza o acesso a realidades que dificilmente as pessoas ao redor do mundo poderiam conhecer de outra forma. A premiação é um reconhecimento importante para que mais trabalhos como esses possam ser feitos, por iniciativas estrangeiras, mas idealmente cada vez mais também pelo jornalismo nacional”.

Rafael é conhecido por reportagens sobre as crises climática e econômica no Brasil. Em 2020 foi selecionado pelo Fundo de Emergência para Jornalistas da National Geographic, cobrindo a Covid-19. Em 2021 foi vencedor no World Press Photo FotoEvidence Book Award e POYLatam com seu projeto Covid Latam e, em 2022, recebeu o Catchlight Fellowship e o National Geographic Explorer Grant.

McCoy, Vilela e todas as pessoas envolvidas no projeto passaram por momentos de risco. Enquanto construíam as reportagens, o jornalista Dom Phillips e o ativista Bruno Pereira foram mortos a tiros no Vale do Javari, próximo à fronteira do Brasil com o Peru. Terry reconstruiu meticulosamente o crime para o quinto artigo da série, The Killing of Dom and Bruno (O assassinato de Dom e Bruno), expondo a convergência de políticas governamentais, a aplicação fraca da lei e impunidade criminal.

Agentes de fiscalização visitam a casa de um produtor rural para aplicar uma multa pela recente derrubada de floresta amazônica em sua propriedade. Por motivos de segurança, a equipe é sempre acompanhada pela Polícia Militar Ambiental. Foto: Rafael Vilela para o The Washington Post


 Pegadas no cais da casa onde Dom Philips e Bruno Pereira passaram a última noite antes de serem assassinados, próximo à Base Ituí da Funai, no estado do Amazonas, Brasil. Foto: Rafael Vilela para o The Washington Post

“É uma grande honra ser reconhecido pelo Prêmio Pulitzer como um finalista, mas não fui só eu que trabalhei neste projeto: além de uma equipe extraordinária em Washington, meus colegas brasileiros me ajudaram em cada passo do processo, e eu agradeço a todos por isso. O Brasil tem um talento jornalístico enorme, não apenas na área fotográfica, mas também em pesquisa e análises de dados. Fico feliz que eu consegui colaborar com uma equipe tão sensacional.

Espero que esta honra venha para destacar uma crise que continua na floresta amazônica. Nos últimos anos a história da floresta amazônica tem sido uma história de crime organizado, destruição ambiental e uma ausência profunda do governo federal. É uma floresta onde defensores ambientais vivem sob ameaça e jornalistas temem serem assassinados. No ano passado a comunidade jornalística perdeu nosso colega e amigo, Dom Phillips, quando estava em campo com o indigenista Bruno Pereira. Ambos foram mortos quando estavam tentando proteger um recurso ambiental necessário para todo o mundo. Não iremos esquecer nem Dom nem o trabalho dele. Ele foi morto, mas seu trabalho viverá”, finaliza McCoy.

Para saber mais sobre a série, clique aqui.