Série sobre destruição da Amazônia, que investigou assassinato de Dom e Bruno, é finalista do Prêmio Pulitzer de jornalismo

O correspondente Terrence McCoy e o fotojornalista brasileiro Rafael Vilela formam parte da equipe que realizou a série “The Amazon, Undone”, publicada pelo Washington Post ao longo de 2022.  Nomeada na categoria Reportagem Explicativa, a série revela como o crime, a corrupção e acordos políticos promovem a destruição da maior floresta tropical do mundo

unnamed (2)Gado em uma área próxima a um desmatamento recente em uma propriedade privada no estado do Acre, Brasil. Foto: Rafael Vilela para o The Washington Post

São Paulo, maio de 2023 – Desde 1917, o Prêmio Pulitzer reconhece projetos e pessoas que realizam trabalhos de excelência na área do jornalismo, literatura e composição musical. No dia 8 de maio, os concorrentes e ganhadores da edição de 2023 foram anunciados por meio de uma live no canal oficial do Prêmio Pulitzer no YouTube. A série de reportagens The Amazon, Undone do jornal estadunidense Washington Post, conduzida pelo repórter Terrence McCoy, com participação do fotojornalista brasileiro Rafael Vilela, é finalista na categoria de Reportagem Explicativa. The Amazon, Undone conta detalhes sobre o desmatamento da Amazônia e como os poderes público e político estão diretamente ligados a isso, além de destacar os envolvidos por trás da destruição, as autoridades que permitem que eles operem com impunidade, o papel dos Estados Unidos e as implicações para o planeta, sempre trazendo o olhar dos indígenas para os temas abordados. A série documentou histórias em diversos estados brasileiros como Acre, Amazonas e Pará.

Além do Prêmio Pulitzer, a série foi laureada no George Polk, uma das maiores honras do jornalismo estadunidense, na categoria de reportagem ambiental. No Overseas Press Club, recebeu o prêmio Robert Spiers Benjamin por melhor reportagem em qualquer mídia na América Latina.

Os jornalistas dedicaram mais de um ano à execução do projeto. Entre os que participaram das matérias ao lado de Terrence Mccoy estão Rafael Vilela, Raphael Alves e Alexandre Cruz-Noronha, responsáveis por fotos e vídeos; Júlia Ledur, John Muyskens e Simon Ducroquet, para gráficos; e Cecilia deLago, para relatórios de dados.

Matthew Hay Brown foi o editor principal; outros editores e colaboradores importantes foram Chloe Coleman, pela edição de fotos; Alexa Juliana Ard e Avener Prado, pelo vídeo; Allison Mann, Joe Moore e Matt Callahan, pelo design e desenvolvimento; Kate Rabinowitz, Laris Karklis, Lauren Tierney e Monica Ulmanu, pelos gráficos; Julie Vitkovskaya e Jay Wang, pelo gerenciamento de projetos; Meghan Hoyer e Reinaldo Chaves, pela edição e análise de dados; Vanessa Larson e Martha Murdock, pela edição de textos; e Gabriela Sá Pessoa, pelo apoio à pesquisa.

Para o fotógrafo brasileiro Rafael Vilela, “o jornalismo é ainda uma das poucas ferramentas em uma democracia capaz de ter, ao mesmo tempo, autonomia e potência para abordar certas problemáticas. No caso da crise climática, são muitos interesses estruturais que impedem qualquer tipo de reação efetiva ao desmonte das florestas. Ir a campo e usar o privilégio de ter tempo e recursos para fazer esse tipo de pesquisa em profundidade é altamente revelador para quem participa. A prática jornalística democratiza o acesso a realidades que dificilmente as pessoas ao redor do mundo poderiam conhecer de outra forma. A premiação é um reconhecimento importante para que mais trabalhos como esses possam ser feitos, por iniciativas estrangeiras, mas idealmente cada vez mais também pelo jornalismo nacional”.

Rafael é conhecido por reportagens sobre as crises climática e econômica no Brasil. Em 2020 foi selecionado pelo Fundo de Emergência para Jornalistas da National Geographic, cobrindo a Covid-19. Em 2021 foi vencedor no World Press Photo FotoEvidence Book Award e POYLatam com seu projeto Covid Latam e, em 2022, recebeu o Catchlight Fellowship e o National Geographic Explorer Grant.

McCoy, Vilela e todas as pessoas envolvidas no projeto passaram por momentos de risco. Enquanto construíam as reportagens, o jornalista Dom Phillips e o ativista Bruno Pereira foram mortos a tiros no Vale do Javari, próximo à fronteira do Brasil com o Peru. Terry reconstruiu meticulosamente o crime para o quinto artigo da série, The Killing of Dom and Bruno (O assassinato de Dom e Bruno), expondo a convergência de políticas governamentais, a aplicação fraca da lei e impunidade criminal.

Agentes de fiscalização visitam a casa de um produtor rural para aplicar uma multa pela recente derrubada de floresta amazônica em sua propriedade. Por motivos de segurança, a equipe é sempre acompanhada pela Polícia Militar Ambiental. Foto: Rafael Vilela para o The Washington Post


 Pegadas no cais da casa onde Dom Philips e Bruno Pereira passaram a última noite antes de serem assassinados, próximo à Base Ituí da Funai, no estado do Amazonas, Brasil. Foto: Rafael Vilela para o The Washington Post

“É uma grande honra ser reconhecido pelo Prêmio Pulitzer como um finalista, mas não fui só eu que trabalhei neste projeto: além de uma equipe extraordinária em Washington, meus colegas brasileiros me ajudaram em cada passo do processo, e eu agradeço a todos por isso. O Brasil tem um talento jornalístico enorme, não apenas na área fotográfica, mas também em pesquisa e análises de dados. Fico feliz que eu consegui colaborar com uma equipe tão sensacional.

Espero que esta honra venha para destacar uma crise que continua na floresta amazônica. Nos últimos anos a história da floresta amazônica tem sido uma história de crime organizado, destruição ambiental e uma ausência profunda do governo federal. É uma floresta onde defensores ambientais vivem sob ameaça e jornalistas temem serem assassinados. No ano passado a comunidade jornalística perdeu nosso colega e amigo, Dom Phillips, quando estava em campo com o indigenista Bruno Pereira. Ambos foram mortos quando estavam tentando proteger um recurso ambiental necessário para todo o mundo. Não iremos esquecer nem Dom nem o trabalho dele. Ele foi morto, mas seu trabalho viverá”, finaliza McCoy.

Para saber mais sobre a série, clique aqui.

Pesquisa conclui que faltam estudos sobre os efeitos de agrotóxicos sobre as florestas tropicais

plaguicidas-bosques-996x567O estudo dos efeitos dos inseticidas e herbicidas usados ​​na produção de banana também deve incluir os fungicidas, segundo o estudo. Crédito da imagem: Alliance of Bioversity International & CIAT/Flickr , bajo licencia Creative Commons (CC BY-NC-SA 2.0) .

Por Nicolás Bustamante Hernández

[BOGOTÁ] Os efeitos colaterais dos agrotóxicos em florestais tropciais e outros ecossistemas terrestres onde se encontram algumas plantações comerciais (ou florestais) não estão bem documentados pela literatura científica. Os estudos sobre agrotóxicos estão mais concentrados na agricultura, onde são bem conhecidas as sequelas negativas para os sistemas de água doce e os seres humanos, por exemplo.

Usando como exemplo a produção a grande escala de exportação de banana na Costa Rica , uma equipe internacional de cientistas revisou a literatura disponível, oferecendo um estado da arte sobre os efeitos dos agrotóxicos (incluídos inseticidas, fungicidas e herbicidas) em um cultivo tropical. Os resultados foram publicados na revista Environmental International .

Os autores mostram que se bem os agrotóxicos jogam um papel na diminuição da biodiversidade nas regiões temperadas (que serviram como modelo para estabelecer as regulamentações sobre o uso dessas substâncias a nível mundial), apenas há poucas pesquisas sobre esse problema nas trópicos, onde estas substâncias são mais utilizadas .

“A ideia é que esses agrotóxicos, especialmente quando são usados ​​por meio de aplicações aéreas, podem chegar até os fragmentos de bosques com alta biodiversidade e, potencialmente, ter um impacto total. O problema é que, até agora, isso não foi suficientemente estudado”, diz a SciDev.Net Carsten A. Brühl, um dos autores do estudo.

O estudoencontrou que, com os muito agrotóxicos sintéticos envolvidos na produção de banana, “a abordagem nos inseticidas, que revela os riscos aquáticos mais altos e, nos herbicidas, deve estender-se aos fungicidas, que se aplicam por via aérea em áreas mais grandes”.

“ “[…] estes agrotóxicos, especialmente quando são utilizados por meio de aplicações aéreas, podem chegar até os fragmentos de bosques com alta biodiversidade e, potencialmente, ter um impacto total.  O problema é que, até agora, isto não foi suficientemente estudado ”.

Carsten A. Brühl, professor de Ecologia Comunitária e Ecotoxicologia – Instituto de Ciências Ambientais da Universidade de Koblenz y Landau, Alemanha

Brühl, professor de Ecologia Comunitária e Ecotoxicologia no Instituto de Ciências Ambientais da Universidade de Koblenz e Landau (Alemanha), sinaliza que geralmente se assume que os inseticidas apresentam um alto risco.

“Mas é muito provável que o uso contínuo de fungicidas nas bananeiras também tenha um grande impacto, quando são aplicados regularmente – por exemplo, todas as semanas – também podem afetar outros microrganismos. Portanto, os fungicidas também devem estar no centro de atenção” seguro.

Ainda que a pesquisa está centrada na Costa Rica, e não são oferecidos dados sobre outros lugares da América Latina, Brühl acredita que a situação poderia ser semelhante em outras regiões e com outros tipos de cultivos, já que a regulamentação dos agrotóxicos se baseia em cenários da União Européia e dos Estados Unidos, e não se referem ao contexto tropical no qual são usados.

Silvia Restrepo, professora titular da Universidad de los Andes, especialista na área de fitopatologia e que desenvolveu ampla investigação em doenças da mandioca e de cultivos da família Solanaceae, afirma que na atualidade existe uma preocupação séria sobre o uso de estes produtos químicos em diferentes tipos de cultivos. A prova disso seria o fato de que existe uma ampla literatura sobre o tema.

“Se falamos de palavras-chave como ‘agrotóxicos’ e ‘América’ em uma base de dados como o Google Scholar , aparecem mais de 17 mil artigos ou livros e capítulos de livros. Hoje em dia está se financiando projetos para acompanhar vários sistemas na América do Sul para a redução do uso de agrotóxicos”, disse Restrepo em conversa telefónica com SciDev.Net .

Sobre as conclusões da investigação, relacionadas com os efeitos sobre os ecosistemas terrestres , Restrepo –que não participou da revisão – reconhece que essas são preocupações compartilhadas pela comunidade científica dedicada aos estudos agrícolas.

Restrepo citou o caso da Colômbia, onde, disse que “”Não apenas os ecossistemas terrestres causam preocupação, mas na maioria das vezes os agricultores não têm equipamentos de proteção individual para aplicar esses produtos químicos”.”.

“Muitas vezes os vi aplicando agrotóxicos com suas roupas normais, mesmo de bermuda e com as crianças brincando na beira da lavoura. Também encontramos muitas análises sobre a contaminação que esses produtos causam. Pesquisas realizadas pela Universidad de los Andes investigaram o efeito de contaminantes no DNA humano”, afirma Restrepo..

Por sua parte, Brühl faz um chamado para que os países das regiões tropicais não utilizem agrotóxicos proibidos na União Européia ou nos Estados Unidos. As razões −explica- são os efeitos potenciais na saúde humana, que “são os mesmos em todos os lugares”.

“Em alguns cultivos tropicais o uso deagrotóxicos é enorme. Atualmente, a União Européia tem como objetivo reduzir o uso de agrotóxicos em 50% até 2030, e isso também é contemplado no Acordo de Montreal. Por isso, fica muito trabalho a fazer ser feito para se ter uma agricultura com um menor uso de agrotóxicos”, assinala.

Link para o artigo na Environmental International


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net e está publicado [Aqui!]

Mudanças climáticas e extinção de espécies são crises interligadas

A mudança climática e a proteção das espécies devem ser enfrentadas juntas, adverte uma equipe científica liderada pelo renomado pesquisador do clima Hans-Otto Pörtner

grasslandSavanas bem preservadas como o Serengeti podem armazenar tanto carbono quanto as florestas tropicais e também são habitats importantes para grandes espécies de animais. Foto: Tom e Pat Leeson

Por Ingrid Wenzl para o Neues Deutschland

A humanidade enfrenta atualmente duas crises existenciais: a mudança climática causada pelo homem, que já está levando à seca e à fome , graves inundações e furacões em muitos lugares , e a perda maciça de espécies, que ameaça cada vez mais desestabilizar ecossistemas inteiros com suas importantes funções.

Essas duas crises muitas vezes ainda são vistas separadamente, mas são mutuamente dependentes: além da destruição do habitat e das espécies invasoras , o aquecimento global é um dos principais impulsionadores da sexta maior extinção de espécies na história da Terra. Savanas e florestas tropicais são degradadas ou transformadas em terras aráveis, e os pântanos são drenados ou as florestas boreais são derrubadas, não só sua biodiversidade é flagrantemente reduzida, mas também desaparecem importantes sumidouros de carbono, de modo que o clima esquenta ainda mais.

Hans-Otto Pörtner, cientista do Alfred Wegener Institute for Polar and Marine Research e co-presidente do Grupo de Trabalho II do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), e sua equipe internacional lançam luz sobre essas conexões em um estudo geral publicado recentemente na revista »Science« e apelam a um repensar radical. A conformidade com a meta de 1,5 grau tem prioridade máxima. Eles também recomendam proteger ou renaturalizar pelo menos 30% de todas as áreas terrestres, de água doce e oceânicas. Desta forma, a pior perda de espécies poderia ser evitada e as funções dos ecossistemas naturais preservadas. Os estados só concordaram com a meta de estabelecer 30% das áreas protegidas em terra e no mar até 2030 em dezembro de 2022 na Conferência Mundial sobre a Natureza acordado em Montreal.

Restauração sequestra carbono e evita extinção

De acordo com a equipe de pesquisa de Pörtner, mesmo que 15% de todas as áreas utilizáveis ​​pelo homem em todo o mundo fossem amplamente convertidas de volta em habitats naturais, isso seria suficiente para evitar 60% dos eventos de extinção esperados. Ao mesmo tempo, até 300 gigatoneladas de dióxido de carbono poderiam ser permanentemente removidos da atmosfera dessa maneira. Isso só pode ser parte da solução para a crise climática, já que as emissões humanas superam em muito esse valor. Cerca de 2.500 gigatoneladas de CO 2 foram emitidas desde o início da industrialização . No entanto, esta medida é de grande importância, pois contribui para a estabilização do clima a longo prazo.

Ao contrário do que ainda hoje é praticado, é fundamental para a criação de áreas protegidas conectá-las entre si de forma a permitir a migração de animais e o intercâmbio com outras populações.

A rede resultante inclui não apenas reservas naturais puras, mas também habitats compartilhados por humanos e natureza. Mas mesmo espaços dominados por humanos – como cidades – podem abrigar muitas espécies. Os especialistas também convocam as organizações políticas, que muitas vezes atuam de forma isolada, a trabalharem juntas de forma mais interdisciplinar no futuro. “Aqui é importante construir pontes e coordenar as necessidades sociais com a proteção da natureza e do clima”, explica Pörtner.

O estudo é baseado em um workshop virtual realizado pelo IPCC e pelo World Biodiversity Council (IPBES) em dezembro de 2020, com a participação de 62 pesquisadores de 35 países. O estudo atualiza aspectos individuais do relatório de 300 páginas publicado em junho de 2021 e sintetiza quase 170 publicações científicas dos últimos anos sobre a conexão entre mudanças climáticas e perda de biodiversidade.

Três quartos da superfície terrestre foram modificados por humanos

Ela fornece números impressionantes: Através do uso intensivo e destruição de ecossistemas naturais – por exemplo, através da agricultura, pesca e indústria – os humanos mudaram cerca de três quartos da superfície terrestre e dois terços dos ecossistemas marinhos tanto que mais espécies estão ameaçadas de extinção do que nunca na história da humanidade. Cerca de 80% da biomassa de mamíferos naturais e 50% da biomassa de plantas já desapareceram devido às atividades humanas.

“O que há de novo no estudo – que já foi mencionado no relatório do workshop – é a visão holística, a conexão de interesses para proteção do clima, conservação da natureza, para uso sustentável pelas pessoas”, diz Pörtner. É importante evitar que as sociedades que operam de forma sustentável enveredem pela “trilha do consumo das sociedades ocidentais”. Em vez disso, os povos indígenas que vivem em maior harmonia com a natureza devem ser apoiados e seus conhecimentos integrados em um processo global de transformação social e econômica.

Segundo o conceituado investigador do clima, é urgente uma revisão do ordenamento do território. Isso representa grandes desafios, especialmente para um país tão densamente povoado quanto a Alemanha. Portanto, teríamos que mudar a forma como fazemos negócios, como nos movimentamos, que energia consumimos e como comemos. “Mais de 80 por cento das áreas cultivadas em todo o mundo são usadas para a produção de ração animal”, lembra Pörtner. Um quilo de carne bovina contém cerca de dez quilos de biomassa vegetal que é fornecida aos animais. É importante não apenas consumir menos carne, mas também limitar o pastoreio sustentável a áreas que não são adequadas para a agricultura.

De acordo com o estudo, as sinergias para proteção do clima e proteção de espécies são particularmente altas ao preservar ou regenerar pastagens e savanas naturais. Pörtner e seus colegas baseiam seu trabalho em uma revisão científica do cientista chinês Yonfei Bai. De acordo com isso, esses ecossistemas armazenam um terço de todo o carbono na terra. Resultados de um grupo de pesquisa liderado por Andy Dobson, da Universidade de Princeton, nos EUApublicados na  Science  no início de 2022, demonstram que o Serengeti e outras savanas, se manejadas adequadamente, podem absorver tanto carbono quanto as florestas tropicais. O uso destrutivo de pastagens naturais deve, portanto, ser interrompido com urgência, exige Pörtner. Também por razões de proteção de espécies, porque o manejo sustentável ou restauração desses ecossistemas preserva a megafauna que ali vive – ou seja, espécies animais de grande porte – e aumenta a diversidade de gramíneas e organismos do solo. As florestas boreais também desempenham um papel muitas vezes subestimado na proteção do clima.

Sistemas agroflorestais oferecem potencial para agricultura e proteção de espécies

A agricultura orgânica oferece um grande potencial para a proteção do clima e das espécies. Ao acumular húmus, o carbono pode ser armazenado no solo e a vida ali, bem como a fertilidade do solo, podem ser promovidas. Os sistemas agroflorestais também representam uma abordagem promissora.Em seu estudo, Pörtner e colegas referem-se aos resultados da pesquisa de Annemarie Wurz e sua equipe.

Em um artigo na revista Nature Communication de 2022, Wurz comparou em Madagascar os rendimentos do cultivo de baunilha em áreas florestais com os de terras em pousio que são criadas como parte do cultivo itinerante e nas quais o arroz é geralmente cultivado após corte e queimar. A colheita das plantações em terras de pousio foi tão alta quanto a das plantações estabelecidas na floresta. “Isso significa que os agricultores não precisam limpar a terra para obter altos rendimentos, mas podem usar a terra em pousio para cultivar baunilha”, resume Wurz.

Também foi demonstrado que as áreas de floresta tinham uma biodiversidade significativamente maior do que os pousios, mas com o cultivo de baunilha ali, o número de espécies encontradas apenas ali caiu quase pela metade, já que os agricultores* tiveram que derrubar árvores e capoeira para fazer então. Não é o caso dos pousios, onde a biodiversidade aumentou quando plantaram árvores como plantas de suporte para a baunilha, que é uma orquídea. Portanto, se sistemas agroflorestais de baunilha forem criados em terras de pousio existentes, a biodiversidade pode se beneficiar. »Nos sistemas agroflorestais de baunilha, a vegetação e a biodiversidade associada têm a oportunidade de se regenerar a longo prazo. Além disso, as estruturas arbóreas podem complementar e conectar os poucos fragmentos florestais remanescentes na paisagem agrícola”, diz Wurz. As plantas de baunilha precisam de três anos até a primeira colheita. Depois disso, os plantios costumam permanecer, pois sua rentabilidade é alta. Dependendo do preço, os agricultores podem obter até 250 euros por quilo de baunilha.

Os sistemas agroflorestais também oferecem um grande potencial na Alemanha. Eles estão sendo discutidos com mais intensidade, especialmente para as grandes áreas agrícolas de Brandemburgo. “Muitas vezes, os efeitos podem ser vistos rapidamente”, explica Rüdiger Grass, da Universidade de Kassel. “Isso reduz a velocidade do vento e a evaporação, melhora o equilíbrio da água e promove insetos benéficos.” Isso inclui besouros terrestres, minhocas e abelhas selvagens. Árvores e arbustos impedem a erosão e, em combinação com o pasto, fornecem sombra para os animais. Já existem experiências positivas no centro de Hesse, onde pomares de prados, sebes ou fileiras de árvores nas bordas do campo são tradicionalmente bastante comuns.

duplo uso de terras agrícolas por meio de energia fotovoltaica e pastagem ou o cultivo de árvores não apenas reduz a pressão sobre a terra, mas também aumenta a fixação de carbono no solo. O fato de serem criados habitats para insetos polinizadores também pode ter um efeito positivo nos rendimentos dos campos adjacentes. Pörtner e colegas também avaliam como positiva a instalação de energia fotovoltaica em reservatórios em regiões secas, pois reduz a evaporação.

Pesca sustentável e proteção de leitos de ervas marinhas

O equivalente à agricultura orgânica nos oceanos é a pesca sustentável. Aqui, também, os autores do novo estudo de visão geral defendem a licitação de extensas áreas protegidas, cuja seleção deve ser cuidadosamente considerada. De particular importância é a preservação ou expansão dos prados de algas marinhas , um habitat único para muitas espécies. Um novo habitat interessante para espécies marinhas pode se desenvolver nas fundações de turbinas eólicas offshore. Mas Pörtner e seus colegas também acreditam que uma redução drástica nas emissões de gases de efeito estufa é necessária com urgência para proteger as funções dos ecossistemas marinhos.

Com o estudo, os cientistas esperam aumentar a conscientização sobre o problema e a necessidade urgente de ação na proteção do clima e das espécies, especialmente na política. “O que está exposto no documento faz parte da transformação de que precisamos, e cuja dimensão muitos ainda não entenderam bem, inclusive muitos dos nossos políticos, que querem esperar o mínimo possível das pessoas”, diz Pörtner.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Conselho científico alemão aponta que é necessário transformar o setor de alimentos

O conselho consultivo fornecei um inventário crítico da indústria agrícola e alimentar e as áreas de pesquisa associadas

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Riscos relacionados à dieta causam altos custos no sistema de saúde. Foto: dpa
Por Manfred Ronzheimer para o “Neues Deutschland”

A agricultura e a indústria alimentar são irmãs económicas: uma cultiva o que a outra transforma em comida. O Conselho Científico da Alemanha examinou mais de perto como a pesquisa está progredindo em ambos os campos e agora apresentou um documento de posição sobre as “Perspectivas das Ciências Agrícolas e Nutricionais” na Alemanha, que é algo incrível.

A votação do mais importante órgão de consultoria em política científica na Alemanha é dividida em duas partes. Um inventário surpreendentemente crítico do “registro de pecados” ecológico e médico da indústria agrícola e alimentar é seguido pela formulação de uma “imagem-alvo” positiva, para qual estado futuro deve ser almejado, e as etapas centrais de implementação no sistema de pesquisa.

Ao fazer o balanço, os especialistas não medem palavras. Apesar do desempenho enorme e cada vez maior dos sistemas agrícolas e alimentares, chegou-se a uma situação em que cerca de um décimo da população mundial sofre de fome crônica e significativamente mais de um terço não pode pagar alimentos saudáveis. Tendo em vista o crescimento da população mundial, espera-se que a situação alimentar continue a se deteriorar.

A forma como os alimentos são produzidos também causa enormes danos ao meio ambiente e é responsável por cerca de um quinto da superexploração das águas subterrâneas, por um terço da degradação do solo e pela metade da perda da biodiversidade. A criação de novas terras agrícolas é responsável por cerca de 90% do desmatamento global . Além disso, o sistema agrícola e alimentar consome atualmente cerca de um terço da energia gerada no mundo e, portanto, também produz cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa . De acordo com as previsões atuais, os custos sociais das emissões globais de gases de efeito estufa somarão mais de 1,7 trilhão de dólares americanos anualmente até 2030.

Dieta como um risco para a saúde

Depois, há as consequências médicas. Só na Alemanha, cerca de um terço de todos os custos do sistema de saúde são causados ​​por doenças direta ou indiretamente relacionadas a fatores nutricionais. Em 2017, os riscos relacionados à nutrição foram responsáveis ​​por cerca de 22% das mortes de adultos em todo o mundo, o Conselho Científico citou estudos internacionais. Na Alemanha, cerca de 14% de todas as mortes em 2019 foram associadas a uma dieta pouco saudável.

A consequência desse inventário dramático é óbvia: “Uma transformação dos sistemas agrícolas e alimentares disfuncionais em muitos aspectos é, portanto, absolutamente necessária e urgente”, adverte o Conselho Científico.

O comitê vê a reorientação das ciências agrícolas e nutricionais como uma tarefa de longo prazo. Isso não está associado apenas a “mudanças estruturais e processuais” nas 115 instituições de ciências agrícolas e nutricionais na Alemanha. Disciplinas vizinhas também são afetadas, assim como a sociedade como um todo, razão pela qual a parte das medidas também contém recomendações para transferência de tecnologia e divulgação científica.

Troca com a sociedade

Os especialistas veem quatro grandes complexos de mudança chegando às ciências agrícolas e nutricionais. Por um lado, há um aumento dos “esforços de integração” nas disciplinas individuais, desde a pesquisa ao ensino, transferência para infraestruturas de dados e digitalização, de modo que a informação e o conhecimento possam ser reunidos e comunicados através das fronteiras disciplinares. Trata-se também de novas oportunidades de participação, que permitem aos cientistas trocar ideias desde o início e de forma consistente sobre as necessidades de pesquisa com parceiros de outras áreas da sociedade e »desenvolver em conjunto opções de solução e caminhos de transformação e ser capaz de concordar sobre metas e sinergias conflitantes« .

Um importante campo de ação dentro da ciência é um novo ajuste de »reputação e reconhecimento«, que até agora ocorreu por meio de pesquisa. Essa apreciação, que também afeta as oportunidades de carreira, deve no futuro também ser mostrada aos cientistas “pelas realizações transformadoras desafiadoras, intensivas em recursos e socialmente urgentes dentro e fora do sistema acadêmico”. Por último, mas não menos importante, de acordo com a recomendação do Science Council, é importante dar às ciências agrícolas e nutricionais »visibilidade e voz no contexto nacional, europeu e global«. Isto com o intuito não só de poder “aconselhar de forma fundamentada a vertente política”,

Novo conselho consultivo pediu

Sob certas circunstâncias, novas instituições podem ser criadas para fornecer melhor assessoria aos políticos. “Não existe um órgão consultivo em nível nacional que supervisione as relações sistêmicas, inicie novas pesquisas (também envolvendo grupos de atores não acadêmicos) e desenvolva metas de curto, médio e longo prazos e os correspondentes caminhos de transformação para a política entre departamentos e países”, diz o documento do Conselho.

O conceito de reforma do Conselho Científico é bem pensado, mas inicialmente quer ser apenas um prelúdio dessa forma. Um relatório abrangente de recomendações está planejado para 2024.


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Este escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui! ].

Mudanças climáticas tornaram calor recorde de abril no Mediterrâneo Ocidental pelo menos 100 vezes mais provável

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A mudança climática causada pelo homem tornou a onda de calor recorde na Espanha, Portugal, Marrocos e Argélia pelo menos 100 vezes mais provável e o evento seria quase impossível sem as alterações climáticas atuais, de acordo com uma rápida análise de atribuição divulgada hoje (5). O estudo foi conduzido por uma equipe internacional de cientistas de atribuição de tempo da rede World Weather Attribution. 

No final de abril, partes do sudoeste da Europa e do norte da África sofreram uma enorme onda de calor que trouxe temperaturas extremamente altas nunca antes registradas na região nessa época do ano — de 36,9-41°C nos quatro países. O evento quebrou recordes de temperatura por uma grande margem, tendo como pano de fundo uma seca intensa.

Embora as pessoas no Mediterrâneo não sejam estranhas às altas temperaturas, sua ocorrência em abril, combinada com a seca em curso, contribuiu para intensificar os impactos, principalmente sobre a agricultura.

Em todo o mundo, as mudanças climáticas tornaram as ondas de calor mais comuns, mais longas e mais quentes. Para quantificar o efeito das mudanças climáticas sobre essas altas temperaturas, os cientistas analisaram dados meteorológicos e simulações de modelos de computador para comparar o clima atual, após cerca de 1,2°C de aquecimento global desde o final do século XIX, com o clima do passado, seguindo métodos revisados por pares. A análise levou em conta a média da temperatura máxima de três dias consecutivos em abril no sul da Espanha e de Portugal, na maior parte do Marrocos e na parte noroeste da Argélia.

Os pesquisadores descobriram que a mudança climática tornou a onda de calor pelo menos 100 vezes mais provável, com temperaturas até 3,5°C mais quentes do que teriam sido sem a mudança climática. Eles calcularam que o evento ainda é incomum, mesmo com o grande aumento da probabilidade devido ao aquecimento causado pelo homem, indicando que teria sido quase impossível sem a mudança climática.

Como outras análises de calor extremo na Europa descobriram, as temperaturas extremas estão se repetindo mais rapidamente na região do que os modelos climáticos previram, uma questão que está sendo pesquisada intensamente no momento.

Em seu último relatório, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climática da ONU reforçou que, até que as emissões globais de gases de efeito estufa sejam interrompidas, as temperaturas globais continuarão a aumentar e eventos como esses se tornarão mais frequentes e graves. Por exemplo, se as temperaturas médias globais aumentarem mais 0,8°C, para um aquecimento global de 2°C, os modelos mostram que uma onda de calor como essa seria 1°C mais quente.

A equipe de atribuição de tempo da rede World Weather Attribution que produziu o estudo contou com cientistas de universidades e agências meteorológicas de França, Marrocos, Holanda e Reino Unido.

“A intensa onda de calor se somou a uma seca plurianual preexistente, exacerbando a falta de água nas regiões do Mediterrâneo Ocidental e ameaçando o rendimento da safra de 2023”, explicou Fatima Driouech, professora associada da Universidade Politécnica Mohammed VI, do Marrocos.

“Com o aquecimento do planeta, essas situações se tornarão mais frequentes e exigirão planejamento de longo prazo, incluindo a implementação de modelos agrícolas sustentáveis e políticas eficazes de gerenciamento de água”, disse Driouech, que é uma das autoras do estudo.

“As ondas de calor do início da estação tendem a ser mais mortais”, explica Roop Singh, autor do estudo e consultor sênior de riscos climáticos do Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. “As pessoas ainda não prepararam suas casas ou não se acostumaram às temperaturas do verão. Na Espanha, por exemplo, vimos medidas de adaptação às ondas de calor serem implementadas mais cedo do que o normal, o que é exatamente o tipo de ação adaptativa ao calor que precisamos ver mais para reduzir as mortes evitáveis causadas pelo calor.”

“O Mediterrâneo é uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas na Europa”, ressalta Friederike Otto, professora sênior de Ciências Climáticas do Imperial College London, do Reino Unido, e uma das autoras da pesquisa.

“A região já está passando por uma seca muito intensa e de longa duração, e essas altas temperaturas em uma época do ano em que deveria estar chovendo estão piorando a situação. Sem interromper rapidamente a queima de combustíveis fósseis e a adaptação a um clima mais quente e seco, as perdas e os danos na região continuarão a aumentar drasticamente.”

Sjoukje Philip, pesquisador do Instituto Meteorológico Real da Holanda e autor do estudo, chamou a atenção para a constância com que cada nova onda de calor quebra novos recordes de temperatura.

“O fato de as tendências de temperatura na região serem mais altas do que os modelos preveem mostra que precisamos entender melhor os efeitos regionais da mudança climática para que possamos nos adaptar a um calor ainda mais extremo no futuro.”

Campos dos Goytacazes, a cidade bilionária onde 170 mil pessoas vivem na extrema pobreza

Quase a metade da população campista está na miséria segundo o Ministério da Cidadania

extrema

Por José Alves Neto

Retrato da desigualdade social no município de Campos dos Goytacazes (RJ) de março de 2023

Tabela

Gráfico

Segundo os dados do Cadastro Único do Ministério da Cidadania do Governo Federal, de março de 2023, o município de Campos dos Goytacazes (RJ), tem 236.525 pessoas cadastradas em estado de vulnerabilidade social.

Desse total, de acordo com a tabela e o gráfico, temos de pessoas cadastradas em famílias em situação de extrema pobreza 170.961 ou 72% e 35.733 ou 15% de famílias de baixa renda. Em situação de pobreza, o quantitativo de pessoas chegam a 12.102 ou a 5%. E, as pessoas com renda per capita mensal acima de meio salário mínimo,  atingem o patamar de 17.729 ou a 7%.

Considerando, dentro desse contexto, que o nosso município possui segundo o IBGE, uma população estimada no ano de 2021 de 514.643 habitantes. Se Campos possui no Cadastro Único, 236.525 pessoas registradas, então, são 45,96% ou quase a metade da população campista em situação social deplorável. O que nos deixa profundamente envergonhado.

Tudo isso, numa cidade que recebeu de rendas petrolíferas segundo o Info Royalties da Universidade Cândido Mendes, em apenas uma fonte de receita de 1999 a 2021 em valores reais, a fortuna de R$ 30,452 bilhões. Isto sem contabilizar a arrecadação de 2022. É injustificável e inaceitável, o município campista exibir números tão vergonhosos como esses, do Cadastro Único do Governo Federal.

Por fim, em face dessa conjuntura de gritante desigualdade social municipal, uma pergunta não quer calar: para onde foram os recursos financeiros do ciclo abundante do petróleo? Para aplacar a miséria da população campista os números acima demonstram que não foram. Portanto, não adianta justificar o atual cenário de horror utilizando, apenas, o argumento da pandemia. O quadro de pobreza e concentração de renda da economia campista é antigo. Será que faltou eficiência nas políticas públicas dos sucessivos governos, que ocuparam a Prefeitura? É uma hipótese.    

Fonte: MC, Cadastro Único para Programas Sociais (03/2023)


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Este texto foi originalmente publicado no Blog do Zé Alves Neto [Aqui!].

Superexploração e assassinatos: a população indígena do Brasil sofre com a invasão de garimpeiros ilegais

garimpeiros paGarimpeiros ilegais no trabalho (no estado do Pará, 04/09/2021)
Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Forças de segurança mataram quatro garimpeiros durante um despejo no último domingo em conjunto com funcionários do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Ibama). Segundo o Ibama, pelo menos uma das vítimas era integrante de uma organização criminosa. No dia anterior, segundo a Associação Hutukara Yanomami (HAY), um grupo de garimpeiros de barcos atacou os Yanomami da comunidade Uxiu durante um rito fúnebre no rio Mucajaí, matando um indígena a tiros e ferindo dois.

Agora a polícia descobriu os corpos de oito supostos garimpeiros no rio Mucajaí. As autoridades acreditam que eles foram mortos por Yanomami da Aldeia de Uxiu em retaliação ao ataque ao funeral. A fim de evitar uma nova escalada, o governo já despachou uma força policial federal de elite para a área.

Segundo o governo de Brasília, as ações policiais na reserva Yanomami têm sido bem-sucedidas até o momento. Cerca de 70 a 80% dos garimpeiros já deixaram a área de proteção indígena. Segundo o Ibama, as forças de segurança destruíram um total de 327 acampamentos, 18 aviões, dois helicópteros e dezenas de jangadas, barcos e tratores pertencentes aos garimpeiros até o momento.

À primeira vista, o presidente do Brasil, Fernando Collor de Mello, e seu secretário de Estado do Meio Ambiente, José Lutzenberger, tiveram mais sucesso do que o governo de Lula da Silva. Em 1992, a Reserva Yanomami sofria então com uma invasão de mais de 40.000 garimpeiros ilegais, que ganhou as manchetes em todo o mundo. As forças aéreas bombardearam as pistas dos acampamentos de garimpeiros com aviões de combate e helicópteros, após o que os invasores fugiram. Naquela época, a maioria dos garimpeiros fugiu para o território vizinho dos Yanomami, na Venezuela, enquanto o restante fugiu para as cidades brasileiras fora da reserva. Mas foi apenas uma vitória de Pirro. Logo após a conferência ambiental, milhares retornaram à reserva e continuaram com suas ocupações habituais:  desmatamento e garimpo de ouro.

Os garimpeiros não são apenas responsáveis ​​pelos assassinatos e estupros dos Yanomami e de outros povos indígenas na Amazônia. Eles também carregam doenças infecciosas e sexualmente transmissíveis, como malária, sífilis e AIDS para as áreas indígenas protegidas. Além disso, deixam verdadeiras paisagens lunares envenenadas com mercúrio em busca do metal precioso. O metal pesado líquido e brilhante é usado por garimpeiros ilegais e legais no Brasil para separar o pó de ouro fino da lama. Em toda a Amazônia, vários rios já estão fortemente contaminados com mercúrio, que se acumula na cadeia alimentar, principalmente nos peixes, e leva a problemas de saúde.

Uma medida necessária há décadas para evitar a extração de ouro na floresta tropical, também por razões ambientais, seria, portanto, a proibição do uso de mercúrio na mineração de ouro e a regulamentação estrita da venda de mercúrio. Mas até agora nenhum governo de Brasíl fez isso.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!]. 

Acidente com caminhão joga carga de glifosato no Rio Itabapoana e coloca em risco a saúde humana e o meio ambiente

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Já é notório que vivemos todos submetidos a graves riscos ambientais por causa da ampla utilização de agrotóxicos no Brasil, os quais implicam na possibilidade do acometimento de múltiplos tipos de doenças, a começar pelo câncer. Mas o que poucos refletem é que dada a preferência pelo uso de transporte rodoviário, todos os dias grandes quantidades de agrotóxicos circulam pelas estradas brasileiras, não sendo raro a ocorrência de acidentes envolvendo os veículos que os transportam.

Acidentes com cargas de agrotóxicos não são coisas simples, visto o potencial de contaminação de recursos hídricos, dos quais dependemos para o abastecimento de cidades e áreas rurais. Pois bem, o ofício do Superintendente substituto do IBAMA/ES trata justamente de um acidente ocorrido no dia 01 de maio de 2023 nas imediações do reservatório da PCH Pedra do Garrafão que se localiza no Rio Itabapoana, mais precisamente no município de Mimoso do Sul (ver imagem abaixo).

ofício ibama glifosato

O problema neste caso foi que a carga derrubada no interior do Rio Itabapoana foi do famigerado herbicida Glifosato que já foi classificado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) da Organização Mundial da Saúde (OMS) como  “provavelmente cancerígeno para humanos”.  

Como se pode notar no ofício acima, a remoção do caminhão tombado requereria uma logística relativamente simples, mas isto não garante que as comunidades ribeirinhas e de pescadores localizadas ao sul da PCH Pedra do Garrafão fossem submetidas a graves riscos, seja sobre sua saúde ou sobre a uma das suas fontes principais de sustento que é a pesca no Rio Itabapoana.

Por outro lado, este acidente deveria servir como alerta para a necessidade de que os mecanismos de controle sobre o transporte de agrotóxicos em todas as rodovias brasileiras sejam reavaliados imediatamente, na medida em que o volume atualmente transporte é certamente muito alto, e outros acidentes como este deverão se repetir, com resultados negativos sobre o ambiente e a saúde humana.

Novo estudo comprova impactos devastadores do Glifosato sobre populações de abelhas nativas

Jatai bee of the species Tetragonisca angustula

Abelhas Jataí da espécie Tetragonisca angustula

Um estudo de autoria de um grupo de pesquisadores brasileiros ligados à Universidade Federal da Bahia (UFBA)e à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) que acaba de ser publicado na revista Ecotoxicology revela os impactos do herbicida glifosato sobre a abelha nativa Tetragonisca angustula (Jataí). 

Segundo o grupo liderado pelo professor Vinícius Cunha Gonzalez,  do Laboratório de Bioquímica e Biofísica do Instituto Multidisciplinar em Saúde, Universidade Federal da Bahia  do campus de Vitória da Conquista, os experimentos realizados detectaram que o contato das abelhas Jatai com o glifosato resultaram em morte, alterações motoras (diminuição da velocidade e tremores), autolimpeza excessiva e desorientação (voltar à luz e parar).  Em outras palavras, o glifosato mostrou ter um efeito devastador sobre esse grupo de abelhas nativas, mesmo em doses baixas.

Além disso, os pesquisadores alertaram que “embora não tenhamos testado os efeitos da polinização, podemos inferir de nossos resultados que esta formulação pode afetar negativamente a atividade de polinização de T. angustula“. Em outras palavras, o uso do glifosato está provavelmente afetando a capacidade desses polinizadores de alcançarem a sua melhor performance, quando não morrem de forma imediata pelo contato com esse herbicida que simplesmente é o agrotóxico mais vendido em todo o planeta.

A importância deste estudo é ainda maior quando se considera que o declínio das populações de abelhas diminui os serviços de polinização, danificando plantas e a biodiversidade agrícola, sendo importante notar que os agrotóxicos são um dos principais responsáveis por tal declínio.

Jair Bolsonaro segue a trilha de Al Capone e pode ser pego por ato banal

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Jair Bolsonaro, que tanto brincou com fogo, pode acabar trilhando o caminho de Al Capone

É conhecida a história do gangster estadunidense Alphonse Gabriel “Al” Capone que, apesar de ter cometido muitos crimes, acabou sendo pego por algo aparentemente trivial que foi mentir em suas declarações de renda. Agora, 76 anos após a morte de Al Capone é o ex-presidente Jair Bolsonaro que está enredado com as teias da justiça por algo que pode parecer igualmente trivial que seria a falsificação de seus dados de vacinação contra a COVID-19, aparentemente para poder adentrar o território dos EUA.

É que na manhã desta 4a. feira estão sendo presos auxiliares diretos do ex-presidente, incluindo o já conhecido tenente-coronel do exército Mauro Cid. À essa prisão de auxiliares diretos somou-se a entrada na residência do ex-presidente onde foram realizadas, entre outras coisas, a apreensão do telefone dele e o da sua esposa, Michelle Bolsonaro.

Um detalhe que pode azedar ainda mais a situação de Jair Bolsonaro é que, conforme noticia o jornal O GLOBO, segundo o site da Embaixada dos EUA no Brasil, quem usar documentos fraudulentos para ingressar em solo americano “não receberá o benefício imigratório” e “poderá enfrentar multas ou prisão”.  Além disso, a embaixada informou que “são analisados pela Justiça segundo as leis americanas e brasileiras. A vacinação para entrar em solo americano será obrigatória até o dia 12 de maio deste ano.”

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Em outras palavras, se a situação de Bolsonaro já pode estar ruim no Brasil, a coisa pode ficar ainda pior nos EUA onde ele teria entrado com uma de vacinação falso. E é aí que a trilha de Al Capone poderá começar a ser trilhada por Bolsonaro e membros mais próximos de sua equipe e família que podem ter se utilizado do esquema de cartões falsos de vacinação. Isso, no mínimo, é curioso.