Estudo aponta que pecuária, não coca, impulsiona o desmatamento da Amazônia na Colômbia

As autoridades colombianas culparam o cultivo de coca – o ingrediente básico da cocaína – pelo corte raso, mas novo estudo  mostra o contrário

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Uma estrada ilegal feita durante o desmatamento em Caquetá, na Colômbia, em 2021. Foto: Luisa González/Reuters

Por Lucas Taylor em Bogotá para o “The Guardian”

A pecuária, e não a cocaína, foi a causa da destruição da Amazônia colombiana nas últimas quatro décadas, segundo um novo estudo .

Sucessivos governos recentes usaram preocupações ambientais para justificar o aumento de sua guerra contra o arbusto verde, mas a pesquisa mostra que em 2018 a quantidade de floresta desmatada para cultivar coca, o ingrediente básico da cocaína, foi apenas 1/60 daquela usada para o gado .

As descobertas do estudo justificam especialistas em conservação que há muito argumentam que a estratégia da Colômbia para conservar a Amazônia – muitas vezes centrada no combate à produção de coca – foi equivocada.

“Queremos finalmente erradicar essa narrativa de que a coca é o motor do desmatamento ”, disse Pablo Murillo-Sandoval, da Universidade de Tolima, que liderou o estudo.

O desmatamento aumentou depois que os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) assinaram um acordo de paz histórico com o governo em 2016 e depuseram suas armas.

À medida que os rebeldes saíam da selva, os grileiros se aproveitaram , derrubando árvores com motosserras e queimando vastas áreas. O desmatamento atingiu um recorde de 219.973 hectares (543.565 acres) em 2017, um aumento de 23% em relação ao ano anterior.

O então presidente Iván Duque usou a destruição ambiental causada pelo cultivo de coca para justificar o aumento da ação militar contra os plantadores de coca. Proibido de pulverizar plantações de coca com glifosato depois que o produto químico foi banido em 2015 por questões de saúde, o governo Duque enviou helicópteros e tropas armadas para a floresta amazônica, às vezes em confrontos mortais com plantadores de coca.

No entanto, embora as fazendas de gado tenham desmatado mais de 3 milhões de hectares (7,4 milhões de acres) da floresta amazônica em 2018, o impacto da coca foi insignificante.

Gado percorre a Amazônia desmatada em Guaviare, Colômbia, em 2022.
Gado percorre a Amazônia desmatada em Guaviare, Colômbia, em 2022. Foto: Mauricio Dueñas Castañeda/EPA

Apenas 45.000 hectares (111.200 acres) foram desmatados para coca em 2018, o último ano disponível no estudo.

Usando um algoritmo de aprendizado profundo para diferenciar entre a terra usada para coca e gado, Murillo e seus colegas conseguiram pela primeira vez distinguir entre as atividades em grande escala de 1985 a 2019.

“Sempre contestamos o argumento do governo de que a coca estava impulsionando o desmatamento, mas carecemos de evidências”, disse Angelica Rojas, oficial de ligação do estado de Guaviare na Fundação para a Conservação e Desenvolvimento Sustentável, um thinktank ambiental colombiano. “Agora temos dados reais com os quais podemos nos opor a esse erro.”

Os números mostram que os governos anteriores usaram o meio ambiente como uma falsa justificativa para travar uma guerra contra os plantadores de coca, disse Rojas, que não participou do estudo.

“Eles não queriam impedir o desmatamento, só queriam justificar o gasto de mais dinheiro e recursos em seu verdadeiro objetivo político: eliminar a coca”, disse ela.

O estudo também acrescenta evidências de que, apesar do sacrifício de vidas e do gasto de bilhões de dólares, a “guerra às drogas” da Colômbia não conseguiu deter a produção de coca – e, em alguns casos, pode até piorá-la.

Quando os agricultores erradicam suas plantações, eles simplesmente estabelecem novos lotes, muitas vezes apenas alguns quilômetros mais fundo no dossel da floresta, disse Murillo. “A guerra contra as drogas começou há 40 anos, mas todos sabem onde está a coca: no mesmo lugar onde sempre estiveram.”

Como o governo se envolveu em um jogo de bate-papo com os plantadores de coca, o verdadeiro motor do desmatamento, a pecuária, foi autorizado a engolir vastas extensões de terra, argumentam os autores.

Falhas na regulamentação fundiária colombiana incentivaram a conversão de florestas tropicais biodiversas em pastagens estéreis.

Para ter suas escrituras reconhecidas, os proprietários devem demonstrar que 75% de seus lotes são produtivos, e é muito mais fácil para os agricultores usar vacas do que plantações, disse Carlos Devia, engenheiro florestal da Universidade Javeriana de Bogotá, que não participou do estudo.

“A pecuária é a maneira mais fácil de mostrar que você está usando a terra, pois ela não é regulamentada. Você poderia ter 100 hectares de terra e colocar apenas 10 vacas lá, enquanto para batatas ou milho apenas um hectare exigiria um ano de muito trabalho”, disse Devia.

Agricultores sem terra costumam desmatar alguns hectares de floresta tropical e vendê-los ilegalmente a membros de organizações criminosas que, então, juntam vários pequenos lotes, transformando-os em vastas faixas de pastagens áridas e sem vida.

O presidente colombiano Gustavo Petro, que assumiu o cargo em agosto do ano passado, está propondo uma reviravolta na fracassada estratégia antinarcóticos da Colômbia .

Petro, ex-membro do extinto grupo rebelde M-19, desviou o foco da erradicação forçada da coca e está comprando milhões de hectares de terra para dar aos agricultores.

“Reduzir o uso de drogas não requer guerras, precisa de todos nós para construir uma sociedade melhor”, disse Petro à assembléia geral da ONU em setembro do ano passado.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Guerra na Ucrânia: Quem responde a Jurgen Habermas?

Negociação proibida: apenas o melhor insulto conta

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Em 2018, ele ainda era popular como homem moderado: Jürgen Habermas agradeceu ao então ministro federal das Relações Exteriores, Heiko Maas (SPD), pelo prêmio de mídia franco-alemão. Foto: Arne Immanuel Bänsch/dpa
Por Christopher Meueler para o “Neues Deutschland”

Antes da guerra na Ucrânia, o filósofo Jürgen Habermas, nascido em 1929, era a autoridade moral do liberalismo de esquerda na Alemanha Ocidental. Ele era considerado um homem velho e sábio que se preocupava profunda e seriamente com a paz e a liberdade, como um dos poucos cientistas que conseguem interferir nos debates políticos sem se envergonhar. Na maioria das vezes ele tentou provar que os conflitos sociais podem ser neutralizados se forem legalizados para o bem comum. Ouça, relaxe, pense – esse era aproximadamente o seu ideal, para que o melhor argumento pudesse prevalecer. Como se a vida política fosse um grande talk show, mas onde as coisas são racionais e justas. Sua principal obra, a »Teoria da Ação Comunicativa«, que publicou há mais de 40 anos, também trata disso.

E agora Habermas tem que saber que uma ação comunicativa está sendo tomada contra ele . Na quarta-feira passada, publicou um longo artigo no “Süddeutsche Zeitung” no qual defendia as negociações entre a Ucrânia e a Rússia. Isso não foi bem recebido na chamada imprensa de qualidade. Ele provavelmente não tinha ideia, e certamente nada sobre o Oriente, dizia-se, como se Habermas fosse muito velho, mas não mais sábio. Basicamente um homem inimigo. Acima de tudo, o notoriamente mal-humorado ex-embaixador ucraniano e vice-ministro das Relações Exteriores, Andriy Melnyk, twittou: “O fato de Jürgen Habermas estar tão descaradamente a serviço de Putin me deixa sem palavras. Uma vergonha para a filosofia alemã. Immanuel Kant e Georg Friedrich Hegel se revirariam em seus túmulos de vergonha.«

O que Habermas não havia considerado: em certas questões, como propriedade ou rearmamento, não é o melhor argumento que conta, mas o melhor insulto. Embora Habermas concordasse em seu ensaio que a Ucrânia não deveria perder a guerra, ele recusou as palavras suplicantes proferidas pelo chanceler lituano: “Temos que superar o medo de querer derrotar a Rússia”. Habermas está certo de que uma longa guerra ceifará ainda mais vidas e levará à mais destruição e, no final, nos deixará com uma escolha desesperadora: intervir ativamente na guerra ou, para não desencadear a Primeira Guerra Mundial entre as potências com armas nucleares, abandonar a Ucrânia ao seu destino deixou«. Ele rejeita ambos e propõe a restauração do status quo antes de 23 de fevereiro de 2022, que a mídia de qualidade interpreta como uma ideia ingênua e cínica.

Em 1968, uma antologia,  “A esquerda responde a Jürgen Habermas” foi publicada. Não se pode mais questionar isso hoje, porque aquela esquerda com suas reivindicações revolucionárias em vez de reformistas não existe mais. A maioria deles se ofereceu para a frente, idealmente, é claro, na frente do computador na sala de estar. Mas Habermas está certo de que a guerra será cada vez mais vivida “como uma violência esmagadora” e “essa guerra que não deveria ser é ainda mais óbvia”.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Inteligência indígena a serviço do Brasil

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Monica Prestes*

Roraima tem 35 terras indígenas (TIs) e é, proporcionalmente, o estado com a maior população indígena do país. Lá ficam duas das maiores e mais populosas TIs brasileiras: a Raposa Serra do Sol e a Yanomami. A segunda enfrenta uma crise humanitária com cenários dignos de uma guerra; e será preciso de uma verdadeira operação de guerra para enfrentar o seu maior flagelo, o garimpo ilegal. E ele não tomou somente a TI Yanomami.

Será preciso abrir novas frentes de batalha. Pelo menos outras sete terras indígenas de Roraima estão ameaçadas pela expansão da atividade no estado, com a fuga em massa de garimpeiros da TI Yanomami, alvo de uma força-tarefa do governo federal. A denúncia foi feita pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR), organização indígena de base que há 52 anos atua em todas as TIs de Roraima.

Algumas dessas TIs para onde os garimpeiros estão migrando já têm focos de invasão e rotas consolidadas. Naquelas que ficam no caminho dos garimpeiros, o clima é de alerta vermelho. É o caso da Raposa Serra do Sol – para onde migraram parte dos 40 mil garimpeiros expulsos da TI Yanomami na última grande invasão, na década de 1990– e da TI Boqueirão. Nesta, o CIR identificou estruturas como acampamentos, e pontos de armazenamento de equipamentos e materiais usados na lavra, além de portos clandestinos e um vaivém intenso de garimpeiros, principalmente à noite.

A denúncia repercutiu na imprensa, mas com o objetivo de atingir, também, outras esferas: o CIR enviou ofícios com os relatórios e o mapeamento das ameaças para órgãos federais responsáveis pela força-tarefa contra o garimpo, para embasar ações para além do território Yanomami. O conselho também fez um alerta para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre os riscos da invasão garimpeira na Raposa Serra do Sol, em reunião que aconteceu esta semana. É a inteligência indígena sobre seu território a serviço do Brasil.

É fato que a crise Yanomami não começou ontem, nem em 1º de janeiro de 2019. Mas o que também não faltam são fatos – e documentos – que comprovam que ela se agravou, e muito, nos últimos quatro anos, em meio a uma pandemia negligenciada e à omissão do próprio governo, que negou pedidos de ajuda feitos pelos próprios indígenas. Boa parte desses documentos, vale lembrar, foram produzidos por organizações indígenas como o CIR e seus parceiros institucionais. Nesse período, elas representaram não só a mais consistente oposição ao governo Bolsonaro, mas também a principal articulação da resistência indígena pela proteção de seus territórios.

Foi durante o governo Bolsonaro que a Hutukara Associação Yanomami, por exemplo, decidiu iniciar um monitoramento próprio sobre o avanço do garimpo ilegal no território, revelado pelo relatório Yanomami Sob Ataque, um dos documentos que deve embasar o julgamento do governo Bolsonaro na acusação de genocídio que ele pode enfrentar. Por sua vez, o CIR, organização por trás da consolidação dos direitos territoriais dos povos indígenas de Roraima, e que representa dez povos diferentes – e ainda decidiu abraçar os Warao, indígenas refugiados da Venezuela – conseguiu fortalecer sua articulação nos territórios e celebrar meio século de atuação com uma Assembleia Geral que reuniu mais de 2 mil pessoas na Raposa Serra do Sol, em janeiro.

Esse novo momento do governo brasileiro, agora mais indígena do que nunca, e das próprias organizações indígenas, fala mais sobre construir soluções do que sobre ter respostas para todas as perguntas. Afinal, assim como a violação de direitos dos povos indígenas não começou em 2019, é sabido que a crise não se resolverá em três semanas ou seis meses. E não deve ter quem duvide que jamais os povos indígenas tiveram uma representatividade tão grande no governo, sobretudo nos espaços de decisão sobre suas próprias vidas. Até agora, nesses primeiros 40 e poucos dias, ter uma ministra, uma presidente da Funai e um presidente da Sesai indígenas tem feito a diferença.

Os povos indígenas, não custa lembrar, estão fazendo a parte deles há 523 anos: cuidando do que é nosso. Agora, ocupando espaços no governo, eles terão a oportunidade de construir novas perspectivas de futuro, caminhando ao lado das organizações de base e fortalecendo o próprio movimento indígena. Mas eles não farão a mudança necessária sozinhos, essa é uma construção da qual todos – governos, movimento indígena e sociedade civil – devemos fazer parte.

*Editora na Uma Gota no Oceano 


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “Uma gota no oceano” [Aqui!].

Projeto internacional liderado pela UFSCar analisa impacto das mudanças climáticas sobre a biodiversidade aquática

Iniciativa, apoiada por Fapesp e National Science Foundation, prevê colaboração com universidades dos EUA e Nova Zelândia

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Comparando comunidades de insetos em riachos no Brasil e nos Estados Unidos, pesquisa liderada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) tem como objetivo compreender impactos das mudanças climáticas sobre a organização da biodiversidade aquática, algo ainda pouco conhecido. A iniciativa prevê colaboração com três instituições dos EUA (Universidade da Califórnia, Universidade Estadual da Virgínia e Universidade de Maryland) e uma neozelandesa (Universidade de Canterbury). 

O projeto foi aprovado recentemente para receber apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da National Science Foundation (NSF), em chamada colaborativa com a temática “Biodiversity on a Changing Planet (BoCP) 2022” (Biodiversidade em um Planeta em Transformação). A liderança é de Victor Satoru Saito, docente no Departamento de Ciências Ambientais (DCAm) da UFSCar.

Com duração de três anos, o projeto prevê estudos – com bolsas de graduação, treinamento técnico e pós-doutorado para as universidades envolvidas – em comunidades biológicas de riachos, principalmente insetos que possuem fase de larva na água e, de adultos, terrestres com asas, como as libélulas. 

O intuito é entender se a organização dessas comunidades, ao longo do tempo, é diferente em locais tropicais e temperados. 

“As espécies são sempre as mesmas ou mudam de mês a mês? Qual a magnitude dessas variações? Há a troca de todas as espécies do verão para o inverno, ou mantêm-se as mesmas?”, exemplifica o pesquisador. 

Para responder a esses questionamentos, os cientistas produzirão amostragens mensais dessas comunidades em riachos nos dois países, de uma forma coordenada e uniforme. Com isso, pretendem estudar todo o ciclo de vida desses insetos – ou seja, da vida aquática à saída da água, como adultos alados, até a reprodução e a inserção de ovos novamente nos riachos. Também estarão no foco as suas demografias (dinâmica da população, com informações como quantidade de indivíduos, natalidade e mortalidade). 

O desconhecimento ainda existente sobre como a biodiversidade de insetos responde diretamente às mudanças climáticas é devido, sobretudo, à falta de estudos coordenados em diferentes latitudes, que permitam uma comparação direta do efeito da temperatura nos organismos. 

“Com os dados coletados, vamos buscar construir modelos que permitam prever como cada comunidade pode responder a futuras mudanças climáticas”, detalha o docente da UFSCar. 

Os locais de análise ainda estão em definição, mas Saito adianta que, aqui no Brasil, serão potencialmente os riachos dentro do Parque Estadual de Intervales, localizado no Sul do estado de São Paulo. “Esta Unidade de Conservação abriga uma Mata Atlântica muito bem preservada e uma bacia hidrográfica bem inserida e conhecida”, justifica. 

Saito conta que os insetos aquáticos costumam ser utilizados como indicadores ambientais. Assim, o estudo também é uma forma de tentar prever como os ecossistemas vão responder a mudanças, para pensar em precauções diante de alterações ecossistêmicas indesejadas, como a perda de espécies de interesse pesqueiro ou a diminuição da qualidade da água. 

O pesquisador explica que, hoje, é muito utilizada a Teoria Metabólica – que indica que o metabolismo dos organismos determina fortemente o que se encontra na Natureza – para elucidar a biodiversidade, mas sabe-se da importância de sua união com outras explicações possíveisconforme já abordado em pesquisas anteriores do próprio Saito.  

“As populações das espécies também sofrem variações em suas abundâncias de forma estocástica (ou seja, imprevisível, de causa desconhecida) -, e é justamente esse ponto que buscamos entender melhor, investigando as relações dessas variações com a temperatura. A ideia é avançar nesses estudos e entender mais sobre o ciclo de vida das espécies, para começarmos a tapar essas lacunas no conhecimento da nossa fauna”, complementa o pesquisador. 

Mais informações sobre o projeto aprovado – intitulado “Entendendo o papel da estocasticidade na montagem de metacomunidades sob efeitos de mudanças globais” – estão disponíveis no site da Fapesp.

Esta matéria aborda contribuição da comunidade da UFSCar à concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – Agenda 2030 (ODS14-Vida na Água)

Um terço das empresas associadas ao desmatamento não tem planos para acabar com ele

A pesquisa da Global Canopy também descobriu que muitas empresas não estão monitorando os compromissos estabelecidos

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Desmatamento na Amazônia brasileira, janeiro de 2023. O desmatamento por humanos é responsável por quase um quarto das emissões de gases de efeito estufa. Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters

Por Helena Horton, Repórter de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

Um terço das empresas mais ligadas à destruição das florestas tropicais não definiu uma política única sobre o desmatamento, revela um relatório da ONG Global Canopy.

A pesquisa da Global Canopy descobriu que 31% das empresas com maior influência no risco de desmatamento tropical por meio de suas cadeias de fornecimento não têm um único compromisso de desmatamento para nenhuma das commodities às quais estão expostas.

Muitos dos que estabeleceram políticas não as estão monitorando corretamente, o que significa que o desmatamento para produzir suas commodities ainda pode estar ocorrendo. Das 100 empresas com compromisso de desmatamento para cada commodity a que estão expostas, apenas 50% estão monitorando seus fornecedores ou regiões fornecedoras de acordo com seus compromissos de desmatamento para cada commodity.

O relatório Forest 500 da Global Canopy afirma: “Passamos três anos do prazo de 2020 que muitas organizações estabeleceram para deter o desmatamento e apenas dois anos do prazo da ONU de 2025 para empresas e instituições financeiras eliminarem o desmatamento, conversão e os abusos de direitos humanos associados. Esta data-alvo é essencial para cumprir nossas metas globais de zero líquido e evitar mudanças climáticas catastróficas”.

Na Cop26 em 2021, os líderes mundiais concordaram em remover o desmatamento das cadeias de abastecimento. O desmatamento por humanos é responsável por quase um quarto das emissões de gases de efeito estufa, em grande parte decorrentes da destruição das florestas do mundo para produtos agrícolas como óleo de palma, soja e carne bovina.

As instituições financeiras têm um histórico ruim de desmatamento, de acordo com o relatório. As identificadas fornecem US$ 6,1 trilhões em financiamento para empresas em cadeias de suprimentos com risco florestal, mas, de acordo com o relatório, “apenas uma pequena proporção das instituições financeiras mais expostas ao desmatamento está tratando o desmatamento como um risco sistêmico”.

Noventa e duas (61%) das instituições financeiras mais expostas ao desmatamento não possuem uma política de desmatamento que cubra seus empréstimos e investimentos, e apenas 48 (32%) instituições financeiras reconheceram publicamente o desmatamento como um risco comercial.

O relatório pede que empresas e instituições financeiras reconheçam o desmatamento como um risco para seus negócios e estabeleçam políticas para acabar com a prática em suas cadeias produtivas. Também está pedindo aos governos que regulem melhor e incluam as instituições financeiras nessa regulamentação. Muitos países se comprometeram a acabar com o desmatamento sob a declaração de Glasgow sobre florestas e uso da terra, o acordo de Paris e a estrutura global de biodiversidade. No entanto, a maioria ainda não implementou políticas para colocar isso em prática.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Garimpo Ilegal acontece em todo território da Amazônia

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A Amazônia nunca esteve tão no centro das discussões como agora. De acordo com levantamento feito pelo Instituto Socioambiental (ISA), com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe/Prodes), o desmatamento em terras indígenas aumentou em 157% durante o governo do ex-presidente Bolsonaro.

Garimpo, invasões e roubo de madeira continuam assolando terras indígenas e unidades de conservação. Áreas da floresta estão sendo vendidas via leilão para empresas explorarem petróleo e gás natural.

Boa parte deste desmatamento está associada à expansão das áreas do garimpo nos territórios, mas também pela ação de madeireiros – atividades que andam lado a lado quando o assunto é invasão de terras indígenas. Entre 2010 e 2021, aponta o MapBiomas, o garimpo em terras indígenas cresceu cerca de 625%. O aumento mais expressivo ao longo dos últimos dez anos foi registrado justamente entre 2019 e 2021 e ele não está limitado às cinco terras indígenas citadas pelo relatório.

A Igreja, sempre atenta às necessidades da comunidade, desenvolve ações e cuidados especiais com os indígenas. De acordo com o assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica, a REPAM-Brasil e também da Comissão Ecologia Integral e Mineração da CNBB, padre Dário Bossi, a Igreja se aproxima desses povos em defesa da vida. “Amazônia sempre foi considerada uma terra de conquista, é pautada pelo viés do extrativismo predatório”. 

“O garimpo, na verdade, é como se fosse a primeira etapa de uma invasão, que possui ciclos, onde o primeiro ciclo é a desflorestação, que depois deixa espaço ao latifúndio da soja, do boi e das siderúrgicas, como um modelo que vem avançando. Assim o garimpo entra ocupando e contaminando pequenas áreas para depois deixar abertura para outros modelos de mineração mais consistentes e impactantes e, aos poucos, ir tomando posse dos territórios, por isso, não dá para medir ou para controlar a entrada no território. Há regiões na Amazônia onde precisamos dizer não à mineração. São territórios sagrados, santuários, que precisam ser preservados”, destacou o padre.  

De acordo com o MapBiomas, em relatório publicado há cinco meses, o Pará concentra o maior número de invasões em terras indígenas. Das cinco terras listadas pelo estudo, que utilizou dados de 2021, a TI Kayapó é a mais invadida, com 11.542 hectares de área de garimpo; em segundo lugar, a TI Munduruku, com 4.743 hectares de destruição. Somadas, as duas TIs concentram 16.285 hectares de áreas com lavra ilegal de ouro, o equivalente a 17 mil campos de futebol aproximadamente. Os Yanomami vêm em terceiro. 

A Igreja, sempre atenta às necessidades da comunidade, desenvolve ações e cuidados especiais com os indígenas. De acordo com o assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica, a REPAM-Brasil e também da Comissão Ecologia Integral e Mineração da CNBB, padre Dário Bossi, a Igreja se aproxima desses povos em defesa da vida. “Amazônia sempre foi considerada uma terra de conquista, é pautada pelo viés do extrativismo predatório”. 

Padre Dário fala sobre a importância da atuação da Igreja na região,“Há uma sensibilidade cada vez mais forte do mundo religioso sobre a importância de repensar o modelo, como dizíamos, não pode ser mais um modelo de saque e sim um modelo de reciclagem, reuso, limites e de controle dessa sania extrativa. Essa é a única maneira para permitir uma convivência equilibrada das comunidades em seus territórios”. 

“A opção pelo extrativismo predatório, infelizmente, continua sendo a prioridade de muitos países na América Latina, naturalmente, empurrada por interesses de fora, ainda mais agora, neste tempo de crise, num tempo em que supostamente por necessidade de transição energética, se fazem necessários os famosos minerais estratégicos, portanto, a fronteira de busca desses minerais e de expansão do extrativismo vem ameaçando cada vez mais comunidades que não sabem como se defender. As comunidades indígenas e a Amazônia são como a última fronteira de resistência. O que deve mudar, com certeza, é o ritmo e a intensidade desse sistema extrativo, que não vai se sustentar por muito tempo, por isso, temos que aprender com os povos indígenas uma nova maneira de conviver com o meio ambiente que não seja tão vorazmente predadora dos nossos territórios”. 

Para a professora Márcia Oliveira, da Universidade Federal de Roraima e assessora da REPAM-Brasil, é necessário determinar a retirada dos garimpeiros que oferecem grande risco e grande contaminação ao meio ambiente, destruição da floresta, dos rios, e dos povos que necessitam viver em paz em seus territórios e viver de forma autônoma com a soberania alimentar que eles fazem subliminarmente.

 “São diversas tentativas de invasões em TI desde 2016, quando os governos Temer e após o governo Bolsonaro abriram espaços para o garimpo. São trabalhadores que são agenciados a grandes empresas ligadas ao mercado do ouro e promovem uma grande exploração do trabalho análogo ao escravo, são pessoas muito pobres entrando na região, contaminando todo território os rios com mercúrio e também contaminando com a verminose. São de 20 a 30 mil pessoas no mesmo espaço, as águas levam toda a espécie de contaminação e isso tem resultado em um surto muito grande de verminose entre os povos indígenas”, declara a professora Márcia Oliveira, assessora da REPAM-Brasil. 

São muitos os religiosos e padres que atuam e moram em aldeias. A Igreja sempre se manifestou em relação ao garimpo. E grupos fizeram denúncias na Organização das Nações Unidas (ONU).

Cádmio e PFOA podem causar malformação em embriões

Estudo mostrou que compostos tóxicos encontrados no nosso dia a dia causaram problemas no desenvolvimento de embriões de galinhas e podem afetar o desenvolvimento do cérebro e da medula espinhal em seres humanos

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POR REDAÇÃO CIÊNCIA UFPR

Todos os dias estamos expostos a diversos componentes químicos que podem afetar nossa saúde. A preocupação é maior quando estes materiais podem atravessar a barreira placentária e atingir o embrião, pois devido à sua fragilidade os efeitos podem levar a problemas graves ou à interrupção espontânea da gravidez.

O cádmio (Cd) e o ácido perfluorooctanoico (PFOA) são dois componentes já reconhecidamente tóxicos e presentes no nosso dia a dia que são capazes de atravessar a placenta. Resultados de um estudo desenvolvido na Universidade Federal do Paraná (UFPR) mostraram que a exposição a esses componentes causam graves impactos no desenvolvimento embrionário de galinhas, utilizados para simular as condições de contaminação em seres humanos.

A pesquisadora Melyssa Kmecick, que coordenou o estudo no do Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular, revela que os resultados comprovaram que os dois poluentes causam malformações e aumentam a mortalidade embrionária.  Os problemas mais comuns dos embriões foram o não fechamento do tudo neural ou o seu fechamento incorreto, prejudicando o desenvolvimento do cérebro e da medula espinhal, o que pode ser fatal a depender do tipo e da extensão da lesão.

Kmecick explica que a semelhança entre os embriões humanos e de galinhas nessa fase de desenvolvimento e o fato das doses testadas serem similares às quantidades a que somos expostos cotidianamente apontam que os componentes são potencialmente tóxicos também para humanos. Os resultados foram publicados na tese de doutorado da pesquisadora, intitulada “Embriotoxicidade induzida pelo ácido perfluorooctanóico e cádmio em Gallus gallus”.

Em seres humanos problemas no fechamento do tubo neural podem levar a casos de mortalidade do embrião bem como anencefalia e espinha bífida. Estima-se que no mundo nasçam cerca 300 mil bebês com este tipo de problema e que uma grande parte deles morrem antes de completar quatro anos de idade. No Brasil, estudos apontam que 1,6 a cada mil bebês nascidos vivos apresentem a condição, sendo esta uma das principais causas de deficiência motora infantil no país.

O estudo encontrou outros problemas no desenvolvimento embrionário e em processos importantes para as células devido à exposição aos poluentes. Dentre eles destacam-se o controle da morte da célula, a dinâmica do citoesqueleto (responsável por dar forma e sustentação para a célula), a adesão celular (ligação com diferentes células) e também outras interações, com outras células e componentes extracelulares.


A professora Claudia Machado, coordenadora do Laboratório de Embriotoxicologia da UFPR, onde o estudo foi conduzido, e orientadora da pesquisa, destaca que o trabalho promove uma ampliação das informações sobre os efeitos dos contaminantes ambientais durante o desenvolvimento embrionário. Ela também acredita que o estudo é fonte para uma maior reflexão sobre a utilização dos componentes químicos: “Com a nossa pesquisa tentamos contribuir com dados que possam nortear ou auxiliar uma revisão na legislação atual”, ressalta.

Resultados destacaram os impactos no desenvolvimento da medula espinhal e cérebro

O foco do trabalho foi na morfologia dos embriões, principalmente do tubo neural, de onde se desenvolve o sistema nervoso. A preocupação com essa estrutura vem desde o mestrado de Kmecick, no ramo de Biologia Celular e Molecular:

“Essa foi a estrutura que sofreu as alterações mais significativas, evidenciando o tecido nervoso como alvo da ação desses contaminantes no desenvolvimento. Isso foi observado na análise por montagem total, que é uma técnica em que preparamos os pequenos embriões inteiros com uma coloração para que as estruturas do corpo do embrião sejam evidenciadas, como o cérebro, olhos, ouvidos, membros e cauda. Então, observando o material preparado dessa forma, sob uma lupa, foi possível verificar quais malformações os poluentes são capazes de causar e em quais estruturas”, contou Kmecick.

A pesquisadora explica que em uma segunda fase o estudo buscou entender quais as alterações microscópicas internas ao corpo do embrião que estariam envolvidas nessas malformações do tubo neural, sendo este o principal foco da pesquisa.

O estudo acompanhou o embrião em ovos fecundados doados ao laboratório. O desenvolvimento do embrião é iniciado dentro da própria galinha, mas é interrompido quando ela bota o ovo. O processo só é retomado quando se atinge a temperatura de 37 ºC aproximadamente, que pode ser alcançada quando a ave choca o ovo ou através de uma chocadeira.

Foi no processo de pausa do desenvolvimento que os embriões foram expostos aos poluentes, ainda no início da etapa de formação, chamado de blástula. Em seres humanos, essa fase ocorre durante a primeira semana de gestação. Dessa forma, foi possível realizar a pesquisa em um estágio no qual há uma maior sensibilidade do embrião à ação de agentes externos.

De acordo com a professora Claudia Machado,, a utilização de ovos de galinhas para experimentos científicos é uma prática milenar, usados desde estudos de anatomia da época de Aristóteles: “É um modelo que detém o recorde de longevidade. Muitos conceitos e nomes de estruturas embrionárias são originadas de trabalhos realizados nesse modelo”, conta.

Além disso, a professora ressalta que outros modelos são utilizados, como os de vertebrados, roedores, anfíbios e peixes, que auxiliam na realização de pesquisas que tratem de efeitos na anatomia e na fisiologia dos organismos. A professora também ressalta que a utilização de ovos de galinhas apresenta algumas vantagens em relação aos outros modelos, como a facilidade de obtenção, manipulação e monitoramento, a ausência de necessidade de nutrientes externos para a sua formação e o desenvolvimento em um curto período de tempo (21 dias).

Comparação entre desenvolvimento de embriões em 3 fases, da esquerda para a direita: peixe, salamandra, tartaruga, galinha, coelho e ser humano. Ilustração: Wikimedia Commons/Starlarvae

Quando os ovos chegaram ao laboratório, foram pesados e selecionados somente aqueles com a casca completamente íntegra. Após, foi realizada a inserção de uma agulha na câmara de ar do ovo (região mais larga da casca) com os contaminantes escolhidos e então os ovos foram incubados à 37 ºC. Uma pequena janela na lateral da casca foi feita para que fosse possível observar os embriões durante o seu desenvolvimento, além de verificar a chamada determinação de viabilidade, um dado utilizado para avaliar a interferência dos contaminantes na mortalidade embrionária.

Os embriões vivos foram preservados em uma solução fixadora, para manter as características o mais próximo possível da situação no embrião vivo. Em seguida, o material passou por uma resina fixadora e então foi cortado em fatias finas, chamadas de secções histológicas. Por fim, essas fatias receberam coloração e foram observadas no microscópio de luz para que a morfologia geral do tecido e das células fossem observados.

Apesar dos resultados expressivos, nem todos os objetivos iniciais foram alcançados. Um deles era entender como os contaminantes interferiam nos componentes das células, durante o processo de desenvolvimento, para ocasionar as malformações. Porém, não foi possível realizar os experimentos necessários para chegar a um resultado.

Componentes tóxicos testados são comuns no dia a dia

Os componentes pesquisados foram escolhidos por serem capazes de atravessar a barreira placentária e atingir o embrião, além de estarem em constante contato com seres humanos. Também foi considerada a falta de dados sobre os compostos e os seus efeitos durante o desenvolvimento embrionário como destaca Machado:

“A existência de dados populacionais divergentes e inconclusivos a respeito da exposição a essas substâncias durante o desenvolvimento pré-natal, embrionário e fetal, e a ocorrência de efeitos adversos no desenvolvimento, como morte embrionária e o aparecimento de malformações também foram fatores importantes para a escolha”.

O ácido perfluorooctanóico (PFOA) é considerado um poluente emergente, visto que, apesar da sua utilização acontecer desde da década de 1950, a preocupação com os seus efeitos é recente. As suas moléculas são hidrofóbicas e lipofóbicas, o que significa que elas repelem água e óleos. Além disso, é um composto resistente à degradação química e física, o tornando muito atrativo para a produção de polímeros para revestimentos, como antiaderentes encontrados em panelas e embalagens de alimentos industrializados; impermeáveis de tecidos e tapetes; e antiestático de componentes eletroeletrônicos.

O PFOA pode ser encontrado até mesmo na poeira de casa, visto que está contido em produtos domésticos que liberam o poluente em pequenas quantidades. Essa contaminação pode chegar aos alimentos e se espalhar pelo ambiente, o que possibilita a manifestação de problemas de saúde.

A sua produção chegou a ser proibida pela Convenção de Estocolmo, realizada em 2001 com o objetivo de proteger a saúde humana e o meio ambiente dos efeitos dos poluentes orgânicos permanentes. Mais de 180 países participam do tratado, entre eles, o Brasil. Apesar da proibição, em uma atualização do texto da convenção em 2019, houve uma flexibilização para que o PFOA fosse utilizado em situações nas quais a eficiência de outros produtos substitutos não fosse eficiente.

Barra de cristal de cádmio com pureza de 99,99% e cubo de cádmio. O metal é utilizado principalmente na produção de pilhas, baterias e componentes eletrônicos. Foto: Wikimedia Commons/Alchemist-hp

O cádmio (Cd), por sua vez, é um metal pesado encontrado na natureza em baixas quantidades. Entretanto, alguns fenômenos naturais, assim como a interferência humana no meio ambiente – através da mineração, por exemplo – podem disseminar esse poluente. O seu uso é variado (produção de baterias, pigmentos, tintas, soldas, fertilizantes fosfatados e componentes eletroeletrônicos) e os resíduos industriais que permanecem após a sua utilização podem contaminar de forma grave a água, o solo e o ar caso não sejam descartados corretamente.

A exposição dos seres humanos aos dois contaminantes pode acontecer através do consumo de alimentos e água que foram contaminados, além da inalação da poeira doméstica que contém resíduos. Os efeitos dos dois poluentes no organismo são bastante prejudiciais à saúde. Entre os efeitos tóxicos causados pelo PFOA estão os danos ao fígado, ao sistema imunológico, ao sistema nervoso, a desregulação da função hormonal normal e a toxicidade reprodutiva. O Cd, por sua vez, está mais envolvido no aparecimento de diferentes tipos de câncer e causa danos aos rins e fígado.

Por Thiago Fedacz | Edição: Rodrigo Choinski

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Este texto foi inicialmente publicado pela UFPR [Aqui!].

Qual é afinal a surpresa com a foto de Washington Quaquá fazendo “joinha” para Eduardo Pazuello?

Encontrei o deputado federal pelo Rio de Janeiro e vice-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Washington Quaquá em algum momento do já distante ano de 1999 quando ele ainda pertencia à tendência “Articulação de Esquerda” em uma reunião na sede campista da agremiação. Já naquele momento, notei que o então jovem Quaquá teria futuro no PT, pois era um jovem militante de boa conversava. Obviamente não podia prever nem a trajetória que ele tomaria dentro do partido ou, tampouco, o seu contínuo sucesso eleitoral.

Mas, por outro lado, Quaquá tem se notabilizado por posturas não muito ortodoxas, incluindo o apoio a candidaturas bolsonaristas em nome de supostamente ampliar o diálogo com outras forças políticas, mesmo aquelas que estavam e continuam procurando erradicar o PT da face da Terra.

Por isso, não consigo compreender qual é a razão da gritaria que está ocorrendo com a fotografia tirada por Quaquá ao lado do general da reserva e ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro, Eduardo Pazuello (ver imagem abaixo).

quaquá

O fato é que esta foto exprime Quaquá em sua forma mais pura e acabada, e que tem sido repetidamente utilizada por ele na seção fluminense do PT, sem que eu veja qualquer reação por parte da militância (se é que ainda existe isso no PT do Rio de Janeiro), nem da direção nacional da qual ele é membro e componente da executiva. Assim, quem estiver surpreso com a foto e as amizades que Quaquá cultiva, só pode estar tendo um momento daqueles momentos “Retrato de Dorian Gray“. Afinal, Quaquá é, e já faz um tempinho, a face mais pública do PT do Rio de Janeiro, sem tirar nem por.

A polêmica patente da pimenta da Syngenta será finalmente revogada?

Em 16 de fevereiro, o Escritório Europeu de Patentes realizará uma audiência pública sobre uma patente altamente controversa da Syngenta. Nove anos (!) para poder ser revogado. Isso seria um sinal importante contra a apropriação da natureza pelas multinacionais

pimenta syngenta
Comunicado de imprensa da Public Eye, SWISSAID, Pro Specie Rara e Bionext

Já em 2014, 32 organizações de 27 países, incluindo Public Eye, Swissaid e Bionext, contestaram o “EP2140023” concedido pelo Escritório Europeu de Patentes (EPO) um ano antes. Esta patente permite que a Syngenta assegure direitos exclusivos de pimentas resistentes à mosca-branca. Uma vez que essa resistência natural a insetos vem de uma espécie de planta de pimenta selvagem que cresce na Jamaica, isso não deve fornecer a base para uma invenção patenteável. Devido à duração grotescamente longa do processo, a Syngenta, no entanto, se beneficiou por quase dez anos da patente, que é válida na Suíça, Espanha, Holanda, Alemanha e outros países europeus. Isso significa que os criadores de pimenta não podem trabalhar com a resistência natural, a menos que adquiram uma licença da Syngenta.

Paradoxalmente, isso ainda ocorre, embora a legislação atual não permita mais a concessão de tal patente. Em 2020, a Câmara de Recurso Alargada do EPO respondeu a pedidos de longa data de ONG, associações de criadores e do Parlamento Europeu e esclareceu, numa decisão de significado histórico, que, em princípio, plantas e animais de origem convencional, ou seja, não OGM reprodução não são patenteáveis. Mas para a Câmara de Recurso isto só se aplica a patentes depositadas após 1 de julho de 2017. Bastante absurdo, isto significa que nos próximos anos, o EPO poderá aprovar cerca de 300 patentes pendentes que não deveriam existir. Uma vez concedidas, permanecem válidas por muitos anos e podem ser utilizadas comercialmente.

É obrigatório que a Divisão de Oposição do EPO corrija as deficiências do passado e finalmente revogue a patente após a audiência pública *. Cruzar a resistência de uma planta para outra não é uma ‘invenção’ (ou seja, o requisito com base no qual uma patente é concedida), mas apenas um negócio diário para os criadores. Na verdade, o patenteamento da resistência a insetos de uma planta selvagem de pimenta jamaicana é um caso de biopirataria .

As patentes de cultivos convencionais impedem o livre acesso às sementes e, portanto, às inovações necessárias no melhoramento vegetal. Eles permitem que as empresas excluam seus concorrentes do mercado e, assim, alimentam a concentração do mercado. Apesar da decisão inovadora da Câmara de Recurso Ampliada, o EPO ainda está concedendo essas patentes (também registradas após 2017). Na verdade, isso ocorre porque advogados de patentes astutos sempre conseguem encontrar novas brechas. Assim, uma proibição final e efetiva requer diretrizes políticas claras dos estados membros da Convenção Europeia de Patentes, incluindo a Suíça.

*Qualquer interessado pode inscrever-se , por e-mail, no IEP para acompanhar online a audiência de 16 de fevereiro realizada por videoconferência (número de candidatura: 08749952.1).

Mais informações aqui 


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela ONG Public Eye [Aqui!].

Desmatamento do Cerrado sobe 88% na Bahia e no Piauí

Municípios do Oeste baiano e Piauí lideram os registros de derrubadas no mês passado. No bioma como um todo houve queda de 16% na comparação entre janeiro de 2022

cerrado

O desmatamento do Cerrado nos estados da Bahia e do Piauí aumentou 88% em janeiro de 2023 em relação ao mesmo período em 2022, segundo dados do SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado) divulgados nesta quarta-feira (15). No Piauí, o bioma teve 9,5 mil hectares desmatados, um aumento de 120% em relação ao mesmo período do ano passado, quando 4,3 mil hectares foram derrubados. Já na Bahia, o aumento foi de 64%, totalizando 9,3 mil hectares desmatados contra 5,6 mil hectares no ano anterior. 

O crescimento nos estados vem na contramão da tendência observada no resto do bioma. No total, o Cerrado teve 46,5 mil ha desmatados em janeiro de 2023, uma redução de 16% sobre os 55,3 mil ha desmatados no mesmo mês em 2022. E uma redução de 24% em relação a janeiro de 2021, quando 60,9 mil ha foram derrubados.
 

O SAD Cerrado é uma ferramenta de monitoramento do desmatamento do bioma desenvolvida pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em parceria com a rede MapBiomas e com o LAPIG (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento), da UFG (Universidade Federal de Goiás).

”A divergência das tendências de desmatamento entre o bioma Cerrado e as regiões da Bahia e Piauí chama muita atenção. Observamos grandes áreas sendo abertas no oeste da Bahia que, por ser uma região de agricultura já consolidada, os fragmentos remanescentes de vegetação nativa são cruciais para segurança hídrica e alimentar da região, além de serem importantes para manutenção da biodiversidade e conectividade entre áreas protegidas”, afirma a pesquisadora do IPAM que atua no SAD Cerrado, Fernanda Ribeiro.

Os números do SAD também mostram que, dos dez municípios que mais desmataram o Cerrado em janeiro, seis estão localizados no oeste baiano, região de agricultura consolidada. Juntos, os municípios de Jaborandi, São Desidério, Cocos, Correntina, Baianópolis e Santa Rita de Cássia desmataram 7,6 mil ha, 82% de todo o desmatamento ocorrido no cerrado baiano e 16% de todo o desmatamento no bioma.

Áreas privadas concentram desmate

Os dados do SAD Cerrado mostram que a maior parte do desmatamento no bioma segue ocorrendo em propriedades privadas. Em janeiro de 2023, 85% de todo o desmatamento do bioma ficou concentrado em áreas privadas. O restante das derrubadas ocorreu em áreas sem definição de categoria fundiária (8%), áreas protegidas (4%) e assentamentos (3%).

Na Bahia, 95% do desmatamento esteve concentrado em áreas privadas, com maior concentração na região do extremo oeste baiano. No Piauí, as propriedades privadas têm 81% da área desmatada.

“O desmatamento no Cerrado põe em risco a segurança hídrica, energética, climática e alimentar brasileira. Hoje, a maior parte da vegetação nativa do Cerrado está em áreas privadas, o que reforça a necessidade de articulação entre o setor privado, e os governos Estaduais e Federal. Além disso, as demandas do mercado internacional por uma agricultura sustentável, juntamente com a implementação de novas políticas públicas voltadas para conservação dos remanescentes de vegetação nativa em áreas privadas são essenciais para o sucesso do combate ao desmatamento no bioma”, afirma a pesquisadora do IPAM e coordenadora científica do MapBiomas, Julia Shimbo

Vegetação savânica perdida

De todo o desmatamento observado no Cerrado, 68% atingiu as formações savânicas, um dos tipos de vegetação mais biodiversos do bioma. O restante do desmatamento ficou concentrado em áreas de florestas (20%) e formações campestres (12%). No Piauí, a derrubada das savanas chegou a corresponder a 86% de todo o desmatamento no estado em janeiro.

As savanas ocupam 30% da extensão do Cerrado, mas concentram 78% da área desmatada no bioma diretamente para o pasto e o plantio de soja entre 2010 e 2021, segundo dados do MapBiomas. Esse tipo de vegetação também sofre com a falta de políticas nacionais e internacionais para sua proteção.

“O reconhecimento e a integração das savanas em políticas nacionais e internacionais de redução do desmatamento, e de incentivo à restauração e conservação é um passo fundamental para a proteção do Cerrado. Na realidade brasileira, isso pode ser alcançado a partir do fortalecimento do Código Florestal e da implementação de políticas públicas, em parceria com o setor privado, voltadas para a conservação de savanas”, diz Tarsila Andrade, pesquisadora do IPAM que atua no SAD Cerrado.

Sobre o SAD Cerrado

O Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado foi lançado em setembro pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em parceria com a rede MapBiomas e com o LAPIG (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento), da UFG (Universidade Federal de Goiás). Relatórios de alertas para janeiro de 2023 e para o ano de 2022, estão disponíveis neste link. No painel interativo, é possível selecionar estado, município, categoria fundiária e intervalo temporal para análise.

O objetivo é que o sistema forneça alertas de desmatamentos maiores de 1 hectare, atualizados mês a mês. Pesquisadores entendem que o SAD Cerrado pode se constituir como uma ferramenta complementar a outros sistemas de alerta de desmatamento no bioma, como o DETER Cerrado, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), otimizando o processo de detecção em contextos visualmente complexos.

Acesse os dados georreferenciados clicando aqui.