Diminuição drástica nas inscrições do SISU é um “sucesso” da política de desmanche da educação brasileira do governo Bolsonaro

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Se ficasse apenas nas declarações explícitas do ministro da Fazenda, Paulo Guedes, e de um dos ex-ministros da Educação, no caso falo de Milton Ribeiro, de que o acesso à educação superior deveria ser restringida aos pobres, impedindo assim a sua  necessária democratização em país marcado por graves desigualdades educacionais.

O problema é que o resultado do somatório das políticas econômicas de Paulo Guedes com a transformação do MEC em uma espécie de balcão de negócios já produziu efeitos claros no que tange à disposição dos jovens brasileiros em buscar acesso a cursos universitários, como mostra o gráfico abaixo que mostra uma diminuição de 60% no número de inscrições para o chamado Sistema de Seleção Unificada (SISU) entre 2015 e 2016.

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A verdade é que essa diminuição de inscrições representa mais um “sucesso” do governo Bolsonaro, algo equivalente ao que este (des) governo tem feito em relação à proteção ambiental, especialmente na Amazônia brasileira.

O problema é que este dano todo não será revertido facilmente, especialmente se o próximo presidente, mesmo que Jair Bolsonaro não seja reeleito, insista em aplicar fórmulas que não vão ao âmago dos problemas nacionais.

Cargas do novo coronavírus têm elevação nos esgotos de cinco capitais na última semana de abril

No fim do último mês, após os feriados prolongados de 15 e 21 de abril, a Rede Monitoramento COVID Esgotos detectou o aumento das cargas do novo coronavírus em Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza e Rio de Janeiro. Somente Recife se manteve sem variação no mês passado 

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O Boletim de Acompanhamento nº 14/2022 da Rede Monitoramento COVID Esgotos, com dados das semanas epidemiológicas 14 (de 3 a 9 de abril) a 17 (de 24 a 30 de abril), identificou a manutenção das baixas cargas do novo coronavírus nos esgotos de cinco das seis capitais acompanhadas: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. Exceto na capital pernambucana, nas outras quatro cidades as cargas tiveram leve aumento na semana 17, após os feriados prolongados de 15 e 21 de abril, mas seguem em patamar considerado baixo. Em Curitiba a carga viral teve uma elevação significativa nesse período, o que ensejou na Nota de Alerta emitida pela Rede em 5 de maio.

O monitoramento dos esgotos realizado pela Rede segue sendo uma ferramenta importante para o acompanhamento dos efeitos das medidas de flexibilização para a circulação do novo coronavírus. Veja as informações por cidade a seguir.

Belo Horizonte (MG) 

Em Belo Horizonte a Rede Monitoramento COVID Esgotos observou a permanência do baixo patamar da carga do novo coronavírus nos esgotos entre as semanas epidemiológicas 14 (de 3 a 9 de abril) e 17 (de 24 a 30 de abril). Nesse período a maior carga viral foi de 3 bilhões de cópias do vírus por dia para cada 10 mil habitantes, registrada na semana 14. Já a maior foi de 15,1 bilhões de cópias na semana 17. Desde o início do monitoramento na capital mineira, em abril de 2020, a maior carga foi registrada na semana epidemiológica 3 deste ano (de 16 a 22 de janeiro): 662,1 bilhões de cópias do novo coronavírus por dia para cada 10 mil habitantes.

Evolução da carga viral no esgoto de Belo Horizonte

Entre as semanas epidemiológicas 16 (de 17 a 23 de abril) e 17, as concentrações virais tiveram um leve aumento no esgoto que chegou à Estação de Tratamento de Esgotos Onça (ETE Onça), atingindo um patamar intermediário: entre 4 mil e 25 mil cópias do vírus por litro das amostras, indicadas em laranja nos mapas a seguir. Nos demais pontos as concentrações ficaram num patamar baixo, entre 1 e 4 mil cópias por litro das amostras, indicadas em amarelo abaixo.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nas ETEs monitoradas em Belo Horizonte entre as semanas epidemiológicas 14 e 17 de 2022

 Nos três pontos especiais de monitoramento da capital mineira, o novo coronavírus foi detectado no esgoto do Aeroporto Internacional de Confins nas semanas 14, 16 e 17. Especificamente na semana 16 (de 17 a 23 de abril), a concentração foi elevada, superando 25 mil cópias por litro das amostras. Nas outras duas semanas a concentração foi baixa, ficando abaixo de 4 mil cópias por litro. Já no asilo e na Rodoviária de Belo Horizonte o vírus não foi detectado nesse período de quatro semanas, conforme a tabela a seguir.

Concentração do novo coronavírus no esgoto dos pontos especiais de monitoramento em Belo Horizonte

Brasília (DF)

Entre as semanas epidemiológicas 14 (de 3 a 9 de abril) e 17 (de 24 a 30 de abril), a carga do novo coronavírus nos esgotos das oito estações de tratamento de esgotos (ETEs) do Distrito Federal monitoradas se manteve baixa. No entanto, a carga subiu sistematicamente no período, passando de 11,7 bilhões de cópias do novo coronavírus por dia para cada 10 mil habitantes (na semana 14) para 60,6 bilhões de cópias (na semana 17). Os feriados prolongados de 15 e 21 de abril podem estar associados a essa elevação da carga viral nos esgotos do Distrito Federal.

Evolução da carga viral no esgoto do Distrito Federal 

Entre as semanas epidemiológicas 14 e 17, os pontos monitorados apresentaram concentrações virais que variaram entre não detectadas, baixas (1 a 4 mil cópias do novo coronavírus por litro das amostras) e intermediárias (entre 4 mil e 25 mil cópias por litro), destacadas respectivamente em verde, amarelo e laranja nos mapas a seguir.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nas ETEs monitoradas no DF entre as semanas epidemiológicas 14 e 17 de 2022 

Curitiba (PR)

Em Curitiba houve um aumento da carga viral nos esgotos entre as semanas epidemiológicas 14 (de 3 a 9 de abril) e 17 (de 24 a 30 de abril), que subiu de 34,2 bilhões para 212,7 bilhões de cópias do novo coronavírus por dia para cada 10 mil habitantes. Com isso, as cargas verificadas foram similares às registradas na última semana de 2021 e à segunda semana de março deste ano. Em função dessa elevação, a Rede Monitoramento COVID Esgotos emitiu a Nota de Alerta para Curitiba em 5 de maio. 

Evolução da carga viral no esgoto de Curitiba

Entre as semanas epidemiológicas 14 e 15, Curitiba registrou concentrações virais predominantemente baixas (entre 1 e 4 mil cópias do vírus por litro das amostras) e moderadas (de 4 mil a 25 mil cópias por litro), indicadas respectivamente em amarelo e laranja nos mapas a seguir. Já entre as semanas 16 e 17, as concentrações observadas foram moderadas ou elevadas (acima de 25 mil cópias por litro), destacadas em vermelho nos mapas.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nas ETEs monitoradas em Curitiba entre as semanas epidemiológicas 14 e 17 de 2022 

Fortaleza (CE)

Entre as semanas epidemiológicas 14 (de 3 a 9 de abril) e 17 (de 24 a 30 de abril), Fortaleza teve uma elevação de zero para 12 bilhões de cópias do novo coronavírus por dia para cada 10 mil habitantes, patamar considerado baixo. Entre as semanas 10 (de 6 a 12 de março) e 14, o vírus não foi detectado nos esgotos da capital cearense.

Evolução da carga viral no esgoto de Fortaleza 

Enquanto na semana epidemiológica 14 a Rede Monitoramento COVID Esgotos não detectou o novo coronavírus em nenhum dos pontos monitorados em Fortaleza, na semana 15 houve concentrações baixas indicadas em amarelo nos mapas a seguir. Na semana epidemiológica 16 houve um predomínio de pontos sem detecção do novo coronavírus, indicados em verde. Por sua vez, a semana 17 teve o retorno de concentrações intermediárias no ponto da Estação de Pré-Condicionamento (entre 4 mil e 25 mil cópias do vírus por litro das amostras), indicado em laranja a seguir.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nos pontos monitorados em Fortaleza entre as semanas epidemiológicas 14 e 17 de 2022 

Recife (PE)

Em Recife, entre as semanas epidemiológicas 14 (de 3 a 9 de abril) e 17 (de 24 a 30 de abril), a Rede Monitoramento COVID Esgotos registrou uma baixa carga do novo coronavírus nos esgotos da cidade. Nesse período as cargas foram de 0,2 bilhão de cópias do novo coronavírus por dia para cada 10 mil habitantes na semana 14 e de zero entre as semanas 15 e 17. Com isso, a capital pernambucana não teve a presença do vírus detectada em seus esgotos nas últimas semanas de monitoramento, sendo que no período houve uma tendência de diminuição dos casos suspeitos e confirmados de COVID-19 na capital pernambucana, conforme o gráfico a seguir.

Evolução da carga viral no esgoto de Recife

Ainda nesse período de quatro semanas, Recife teve concentrações virais baixas (de 1 a 4 mil cópias do novo coronavírus por litro das amostras) ou não detectadas na semana 14, indicadas respectivamente em amarelo e verde nos mapas a seguir. Entre as semanas epidemiológicas 15 e 17 houve somente pontos de monitoramento sem a presença do vírus. Por isso, os mapas estão totalmente destacados em verde.

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nas ETEs monitoradas em Recife entre as semanas epidemiológicas 14 e 17 de 2022

Rio de Janeiro (RJ)

Nas semanas epidemiológicas 14 (de 3 a 9 de abril) a 17 (de 24 a 30 de abril), a Rede Monitoramento COVID Esgotos observou a permanência de baixas cargas do novo coronavírus (SARS-CoV-2) nos esgotos do município do Rio de Janeiro. Nesse período a maior carga foi de 0,9 bilhão de cópias do vírus por dia para cada 10 mil habitantes, registrada na semana 15 (de 10 a 16 de abril). Na semana 16 (de 17 a 23 de abril) a carga caiu para o menor valor das últimas quatro semanas de monitoramento: 0,1 bilhão de cópias por dia para cada 10 mil habitantes.

Evolução da carga viral no esgoto do Rio de Janeiro

Nos pontos monitorados na capital fluminense, entre as semanas 14 e 17, houve dois tipos de situação: ou o vírus não foi detectado ou teve baixas concentrações (entre 1 e 4 mil cópias por litro das amostras), o que está respectivamente indicado em verde e amarelo nos mapas a seguir. Especificamente na semana 17, após o Carnaval, todos os pontos monitorados tiveram registro da presença do vírus – mesmo com baixas concentrações – o que não acontecia desde a semana epidemiológica 3 (de 16 a 22 de janeiro).

Distribuição espacial das concentrações do novo coronavírus nos pontos monitorados no Rio de Janeiro entre as semanas epidemiológicas 14 e 17 de 2022 

Sobre a Rede Monitoramento COVID Esgotos

A Rede Monitoramento COVID Esgotos, lançada em webinar realizado em 16 de abril de 2021, acompanha as cargas virais e concentrações do novo coronavírus no esgoto de seis capitais e cidades que integram as regiões metropolitanas de: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. Esse trabalho, uma das maiores iniciativas brasileiras de monitoramento da COVID-19 no esgoto, busca ampliar as informações para o enfrentamento da pandemia atual. 

Nesse sentido, os resultados gerados sobre a ocorrência do novo coronavírus no esgoto das cidades em questão podem auxiliar as autoridades locais de saúde na tomada de decisões relacionadas à manutenção ou flexibilização das medidas de controle para a disseminação da COVID-19. Também podem fornecer alertas precoces dos riscos de aumento de incidência do vírus de forma regionalizada.

Com os estudos o grupo pretende identificar tendências e alterações na ocorrência do vírus no esgoto das diferentes regiões monitoradas, o que pode ajudar a entender a dinâmica de circulação do vírus. Outra linha de atuação é o mapeamento do esgoto para identificar áreas com maior incidência da doença e usar os dados obtidos como uma ferramenta de alerta precoce para novos surtos, por exemplo.

Informações mais detalhadas sobre os pontos de monitoramento, incluindo a justificativa para o monitoramento de cada ponto, constam do Boletim de Apresentação da Rede. O histórico de resultados pode ser consultado nos Boletins de Acompanhamento, disponíveis no site da ANA. Acesse também o Painel Dinâmico da Rede Monitoramento COVID Esgotos, onde são disponibilizados semanalmente os resultados para todas as regiões que integram a Rede.

A Rede é coordenada pela ANA e INCT ETEs Sustentáveis com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e conta com os seguintes parceiros: Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além disso, a Rede conta com a parceria de companhias de saneamento locais e secretarias estaduais de Saúde.

Uso da Ivermectina contra a COVID-19 escancarou danos causados por estudos e periódicos de baixa qualidade

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Saiba como funciona o sistema de publicações científicas na área médica e por que estudos desacreditados sobre a ivermectina continuam servindo de justificativa para uso da droga na COVID-19

Por Luiza Caires, arte por Guilherme Castro, para o Jornal da USP

O nome desta droga rodou em diversos grupos e conversas de WhatsApp e Telegram, mas não somente ali. Prescrições e mesmo a automedicação com ivermectina se multiplicaram durante a pandemia, e ainda há quem defenda seus efeitos na covid com unhas e dentes – ainda que a boa ciência já tenha demonstrado o contrário. Ao investigar a origem de toda esta fama, inclusive argumentando com seus defensores, somos inundados com links para “estudos” e periódicos que, para quem não tem intimidade com os meandros da pesquisa e publicação científica, passam facilmente como provas da eficiência da droga.

Essa reportagem vai abordar mais a fundo dois deles: o site ivmmeta.com e um artigo publicado na revista Cureus. O primeiro caso é mais gritante: o site é anônimo, não faz parte de nenhum periódico científico, além de violar as regras mais básicas da metodologia científica – inclusive com distorção estatística grotesca para quem entende um pouco do assunto. A conclusão forjada, mas propagada inclusive por médicos em vídeos na internet, é de que a chance da ivermectina não funcionar contra a covid é de 1 em 1 trilhão.

Já o segundo caso envolve artigo publicado em uma revista que vem sendo fortemente questionada pelo processo de revisão frágil: os próprios autores indicam os revisores, e o tempo de revisão de poucos dias foge totalmente ao que é considerado por especialistas o mínimo necessário para fazer uma verificação atenta. Os autores também ocultaram conflitos de interesse, como trabalhar para o laboratório que produz ivermectina no Brasil. Mais que a falta de credibilidade, há uma série de inconsistências graves no próprio artigo – e nos dados, como paciente com 119 anos e outro que consta como tendo tomado 6 mil comprimidos da droga – que, mais uma vez, levam ao resultado favorável para a ivermectina na covid, ao contrário do que estudos sérios apontaram.

Mas antes de falarmos deles, na segunda parte dessa matéria, precisamos entender como funciona o ecossistema das publicações científicas, e por que, quando bem ajustado, ele é essencial para a ciência médica.

Revisão por pares

No século 19 apareceram as primeiras revistas científicas. Cientistas se encontravam em academias como a Royal Society, na Inglaterra, ou a Académie, na França, contavam seus achados para os colegas e essas academias reuniam os trabalhos em anais. Depois, as publicações de interesse científico se especializam, surgindo, durante o século 20, as revistas específicas.

E por que elas são tão importantes? “O processo científico precisa de organização, protocolo. É só a partir do registro que é possível reproduzir uma pesquisa e confirmar aquela informação, por exemplo. As publicações, por sua vez, geram outras perguntas e novas pesquisas. Os estudos e seus resultados precisam ser públicos”, explica Bruno Caramelli, médico cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Mais tarde, as revistas introduziram a revisão por pares. “Como o volume de artigos submetidos para as revistas começa a ser grande demais para os editores decidirem o que deve ou não ser publicado, eles pedem opinião para experts da área”, conta o físico Leandro Tessler, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos fundadores do Grupo de Estudos da Desinformação em Redes Sociais.

Bruno Caramelli, médico cardiologista – Foto: Arquivo pessoal

Funciona assim: depois de fazer o estudo, a pesquisa propriamente, pesquisador e sua equipe escrevem um texto apresentando o que esperavam responder com aquele estudo, como ele foi feito e quais resultados foram obtidos. E mandam para uma revista que tem relação com o assunto pesquisado. “O editor-chefe da revista tem o papel de aceitar ou recusar o estudo; se aceitar, o estudo irá passar por revisão por pares, quando outros pesquisadores, que não ganham por isso, leem a pesquisa e fazem sugestões. Às vezes até recusam o estudo, mas enviam sugestões de melhora. Se nenhuma revista acabar aceitando, o autor pode engavetar o texto ou submetê-lo a revistas menores ou com um crivo um pouco mais fraco”, expõe José Alencar Neto, médico cardiologista no Instituto Dante Pazzanese e autor do Manual de Medicina Baseada em Evidências.

José Alencar Neto, médico cardiologista – Foto: Arquivo pessoal

A revisão é dita por pares porque é feita por especialistas, assim como o autor da pesquisa, para conferir, dentro do texto, se há algum erro metodológico. “O papel da revisão é garantir que a produção científica tenha qualidade”, diz Caramelli.

A pandemia potencializou um problema com que a ciência se depara há alguns anos, principalmente após a popularização da internet. Se, por um lado, a multiplicação de periódicos representou algum avanço na democratização do acesso e divulgação do conhecimento científico, por outro, deu origem a uma série de publicações científicas (ou com cara de científicas) de baixíssima qualidade e alta tolerância para artigos metodologicamente ruins, quando não escritos a partir de dados fraudados. É neste tipo de revista que se insere a totalidade dos estudos que expõem como conclusão a eficácia da ivermectina contra a covid.

Também a divulgação de preprints – artigos ainda não revisados por pares, que são armazenados em repositórios on-line – aumentou durante a pandemia, já que era uma condição de catástrofe e os cientistas tinham pressa em compartilhar trabalhos e acompanhar os resultados dos colegas. “Os preprints foram concebidos originalmente para reforçar a transparência. Quando faço a primeira versão do meu artigo e submeto a uma revista, muitas vezes os revisores fazem vários pedidos de modificação. Então fica uma primeira versão nessas plataformas, que pode ser comparada com a final”, explica Ana Carolina Peçanha Antonio, médica intensivista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e pesquisadora em Integridade em Pesquisa e Metapesquisa.

Ela diz que, na pandemia, muitas pessoas completamente alheias ao mundo das ciências biomédicas repassaram tanto artigos em preprint, quanto os publicados em revistas que antes não recebiam muita atenção, fracos ou com erros.

Qualidade

Quase nenhum fator que vamos elencar aqui, isolado, é garantia da qualidade de uma produção científica. Mas todos se complementam, e o primeiro indício é a qualidade do periódico onde a pesquisa foi publicada. Existem revistas predatórias, que têm uma revisão por pares fraca ou até mesmo inexistente, estando interessadas apenas em receber o valor que o autor paga para publicar ali. “Esse problema é anterior à pandemia, e uma das coisas que o explicam é a pressão, na carreira acadêmica, para que o cientista publique artigos. Ele depende de um volume de publicações para progredir e ter financiamento”, explica Ana Carolina Peçanha.

Caramelli diz que revistas reconhecidas normalmente não deixam passar trabalhos ruins ou fraudados, embora isso também possa acontecer. Durante a pandemia, por exemplo, revistas de renome como a The Lancet até chegaram a publicar estudos que mais tarde se descobriu serem fraudados. “Mas isso não piora a imagem da revista, já que os estudos foram retirados do ar. Não vivemos em uma redoma protegidos de fraudes”, comenta Alencar Neto. “Revistas menores e que só estão interessadas em cliques podem não fazer o mesmo”, conta.

Na área médica, também é recomendado saber se aquele periódico está indexado em uma base de dados chamada Pubmed, que tem uma série de regras para incluir uma revista, funcionando como um filtro. “É só digitar o nome da revista e o termo ‘pubmed’ no buscador e você descobre se a revista está indexada”, diz Alencar Neto.

Ana Carolina Peçanha, médica intensivista – Foto: Arquivo pessoal

Impacto

fator de impacto de uma revista diz quantas vezes, em média, um artigo publicado nela é citado em outros artigos. Ele é mais um indício da qualidade da revista. A mais famosa da área médica, o New England Jornal of Medicine, por exemplo, tem o mais alto fator de impacto entre todas as revistas científicas, maior que 90.

“Há essa hierarquia das revistas. Em geral, quando escreve um trabalho, você sabe para onde deve mandar. Se é uma coisa muito quente, você vai querer mandar para uma revista muito quente, se não, mandará para uma revista menos prestigiosa. O que traz mais prestígio para uma revista é um processo de seleção de revisão rigoroso e o impacto que ela tem na sociedade”, diz Tessler.

Alencar Neto faz uma ressalva: o fator de impacto pode variar de acordo com a área de pesquisa, já que também mede o interesse público daquela publicação. Assim, o ideal é comparar o fator de impacto das revistas das mesmas especialidades.

Ana Carolina Peçanha diz também que as revistas menos importantes ganharam algum empoderamento na crise da covid, e até aumentaram seu fator de impacto. “A própria revista tem interesse em publicar artigos com resultados extraordinários, que sejam polêmicos, mesmo que gerem críticas, pois geram citações”, afirma a pesquisadora.

Leandro Tessler, físico e professor da Unicamp – Foto: Arquivo pessoal

Por fim, Alencar Neto destaca que os estudos têm objetivos diferentes, e por isso nem sempre um bom estudo estará nas maiores revistas. Mas se o artigo está num bom periódico, certamente tem mais chance de ser confiável.

Autoria

Também existe uma análise subjetiva: verificar quem são os autores das pesquisas. “Eles fazem parte de instituições de pesquisa reconhecidas? Eles e suas instituições têm uma produção científica relevante naquela área? Os autores têm algum conflito de interesse que pode interferir, conscientemente ou não, no resultado que o artigo apresenta?”, indica Tessler como perguntas.

Questões de método

Olhando para o artigo em si, embora seja complexo para uma pessoa leiga em ciência entender as falhas metodológicas de um estudo, há alguns sinais para os quais ficar atento, que podem facilitar essa identificação.

Na pesquisa médica, vale ver se estamos diante de um estudo observacional, que tem um nível mais baixo de evidência, ou controlado, que tem nível maior. Enquanto a pesquisa observacional simplesmente analisa os desfechos do uso de uma droga ou terapia em uma dada população, na pesquisa clínica controlada se fornece um tratamento para um grupo de pacientes em um estudo planejado, e se compara quem fez e quem não fez uso daquela droga, e tomou apenas placebo. Não é que o estudo observacional, por si só, seja ruim. Muitas vezes ele é necessário, como em estudos epidemiológicos. Também não é possível fazer grupo controle em pesquisa de cirurgias, por exemplo. “Costumo falar, generalizando, que estudos observacionais geram hipóteses e estudos controlados podem confirmar hipóteses”, diz Alencar Neto. “Mas se estamos testando a eficácia de um medicamento, o estudo precisa ser controlado”, declara.

Depois, é preciso verificar se o estudo foi duplo cego, quando nem a pessoa que recebeu a intervenção, nem quem a avalia sabem se ela recebeu o medicamento ou o placebo. O cegamento serve para evitar ou diminuir a atribuição de resultados a uma droga, quando eles se devem, na verdade, ao efeito placebo, ou a um enviesamento de quem avalia. “O método científico é feito para nos proteger de nós mesmos, porque nós queremos que o resultado seja bom. Então você dá ivermectina para os seus pacientes no consultório, e eles ficam bons. Mas como você sabe que eles não ficariam bem se você não tivesse dado absolutamente nada para eles?”, complementa Tessler.

Um bom estudo que avalia tratamentos médicos em seres humanos, o ensaio clínico, no jargão da ciência, também deve ser randomizado no momento de incluir os participantes em cada um dos “braços”. Ou seja, os pacientes são colocados em um dos dois grupos de forma aleatória, sem escolha prévia, para que tanto o grupo que recebeu o tratamento quanto o que recebeu placebo tenham características semelhantes: idade, sexo, condições prévias de saúde, sociais, entre outras.

Leia a parte 2: Caso da ivermectina é representativo da pseudociência propagada na pandemia


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Jornal da USP” [Aqui! ].

Em voo cego: governo Bolsonaro suspendeu único programa de testagem de agrotóxicos presentes nos alimentos vendidos no Brasil

Anvisa suspende testes de agrotóxicos nos alimentos há mais de dois anos. Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, só houve divulgação de alimentos coletados até 2018; programa monitora agrotóxicos em produtos vendidos em supermercados e feiras

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Por Júlia Rohden | Agência Pública/Repórter Brasil

Desde 2020, os brasileiros não sabem quanto de resíduos de agrotóxicos há em maçãs, laranjas, tomates, pimentões e outros alimentos que são vendidos em feiras e supermercados pelo país. Isso porque o principal programa de monitoramento do Governo Federal não divulgou o resultado de coletas feitas desde o início do governo de Jair Bolsonaro (PL). A última publicação foi justamente em 2019, a partir de amostras coletadas em 2017 e 2018.

Criado em 2001, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) teve sete relatórios publicados. “Na medida em que o próprio governo avalia e autoriza agrotóxicos, que são substâncias que comportam perigo à saúde humana, o monitoramento se torna obrigatório. [O programa] é o que permite saber o que está acontecendo depois que libera determinado agrotóxico, o que está sendo contaminado e em qual proporção”, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz que também foi um dos fundadores do PARA quando era gerente de toxicologia na Anvisa.  

Anvisa parou de coletar alimentos para testar presença de agrotóxicos em 2020

Em agosto de 2020, a Anvisa informou que as coletas seriam suspensas temporariamente devido à pandemia deCOVID-19.Não foram divulgados os resultados das coletas feitas no ciclo do segundo semestre de 2018 e 2019, e desde 2020 não houve novas coletas para avaliar as frutas e verduras consumidas pela população. Por meio da assessoria de imprensa, o órgão respondeu que o relatório com os dados de 2018 e 2019 está previsto para ser divulgado no segundo semestre deste ano. Em relação às novas coletas, a assessoria respondeu que “estão dando andamento às atividades preparatórias para execução das coletas e análises de amostras a partir do segundo semestre de 2022”.

O resultado da última edição foi avaliado pela Agência Pública e Repórter  e constatou que laranja, pimentão e goiaba foram os principais alimentos com agrotóxicos acima do limite.A cada dez pimentões, oito tinham agrotóxicos proibidos ou acima do permitido, já 42% das amostras de goiabas, 39% das cenouras e 35% dos tomates testados estavam em desconformidade. Foram 14 frutas e legumes analisados na última edição do Programa e as amostras foram recolhidas entre agosto de 2017 e junho de 2018 – ou seja, antes do início do governo de Jair Bolsonaro, que lidera o recorde histórico de liberação de agrotóxicos.

Nos últimos anos, o Brasil teve uma média anual de aprovação de 500 novos produtos, como mostra relatório da organização Amigos da Terra, de autoria das pesquisadoras Larissa Mies Bombardi e Audrey Changoe. “Ao mesmo tempo em que o governo pede que a Anvisa acelere o registro de novos agrotóxicos, não mantém programas como o PARA”, avalia Fran Paula, integrante da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e engenheira agrônoma. Segundo ela, a função da Agência de garantir a saúde da população brasileira estaria sendo deturpada para atuar a serviço de indústrias químicas. “O Programa é um exemplo desse ataque e tentativa de mudar o foco de atuação da própria Agência”, afirma.

A atuação da Anvisa em relação aos agrotóxicos está na mira do PL 6.299, apelidado “Pacote do Veneno”. O projeto que tramita no Senado prevê concentrar no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) a responsabilidade pela aprovação de novos produtos, retirando o poder da Anvisa e do Ibama. Atualmente, para que um novo agrotóxico possa ser registrado no país, precisa ser aprovado pelos três órgãos. Luiz Cláudio Meirelles analisa que a aprovação do PL 6.299 significaria o fim do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos da Anvisa. “Se tirar a competência da Saúde [para registro de agrotóxicos], dificilmente a Agência vai ficar priorizando o Programa”, diz. Meirelles avalia que houve piora na área que trata de questões vinculadas aos agrotóxicos. 


Ausência de monitoramento impede brasileiros de saberem quanto de resíduos de agrotóxicos há em alimentos

Brasil não tem outros programas regulares de impactos de agrotóxicos, critica pesquisador

O primeiro relatório do PARA divulgado pela Anvisa continha informações sobre a quantidade de agrotóxico em alimentos entre 2001 e 2007, e informava que o programa seria implementado gradualmente, por razões de infraestrutura (como escassez de laboratórios públicos que fazem as análises) e articulação com as vigilâncias públicas estaduais. Os três relatórios seguintes foram anuais (2008, 2009 e 2010). Depois, passou a condensar anos de forma irregular, com relatórios monitorando amostras de 2011 e 2012, e na sequência de 2013 a 2015. 

Para a integrante da ANA, Fran Paula, a oscilação dos períodos divulgados já demonstrava uma desestruturação do programa. “Transmitia a sensação que está tudo bem, que não precisa mais monitorar os alimentos”, avalia. 

Em resposta à reportagem, a assessoria da Anvisa informou que “a decisão sobre o período a ser divulgado depende prioritariamente da obtenção e consolidação de todos os resultados das amostras analisadas, além de se considerar o contexto da execução do Programa”. 

O ex-gerente da Anvisa lembra que, mesmo quando realizado, o programa já seria insuficiente, porque monitora apenas alimentos in natura. “[O governo] teria que monitorar alimentos processados, de origem animal, além da água, para ter uma ideia melhor de como estão os níveis de contaminação por agrotóxicos no país, que é campeão em uso de venenos”, afirma. Tais monitoramentos não são feitos ou divulgados de forma sistemática pelo governo brasileiro, mas há iniciativas que investigam e divulgam as situações. Um exemplo é o Mapa da Água,publicado pela Agência Pública e Repórter Brasil, que revela dados públicos para mostrar que há agrotóxico na água que sai das torneiras em várias cidades do país. Outro exemplo é a pesquisa realizada pelo Idec que encontrou pesticidas em 60% de alimentos ultraprocessados, como bisnaguinha, bolachas e bebidas lácteas.

Além do PARA, executado pela Anvisa, o Mapa também monitora resíduos de agrotóxicos em alimentos. “Há uma grande diferença, porque o PARA [Programa da Anvisa] é o único que faz análise de resíduos de agrotóxicos no alimento que vai para mesa da população, na gôndola do supermercado. O programa do Mapa faz as coletas na área de produção”, avalia Fran Paula. “Entre o local de produção e o consumo tem um caminho muito grande. Uma laranja produzida no Rio Grande do Sul pode demorar cinco ou seis dias até chegar no Mato Grosso, por exemplo, e teria inclusive maior aplicação de produto químico. Então é preciso considerar que há diferença entre os programas e sua finalidade”, diz.


PARA é o único que faz análise de resíduos de agrotóxicos no alimento que vai para mesa da população

Anvisa mudou tom da divulgação sobre agrotóxicos em alimentos no último relatório

Mudanças significativas já foram alvo de críticas na última pesquisa realizada pela Anvisa, divulgada em 2019. O relatório teve tom otimista, informando que “alimentos vegetais são seguros”. Pela primeira vez, a Anvisa avaliou o potencial de risco crônico (a longo prazo) para a saúde, além do risco agudo (a curto prazo). Para isso, foram usados dados sobre quanto os brasileiros consomem em média de cada alimento e o peso dos consumidores a partir de 10 anos de idade, ou seja, ignorando o risco para crianças de zero a 10 anos. 

“Não foram identificadas situações de potencial risco à saúde dos consumidores”, informa o documento em relação aos riscos crônicos. O relatório identificou risco agudo em apenas 0,89% das amostras, ou seja 41 amostras de frutas e legumes. Destas, 27 eram laranjas. O documento não colocou de forma clara informações que foram destaque na divulgação de relatórios anteriores.

O relatório não dava destaque, por exemplo, para a informação de que, a cada 14 laranjas vendidas nos mercados, uma tinha agrotóxico suficiente para causar intoxicação imediata. Cinco laranjas analisadas apresentaram mais de cinco vezes o limite de segurança de exposição, todas para o agrotóxico carbofurano, um inseticida proibido no Brasil desde 2017 por causar malefícios ao sistema nervoso, como a morte de neurônios.

Análise independente deste mesmo relatório conduzida pelo Grupo de Trabalho de Agrotóxicos da Fiocruz aponta que em 34% das amostras foram identificadas misturas de agrotóxicos, variando de dois a 21 tipos diferentes de ingredientes ativos. “Quando mudou a metodologia, que colocou a dose de referência aguda como parâmetro, acabou! É claro que não vai ter uma quantidade de resíduo de agrotóxico que provoque este efeito agudo em alguém — apenas em casos muito raros. Mas não é isso o que importa em uma avaliação toxicológica de resíduo, porque em sã consciência ninguém quer comer uma alface com 15 diferentes tipos de agrotóxicos”, finaliza Meirelles.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “Por Trás do Alimento” [Aqui!].

Em meio a um crescente genocídio indígena nas terras Yonamami, Davi Kopenawa é agraciado com título de Doutor Honoris Causa pela Unifesp

Título honorífico reconhece personalidades eminentes nacionais ou internacionais

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O Conselho Universitário da Universidade Federal de São Paulo (Consu/Unifesp) aprovou hoje (11/5), por aclamação, a concessão do título de doutor honoris causa ao pensador e xamã Yanomami Davi Kopenawa. A Unifesp é a primeira universidade a outorgar este título a Davi Kopenawa, além de ser o primeiro concedido pela instituição (leia mais abaixo). O título é concedido a personalidades eminentes, nacionais ou internacionais, que tenham se destacado nas ciências, nas artes, na cultura, na educação, e na defesa dos direitos humanos.

Davi Kopenawa é um líder político e xamã do povo Yanomami, presidente da Hutukara Associação Yanomami, ativista na defesa dos povos indígenas e da floresta amazônica, autor, roteirista, produtor cultural, palestrante, ganhador de grande número de prêmios nacionais e internacionais e membro da Academia Brasileira de Ciências. É uma das lideranças intelectuais, políticas e espirituais mais importantes no panorama contemporâneo de defesa dos povos originários, do meio ambiente, da diversidade cultural e dos direitos humanos.

É autor da obra A Queda do Céu: palavras de um xamã yanomami, em coautoria com o antropólogo Bruce Albert. A obra, publicada originalmente em francês em 2011 e traduzida ao inglês, português e italiano, foi amplamente celebrada pela comunidade antropológica internacional. Foi descrita como monumental por Leslie Sponsel, como tesouro literário por Daniel Everett, como um magnum opus filosófico por José Antonio Kelly Luciani e como um acontecimento científico incontestável por Eduardo Viveiros de Castro. O livro deve ganhar versões em alemão, espanhol e coreano.

Kopenawa participou ainda do filme A Última Floresta, de Luis Bolognesi, como roteirista e ator. O filme foi premiado dez vezes desde o seu lançamento, em março de 2021. No início de maio, o filme ganhou o prêmio Platino 2022 de melhor documentário, considerado o “Oscar Latino”.

A outorga do título coroa um processo de busca por diálogos e descolonização de saberes em andamento na Unifesp. É parte deste esforço a criação da Cátedra Kaapora de Conhecimentos Tradicionais e Não Hegemônicos, em 2016, e, posteriormente, em 2020, da Cátedra Sustentabilidade e Visões de Futuro, com foco na área socioambiental. Ambas as cátedras foram proponentes do pedido de concessão do título, juntamente com o Projeto Xingu, que atua no campo da extensão universitária junto aos povos indígenas desde a década de 1960. A proposta de concessão do título foi entregue à Reitoria em 19 de abril de 2021, juntamente com 472 assinaturas de apoio de docentes, técnicos(as) e estudantes da universidade.

De acordo com Renzo Taddei, docente integrante do grupo que iniciou o processo da concessão do título, “Davi Kopenawa é uma das vozes mais lúcidas e importantes a respeito dos problemas contemporâneos, no nosso contexto brasileiro e no que tange aos desafios planetários, como a emergência climática. É de fundamental importância que as suas ideias sejam disseminadas e discutidas. Espero que o título ajude, ainda, na mobilização da sociedade contra os ataques brutais que o povo Yanomami tem sofrido em seu próprio território”.

A data para a cerimônia de entrega do título a Kopenawa será agendada após consulta ao agraciado.

Primeiro título doutor honoris causa concedido pela Unifesp

Esse é o primeiro título doutor honoris causa concedido pela Unifesp, estabelecido pela resolução n.º 214 do Conselho Universitário (Consu), que determinou as diretrizes, critérios e procedimentos acadêmico-administrativos para a concessão de títulos honoríficos no âmbito da universidade.

O grupo de trabalho, instituído em maio de 2021, elaborou a proposta de composição da Comissão de Concessão de Títulos Honoríficos da Unifesp (Conti), assim como o detalhamento das diretrizes e critérios para a concessão.

A Conti é um órgão assessor da Unifesp vinculado ao Consu e será constituída por até cinco membros do conselho, sendo pelo menos um(a) servidor(a) TAE e um(a) estudante, eleitos(as) pelos(as) seus(suas) pares/conselheiros(as) para um mandato de dois anos. Cabe à comissão receber, analisar, instruir e coordenar o fluxo das propostas de outorga de títulos honoríficos a serem submetidas à deliberação pelo conselho.

Patrimônio ecológico marinho sob grave risco: Petrobras anuncia que vai explorar petróleo nas áreas de recifes de corais no delta do Amazonas

O gigantesco - e ainda misterioso - recife de corais encontrado na foz do  rio Amazonas - BBC News Brasil

Sistema de recifes descoberto em 2019 está sob grave risco por causa das atividades da Petrobras no delta do Amazonas

Em setembro de 2019, o “Blog do Pedlowski” publicou uma nota sobre a publicação de um artigo científico pela revista “Nature” dando conta da existência de um rico sistema de corais no delta do Rio Amazonas que mudou tudo o que se suponha conhecer acerca da existência desse tipo de ecossistema marinho.  Quase um ano depois da publicação daquele artigo que mudou o paradigma científico acerca dos recifes de corais, a empresa petrolífera francesa Total noticiou o abandono da sua intenção de explorar petróleo na área em que o sistema recifal amazônico está localizado por causa da devastação ambiental que suas atividades poderiam causar.

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Pois bem, agora a paraestatal petrolífera brasileira Petrobras está anunciando que vai tocar sozinha o projeto que francesa Total abandonou por causa dos problemas ambientais, em um total desprezo às implicações destrutivas que a extração de petróleo vai inevitavelmente causar no sistema de recifes do delta do Amazonas (ver imagem abaixo).

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Como o anúncio é de que as perfurações no delta do Amazonas, região onde se encontra o sistema recifal em sistema lamoso descoberto em 2019, deverão ser iniciadas em novembro de 2022, há que se começar um amplo movimento político para impedir mais este crime ecológico que ameaça um sistema ecológico singular e de vital importância para a biodiversidade marinha.

E sim, quando se pensa que sob o governo Bolsonaro já cometeram todos os absurdos contra o patrimônio ecológico brasileiro, a realidade vem mostra que sempre pode se cavar um poço mais fundo.

 

 

Vale é alvo de primeira grande ação de agência dos EUA por fraudar compromissos de governança socioambiental em Brumadinho (MG)

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Mais de um ano após a criação de sua Força-Tarefa Climática e ESG em março de 2021 , as metas de fiscalização relacionadas à governança socioambiental da Securities and Exchange Commission (SEC) estão finalmente sendo cumpridas. A SEC moveu recentemente uma ação de fraude contra a Vale SA, uma empresa brasileira de minério de ferro de capital aberto, por fazer declarações falsas e enganosas sobre segurança antes do rompimento de sua barragem de Brumadinho em 2019. É importante ressaltar que as declarações supostamente fraudulentas da Vale estavam contidas não apenas em arquivos da SEC e apresentações a investidores, mas também em relatórios voluntários de sustentabilidade e em um webinar ESG publicado no site da Vale. Dado o foco da SEC na aplicação de ESG,  combinado com as regras propostas recentemente divulgadas pela Comissão sobre divulgações relacionadas ao clima,o caso da Vale provavelmente se tornará a primeira de muitas novas ações de execução decorrentes de questões ESG. Como esta ação demonstra, as empresas devem tomar medidas, se ainda não o fizeram, para garantir que seus regimes de conformidade e relatórios sejam suficientemente robustos para minimizar os riscos de aplicação e litígio.

A reclamação da SEC, alegando violações da Seção 10(b) do Exchange Act e da Regra 10b-5, bem como a Seção 17(a) do Securities Act, reflete as prioridades de aplicação ambiental, social e de governança (ESG) da SEC . A denúncia , apresentada no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Leste de Nova York, alega que a Vale enganou os investidores sobre a segurança e a estabilidade das barragens que construiu para reter resíduos, ou rejeitos, de suas operações de mineração. 1

Mais especificamente, após o rompimento de outra barragem da Vale, em novembro de 2015, que matou 19 pessoas em Mariana, Brasil, a Vale ficou sob intenso escrutínio regulatório e, de acordo com a denúncia, fez uma série de declarações para tranquilizar o mercado, incluindo que “aderiu a as ‘mais rigorosas’ e melhores práticas internacionais para segurança de barragens e ‘rigorosamente’ cumpridas as exigências regulatórias.” Segundo a SEC, essas declarações “tinham a intenção de não deixar dúvidas de que [a Vale] havia aprendido com o desastre da barragem de Mariana e mitigado o risco futuro de falha em suas outras barragens de rejeitos”. A denúncia da SEC alega que essas e outras declarações eram falsas e enganosas, e que a Vale estava, de fato, ciente das condições perigosas na barragem de Brumadinho. A barragem se rompeu em 25 de janeiro de 2019,

Significativamente, as declarações nas quais a SEC baseou sua ação de fiscalização foram incluídas, entre outros lugares, nos relatórios anuais de sustentabilidade da empresa e em um webinar ESG de 2018 publicado no site da Vale, divulgando o compromisso da empresa com a segurança de barragens. Por exemplo, de acordo com a denúncia, o webinar afirmou que “todas as barragens de minério de ferro da Vale estão seguras e operando dentro dos limites normais”, e que auditores externos certificaram a estabilidade das barragens.

Quando a  SEC anunciou a ação ,o Diretor da Divisão de Execução da SEC enfatizou que “todos os investidores confiam em divulgações ESG como as contidas nos Relatórios de Sustentabilidade anuais da Vale e outros documentos públicos para tomar decisões de investimento informadas”.  Conforme observado em alertas anteriores, todos os materiais voltados para o público podem fornecer prontamente uma fonte para ações de fiscalização e litígios.

As alegações contra a Vale também destacam o risco de litígio que pode resultar de falhas ESG de uma empresa. Por exemplo, antes da reclamação da SEC, a Vale havia sido processada por investidores norte-americanos em uma ação coletiva de valores mobiliários decorrente do rompimento da barragem em 2015. Esse caso foi resolvido em 2020 por US $ 25 milhões. Uma nova ação coletiva foi movida contra a Vale em 2019 após o colapso de Brumadinho e, em 31 de março de 2022, o tribunal concedeu a certificação de classe, abrindo caminho para o que provavelmente se tornará outro acordo caro para a Vale.

Em suma, os desastres de mineração da Vale são um roteiro para os vários riscos que podem surgir de declarações relacionadas a ESG, incluindo ações de fiscalização por reguladores e litígios de acionistas. Embora as circunstâncias do caso da Vale possam ser únicas, elas ilustram a importância de garantir o cumprimento das políticas e procedimentos ESG. O caso também ressalta a necessidade de garantir que as divulgações ESG, obrigatórias ou voluntárias, sejam precisas e não enganosas.

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1. Embora a Vale seja uma sociedade anônima brasileira, suas American Depository Shares e notas são negociadas na Bolsa de Valores de Nova York.


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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela “The National Law Review” [Aqui!].

Cadastro Ambiental Rural facilita grilagem de terras públicas na Amazônia

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Neil Palmer/CIAT

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O Cadastro Ambiental Rural (CAR), principal instrumento de regularização ambiental no Brasil, tem sido usado por grileiros para a reivindicação de terras públicas na Amazônia. Artigo publicado na revista “Land Use Policy” na segunda (2) mostra que 90,5% de área no sul do Amazonas registrada no CAR é considerada propriedade privada ilegal. Quase metade das terras declaradas (45,8%) estão em áreas protegidas, como Unidades de Conservação, Terras Indígenas e Áreas Militares.

No estudo, pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em parceria com pesquisadores da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, sobrepuseram as áreas declaradas no CAR às áreas de terras públicas do Atlas da Agropecuária Brasileira. O grupo analisou uma área de 300.689 km² de sete municípios da região sul do Amazonas que, juntos, possuem 96% de cobertura florestal conservada. No entanto, a agropecuária associada ao desmatamento está em passo acelerado nessa região. Cerca de 50% do desmatamento acumulado em áreas declaradas no CAR na área de estudo está em imóveis rurais considerados ilegais.

“O estudo mostra a magnitude da apropriação em todos os tipos de terras públicas numa região que é atualmente uma das principais frentes de desmatamento na Amazônia”, afirma o autor líder do estudo, Gabriel Carrero. Segundo o pesquisador, o impacto da apropriação ilegal identificada pelo estudo é muito maior do que é geralmente reportado para florestas públicas não destinadas. Tais áreas não têm uso específico determinado, mas a legislação impede a apropriação privada dessas terras. “Nossa pesquisa chama atenção para mudanças recentes nas leis de terras, que estão legalizando a apropriação de áreas públicas, motivando a especulação e a grilagem e acelerando o desmatamento na região”.

Hoje no Brasil, a maior parte das terras públicas não destinadas da Amazônia é alvo de grileiros que se apossam da terra através de documentos do CAR, registro eletrônico público destinado ao controle, monitoramento e planejamento ambiental.  Mudanças na lei reclassificaram como legais 4,2% das áreas declaradas no CAR que até 2014 eram consideradas ilícitas.

“Esses dados nos alertam para um futuro sombrio para a floresta amazônica, pois a tendência é ocorrer maior desmatamento e grilagem com o afrouxamento das leis. Como um dos principais objetivos do governo é expandir a economia agropecuária da Amazônia, os acordos comerciais internacionais podem oferecer uma via para combater as pressões institucionais e de investimento que estão crescendo na região Norte do país. Importadores de carne bovina e soja, por exemplo, devem ficar atentos às recentes mudanças na situação legal das terras que produzem essas e outras commodities, e não comprar de terras que eram consideradas ilegais antes das mudanças das leis”, destaca Carrero.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Licenciamento ambiental “fast food” de termelétricas flutuantes ameaça a Baía de Sepetiba, denuncia ONG

Desastre anunciado: Arayara.org alerta sobre irregularidades de usinas termoelétricas a serem instaladas sem Estudo de Impacto Ambiental em área sensível do Rio de Janeiro.  Notificações extrajudiciais emitidas pela Arayara aos órgãos responsáveis lista irregularidades das Usinas Termelétricas Flutuantes da empresa turca KarpowerShip, que pretende se instalar em zona de preservação da Baía de Sepetiba, RJ

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O Instituto Internacional ARAYARA realizou nesta segunda, dia 9 de maio, uma série de notificações extrajudiciais pedindo a suspensão da precária licença ambiental do empreendimento termelétrico da empresa Karpowership Brasil Energia Ltda, emitida pelo INEA (Instituto Estadual do Ambiente), além do arquivamento do projeto. O documento aponta seis principais irregularidades no processo de licenciamento, assim como o rompimento com leis municipais, estaduais, federais e internacionais, como o CONAMA 01/86, lei nº 12.651/2012 do Código Florestal e Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). É endereçada à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), à Comissão Estadual de Controle Ambiental – CECA, ao Grupo de Trabalho (GT) do Acordo de Cooperação no 05/2022 IBAMA e INEA, à Câmara de Mediação e de Conciliação da Administração Pública Federal – CCAF da Advocacia-Geral da União, ao Serviço de Regularização Ambiental e Delegações – SERAD da Diretoria de Licenciamento Ambiental (Dilic) do IBAMA e ao próprio diretor do IBAMA, ao Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro – CREA RJ, ao Conselho Regional de Biologia – 2a Região RJ/ES e às Coordenações da Frente Parlamentar Ambientalista na Câmara Federal e no Senado Federal.

Este megaempreendimento está planejado para ser instalado na Baía de Sepetiba, nos municípios do Rio de Janeiro e Itaguaí, e compreende quatro unidades flutuantes geradoras de energia movidas a gás, uma unidade Flutuante de Armazenamento e Regaseificação de GNL, além de 36 torres temporárias, ancoradas em terra e mar, de transmissão de energia. Segundo a ARAYARA, o potencial poluidor do complexo é alto e de porte excepcional, enquadrado na classe 6C – Impacto Significativo, onde jamais poderia ter sido isentado a realização do EIA/RIMA deste empreendimento.

Área na Baía de Sepetiba onde a KarpowerShip quer se instalar as usinas termoelétricas e torres de transmissão

Área na Baía de Sepetiba onde a KarpowerShip quer instalar as usinas termoelétricas e torres de transmissão

São enumerados os seguintes pontos de irregularidades:

1. O não cumprimento do cronograma de datas para cada etapa do projeto, aprovado pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica);

2. A não competência do INEA para viabilizar o licenciamento ambiental, cujo processo iniciado no órgão estadual foi anterior ao convênio de delegação por parte do IBAMA;

3. A supressão vegetal e escavação de áreas do bioma de Mata Atlântica e áreas de manguezais, que exigem obrigatoriamente o Estudo de Impacto Ambiental não realizado pelo empreendimento;

4. A não existência de um cenário de crise energética e hídrica no Brasil que serviu como justificativa para a contratação do projeto temporário;

5. A falta de consulta às populações tradicionais diretamente impactadas, que fora do processo de licenciamento foram alertadas. Aconteceu apenas uma audiência pública que não foi promovida pelo processo de licenciamento.

6. As informações inadequadas, escassas e omissas apresentadas pela empresa Karpowership.

Segundo cronograma aceito e homologado pela ANEEL com base em urgência movida por uma crise hídrica que já não se faz mais realidade, o início da operação de teste deveria acontecer em 24 de abril e o início da operação comercial em 1º de maio, prazo este que já foi descumprido.

“O Brasil não se encontra mais em um cenário de crise do abastecimento hídrico e energético, motivo que foi usado para justificar o caráter temporário de curto prazo (44 meses) do empreendimento de alto impacto” comenta John Würdig, técnico sênior da Arayara.org.

A supressão de 7,33 hectares de vegetação da Mata Atlântica, uma parte em estágio avançado de regeneração, e de áreas de mangue são tópicos sensíveis que não foram estudados pela empresa, nem INEA, nos documentos apresentados. A Baía de Sepetiba é considerada, pela Constituição Estadual do Rio de Janeiro em seu Artigo 269, área de relevante interesse ecológico. Já o Ministério do Meio Ambiente a considerou de importância biológica e ecológica extremamente alta e uma das mais preciosas do litoral brasileiro,  pois abriga um conjunto de áreas de manguezais, que compreendem um dos maiores e mais conservados remanescentes desses ecossistemas no litoral fluminense. Segundo a Lei Federal nº 11.428/06 sobre a Mata Atlântica e Resolução CONAMA 01/86, é obrigatoriedade a realização de EIA/RIMA para o licenciamento ambiental de Usinas Termelétricas acima de 300 MW.

O atropelamento do trâmite ordinário do licenciamento ambiental inviabiliza o seguimento de processos necessários para a segurança social e ambiental do local. As notificações destacam trecho do processo de licenciamento que afirma que “não faz sentido, ao menos no presente momento, que ocorra a supressão de vegetação nativa, inclusive em estágio avançado de desenvolvimento e em mangue, se a concretização do projeto ainda é incerta”.

Milhares deixados à deriva

Segundo levantamento realizado no Estudo de Impacto do Meio Ambiente do empreendimento de Ampliação do Porto Sudeste, o número de pescadores registrados na baía de Sepetiba, em 2017, era de 3.307 pescadores. Neste estudo, foram identificadas 15 artes de pesca diferentes que são empregadas pelos pescadores locais, que não foram previamente avisados ou ouvidos, rompendo com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), assinada e homologada pelo Brasil.

“As termoelétricas encarecem a conta de energia elétrica, e isso é repassado aos consumidores, à indústria, comércio e toda a cadeia produtiva. Investir em mais termoelétricas é uma irresponsabilidade que só agrava a crise econômica e social levando milhares de pessoas à linha da miséria. Nesse caso, ainda afeta diretamente o ganha pão de quem trabalha na pesca” diz Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora da Arayara.org.

No documento mais descritivo sobre os impactos sociais e ambientais apresentado pela Karpowership, o Memorial Descritivo da UTE Rio de Janeiro, com apenas 55 páginas, são omitidas diversas informações primordiais para sua instalação, como exemplo, o volume de emissão de poluentes atmosféricos, assim como a ausência de referência aos termos “Mata Atlântica”, “Mangue” ou “Manguezal” e “pescadores”.

A ARAYARA.org ressalta a importância do EIA-RIMA; de estudos de influência direta e indireta ao meio físico (água, solo, geologia, ruído, entre outros), biótico (vegetação e fauna) e socioeconômico (comunidades, história da região, economia e modo de vida); a delimitação do perímetro de impacto, a divulgação do volume das emissões de gases do efeito estufa emitidos pelas UTEs, em especial poluentes atmosféricos como óxidos de nitrogênio (NOx), dióxido de enxofre (SO2), dióxido de carbono (CO2) e partículas (PM10) e o cumprimento das leis municipais, estaduais, federais e internacionais.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Arayara [Aqui! ].

O conflito na Ucrânia já tem ganhadores: os especuladores financeiros

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Por JungeWelt

Em vista do aumento dos preços nos mercados agrícolas como resultado da guerra na Ucrânia, a organização de proteção ao consumidor Foodwatch está pedindo barreiras mais fortes às apostas financeiras que impulsionam os preços. Em vista da iminente crise de fome em alguns países, “apostar” nos preços das commodities agrícolas é insuportável, disse o diretor de estratégia do Foodwatch, Matthias Wolfschmidt. “É necessária transparência sobre quem tem quais reservas de grãos – esta é a única maneira de combater o medo da escassez.” Ele exige que a UE estabeleça limites efetivos de especulação e acabe com as apostas no aumento dos preços.

Os preços subiram porque empresas e governos temiam que não pudessem mais comprar trigo, óleo de girassol ou outros alimentos básicos, disse Wolfschmidt. Os especuladores financeiros alimentaram isso ainda mais apostando no aumento dos preços nas bolsas de commodities. O setor financeiro já é um vencedor do ataque russo, criticou o Foodwatch. Os reguladores da UE e dos EUA continuaram a carecer de ferramentas eficazes para limitar a especulação. (dpa/jW)


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui! ].