Como um dinossauro brasileiro desencadeou um movimento para descolonizar a ciência fóssil

dinossauro triássico

Um paleontólogo examina um fóssil de dinossauro do período Triássico (cerca de 250 milhões a 200 milhões de anos atrás) no Brasil. Crédito: Carl de Souza/AFP via Getty

Por Mariana Lenharo e Meghie Rodrigues para a Nature

Em dezembro de 2020, um artigo na revista Cretaceous Research enviou ondas de choque pela comunidade de paleontologia 1 . Descreveu uma espécie de dinossauro que os autores chamaram de Ubirajara jubatus – o primeiro dinossauro encontrado no Hemisfério Sul a exibir o que provavelmente eram precursores das penas modernas. O fóssil de 110 milhões de anos havia sido coletado no Brasil décadas antes – mas nenhum paleontólogo brasileiro jamais tinha ouvido falar dele. Os autores do artigo eram da Alemanha, México e Reino Unido.

A prática também pode privar as nações de conhecimento e patrimônio, dizem pesquisadores. “Os fósseis são especiais para nós”, diz Allysson Pinheiro, diretor do Museu Paleontológico Plácido Cidade Nuvens em Santana do Cariri, Brasil, perto de onde foi encontrado o U. jubatus . “Temos literatura, artes e ofícios e música baseados neles.”

Ao contrário dos incidentes anteriores, porém, a publicação de Ubirajara provocou uma revolução.

Por meio da campanha no Twitter #UbirajaraBelongstoBR, pesquisadores brasileiros protestaram contra o artigo, que acabou sendo retirado, e pediram a devolução do fóssil. O espécime de Ubirajara está atualmente localizado no Museu Estadual de História Natural Karlsruhe, na Alemanha, mas autoridades dizem que o museu está envolvido em negociações para enviá-lo de volta ao Brasil.

Fóssil Ubirajara jubatus.

O fóssil Ubirajara jubatus provocou indignação entre paleontólogos e cidadãos brasileiros. Crédito: Felipe L. Pinheiro

Ainda mais significativo, o incidente levou paleontólogos e associações de paleontologia em toda a América Latina a unir forças para acabar com a prática. O movimento crescente está até atraindo o interesse de cientistas da Mongólia e de outros países além da América Latina que são afetados pela paleontologia colonial.

Juliana Sterli, presidente da Associação Paleontológica Argentina de Buenos Aires, descreve o episódio de Ubirajara como a “última gota”. “Em situações anteriores, não nos expressávamos”, diz ela.

Consciência global

Um dos frutos do movimento tem sido a publicação de artigos em periódicos examinando a extensão do colonialismo paleontológico na América Latina e em outros lugares. Em março, por exemplo, um relatório 2 revisou décadas de artigos descrevendo fósseis do México e do Brasil. Os autores analisaram quase 200 estudos publicados entre 1990 e 2021 e descobriram que mais da metade não incluía pesquisadores locais. Dos fósseis brasileiros descritos, 88% foram armazenados fora do Brasil.

Alguns na comunidade, no entanto, contestaram as descobertas do jornal. Martill diz que o artigo “é um estudo pseudocientífico com um conjunto de dados altamente selecionado”, e acrescenta que ignora as práticas dos paleontólogos dos EUA e se concentra em pesquisadores europeus. Martill foi coautor de artigos destacados pela pesquisa.

No passado, quando questões de colonialismo científico eram levantadas com colegas em países ricos, os incidentes eram atribuídos a ocorrências anedóticas, diz ele. “Agora que isso foi publicado em uma revista científica, não há mais como ignorá-lo.”

Jeff Liston, presidente da Associação Europeia de Paleontólogos de Vertebrados, com sede em Edimburgo, Reino Unido, e estudou o comércio ilegal de fósseis na China, diz que a comunidade científica está ciente das questões relacionadas à paleontologia colonial há algum tempo – mas o debate nos últimos anos trouxe a discussão para um público mais amplo.

No artigo de março 2 , por exemplo, os pesquisadores descobriram que nenhum dos estudos que revisaram relatou ter permissão para levar os fósseis para o exterior. “Um grande passo seria solicitar as devidas autorizações para estudar o material que estão colocando na revista”, diz Karen Moreno Fuentealba, presidente da Associação Chilena de Paleontologia, com sede em Santiago. “Certamente seria uma maneira de impor um comportamento científico adequado.”

Alguns periódicos, como Paleontology , já adotaram políticas que exigem que os autores respeitem as leis locais ao coletar e exportar amostras. “ O PLoS ONE foi um dos primeiros periódicos a ter um conjunto muito rígido de diretrizes éticas em termos de ter que mostrar licenças de coleta e exportação”, diz Liston. (A Nature também tem esse tipo de política ; a equipe de notícias da Nature é editorialmente independente de sua equipe de periódicos.)

Uma aliança latino-americana

Pesquisadores latino-americanos também aumentaram a conscientização global sobre a paleontologia colonial em conferências internacionais. Em dezembro passado, Cisneros apresentou pesquisa no terceiro Congresso Virtual Paleontológico anual, no qual ele e sua equipe analisaram o impacto da campanha #UbirajaraBelongstoBR. A hashtag se tornou um trending topic no Twitter no Brasil entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, após a publicação do artigo Cretaceous Research .

“Não apenas os comunicadores científicos envolvidos na conversa, mas também influenciadores do mundo dos jogos, artistas e mídia deram grande atenção”, diz Aline Ghilardi, paleontóloga da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em Natal, Brasil, que criou a hashtag.

Liston observa esses resultados positivos, mas diz que também houve resultados negativos. Membros do público ameaçaram os cientistas e instituições envolvidas na pesquisa de Ubirajara . A conta do Instagram do museu de Karlsruhe atraiu mais de 10.000 comentários – muitos deles negativos – e foi excluída em 2021.

Em julho, um painel discutirá o colonialismo científico no Congresso Latino-Americano virtual de Paleontologia de Vertebrados. O objetivo, segundo Cisneros, é promover uma verdadeira cooperação entre os paleontólogos. “Não queremos que pesquisadores de outros países parem de trabalhar aqui. O que esperamos é que as parcerias sejam mais justas e recíprocas. E que nossas leis sejam respeitadas, assim como respeitamos as leis de outros países.”

Paleontólogos trabalham na preservação dos esqueletos de mamutes encontrados durante uma recente escavação em Zumpango, no México.

Paleontólogos no México trabalham para preservar esqueletos de mamutes encontrados durante uma escavação em 2020. Crédito: Rodrigo Arangua/AFP via Getty

Martill diz que não tem problemas em cooperar com pesquisadores locais, mas tem dúvidas sobre até onde o movimento irá para revisar o campo. “Deveríamos [colaborar com parceiros locais] quando, digamos, um fóssil brasileiro está em uma coleção alemã há muitos anos?” ele pergunta, além de se perguntar se procurar especialistas simplesmente para adicionar colaboradores locais pode levar ao tokenismo. “Acho que isso deve caber aos autores que fazem a ciência para decidir quem é um autor.”

É importante reconhecer que os padrões éticos hoje são diferentes dos do passado, mesmo na América Latina, diz Elizabeth Chacón Baca, presidente da Sociedade Mexicana de Paleontologia, com sede em San Nicolás de los Garza. No México, por exemplo, os fósseis costumavam ser oferecidos como presentes por líderes políticos ou acadêmicos a seus pares internacionais. “O interesse científico deve prevalecer”, diz ela. “Devemos proteger e defender [nosso patrimônio], mas sempre com um tom de diálogo aberto.”

Efeitos de ondulação

Os paleontólogos latino-americanos esperam que seus esforços tenham um impacto além de seus países. De acordo com um estudo publicado em dezembro passado por Ghilardi e outros 3 , os países mais afetados pela ‘ciência do pára-quedas’ — publicações que não mencionam a colaboração local — são República Dominicana, Mianmar e Namíbia . Nos dois primeiros, em particular, pesquisadores estrangeiros se interessaram por inclusões fósseis em depósitos de âmbar.

O colonialismo paleontológico “costumava ser uma discussão entre amigos e colegas entre duas sessões de uma conferência”, diz Devapriya Chattopadhyay, paleontólogo do Instituto Indiano de Educação e Pesquisa Científica em Pune e coautor do estudo. Agora, “está recebendo um pouco de atenção merecida”.

“Estou muito animado com todo esse movimento, especialmente no Brasil”, diz Bolortsetseg Minjin, fundador e diretor do Instituto para o Estudo dos Dinossauros da Mongólia em Nova York. Ela ajudou a repatriar fósseis de dinossauros retirados ilegalmente da Mongólia e vê paralelos entre seus esforços e a campanha para repatriar o dinossauro Ubirajara .

Minjin defende fortemente que os fósseis permaneçam em seus locais de origem. “Na Mongólia, os fósseis estão fora do país nos últimos 100 anos”, diz ela. “Agora estamos diante de um problema: como encontrar a próxima geração de cientistas?” Quando as crianças não crescem vendo os fósseis como parte de sua herança e não são expostas ao conhecimento que as empolga, diz ela, há pouca motivação para se tornarem cientistas.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-01093-4


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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela revista Nature [Aqui! ].

Alerta prévio das condições do tempo

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Ana Cristina Palmeira, Wanderson Luiz Silva e Fabricio Silva (*)

A previsão do tempo com que a sociedade está mais familiarizada é a previsão atmosférica, baseada na escala de dias, como por exemplo, a previsão de que vai chover ou não no final de semana. Entretanto, no Brasil, verifica-se ainda a falta de conhecimento no que se refere à previsão meteorológica para a escala de poucas horas adiante, de um futuro bem próximo.

Observa-se no Brasil uma acentuada quantidade de municípios que apresentam escorregamentos de massa e inundações de forma recorrente. Eventos meteorológicos extremos, como chuvas intensas, ondas de calor e secas prolongadas têm se tornado mais frequentes e intensos em várias partes do globo em função das mudanças climáticas vigentes.

Nesse contexto, faz-se necessário compreender a importância relacionada à previsão de curtíssimo prazo do tempo – ou seja, de imediato, nowcasting na linguagem meteorológica – principalmente no que diz respeito ao reconhecimento de condições atmosféricas que possam originar desastres e/ou situações de calamidade pública em determinada região.

No que se refere à Meteorologia, com o crescimento da capacidade computacional e das redes observacionais, paulatinamente mais ferramentas capazes de fornecer informações acerca do panorama da atmosfera têm sido desenvolvidas. Dessa maneira, as equipes de monitoramento são capacitadas para melhor avaliação da atmosfera e da potencialidade para a formação de eventos meteorológicos extremos.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a previsão de curtíssimo prazo pode ser definida como uma previsão do tempo com detalhes locais, desde o presente até 6 horas adiante, incluindo análise detalhada do estado da atmosfera naquele período. Focada em caracterizar condições atmosféricas adversas, a previsão imediata utiliza observações de superfície e altitude, dados de radar meteorológico, satélites, modelos numéricos de alta resolução, sensores de descargas atmosféricas, instrumentos não convencionais e Inteligência Artificial.

Recentemente, o Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) passou a contar com o Laboratório de Previsão de Curtíssimo Prazo e Eventos Extremos (LACPEX), com atividades voltadas ao ensino e à pesquisa de técnicas de nowcasting e ao estudo da variabilidade climática das características da atmosfera, favoráveis à ocorrência de eventos meteorológicos extremos; um reforço importante e urgente aos já estabelecidos laboratórios que atuam na Meteorologia.

nowcasting é um dos ramos relativamente novos da Meteorologia. Informações relevantes para a sua eficácia estão sendo cada vez mais estudadas em detalhes, como, por exemplo, os processos físicos no interior das nuvens e a sua representação por meio de modelos numéricos e dados de sensoriamento remoto, os quais definem a morfologia e os traços de severidade associados aos sistemas meteorológicos (ainda não existem medidas diretas desses parâmetros).

Além disso, verifica-se ainda os iminentes desafios associados à modelagem numérica dos sistemas convectivos e a sua previsão em curtíssimo prazo, uma vez que isso depende das análises provenientes de dados de radares e satélites e a alta variabilidade espaço-temporal. Nesse contexto, iniciativas utilizando técnicas de Inteligência Artificial se apresentam como ferramentas de grande potencialidade para o reconhecimento de condições meteorológicas críticas, a emissão prévia dos alertas e consequentes ações antecipadas.

É preciso reconhecer os avanços, mas também compreender as necessidades de melhoria. Diminuir os abismos tecnológicos, humanos e logísticos para cada vez mais preparar os Meteorologistas para o enfrentamento diário, o qual a sociedade espera e confia. É preciso estreitar o espaço entre o operacional e a academia para seja possível, juntos, conhecer e prever o tempo com antecedência; ter profissionais habilitados para as funções operativas, bem como educar e respaldar a população para eventos severos.
 

* Ana Cristina Palmeira é doutora em Ciências/Meteorologia, Professora da UFRJ e Conselheira do Crea/RJ; Wanderson Luiz Silva é Mestre em Meteorologia, Professor e Pesquisador no Depto. de Meteorologia da UFRJ, coordenador do Laboratório de Previsão de Curtíssimo Prazo e Eventos Extremos e Conselheiro Suplente do Crea-RJ; Fabricio Silva é Mestre em Meteorologia; Professor do Depto. de Meteorologia da UFRJ e também coordenador do Laboratório de Previsão de Curtíssimo Prazo e Eventos Extremos (LACPEX/UFRJ).

Porque a derrota de Marine Le Pen é mau presságio para Jair Bolsonaro

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A derrota por margem surpreendentemente folgada de Marine Le Pen para Emmanuel Macron (aproximadamente 58% a 42%) no segundo turno das eleições presidenciais francesas deve (ou deveria) ser vista como mau presságio pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro e seu séquito de ministros militares. É que a mensagem de ultra-direita de Len Pen, ainda que mais sofisticada, e exatamente a mesma da sua versão tosca brasileira, o bolsonarismo.

E há que se considerar que Emmanuel Macron chegou ao segundo turno debaixo de um profundo desgaste por causa dos seus anos de reformas neoliberais que jogaram milhões de trabalhadores francesas num misto de desemprego e empregos precários. Mas nem com esse desgaste todo, Le Pen foi capaz de fazer descer a pílula amarga que sua receita que mistura xenofobia e retrocessos de pautas sociais aplicaria sobre a classe trabalhadora francesa.

Alguém há de dizer que França e Brasil são realidades muito díspares para serem comparadas, até porque as forças armadas francesas não possuem histórica de intervenção na vida política como as brasileiras possuem. Mas o fato é que mesmo enfrentando um presidente altamente popular, Len Pen conseguiu convencer o eleitorado francês que sua receita seria garantia de dias melhores.

Pensemos então no enfrentamento eleitoral cristalizado entre Jair Bolsonaro, um presidente que não buscou gerar nenhum tipo de pauta que fale à maioria da população, mais preocupada com a crescente dificuldade de colocar comida na mesa, e um candidato, no caso o ex-presidente Luís Inácio Lula da sulva, cujo governo criou a sensação de que a fome tinha deixado de ser um problema crônico no Brasil.

Se houver algum ministro com um mínimo de tino estratégico ou ainda uma cartomante de plantão, a carta que será mostrada a Bolsonaro provavelmente será a do 5 de espadas.

Ah sim, um detalhe a mais: com a eleição de Emmanuel Macron, as chances de aplicação do acordo comercial União Europeia-Mercosul podem ter acabado de vez.

Nova lei brasileira de agrotóxicos pode envenenar o mundo

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Por Laís Carneiro, Larissa Faria Natali Muller, André Cavalcante, Afonso Murata e Jean Ricardo Simões Vitule para a Science

O  Congresso Nacional do Brasil votará em breve um polêmico projeto de lei (PL 6299/2002) que flexibiliza a atual legislação sobre agrotóxicos ( 1 ). Argumentando que o registro de novos produtos demora muito, esse projeto de lei propõe mudanças no processo de avaliação e autorização, excluindo da decisão os órgãos federais de saúde e meio ambiente. Além disso, substâncias anteriormente proibidas poderiam ser reavaliadas sob essas novas regras. Esse projeto se enquadra na recente tendência brasileira de minar a legislação ambiental (2) ao priorizar o setor produtivo em detrimento da integridade ambiental ( 3 , 4 ).

Em 2021, o governo autorizou o uso de 562 novos agroquímicos no Brasil (5), muitos deles importados da Europa e América do Norte (6). Vários desses novos agrotóxicos são proibidos nesses países (6 , 7 ), mas seus fabricantes continuam exportando-os para locais com legislação permissiva como o Brasil. O uso indiscriminado de agrotóxicos sem a devida avaliação é uma questão de saúde pública. Nos últimos 10 anos, as intoxicações e mortes relacionadas à intoxicação por agrotóxicos aumentaram 94% no Brasil ( 8), e esses agrotóxicos persistem no meio ambiente (9).

Como o Brasil é líder na exportação de suas lavouras, como a soja que fornece ração animal global (10), a provável aprovação desse projeto deve ser uma preocupação global. Não são necessários mais pesticidas para alimentar o mundo (11). Existem soluções conhecidas para aumentar a produtividade (12) que dispensam o uso intenso de agrotóxicos, como a agroecologia ( 11 ). Um projeto de lei alternativo (PL 6670/2016) poderia levar o Brasil em uma direção melhor, iniciando um programa nacional para reduzir os agrotóxicos, mas esta proposta tem recebido baixa prioridade e é improvável que se torne lei no atual governo. Fortalecer os órgãos ambientais e investir em ciência e tecnologia é o caminho para alcançar o desenvolvimento sustentável do agronegócio.

Laís Carneiro1*, Larissa Faria1, Natali Muller1,André Cavalcante1, Afonso Murata2, Jean Ricardo Simões Vitule1

1Laboratório de Ecologia e Conservação, Setor de Tecnologia, Departamento de Engenharia Ambiental, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, 81531-970, Brasil. 2Centro de Ensino Pesquisa e Extensão em Agroecologia,Departamento de Fitotecnia e Fitossanidade, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR,81531-970, Brasil. * autora para correspondência


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É nossa terra também: os povos indígenas do Brasil fazem suas vozes serem ouvidas

Em meio a dança e canto, 200 diferentes etnias indígenas se reuniram no Acampamento Terra Livre anual para exigir ações sobre direitos à terra e meio ambiente

si kaingangKrig Si Kaingang, do povo Kaingang, carrega um cartaz “Declarações de morte” com as leis ambientais que estão sendo consideradas pelo governo brasileiro. Foto: Rebeca Binda

Por Rebeca Binda para o “The Guardian”

Uma multidão de sons e tons ecoando cantos locais; pinturas faciais vibrantes com cores e rendilhados do vermelho do urucum e do preto do jenipapo; os movimentos fortes e coordenados de danças mágicas: o Acampamento Terra Livre anual trouxe povos indígenas de todo o Brasil à sua capital no início deste mês.

Hitup e Wekanã Pataxó carregam uma pedra que representa uma pepita de ouro durante um ato em Brasília.  A pepita é pintada de vermelho com os dizeres “Fora Bozo”, que significa Fora Bolsonaro.Hitup e Wekanã Pataxó carregam uma pedra que representa uma pepita de ouro durante uma marcha em Brasília. Fora Bozo significa Fora Bolsonaro

Sob o título Retomar o Brasil: demarcar os territórios e indigenizar a política, o 18º Acampamento Terra Livre (ATL) viu 8.000 indígenas em Brasília dar voz à luta em curso para salvar sua cultura e forma de vida.

Joênia Wapichana, primeira deputada indígena do país, disse: “A ATL é uma oportunidade de unir lideranças indígenas e brasileiras de todo o país para defender seus direitos constitucionais”. Eles protestaram contra o que os ativistas chamaram de “combo da morte” de projetos de lei relacionados ao meio ambiente que estãosendo considerados pelo Congresso. Entre eles estão o projeto delei PL 191 , que visa abrir terras indígenas para mineração e outras explorações comerciais, e o PL 490, que alteraria as regras de demarcação de território indígena.

Líderes indígenas proeminentes Maial Payakan, Sônia Guajajara, Célia Xakriabá, Braulina Baniwa e outras participam de uma marcha em Brasília durante o Acampamento Terra Livre para protestar contra a agenda anti-indígena de Bolsonaro.Líderes indígenas proeminentes Maial Payakan, Sônia Guajajara, Célia Xakriabá, Braulina Baniwa e outras participam de uma marcha em Brasília durante o Acampamento Terra Livre para protestar contra a agenda anti-indígena de Bolsonaro
The Guardian ATL 2022-08 Joênia Wapichana, a primeira advogada indígena do Brasil e a primeira mulher indígena eleita para o Congresso Nacional, é fotografada no Acampamento Terra Livre em Brasília, Brasil.

Puyr Tembé, líder do povo Tembé e cofundadora da ANMIGA (Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade), é fotografada no Acampamento Terra Livre em Brasília, Brasil.Joênia Wapichana, à esquerda, primeira deputada indígena do Brasil, e Puyr Tembé, à direita, do povo Tembé pediram ação unificada

“Os indígenas têm sido constantemente objeto de discussões e deliberações sem a devida participação”, disse Wapichana. “Neste momento específico, esse encontro é ainda mais importante considerando que temos um governo anti-indígena, fascista, antiambientalista e anti-direitos humanos. Me vejo como um porta-voz que vai levar a voz indígena mais longe, para lutar pela defesa de nossos direitos para evitarmos mais violações. Também é incrivelmente importante despertar mais simpatia e empatia entre os políticos no Congresso, que representam a sociedade brasileira.”

Angohó Pataxó senta-se coberta por uma mistura de lama e barro para protestar contra o assassinato de seu parente em Brasília há 25 anos por proteger o território de seu povo
‘Hoje estamos aqui resistindo para existir’, disse Angohó Pataxó, cujo parente foi assassinado em Brasília há 25 anos por proteger o território de seu povo

Indígenas marcham em uma procissão chamada 'Ouro de Sangue' para protestar contra as políticas de Bolsonaro.
Uma instalação feita de barro, representando lama tóxica da mineração, e tinta vermelha, representando sangue indígena derramado, fica do lado de fora do Ministério de Minas e Energia, em Brasília
Indígenas marcham em uma procissão chamada ‘Ouro de Sangue’ para protestar contra as políticas de Bolsonaro. Uma instalação feita de barro, representando lama tóxica da mineração, e tinta vermelha, representando sangue indígena derramado, fora do Ministério de Minas e Energia, em Brasília

“Hoje estamos aqui resistindo para existir”, disse ela. “Estamos aqui exigindo justiça pela morte do meu parente. Mas também estamos aqui mostrando nossa resistência ao extrativismo, estamos aqui reivindicando nossos direitos fundiários em terras ancestrais, estamos aqui lutando por nossas vidas e pelo direito de nós, mulheres, ter nosso lugar e espaço reconhecidos”.

Alice Pataxó, comunicadora indígena e ativista ambiental
Um índio marcha com a filha nos ombros.
Alice Pataxó, ativista ambiental e indígena marcham com a filha no Acampamento Terra Livre

Puyr Tembé, do povo Tembé do estado do Pará, lembrou ao público a importância da união. “Depois de dois anos sem o Free Land Camp presencial por conta da pandemia, chegamos a esta 18ª edição cheios de força, bravura e resistência para não apenas lutar e defender nossos direitos, mas também celebrar e reconectar.

“Pelo bem das gerações futuras e do nosso bem-estar, somos inspirados todos os dias a continuar lutando. A expectativa que temos é que [possamos] trazer alguma mudança. Cada vez mais acredito que os indígenas estão cientes de que essa mudança é possível se estivermos unidos”.

Wapichana acrescentou: “Como mulher indígenano Congresso, é fundamental para mim que represente as vozes de outras mulheres guerreiras, considerando os direitos e interesses coletivos indígenas e focando em agendas específicas para as mulheres. Mostrar que somos capazes, que somos plenamente capazes de exercer nossas profissões e ocupar posições de poder é extremamente importante para mim.”

Encontre mais cobertura sobre a idade da extinção aqui e siga os repórteres de biodiversidade Phoebe Weston e Patrick Greenfield no Twitter para obter as últimas notícias e recursos


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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Asfalto sonrisal como dádiva de governo? Menos, prefeito Wladimir, menos…..

asfalto sonrisal

Acabo de ler um artigo no site “Tribuna NF” sobre o aparecimento de buracos precoces no recapeamento realizado na rua Saldanha Marinha, o que configuraria o uso do chamado “alsfalto sonrisal, o que colocaria em xeque a longevidade da fina camada asfáltica que foi colocada para dar uma espécie de “lifting” nas faces esburacadas da maioria das ruas da região central da cidade de Campos dos Goytacazes.

Eu estaria faltando com a verdade se e que estou surpreso com essa revelação, pois tenho sido um observador privilegiado da forma caótica com que os trabalhos realizados pela empresa (ou empresas) contratada pela administração de Wladimir Garotinho têm sido realizados.  A forma aparentemente descoordenada com os serviços, entretanto, me parecem ser apenas a ponta de um iceberg, pois há algo mais importante que está ausente, qual seja, a predominância de um padrão de completa incivilidade na condução diária do trânsito, pois está muito difícil dirigir de forma segura e civilizada pelas ruas da cidade, na medida em que inexiste uma política municipal de trânsito e, pior, fica evidente que a Guarda Civil Municipal não possui o efetivo necessário para disciplinar os indisciplinados. Em outras palavras, há algo mais frágil em nossas ruas do que o asfalto sonrisal denunciado pela Tribuna NF.

Diante disso tudo, o que faz o prefeito Wladimir Garotinho? Vai para as redes sociais para mostrar a recuperação (capenga) das ruas centrais como alguma espécie de demonstração de dádiva divina. A isso eu respondo: menos, prefeito, menos.

Povos indígenas ocupam sede de produtora de óleo de palma que invadiu seus territórios na Amazônia

Indígenas Tembé e quilombolas ocupam sede da BBF no Pará

Comunidades tradicionais ocuparam a sede da produtora de óleo de palma, na cidade de Acará, em protesto ao avanço da empresa sobre seus territórios e por violações de direitos e poluição (Imagens reprodução Whatapp).

Por Cícero Pedrosa Neto para o Amazônia Real

Belém (PA) Indígenas do povo Tembé, do território Turé Mariquita, na cidade de Acará (PA), ocuparam na manhã do feriado desta quinta-feira (21) a sede da empresa Brasil Bio Fuels (BBF), a maior produtora de óleo de palma na América Latina. Segundo as lideranças, a empresa viola direitos e tem avançado sobre áreas indígenas, de quilombolas e ribeirinhos. À imprensa, a BBF afirma que a sua propriedade foi invadida por homens encapuzados e veículos foram incendiados, acusando ainda Paratê Tembé, Lúcio Tembé e Raimundo Silva e Silva de incitarem o movimento.

“A gente já não aguenta mais os ataques da empresa BBF, tantas ameaças. Não só a população indígena, mas também a população quilombola e ribeirinha da nossa região”, disse Paratê Tembé, liderança indígena da aldeia Turé Mariquita, em vídeo enviado à Amazônia Real. “Estamos sendo perseguidos e quando vamos nos manifestar somos recebidos à bala. Agora a população não arredou o pé e foi pra cima.”

Os manifestantes ocuparam a sede da BBF também em protesto contra os impactos ambientais causados pela empresa por conta do uso de agrotóxicos nas plantações de dendê (matéria-prima do óleo de palma), do descarte irregular de rejeitos, de irregularidades nas licenças ambientais da empresa e de fraudes nos registros das terras onde estão as plantações de dendê e a planta industrial da empresa.

Segundo informações coletadas pela reportagem, Flávio Ferreira de Souza, quilombola da comunidade Nova Betal, uma das seis comunidades quilombolas que integram a Associação de Moradores e Agricultores Remanescentes de Quilombolas do Alto-Acará (Amarqualta), teria sido detido de forma irregular por funcionários da BBF durante os protestos, e permanecido por horas nas instalações da empresa, até ser levado – pelos mesmos funcionários – para a Seccional de Marituba, na região metropolitana de Belém.

Sobre Flávio Souza, a companhia informou: “Um dos invasores foi pego em flagrante roubando dentro da empresa BBF e foi conduzido para a delegacia pela Polícia Militar”. A reportagem não conseguiu, até o fechamento desta reportagem, confirmar essa informação com a Polícia Civil do Estado do Pará. As lideranças ouvidas nesta reportagem negam que tenha havido furtos na empresa por parte dos manifestantes.

“Para nós não é apenas uma questão de território, é uma questão de sobrevivência. As comunidades quilombolas estão correndo o risco de desaparecerem por conta deste envenenamento coletivo que está acontecendo e por conta do furto de nossas terras, que é a única coisa que a gente tem, herdada dos nossos antepassados escravizados”, disse Josias Dias dos Santos, também conhecido como Jota, coordenador de relações públicas da Amarqualta.

A monocultura do dendê

Produção de dendê em estrada de acesso ao Quilombo do Turê III, no Pará
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Fornecedora de óleo de palma para gigantes do setor energético (para a produção de biodiesel) e para o setor alimentício, a empresa está presente nos Estados do Amazonas, Acre, Pará, de Rondônia e Roraima. Segundo dados extraídos do site da empresa, ela possui no Pará cerca de 56 mil hectares de plantações de dendê e sua planta industrial tem capacidade de processar 285 toneladas de frutos frescos por hora.

O plantio de dendê e a indústria, núcleo dos conflitos no Acará, no nordeste do Pará, foram arrematados pela BBF em novembro de 2020, tendo pertencido antes a uma subsidiária do grupo Vale, chamada Biopalma. Segundo relatos das lideranças, os problemas enfrentados pelas comunidades tradicionais começaram com a Biopalma, mas os conflitos se acirraram nos últimos meses por dificuldades de diálogo com a BBF.

Apesar de ser apresentado como uma alternativa ecologicamente eficaz, a produção do óleo de palma tem tirado o sono de muitas comunidades amazônicas. Assim como a soja e outras monoculturas agrícolas, o dendê tem prejudicado os modos de vida de populações na Amazônia brasileira. A região do Acará se tornou um dos grandes polos nacionais da produção do fruto, cujo plantio tem cercado as comunidades, como é o caso da aldeia Turé Mariquita e da comunidade quilombola vizinha, Turé III. Para se chegar até elas, só atravessando vastas extensões de plantações de dendê.

“Ela prega para o mundo uma energia limpa, mas é mentira. É só vir aqui nos nossos territórios para saber a realidade que vivemos. A gente não pode mais tomar banho, não pode beber e nem cozinhar mais com a água que a gente tem, fora as moscas, o glifosato [agrotóxico] e as vespas que comem toda a nossa produção”, afirma Jota.

A criminalização dos movimentos

A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) informou “que a Polícia Militar deslocou para a região de Acará tropas do Comando de Missões Especiais da Capital, além das tropas de Tomé-Açu e Abaetetuba para conter a situação”. A Segup também destacou que o caso será acompanhado pelas Delegacias de Tomé Açu e Acará.

A BBF enviou uma nota em que afirma: “sete caminhões da empresa com carga de dendê foram furtados da fazenda Eikawa, que pertence a BBF, em Tomé Açu” e que a sede da empresa teria sido “invadida por 50 pessoas encapuzadas que intimidaram os trabalhadores atirando para todos os lados e causando pânico entre os colaboradores”.

No entanto, a Amazônia Real teve acesso a um vídeo que mostra um homem de camisa verde, portando um revólver de calibre 38, junto a outro homem de capuz e camisa preta, armado com um machado, dentro da empresa. Na imagem, é possível ver que esses homens estão do lado de dentro da BBF, enquanto os manifestantes aparecem ao longe, próximo de uma das cercas que delimitam a sede da empresa. Questionada, a empresa não informou quem são os homens que aparecem no vídeo.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, a BBF teria contratado milicianos para fazer a segurança da sede e para coagir as comunidades. O Ministério Público do Estado abriu um inquérito para investigar a contratação de milícias armadas por parte da empresa.

A informação foi confirmada pelo advogado Jorde Tembé, que alegou que a veiculação das informações da empresa sobre a ocupação ocorrida neste feriado de Tiradentes contém uma “inversão de narrativas”. Segundo ele, os “encapuzados” mencionados pela empresa, na verdade, são pessoas que trabalham na segurança da BBF.

Na nota, a BBF afirma que a ação teria sido liderada por Paratê Tembé, Lúcio Tembé e Raimundo Silva e Silva e resultou no incêndio de três ônibus e mais carros e tratores. À reportagem, Paratê negou ser a principal liderança do movimento que, segundo ele, é composto por cerca de 200 pessoas, incluindo indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

De acordo com o advogado indígena Jorde Tembé, que representa a associação que reúne as famílias da TI Turé Mariquita, uma indígena teria sido coagida pelos seguranças da BBF que a ameaçaram “de atearem fogo nela”.

Jorde informou que os conflitos são antigos, mas que na gestão da Biopalma os indígenas ainda conseguiam dialogar com a empresa. Mas desde que a BBF assumiu as operações, isso deixou de acontecer. “Mesmo com todos problemas e com a repercussão que, muitas vezes não é tão boa para as lideranças, eu prefiro sair de casa pra lutar e ficar com o nome sujo, ser processado, do que ficar sem fazer nada e morrer envenenado pela empresa com todos os impactos que ela vem causando”, pontua Josias dos Santos, liderança quilombola.

Fraudes e poluição

De acordo com o Promotor de Justiça da cidade de Acará, Emério Mendes Costa, em entrevista à Amazônia Real, “o conflito coletivo pela posse da terra se instalou em razão da existência de suspeitas de fraudes registrais de documentos referentes à área [ocupada pela empresa] e também irregularidades nos licenciamentos ambientais de monocultura de dendê, que gera poluição, atingindo principalmente os recursos hídricos”.

As comunidades se queixam de prejuízos diretos às atividades de extrativismo, agricultura familiar e pesca artesanal – meio de subsistências dessas comunidades –, causados pela poluição e pela ausência de fiscalização ambiental por parte dos órgãos competentes.

Ainda segundo o promotor, um dos maiores entraves, e que contribui diretamente para a eclosão dos conflitos na região, se dá pela morosidade na titulação definitiva de uso coletivo das terras onde estão as comunidades tradicionais.

“Pelas informações que obtivemos em audiências públicas, requisições de documentos e oitivas, existe um problema relacionado ao fato de que boa parte dessas áreas, e talvez até a maior parte delas, seja do Incra e do Iterpa [[órgão responsável pela regularização fundiária no Pará], e a morosidade em efetivar a titulação coletiva dessas áreas, como prevê a lei, contribui para o acirramento dos conflitos”, afirma.

A reportagem apurou que, na plataforma do Sistema Integrado de Monitoramento e Licenciamento Ambiental (Simlam), da Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará, não consta a licença ambiental de operação do empreendimento localizado na cidade do Acará em nome da Biopalma – que precede a BBF em operações na região e cujas instalações foram por ela compradas. Com relação à BBF, existem registros no sistema apenas relacionados a um empreendimento da empresa no município de Concórdia do Pará.

A BBF informou à Amazônia Real que “detém todos os documentos das áreas e todas as licenças legais. O resto é fake news com o objetivo de prejudicar a empresa”.

De acordo com o advogado Jorde Tembé, nem a Biopalma e nem a BBF realizaram o Estudo de Componente Quilombola e Componente Indígena para atuarem na região, direito garantido por lei com base na Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho, procedimento que deve anteceder os licenciamentos ambientais de qualquer empreendimento que afete comunidades tradicionais/originárias, salientando a irregularidade das atividades da empresa.

A Convenção 169 prevê a consulta prévia, livre e informada das comunidades tradicionais indígenas e quilombolas, garantindo-lhes o direito de opinarem sobre os empreendimentos e de participarem de discussões que assegurem medidas de prevenção e mitigação de possíveis danos ambientais, aprovando ou não a instalação de empresas nos limites de seus territórios.

“Nós não queremos a BBF perto de nós, queremos que ela pare de atacar a gente”, ressaltou Paratê Tembé.

Caminhão carregado de Dendê proveniente da plantação de propriedade da BBF, que faz fronteira com a comunidade Curuperé Grande e Bacuri. (Foto: Pedrosa Neto/Amazônia Real)


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “Amazônia Real”  [Aqui!].

Violações ambientais e de direitos trabalhistas geram lista negra de empresas produtoras de óleo de palma

Alegações de violações de direitos humanos afetam grandes produtores de óleo de palma na Malásia

oleo de palmaVista de uma grande plantação de óleo de palma. Foto: dpa/EPA/Bagus Indahono

Por Thomas Berger para o Neues Deutschland

A empresa malaia Sime Darby Plantations se orgulha de ser o maior produtor mundial de óleo de palma sustentável. Mas por quase um ano e meio, uma disputa persiste com as autoridades dos EUA investigando alegações de servidão por dívida e trabalho forçado nas plantações da empresa. Diz-se que as práticas vão desde o engano à violência psicológica e sexual, à intimidação e ameaças e à retenção de documentos de identificação. As revelações têm consequências de longo alcance: a produtora italiana de confeitaria Ferrero anunciou recentemente em um e-mail à agência de notícias Reuters que não compraria mais óleo de palma e palmiste do grupo e de suas subsidiárias por enquanto. A segunda maior fabricante de chocolates do mundo usa óleo de palma para seus chocolates Ferrero Rocher e Nutella, por exemplo.

Mas a extensão do possível escândalo é muito maior: seis empresas de óleo de palma estão agora em uma lista negra da alfândega dos EUA. No caso da Sime Darby, uma ordem foi emitida em dezembro de 2020 para interromper todas as importações por enquanto. Como resultado, a Ferrero inicialmente parou de fornecer suas filiais nos EUA com esse parceiro de negócios em janeiro de 2021, diz agora. De acordo com um comunicado da Sime Darby, a Ferrero geralmente não é cliente há “um tempo”. A norte-americana Cargill, uma das maiores intermediárias de óleo de palma do mundo, também suspendeu as entregas da Sime Darby no final de fevereiro deste ano.

Os países vizinhos do Sudeste Asiático, Malásia e Indonésia, juntos, garantem cerca de 85% da oferta global de óleo de palma – um mercado que recentemente teve um valor total de 65 bilhões de dólares. Como ainda há muitos casos de corte e queima na Indonésia e relatos de condições miseráveis ​​de trabalho nas plantações estão se acumulando, a Malásia tem sido considerada até agora o país em que os requisitos mínimos ecológicos e sociais são atendidos muito melhor. Clientes conhecidos como a Ferrero , portanto, preferem ser abastecidos de lá.

No entanto, a atual controvérsia em torno de Sime Darby e outros mostra que nem tudo está indo tão bem quanto é retratado para o mundo exterior. A FGV Holdings, outra grande produtora, também está sendo condenada por possível trabalho forçado. A proibição de importação desta empresa pelas autoridades alfandegárias dos EUA data de 30 de setembro de 2020. Em outubro passado, a consultoria Elevate foi contratada para investigar até que ponto as normas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) são violadas nas plantações da FGV. Em conferência de imprensa em janeiro, foi anunciado que o trabalho efetivo para a auditoria seria realizado no primeiro semestre de 2022 e que se estimava levar cerca de seis meses. Os resultados ainda não estão disponíveis.

Sime Darby também está atualmente tendo suas operações na Malásia avaliadas por um especialista independente. Entretanto, a empresa salienta que o salário mínimo mensal dos cerca de 24.000 trabalhadores das plantações vai subir para 1.500 ringgits (cerca de 325 euros) a partir de 1 de Maio. Só foi unificado em março e fixado em 1.200 ringgits. Anteriormente, os trabalhadores nas áreas rurais recebiam 100 ringgits a menos do que aqueles nas cidades, de acordo com a legislação geral da Malásia.

Só recentemente, no entanto, o ministro responsável pelas plantações, Zuraida Kamaruddin, apontou em uma conferência do setor que os ganhos médios nas plantações poderiam muito bem ser de 2.000 a 2.500 ringgits, então a introdução de um salário mínimo de 1.500 ringgits não deveria ser um grande acordo. Isso coloca o PR positivo em perspectiva que Sime Darby espera com a mudança.

O debate atual também destaca o quão inadequada é a certificação geral da Round Table for Sustainable Palm Oil (RSPO), fundada em 2004 por iniciativa do WWF. A Sime Darby é atualmente a maior corporação a ostentar seu selo. Obviamente, mais controles são necessários – a própria RSPO havia determinado isso quando a FGV já havia sido pega na mira em 2016. Em 2018, o certificado foi retirado e uma avaliação abrangente foi imposta ao grupo. Embora a suspensão tenha sido levantada em agosto de 2019, após uma leitura exaustiva das seis auditorias realizadas entre o final de 2018 e outubro de 2019, foi restabelecida. A FGV, por outro lado, também aponta melhorias – a prática de emprestar funcionários para subcontratados foi abolida.

E como o Estado reage? Embora uma autoridade reguladora para o setor tenha sido criada em 1998, ainda faltam diretrizes para o cumprimento dos direitos humanos e estudos sobre isso. Estruturas de grupo opacas também tornam os controles mais difíceis. Uma grande proporção dos trabalhadores nas plantações da Malásia são trabalhadores de países mais pobres, como Indonésia e Bangladesh. Seus passaportes são retirados deles – uma violação da lei, mas que ainda uma prática comum em muitos lugares.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Privatização da água: ameaça ou solução?

Para docente da Unifesp, distribuição da água pelo mundo ocorre de maneira irregular, mas a solução não passa pela privatização do recurso

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Nova commodity: a bolsa de valores norte-americana lançou o Nasdaq Velez Califórnia Water Index (Índice da Água) em 2020, colocando o insumo no mesmo patamar de recursos minerais fundamentais à economia mundial, como petróleo e carvão mineral (Foto: 13727445/Pixabay)

O assunto divide opiniões: a água pode ser tratada como uma mercadoria negociável na bolsa de valores, ou deve continuar na posição de recurso natural e bem público? A privatização da água sempre retorna ao debate público em épocas de escassez hídrica, pois sua oferta está diretamente associada à desigualdade social e à falta de manejo adequado. Mas a tendência começa a se desenhar no Brasil neste início de século.

Os defensores do controle dos sistemas de distribuição por entidades privadas baseiam-se no risco de escassez, a longo prazo, argumentando má administração estatal. Os contrários, por sua vez, afirmam que as empresas privadas estão preocupadas apenas com o lucro e ignoram os custos ambientais e sociais das práticas privadas envoltas no fornecimento de água.

A privatização da água se refere ao controle ou manutenção dos sistemas de distribuição por entidades privadas. Por exemplo, quando uma empresa trabalha em parceria com um município para construir e manter uma estação de tratamento de água ou instalação de esgoto. E essa prática, no Brasil, não é tão recente.

De acordo com o historiador Fábio Alexandre dos Santos, docente da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (Eppen) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – campus Osasco, a comercialização da água no Brasil remonta ao século XIX, quando a água era vendida em domicílio nas principais cidades e capitais, com os aguadeiros. “Os serviços de distribuição começaram a ser estruturados, aqui e em outros países, acompanhando o aumento da população e das atividades urbanas e, paralelamente, das epidemias, especialmente nas grandes cidades”, explica.

O estado passa então a se movimentar para a implementação de políticas públicas de saneamento rural e urbano após 1940, atento ao absenteísmo nas empresas associado à disseminação de doenças.

A despeito de algumas ações públicas voltadas à implementação dos serviços de distribuição de água e de esgotamento sanitário nas principais capitais do Brasil, em especial no Rio de Janeiro e em São Paulo, foi somente a partir da década de 1930 que o Estado passa a se movimentar para a implementação de políticas públicas de saneamento rural e urbano, com a institucionalização de órgãos de planejamento e execução, a promulgação de regulamentação, a definição de fontes de financiamento.

Os serviços de saneamento, como conhecemos hoje, passaram a englobar a fundação de empresas e mecanismos de financiamento para o abastecimento de água, a exemplo da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), fundada em 1973.

Contudo, o crescimento populacional desordenado acirrou outro problema: a falta de planejamento sanitário. Com isso, mesmo em áreas de classe média urbana, o foco se concentrou no fornecimento de água e não na coleta e no tratamento de esgoto, caso do Plano Nacional de Saneamento (Planasa), de 1971. “Em número absolutos, em 2018 eram 35 milhões de brasileiros sem acesso à água potável e cerca de 100 milhões sem acesso à rede de coleta de esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento [SNIS]. Estes números, por si só, já demonstram o efeito multiplicador da problemática, com encadeamentos para a reprodução de outras formas de desigualdade, sejam elas regionais, de gênero ou de trabalho”, aponta o docente.

Santos percebe que o caráter da água, enquanto mercadoria, vem se modificando ao longo do tempo, assumindo o status de commodity, principalmente em função do discurso que coloca o Estado como ineficiente nessa administração. Não obstante, em 2020, o insumo foi ineditamente negociado pela Nasdaq pela primeira vez na história. Esta bolsa de valores norte-americana lançou o Nasdaq Velez Califórnia Water Index (Índice da Água), colocando-a no mesmo patamar de recursos minerais fundamentais à economia mundial, como petróleo e carvão mineral.

Para o docente, o maior risco desse novo patamar do insumo é o seu fornecimento não ser assegurado a todos. Nesse contexto, se sobressai a natureza intrínseca à iniciativa privada, que pode se abster de levar água encanada para regiões interioranas e periféricas, um compromisso normalmente assumido por agentes públicos – e passível de cobrança pela população.

Ameaça ainda mais esse cenário a ausência de mecanismos mais claros para regulação da comercialização da água. “Há uma série de caminhos ditos legais pelos quais os agentes privados conseguem acesso aos aportes públicos, principalmente as parcerias público-privadas (PPPs), sendo beneficiados com o compartilhamento dos riscos dos empreendimentos e das concessões”. Por esse motivo, Santos lembra da ocorrência de 2011, quando moradores da periferia de São Paulo fizeram um funcionário da Sabesp de refém, para advertir que essas relações conflituosas podem se acirrar.

O docente opta por uma linha de pensamento que defende a estatização (ou reestatização) de recursos dessa natureza. “É uma tendência global. Assim como tem ocorrido na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, o estado deveria assumir o papel de planejador, executor e financiador do fornecimento de água. É um serviço que envolve direitos fundamentais, que pode aceitar parcerias da iniciativa privada, mas deve ser coordenado pelo Estado, para que não tome a forma de mercadoria”, defende.

Povos indígenas fortalecem sistema de vigilância em seus territórios para conservação da floresta

Indígenas fortalecem sistema de vigilância em seus territórios que, apesar de pressionados, apresentam menor índice de desmatamento

Aldeia yanomami do Marari e ao fundo a Serra Aramamisi.

Aldeia yanomami do Marari e ao fundo a Serra Aramamisi

Segundo dados do PRODES – Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite — desenvolvido pelo INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais -, desde 2019 assistimos um aumento histórico no desmatamento da Amazônia, que se manteve acima de 10 mil km² nos últimos três anos. Mesmo diante dessa maior pressão, as terras indígenas continuam protegendo a floresta, visto que o desmatamento em seu interior não chega a 5% do desmatamento total.

A perda de floresta nesses territórios se manteve abaixo de 500 km² apesar das constantes tentativas de invasão e degradação. “Enquanto as atividades de órgãos governamentais de vigilância diminuíram durante o isolamento social imposto pela pandemia de COVID-19, os povos indígenas foram a maior defesa contra a expansão de atividades ilegais, como a exploração madeireira e mineração em seus territórios”, afirma Fabiana Prado, gerente do LIRA/IPÊ — Legado Integrado da Região Amazônica.

“Quem cuida da reserva, os verdadeiros guardiões, somos nós. O governo atual quer acabar com a floresta e os rios e nós, indígenas, que estamos cuidando para que a floresta e os rios não acabem. O desmatamento e a poluição seriam imensos se não fossemos nós aqui”, afirma Mydjere Mekrãgnotire, vice presidente do instituto KABU, parceiro do LIRA, que, segundo ele, ajuda na logística e deslocamento porque, em muitos lugares, só é possível acesso através de barco ou avião.

Bitaté Uru-eu-wau-wau, Presidente da Associação do Povo Indígena Uru-eu-wau-wau, ligado à Associação de Defesa Etnoambiental (KANINDÉ) conta que eles têm uma equipe própria de monitoramento de 30 pessoas, sendo 15 mulheres e 15 homens, que mapeia, levanta coordenadas e fotografa o território para depois retornar à aldeia, fazer os relatórios e enviar para os órgão responsáveis. “É demorado, mas conseguimos executar. Sabemos da dificuldade que temos, por ser uma área grande de desmatamento e de muita ameaça de grileiros, por isso temos um protocolo de segurança. Precisamos proteger o território pensando também na nossa segurança”, afirma. Segundo Bitaté, o LIRA trouxe um reforço a mais e tem dado muito resultado. “Conseguimos coletar melhor os dados, fazer a proteção territorial e aumentar a renda familiar, além de aumentar a visibilidade para a nossa luta”, completa.

O projeto LIRA, uma iniciativa idealizada pelo IPÊ — Instituto de Pesquisas Ecológicas, atua em 55 áreas protegidas na Amazônia, dessas 25 são Terras Indígenas (cerca de 7% das 379 Terras Indígenas da Amazônia Legal), por meio de uma rede de parceiros locais. “Frente ao cenário de desmatamento e fogo ao qual estão constantemente expostas e o aumento significativo de invasão nas terras indígenas nos últimos anos, nossas ações visam dar suporte, principalmente para que os indígenas possam aumentar o seu sistema de vigilância”, afirma Fabiana Prado responsável pelo projeto.

Novos projetos

Uma nova leva de projetos foi apoiada recentemente pelo Fundo LIRA. “Com a pressão de invasão, tanto territorial, como fluvial na terra indígena Trincheira Bacajá, localizada no sudoeste do Pará, decidimos fazer um projeto de monitoramento territorial para criar estratégias e visitas às áreas de maior probabilidade de invasão e também manutenção, com capacitação de agentes indígenas para monitoramento com uso de rádio e drones. Além de transformar essa experiência em revista para atrair jovens e promover acesso ao material para o toda a comunidade”, conta Beppry, presidente da associação Indígena Patyi da aldeia Pykajakà da terra indígena Trincheira Bacajá, que é coordenador de um dos projetos.

“O Fundo LIRA apoia diretamente associações representantes de povos e comunidades tradicionais que exercem seus propósitos como guardiões das florestas. Os projetos vão apoiar ações de governança, fomento a bioeconomia, monitoramento, vigilância, além do fortalecimento institucional das organizações indígenas, o que é extremamente importante, pois contribui para gerar autonomia dos povos para continuarem a defender seus direitos e territórios, mantendo a floresta em pé, conhecimentos tradicionais e sua cultura”, afirma Fabiana Prado.

desmatamento

Sobre o LIRA

O LIRA é uma iniciativa idealizada pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, Fundo Amazônia e Fundação Gordon e Betty Moore, parceiros financiadores do projeto. Os parceiros institucionais são a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas – SEMA-AM e o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará — IDEFLOR-Bio. O projeto abrange 34% das áreas protegidas da Amazônia, considerando 20 UCs Federais, 23 UCs Estaduais e 43 Terras Indígenas, nas regiões do Alto Rio Negro, Baixo Rio Negro, Norte do Pará, Xingu, Madeira-Purus e Rondônia-Acre. O objetivo do projeto é promover e ampliar a gestão integrada para a conservação da biodiversidade, a manutenção da paisagem e das funções climáticas e o desenvolvimento socioambiental e cultural de povos e comunidades tradicionais. Para mais informações, acesse o site.