EUA: estudo mostra que negros e latinos estão mais propensos a serem prejudicados por agrotóxicos

Trabalhadores rurais hispânicos e latinos correm alto risco de uso de agrotóxicos na agricultura, enquanto pessoas em moradias de baixa renda também são afetadas

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Inseticida pulverizado em campos de pimentão na Flórida. Comunidades marginalizadas estão em maior taxa de exposição no local de trabalho e em casa, segundo o estudo. Fotografia: Alamy

Por Aliya Uteuova para o “The Guardian”

Pessoas de cor e comunidades de baixa renda correm um risco desproporcional de exposição a agrotóxicos, segundo um novo estudo .

Aproximadamente 90% do uso de agrotóxicos nos EUA é na agricultura, tornando os trabalhadores rurais – 83% dos quais se identificam como hispânicos – mais vulneráveis ​​aos produtos químicos sintéticos destinados a matar, repelir ou controlar pragas.

“Esses trabalhadores de alguma forma são vistos como dispensáveis”, disse Robert Bullard, coautor do relatório e diretor do Bullard Center for Environmental and Climate Justice da Texas Southern University. “Este estudo mostra a negligência sistêmica que levou toda uma força de trabalho a ser uma subclasse e não ter o mesmo peso quando se trata de saúde e segurança.”

O estudo revisou os dados do CDC e da EPA, juntamente com pesquisas existentes sobre agrotóxicos, e descobriu que injustiças estruturais, lacunas na regulamentação e proteções fracas aos trabalhadores rurais levaram à exposição desproporcional a pesticidas entre pessoas de cor.  O estudo foi realizado pelo Centro de Diversidade Biológica; pesquisadores de faculdades e universidades historicamente negras; e defensores de trabalhadores rurais, justiça racial e grupos de conservação.

Doze dos 14 marcadores de  agrotóxicos nocivos, rastreados nos últimos 20 anos, foram encontrados no sangue e na urina de americanos negros e mexicanos em níveis até cinco vezes maiores do que os encontrados em americanos brancos.

As leis de segurança de agrotóxicos em vigor hoje pela Agência de Proteção Ambiental estabelecem padrões para a exposição a venenos agrícolas entre os consumidores por meio de alimentos, mas excluem especificamente a proteção dos trabalhadores rurais da exposição ocupacional. “As leis e práticas regulatórias que temos agora estão realmente perpetuando isso”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro de Diversidade Biológica e coautor do relatório.

Jeannie Economos, coordenadora do projeto de segurança de agrotóxicos e saúde ambiental da Farmworker Association of Florida, disse: “Precisamos nos livrar desses agrotóxicos e encontrar alternativas. Eles não estão apenas envenenando os trabalhadores rurais, eles estão em nossas águas subterrâneas, em nossa comida e esgotando nosso solo”.

As comunidades marginalizadas apresentam maior índice de exposição tanto no local de trabalho quanto em casa, seja pela proximidade de uma fábrica de agrotóxicos ou pelo uso dentro das residências.

Na Califórnia, Louisiana, Geórgia, Carolina do Sul, Tennessee, Arkansas e Missouri, as pessoas de cor representam cerca de 38% da população. Mas esse mesmo grupo compreende 63% da população que vive a menos de um quilômetro e meio de uma das 31 instalações de pesticidas que, em novembro, a EPA considerou uma “violação significativa” de leis ambientais, como a Lei do Ar Limpo e da Água Limpa.

O estudo também mostra que o uso de agrotóxicos contra roedores e baratas costuma ser alto em habitações de baixa renda, devido à idade dos prédios, manutenção precária e condições de vida muitas vezes lotadas. No estado de Nova York, de acordo com um estudo de 2002, 80% das casas populares de baixa renda aplicavam agrotóxicos regularmente. Em outro estudo daquele ano, 30% das mulheres grávidas afro-americanas e dominicanas na cidade de Nova York tiveram pelo menos oito agrotóxicos detectados em um estudo de monitoramento do ar doméstico.

Bullard disse que o problema se estende não apenas a moradias subsidiadas pelo governo federal, mas também a unidades de aluguel em grandes complexos ocupados por “locatários que não têm controle sobre quanto agrotóxico está sendo usado e a segurança aplicada”.

A exposição a agrotóxicos tem demonstrado afetar negativamente o desenvolvimento das crianças e pode levar a dificuldades de aprendizagem e problemas comportamentais.

Em novembro, o senador Cory Booker introduziu o Protect America’s Children from Toxic Pesticides Act, que proibiria alguns dos pesticidas mais prejudiciais, incluindo os neonicotinóides, que são proibidos na União Europeia e significativamente restringidos no Canadá. Mais de 350 organizações que usam agrotóxicos, incluindo grupos agrícolas e associações de golfe, enviaram uma carta ao Congresso em oposição ao projeto.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Diversão cara: as sanções ocidentais contra a Rússia está se mostrando um tiro pela culatra

A guerra econômica do Ocidente contra a Rússia está se transformando em um fiasco auto fabricado – e está impulsionando uma espiral de aumento de preços

stadeUm dos locais que poderia ser usado para construir para um terminal de importação de gás natural liquefeito, Stade, não muito longe de Hamburgo (12 de abril de 2022)

Por Knut Mellenthin para o JungeWelt

A fome da Rússia, almejada pelos governos ocidentais, está provando ser um fardo pesado para as populações de seus próprios países. As decisões e planos de boicote contra a compra de petróleo, carvão e gás russos estão atualmente tendo o impacto mais sério. A agência de imprensa dpa informou no domingo que um aumento médio nas tarifas de eletricidade para residências particulares consumidoras de gás em cerca de 19,5% é esperado na Alemanha até junho. Isso viria como uma sobretaxa em cima dos aumentos de preços que já ocorreram nos últimos meses. Segundo a dpa , os custos de uma “família modelo” estatística para consumo de gás passaram de 1.184 euros por ano em abril de 2021 para 2.787 euros atualmente.

Os países da UE estão preparando planos de emergência para uma proibição rápida e completa das importações de gás natural russo. O foco está na aquisição alternativa de gás liquefeito, abreviado para GNL. Isso requer terminais nos quais o GNL possa ser descarregado e convertido novamente em forma de gás. Até agora, não existe uma única instalação desse tipo na República Federal da Alemanha. O período de construção duraria até pelo menos 2025. Tempo demais para absorver as consequências de uma política de sanções ainda mais agressiva contra a Rússia no próximo inverno.

No final de março, o ministro da Economia Federal Robert Habeck (Verdes) anunciou que várias empresas estavam negociando em nome do governo federal o arrendamento de terminais flutuantes de GNL, também conhecidos como Unidades Flutuantes de Armazenamento e Regaseificação (FSRU). Na quinta-feira anterior à Páscoa, o Ministério das Finanças informou que até três bilhões de euros poderiam ser gastos no afretamento desses navios especiais nos próximos dez anos. Um primeiro contrato foi dito para ser assinado no mesmo dia, com um segundo na quarta-feira.

De acordo com contas diferentes, deve haver três ou quatro terminais flutuantes. Suas localizações aparentemente ainda não foram decididas. Brunsbüttel no Elba, Wilhelmshaven no Mar do Norte e Rostock no Mar Báltico estão em discussão. Wilhelmshaven, cuja opção parece ser particularmente segura, primeiro teria que ser conectado à rede de dutos do interior da Alemanha construindo um duto de 30 quilômetros. No entanto, é dito oficialmente com muito otimismo que as importações de GNL poderiam começar lá “no mais tardar no início de 2023”.

Existem cerca de 50 FSRUs em todo o mundo – certamente não o suficiente para atender às necessidades de uma rápida dissociação do Ocidente da Rússia. Os clientes potenciais serão, portanto, forçados a competir ferozmente por taxas de fretamento. A situação é semelhante com os navios-tanque de GNL atualmente disponíveis.

O fato de que atualmente não está sendo produzido gás líquido suficiente para substituir os cerca de 150 bilhões de metros cúbicos de gás natural que a Rússia entregou aos países da UE no ano passado em caso de boicote acordado em cima da hora está elevando ainda mais os preços. Os três maiores produtores de GNL – Austrália, Catar e EUA – exportaram um total de 236,6 bilhões de metros cúbicos de gás em 2021. As capacidades só podem ser aumentadas ligeiramente no futuro próximo. Der Spiegel deu o máximo de crescimento possível no ano em curso na quinta-feira passada em 30 bilhões de metros cúbicos.

Os principais compradores tradicionais de GLP estão na Ásia: China, Japão, Índia, Taiwan e Coreia do Sul. Juntos, eles consumiram quase dois terços do GNL comercializado internacionalmente em 2021. Grande parte do negócio é feito por meio de contratos de longo prazo. Espera-se que uma dura guerra de preços se desenvolva sobre as quantidades que podem ser compradas imediatamente. Isso significa que, no caso de uma rápida renúncia ao gás natural russo – que os meios de comunicação mais agressivos, como Spiegel e Bild , em particular, estão exigindo como porta-vozes da liderança ucraniana – não apenas o consumo privado de gás natural se tornará ainda mais caro, mas a indústria alemã, dependente das exportações, também perderá competitividade internacional.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

O papel fundamental das terras indígenas na proteção das florestas brasileiras

Aldeia yanomami do Marari e ao fundo a Serra Aramamisi.

Aldeia yanomami do Marari e ao fundo a Serra Aramamisi.

1. As terras indígenas ocupam 13,9% do território brasileiro e contêm 109,7 milhões de hectares de vegetação nativa, que correspondem a 19,5% da vegetação nativa no Brasil em 2020.

 

2. A perda geral de vegetação nativa no Brasil nos últimos 30 anos foi de 69 milhões de hectares. Dentre as categorias fundiárias, as TIs estão entre as áreas mais protegidas. Apenas 1,6% do desmatamento (1,1 milhão de ha) recai sobre estas áreas. Por outro lado, nas áreas privadas a perda de vegetação nativa chegou a 47,2 milhões de ha, o que representou 68,4% de toda a perda de vegetação nativa no Brasil entre 1990-2020.

3. Nos últimos 30 anos no Brasil as TIs perderam apenas 1% de sua área de vegetação nativa dentro das TIs, enquanto nas áreas privadas foi 20,6% em relação a perda de vegetação nativa dentro das áreas privadas.

4. Nos últimos anos, o desmatamento detectado pelo DETER na Amazônia se acelerou em TI tendo se multiplicado por 1,7 na média dos três últimos anos quando comparado com a média de 2016 a 2018.

5. A equipe do MapBiomas também comparou os alertas de desmatamento do Deter em territórios indígenas entre 2016 e março de 2022. Os números mostram saltos sucessivos, especialmente nos anos do governo Bolsonaro – tanto do desmatamento em geral, como do desmatamento por mineração.

 

Segundo o mapeamento de áreas de mineração do MapBiomas, de 2010 a 2020, a área ocupada pelo garimpo dentro de terras indígenas cresceu 495%. As maiores áreas de garimpo em terras indígenas estão em território Kayapó (7602 ha) e Munduruku (1592 ha), no Pará, e Yanomami (414 ha), no Amazonas e Roraima. A quase totalidade (93,7%) do garimpo do Brasil em 2020 concentrava-se na Amazônia.

“Os dados de satélite não deixam dúvidas que são os indígenas que estão retardando a destruição da floresta amazônica. Sem seus territórios, a floresta certamente estaria muito mais perto de seu ponto de inflexão a partir do qual ela deixa de prestar os serviços ambientais dos quais nossa agricultura, nossas indústrias e cidades dependem”, explica Tasso Azevedo, Coordenador do MapBiomas.

Gráfico 1:

 

Gráfico 2:

Sobre MapBiomas

O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 28 agrotóxicos liberados, a tsunami tóxica do governo Bolsonaro avança

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Apesar da saída (silenciosa é preciso que se diga) da ministra Teresa Cristina, a tsunami de liberações de agrotóxicos continua ocorrendo no Ministério da Agricultura, para completa alegria do latifúndio agro-exportador cujo modelo de agricultura é fortemente dependente do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo por serem extremamente perigosos para o ambiente e os seres humanos.

Assim, no dia de hoje o Diário Oficial da União traz a liberação de mais 28 agrotóxicos, o que resulta em “um grande total” de 1.688 agrotóxicos liberados em 1.203 dias de (des) governo, ou seja, uma média diária de 1,56, o que representa um número efetivamente espantoso, especialmente se levarmos em conta que este total representa 50% de tudo o que está disponível no mercado brasileiro de venenos agrícolas.

O Ato No. 18 é um museu de velhas novidades tóxicas

Uma primeira análise dos 28 agrotóxicos liberados pelo Ato No. 18 de 14 de abril de 2022 mostra a presença da mesma proporção de produtos proibidos na União Europeia (em torno de 30%), e a presença de velhos conhecidos como os herbicidas Glifosato e Dicamba e os inseticidas Imidacloprido e Fipronil, estes dois últimos considerados como ameaças expressivas às populações de abelhas, tendo sido por isso banidos na União Europeia. Mas a lista dos chamados “proibidões”  não para por ai, o que apenas reforça que o discurso da ministra Tereza Cristina de que essa tsunami de aprovações resultaria em produtos mais novos e seguros não passava de propaganda enganosa.

Agrotóxicos com uso preferencial nas commodities agrícolas de exportação

Observatório dos Agrotóxicos: a tsunami de agrotóxicos do governo Bolsonaro  não para e mais 25 produtos foram liberados hoje |

Outro aspecto que salta aos olhos é que a imensa maioria dos agrotóxicos aprovados estão voltados para uso em monoculturas voltadas para exportação, tais como soja, algodão e milho.  Essa característica é dominante no destino dado à maioria dos agrotóxicos comercializados no Brasil, o que desmente o discurso de que a forte dependência em venenos agrícolas seria uma necessidade para impedir que a fome reinante no mundo (e no Brasil) não aumente.

O fato é que as commodities agrícolas produzidas com o amplo uso de venenos agrícolas não tem muito a ver com o combate à fome, já que se destinam a servir como ração animal na União Europeia e na China, de modo a garantir um padrão de consumo de alimentos centrado no uso excessivo de proteínas animais.  Enquanto isso, os brasileiros experimentam preços caríssimos nos itens de sua dieta básica, enquanto são expostos a grandes quantidades de resíduos de agrotóxicos em sua alimentação e até na água de torneira.

A dependência da indústria chinesa de venenos agrícolas como outra marca persistente

Uma rápida análise da lista de 28 agrotóxicos liberados pelo Ato No. 18 mostrará que 64% dos agrotóxicos liberados têm seus ingredientes técnicos produzidos por empresas chinesas, o que evidencia um forte grau de dependência do principal parceiro comercial brasileiro. O problema é que enquanto o Brasil vende commodities agrícolas, a China está vendendo produtos relativamente mais caros, o que reforça um padrão de trocas desiguais, o qual torna os supostos feitos comerciais do agronegócio uma espécie de tigre de papel, dado que além de requer subsídios governamentais para produzir, o setor ainda causa desmatamento e poluição ambiental.

Para o Brasil esse é um verdadeiro jogo de soma zero, pois para os latifundiários e as corporações produtoras de agrotóxicos ganharem, todos os demais brasileiros têm que perder.

Acesso às bases de dados

Como sempre ocorre, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski está disponibilizando duas planilhas de dados que contém a lista de agrotóxicos liberados pelo Aro No. 18 [Aqui!], e outra que traz todos os 1.688 liberados pelo governo Bolsonaro [Aqui! ].

Esgoto jorrando nas ruas do Parque Santuário desmente cenas idílicas pró privatização dos serviços públicos

Alguns atrás levei o jornalista Roberto Barbosa para produzir uma matéria para um programa agora extinto, o “De olho na cidade”, sobre o lançamento de esgoto in natura em uma rua do Parque Santuário, bairro localizado no Distrito de Travessão. Por causa da matéria, Roberto Barbosa recebeu até acusações de que estava fazendo “jornalismo marrom” por denunciar aquela situação escabrosa (pensando bem a única coisa marrom naquela matéria era o esgoto que jorrava abundantemente em uma das muitas áreas esquecidas pelo poder público e pelo processo de privatização dos serviços de água e esgoto em Campos dos Goytacazes).

Pois bem, eis que passados muitos anos daquela matéria vespertina, eis que um novo vídeo me chega do mesmo Parque Santuário mostrando, pasmem, esgoto jorrando a céu aberto na rua Nossa Senhora da Conceição (ver vídeo abaixo).

Por uma dessas coincidências que só as redes sociais nos permitem ver, alguém compartilhou uma imagem do mesmo bairro mostrando as dificuldades enfrentadas por profissionais de saúde que buscavam um paciente em sua residência, pois tiveram que enfrentar, isso mesmo, mais esgoto jorrando pelas ruas do Parque Santuário (ver imagem abaixo).

parque santuário esgoto

Aí é que eu pergunto: é para isso que serve privatizar a preços onerosos para a população pobre os serviços de água e esgoto? Penso que não, mas quem deveria fiscalizar (a Câmara Municipal) parece não ter tempo para esse tipo de atividade tão ocupados estão com as disputas políticas internas.

Mas uma coisa é certa: após assistir este vídeo e visualizar a luta dos profissionais da saúde tentando buscar um paciente em rua tomada por esgoto fica mais difícil acreditar em todas aquelas imagens bonitinhas que a concessionária Águas do Paraíba mostrou na audiência em que estive presente na mesma Câmara de Vereadores.  Por que será que não estou surpreso?

Fim de estado de emergência contraria Conselho Nacional de Saúde e OMS. ‘Inadmissível’

Decisão do governo Bolsonaro vem um dia depois de a OMS estender por mais 90 dias o estado de emergência internacional. “Não ouviu ninguém”, critica CNS

covid-hospitais

Por Redação RBA

São Paulo – O Conselho Nacional de Saúde condenou a determinação do fim do Estado de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin). A decisão anunciada neste domingo (17) pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga é considera inadmissível pelo presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Fernando PIgatto. “O governo já é responsável por centenas de milhares de mortes, por milhões de pessoas que adoeceram – que têm sequelas, sofrimento, dor tristeza. Então, mais essa medida irresponsável é algo que não podemos mais tolerar”, afirma.

De acordo com Pigatto, o ministro não pode ir a uma cadeia nacional de TV anunciar uma medida dessa gravidade sem ouvir nenhum organismo de controle social. “Sem diálogo com os governos municipais e estaduais, com o Congresso Nacional e com as próprias autoridades de saúde pública do país e do mundo”, critica.

O fim do estado de emergência em saúde pública pode acabar com medidas impostas desde o início da pandemia, embora não represente o fim da pandemia. O Ministério da Saúde estima que mais de 2.000 normas caiam em todo o país.

Entre elas, por exemplo, a do uso de máscaras, do teletrabalho, e da regulamentação da telemedicina. Além disso, as normativas autorizaram a aplicação de medicamentos e vacinas para uso emergencial e a possibilidade de restrição da entrada e saída do país.

Embora as vacinas da Pfizer, Astrazenica e Janssen já possuam registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Coronavac ainda não. Desse modo, o Ministério da Saúde teve de pedir à Anvisa que prorrogue por mais um ano o autorização para uso emergencial do imunizante distribuído pelo Butantan, entre outros medicamentos de combate à COVID-19.

Pronunciamento de Queiroga

O anúncio de Queiroga ocorre um dia depois de uma reunião coordenada pela Organização Mundial de Saúde com cientistas. O encontro decidiu que a emergência internacional em saúde permanece em vigor por pelo menos os próximos 90 dias. Isso porque a pandemia ainda é uma realidade. Nos Estados Unidos, medidas de controle e uso de máscara foram prorrogadas por mais três meses. Na China, em Xangai, foram registradas três mortes neste domingo, as primeiras desde a retomada do surto.

No Brasil, a média móvel de mortes ainda está em 100 por dia nos últimos sete dias, e a covid-19 ainda é a maior causa de mortes no país. Para o Comitê de Emergência da OMS, a COVID-19 ainda continua a afetar a saúde das populações em todo o mundo. Por isso, representa um risco contínuo de propagação internacional e interferência no tráfego internacional e, portanto, requer uma resposta internacional coordenada.

A extrema desigualdade vacinal e a imprevisibilidade do coronavírus, segundo a OMS, exigem portanto, a manutenção da situação de emergência.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Um semáforo caiu, outros cairão. Cadê o IMTT?

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No último dia 15, um semáforo caiu no centro da cidade de Campos dos Goytacazes e atingiu, felizmente sem vítimas humanas, dois carros cujos donos foram azarados (ou teriam sido sortudos?) de estarem nas imediações do ponto de queda (ver vídeo abaixo).

A coisa é que circulando por diferentes pontos da cidade é possível observar outros equipamentos semelhantes apodrecidos, esperando apenas por um vento mais forte para derrubá-los, com uma grande chance de que uma hora dessas ocorra alguma fatalidade humana?

Aí é que eu pergunto: para que existe o chamado IMTT? Apenas para correr atrás de trabalhadores que estejam suprindo os cidadãos com transporte informal?

Situação tensa na Colômbia: Bogotá a caminho da guerra

O governo colombiano está cada vez mais angustiado com os massacres de civis por militares, enquanto os mortos são apresentados como guerrilheiros

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Assumindo o controle do antigo território das FARC: soldados colombianos em sua cerimônia de formatura (Nilo, 17/02/2017)

Por  Frederic Schnatterer para o Neues Deutschland

É apenas um dos crimes mais recentes cometidos pelas forças armadas colombianas – e, no entanto, é um exemplo do esforço de guerra do governo de direita em Bogotá. Em 28 de março, 11 pessoas foram mortas em uma operação militar no município de Puerto Leguízamo, no sul do Departamento de Putumayo. Até hoje, o governo legitima a operação alegando que as vítimas eram “criminosos” e “dissidentes” dos ex-guerrilheiros de esquerda das FARC.

Grupos de direitos humanos e moradores locais, por outro lado, falam de um massacre da população civil. Há indícios de que uma mulher grávida, um menino de 16 anos e um líder da comunidade indígena estavam entre os mortos. De acordo com um comunicado da Rede de Direitos Humanos do Putumayo, as forças invadiram as instalações de um centro comunitário no início da manhã depois de uma festa, se passando por dissidentes das FARC. Em seguida, abriram fogo. Mais tarde, os militares acusaram os presentes, que os detiveram por várias horas, de serem membros da guerrilha.

A operação militar no Putumayo é uma reminiscência dos chamados falsos positivos. Oficialmente, 6.402 homens, a maioria jovens, foram sequestrados pelos militares durante o conflito armado, mortos e posteriormente apresentados como guerrilheiros caídos. Grupos de direitos humanos assumem significativamente mais vítimas. Eles também duvidam que a prática sistemática tenha terminado com a assinatura do tratado de paz entre o então governo colombiano e os guerrilheiros das FARC em Havana em 2016.

A ONU também sabe que o conflito armado não acabou, mas está se intensificando. Carlos Ruiz Massieu, chefe da missão da ONU na Colômbia, disse ao Conselho de Segurança das Nações Unidas na terça-feira que seu órgão reconheceu o progresso feito na implementação do acordo de paz. No entanto, os “obstáculos e riscos que ainda ameaçam a consolidação da paz no país” não devem ser “minimizados”. As comunidades indígenas e afro-colombianas, em particular, estão sofrendo com a recente onda de violência. Nos departamentos de Arauca e Putumayo, a ameaça de atores armados está aumentando, assim como o recrutamento de menores, segundo Ruiz Massieu.

Ele exigiu uma investigação sobre a operação militar em Putumayo por Bogotá – a Comissão Interamericana de Direitos Humanos fez o mesmo no mesmo dia. Um comunicado afirmou que as investigações devem ser realizadas “com a devida diligência” e “medidas preventivas concentradas junto a grupos étnicos e comunidades rurais” devem ser tomadas e “os compromissos assumidos no acordo de paz devem ser implementados de maneira prática e eficaz”.

O ministro da Defesa, Diego Molano, é o centro das críticas no cenário político de Bogotá. Na terça-feira, um grupo de deputados da oposição apresentou uma moção de desconfiança ao Parlamento sobre a operação no Departamento de Putumayo. O pedido provavelmente só será discutido após as férias da Páscoa. No entanto, o debate chega em um mau momento para a direita governista: o primeiro turno da eleição presidencial acontecerá no dia 29 de maio, em que a esquerda, na pessoa de Gustavo Petro, já está à frente.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Titula Brasil faz parte da maior ofensiva de grilagem pós-ditadura

Governos Lula, Temer e Bolsonaro produziram leis responsáveis por passar cerca de 190 milhões de hectares de terras públicas para domínio particular; processo de apropriação vem desde FHC, mas na gestão atual avança de forma avassaladora

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A reportagem é de Mariana Franco Ramos, publicada por De Olho Nos Ruralistas e O Joio e O Trigo, 12-04-2022.

“Como deputado, em 100% das vezes votei acompanhando a bancada ruralista”. Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro começou seu discurso em um nada prosaico café da manhã oferecido a membros da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), no dia 4 de julho de 2019, em Brasília. “E vocês sabem que votar com a bancada ruralista é quase como parto de rinoceronte, recebendo críticas da imprensa, de organizações não governamentais e de governos de outros países”, prosseguiu o presidente. “Esse governo é de vocês”, finalizou.

Desde então, Bolsonaro vem provando que não só o governo, como o país, é sim da FPA e de quem a financia.

Lançado em 10 de fevereiro de 2021 pela ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, uma das autoridades presentes naquele encontro, o Titula Brasil foi a cereja do bolo de uma série de iniciativas que beneficiam invasores de terras e estimulam o crime, a violência e o desmatamento no campo.

Por isso, logo que saiu do papel, ele ganhou, de ambientalistas, camponeses e organizações de defesa dos direitos humanos, o apelido de “Invade Brasil.

A série de reportagens “Brasil, país que grila” feita pela equipe de O Joio e O Trigo e do observatório De Olho nos Ruralistas está mostrando como sob o discurso da “modernização”, o programa Titula Brasil esconde conflitos de interesse, grilagem e violência contra povos do campo: “Titula Brasil promove conflitos de interesse, grilagem e violência contra povos do campo”.

O programa busca, segundo o governo, “agilizar o processo de regularização fundiária”, por meio da parceria entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e as prefeituras municipais. Foi criado pela Portaria Conjunta nº 1, de dezembro de 2020, da Secretaria Especial de Assuntos Fundiários (Seaf), comandada por Luiz Antônio Nabhan Garcia, ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR) e um autodeclarado inimigo da reforma agrária.

Na prática, a proposta terceiriza aos municípios as atribuições de regularização fundiária de áreas da União. A instrução estabelece que as parcerias do Incra com os municípios devem ser feitas por meio de Acordos de Cooperação Técnica (ACT), sem previsão de repasse de recursos entre as partes.

Transferência de terras públicas para domínio privado

Antes da portaria, em dezembro de 2019, o governo federal já tinha publicado a Medida Provisória 910/2019, conhecida como MP da Grilagem, que possibilitava ampla transferência de terras públicas invadidas por grileiros até dezembro de 2019. A MP acabou caducando, mas integrantes da FPA se articularam para aprovar projetos de lei que, com pequenas variações, repetem as mesmas proposições. São os casos do PL 2633/2020, assinado pelo deputado Zé Silva (SDD/MG), e do PL 510/2021, ainda em tramitação, de autoria do senador Irajá Abreu (PSD-TO), filho da senadora Kátia Abreu (PP-TO).

“O que está em questão em meio à pandemia do novo coronavírus é a transferência de cerca de 60 a 65 milhões de hectares de terras públicas para o domínio privado”. A afirmação é de um grupo de professores de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), que inclui Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Camila Salles de Faria, Carlos Alberto Feliciano, Gustavo Francisco Teixeira Prieto, José de Sousa Sobrinho, Maurício Torres, Sandra Helena Gonçalves Costa e Tiago Maika Muller Schwab.

No livro “A grilagem de terras na formação territorial brasileira”, eles alertam para o perigo de novas formas privadas de dominação e desmatamentos. “Não surpreende ninguém, mas ressalta-se que o governo Bolsonaro tem colocado em primeiro lugar a defesa dos interesses de latifundiários, madeireiros e garimpeiros, ou seja, do agronegócio e do rentismo à brasileira no centro da antipolítica fundiária. É um governo de grileiros e, como sabemos, estes não fazem home office.”

Retrocessos vêm desde FHC, mas ganham escala com Bolsonaro

Para o geógrafo Paulo Roberto Raposo Alentejano, doutor em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o cenário geral é de ofensiva sobre terras ainda públicas no Brasil. “Há um processo de expandir a incorporação dessas terras ao mercado”, diz. “Isso vale tanto para terras devolutas, aquelas fruto de grilagem, principalmente, mas não só, na Amazônia, como para aquelas situadas em assentamentos, que também são alvo de uma nova tentativa de titulação generalizada”, analisa.

O professor explica que o processo não começou agora. Fernando Henrique Cardoso fez, no final do segundo mandato, “um movimento significativo, já expressivo, que depois arrefeceu bastante durante os governos petistas, foi retomado com força no governo Michel Temer e com o Bolsonaro virou prioridade absoluta”. No contexto mais amplo, o geógrafo fala em avanço da mercantilização das terras públicas. “São esses dois movimentos principais, somados a um terceiro, que é a mercantilização plena, a questão da liberação de arrendamento de terras indígenas para o agronegócio e a mineração”.

Prieto vai na mesma linha. Segundo ele, é preciso entender o grilo para além da fraude: “Com a grilagem, a luta pela terra é transformada em negócio”, opina. “Grila-se uma terra e ainda se recebe indenização do Estado quando as pessoas são desapropriadas. É algo estrutural para o conjunto do agronegócio”.

A hegemonia do agronegócio, de acordo com os geógrafos, é realidade desde o final dos anos 1990, quando houve a crise do Real, com a desvalorização da moeda, e a promulgação da Lei Kandir, que isenta as tributações incidentes nas exportações dos produtos primários. O setor foi, assim, ganhando poder de interferir nas decisões governamentais. “Isso se propaga para o primeiro governo Lula, quando o Roberto Rodrigues, então presidente da Abag, foi indicado para o Ministério da Agricultura”, lembra Alentejano, sobre a Associação Brasileira do Agronegócio.

Outras lideranças fundamentais do agronegócio também alçaram na época cargos no primeiro escalão, como Blairo Maggi e Kátia Abreu. “Há um processo de neutralização da reforma agrária, desconstruído ao longo do tempo, que se acentua, a ponto de o Lula chamar os usineiros de heróis”, acrescenta o professor. Ou seja, essa simbiose com o agronegócio era realidade já nas administrações petistas. “Fortaleceram os segmentos mais retrógrados, mais atrasados da sociedade brasileira, e agora estamos pagando o pato”, completa.

Alentejano reforça que as exportações foram alavancadas fortemente ao longo desse período. “Saltam dos 12 milhões de hectares colhidos de soja no Brasil nos anos 90, para o patamar de quase 40 milhões, um crescimento exponencial”. O volume de crédito também foi gigantesco. Tais medidas, juntas, fortaleceram um setor “tradicionalmente retrógrado e aliado ao que há de mais atrasado na política brasileira”. O cenário propício, que se reforçou mais com Temer e Bolsonaro, já estava então criado. “No governo Bolsonaro há um apoio absoluto desse setor, conectado com a agenda dele”.

Conforme cálculos dos pesquisadores da USP, sintetizando e somando a legalização jurídica e nacional da grilagem entre 2009 e 2020 chega-se a 190 milhões de hectares. São 67 milhões do Programa Terra Legal, implementado por Lula em 2009 e que autoriza a transferência sem licitação a particulares de terrenos da União na Amazônia Legal, mais 60 milhões de “regularização fundiária” de Temer em 2017 e mais 65 milhões de hectares do governo Bolsonaro.

“A ordem é simplificar e titular”

“Pra mim, o Titula Brasil é grilagem por app”, resume Gustavo Prieto, em referência aos aplicativos de smartphones. “A própria pessoa faz a declaração sobre a ocupação mansa e pacífica”, comenta. De acordo com ele, a tática é implementar a MP 910, que caducou, “na marra”.

O perigo, porém, é que a anistia aos grileiros passa a ser ad infinitum. “Você faz de duas formas: a primeira é garantir a grilagem no passado e estabelecer possibilidades de que aquilo vai ser nacionalizado ou no futuro vai ser garantido um novo marco temporal”, explica. “E a segunda é a mobilização constante do termo segurança jurídica”.

Como forma de tentar confundir a população, em torno dessa grande ideologia da bancada ruralista se estabelece um novo vocabulário do agro. “Esse léxico estabelece aquilo que está rotineirizado pela Tereza Cristina e pelo Luiz Nabhan: a grilagem nunca aparece; aparecem áreas públicas federais não regularizadas, adquirentes de boa fé etc”, diz Prieto. E, para complementar, há uma confusão jurídica entre posseiros e grileiros. “Nos vídeos institucionais, aparecem cidadãos de baixa renda acessando pela primeira vez um título”, comenta.

Na audiência pública que marcou o lançamento do programa, em 25 de março do ano passado, a ministra afirmou que o Titula Brasil tem como objetivo “facilitar a concessão de títulos”. Ela também argumentou que a aprovação do PL 510/2021, do senador Irájá (PSD-TO), “auxiliará na desburocratização do processo”. Segundo dados do Incra, em 2021 foram emitidos 137 mil títulos de terra, contra 109 mil documentos em 2020.

“As palavras de ordem são simplificar e titular”, define Prieto. “São os dois mantras: automatizar e desburocratizar”. O professor fala em grilagem por app pois paira a dúvida de como a União e os técnicos dos municípios vão fiscalizar esse processo, já que o Incra vem sendo “esvaziado” nos últimos anos. “São 166 mil imóveis só na Amazônia”, lembra. Na avaliação dele, há ainda uma flagrante inconstitucionalidade. Isso porque a operação acontece em escala municipal, entretanto, as terras são da União.

Orçamento do Incra é quase todo para pagamento de precatórios

Outra questão diz respeito ao baixo orçamento do Incra. Em 2021, a autarquia executou R$ 3,4 bilhões em verbas, sendo a maior parte dos recursos destinada ao pagamento de precatórios. A Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef/Fenadsef) e a Confederação Nacional das Associações dos Servidores do Incra (CNASI-AN) informaram que as verbas para créditos, melhorias de assentamentos, monitoramento de conflitos fundiários e reconhecimento de territórios quilombolas sofreram um corte de 90%.

“Os servidores públicos vão de fato averiguar os dados declaratórios dos latifundiários?”, questiona o pesquisador. Fala-se, por alto, de regularização fundiária de 300 mil famílias, que serão cadastradas por funcionários municipais, cabendo ao Incra a checagem remota. “Para além da pressão política local, esses apps de georreferenciamento e funcionamento remoto vão ser operados por quem, em locais onde não há nem internet?”

A falta de transparência na descentralização do processo para os municípios, onde a pressão política local pode influenciar quem vai receber os títulos, favorecendo interesses particulares, é a principal crítica de organizações sociais. Para o Greenpeace, titulação sem justiça social e ambiental não funciona. “Ao defender a facilitação na concessão de títulos, o governo Bolsonaro tenta maquiar a realidade, porque não está preocupado em dar o título de terra para quem realmente tem direito e em prol do interesse coletivo”, escreve a ONG, em nota.

Acirramento dos conflitos em assentamentos

Paulo Alentejano menciona ainda a questão das florestas públicas, que também são objeto de um movimento de concessão privada. Todas essas propostas são fruto, de acordo com o professor, da dinâmica expansiva do agronegócio no Brasil.

Em relação aos governos anteriores, ele destaca duas diferenças fundamentais. “Essa ofensiva ocorre diante de um desmonte generalizado de todas as políticas de sustentação e de apoio ao desenvolvimento dos assentamentos”. Bolsonaro acabou com ou enfraqueceu políticas de assistência técnica, de educação, caso do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), voltado para a formação de estudantes do campo, e de apoio à comercialização, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

“Isso tudo, somado à entrega do título de propriedade privada, aumenta a fragilidade dos assentados”, opina. O geógrafo prevê que, com a possibilidade de venda das terras, uma vez tituladas privadamente, ocorra uma reconcentração fundiária muito maior. “Os processos de grilagem são legitimados por esse governo, que legitima também a violência no meio rural, com liberação de armas e incentivo ao porte”, afirma. Trata-se, conforme o professor, de uma “combinação explosiva”, que potencializa os conflitos.

De acordo com Alentejano, a grande diferença do governo Bolsonaro para os demais é a escala. “Algo disso já vinha do governo Temer e, mais longe ainda, desde FHC, que é a construção de uma hegemonia do agronegócio”, afirma. “Essa hegemonia atravessou os governos petistas sem contraposições mais expressivas”.

Na opinião de Gustavo Prieto, essa é a maior ofensiva de grilagem pós-ditadura. “Eu acho que sim e que está associada a um outro processo: uma tentativa de liquidação de projeto de reforma agrária, ou seja, de reinserção de terras de assentados no mercado formal de terras”. O professor destaca o fato de não se estabelecer a concessão de direito real de uso, mas sim um título definitivo: “É não só grilar a terra do estoque de terras públicas brasileiras, mas junto disso reverter a nossa tímida reforma agrária, sobretudo em áreas onde o valor médio de hectares é alto, como no sudeste, e onde há forte especulação imobiliária. Não é só um processo de impacto pro campo brasileiro. É também para a área urbana”, define.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo Instituto Humanitas [Aqui!].

Coalizão Brasil adverte que nova meta climática do país ignora necessidade urgente de corte das emissões de gases do efeito estufa pelo desmatamento

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 Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento multissetorial composto por mais de 300 empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia, vê com preocupação a revisão da meta climática brasileira (NDC) junto à Organização das Nações Unidas.

Para a entidade, a revisão frustra expectativas por ignorar a necessidade urgente de corte das emissões de gases de efeito estufa pelo desmatamento. Também preocupa o fato de que o texto desconsidera compromissos internacionais firmados em Glasgow no ano passado, durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), tais como a Declaração de Florestas e o acordo sobre emissões de metano. Por fim, o movimento assinala que o texto foi construído sem um processo de consulta à sociedade.

Segundo a nota da Coalizão Brasil, essas lacunas demonstram que o Brasil não está suficientemente engajado no combate ao desmatamento, que é fundamental para o combate às mudanças climáticas.

Confira a seguir a íntegra da nota:

Nova meta climática do Brasil ignora urgência de corte de emissões de gases de efeito estufa provocadas pelo desmatamento

O Brasil acaba de apresentar a revisão de sua meta climática, a NDC, junto à Organização das Nações Unidas. Frustrando expectativas, não estabeleceu metas vinculantes ou apresentou as ações setoriais que pretende implementar para cumprir o compromisso assumido na Declaração de Florestas, assinada em Glasgow no ano passado, durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26). Também ignorou a promessa de reduzir as emissões de metano em 30% até 2030, estabelecida em outro acordo firmado na Escócia. No texto entregue à ONU, há apenas uma breve menção à eliminação do desmatamento ilegal até 2028, sem detalhes sobre como seria atingida.

A nova NDC foi construída sem um processo de consulta à sociedade, e suas lacunas demonstram que o Brasil não está suficientemente engajado no combate ao desmatamento, uma operação fundamental para o combate às mudanças climáticas. Do total de emissões de gases de efeito estufa do país, 44% são provocadas por mudanças de uso da terra, em especial o desmatamento.

É cada vez mais nítido o perigo que paira sobre o futuro da Amazônia. O primeiro trimestre de 2022 registrou a maior ocorrência de alertas de desmatamento na Amazônia desde o início da série histórica, em 2016. Segundo o sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram mapeados 941,3 km² de floresta perdida entre janeiro e março, um avanço de 64,1% ante o visto no mesmo intervalo em 2021 (573,3 km²).

A redução do desmatamento é uma questão urgente. O país já trilhou este caminho — entre 2004 e 2012, conseguiu diminuir o índice de desmate na Amazônia em 84% — e tem condições de fazê-lo mais uma vez. Precisa, portanto, traçar uma política pública comprometida a atingir resultados concretos e ambiciosos. Também é importante contar com o Fundo Amazônia, que financia diversas iniciativas voltadas à conservação do bioma, inclusive o fornecimento de infraestrutura para ações de comando e controle contra ilícitos ambientais. O retorno da aplicação dos recursos, congelado desde 2019, está em análise no Supremo Tribunal Federal.

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimentado formado por mais de 300 representantes do agronegócio, sociedade civil, setor financeiro e academia, apresentou seis ações que levariam à queda rápida do desmatamento e, por consequência, das emissões provocadas por esta atividade:

· Intensificação da fiscalização, com exemplar responsabilização pelos ilícitos ambientais identificados;

· Aceleração urgente do processo de análise e validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e suspensão imediata de todos os registros sobrepostos a terras indígenas, florestas públicas não-destinadas e áreas embargadas, bem como nos casos de desmatamento sem autorização legal;

· Retomada imediata do ordenamento territorial, iniciando-se pela demarcação de terras indígenas e territórios quilombolas já oficialmente definidos, além da destinação de 10 milhões de hectares de florestas públicas para implementação de unidades de conservação;

· Ampliação da governança e regulação do Banco Central para financiamentos sob critérios socioambientais rigorosos;

· Transparência, rastreabilidade e rigor nas autorizações de supressão da vegetação; e

· Suspensão de processos de regularização fundiária em áreas onde tenha ocorrido desmatamento após julho de 2008.

A Coalizão continua promovendo o diálogo sobre o uso sustentável da terra, por entender que a revitalização da Amazônia é uma grande oportunidade para o desenvolvimento do país. Da mesma forma, também é fundamental honrar os compromissos estabelecidos por lei e os assinados em convenções internacionais. O futuro do país está diretamente relacionado à conservação da floresta em pé.