Ruptura da barragem poderá atingir mais de 3.200 edificações entre Pedreira e Jaguariúna, revela plano de emergência do DAEE

barragem 1

Em apenas 11 minutos, cerca de 2.090 imóveis na cidade de Pedreira serão cobertos pela água, e mais de 4 mil vidas serão perdidas por uma onda arrebatadora. Entre 30 minutos e 1 hora, a água então chegará a Jaguariúna e poderá atingir até 1.200 imóveis. E em pouco mais de 3 horas, Holambra, Paulínia e Cosmópolis também estarão com regiões parcialmente inundadas.

Esse trágico cenário está detalhado no Plano de Ação de Emergência (PAE), firmado pelo Departamento de Água e Esgoto de São Paulo (DAEE) com duas empresas de engenharia, onde avalia os impactos que uma possível ruptura da Barragem de Pedreira pode causar aos moradores de pelo menos oito cidades.

barragem pedreira

Projetada em 2015, após a crise hídrica que atingiu São Paulo, a barragem no Rio Jaguari vai acumular até 32 bilhões de litros de água a pouco mais de dois quilômetros do centro de Pedreira.

Já houve a tentativa de embargo da obra, ações impetradas na Justiça e muita manifestação pública. No entanto, a obra executada pelo Consórcio BP OAS-Cetenco segue há três anos, e segundo o DAEE deve estar concluída em 2023.

O Jaguar teve acesso ao conteúdo do PAE através do movimento popular Barragem NÃO, que nessa quinta-feira (17) realizará uma audiência na Câmara de Pedreira, a partir das 18h30 para expor o conteúdo do Plano, adquirido através de uma ação civil.

O documento ainda não foi divulgado oficialmente pelo DAEE, e segue em análise nas secretarias de meio ambiente e defesas civis de Pedreira e Campinas. O PAE ė um dos seis volumes que compõe o Plano de Segurança da Barragem, e que deverá se tornar público, na íntegra, antes do enchimento da barragem.

▪️Mapas

Os mapas projetam a dimensão da destruição causada por uma possível ruptura da barragem. O PAE detalha as Zonas de Autossalvamento (ZAS) – duas na cidade de Pedreira – e Zonas de Segurança Secundária (ZSS) nas demais cidades atingidas, sendo três dessas zonas em Jaguariúna.

Zona de Autossalvamento (ZAS) é a região imediatamente a jusante da barragem, em que se considera não haver tempo suficiente para uma adequada intervenção dos serviços e agentes de proteção civil em caso de acidente.

O fluxo da água, segundo as projeções, seguirá o curso do Rio Jaguari, e volume pode atingir uma altura de até 44 metros em alguns trechos. Pedreira será a mais atingida e potencialmente com maior número de mortos (Foto 1).

Também em Pedreira, o PAE determina a instalação de sirenes em cinco pontos. Porém, pelo menos 45 estruturas que poderiam concentrar grande número de moradores serão atingidas pela água, mostram os estudos.

▪️Jaguariúna

Em Jaguariúna, de acordo com a projeção feita pelo DAEE, em uma hora após a ruptura, a água terá atingido grande parte do bairro Nova Jaguariúna e do Centro, a uma quadra da Igreja Matriz.

Em duas horas após a ruptura, os bairros Berlim, Santa Cruz, Centro Cultural, Cemitério Municipal já estariam debaixo d’água. Parte do Hospital Municipal Walter Ferrari também está na mancha de inundação projetada na Zona de Segurança Secundária 1, conforme mostra a Foto 2.

Quatro pontes e 23 edificações que poderiam abrigar grande capacidade de moradores serão afetadas pela inundação, diante do cenário projetado. Os pontos em vermelho no mapa mostram os imóveis que serão atingidos.

O documento do DAEE também determina que o Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil seja elaborado no prazo de um ano, a partir da oficialização do PAE, e vai incumbir as defesas civis de sinalizarem rotas de fuga, pontos de encontro e áreas de risco em rodovias.

▪️Luta

No último dia 6 de março o movimento Barragem Não fez uma carreata na cidade de Pedreira para alertar sobre o conteúdo do PAE e os impactos ambientais e na vida da população.

“O governo do estado insiste em ir contra a lei 12.608/12 do Código de Defesa Civil e criar uma área de risco gigantesca condenando o patrimônio e a segurança da vida de milhares de pessoas. O mínimo que aceitaremos como população civil atingida é a alteração da finalidade dela (barragem), que caso mude, opere com a capacidade mínima. Mas a nossa luta é pra parar, desativar, extingui-la. Ela vai contra leis ambientais, de direitos humanos e da defesa civil“, diz uma integrante do movimento.

Conforme o decreto da Agência Nacional de Águas (ANA), a barragem é enquadrada na categoria de dano potencial associado alto em resolução do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, que classifica as barragens de acumulação de água.

Em 2019, durante visita a Pedreira, o governador João Dória recebeu das mãos do padre César, da Paróquia Matriz Santana, uma carta com pedido de reunião e apontamentos sobre diversos aspectos preocupantes sobre a barragem. Desde então não houve resposta, segundo as lideranças do movimento.


Fonte: O Jaguar

Sertanista Sidney Possuelo devolve medalha do mérito indigenista após honraria ter sido dada a Jair Bolsonaro

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O ex-presidente da Funai, o sertanista Sidney Possuelo, devolvendo sua medalha do mérito indigenista após a honraria ter sido entregue também ao presidente Jair Bolsonaro

A piada de mau gosto realizada pelo ministro da Justiça, o policial federal Anderson Torres, que resolveu premiar o presidente Jair Bolsonaro com a medalha do mérito indigenista serviu de motivo para que o ex-presidente da Funai, o sertanista Sidney Possuelo,  devolvesse a mesma honraria que lhe foi entregue há 35 anos por seus extensos serviços em prol dos povos indígenas, especialmente os que ainda vivem isolados.

Segundo a carta entregue junto com a medalha no ministério da Justiça, a entregue do mérito indigenista a Jair Bolsonaro representa uma “flagrante, descomunal, ostensiva contradição em relação a tudo que vivi e a todas convicções cultivadas por homens da estatura dos irmãos Villas Boas“. Possuelo acrescentou ainda que devolvia a honraria ao governo brasileiro porque em sua opinião a mesma “perdeu toda a razão pela qual, em 1972, foi criada pelo presidente da república“.

SIDNEY POSSUELO

Ainda que as opiniões de Possuelo tenham chance próxima de zero de comover Anderson Torres, o certo é que a devolução desta medalha por uma figura como Possuelo deverá gerar ainda mais constrangimentos externos, já que internamente a coisa parece muito bem controlada por Jair Bolsonaro e seus ministros do fim do mundo.

OAB SP manifesta preocupação com o “Pacote da Destruição”, que viola garantias e direitos humanos de povos indígenas

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A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil seção São Paulo (OAB SP) e seu Núcleo de Direitos Indígenas e Quilombolas vêm a público manifestar sua preocupação com relação ao denominado “Pacote da Destruição”, conjunto de Projetos de Lei (PLs) em votação no Congresso Nacional e que violam diretamente as garantias constitucionais e os direitos humanos dos povos indígenas do Brasil, especialmente os PLs que objetivam facilitar o acesso à mineração em suas terras tradicionais.

Sob a alegação de que as dificuldades para a importação de fertilizantes provenientes da Rússia em razão da guerra em curso na Ucrânia ensejariam a aprovação de medidas “urgentes” para a busca de maior autossuficiência na produção de fertilizantes, vêm sendo acelerados os trâmites dos projetos que reduzem a proteção às terras indígenas e que frontalmente violam os parâmetros legais internacionais e nacionais, especialmente aqueles que cuidam especificamente sobre a mineração e exploração de terras indígenas, uma vez que referidas terras tradicionais, consoante tal argumentação, conteriam o maior número de reservas de potássio e fosfato – ingredientes básicos para a produção dos fertilizantes agrários.

Assim, por determinação do presidente da Câmara dos Deputados, em 9 de março de 2022, o PL 191/2020 foi submetido à votação sem que tivesse sido apreciado e discutido em qualquer comissão técnica, menos ainda ouvidas as lideranças indígenas. O requerimento de urgência desse projeto foi aprovado por 279 votos a favor e 180 votos contrários.

Segundo estudos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto Socioambiental (ISA), apenas 1,6% das jazidas de potássio e 0,4% das jazidas de fosfato se encontram em terras indígenas1. Ou seja, a grande maioria dos depósitos de potássio e fosfato se localizam fora desses territórios. Além disso, apesar de uma eventual escassez fragilizar uma parte do setor econômico brasileiro, isso não tem o condão de retirar as garantias constitucionais dos povos indígenas, como o usufruto exclusivo de suas terras tradicionalmente ocupadas competindo à União proteger e fazer respeitar todos os seus bens (artigo 231, Constituição Federal de 1988 [CF/88]).

Além disso, conforme o artigo 231, §6º, da CF/88, são nulos os atos que tenham por objeto a exploração das riquezas naturais do solo de terras indígenas, ressalvado o relevante interesse público da União, que deve ser demonstrado e segundo o que dispuser lei complementar. Ou seja, mesmo em situações excepcionais em que seria permitida a exploração minerária em terras indígenas, há um rito a ser seguido.

Outrossim, o §3º do artigo 231 da CF/88, que se busca regulamentar com o PL 191/2020, exige, ainda, que as comunidades afetadas pela lavra de riquezas minerais sejam previamente ouvidas, tal como também determinado pela Convenção n° 169 sobre os Povos Indígenas e Tribais da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em seu artigo 6º, da qual o Brasil é signatário.

É válido lembrar que a eventual aprovação do referido “Pacote da Destruição” pelo Congresso Nacional – composto pelo PL 2159 (licenciamento ambiental), PL 2633 e PL 150 (grilagem), PL 490 (marco temporal), PL 191 (garimpo) e PL 6299 (pacote veneno) – poderá causar prejuízos econômicos ao Brasil, já que a maioria dos países estão cientes acerca das violações ambientais aos biomas brasileiros, bem como sobre os impactos etnocidas sobre os povos indígenas e quilombolas.

Recorde-se que o meio ambiente é bem de uso comum do povo e essencial à qualidade de vida de todos, constituindo dever do Poder Público defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações (artigo 225, CF/88).

A OAB SP, por meio de sua Comissão de Direitos Humanos e seu Núcleo de Direitos Indígenas e Quilombolas, estará atenta ao desenrolar dos referidos PLs, atualmente em curso sob regime de urgência no Congresso Nacional, de modo a que os povos indígenas e quilombolas do Brasil não sofram ainda mais espoliações por meio da aprovação de leis que afrontem seus direitos previstos na Constituição da República de 1988.

1 Disponível em: https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-ppds/bolsonaro-mente-sobre- potassio-em-terras-indigenas. Acesso em: 15 mar. 2022.

Comissão de Direitos Humanos da OAB SP – Núcleo de Direitos Indígenas e Quilombolas

Sobre a OAB SP

Fundada em 22 de janeiro de 1932, a OAB SP é a maior Secional do Brasil, com mais de 450 mil profissionais inscritos, quase 5 mil estagiários e 33 mil sociedades inscritas. Mantém 120 comissões atuantes, entre permanentes e especiais, que desenvolvem trabalhos de estudo e aperfeiçoamento da legislação, além de zelar pela Advocacia paulista e pelos cidadãos. São 915 postos de atendimento espalhados por todo o Estado, incluindo a Secional e as 253 Subseções, e 241 pontos de Certificação Digital. A entidade promove, com exclusividade, a representação, defesa, seleção e disciplina da Advocacia. Ao defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado Democrático de Direito, os direitos humanos e a justiça social, contribui com a consolidação das instituições democráticas e da cidadania brasileira.

Um breve descrição dos agrotóxicos presentes na água que chega nas torneiras em Campos dos Goytacazes

regar-veneno

No dia 09 de março publiquei uma postagem apresentando os últimos resultados sobre contaminantes presentes na água fornecida pela concessionária “Águas do Paraíba” aos seus consumidores cativos em Campos dos Goytacazes. Entretanto, em função da alta demanda de trabalho imposta pela retorno do trabalho presencial na Universidade Estadual do Norte Fluminense, acabei não olhando com mais profundidade um elemento que me interesse bastante, qual seja, a presença de resíduos de agrotóxicos (muitos deles considerados como agrotóxicos altamente perigosos por sua alta toxicidade humana e ambiental).

Pois bem, hoje estou voltando ao assunto para apresentar alguns elementos sobre os 27 agrotóxicos que foram detectados e inseridos no “Mapa da Água” como estando presentes na água de torneira em nossa cidade.

Um primeiro detalhe é que nessa lista estão presentes agrotóxicos que já tiveram seu uso descontinuado há algum tempo, sendo o DDT o mais exemplar deles, pois no caso da União Europeia, a proibição do uso deste composto ocorreu em 1978. Mas como mostra a figura abaixo, a maioria dos agrotóxicos detectados na água servida aos campista foi banida na União Europeia ao longo da primeira década do atual século.

ano pesticide

Outro aspecto interessante tem a ver com a função dos agrotóxicos encontrados na água de torneira em Campos dos Goytacazes, cuja maioria é de inseticidas, seguido pelos herbicidas. Tal característica é esperada em função da predominância da monocultura da cana de açúcar. O problema aqui é que muitos herbicidas possuem alta taxa de persistência ambiental, o que explica a descoberta dos mesmos na água, mesmo após terem tido seu uso descontinuado há algum tempo.

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Um aspecto particularmente interessante acerca desse grupo de substâncias presentes na água de torneira é que 74% deles estão banidos na União Europeia, o que corrobora com a tese de que a proibição no continente europeu não é suficiente para acabar com os impactos ambientais e sobre a saúde humana, na medida em que esses produtos continuam a ser exportados para países cujos governos são mais tolerantes ao uso de venenos agrícolas altamente tóxicos.

EU status

Mas o mais impactante, ao menos para mim, é verificar o tipo de doença que os agrotóxicos encontrados na água de torneira em Campos dos Goytacazes como mostra a tabela abaixo.  Dentre a característica mais comum dessas substâncias está o fato de que têm sido associadas não apenas a diferentes tipos de câncer, mas também de serem disruptores endócrinos e ainda teratogênicos (i.e., causarem o desenvolvimento anormal e defeitos de nascimento)

Doenças atribuídas pelo contato ou ingestão dos agrotóxicos detectados na água de torneira em Campos dos Goytacazes

2,4 D + 2,4,5 T  Possível carcinogênico 
Alaclor Carcinogênico, teratogenicidade, possível disruptor endócrino 
Aldicarbe + Aldicarbesulfona + Aldicarbesulfóxido   Suspeito de ser disruptor endócrino
Aldrin + Dieldrin   Câncer 
Atrazina  Câncer 
Carbendazim + benomil   Embriotoxicidade,  teratogenicidade, câncer
Carbofurano   Disruptor endócrino
Clordano   Câncer de mama e próstata, suicídio 
Clorpirifós + clorpirifós-oxon   Disruptor endócrino, teratogenicidade
DDT + DDD + DDE  Câncer 
Diuron   Câncer, possível disruptor endócrino
Endossulfan (a, ß e sais)  Possível disruptor endócrino
Endrin   Teratogênico
Glifosato + AMPA (Agrotóxicos) Cãncer ( Linfoma de  de Non-Hodgkin)
Lindano (gama HCH)   Câncer, possível disruptor endócrino
Mancozebe   Câncer, problemas teratogenicidade
Metamidofós  Câncer, teratogenicidade
Metolacloro   Possível carcinogênico e suspeito de ser disruptor endócrino
Molinato  Inibidor de colinisterase, possível cancerígeno e suspeito de ser disruptor endócrino
Parationa Metílica   Inibidor de colinisterase e suspeito de ser disruptor endócrino
Pendimetalina   Possível cancerígeno e suspeito de ser disruptor endócrino
Permetrina   Câncer e suspeito de ser disruptor endócrino
Profenofós   Inibidor de colinesterase
Simazina  Teratogenicidade
Tebuconazol   Possível carcinogênico e suspeito de ser disruptor endócrino
Terbufós  Inibidor de colinesterase
Trifluralina  Possível carcinogênico e suspeito de ser disruptor endócrino

Micro-poluentes emergentes requerem novas formas de tratamento da água

Agrotóxicos fazem parte daquilo que se convenciona chamar de micro-poluentes emergentes, na medida que mesmo em baixas concentrações podem conferir à água características de toxicidade, sendo, portanto, um problema de alta gravidade, na medida que os efeitos da contaminação múltipla por agrotóxicos ainda são pouquíssimo estudados.  

Entretanto, as empresas concessionárias, públicas ou privadas, ainda não adotaram procedimentos procedimentos adequados para remover essa classe de poluentes da água que é fornecida aos consumidores brasileiras. 

Por outro lado, não há nenhuma indicação que as concessionárias irão modernizar suas formas de tratamento se não houver forte pressão da sociedade civil organizada, na medida em que os tratamentos mais modernos também são considerados mais caros e, desta forma, uma ameaça aos lucros fabulosos que essas empresas auferem em troca de fornecer uma água cuja qualidade é claramente aquém do que deveria ser.

No caso de Campos dos Goytacazes, há uma ótima oportunidade para que essa discussão ocorra se aproximando no horizonte. Falo aqui da audiência pública que a Câmara de Vereadores deverá realizar para avaliar a oportunidade e o interesse de se manter a concessão do sistema de águas e esgotos da cidade nas mãos da Águas do Paraíba.  Espero que essa oportunidade seja bem utilizada não apenas pelos vereadores, mas também pela população e sindicatos, especialmente o dos médicos.

Para quem tiver interesse em analisar a lista de agrotóxicos presentes na água de torneira em Campos dos Goytacazes, basta clicar [Aqui!].


Um post scriptum necessário: alguns dos dados fornecidos aqui são de difícil “mineração” e podem haver incongruências em termos das datas de banimento e o tipo de doenças que os agrotóxicos listados causam. Entretanto, dificilmente o quadro descrito será alterado substancialmente.  Em outras palavras, o problema é grave mesmo.

Cidades que mais apoiaram Bolsonaro tiveram mais mortes pela COVID-19, diz ‘Lancet’

Estudo mostra que risco de mortes foi 44% maior em cidades que, mesmo mais desenvolvidas, estiveram mais alinhadas a Bolsonaro

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Arquivo Agência Brasil

Por Redação, RBA

São Paulo – As cidades onde Jair Bolsonaro teve maior votação nas eleições também as que tiveram mais mortes pela COVID-19 no ano passado. Isso é o que conclui estudo publicado na revista científica Lancet para as Américas.  Os pesquisadores analisaram dados dos 5.570 municípios brasileiros. Os dados constam de análises e comparações feitas por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade de Brasília (UnB)

O estudo identifica a desigualdade de renda e infraestrutura em saúde nos impactos da covid-19 durante a primeira onda da pandemia no Brasil, em 2020. Mas a partir da segunda onda, no final daquele ano, o perfil ideológico das cidades pesou mais. Assim quanto maior a identidade da população com o discurso bolsonarista, maior a taxa de letalidade. Por exemplo, municípios bolsonaristas das regiões Sul e Sudeste apresentaram taxas de mortalidade muito superiores às de municípios não bolsonaristas do Nordeste.

A possibilidade de subnotificação foi considerada uma variável pouco relevante, já que foram feitas comparações de cidades com estrutura de saúde equivalente. “A principal diferença foi o voto em Bolsonaro”, sustenta Christovam Barcellos, geógrafo e pesquisador em saúde pública da Fiocruz e um dos autores do artigo.

Uma das comparações feitas foi entre as cidades de Crato (CE) e de Sapiranga (RS), ambas consideradas grandes e de IDH médio. Enquanto a primeira registrou uma taxa de 110 mortes pela COVID-19 a cada 100 mil habitantes, a segunda teve um índice de 360 óbitos por 100 mil habitantes. “Se a gente comparar municípios médios com IDH alto, aqueles que são bolsonaristas têm quase o dobro da taxa de mortalidade [por Covid-19] de municípios de igual estatura”, afirma Christovam Barcellos.

Chapecó, em Santa Catarina, também chamou a atenção dos pesquisadores. Considerado um município médio, com bom IDH e bons serviços de saúde, a cidade mantinha em 2020 um número de óbitos inferior à média nacional.

Com a posse do aliado de Bolsonaro, o prefeito João Rodrigues (PSD), a cidade registrou, no início de maio de 2021, uma taxa de óbitos acumulada 75% maior que a do país. Ele foi defensor do “tratamento precoce”, sem eficácia comprovada, e do que chamava de lockdown inverso, com comércios abertos e doentes sendo atendidos em casa.

Uma das conclusões do artigo publicado na Lancet é que, com a ausência de uma coordenação nacional pelo governo federal, os municípios passaram a ter um papel central na transmissão de informações sobre a pandemia. E, no caso de cidades de pequeno e médio porte, as palavras de lideranças políticas e empresariais tiveram ainda mais peso.


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Este foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Superbactérias nas prateleiras: frango doente sendo vendido em toda a América

Joanne Canda-Alvarez encontrou seu filho de nove anos estendido no chão do quarto, incapaz de se mexer e espumando pela boca. No dia anterior, Jayven estava jogando golfe com sua família. Agora ele estava completamente paralisado pelo súbito aparecimento de uma doença autoimune rara que os médicos ligaram à campylobacter, uma bactéria encontrada principalmente em produtos avícolas.

Canda-Alvarez e seu marido não sabiam se o filho sobreviveria – ele estava em um ventilador no hospital e incapaz de falar. Mas sua mãe podia ver o quão assustado ele estava. “Eu poderia dizer isso em seus olhos”, disse ela.

Quase quatro anos depois de adoecer, Jayven ainda luta para controlar as mãos e o pé direito, resultado de danos duradouros nos nervos. “Ninguém tem uma resposta para saber se ele vai se recuperar completamente – se seu corpo vai ser o mesmo”, disse sua mãe.

Campylobacter é a maior causa de doenças transmitidas por alimentos na América, logo à frente da salmonela. Ambos são potencialmente fatais. No entanto, entre 2015 e 2020, empresas americanas – incluindo as gigantes avícolas Perdue, Pilgrim’s Pride, Tyson, Foster Farms e Koch Foods – venderam dezenas de milhares de produtos cárneos contaminados com campylobacter e salmonela, de acordo com registros de amostragem do governo obtidos pelo Bureau of Investigative. Jornalismo. Mais da metade deles estavam contaminados com cepas resistentes a antibióticos – um problema em rápida escalada que pode ser exacerbado por más condições de higiene.

As empresas avícolas abastecem grandes supermercados e redes de fast food. A Tyson forneceu frango para o McDonald’s, a Perdue vendeu para a Whole Foods e ambas forneceram ao Walmart.

Uma foto de Jayven com sua mãe logo depois que ele ficou doente. Gilad Thaler, VICE News

Jayven com sua fisioterapeuta no hospital. Ele não tem certeza se fará uma recuperação completa. Gilad Thaler, VICE News

Embora o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) considere um certo nível de salmonela e Campylobacter dentro de aves de capoeira aceitável, 12 grandes empresas avícolas dos EUA, incluindo Perdue, Pilgrim’s Pride, Koch Foods, Foster Farms e Tyson, excederam os padrões do USDA para níveis aceitáveis ​​de salmonella várias vezes desde 2018, quando o governo começou a relatar as taxas de contaminação em plantas individuais, de acordo com os registros do departamento. O USDA ainda realiza testes para Campylobacter em plantas de processamento, mas não está rastreando se as plantas excedem os limites de contaminação.

Os lotes de produtos avícolas com taxas de contaminação acima do limite não precisam ser recolhidos, embora as plantas que excedam repetidamente os limites possam ser temporariamente fechadas.

Registros governamentais separados também mostram que, entre janeiro de 2015 e agosto de 2019, as mesmas 12 grandes empresas avícolas dos EUA violaram as regras de segurança alimentar em pelo menos 145.000 ocasiões – ou, em média, mais de 80 vezes por dia.

Trabalhadores de fábricas de aves também alegaram que às vezes foram solicitados a processar carne com cheiro de podre, testemunharam frango sendo jogado em moedores com insetos mortos e encontraram inspetores de segurança do governo aparentemente dormindo no trabalho.

“Como [a carne] chega até nós realmente suja, quando abrimos a caixa, é como, ‘Vamos ver o que tem dentro!’”, alegou um trabalhador em uma fábrica da Tyson em Springdale, Arkansas. “Às vezes tem moscas, tem grilos, baratas ali já congeladas.” Ele alegou que quando apontou isso para os supervisores, eles pareceram demonstrar pouco interesse – e assim os insetos acabaram sendo colocados no moedor junto com a carne.

Campylobacter causa mais de 100 mortes todos os anos na América, bem como 1,5 milhão de infecções. Também responde por até 40% dos casos de Síndrome de Guillain-Barré no país, doença que deixou Jayven paralisado. No entanto, a venda de produtos avícolas contaminados com isso ou com a bactéria salmonela permanece perfeitamente legal.

Canda-Alvarez ainda está abalada com a experiência do filho. “Um dia ele está jogando golfe e no dia seguinte está completamente paralisado. Foi a coisa mais incompreensível que eu já experimentei”, disse ela. “Quando eles me disseram que era de campylobacter, eu fiquei tipo, ‘Então essa bactéria que ninguém conhece, que pode destruir sua vida inteira, é de frango ou aves?’”

“É por isso que eu digo às pessoas, você precisa ter cuidado como cozinha sua comida ou onde você come. Porque você nunca sabe o que pode acontecer.”

O nível de salmonela e campylobacter que o USDA considera aceitável difere dependendo do produto. Um máximo de 15,4% das partes de frango que saem de uma planta de processamento, por exemplo, pode testar positivo para salmonela e a planta ainda pode atender a padrões aceitáveis. O limite para campylobacter é de 7,7%. Muitos especialistas argumentam que esses níveis são muito frouxos.

O Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar do USDA (FSIS) faz “um trabalho muito ruim de regular os contaminantes”, de acordo com Zach Corrigan, advogado sênior do grupo de pressão Food & Water Watch. “Isso vem no caminho de permitir velocidades de linha super rápidas, permitindo que as empresas se regulem em grande parte no abate e, em seguida, façam muito pouco monitoramento da contaminação.”

Um porta-voz do FSIS disse: “O FSIS está comprometido em reduzir as infecções transmitidas por alimentos associadas a produtos regulamentados pelo FSIS, incluindo a redução de doenças por salmonela atribuíveis às aves”.

Especialmente preocupante é o aumento de cepas de bactérias resistentes a antibióticos. O número de infecções por salmonela resistentes a medicamentos nos EUA aumentou de cerca de 159.000 em 2004 para cerca de 222.000 em 2016, de acordo com o CDC. Campylobacter também se tornou mais resistente: à ciprofloxacina, um antibiótico comumente usado para tratá-la, é cada vez mais ineficaz.

O Bureau descobriu um catálogo de violações de higiene, muitas delas em fábricas administradas por grandes empresas avícolas dos EUA ligadas ao fornecimento de carne infectada por superbactéria – e essas condições têm “um enorme impacto” em bactérias resistentes a medicamentos, disse Mohammad Aminul Islam. , professor assistente da Escola de Saúde Global da Washington State University.

“Em um abatedouro, você tem muitas aves provenientes de diferentes lugares”, disse ele. “Então você não sabe qual é de uma boa fazenda, qual é uma fazenda menos limpa, qual é mais colonizada [por bactérias resistentes a drogas], qual é menos colonizada. Mas eles são apenas misturados. Portanto, a higiene da planta de processamento e as condições ambientais são um ponto crítico.”

A ascensão de superbactérias está tendo consequências humanas cada vez mais sérias. Os antibióticos têm sido usados ​​de forma eficaz contra essas doenças bacterianas, mas devido à resistência aos medicamentos, os médicos estão recorrendo com mais frequência aos medicamentos de último recurso, que geralmente têm mais efeitos colaterais. E se estes falharem, não há escolha a não ser deixar a doença seguir seu curso.

‘Você não acha que um drive-through pode custar a vida do seu filho’

Ashley Queipo acredita que uma viagem improvisada ao Chick-Fil-A em abril de 2020 provavelmente resultou em seu filho lutando por sua vida. Depois de uma longa manhã de aulas em casa em sua cidade de Brooksville, Flórida, a família foi para o drive-thru como um deleite.

Chace, de oito anos, pediu seu favorito: nuggets de frango. Mas em poucas horas, ele adoeceu gravemente. Quando ele foi hospitalizado com salmonela, os testes mostraram que a infecção era resistente a todos os antibióticos.

“Você não acha que passar por um drive-through e entregar aquele saco de papel pardo para seu filho no banco de trás pode custar a vida dele”, disse Queipo. “Mas essa é a realidade.” Ela acredita que as pepitas o deixaram doente. Foi uma das últimas refeições que ele comeu antes de adoecer e a única que nenhum de seus pais preparou.

Queipo não relatou o incidente ao restaurante porque a família inicialmente pensou que a doença era causada por um vírus e, no momento em que foi diagnosticada como salmonela, ela estava focada na condição de seu filho. Chick-Fil-A se recusou a comentar.

“As probabilidades estavam realmente contra ele”, lembrou Queipo. “Ele estava tão desidratado, com febre e alucinando. Seu corpo estava se esforçando tanto para lutar contra isso. E simplesmente não podia.” O estômago e os intestinos de Chace pararam de funcionar, mas os médicos ficaram sem opções de tratamento além de inserir um tubo em uma veia perto do coração para nutri-lo.

Chace teve sorte: ele se recuperou completamente – embora em quatro meses. Hoje em dia ele não come mais nuggets e está ansioso para comer carne. “Nós não comemos mais fora”, disse sua mãe. “Raramente comemos frango. Se o fizermos, cozinhamos demais.”

Chace no hospital após contrair salmonela. Ashley Queipo

“As probabilidades estavam realmente contra ele”, lembra sua mãe Ashley Queipo

O recente aumento de campylobacter e salmonella em frangos pode ser rastreado até o nascimento da avicultura industrial. Hoje o frango é a carne favorita da América, mas antes da Segunda Guerra Mundial, era caro e consumido em grande parte pelos ricos. O americano médio não comia mais de 10 libras por ano – cerca de um décimo do que é consumido hoje.

O racionamento de carne bovina, ovina e suína durante a guerra mudou isso temporariamente. Mas quando isso acabou, os americanos estavam prontos para mais uma vez abandonar os caros produtos avícolas. Temendo essa eventualidade, uma rede de supermercados experiente, apoiada pelo USDA, lançou um concurso para criar “a galinha de amanhã”. O plano funcionou; na década de 1950, o concurso produziu uma raça híbrida de ave mais gorda e de crescimento mais rápido – e deu início ao sistema industrial de criação de galinhas que existe hoje.

Os antibióticos catalisaram esse boom do frango. Os medicamentos transformaram a saúde humana depois que se tornaram amplamente disponíveis na década de 1940, mas os agricultores logo descobriram que os antibióticos não apenas controlam doenças, mas também estimulam o crescimento dos animais.

Não demorou muito para que os produtores de aves dos Estados Unidos estivessem injetando antibióticos em animais em todas as fases de produção , sejam injeções aplicadas em galinhas de um dia ou medicamentos colocados na ração para engordar aves de corte . Os antibióticos também ajudaram a suprimir as doenças comuns em aves criadas industrialmente que foram criadas em condições precárias e insalubres.

O concurso para crescer o “frango de amanhã”, apoiado pelo USDAColeção de Fotografias de Arquivos Universitários, Extensão Agrícola e Fotografias de Serviços de Pesquisa, UA023.007, Centro de Pesquisa de Coleções Especiais, Bibliotecas da Universidade Estadual de NC, Raleigh, NC

Certos procedimentos mudaram ao longo do tempo e algumas regras foram endurecidas nos últimos anos – os regulamentos da FDA agora proíbem o uso de medicamentos em animais para promover o crescimento – mas as consequências do uso excessivo de antibióticos ainda são sentidas hoje. Alguns estudos da Europa mostraram que pode levar pelo menos oito anos para que as cepas resistentes de bactérias diminuam após a redução do uso de antibióticos.

As bactérias evoluem para desenvolver resistência aos antibióticos que as atacam; quanto mais as drogas são usadas, mais resistência a elas aumenta. Como tal, a resistência antimicrobiana tornou-se uma das principais causas de morte, matando diretamente cerca de 1,27 milhão de pessoas em 2019 e associada a quase 5 milhões de mortes em todo o mundo, de acordo com um estudo recente publicado na revista The Lancet. Nos Estados Unidos, as superbactérias resistentes a antibióticos matam mais de 35.000 pessoas a cada ano e deixam outros 2,8 milhões doentes.

À medida que os temores sobre a resistência aos medicamentos aumentaram, as empresas avícolas dos EUA reduziram o uso de antibióticos. “A indústria de frangos há anos é líder na redução do uso”, disse um porta-voz do National Chicken Council ao Bureau.

No entanto, especialistas dizem que medidas mais rígidas ainda são necessárias para conter bactérias resistentes a medicamentos, especialmente em relação à higiene. Sob o sistema atual, os animais são abatidos em “velocidades surpreendentemente rápidas com pouca consideração pelo saneamento”, disse Corrigan. “E os patógenos que estão no corpo desses animais se espalham por toda parte, e esses patógenos estão cada vez mais resistentes aos antibióticos. E então estamos todos expostos.”

Tudo menos saudável

Em uma fábrica da Tyson em Springdale que lida com a transformação de carne de frango em nuggets e hambúrgueres, caixas de frango às vezes chegam “podres”, alegou um trabalhador.

Ele acrescentou: “Nós notificamos o supervisor. Nós dissemos: ‘Ei, esse frango fede, está cheirando mal.’ Ele diz: ‘Não, jogue fora’”.

A planta “cheira a bicho podre”, alegou o trabalhador; a carne ficou presa nas máquinas, que não foram devidamente lavadas porque a empresa responsável pela limpeza está com falta de pessoal. “Tem carne para todo lado, deitada no chão”, alegou. Mas, em vez de ser jogado fora, ele alegou que foi lavado e adicionado de volta à linha de processamento.

Sentado em uma cadeira dobrável em sua sala de estar escassamente mobiliada, o trabalhador descreveu suas preocupações com as possíveis consequências de falar publicamente. Ele estava preocupado que a administração pudesse tentar encontrar uma desculpa para demiti-lo se ele fosse descoberto, ele disse em voz baixa, apenas audível acima do barulho dos desenhos infantis vindos da sala ao lado.

Outro trabalhador da fábrica alegou ter visto funcionários do Serviço de Inspeção e Segurança Alimentar, que estão na fábrica para garantir os padrões de higiene, dormindo no trabalho.

A Tyson Foods nega agir de forma inadequada. “A Tyson Foods serve às famílias americanas alimentos seguros e nutritivos há quase um século, e rejeitamos categoricamente as alegações levantadas”, disse um porta-voz da empresa, acrescentando que as plantas em questão receberam as classificações mais altas de um auditor terceirizado que supervisiona normas de segurança alimentar.

“Os membros de nossa equipe têm várias maneiras de levantar preocupações sem medo de retaliação. Além de levantar preocupações a seus supervisores, gerentes e recursos humanos, eles também podem relatar problemas anonimamente à nossa linha de ajuda.”

Frango contaminado com matéria fecal ainda pode ser vendido como “saudável”SeongJoon Cho/Bloomberg via Getty Images

“Dizemos ao supervisor que o frango está com um cheiro horrível. Ele manda jogar. Às vezes tem moscas, tem grilos, baratas lá dentro” – operário de avicultura

Apesar das condições anti-higiênicas nas fábricas, as empresas conseguiram comercializar seus alimentos como limpos e virtuosos usando imagens “totalmente enganosas”, afirmou Corrigan, da Food & Water Watch.

“[As empresas] sabem que os consumidores querem não apenas ter um produto que seja seguro para eles e suas famílias, mas também querem um produto que seja criado de forma sustentável e justa. E a indústria brinca com isso com imagens de fazendas familiares idealizadas, onde cada galinha é uma galinha feliz”, disse ele.

As empresas avícolas gostam de anunciar sua carne como “saudável” – um rótulo dado pelas inspeções do USDA. No entanto, o Comitê de Médicos para Medicina Responsável realizou um estudo em 2011 que encontrou bactérias fecais em quase metade de 120 produtos de frango vendidos por 15 redes de supermercados em 10 cidades dos EUA.

O grupo solicitou ao USDA que retirasse a palavra “saudável” dos rótulos de inspeção de produtos de aves contaminados com matéria fecal, mas depois de ser levado ao tribunal por não responder, o USDA negou a petição. O USDA admitiu que as bactérias das fezes são rotineiramente encontradas em produtos avícolas, mas argumentou que nenhuma ação precisa ser tomada, pois considera as fezes visíveis a olho nu como um “adulterante” – uma substância que compromete a segurança do produto.

Assim, o frango “saudável”, contaminado com matéria fecal, continua sendo vendido nas prateleiras dos supermercados nos EUA.

“As empresas avícolas investiram dezenas de milhões de dólares anualmente em tecnologia e outras medidas cientificamente validadas para melhorar o perfil de segurança dos produtos de frango”, disse um porta-voz do National Chicken Council. Ele acrescentou que a grande maioria das fábricas de frangos de corte atendem aos padrões de desempenho do governo.

Os registros do USDA obtidos pelo Bureau, no entanto, identificam vários casos em que matadouros individuais violaram os regulamentos de higiene centenas de vezes. Um matadouro Tyson em Springdale – responsável por dezenas de produtos de aves contaminados com Campylobacter resistente a medicamentos – violou os regulamentos de segurança e higiene alimentar mais de 800 vezes entre 2015 e 2020.

Em um caso, os inspetores relataram que as aves chegaram mortas à fábrica, mas ainda foram colocadas na linha de produção, o que é proibido pelas normas sanitárias. Em outros, descobriu-se que as galinhas estavam contaminadas com matéria fecal.

No mesmo dia em que um relatório de contaminação fecal foi feito, um lote de frango testou positivo para Campylobacter resistente a medicamentos.

Os relatórios são “não conformidades” documentadas ou falhas no cumprimento dos requisitos das regulamentações governamentais. As empresas podem contestar a validade dessas violações, mas nenhuma das empresas contatadas para esta história disse que o fizeram.

Um porta-voz da Tyson Foods disse: “Tanto os inspetores da Tyson quanto do USDA são treinados para agir imediatamente quando uma preocupação com a segurança alimentar é detectada. Se um produto não atende aos padrões de segurança federais, ele é imediatamente removido da produção.”

Necessidade de reforma

As altas taxas de infecções por COVID-19 entre os trabalhadores avícolas também destacaram as condições nas plantas de processamento. As isenções de velocidade de linha – que permitem que as fábricas acelerem os tempos de processamento além das 140 aves por minuto limitadas pelo governo federal – foram criticadas particularmente por grupos de direitos dos trabalhadores que argumentam que velocidades mais rápidas exigem mais trabalhadores, o que pode afetar o distanciamento social.

O aumento da velocidade da linha também pode ter efeitos indiretos na higiene e no controle de doenças, disse Magaly Licolli, diretora do Venceremos, um grupo de direitos dos trabalhadores avícolas com sede no Arkansas. A fábrica de Tyson no Arkansas, que cometeu inúmeras violações de higiene e produziu frango contaminado com insetos resistentes a medicamentos, recebeu uma isenção de velocidade de linha em setembro de 2018.

Mais recentemente, ela disse, o USDA sancionou esses aumentos enquanto as inspeções diminuíram.

“Com menos inspetores e o frango chegando mais rápido”, disse ela, “é impossível para qualquer ser humano pegar o pássaro que chega doente”.

As empresas avícolas recebem os resultados dos testes realizados nas amostras. Mas sob os regulamentos atuais, nenhuma cepa de campylobacter ou salmonela é classificada como adulterante.

Isso significa que as empresas não têm obrigação legal de reter lotes de alimentos contaminados com campylobacter ou salmonela – mesmo variantes resistentes a medicamentos – ou de recolher carnes já vendidas. Esses produtos podem ser vendidos de forma consciente e legal aos clientes para consumo humano.

Esta é uma “farsa do ponto de vista da saúde pública”, disse David Wallinga, consultor sênior de saúde do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC). Wallinga disse que a abordagem na América tem sido simplesmente aceitar que milhões de pessoas que sofrem de intoxicação alimentar a cada ano é “apenas o preço que pagamos por ter grandes indústrias de carne e fontes de carne bastante baratas”. Ele disse que os surtos de intoxicação alimentar causados ​​por cepas resistentes a antibióticos foram “o gorila na sala”.

Para as famílias atingidas pelas piores consequências dessas doenças, os regulamentos frouxos são difíceis de aceitar. “Na verdade, é realmente perturbador porque eles ainda estão vendendo [produtos de aves] para essas pessoas”, disse Joanne Canda-Alvarez. “E eles não estão conscientizando as pessoas sobre o que pode acontecer.”

“Todo mundo conhece a salmonela”, acrescentou. ”Nós não aprendemos sobre [campylobacter] até ele conseguir. É uma bactéria perigosa. É uma bactéria que pode fazer coisas muito ruins para você.”

Jayven Canda-Alvarez com sua mãe Joanne no HavaíDaniel Vergara, VICE News

Ativistas e políticos aumentaram a pressão por uma reforma legal para classificar certas cepas de salmonela como adulterantes, o que forçaria as empresas a retirar da venda produtos com resultado positivo. Bill Marler, advogado de segurança alimentar, ameaçou recentemente “prosseguir com recursos judiciais” contra o USDA se as autoridades não responderem à sua petição feita em janeiro passado para que 31 cepas de salmonela fossem adulteradas.

Em setembro de 2021, o Center for Science in the Public Interest (CSPI) enviou outra petição ao USDA, pedindo padrões exequíveis que visam as bactérias que representam o maior risco para a saúde humana. Várias grandes empresas, incluindo Tyson e Perdue, assinaram a carta.

“A segurança alimentar, as relações com os agricultores e os cuidados com os animais são as principais prioridades para nós na Perdue”, disse um porta-voz da empresa. “É por isso que nossa empresa defende a modernização dos regulamentos de segurança alimentar de nosso país e saudou as recentes medidas do USDA para abordar essas preocupações de uma maneira que utiliza a ciência mais atualizada.”

Koch Foods, Foster Farms, Pilgrim’s Pride, McDonald’s e Walmart não responderam aos pedidos de comentários. A Whole Foods não quis comentar.

Um estudo de 2010 sobre campylobacter descobriu que problemas de saúde e bem-estar entre as galinhas também prejudicam sua capacidade de controlar infecções. Os hormônios do estresse desencadeiam o rápido crescimento da bactéria campylobacter e permitem que ela se mova para fora do intestino e para o tecido muscular da ave – as partes que os humanos comem.

Não há regulamentação formal das condições das fazendas nos EUA e, portanto, não há registros de inspeção do governo, mas denunciantes e investigadores disfarçados relataram que as fazendas muitas vezes estão imundas e superlotadas, com dezenas de milhares de pássaros embalados em galpões sem janelas.

Uma queixa apresentada ao Bureau of Consumer Protection em fevereiro de 2021 documentou o processo de captura traumático, detalhando como Tyson envia “equipes de captura” para as casas de cultivo para pegar as galinhas grandes o suficiente para o abate. Os apanhadores “pegam as aves pelas pernas e as carregam de cabeça para baixo pelos tornozelos – vários pássaros em cada mão – antes de empurrá-los para as gaiolas de transporte”, dizia a denúncia. As gaiolas não são altas o suficiente para os pássaros ficarem em pé e tantos pássaros são embalados em cada um que eles não têm espaço para se mover ou abrir as asas.

Denunciante Rudy Howell passou 26 anos trabalhando para PerdueSamuel Stonefield

Rudy Howell, que criou frangos para a Perdue de 1994 até o verão de 2020, também fez uma série de alegações sobre a empresa. Em 2021, Howell apresentou uma queixa à Administração de Saúde e Segurança Ocupacional contra Perdue por suposta dispensa indevida depois que ele falou sobre suas práticas. Perdue contesta suas alegações e o acusa de ter violado as medidas de biossegurança ao convidar uma equipe de filmagem para sua fazenda.

As alegações de Howell estavam relacionadas a medidas inadequadas de higiene e controle de doenças, incluindo a alegação de que Perdue às vezes entregava pintinhos em bandejas sujas e usava máquinas sujas para pegar galinhas.

Um porta-voz da Perdue disse: “A segurança alimentar, as relações com os agricultores e os cuidados com os animais são as principais prioridades para nós na Perdue. Nosso negócio de 101 anos é construído com atenção aos detalhes em cada etapa de nossa cadeia de suprimentos, bem como confiança e colaboração com os agricultores que criam nossos animais.”

Howell disse ao Bureau que nunca recebeu nenhuma informação sobre se os testes para doenças haviam sido realizados antes que os filhotes fossem entregues à sua fazenda. Os testes nem sempre foram realizados depois que ele alertou a empresa sobre as taxas preocupantes de doenças entre os novos rebanhos, acrescentou.

“Você não ganha nada. Você apenas pega pássaros mortos. Isso é tudo o que eles fazem é dizer para você pegar os pássaros mortos.”


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The Bureau of Investigative Journalism” [Aqui].

Um mês da tragédia em Petrópolis: ação do Greenpeace Brasil homenageia as vítimas e cobra medidas do Estado para evitar novas catástrofes

Ato simbólico com 233 sinalizadores e coroas de flores simbolizam a urgência de ações para o enfrentamento da crise climática

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Ativistas do Greenpeace Brasil homenageiam as vítimas de Petrópolis no Palácio Guanabara, na cidade do Rio de Janeiro, e pressionam para que seja decretado emergência climática | Foto: Gabrielle Souza / Greenpeace

Rio de Janeiro, 15 de março de 2022 – Hoje (15) completa um mês das chuvas intensas que culminaram em uma grande tragédia na cidade de Petrópolis (RJ). Nesta manhã, o Greenpeace Brasil levou para a frente do Palácio Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro, 233 sinalizadores e coroas de flores representando as 233 vidas perdidas e contabilizadas até o momento. A ação teve como objetivo prestar homenagem às vítimas das enchentes e deslizamentos que atingiram o município no mês passado, além de pressionar o governador Cláudio Castro para que decrete Emergência Climática e execute imediatamente o plano de adaptação.

Apesar do Rio de Janeiro possuir este plano, não existem estratégias de implementação, prazos ou etapas de execução, e tampouco orçamento. Aliás, o governo do estado não usou nem metade do orçamento previsto para o ano passado do Programa de Prevenção de Catástrofes do Rio de Janeiro. Em 2021, foram utilizados R$165 milhões dos R$402 milhões disponíveis – dinheiro que poderia ter sido destinado a obras de infraestrutura.

Para o porta-voz de Clima e Justiça do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, a ação da organização em frente ao Palácio Guanabara é uma forma de pressionar o poder público para que mais tragédias como essa não ocorram: “As fortes chuvas no mês de fevereiro levaram 233 vidas em Petrópolis, mas o que ocorreu na região é um exemplo da falta de implementação de direitos básicos e execução de um plano de adaptação climática no Estado. O Rio de Janeiro precisa decretar Emergência Climática e implementar efetivamente o seu plano de adaptação, elaborando-o junto às populações mais impactadas. Essas são ações fundamentais para que o Estado se antecipe às próximas catástrofes”.

Além de ações como essa em frente ao Palácio Guanabara, o Greenpeace Brasil também tem trabalhado para fortalecer iniciativas que já estão sendo desenvolvidas nos territórios. No caso de Petrópolis, a organização destinou recursos por meio de parceiros locais para a compra de mantimentos, roupas e necessidades urgentes para as famílias atingidas pela catástrofe, além de iniciar uma petição para que os estados decretem Emergência Climática e executem planos de adaptação, evitando que novas tragédias ocorram e que mais vidas sejam perdidas.

Confira as principais imagens da ação

Gastos com agrotóxicos na soja foram de R$ 31,4 bilhões só em 2021

Fungicidas para controle da ferrugem asiática movimentaram R$ 9 bilhões

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Por: AGROLINK -Leonardo Gottems

O mercado brasileiro de defensivos agrícolas (leiam-se AGROTÓXICOS) para a soja faturou R$ 31,4 bilhões na temporada 2020-21, aponta recém-concluído estudo da consultoria Spark Inteligência Estratégica. O resultado representou alta de 17% ante o ciclo 2019-20 (R$ 26,7 bilhões).

A expansão se deve, em grande parte, ao crescimento na área plantada de 5% na safra 2020-21, para acima de 38 milhões de hectares. Com isso, a soja seguiu na posição de principal mercado do setor de defensivos agrícolas (leia-se AGROTÓXICOS), de acordo com o BIP (Business Inteligence Panel).

De acordo com o coordenador de projetos da Spark, Lucas Alves, o segmento de fungicidas liderou novamente a comercialização de agroquímicos (leia-se AGROTÓXICOS) para soja, com 41% das vendas ou R$ 12,8 bilhões. Desse montante, produtos voltados ao controle da ferrugem asiática ou ferrugem da soja movimentaram R$ 9 bilhões, uma elevação de 10% comparada à safra 2019-20. Os fungicidas como um todo tiveram alta da ordem de 13%.

Os dados do BIP Spark por categoria de produtos mostram o segmento de inseticidas na segunda posição do ranking, com 25% de participação e vendas de R$ 7,880 bilhões, uma variação positiva aproximada de 23% ante o ciclo anterior (R$ 6,39 bilhões). Já os herbicidas ocuparam a fatia de 22% do total. A comercialização destes produtos chegou a R$ 6,940 bilhões, cerca de 19% acima do período 2019-20 (R$ 5,79 bilhões).

Ainda de acordo com a Spark, produtos para tratamento de sementes, com 8% das vendas totais, avançaram 13,5%, para R$ 2,427 bilhões, contra R$ 2,138 bilhões. Outros produtos, que equivaleram a 4% do mercado de agroquímicos para soja, fecharam a safra 2020-21 com crescimento de 20%, para R$ 1,361 bilhões ante R$ 1,129 bilhões.

De acordo com Lucas Alves, a ferrugem asiática constitui hoje a preocupação central do sojicultor na safra. A doença identificada em 2001, explica ele, representa risco elevado à produtividade e enseja diferentes estratégias de manejo, sobretudo em virtude do desenvolvimento de resistência, pelo fungo causador da ferrugem (Phakopsora pachyrhizi), a determinados ingredientes ativos de fungicidas.

“Esse cenário elevou a taxa de utilização dos ‘fungicidas multissítios’ de 6% na safra 2014/15 (R$ 75 milhões), para 70% no ciclo 2020-21 (R$ 2,5 bilhões). Mais de 26 milhões de hectares da oleaginosa receberam tratamentos com esses produtos na última safra”, enfatiza Alves. 

Ele acrescenta que os ‘multissítios’ são empregados, principalmente, no manejo de resistência do fungo Phakopsora pachyrhizi. A prática consiste na alternância da aplicação de fungicidas com diferentes modos-de-ação, e preserva a eficácia das tecnologias no controle da doença.

“O manejo da ferrugem é realizado de maneira preventiva. Realizam-se, em média, de 3,5 a 4 aplicações desses produtos”, complementa. Conforme Alves, outras doenças da soja, que nos últimos anos eram consideradas ‘secundárias’, ganharam mais relevância no mercado de fungicidas.

A Spark realizou pesquisa com mais de 3,8 mil entrevistas junto a produtores rurais das principais regiões produtoras da oleaginosa no Brasil.


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Este texto foi publicado originalmente pelo portal Agrolink [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: com liberação de mais 25 agrotóxicos, governo Bolsonaro totaliza 1.660 liberações em 39 meses e 1,4 por dia

tereza bolsonaro

Jair Bolsonaro e Tereza Cristina seguem com a marcha desenfreada de liberações de venenos agrícolas altamente tóxicos

Em uma demonstração óbvia de que não está esperando pela aprovação do Pacote do Veneno também no Senado Federal, o governo Bolsonaro liberou por meio do Ato No. 14 de 07 de março um total de 25 agrotóxicos do tipo “produto técnico”, levando seu “grand total” a 1.660 venenos agrícolas liberados em 1.169 dias de governo, o que dá a média de 1,4 agrotóxicos liberados por dia. Até para um país cuja agricultura de exportação está firmemente aprisionada na dependência química, esses números são de assombrar qualquer um que se preocupa com os ecossistemas nacionais e a saúde dos brasileiros.

Agrotóxicos proibidos na União Europeia circulam livremente no Brasil

Brasil é 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos na Europa, que importa  alimentos produzidos com estes químicos

Um aspecto repetitivo de toda essa onda de aprovações é a presença de produtos banidos na União Europeia cuja legislação pode ser considerada mais rígida do que a brasileira. A “estrela” do Ato No. 14, com 7 produtos liberados, é o Espirodiclofeno, um acaricida que foi proibido na União Europeia (UE) em julho de 2020. Mas além desse, esse ato mais recente também liberou o fungicida Epoxiconazol que está proibido na UE desde abril de 2020.

De quebra, outro “proibidão” liberado foi o fungicida Carbendazim que está proibido desde 2014 após ter sido relacionado a uma ampla gama de doenças que incluem embriotoxicidade, apoptose, teratogenicidade, infertilidade, disfunção hepatocelular, efeitos de desregulação endócrina, interrupção de funções hematológicas, anomalias do fuso mitótico, efeito mutagénico e aneugênico.

Mas apesar de todos esses efeitos, o governo Bolsonaro liberou 10 agrotóxicos contendo o princípio ativo do Carbendazim, uma substância pertencente ao grupo químico Benzimidazol.

A predominância da China como principal fornecedora de agrotóxicos para o Brasil

Agrotóxicos produzidos na China são maioria no pacote de venenos aprovado  pelo governo Bolsonaro |

Outra característica de liberações anteriores que se repetiu no Ato No. 14 foi a forte presença de empresas chinesas no fornecimento de venenos agrícolas para a agricultura nacional, na medida que 24 dos agrotóxicos serão produzidos por empresas sediadas na China. Entretanto, a única exceção que foi o fungicida Pidiflumetofem é produzido na Suiça pela Syngenta, que também é uma empresa chinesa.

Um dado expressivo sobre a dependência brasileira da indústria chinesa de agrotóxicos é que dos 1.660 agrotóxicos liberados nos 39 meses de governo Bolsonaro, 1.001 são “Made in China”, um número que ainda não representa a totalidade do impacto chinês, na medida em que empresas sediadas em países como a Suiça (Syngenta) e Israel (Adama) são de fato propriedade da ChemChina, fundada em 1984, que é um empresa química estatal chinesa que atua nos segmentos de produtos agroquímicos,  borracha, materiais químicos e especialidades químicas, equipamentos industriais e processamento petroquímico para os setores civil e militar.

Com uma 1,4 agrotóxico liberado por dia, governo Bolsonaro deverá ultrapassar 2.000 agrotóxicos liberados em 4 anos de mandato, um verdadeiro recorde mundial

Transgênicos e agrotóxicos: dois “temperos” ocultos na comida do brasileiro  |

Se o governo Bolsonaro mantiver sua média diária de liberações de venenos agrícolas  é de 1,42 por dia, o mais provável é que a dupla Jair Bolsonaro e Tereza Cristina coloquem mais de 2.000 agrotóxicos em um mercado já saturado deste tipo de produto altamente tóxico, o que invariavelmente nos levará a uma crise sanitária em alguns anos, dada a toxicidade de muitos dos produtos que estão sendo liberados, digamos, com sofreguidão.

Por isso tudo é que repito ser fundamental que haja um amplo debate em torno do modelo de agricultura viciada em agrotóxicos que hoje é hegemônica. O fato é que além de ser altamente poluentes e tóxicos, os agrotóxicos são hoje protegidos por uma série de benesses fiscais, causando fortes perdas financeiras a economia brasileira.

É passada a hora de se deixar de premiar o latifúndio agro-exportador e as corporações químicas às custas da degradação ambiental e do envenenamento da água e dos alimentos que os brasileiros consomem.

Quem desejar baixar a planilha contendo os 25 agrotóxicos liberados pelo Ato No. 14, basta clicar [Aqui!]. Para os interessados em baixar a planilha contendo os 1.660 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro, basta clicar [Aqui!].

Certificadora “Red Tractor” não regulamenta uso de agrotóxicos que chegam nos supermercados do Reino Unido

Pesquisa considera o esquema de garantia agrícola e alimentar ineficaz para ajudar os agricultores a reduzir o uso de produtos químicos nocivos

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Um pulverizador químico em ação. Estudos recentes revelaram declínios globais alarmantes nas populações de insetos devido em parte ao uso de agrotóxicos. Fotografia: geogphotos/Alamy

Por Helena Horton para o “The Guardian”

O esquema Red Tractor, usado para marcar alimentos produzidos com “alto padrão”, não está regulamentando o uso de agrotóxicos nas fazendas, segundo um relatório.

Como o maior esquema de garantia agrícola e alimentar do Reino Unido, que certifica cerca de 50.000 agricultores, a Red Tractor é confiável para manter os padrões ambientais. Os produtos são vendidos em todos os principais supermercados do Reino Unido. 

O esquema Red Tractor certifica cerca de 50.000 agricultores.O esquema Red Tractor certifica cerca de 50.000 agricultores. Fotografia:  Red Tractor

No entanto, a maioria dos agricultores entrevistados pela Nature Friendly Farming Network disse que o esquema não os ajudou a reduzir os pesticidas.

No geral, os agricultores sentiram que a Red Tractor estava falhando em ajudá-los a considerar seu manejo de pesticidas de maneira significativa e era ineficaz em ajudá-los a reduzir o uso de pesticidas. Apenas cinco dos 24 entrevistados da pesquisa disseram que foram incentivados pela Red Tractor a revisar seu gerenciamento de pesticidas.

Martin Lines, coautor do relatório e presidente da Nature Friendly Farming Network, disse: “Nossas entrevistas com agricultores certificados pela Red Tractor revelaram que os padrões são pouco encorajadores – e muito menos apoiam – os agricultores a reduzir o uso de pesticidas.

“Há muitos agricultores do Reino Unido trabalhando duro para mudar para o uso de alternativas não químicas e é hora da Red Tractor, como nosso maior esquema de garantia de fazendas e alimentos, se tornar um ator fundamental na condução da transição para sistemas agrícolas mais sustentáveis. Os agricultores querem – e precisam – do seu apoio para trabalhar com a natureza em vez de contra ela.”

O relatório também apontou que a Red Tractor não tinha metas para reduzir o uso desses produtos químicos nocivos. Estudos recentes revelaram declínios globais alarmantes nas populações de insetos , com mais de 40% das espécies de insetos em declínio e um terço em perigo. Juntamente com a perda de habitat, os agrotóxicos foram identificados como um dos principais fatores que impulsionam esses declínios. No Reino Unido, as borboletas diminuíram 50% desde 1976 e 13 espécies de abelhas foram extintas.

Talvez como resultado do declínio dos insetos, mais acima na cadeia alimentar as aves agrícolas caíram 54% desde 1970 e o número de ouriços caiu até 50% nas áreas rurais desde 2002.

Além disso, os pesticidas que representam maiores riscos à saúde humana e ao meio ambiente, conhecidos pela ONU como “agrotóxicos altamente perigosos”, não estão sendo eliminados pelo esquema. Os padrões da Red Tractor não incluem quaisquer restrições adicionais sobre quais pesticidas os agricultores podem usar.

Josie Cohen, chefe de políticas e campanhas da Pesticide Action Network UK, disse: “Se quisermos ter alguma esperança de resolver a crise da biodiversidade, devemos nos afastar de nossa dependência de pesticidas. Mas os padrões da Red Tractor continuam a priorizar o uso de produtos químicos, sem colocar limites em quanto ou onde eles podem ser usados. Ao contrário de muitos supermercados do Reino Unido, a Red Tractor permite que seus agricultores usem qualquer agrotóxico legal, independentemente das preocupações com os impactos à saúde humana ou ao meio ambiente.”

A Red Tractor respondeu que o setor como um todo precisava mudar sua atitude em relação aos agrotóxicos, caso contrário, um grande número de agricultores seria deixado para trás e excluído dos esquemas de padrões. Acrescentou que o novo relatório “faz algumas sugestões construtivas sobre como o conteúdo da Red Tractor pode evoluir para enfrentar esses desafios e congratulamo-nos com esta contribuição para o debate”.


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].