Sob pressão dos fatos, Águas do Paraíba emite nota “estilo Chacrinha” que mais confunde do que explica

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De uma forma bem atípica, a concessionária “Águas do Paraíba” finalmente resolveu vir à público para tentar responder à divulgação dos resultados sobre a qualidade da água de torneira divulgados pelo “Mapa da Água” e repercutidos por mim neste blog. O problema é que a nota emitida pela concessionária que monopoliza os serviços de água e esgoto em Campos dos Goytacazes está contaminada pelo que eu caracterizo como sendo “estilo Chacrinha” que é aquele imortalizado pelo saudoso comunicador Abelardo Barbosa que dizia que não tinha vindo “para explicar para confundir”.

Uma primeira faceta curiosa da nota “Chacrinha” da Águas do Paraíba é que há um reconhecimento de que a empresa forneceu dados errados para o banco de dados do Sisagua (será que ofereceu mesmo), gerando uma desconformidade entre o que teria sido medido e o que foi informado ao Ministério da Saúde.  Aqui, assumindo então que agora os dados são verdadeiros, haveria que se agradecer ao pessoal do “Mapa da Água” por alertar, gratuitamente, a Águas do Paraíba de que os dados fornecidos estavam incorretos.

A segunda faceta é que, diferente do que consta no “Mapa da Água“, a Águas do Paraíba declarou que suas medições encontraram apenas um agrotóxico (qual?) nas águas que analisou.  O curioso é que em 2019 na edição anterior do “Mapa da Água”, os resultados para Campos dos Goytacazes eram de que os 27 agrotóxicos medidos na água servida aos campistas tinham sido detectados, sendo que 9 deles estavam acima dos limites máximos permitidos. Naquela ocasião, talvez por não ter havido a mesma repercussão de agora, a Águas do Paraíba não se deu ao trabalho de contradizer os dados divulgados.  Por outro lado, me parece curioso que agora apenas 1 dos 27 agrotóxicos tenha sido encontrado e dentro dos limites máximos permitidos. Faltou a nota da Águas do Paraíba nos contar como se conseguiu esta performance tão melhor agora.

A terceira faceta que me chamou a atenção é que a nota da “Águas do Paraíba” informou que  a “concessionária informa que seus processos de tratamento de água estão de acordo com as tecnologias e procedimentos necessários, conforme características da água bruta tratada em cada unidade, sendo suficientes para o atendimento dos parâmetros previstos na legislação vigente.”  Em outras palavras, a água estaria chegando nas torneiras em atendimento ao que a lei determina.  Aqui faltou dizer que a legislação brasileira é bem mais tolerante, por exemplo, no caso dos agrotóxicos. 

No seu “Atlas dos Agrotóxicos” a professora Larissa Bombardi mostrou que no caso do glifosato (hoje caracterizado pela  como sendo causador do Linfoma de Non-Hodgkin) tem um limite legal 5.000 maior no Brasil do que o valor praticado na União Europeia. Em outras palavras, atender os parâmetros previstos na legislação vigente não assegura aquilo que todo consumidor deseja, qual seja, que a água que chega em suas torneiras é totalmente seguro.

O fato é que pensada ou não parece replicar o estilo de comunicação do Chacrinha, a nota da Águas do Paraíba confunde mais do que explica. Como haverá uma audiência pública no dia 31 de março na Câmara de Vereadores para discutir a qualidade dos serviços prestados pela empresa, vamos aguardar para ver se até lá temos informes mais precisos e menos enrolados.  Afinal de contas, isto é o mínimo que se espera de uma empresa que cobra tão caro por seus serviços.

No “Dia Mundial da Água”, o que afinal nos servem na torneira como sendo água pura?

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Em meio a uma pandemia mortal, efeitos das mudanças climáticas e conflitos militares, hoje se celebra o “Dia Mundial da Água”. Entretanto, no caso específico dos que se beneficiam de rios, como o Paraíba do Sul, que pertencem ao bioma da Mata Atlântica, as notícias não são nada boas. É que a Fundação SOS Mata Atlântica acaba de divulgar um estudo que mostra que apenas 7% dos rios pertencentes a este bioma apresentam água com boa qualidade.

Enquanto isso, aqui mesmo em Campos dos Goytacazes, continuamos com a questão de qual seria efetivamente a água que nos é servida pela concessionária “Águas do Paraíba” com sendo de “excelente qualidade”.  É que como já divulguei aqui, o chamado “Mapa da Água“, se considerarmos apenas a contaminação por agrotóxicos, a qualidade da água que chega na torneira dos campistas não tem nada de “excelente”.

Como não antecipo que haja um movimento genuíno por parte da “Águas do Paraíba” para oferecer um retrato fiel da condição da água que chega em nossas torneiras, penso que a audiência pública que será realizada no dia 31 de março na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes será uma primeira oportunidade para que o poder público, a sociedade civil organizada e a população possa inquirir os representantes da “Águas do Paraíba” para aperfeiçoar o sistema de tratamento de modo a também remover toda uma classe de poluentes emergentes, incluindo os agrotóxicos mas não se resumindo a eles.

Até que respostas categóricas sejam dadas, fica a pergunta: afinal, o que nos servem na água que chega em nossas torneiras?

Wladimir torna facultativo o uso de máscaras faciais, enquanto no HGG papel higiênico e vasos sanitários estão em falta

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Sob aplausos animados do Sars-Cov-2,  o prefeito Wladimir Garotinho, aqui em um aperto de mão caloroso com o presidente Jair Bolsonaro, decretou o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras faciais em ambientes abertos e fechados

Movido sabe-se lá por qual tipo de orientação, o prefeito Wladimir Garotinho decretou o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes abertos e, pasmem, fechados (ver imagem abaixo). Essa decisão vai de encontro às orientações de pesquisadores como a pneumologista da Fiocruz, Margareth Dalcomo, que considera a abolição do uso de máscaras como prematura em função do quadro vacinal insuficiente em todo o Brasil.

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O fato é que ao decretar do fim do uso obrigatório do uso da máscara em um momento em que a pandemia ainda não passou para o estágio de epidemia é meio que brincar com a saúde alheia. Além disso, ao decretar o uso de máscaras, o prefeito de Campos dos Goytacazes dá um sinal errado em uma cidade em que, especialmente sob sua direção, nunca houve um real controle da situação.

O resultado mais provável é que ao subestimar a real situação sanitária da cidade que governa, Wladimir acabe tendo um rebote da pandemia, sendo obrigado a adotar atitudes que irão além de retomar a obrigatoriedade do uso de máscaras.

Por outro lado, se a rede municipal de saúde estivesse em boas condições até se poderia compreender essa volúpia anti-máscara do prefeito. Mas o que ouvi hoje de uma pessoa com parente internada no Hospital Geral de Guarus (HGG) é que naquela unidade hospitalar municipal está faltando até papel higiênico, o que se soma ao fato de que banheiros estão fora de operação, obrigando uso de baldes (sim, isso mesmo, baldes) para fornecer a água de descarga. Além disso, o serviço de limpeza é, no mínimo, escasso, deixando as áreas de internação em condições muito aquém do desejável.

Em  outras palavras, se uma nova onda de contaminações atingir a cidade, poderemos voltar aos piores momentos da pandemia na cidade de Campos dos Goytacazes, com o HGG operando nas condições descritas acima. E se isto ocorrer, já sabemos a quem dirigir as perguntas sobre quem orientou a decisão de relaxar o uso das máscaras faciais.

Finalmente, o incrível é lembrar que os gastos anuais com a Secretaria Municipal de Saúde estão nas centenas de milhões de reais. Todo esse dinheiro, aparentemente, passa longe do HGG.


Esta postagem foi atualizada às 20:43 para aperfeiçoar o relato das condições dentro do HGG.

Desmatamento em Bacias Hidrográficas do Sudeste e Centro-Oeste em 30 Anos equivale a 15 cidades de São Paulo

  • Análise da TNC Brasil indica que de 1988 a 2017 a perda da vegetação nativa em bacias localizadas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste chegou a 22,9 mil km² e pode acentuar as crises hídricas
  • Ações colaborativas e que priorizem as soluções baseadas na natureza são essenciais para mitigar os impactos dessa perda na disponibilidade hídrica

Análises realizadas pela The Nature Conservancy (TNC) Brasil indicam uma perda importante da cobertura vegetal nativa no entorno das bacias hidrográficas onde se localizam os reservatórios que fazem parte do Sistema Interligado Nacional (SIN) nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Esta perda, somada a efeitos de longo prazo na mudança e uso do solo, pode ter agravado as recentes crises hídricas que afetaram estas áreas. Outros fatores incluem fenômenos climáticos, aumento da demanda nos seus diferentes usos, crescimento populacional e gestão focada em obras de infraestrutura cinza.

Até 1988, o país havia perdido nessa área mais de 580 mil km² de vegetação natural e, de 1988 a 2017, outros 22,9 mil km² foram suprimidos. Para se ter uma ideia do tamanho da perda desses últimos 30 anos, basta comparar com as áreas do estado e da capital paulistas: as áreas devastadas correspondem a 10% do tamanho do estado de São Paulo e 15 vezes o tamanho da cidade de São Paulo. Os dados analisados são da série histórica disponibilizada pela iniciativa Mapbiomas, que traz informações sobre o uso e a ocupação das terras no Brasil, incluindo a região examinada.

mapa de vegetação

Essa perda de cobertura florestal é um dos fatores que tem impactado a reserva das chamadas “águas invisíveis”, tema deste ano definido pelas Nações Unidas para o Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março. Isso porque, a modificação do uso e ocupação da terra pode interferir nas áreas de infiltração natural, o que, por sua vez, afeta a capacidade de recarga da água armazenada no solo e nos aquíferos, chamado de “reservatório invisível”. Este cenário nos torna cada vez mais dependentes dos regimes de chuva, extremamente susceptíveis às mudanças climáticas.

Mitigar e reverter os impactos das mudanças de uso e ocupação do solo e do uso insustentável da água estão entre os maiores desafios dos setores públicos e privados e da sociedade como um todo. Ampliar a segurança hídrica em quantidade e qualidade para todos passa necessariamente pela proteção ambiental, pela eficiência dos usos e da infraestrutura do sistema de abastecimento da água, e fomento ao desenvolvimento social e econômico.

De acordo com o gerente de Água da TNC Brasil, Samuel Barrêto, a segurança hídrica começa com a gestão adequada das bacias hidrográficas, de forma a mantê-las ou recuperá-las para que sejam saudáveis e resilientes às mudanças climáticas, tendo suas funções ecológicas mantidas. A conservação e recuperação das bacias hidrográficas e, consequentemente, a geração de serviços ambientais contribuirão para atender aos usos múltiplos e promover a equidade social e a qualidade de vida da população. Sendo a segurança hídrica um pilar estruturante de interesse nacional para o desenvolvimento econômico, deve ser tratada de forma estratégica.

“Ao analisarmos os desafios da disponibilidade hídrica e adaptação às mudanças climáticas, precisamos pensar além de soluções focadas em obras de infraestrutura cinza. A conservação de bacias hidrográficas é indispensável para garantir o suprimento de água no longo prazo, com qualidade e em quantidade para seus diferentes usos, como, por exemplo, atividades agropecuárias e industriais, navegação e transporte, geração de energia elétrica e, principalmente, o abastecimento humano”, explica.

Coalizão pelas Águas

Uma das contribuições da TNC Brasil para a agenda hídrica é a promoção da conservação e recuperação de florestas, de forma a contribuir com o equilíbrio entre oferta e demanda de água. Como cobenefício, as soluções baseadas na natureza podem fornecer um terço das soluções para o combate às mudanças climáticas.

É dentro dessa visão sistêmica que nasce a nova fase da Coalizão pelas Águas, uma iniciativa que, entre outras estratégias, usa os serviços da natureza na gestão hídrica, engajando o setor público e as empresas na conservação, recuperação e governança de bacias hidrográficas.

O objetivo é ampliar a escala e o impacto da recuperação das bacias em regiões do Cerrado, Mata Atlântica e Amazônia. Os locais foram estrategicamente selecionados para esta nova fase do trabalho da Coalizão, por conta do papel da Amazônia na formação dos rios voadores (umidade que abastece grande parte da América do Sul), além da sua rica biodiversidade terrestre e aquática; da importância do Cerrado como região produtora de alimentos no Brasil e mundo; e do papel-chave da vegetação nativa da Mata Atlântica em prover água para a população de grandes áreas metropolitanas. E, sobretudo, o objetivo é fortalecer a participação de todos na boa governança da água.

Primeira fase

Entre 2015 e 2021, numa parceria com mais de dez empresas globalmente reconhecidas do setor privado e mais de 90 parceiros do setor público e da sociedade civil, a Coalizão realizou diversas ações com o objetivo de contribuir com a segurança hídrica em regiões metropolitanas do país onde vivem cerca de 42 milhões de pessoas.

Os resultados foram a restauração e conservação de 124 mil hectares e a alavancagem de mais de R$ 240 milhões de reais; beneficiando cerca de 4 mil famílias, incluindo investimento de mais de R$ 20 milhões de reais em pagamento por serviços ambientais.

Esses resultados promissores levaram ao desenvolvimento de uma nova etapa, incorporando novas geografias e abordagens, como a relação entre segurança hídrica e segurança alimentar com a resiliência das bacias hidrográficas, de forma a ampliar a escala e o impacto necessários.

TNC

A The Nature Conservancy (TNC) é uma organização global de conservação ambiental dedicada à proteção das terras e águas das quais toda a vida depende. Guiada pela ciência, a TNC cria soluções locais inovadoras para os principais desafios do mundo, de forma que a natureza e as pessoas possam prosperar juntas. Trabalhando em 76 países, a organização utiliza uma abordagem colaborativa, que envolve comunidades locais, governos, setor privado e a sociedade civil. No Brasil, onde atua há mais de 30 anos, o trabalho da TNC concentra-se em solucionar os complexos desafios de conservação da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica a partir de uma abordagem sistêmica, com foco na implementação e geração de impacto, para mitigar as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade.

Relatório: O maior estudo ainda mostra que a ivermectina falhou em reduzir as hospitalizações por COVID-19

ivermectinaSoumyabrata Roy/NurPhoto/Getty Images

Por Noah Y. Kim para o “Mother Jones”

O medicamento antiparasitário Ivermectina tornou-se um campo de batalha partidário durante a pandemia de COVID-19, já que influenciadores antivacinas e políticos republicanos o anunciavam como uma cura milagrosa, para o ceticismo generalizado de especialistas em doenças infecciosas. 

Um estudo revisado por pares recentemente apresentado pelo Dr. Edward Mills, professor de ciências da saúde da Universidade McMaster, no Canadá, ofereceu novas evidências significativas de que a ivermectina era o óleo de cobra do coronavírus o tempo todo. 

No maior estudo já analisado sobre a eficácia da ivermectina no tratamento do coronavírus, Mills e seus colegas pesquisadores descobriram que pacientes com COVID-19 em risco de doença grave que receberam ivermectina não se saíram melhor do que aqueles prescritos com placebo, informou Wall Street Journal na sexta-feira.

“Este é o primeiro grande estudo prospectivo que deve realmente ajudar a acabar com a ivermectina e não dar credibilidade ao uso dela para o COVID-19”, disse Peter Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical do Baylor College of Medicine. 

Dos 1.358 pacientes, os pesquisadores prescreveram metade de um curso de três dias de pílulas de ivermectina e a outra metade com placebo. Eles então rastrearam quantos pacientes foram hospitalizados ao longo de quatro semanas, a rapidez com que os pacientes livraram o vírus de seus corpos e as taxas de mortalidade, entre outras variáveis. Os pesquisadores analisaram os dados de várias maneiras diferentes e não encontraram casos em que a ivermectina afetasse os resultados dos pacientes.

No início da pandemia, alguns pesquisadores levantaram a hipótese de que a ivermectina poderia ajudar, depois que alguns estudos pareciam mostrar um benefício. No entanto, pesquisas consistentemente falharam em validar essas descobertas anteriores, e muitos dos estudos originais que iniciaram a mania da ivermectina foram descobertos empregando métodos falhos . No entanto, a ivermectina permaneceu um tratamento preferido entre o flanco anti-vacinas do Partido Republicano, muitos dos quais continuaram a tomar a droga mesmo quando especialistas médicos alertaram que não havia provas concretas de que funcionava.

Minha colega Kiera Butler acompanhou a estranha jornada da ivermectina desde o início como o ato de acompanhamento do desacreditado medicamento contra a malária hidroxicloroquina, elogiado por Trump. Em janeiro, ela escreveu que os médicos sabiam há mais de um ano que o medicamento antiparasitário não era eficaz contra a COVID-19 e que o FDA havia alertado explicitamente  contra prescrevê-lo a pacientes com Covid.

Mas, no entanto, muitos médicos continuaram a prescrever a droga de qualquer maneira , cobrando custos reais para o público na forma de seguros altíssimos e despesas do Medicare: às vacinas – no entanto, muitos pacientes de COVID, que optaram por ivermectina e outros tratamentos não testados em vez de vacinas, exigiram internações longas e caras”.


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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo site “Mother Jones” [Aqui!].

O derretimento da ordem de Bretton Woods, um dos subprodutos do conflito militar na Ucrânia

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A principal e mais importante notícia que deveria estar sendo oferecida em complemento à repetitiva cobertura da ação militar russa na Ucrânia é que estamos presenciando o rápido derretimento da ordem de Bretton Woods cujas estruturas foram lançadas sobre as brasas ainda quentes da Segunda Guerra Mundial.  É que, de forma inadvertida ou racional, o que os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) fizeram foi acelerar a “desdolarização” da economia mundial e o início de discussões avançadas para que sejam criados mecanismos paralelos (e que eventualmente substituirão) as organizações criadas pelos chamados acordos de Bretton Woods.

Os crescentes sinais do derretimento da ordem de Bretton Woods têm aparecido antes do conflito militar na Ucrânia, mas agora parecem ter adquirido uma velocidade mais acelerada. Exemplos disso são a possibilidade real da venda de petróleo da Arábia Saudita para a China com o pagamento em Yuan (inaugurando ou fortalecendo o chamado “petroyuan”, algo que se repete na venda de petróleo russo para Índia onde o pagamento deverá ser feito em rublo ou rúpia, deixando de fora o dólar.

Mas a derrocada da ordem de Bretton Woods também tem desdobramentos importantes para a importância de suas agências como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), já que o alinhamento entre China-Rússia-Índia tem como objetivo lançar novos mecanismos de integração econômica que moverão ainda mais os centros mais dinâmicos do capitalismo da América do Norte e Europa para a Ásia.

putin jinpingGostando-se deles ou não, Vladimir Putin e Xi Jinping são os artífices de um sistema alternativo ao de Bretton Woods

Desta forma, a virulência de sanções e banimentos que estão sendo impostos à Rússia por causa da ação militar na Ucrânia tem pouco a ver com motivos humanitários e mais com um esforço (provavelmente inútil) de retardar o movimento do pêndulo capitalista de oeste para leste. Mas o problema é que ao congelar as reservas russas que estavam depositadas em seus bancos, os países da Otan estão adiantando, em vez de atrasar, o movimento pendular que está ocorrendo em termos do centro mais dinâmico do capitalismo. Esse movimento, independente do cálculo feito pelos governos ocidentais, via alterar completamente o funcionamento da economia mundial, e afetará o processo de trocas econômicas e financeiras que ainda mantém de pé uma ordem política que não serve mais para manter as relações geopolíticas globais em um mínimo de equilíbrio.

Assim, enquanto a mídia corporativa nos mantém ocupados com uma versão unilateral do que está acontecendo na Ucrânia, a verdadeira notícia está sendo ocultada de todos que se contentam em receber versões pasteurizadas do conflito. O problema  aqui é que quando os movimentos sendo gestados pelos países do novo eixo dinâmico do capitalismo se transformarem em realidade, o que deverá ocorrer será uma surpresa tão grande quanto aquela que ocorreu quando os guardas do Muro de Berlim desistiram de cumprir suas funções.

Trânsito transformado em selva e o anunciado plano de mobilidade urbana: solução ou repetição de velhos erros?

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Muitos esperaram (ingenuamente em minha opinião) que a pandemia da COVID-19 causasse formas espontâneas de solidariedade e uma consequente diminuição das atitudes individualistas cultivadas pela ideologia neoliberal no nosso cotidiano.  Como alguém que dirige todos os dias em uma cidade de porte médio onde inexistem mecanismos de restrição de atitudes antagônicas ao bom dirigir, só posso dizer que vivencio uma piora impressionante nos padrões de comportamento dos motoristas e demais participantes da selva que é o trânsito de veículos em Campos dos Goytacazes.

O que mais salta aos olhos é que semáforos que já não era muito levados em conta antes da pandemia, agora se transformaram em elementos meramente decorativos, especialmente se estamos falando de motociclistas e ciclistas, ainda que o comportamento dos motoristas não seja lá muito melhor.

A obediência aos padrões mínimos de civilidade estão simplesmente ausentes, pois a cada esquina ou cruzamento, o perigo é obedecer e não obedecer a sinalização, pois parece que vivemos em uma cidade de daltônicos, já que a maioria simplesmente passa sem medo de serem felizes. Aos que não querem colisões ou perdas de vida, comportamento no qual eu me incluo, precisam ter atenção redobrada, pois ainda se corre o risco de  sermos culpabilizados por algum incidente provocado por algum condutor  imprudente.

As obras realizadas de uma forma claramente caótica pelo governo municipal parecem ter exponencializado esse comportamento de “vale tudo”, e quem teve o azar de precisar passar pelas áreas beneficiadas pelas reformas sabe bem do que estou falando.  Tendo que ir a uma escola localizada em um trecho relativamente calmo, mas próximo das obras, tive o desprazer de ver pais (um deles portando um visto adesivo em defesa do voto  impresso) retornando na contramão, apenas para não ter que cruzar uma esquina bloqueada. 

Diante desse cenário, fico me perguntando o porquê de tanta omissão do poder público municipal em relação à modernização do controle de trânsito em Campos dos Goytacazes. Aqui inexiste qualquer mecanismo de controle de velocidade ou de câmeras que captem violações e facilitem a punição aos que as realizam. É como se ainda vivêssemos  em uma cidade pequena, quando, na verdade, possuímos características de uma cidade média com mais de 600 mil habitantes.

A minha hipótese é de que não se pretende investir para alcançar um nível mínimo de civilidade, seja por aumentando os efetivos da Guarda Municipal de forma substancial, ou na aquisição de equipamentos de controle de velocidade, isto sem falar nas estruturas de sustentação da sinalização existente porque existem muitas claramente em péssimas condições em vias importantes de circulação ( a Avenida Felipe Uébe é um exemplo crasso disso). 

Não posso deixar de citar aqui que todo esse caos é agravado pela existência (ou seria inexistência?) de um sistema público de transportes que é vexaminoso em todos os aspectos que se pense. Com isso, além de se deixar o cidadão pobre largado à própria sorte, temos um incentivo a que se coloque mais veículos nas ruas, aumentando os congestionamentos que, por sua vez, exacerbam os comportamentos individualistas que mencionei no início desta postagem. Em suma, temos uma receita perfeita para que nossas ruas e avenidas se transformem em campos da morte, e o máximo que o governo municipal até aqui se dispôs a fazer é dar uma tapeada na condição do pavimento.

Por isso tudo, é que estou curioso para conhecer em detalhes o  Plano de Mobilidade Urbana que será será apresentado e discutido em audiência pública que será realizada na Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes na próxima segunda-feira (21/03). Quem sabe ali vejamos apresentados caminhos para que saiamos do padrão caótico em que nos encontramos.  Eu sinceramente espero que não seja mais uma daquelas geringonças destinadas a perpetuar um modelo falido de transporte público que vive pendurado no poder público e no tesouro municipal. 

A Ucrânia “ganhou a guerra da informação”? Não tão rápido

Com nacionalistas brancos e QAnon empurrando a linha de Putin, a direita mais ampla poderá em breve se juntar

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Ilustração da Madre Jones; Alexey Nikolsky/AFP/Getty; Assessoria de Imprensa Presidencial Ucraniana/AP; Getty

Por Ali Breland para o “Mother Jones”

Muitas pessoas no norte global – pelo menos muitas vozes na mídia – estão bastante otimistas sobre a capacidade da Ucrânia de dominar a “guerra de informação” desencadeada pela invasão da Rússia. Escritores do Washington Post , Los Angeles Times , Politico e Financial Times, e cerca de uma dúzia de outras publicações escreveram histórias declarando ansiosamente a Ucrânia como vencedora. De fato, a opinião popular nos EUA parece amplamente unida e, de um certo ponto de vista, em amplo alinhamento com uma condenação global. Contra esse pano de fundo, o domínio da informação da Ucrânia é uma narrativa atraente – o agressor claro em todo o seu poderio militar está sendo chutado online por um azarão mais experiente e desorganizado. As forças armadas da Rússia são muitas vezes maiores e com mais recursos do que as da Ucrânia. Mas mesmo em uma guerra de poderes assimétricos, existem caminhos possíveis para a vitória.  

Nos cantos do Twitter onde eu frequento, cheio principalmente de americanos e pessoas de países que se beneficiaram das consequências da política externa americana, essas declarações parecem mais precisas. Uma alegação russa sobre fotos de um atentado a bomba em um hospital em Mariupol, na Ucrânia, sendo falsificada foi solidamente avaliada pelos céticos antes de ser retirada do Twitter. A mídia estatal russa foi extirpada das principais plataformas. Mas em toda a internet, as declarações de uma vitória da informação ucraniana podem ser um pouco prematuras e incompletas. 

“Muitas das pessoas que estão dizendo ‘game overestão olhando apenas para seus próprios círculos”, disse Elise Thomas, pesquisadora de desinformação da Austrália e analista de inteligência de código aberto do Instituto de Diálogo Estratégico, um think tank de Londres. mim. Em sua pesquisa, ela notou que as posições na Ucrânia e na Rússia são contestadas globalmente de maneiras que atualmente não são nos EUA. 

Jornalistas e escritores na África do Sul, Brasil, Venezuela e em outros lugares  adotaram posições mais críticas à Ucrânia e aos EUA do que a Putin. Nos dois países mais populosos do mundo, China e Índia, a Ucrânia não está ganhando nenhuma guerra de informação. Os usuários chineses de mídia social aplaudiram a invasão com hashtags no Weibo. Assim como a mídia russa, a mídia chinesa caracterizou a invasão como um esforço antifascista contra um governo autocrático ucraniano, que acusou de usar escudos humanos, segundo o New York Times . No início deste mês, a hashtag #IStandWithPutin foi tendência em todo o mundo, particularmente na Índia como o país, que geralmente se alinhou com a Rússia, absteve -se de assinar uma resolução das Nações Unidas condenando a invasão.

Mesmo que você ache que isso não importa muito em uma ordem geopolítica ainda dominada pelos EUA, o forte e quase universal apoio doméstico à Ucrânia que até agora definiu nossa cena doméstica não é um dado adquirido. Até o momento, a direita americana não se estabeleceu firmemente em uma posição unificada sobre a invasão. Falar contra a Ucrânia parece impensável no momento atual, mas grandes faixas da direita contemporânea não se importam com os limites de aceitabilidade estabelecidos pela centro-esquerda e até mesmo pelos moderados conservadores. 

Embora a direita americana ainda não tenha se unido totalmente a uma posição clara, pesquisadores da Internet como Sara Aniano documentaram como eles estão tendendo a uma posição cética sobre a Ucrânia. Influenciadores e comunidades marginais que, no entanto, mantêm influência em espaços de direita – como a personalidade nacionalista branca da internet Nick Fuentes e QAnon e grupos conspiratórios adjacentes – já se aliaram à Rússia . Estes últimos vieram a abraçar a  conspiração desmascarada que os EUA estão financiando laboratórios de armas biológicas na Ucrânia. Thomas, que monitora o que ela descreve como a comunidade conspiratória internacional “infletida pelo QAnon”, observou suas posições se movendo “quase uma a uma com a propaganda russa”. Figuras de alto perfil e muito influentes como Tucker Carlson adotaram posições pró-Rússia, para o deleite da mídia estatal russa – conforme documentado por meu colega David Corn .

Jared Holt, pesquisador do Digital Forensic Research Lab do Atlantic Council que estuda a extrema direita, tem pensado em como a narrativa nacional sobre 6 de janeiro mudou ao longo do tempo e o que esse processo poderia pressagiar para a narrativa sobre a Ucrânia. 

“Imediatamente após o ataque, houve uma condenação generalizada. Houve pedidos para que as pessoas fossem julgadas em toda a extensão da lei e outras estavam do lado das agências de aplicação da lei”, lembrou Holt. “Mas então essa facção conspiratória de direita mais dura do Partido Republicano começou a alavancar esse torque conspiratório que existe. Muito gradualmente e de uma só vez, o roteiro mudou para onde agora o Comitê Nacional Republicano está chamando o dia 6 de janeiro de uma forma legítima de protesto. 

Com as mesmas alas da direita conspiradora pressionando posições anti-Ucrânia, Holt diz que é possível, embora não certo, que eles possam, com o tempo, refazer a posição do movimento mais amplo sobre a Ucrânia. Mas ele adverte que “ descartar o quão eficazes essas franjas podem ser na formação de narrativas, acho que seria um erro”.

Mesmo sem consolidar a opinião conservadora à direita, vozes pró-Putin e de direita poderiam ser eficazes na reformulação do ambiente de informação americano.  Desde a invasão, as plataformas de tecnologia bloquearam e limitaram agressivamente o alcance da propaganda russa e da mídia estatal. Mas as empresas do Vale do Silício têm notoriamente medo de serem acusadas de ter preconceito contra conservadores a ponto de hesitarem em reprimir contas de poder branco, por preocupação com possíveis danos colaterais a contas conservadoras que se movem em redes online semelhantes. Se a direita se tornar mais vocalmente pró-Rússia, as plataformas continuarão sendo tão encorajadas na luta contra a propaganda russa?

Em 2016, fazendas de trolls russos tentaram se basear no racismo endêmico real nos EUA e nas tensões em torno dele. Thomas me disse que ela está vendo uma versão em potencial desse jogo hoje. Ela viu relatos que ela sabe que empurram a propaganda russa para relatos de estudantes africanos e asiáticos sendo discriminados em suas tentativas de fugir da Ucrânia. “Seria um exemplo clássico de algo que é uma questão séria e real que a Rússia está tentando aprofundar ainda mais”, disse Thomas.

O tempo também beneficia a Rússia no sentido de que não precisa ganhar tanto sentimento quanto precisa para criar um sistema que questione o sentimento pró-ucraniano. Em uma das poucas peças a analisar a posição da Ucrânia na guerra da informação e não declará-la a vencedora clara, Charlie Warzel , do Atlantic , observou que “narrativas universalmente aceitas podem ser fugazes, especialmente quando o escrutínio da mídia desaparece”. À medida que o tempo passa e a internet é inundada com mais e mais informações que nem sempre são confiáveis , as pessoas têm mais iterações da realidade para escolher. 

Warzel também abordou o difícil fato de que a Ucrânia “tem seus próprios objetivos de propaganda”. Mesmo que essa seja uma tática racional e justificada de qualquer país sob invasão, pode eventualmente afastar as pessoas. “Houve uma dança em torno desse fato, porque a Ucrânia é obviamente a vítima”, disse Thomas. “Mas eles têm suas táticas de informação. É uma questão ética interessante para o campo. O que fazemos quando um ator que gostamos está usando essas táticas?”

A Rússia, como parte de sua própria operação de propagandachamou a atenção por acusar a  Ucrânia de espalhar informações falsas. Mas Thomas postula que os guerreiros da informação russos, que não esperavam nenhum conflito ou um conflito mais limitado, podem ainda não ter tido tempo de elaborar um plano de batalha de informação completo. Embora o ataque de desinformação da Rússia às eleições de 2016 tenha sido real, sua eficácia real sempre foi  difícil de medir. Embora a Rússia tenha divulgado há muito tempo informações sobre a Ucrânia a serviço de seus próprios interesses, Thomas acredita que as campanhas de informação em tempo de guerra levam um pouco de tempo para serem realizadas . A informação deve ser semeada, alvos específicos devem ser identificados e as narrativas precisam de repetição e tempo para serem construídas. 

Mike Pepi, escritor e crítico de tecnologia, abordou a questão da ampla sobrecarga de informações durante um episódio de junho do podcast do pesquisador de internet e artista Josh Citarella. “A informação é inimiga da narrativa. Quanto mais informações, mais duvidosa a narrativa se torna”, disse Pepi, citando seu manifesto Elements of Technology Criticism . “Quando você introduz muita informação em um sistema ou discurso, você é constantemente capaz de fazer furos em qualquer narrativa”, continuou Pepi. 

Claro, a invasão não aconteceu. Mas nas últimas duas semanas, um  fluxo quase infinito de relatórios, vídeos e filmagens surgiu da Ucrânia. Esse tanto de conteúdo fornece todos os pontos de dados necessários para construir histórias intermináveis ​​de acordo com suas crenças e as crenças correspondentes das pessoas em quem você confia. Por causa da vasta quantidade de informação agora disponível para todos, ninguém está limitado a uma narrativa específica. Nenhum deles precisa ser preciso, eles apenas precisam parecer que são para um número suficiente de pessoas.


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo site “Mother Jones” [Aqui!].

A maldição do garimpo de ouro ilegal na Amazônia: populações humanas altamente contaminadas por mercúrio

75% da população de Santarém está contaminada por mercúrio do garimpo

peixe com mercúrio

Por Júlia Dolce para o InfoAmazonia

Pesquisa inédita indica que, mesmo a cerca de 300km dos garimpos ilegais do rio Tapajós, mais da metade dos moradores da zona urbana de Santarém apresenta níveis de contaminação por mercúrio até quatro vezes superior ao limite recomendado pela OMS. Entre os ribeirinhos, a contaminação chega a 90%.

O consumo de pescados contaminados pelos garimpos ilegais, do alto e médio rio Tapajós, é apontado como origem da presença de altos índices de mercúrio no sangue da população de cerca de 306 mil habitantes do município de Santarém, no Pará. É o que revela o artigo publicado em 28 de fevereiro no International Journal of Environmental Research and Public Health.

O estudo, realizado pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) em parceria com a Fiocruz e o WWF, coletou o sangue de 462 pessoas entre 2015 e 2019 e concluiu que todos os participantes da pesquisa apresentam níveis elevados de mercúrio no sangue, sendo que 75,6% deles apresentaram concentrações do metal acima do limite de 10 μg/L (microgramas por litro) recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A média da concentração na população santarena é quase quatro vezes superior ao limite seguro da OMS.

Barcos no porto de Santarém

A estudante de nutrição Larissa Neves, moradora da cidade, se surpreendeu com a pesquisa. “Eu sabia que a água estava contaminada, porque sempre que me banho no Tapajós fico com coceira no corpo, mas eu não tinha me tocado da contaminação dos peixes”, afirma. 

A estudante trabalha com a venda de marmitas e afirma que seria difícil reduzir o consumo praticamente diário de peixes. “Todo domingo na minha casa é sagrado peixe assado, porque meu pai pesca, leva peixe para casa e a gente prepara nas marmitas pelo menos outras duas vezes por semana, não tem como eu deixar de comer”, pondera.

Todo domingo na minha casa é sagrado peixe assado, porque meu pai pesca, leva peixe para casa. Larissa Neves, estudante de nutrição

Dos participantes do estudo, 203 são moradores da área urbana de Santarém e 259 vivem em oito comunidades ribeirinhas do município paraense, sete delas localizadas nas margens do rio Tapajós e uma nas margens do rio Amazonas. Entre a população ribeirinha, a alta exposição de mercúrio, usado na separação de ouro pelos garimpos ilegais, chega a mais de 90%.

Mapa com a localização do centro urbano de Santarém e as 8 comunidades ribeirinhas que participaram do estudo. Imagem: PMC

Outros estudos já tinham apontado a contaminação por mercúrio de populações que vivem às margens do Tapajós, como o povo indígena Munduruku, que nos últimos anos vêm travando uma crescente disputa contra garimpos clandestinos em seu território. Agora, a pesquisa Mercury Contamination: A Growing Threat to Riverine and Urban Communities in the Brazilian Amazon (em livre tradução, Contaminação por mercúrio: uma ameaça crescente para comunidades ribeirinhas e urbanas na Amazônia brasileira), apresenta dados da contaminação que atinge também a população no centro urbano, a mais de 300km da região onde há concentração de garimpos.

A investigação conclui que 57,1% dos participantes moradores da área urbana de Santarém apresentam taxas de mercúrio no sangue acima do considerado seguro pela OMS, e que a exposição ao mercúrio não se restringe às áreas dos garimpos, “mas pode ocorrer em grande parte da bacia hidrográfica que é bastante impactada pela atividade garimpeira”. 

Participantes da pesquisa que declararam consumo diário de pescados apresentaram maiores taxas de mercúrio no sangue. Os dados indicam que este hábito alimentar  está relacionado a diferentes marcadores sociais, como local de residência e escolaridade. O maior nível de mercúrio foi detectado no grupo de analfabetos (45,8 a 50,9 μg/L) e o menor entre os  com ensino superior (17,3 a 31,6 μg/L).

Segundo o artigo, a dependência dos pescados e falta de acesso a outras variedades de proteína, acentuada pela crise econômica e social desencadeada pela pandemia, além da preferência cultural por esse consumo, é um fator de maior vulnerabilidade para a contaminação. 

Homens apresentaram maiores concentrações de mercúrio do que mulheres, e participantes com idade entre 41 e 60 anos apresentaram níveis mais elevados do que o grupo mais jovem, composto por pessoas entre 21 e 40 anos.

A prevalência da exposição ao mercúrio também é maior entre os ribeirinhos que vivem às margens do rio Tapajós (59,5%) em comparação aos moradores da margem do rio Amazonas (40,5%). 

“Independentemente do local de residência, a exposição humana ao mercúrio pode ocorrer, pois depende dos hábitos alimentares, mas também das próprias características individuais”, explica Heloisa do Nascimento Moura Menezes, pesquisadora do Programa de Pós Graduação em Ciências da Saúde da Ufopa e coordenadora do estudo. “Todos aqueles que têm o hábito de consumir peixe frequentemente estão sob risco de exposição ao mercúrio”, completa.

Independentemente do local de residência, todos aqueles que têm o hábito de consumir peixe frequentemente estão sob risco de exposição ao mercúrio.  Heloisa do Nascimento Moura Menezes, pesquisadora Ufopa

De acordo com a pesquisadora, alguns participantes que vivem na região urbana do município apresentam índices tão altos quanto os das populações ribeirinhas e o crescimento desenfreado da atividade garimpeira pode piorar este quadro. 

O artigo explica que o uso “generalizado, não regulamentado e descontrolado” do mercúrio na atividade garimpeira já liberou milhares de toneladas de resíduos contendo o metal tóxico no bioma amazônico. “Na Amazônia brasileira, o garimpo foi considerado responsável pela contaminação ambiental, bem como pela exposição da vida selvagem e humana ao longo dos anos; no entanto, a magnitude da exposição permanece incerta devido à ilegalidade do setor, dificultando dados credíveis sobre a quantidade de mercúrio liberada no ambiente”. 

Riscos para a saúde

A pesquisa avaliou também alterações nos indicadores de saúde. O mercúrio é um metal pesado tóxico,frequentemente associadoa danos nos tecidos e deficiências na saúde mental, além de alterações comportamentais, imunológicas, hormonais e reprodutivas. Alterações nos rins e nos fígados foram registradas entre os participantes santarenos, sendo que marcadores mais altos foram registrados segundo a concentração de mercúrio. 

Segundo a coordenadora do estudo, a literatura científica sobre a contaminação por mercúrio mostra que, em geral, pessoas com níveis mais altos do metal apresentam sintomas mais graves, mas sintomas são observados também desde níveis baixos de contaminação. “Por isso é importante identificar precocemente a exposição ao mercúrio, para que os sintomas não se agravem”, pondera.

Segundo o médico Fábio Tozzi, coordenador do Programa Saúde Comunitária do Projeto Saúde e Alegria (PSA) em Santarém, estão aparecendo cada vez mais pacientes que trabalham em garimpo ou que sofrem diretamente as consequências do uso do mercúrio na atividade, apresentando sintomas neurológicos, digestivos, psiquiátricos e respiratórios. No entanto, segundo ele, a contaminação por mercúrio ainda é uma doença muito subnotificada. “O diagnóstico é pouco utilizado, mas pela grande quantidade de garimpos da região isso começa sim a ser um alerta muito grande e o sistema de saúde precisa ter resposta para as populações”.

Incluir a testagem dos níveis de mercúrio nos exames da atenção básica de saúde é uma medida apontada pelo médico para enfrentar o problema. “Os gestores devem estar preparados para identificar e mitigar os efeitos da presença do mercúrio na água e nos peixes”, afirma Tozzi, que atua no desenvolvimento de modelos de atenção básica para populações ribeirinhas em uma parceria entre o PSA, a Ufopa e a Secretaria Municipal de Saúde de Santarém. 

Impacto socioeconômico

Um dos mais antigos feirantes de Santarém limpa o peixe antes de ser comercializado

Diante dos resultados da pesquisa, os vendedores de peixes no Mercadão 2000, localizado na orla de Santarém, se apressam para afirmar que seus peixes não estão contaminados. “Esse peixe aqui é de criação, não é do rio não”, afirmou o vendedor Valdenir da Silva Lima, enquanto limpava um tambaqui. Ele destaca os impactos econômicos que o setor teve com a preocupação da população santarena em relação à doença da “urina preta”,nome popular da Doença de Haff, que no segundo semestre de 2021 foi relacionada a uma toxina presente nos peixes. “Atrapalhou muito, ficamos quase um mês vendendo pouco”, revela. 

Outro vendedor, que preferiu não se identificar mas revela ser um dos mais antigos do mercado, afirma que seus peixes vêm dos lagos da várzea do rio Amazonas e também lembra os impactos das notícias sobre a “urina preta”. “Acabou para nós aqui, tivemos que jogar um monte de peixe fora, doamos, agora que estamos voltando a vender”.

O motorista particular Ninito José Miranda de Souza tinha acabado de comprar uma peça de pirarucu, quando conversou com a reportagem. “Se tiver, eu como peixe  o dia inteiro”, revela. No entanto, com o resultado da pesquisa, ele afirma que irá reduzir o consumo. “Vou ter que dar um tempo, se tá fazendo mal não posso ficar no erro”.

Na sacola, o motorista particular Ninito José carrega sua peça de Pirarucu

Já a aposentada Noêmia Pereira Duarte, natural de Itaituba (PA) e moradora da vila santarena de Alter do Chão, que também saía da feira do pescado após comprar pacu e acará, desconfia da pesquisa. “Toda a vida eu comprei peixe, não tem mercúrio nenhum, isso é mentira”, afirma.

Toda a vida eu comprei peixe, não tem mercúrio nenhum. Noêmia Pereira, aposentada

A pesquisadora Heloisa do Nascimento Moura Menezes afirma que o estudo não tem como objetivo trazer impacto negativo para pescadores e feirantes. “Somos solidários a todos aqueles que direta ou indiretamente dependem da pesca. Não estou aqui para criar alarde, mas sim para trazer à tona uma discussão necessária e urgente”, explica.

Segundo Menezes, o resultado não indica que a população deva deixar de consumir peixe, uma vez que existem formas alternativas de se reduzir a exposição ao mercúrio. “Nossa recomendação não é restringir o consumo de peixes, o que sugerimos é uma mudança de hábitos alimentares, justamente porque temos a preocupação com todos aqueles que dependem da pesca para sobreviver”, explica. 

De acordo com a pesquisadora, a população pode variar o tipo de peixe consumido, uma vez que alguns peixes, como os carnívoros, têm mais mercúrio do que os demais, reduzir as porções consumidas e a frequência de consumo e introduzir mais frutas, legumes e alimentos antioxidantes na alimentação. “O conhecimento é uma ferramenta preciosa quando se pensa em prevenção”, completa. 

Menezes aponta também que o objetivo do estudo é promover uma discussão sobre práticas mais sustentáveis para redução do mercúrio no ambiente. “A redução da contaminação do rio e dos peixes pode levar anos, portanto, precisamos não só acabar com as atividades que liberam mercúrio no ambiente, como também buscar formas de proteger a saúde das populações que vivem na região amazônica e que ainda irão conviver por muitos anos com as consequências da exposição mercurial existente hoje”, conclui. 

Desde que a fase de coleta das amostragens da pesquisa foi concluída, em 2019, o garimpo ilegal no rio Tapajós cresceu significativamente. De acordo com um levantamento do Instituto Socioambiental, apenas entre janeiro de 2019 e maio de 2021, a área devastada pelo garimpo dentro da Terra Indígena Munduruku, localizada no médio Tapajós, cresceu em 363%.


blue compass

Este texto foi inicialmente publicado pelo site InfoAmazonia [Aqui!].

Paraguai ou Soyguay: O resultado do agronegócio

A soja do Paraguai é majoritariamente geneticamente modificada e o cultivo é voltado para a exportação para a Europa. Com isso, a Europa alimenta seu gado em operações em massa e é o maior produtor de biodiesel do mundo

reforma agraria paraguay

Grafite em Assunção, capital do Paraguai: “Reforma Agrícola Agora”. Agricultores e comunidades indígenas lutam por uma distribuição justa de terras há décadas. FONTE:ÁLVARO MINGUITO. 
Por  Jesus Gonzalez Pazos, Tradução:Pia Niederhoff para o Amerika21

Há países que permanecem quase inteiramente no anonimato e, se pensarmos nas Américas, talvez o Paraguai venha em primeiro lugar. Na Europa, a maioria das pessoas teria grande dificuldade em encontrar o país no mapa, e as mesmas dificuldades surgiriam se perguntássemos sobre uma característica que caracteriza o país.

E, no entanto, além da mão de obra barata (mulheres migrantes como empregadas domésticas ou no cuidado de idosos), grande parte da soja geneticamente modificada que faz da Europa o maior produtor mundial de biodiesel vem desse país sul-americano.

Por mais positivos que o país tenha, se você se concentrar nos negativos, em breve poderá acabar renomeando o Paraguai como “Soyguay”. Em campanha publicitária em 2003, uma das maiores corporações transnacionais do agronegócio, a então Syngenta, hoje ChemChina-Syngenta, colocou esse território no centro de uma fictícia “República Unida da Soja” junto com outros estados vizinhos como Argentina e Brasil como Bolívia e Uruguai.

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“República Unida da Soja” da Syngenta.  FONTE:NODAL

Naquela época, o Paraguai era (e ainda é) um dos maiores países produtores de soja do mundo, sendo a soja em grande parte geneticamente modificada e voltada para exportação para a Europa. Com isso, a Europa pode alimentar seu gado, sobretudo na produção em massa, e ser o maior produtor de biodiesel do mundo.

Cabe lembrar que o biodiesel é um dos “bons” combustíveis no processo de decomposição dos combustíveis fósseis. No entanto, a questão é multifacetada, se considerarmos as consequências que o atual modelo de produção intensiva está tendo sobre os solos. Como muitos dizem, o problema não é só a planta, principalmente na sua variante geneticamente modificada, mas sobretudo a forma como é produzida. E o Paraguai é o melhor exemplo para representar essa outra realidade.

Agora, quase vinte anos após a campanha publicitária, é evidente que a situação piorou. Não só pelo solo, mas também pelos direitos humanos coletivos e individuais dos povos indígenas e do campesinato.

Oitenta por cento da terra arável do Paraguai está coberta de soja e praticamente 85% do antigo Bosque Atlântico foi desmatado. O responsável por isso é a invasão do agronegócio, que controla a produção em quase 95% da terra, enquanto a população camponesa controla apenas 5% da área restante. Do ar, metade do leste do país, 40% de seu território, aparece como um vasto mar verde, geneticamente modificado, no qual toda a vida não relacionada à soja, inclusive a humana, é sufocada todos os dias.

Essa crescente destruição ambiental obviamente tem consequências que não se refletem apenas na destruição da natureza em benefício do negócio desenfreado da soja. Além disso, há as consequências sociais, como o deslocamento direto ou indireto dos grupos populacionais rurais e indígenas, o que, por sua vez, leva a um crescente empobrecimento desses grupos populacionais e a uma maior desigualdade. E tudo isso é fruto da imposição do modelo neoliberal (extrativismo que coloca os mercados antes da vida, em seu sentido mais amplo), que tem consequências em quatro áreas em particular:

No ecológico 

A destruição de solos devido ao uso excessivo de pesticidas como o glifosato (até 58.569 toneladas de agroquímicos foram importados em 2019), esgotamento do solo (desaparecimento de nutrientes), poluição.

Do lado social 

Deslocamento da população camponesa e indígena (até 900.000 nos últimos dez anos) para as periferias das cidades ou para a emigração e perda das condições de vida digna. Um em cada três paraguaios nas áreas rurais vive em extrema pobreza.

No econômico 

O agronegócio só é lucrativo para as elites, não para o país. Cria 15% dos empregos precários com condições mínimas de trabalho e as receitas fiscais são apenas 2%, embora representem 25% do PIB.

Politicamente

Favorecimento mútuo das elites políticas e econômicas, corrupção desenfreada e políticas governamentais que favorecem a agricultura industrial em detrimento da agricultura camponesa e indígena.

No Paraguai, o maior impulso ao agronegócio veio do governo de Horacio Cartes (2013-2018), ou seja, após a deposição do presidente Fernando Lugo em um golpe de Estado. Ao mesmo tempo, aumentou a criminalização do crescente protesto social, indígena e rural.

Nesse panorama, o crescimento do protesto está enraizado na desigualdade social, na perda de terras e territórios camponeses e indígenas, despejos e deslocamentos para as periferias urbanas, no lento desaparecimento da agricultura tradicional, na degradação ambiental e, coletivamente, na atrofia dos direitos e condições de vida.

A resposta do governo, além de criminalizar os protestos, é a repressão aos setores mobilizados.

Por isso, 70% da violência perpetrada contra os protestos sociais está diretamente ligada aos objetivos das elites de desmobilizar, criminalizar e reprimir a luta indígena e camponesa por terra e território. Tentativas estão sendo feitas para manter o status quo que prevaleceu no Paraguai nas últimas décadas, particularmente desde a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989).

Paraguai ou Soyguay, enfim, a vida ou os interesses dos mercados, é disso que se trata.


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Amerika21 [Aqui!].