Como a pecuária está destruindo a Amazônia? Uma reportagem especial da Bloomberg Green mostra

desmatamento amazonia

Por Jessica Brice, com análise de dados e gráficos de Andre Tartar e Mira Rojanasakul,  Fotografia e vídeo de Jonne Roriz

Este artigo foi produzido com o apoio da Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center

São Félix do Xingu é um Velho Oeste moderno invadido da selva amazônica brasileira por pessoas com pouco a perder. O gado supera as pessoas em quase 20 para 1 e, depois do anoitecer, as estradas de terra cheias de crateras se enchem de grandes plataformas que transportam os troncos gigantescos de árvores roubadas. É um lugar que os forasteiros não têm muitos motivos para visitar, onde os motociclistas não usam capacete porque as pessoas querem saber quem está indo e vindo. Quase todo mundo conhece todo mundo, especialmente Stanisley Ferreira Sandes.

Quatro meses por ano, Ferreira Sandes, 47, cruza os quase 85.000 quilômetros quadrados de São Félix em um Chevrolet quatro por quatro com um chapéu de cowboy no painel e um revólver sob o banco. Ele está em busca de 5.000 cabeças de gado para alimentar um oleoduto que bombeia carne bovina através de matadouros de propriedade da gigante brasileira de frigoríficos JBS SA e outros, depois para mercados de Miami a Hong Kong. Quanto mais rápido ele atingir sua marca, mais cedo ele vai para casa. Mas a concorrência é acirrada, o andamento lento. Ele visita três fazendas por dia – quatro, se ele se apressar – pegando 23 vacas aqui, 68 ali. Para compradores como Ferreira Sandes, não há lugar melhor do que São Félix do Xingu. Com 2,4 milhões de cabeças, abriga o maior rebanho do Brasil. “Se o que você procura é gado”, diz ele, “você não precisa ir a nenhum outro lugar”.

Mas o município que é tão grande quanto a Irlanda também reivindica um título mais notório. É a capital mundial do desmatamento. Entender como a indústria de carne bovina do Brasil e a destruição da floresta tropical estão inextricavelmente interligadas revela uma verdade que a JBS não reconhece: como o maior produtor de carne bovina da região, sua cadeia de suprimentos também está entre os maiores impulsionadores do desmatamento da Amazônia que o mundo já conheceu. Embora se venda como amiga do meio ambiente, a JBS abocanhou mais gado vindo da Amazônia do que qualquer outro frigorífico em um setor que é o principal culpado pelo fim da floresta tropical. Isso ajudou a levar a maior floresta tropical do mundo a um ponto de inflexão em que não é mais capaz de limpar o ar da Terra, porque grandes áreas agora emitem mais carbono do que absorvem. No final do ano passado,  na cúpula climática da COP26  em Glasgow, governos e instituições financeiras – incluindo investidores da JBS – assumiram ambiciosos compromissos verdes para alterar drasticamente seus modelos de negócios para salvar o meio ambiente. Com o desmatamento da Amazônia em alta em 15 anos, a JBS é um estudo de caso que ilustra o quão difícil é cumprir tais promessas.

Há mais de uma década, a JBS se compromete a livrar sua cadeia de suprimentos de animais nascidos ou criados em terras desmatadas. A Bloomberg analisou cerca de 1 milhão de registros de entrega que a JBS postou acidentalmente online para mostrar até que ponto sua pegada chegou à Amazônia nesse período. Uma viagem de 10 dias ao coração do país pecuário do Brasil mostrou com toda a facilidade e abertura as vacas das cadeias de abastecimento de terras desmatadas ilegalmente. A JBS diz que estabelece os mais altos padrões para seus fornecedores, mas está usando uma versão greenwashed da origem de um animal e trabalhando dentro de um sistema legal tão cheio de brechas que promotores, ambientalistas e até mesmo fazendeiros consideram isso uma farsa.

Solicitada a responder a este artigo, a JBS disse que “não tolera desmatamento ilegal”. A empresa sediada em São Paulo acrescentou que “mantém, há mais de 10 anos, um sistema de monitoramento geoespacial que utiliza imagens de satélite para monitorar seus fornecedores em todos os biomas” no Brasil.

Em um acordo de 2009 com promotores federais, a JBS e outros frigoríficos concordaram em não comprar animais de terras recém-desmatadas. Embora a JBS tenha intensificado seu monitoramento, também expandiu agressivamente na Amazônia e ainda não sabe de onde vem seu gado.

Para determinar o tamanho da pegada da JBS, a Bloomberg analisou as coordenadas de cerca de 1 milhão de embarques de gado. Desde então, a JBS restringiu a maioria dos dados, que abrangem cerca de 18 milhões de vacas enviadas para abatedouros nos estados de Rondônia, Pará, Acre, Mato Grosso e Tocantins entre 2009 e 2021. A Bloomberg comparou os dados com mais de 50.000 registros de terras e cerca de 520.000 alertas de desmatamento.

A base de fornecedores diretos da JBS na Amazônia dobrou para 16.900 em 2020, de cerca de 7.700 em 2009. Cumulativamente, ela comprou gado de cerca de 60.500 pecuaristas no período.

O número de abatedouros da JBS operando na Amazônia subiu para 21 agora, de 10 em 2009. A JBS diz que “não criou novos abatedouros”, em vez disso expandindo por meio de aquisições e trazendo padrões mais altos.

Os fornecedores da JBS estão entrincheirados em uma parte da Amazônia que foi fortemente arrasada para acomodar um rebanho crescente . Alertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, conhecido como INPE, mostram 8,2 milhões de hectares de corte raso desde 2009.

Os moradores de São Félix do Xingu marcam a passagem do tempo da mesma forma que os moradores da cidade – por tudo que mudou. Mas, em vez de falar sobre o que subiu – um prédio alto ou um shopping center – é o que foi derrubado. Algumas décadas atrás, era tudo floresta tropical; agora, a maior parte do que você vê dirigindo é pastagem. Quase nenhum gado pastava na terra; hoje, mais de um milhão de hectares de mata de São Félix foram substituídos pelos animais. Naquela época, o mundo não sabia da ligação catastrófica entre carne bovina e desmatamento. E então um promotor novato relutante chamado Daniel Azeredo desembarcou no estado do Pará, onde fica São Félix.

Vista aérea de um trecho de floresta seca e desmatada, escassamente pontilhada por algumas árvores.Terreno desmatado na estrada para São Félix do Xingu

O cargo estava longe de ser a primeira escolha de Azeredo, mas nenhum de seus colegas mais antigos do Ministério Público Federal queria. Em uma nação devastada pela violência e corrupção, o estado do Pará é particularmente sem lei. “Coloque desta forma”, diz o advogado de 40 anos, “quando cheguei em 2007, havia cerca de 30.000 a 40.000 incêndios individuais queimando em toda a Amazônia a cada ano, e os reguladores e a polícia não tinham ideia de quem era o responsável. ”

Assim que sujou as botas, viu que aquilo era obra da pecuária. Mais de 70% das terras desmatadas na Amazônia se transformam em pastagens, o primeiro passo de uma cadeia produtiva que está entre as mais complexas do mundo.

Em uma extremidade da cadeia de fornecimento de carne bovina brasileira estão 2,5 milhões de pecuaristas, muitos em cantos distantes da Amazônia, sem escritórios governamentais, escolas ou mesmo telefones. Do outro estão compradores corporativos em 80 países, incluindo redes de fast-food, supermercados e fabricantes de sapatos e bolsas de couro. “No meio, estão os matadouros”, diz Azeredo. “Então eu pensei: ‘Bem, é isso. É disso que temos que ir atrás.’”

Em junho de 2009, ele fez. Uma investigação de dois anos culminou com promotores federais sinalizando matadouros comprando gado de terras desmatadas ilegalmente. O Greenpeace pegou o trabalho de Azeredo e publicou um relatório histórico que mudou a compreensão do mundo sobre o desmatamento. O grupo ativista criticou marcas globais por comprarem carne bovina e couro de um trio dos piores criminosos da Amazônia: JBS, Marfrig Global Foods SA e Bertin. Clientes corporativos ameaçaram boicotar se não limpassem suas cadeias de suprimentos, e a equipe de Azeredo elaborou um acordo e um cronograma para fazê-lo.

Sem nenhuma lei nos livros do Brasil que proíba especificamente a compra de bens de terras desmatadas, o acordo com os promotores estabelece as únicas diretrizes que os frigoríficos seguem na Amazônia – mas são voluntárias e, pela própria conta de Azeredo, muito fracas. A crescente pressão de investidores e clientes levou os grandes exportadores a assinarem o contrato, mas vários outros simplesmente recusaram e compraram abertamente seus animais de onde quisessem.

A JBS foi uma das primeiras a assinar, em julho de 2009. Mas também se expandiu agressivamente na Amazônia nos anos seguintes. Ela comprou rivais, incluindo a Bertin, para se tornar a maior produtora de couro do mundo, e atraiu o escrutínio de promotores e ambientalistas.

A empresa se sentiu injustamente apontada. Quatro executivos seniores da gigante da carne bovina disseram em entrevistas no ano passado, concedidas sob condição de anonimato, que o gado lavado e arrastado entre terras desmatadas e fazendas “limpas” é um problema de todo o setor. Dado que muitos frigoríficos não assinaram o acordo dos promotores, os padrões da JBS são muito mais altos do que muitos, dizem eles. A JBS diz que verifica dezenas de milhares de fazendas diariamente e bloqueou mais de 14.000 fazendas fornecedoras por não cumprirem suas políticas.

“Fazemos isso há mais de 10 anos”, disse Wesley Batista Filho, chefe de operações de carne bovina na América do Sul, em entrevista coletiva por vídeo no final de 2020 sobre o monitoramento da empresa. “Cem por cento dos nossos fornecedores do bioma cumprem esses critérios, ou seja, desmatamento zero”, disse Batista, 30 anos, neto do fundador.

A JBS fez tais declarações repetidamente, mas elas vêm com uma ressalva. A cadeia de suprimentos é dividida em dois grupos: fornecedores diretos e indiretos, e a JBS verifica apenas a legalidade dos primeiros, sem saber quase nada sobre os segundos, violando seus acordos. É como dizer que o dinheiro lavado está limpo porque o banco que fiscaliza a conta corrente não cometeu o crime. As instituições financeiras não são deixadas de lado tão facilmente; Os frigoríficos da Amazônia são.

Mesmo alguns dos maiores investidores da JBS parecem não perceber a distinção. “Não entendemos a polêmica”, disse João Carlos Mansur, diretor geral da REAG Investimentos, que é o quarto maior investidor da empresa, com participação de R$ 5,66 bilhões. “Eles já têm toda a sua cadeia produtiva mapeada, desde a origem do bezerro até o abate.”

Mas o gado no Brasil se move em média duas ou três vezes e até seis antes de ser abatido, de acordo com o Laboratório de Uso da Terra e Meio Ambiente Gibbs da Universidade de Wisconsin em Madison. A JBS monitora sistematicamente apenas o último rancho ou confinamento na vida de uma vaca.

Ferreira Sandes, o comprador de gado, começa sua manhã em São Félix do Xingu com um sanduíche de presunto e queijo grelhado e um telefone cheio de mensagens. Os fazendeiros locais lhe enviaram uma dúzia de vídeos de vacas em oferta. Ele observa os animais trotando pela tela, anota os lotes que lhe interessam, depois voa pela cidade até uma pequena fazenda no final de uma estrada de terra.

Em um pequeno lote cercado, 20 bovinos aguardam. São o que é conhecido em português como “gados magros”, vacas magras, com as costelas visíveis através da carne tão solta que balança quando andam. Ferreira Sandes fechou ontem o negócio com o grupo por cerca de 70 mil reais. Tudo o que resta agora é marcá-los. Grunhindo guturalmente — “Oooooy! Hooz-ah! Vaaaai!” — um corretor de gado conduz as vacas em fila única através de um curral estreito. Ferreira Sandes enfia um ferro em brasa incandescente pelas ripas de madeira. Uma fração de segundo no quarto traseiro, uma baforada de fumaça e uma letra T enegrecida para transporte está queimada acima da perna esquerda do animal, ao lado de meia dúzia de outras marcas. Cada um representa um passo diferente em sua jornada até agora.

Um homem com um chapéu de cowboy marca um gado entre as ripas de uma cerca.  Onde a marca toca a pele não está à vista, mas a fumaça sobe do couro do gado.Ferreira Sandes marca uma vaca antes do transporte

As vacas estão em sua casa atual há apenas alguns dias. O dono da fazenda, um homem ambulante que diz se chamar Tonico Nogueira, ganha a vida vendendo gado para outros. “Todos os dias, há vacas indo e vindo”, diz ele. “Eles chegam, ficam um ou dois dias e depois partem novamente em um caminhão.” Estações de passagem e intermediários como Nogueira são pontos-chave de discórdia para ambientalistas e pesquisadores que dizem ser o cerne da farsa que garante o fornecimento constante de animais de terras desmatadas. Para provar isso, grupos ativistas como o Greenpeace e pesquisadores de Wisconsin à Bélgica examinam centenas de milhares dos chamados GTAs – documentos de sanitização animal que autorizam o transporte de gado – para montar a jornada de uma vaca tão claramente quanto está marcada em sua pele.

O governo brasileiro mantém os documentos ocultos, citando preocupações com a privacidade. Alguns grupos ativistas acumularam bancos de dados por meio de web scrapes que estão em execução há anos usando uma técnica conhecida como força bruta para adivinhar aleatoriamente identificadores alfanuméricos com muitos caracteres. Armados com os bancos de dados, os ativistas às vezes podem conectar os pontos de uma fazenda desmatada onde um animal nasce ao matadouro onde morre.

Ferreira Sandes não pergunta onde esteve o gado antes de comprá-lo e diz que a papelada está sempre em ordem. Tudo o que ele precisa é de um GTA que liste o pequeno terreno de Nogueira como origem e a Fazenda Lageado, a fazenda 10 horas a sudeste para a qual Ferreira Sandes trabalha, como destino. Em um ou dois anos, uma vez que as vacas tenham ganho metade do peso corporal novamente e sua pele tenha ficado tensa sobre o excesso de carne e gordura, outro GTA será emitido para que possam ser enviados para o abate, e uma nova fazenda de origem documentada. Quando Batista Filho disse que 100% dos fornecedores da JBS estão livres de desmatamento, ele estava falando apenas dessa versão editada de sua viagem.

“Chamamos a nossa atenção que a JBS está usando (sua auditoria anual) como prova de que suas práticas totais de abastecimento de gado são livres de desmatamento”, diz DNV GL, ex-auditor da cadeia de suprimentos da JBS, em carta de julho de 2020 à JBS. “Dado que não houve rastreamento de fornecedores indiretos, a JBS não pode utilizar o laudo de avaliação como comprovação de boas práticas em toda a sua cadeia de suprimentos.”

A empresa disse que deixa claro em suas comunicações aos investidores e em declarações públicas que não está falando sobre toda a cadeia de suprimentos. “A JBS reconhece que as verificações da cadeia de suprimentos ainda não incluem fornecedores indiretos”, disse à Bloomberg. Na mesma coletiva de imprensa em que Batista Filho falou, ‘fornecedores de fornecedores’ são mencionados em várias ocasiões, disse a empresa.

Vista aérea de algumas dezenas de gado em um curral, sendo conduzido por três homens a cavalo.Vista aérea enquanto o gado é trotado para venda

Uma balsa laranja e marrom carrega três caminhões cheios de gado e levanta lodo no rio verde-esmeralda.Uma balsa transporta gado através de um rio

No estacionamento de Nogueira, a marcação termina em meia hora e Ferreira Sandes está de volta em seu caminhão, atravessando um rio imenso de balsa, dirigindo tão rápido por estradas de terra que a poeira vermelha torna impossível ver muito à frente. Quando seu dia terminar, 12 horas depois, ele terá visitado três outras fazendas, nenhuma das quais está de acordo com as regras e regulamentos do Brasil, de acordo com entrevistas e uma verificação cruzada das coordenadas GPS das propriedades e registros públicos. Um proprietário foi embargado pelo regulador ambiental do Brasil; o segundo foi sinalizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais por desmatamento. Seu gerente falou livremente sobre mover o gado para um terreno ao lado para fazer uma venda. A proprietária do último rancho, uma matriarca independente chamada Divina, médicos abertamente os registros de vacinação com a ajuda de um funcionário do governo local e um balconista de uma loja de suprimentos para animais antes que ela possa emitir seu GTA.

Acordos paralelos, soluções alternativas, trapaças – é assim que sempre foi no país do gado, diz Divina. “Não temos governo, educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.” É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de suprimentos da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento. educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.” 

É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de suprimentos da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento. educação ou infraestrutura aqui”, diz ela. “Tudo o que temos são uns aos outros e nossas fazendas, então fazemos o que precisamos para sobreviver.” É um sentimento compartilhado por mais de uma dúzia de fazendeiros entrevistados durante a jornada de Bloomberg pela região. Mas é uma viagem que os auditores da cadeia de suprimentos da JBS nunca fizeram. “Nenhum protocolo exige ‘visitas in loco para fornecedores diretos’”, disse a JBS sobre seus compromissos de monitoramento.

Se alguma das vacas que Ferreira Sandes compra vai ou não parar nos frigoríficos da JBS é impossível saber. A fazenda Lageado, assim como milhares de outros fornecedores diretos do ecossistema da empresa, é um caldeirão. Um estudo de 2020 publicado na revista Science descobriu que essa mistura significa que mais da metade de todas as exportações de carne bovina da região para a União Europeia podem ser contaminadas pelo desmatamento.

As leis e regulamentações anti-desmatamento no Brasil são cheias de nuances, e a JBS é uma empresa que vive nas letras miúdas. Os proprietários de fazendas na Amazônia estão legalmente autorizados a desmatar uma parte de suas propriedades, e aqueles que vão longe demais no corte de árvores antigas podem reiniciar as vendas de gado apelando ou prometendo replantar. Por décadas, o governo também fez vista grossa quando as terras da Amazônia são invadidas e arrasadas, estabelecendo mecanismos para que os posseiros possam vender gado legalmente e também perdoando os grileiros, concedendo-lhes títulos de propriedade. “Os grandes frigoríficos estão sempre reclamando de ter que liderar essas iniciativas, quando na verdade o governo deveria liderar”, disse Azeredo, procurador federal. Ele disse que a marcação do gado ao nascer seria a coisa mais próxima de uma bala de prata e não custaria muito, mas tanto as empresas quanto o governo resistiram a esse plano. “Adoraria forçar”, disse Azeredo, “mas, como não há lei, não posso”.

A JBS disse que segue escrupulosamente as regras para fornecedores diretos e é rápida em argumentar que muitas das reivindicações de manchetes contra ela não são realmente ilegais. Mas quando todos os casos podem ser tão facilmente defendidos pela lei brasileira, surge a questão mais ampla se um frigorífico do tamanho da JBS, operando em uma região tão sem lei quanto o Norte do Brasil, pode alegar de boa fé que sua cadeia de suprimentos está perto de ser livre do desmatamento.

Vemund Olsen, analista sênior de sustentabilidade da Storebrand Asset Management, que tem mais de US$ 100 bilhões sob gestão e detinha ações da JBS até que a empresa se envolveu em um escândalo de corrupção em 2018, disse que não. “Todo ano, saem relatórios que documentam gado de áreas desmatadas entrando na cadeia de suprimentos da JBS”, disse ele. “Eles não deveriam precisar da mídia ou das ONGs para fazer esse trabalho para eles.”

Clientes e investidores  estão cada vez mais sinalizando que não estão confortáveis ​​com a pegada amazônica dos maiores frigoríficos do Brasil, mesmo que esteja dentro da lei. Em dezembro, as redes de varejo europeias Sainsbury’s e Carrefour disseram que restringiriam as compras de carne bovina do Brasil por causa de ligações ao desmatamento.

No final de 2020, a JBS novamente prometeu rastrear toda a cadeia de fornecedores indiretos, desta vez usando um aplicativo construído na tecnologia blockchain para registrar os documentos de transporte do GTA. Analistas financeiros e alguns investidores elogiaram a medida. “Quando eles elegem algo como prioridade máxima, eles entregam”, disse Pedro Leduc, chefe de pesquisa da BLP Asset, na época. Mas para observadores de longa data da Amazônia, como Azeredo e ambientalistas, parecia muito com as promessas que a gigante da carne bovina fez uma década antes.

Em uma tarde abafada no início de outubro, alguns dos maiores pecuaristas do estado do Pará se reúnem em um parque de exposições para uma feira de quatro dias de painéis industriais, música e um leilão de gado. Em um pequeno estande entre vendedores de equipamentos agrícolas, Lorena Geyer, analista de sustentabilidade da JBS, prepara uma apresentação sobre as iniciativas de monitoramento da JBS. Geyer, 27, dirige um JBS Green Office. Como os auditores da empresa, ela nunca fez a viagem para o frigorífico através do campo de gado para conversar com os fazendeiros em suas fazendas. Nem os outros nove analistas do Green Office da JBS na Amazônia, que estão espalhados por uma região maior que a Europa continental. Em vez disso, eles se sentam ao lado de compradores de gado em uma mesa dentro de um abatedouro da JBS. 

Toda vez que um fazendeiro entra em um matadouro para vender gado, Os compradores da JBS verificam suas propriedades em relação aos registros de desmatamento emitidos por órgãos governamentais. Quando um fazendeiro não faz o corte, Geyer intervém para ajudá-los a descobrir como sair das listas negras do governo para que possam começar a vender legalmente. “A abordagem da JBS é incluir fornecedores e não excluí-los”, diz ela, pecuarista do parque de exposições, acrescentando que a JBS pode dar suporte para que a documentação esteja em ordem. “Também é do nosso interesse tê-lo em nossa cadeia de suprimentos – precisamos dessa matéria-prima.”

A legalização de fornecedores ajudando-os a arquivar a documentação é o cerne da estratégia da JBS para limpar sua cadeia de suprimentos. Isso não é o mesmo que eliminar o desmatamento. “Consumidores e governos se unindo não querem ilegalidade zero – eles querem desmatamento zero”, disse Holly Gibbs, que dirige o laboratório de uso da terra na Universidade de Wisconsin. “Há uma grande diferença.”

Editor: Ethan Bronner,  Com a ajuda de: Brittany Harris e Jin Wu
Metodologia

A partir de 2020, a divisão de carne bovina Friboi da JBS passou a permitir que os clientes rastreiem a carne por meio de um site de “Garantia de Origem” . A carne comprada em supermercados inclui no rótulo uma data de abate e um identificador de matadouro conhecido como SIF, que o consumidor pode acessar no site para ver o nome e a localização da fazenda de origem do corte de carne.

Para investigar a cadeia de suprimentos da JBS, a Bloomberg compilou uma lista de abatedouros regionais identificados nos relatórios anuais da JBS de 2009 a 2021. Isso abrange o período em que o compromisso anti-desmatamento da JBS entrou em vigor.

Os números do SIF para esses matadouros foram obtidos de fontes públicas. A Bloomberg usou esses números para verificar no site do Friboi quaisquer dados disponíveis sobre carne bovina de 1º de agosto de 2009 a 30 de setembro de 2021. Isso resultou em cerca de 1 milhão de registros de embarque, cada um representando uma entrega de gado de uma fazenda brasileira para frigorífico operado pela JBS.

A Bloomberg identificou 35 abatedouros, alguns dos quais a JBS possuía, mas foram fechados, e outros desde então. As instalações estavam concentradas em cinco estados amazônicos: Acre, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins. Os frigoríficos adquiriram carne bovina de fazendas desses estados, bem como dos estados vizinhos do Amazonas, Maranhão e Mato Grosso do Sul.

Os registros de entrega que a Bloomberg analisou incluíam a data de embarque, número do lote, coordenadas de coleta, nome da fazenda, nome do produtor e um número de identificação fiscal do produtor conhecido como CPF para pessoas físicas ou CNPJ para pessoas jurídicas. A JBS reconheceu que partes das informações foram publicadas online de forma não intencional. Após saber que os dados eram públicos, a JBS o restringiu no final do ano passado. A Bloomberg reteve uma cópia de todos os logs originais analisados.

Como parte de seus acordos anti-desmatamento com o Ministério Público Federal, os frigoríficos são obrigados a consultar mapas de propriedades encontrados em cartórios conhecidos como CARs, que significa Cadastro Ambiental Rural, ou Cadastro Ambiental Rural. No entanto, o acesso público aos documentos do CAR não é uniforme em todas as regiões, com informações detalhadas sobre os proprietários restritos por muitos estados. Ambientalistas e pesquisadores também alegam que os CARs são fáceis de manipular para excluir o desmatamento porque os limites das propriedades são autodeclarados e não estão sujeitos à confirmação do governo.

Para obter uma imagem mais precisa, a Bloomberg executou os números de identificação fiscal nos registros de entrega da JBS disponíveis por meio de um banco de dados nacional de terras conhecido como Sigef . Quase um terço dos 56.000 fornecedores da JBS conhecidos pela Bloomberg foram encontrados no banco de dados do Sigef, retornando arquivos de mapeamento geoespacial conhecidos como shapefiles em mais de 50.000 lotes, cobrindo mais de 80.000 milhas quadradas. Para as fazendas visitadas pessoalmente, foram consultados os CARs e o banco de dados do Sigef para obter os limites das propriedades. Embora longe de um quadro completo, a análise fornece uma noção mais precisa da escala das fazendas na cadeia de fornecimento direto da JBS, bem como uma indicação de outras propriedades pertencentes a esses fornecedores.

Para entender melhor a relação da empresa com o desmatamento nos últimos 13 anos, a Bloomberg comparou a rede acima de fornecedores diretos da JBS com cerca de 500.000 alertas de desmatamento  chamados Prodes, que foram emitidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, conhecido como INPE, entre 2009 e 2020 . Também foram comparados com cerca de 25.000 embargos emitidos pelo órgão regulador ambiental do país, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, conhecido como Ibama, entre 2010 e 2019. Estes últimos foram obtidos por meio de um pedido de liberdade de informação.

De acordo com o INPE, cada alerta do Prodes se refere ao período de 12 meses até 31 de julho do ano listado, com resultados preliminares – cobrindo pelo menos 90% do desmatamento observado – divulgados até dezembro do mesmo ano.

A Bloomberg estimou o número total de gado assumindo que cada lote representa uma carga média de 18 vacas. Essa é uma suposição padrão de pesquisadores que analisam os documentos de transporte de gado, conhecidos como GTAs, há uma década, incluindo o Gibbs Lab da Universidade de Wisconsin. A Bloomberg pediu à JBS que confirmasse essa suposição, e a empresa se recusou a comentar.

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Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pela Bloomberg Green [Aqui! ]. A reportagem em inglês traz gráficos e animações que não puderam ser incluídas nesta postagem.

Campos dos Goytacazes tem plano diretor, mas que é um ilustre desconhecido nas esferas de governo

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A cheia de 2022 do Rio Paraíba do Sul ameaçou uma Campos dos Goytacazes desprovida de estruturas de governança para mitigar os efeitos das mudanças climáticas globais, o que revela paroquialismo e despreparo

A minha postagem sobre o caráter arcaico do sistema municipal de trânsito em Campos dos Goytacazes suscitou uma observação interessante nas redes sociais acerca da completa ausência de menções ao Plano Diretor Municipal (PDM) nos debates que ocorrem na Câmara de Vereadores. Esse observador notou que “precisamos urgentemente discutir Campos como cidade de médio porte, não como uma cidadezinha minúscula, sem estudos de impacto social e ambiental, planejamento e engenharia de tráfego.”  

Como já citei várias vezes neste blog a dissertação de Mestrado defendida pelo cientista social André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos acerca dos obstáculos criados pelas formas tradicionais de governar que perduram em Campos dos Goytacazes, busquei no documento dois elementos que reforçam a necessidade de que o  PDM seja um instrumento que sirva minimamente a gestão urbana em nossa cidade. O primeiro dado é que dos cinco candidatos melhores colocados no primeiro turno das eleições municipais ocorridas em 2020, apenas dois (Wladimir Garotinho e Caio Vianna) mencionaram o PDM em seus planos de governo, ainda que com um olhar restrito sobre as chamadas “áreas verdes urbanas”. Por outro lado, nem Wladimir Garotinho ou Caio Vianna mencionaram a chamada “Agenda 2030” em suas prioridades de governo, o que demonstra um claro afastamento com quaisquer preocupações com os desafios que estão ali postos, a começar pelos objetivos 11 (desenvolvimento de cidades e comunidades sustentáveis) e 13 (ação contra as mudanças climáticas globais).

A questão é que a ausência de qualquer conexão das práticas de governo com o PDM e com a Agenda 2030 reflete o claro despreparo que temos nas esferas de poder no plano local no tocante à assumir formas mais democráticas e articuladas com os processos de governança que extrapolam os acordos paroquiais que continuam regendo a política municipal. O resultado disso é que passada a ameaça da inundação, tudo parece voltar ao normal (quando este está longe de ser o caso).

O problema é que as chuvas de 2022 mostram que há efetivamente um padrão de agravamento climático que é marcado pela ocorrência de eventos meteorológicos extremos que claramente colocaram em xeque a capacidade de governos estaduais e municipais de responder à ação destrutiva das águas das chuvas.  E está claro que governantes que não entenderem o que está acontecendo poderão até fazer poses para postar nas suas redes sociais, mas isto não ajudará em nada o estabelecimento de políticas de enfrentamento dos efeitos adversos das mudanças climáticas.

Quem quiser ler um artigo muito interessante sobre a necessidade de inserir o tema das mudanças climáticas no interior dos PDMs, basta clicar [Aqui!].

Eventos extremos assolam o Brasil e não há nenhuma normalidade nisso

Maioria dos estados e municípios brasileiros seguem ignorando a emergência climática

unnamed (40)Município de Mário Campos em Minas Gerais – Foto: Gabriele Lanza/TV Globo

São Paulo, 20 de janeiro de 2022 – Desde o mês de novembro de 2021, o Brasil tem presenciado a intensificação de eventos extremos como fortes chuvas, temperaturas altas, estiagens e secas que vêm ocasionando enchentes, deslizamentos de terras, ameaças de rompimento de barragens e dezenas de vidas perdidas. Estados como Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Tocantins, Goiás, Piauí, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina são exemplos de regiões impactadas diretamente pela crise climática.

Dados apresentados pelo Boletim da Defesa Civil Estadual de Minas Gerais registram que, entre outubro de 2021 até o presente mês, as fortes chuvas totalizaram em cerca de 19 mortes, 3.481 desabrigados e 13.756 desalojados, além de 145 municípios em estado de emergência. Só na Bahia, por exemplo, o governo estadual decretou situação de emergência em 136 cidades.

De acordo com um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), o impacto da crise climática na América do Sul inclui um significativo aumento da precipitação média no sudeste do continente, o que aumenta a ocorrência de chuvas extremas. Pesquisadores também alertam que temperaturas extremas, como altas ondas de calor, podem ser até nove vezes mais frequentes já na próxima década. Em resumo: não há nada de “normal” no que estamos vivendo.

Diante deste quadro aterrorizante, deve-se ressaltar o papel dos governos estaduais no enfrentamento da crise climática. É urgente que os governantes, de modo geral e em todas as esferas, elaborem estratégias com a finalidade de zelar pela vida das populações de seus estados por meio da elaboração ou execução de planos de adaptação climática, além de mapeamento de áreas de risco e orçamento destinado a perdas e danos materiais para populações vulneráveis. Apesar disso, a maioria dos estados brasileiros não estão preparados para lidar com a crise: atualmente, somente sete unidades da federação (PE, MG, SP, AC,TO, RS e GO) possuem um plano de adaptação climática e, mesmo nesses casos, faltam ações efetivas.

Para o porta-voz do Greenpeace Brasil, Rodrigo Jesus, cobrar atitudes dos governos estaduais é um passo importante para a prevenção dos impactos da crise climática a nível local, em especial das populações em situação de vulnerabilidade: “Precisamos cobrar uma atuação efetiva dos governos estaduais para criar medidas de adaptação e desenvolver ações estruturais de enfrentamento. A situação de emergência enfrentada por populações de diversos estados atualmente escancara e denuncia o descaso político e a negligência do Brasil com a crise climática”.

Pesquisa indica estratégia para produção de vacinas de maior eficácia

Com participação de cientista da UFSCar, artigo publicado na Nature indica que geometria de nanopartículas afeta resposta imune a vacinas

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Pesquisador da UFSCar coordena etapa de investigação teórica e modelagem (Imagem: André Moura)

Para desencadear a resposta imune que nos protege em infecções futuras, vacinas carregam, além do antígeno – vírus inativados ou partes dele, dentre outras estratégias –, os chamados adjuvantes, compostos que ajudam na ativação do sistema imune. Artigo publicado ontem (19/1) na Nature, com participação de cientistas brasileiros, mostra que a atenção a um atributo geométrico de nanopartículas usadas como adjuvantes, a quiralidade, pode resultar em vacinas mais eficazes.

A quiralidade define um objeto – ou molécula – com tal distribuição espacial que não pode ser sobreposto à sua imagem refletida em um espelho. Macroscopicamente, um exemplo conhecido são as nossas mãos direita e esquerda. Microscopicamente, podemos dizer que a vida é quiral, pois moléculas essenciais como aminoácidos e açúcares apresentam quiralidade.

Assim como, ao cumprimentarmos alguém, o encaixe é melhor entre mãos direitas (ou esquerdas), a interação de uma molécula biológica com compostos com orientação à esquerda ou à direita acontece de formas distintas, sendo mais precisa se há encaixe entre elas, ou seja, se ambas têm, por exemplo, orientação à esquerda (ou, mais precisamente, são enantiômeros à esquerda, nome dado aos isômeros das moléculas quirais).

Por isso, a quiralidade pode resultar em diferentes propriedades e, importante no caso de materiais usados nas vacinas, em respostas biológicas distintas. O encaixe, no entanto, não significa, necessariamente, algo bom, como a capacidade de prevenção ou tratamento de doenças, podendo também levar a algo que é tóxico ou venenoso.

Um exemplo famoso é a talidomida, fármaco usado para tratar náuseas em gestantes que, na década de 1960, descobriu-se causar má formação nos fetos. No medicamento, enquanto um dos enantiômeros tem o efeito terapêutico, o outro causa os problemas no desenvolvimento fetal. Como, neste caso, não é possível manter apenas um dos enantiômeros, não existe possibilidade de uso seguro da substância por gestantes.

Porém, no caso de nanomateriais, é possível obter a forma enantiopura estável, ou seja, composta apenas por um dos enantiômeros.

Na pesquisa relatada na Nature, o objetivo foi justamente comparar nanomateriais quirais – enantiômeros à esquerda e à direita – e seu correspondente aquiral (simétrico) no que diz respeito à resposta do sistema imune. Para tanto, foram usadas nanopartículas de ouro. Em estudos in vitro (com células de origem animal) e in vivo (em animais – camundongos – vivos), os resultados mostraram maior eficácia na ativação da resposta imune nas nanopartículas orientadas à esquerda.

Para a realização do estudo, o primeiro passo foi a preparação das nanopartículas com os atributos desejados – aquiral, quiral à esquerda e quiral à direita –, induzindo a quiralidade desejada por meio de uma combinação de peptídeos e luz circularmente polarizada, que é uma forma quiral de luz. Depois, o estudo in vitro consistiu na incubação dessas partículas junto a células do sistema imune, com acompanhamento de diversas respostas, como a velocidade de entrada das nanopartículas nessas células; a expressão, pelas células, de marcadores bioquímicos associados à ativação da resposta imune; dentre outros parâmetros. In vivo, as medidas confirmaram os resultados encontrados nas células e, para testar as respostas no nível sistêmico, os pesquisadores usaram as nanopartículas como adjuvantes em vacinas contra uma cepa do vírus influenza (H9N2) aplicadas nos camundongos.

Em todos os experimentos, a resposta gerada pelos enantiômeros à esquerda foi ampliada em relação aos enantiômeros à direita e às partículas aquirais. Além dessa constatação, os pesquisadores também investigaram e descrevem no artigo os mecanismos biológicos que podem explicar essas diferenças. Segundo os responsáveis, a descoberta abre caminho para o uso dessas nanoestruturas produzidas com controle de sua quiralidade na produção de respostas imunes sob medida. Além disso, alertam para a importância da parametrização da quiralidade em estudos biomédicos e toxicológicos, já que enantiômeros distintos de um mesmo princípio ativo podem ter impactos muito distintos sobre os organismos vivos.

“As pessoas podem se perguntar por que não realizamos o estudo pensando na COVID-19, ou mesmo com a cepa de influenza que circula atualmente. No entanto, a pesquisa começou muito antes da pandemia, e é importante lembrar que as vacinas contra a Covid só puderam ser produzidas tão rapidamente porque o conhecimento aplicado veio sendo produzido nas últimas décadas”, situa André Farias de Moura, docente no Departamento de Química (DQ) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que é um dos autores do artigo. “Temos agora um primeiro passo dado, uma prova de conceito, e sabemos que podemos seguir nessa direção”, complementa Moura, vinculado também ao Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF).

O trabalho é mais um capítulo na parceria de Moura com o grupo de pesquisa coordenado por Nicholas A. Kotov, na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e com o grupo de Chuanlai Xu, na Universidade de Jiangnan, na China. Além deles, assinam o artigo outros pesquisadores da Universidade de Michigan; parceiros na Universidade de Jiangnan; e os brasileiros Felipe M. Colombari, Weverson R. Gomes e Asdrubal L. Blanco, todos eles egressos do Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFSCar.

A parte experimental da pesquisa acontece nos laboratórios parceiros. Na UFSCar, Moura coordena a etapa de investigação teórica e modelagem e simulação computacional, que ajuda a compreender os mecanismos por trás dos resultados encontrados empiricamente.

No Brasil, a pesquisa teve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp); e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além de bolsa do Programa de Educação Tutorial (PET) do Ministério da Educação. Contou também com o uso de recursos de computação científica de alto desempenho do Laboratório Nacional de Computação Científica (supercomputador Santos Dumont) e da Cloud@UFSCar.

O artigo publicado na Nature é intitulado “Enantiomer-dependent immunological response to chiral nanoparticles” e já está disponível no site da revista (Aqui!).

Confira também vídeo com Moura produzido pelo Laboratório Aberto de Interatividade (LAbI) da UFSCar (em https://www.youtube.com/watch?v=nsGzCFqX5ak).

Vale causa poluição e tem terminal interditado na Baía de Sepetiba, RJ

Prefeitura de Mangaratiba (RJ) interdita obra irregular no Terminal da Vale

Do Rio de Janeiro

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A Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura de Mangaratiba (SMMA), com apoio do Grupamento de Proteção Ambiental da Guarda Municipal (GPA), interditou nesta terça-feira (18) uma obra irregular no Terminal da VALE, na Ilha Guaíba. A intervenção estrutural, que acontecia no píer e na ponte, não possuía nenhuma autorização ambiental para ser executada.

A equipe de fiscalização promoveu a paralisação da obra após a mesma ser denunciada por uma equipe da TV Globo, durante reportagem exibida na última segunda-feira pelo RJTV. Para executar reformas estruturais em área marítima, a VALE, que tem sua licença ambiental vencida desde 2011, deveria apresentar, obrigatoriamente, um parecer técnico emitido pelo INEA autorizando a reforma, conforme preconiza a condicionante de n° 22 da referida licença.

Fotos da Secretaria de Meio Ambiente de Mangaratiba/ RJ

Além da empresa não apresentar a autorização da obra de manutenção sobre o espelho d’água, o GPA e a equipe da SMMA ainda flagraram operários trabalhando em andaimes indevidamente instalados na estrutura do píer.

“Não temos nenhum interesse em prejudicar as atividades da VALE, mas, temos compromisso com o meio ambiente, a biodiversidade marinha e com a saúde pública, já que muitas pessoas se alimentam do pescado da nossa região. Uma obra irregular, pode impactar a vida marinha, poluindo a água e prejudicando as espécies. Como se já não bastasse a operação de terminal cuja a licença está vencida desde 2011 e num processo de renovação que não termina nunca, a empresa insiste em desrespeitar as leis e a natureza, que é nosso maior patrimônio. Com base nas leis em vigor, não vamos baixar a guarda”, explicou o Secretário de Meio Ambiente, Antonio Marcos Barreto.

Imbróglio se estende desde 2019

Desde 2019, a Prefeitura de Mangaratiba vem promovendo fiscalizações constantes nas atividades realizadas pelo terminal da VALE. Neste tempo, devido aos flagrantes de crime ambiental e licença de operação pendente, a SMMA já realizou três interdições e aplicou mais de R$ 55 milhões de reais em multas ambientais à companhia. A empresa judicializou todas as sanções ambientais e administrativas impetradas contra ela, e segue com suas operações de exportação de minério no Terminal da Ilha Guaíba causando comprovada poluição.

Recentemente, em uma análise solicitada pelo Ministério Público Federal, a Secretaria de Meio Ambiente emitiu um parecer técnico de 62 páginas que evidenciam a poluição no entorno do terminal da Ilha Guaíba. Amostras coletadas e analisadas por um laboratório especializado credenciado pelo INEA, e atestado por 12 técnicos especialistas da SMMA, apontam concentração de metais pesados e outros componentes 5.600 vezes superior dos parâmetros internacionais aceitáveis em mexilhões e moluscos, capturados no mar de Mangaratiba e comumente consumidos pela população. A sobrecarga de metais também foi identificada em peixes, praias, efluentes, e outros.

As análises foram comparadas com as referências da empresa americana The Food and Drug Administration (FDA), que é uma espécie de Agência Nacional de Vigilância Sanitária e referência mundial em pesquisas e parâmetros de saúde pública.

O parecer técnico, finalizado em dezembro de 2021, foi submetido a análise do Ministério Público Federal e Estadual, INEA, IBAMA e a Câmara Municipal solicitando providências urgentes.

Plurale procurou a Vale, através da sua assessoria de imprensa,que enviou este posicionamento:

“A Vale esclarece que a obra que está sendo realizada na ponte que dá acesso ao píer do Terminal Ilha Guaíba (TIG) não afeta suas operações. Trata-se de uma intervenção de manutenção, previamente comunicada ao órgão licenciador competente, com previsão de conclusão no segundo semestre deste ano. A Vale não medirá esforços para adotar as medidas cabíveis para retomar a obra.

Diferentemente do que indica o parecer técnico apresentado pela prefeitura, não é possível concluir que as atividades da Vale são responsáveis pelos impactos ambientais na região, alegados pela municipalidade, o que será demonstrado no curso das investigações.

A Vale ressalta ainda que a Licença Ambiental de Operação do Terminal da Ilha Guaíba, permanece válida e vigente e que atua de acordo com as diretrizes estabelecidas na legislação e pelo órgão ambiental licenciador.”

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “Plurale” [Aqui!].

Atlas dos Agrotóxicos 2022 mostra a pegada mundial de um negócio tóxico

Cada vez mais agrotóxicos estão sendo pulverizados em campos em todo o mundo, com consequências devastadoras para os seres humanos e a natureza. A pressão por uma mudança na agricultura está crescendo

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“Produzimos nosso atlas para chamar a atenção para o grande problema dos agrotóxicos. O problema está em toda parte quando se trata de agricultura, saúde, perda de espécies e poluição da água. É uma questão transversal de primeira ordem”, diz engenheira Susan Haffmans, da Pesticide Action Network, que desempenhou um papel de liderança na elaboração do “Atlas dos Agrotóxicos 2022“.  O Atlas foi apresentado em Berlim, juntamente com a Fundação Heinrich Böll, que é próxima do partido dos Verdes, da Aliança Alemã para o Ambiente e a Conservação da Natureza e o jornal mensal internacional “LE MONDE diplomatique. 

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Em 50 páginas, os especialistas descrevem o negócio multimilionário dos agrotóxicos, suas consequências e repercussões. “O atlas fornece dados e informações e se concentra em áreas específicas. Quais são essas substâncias? Onde estão os problemas? Que efeito os  agrotóxicos estão tendo sobre os pequenos agricultores do Sul global? Como as pessoas estão em perigo em diferentes partes do mundo? “Encontramos pesticidas em todos os lugares, mesmo que não vivamos perto do campo”, diz Haffmans.

Os agricultores são frequentemente envenenados

De acordo com um estudo científico recente publicado na revista Public Health, 385 milhões de pessoas na agricultura adoecem a cada ano por intoxicação aguda por agrotóxicos. Após o envenenamento, os trabalhadores agrícolas e os agricultores sentem-se fracos, têm dores de cabeça, vómitos, diarreia, erupções cutâneas, distúrbios do sistema nervoso ou desmaiam. Em casos graves, o coração, os pulmões ou os rins falham. Todos os anos, cerca de 11.000 pessoas relacionadas à agricultura morrem por envenenamento agudo por agrotóxicos, sendo que suicídios por uso de venenos agrícolas não foram contados no estudo.

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Trabalhadores agrícolas e pequenos agricultores no Sul global são especialmente afetados pelo envenenamento por agrotóxicos. Segundo o relatório, na Ásia existem cerca de 256 milhões de casos de intoxicação aguda por agrotóxicos, na África 116 milhões e na América Latina cerca de 12,3 milhões. Na Europa, um número significativamente menor de pessoas sofre de intoxicação aguda por  agrotóxicosna agricultura (1,6 milhão na Europa Ocidental e Meridional).

“Vemos que 44% das mulheres trabalhadoras e agricultoras em todo o mundo sofrem pelo menos uma intoxicação por ano. E em alguns países é muito mais. Em Burkina Faso, por exemplo, 83% das trabalhadoras agrícolas contraem pelo menos uma doença por causa dos agrotóxicos”, diz Haffmans. “E esses são apenas os envenenamentos agudos. A extensão desses envenenamentos agudos também é uma indicação de exposição crônica de longo prazo, que por sua vez está associada a doenças crônicas completamente diferentes”.

Segundo o relatório, existem várias razões para o número significativamente maior de envenenamentos nos países do sul: por um lado, muitos agrotóxicos altamente perigosos são pulverizados lá, e este estãoi muitas vezes também proibidos na Europa.

Além disso, muitos pequenos agricultores não usam roupas de proteção e não são informados sobre os perigos. “Em alguns casos, os fornecedores simplesmente colocam  agrotóxicos em pequenos sacos plásticos ou garrafas, sem rótulos, sem instruções de segurança sobre seu uso e sem avisos.

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Por exemplo, de acordo com uma pesquisa com pequenos agricultores em Gana, menos de 30% usam luvas, óculos e proteção nasal ao manusear agrotóxicos. E de acordo com outra pesquisa na Etiópia, apenas 7% dos agricultores estão cientes do aviso para lavar as mãos após o uso de agrotóxicos.

Lucros são mais importantes que proteção à saúde

A venda de agrotóxicos é lucrativa. Os quatro maiores produtores de agrotóxicos são Syngenta (Suíça/China), Bayer e BASF (Alemanha) e a Corteva (EUA). Segundo o relatório “Atlas”, em 2020 estas empresas atingiram um volume de negócios conjunto de 31 bilhões de euros. Nos últimos anos, as vendas globais de agrotóxicos cresceram em média 4% ao ano.

Como regra geral, porém, as empresas não pagam nada por danos à saúde e ao meio ambiente, ou apenas se houver decisões judiciais correspondentes, como nos EUA. Lá, pessoas que pulverizaram o agrotóxico Roundup contendo glifosato ficaram gravemente doentes e 125.000 deles processaram a Bayer. O grupo já pagou alguns dos reclamantes e a Bayer reservou cerca de 10 bilhões de euros no balanço para pagar danos.

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Iniciativas para a mudança agrícola

“Temos que sair desse sistema agrícola baseado em agrotóxicos químicos”, diz Haffmans. Somente com uma mudança na agricultura a saúde e o meio ambiente poderão ser protegidos de forma sustentável.

Os 30 autores do “Atlas dos Agrotóxicos 2022” usam artigos e gráficos para mostrar as conexões e como os formuladores de políticas podem agir. “Nas últimas duas décadas, o Sri Lanka salvou comprovadamente quase 10.000 vidas ao banir agrotóxicos perigosos. Há também exemplos da Índia. Algumas regiões já cultivam completamente ou em grande parte sem agrotóxicos. Isso, por sua vez, incentiva outras regiões a seguirem o exemplo”, acrescentou. diz Haffmans.

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Este texto foi publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Nova Lima: Vale é denunciada em nota por causa da retomada de atividades minerárias do Projeto Vargem Grande que ameaçam população local

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Ato de Repúdio

Fomos surpreendidos ontem pelos órgãos de imprensa de que a empresa Vale S.A retornou com suas atividades minerárias no Projeto Vargem Grande, sem entrar em detalhes técnicos quanto à expansão das Minas de Tamanduá e Capitão do Mato.

É público e notório que a Vale vem sangrando todo o estado de Minas Gerais com operações degradantes e predatórias, sem política urbana e social, sem qualquer plano emergencial de contenção e protocolo de segurança, em localidades que já se encontravam antes da empresa iniciar suas operações.

A grande preocupação da empresa é obter lucro e aumentar cada vez mais seu poderio econômico, ignorando os diversos problemas ambientais e desrespeitando todas as comunidades próximas às suas minas, haja vista a falta de transparência e diálogo.

É evidente que o Poder Público é omisso em suas fiscalizações e no geral, estas empresas minerárias não respeitam a legislação ambiental em vigor, basta ver o ocorrido em Mariana, Brumadinho, Macacos e Betim, sem falar as inúmeras outras minas existentes com níveis elevados e, mais recentemente, o ocorrido na BR 040 com a Vallourec, em mais um crime ambiental.

Nota-se que não existe qualquer planejamento ou projeto concreto para ocorrências de riscos geológicos face os deslizamentos, erosões e diversos danos ao meio ambiente, sem falar da reparação e da recuperação de toda a área ambiental degradada e impactada pela exploração minerária.

A dor, a tristeza, a dor, a angústia e a falta de segurança nos deixa apreensivos e aterrorizados com a omissão da empresa e os órgãos fiscalizadores municipais, estaduais ou federais.

Não se sabe ao certo se as Minas de Tamanduá e Capitão do Mato possuem controle de segurança adequados, bem planejados, confiáveis e que possam evitar tragédias como as que pudemos acompanhar.

Basta ver a supressão em área nativa que realizaram no início de outubro de 2021 1 e no início do período chuvoso.

A informação dada pela Vale é de que seria necessária uma obra emergencial, face as diversas erosões na cava da Mina do Tamanduá detectadas em abril de 2021 e o risco desabamento.

Isso já serve de alerta para que as autoridades tomem as providências necessárias, com rigor excessivo, evitem novo desastre ambiental e não coloquem em risco vidas humanas das comunidades do Vale do Sol, Pasárgada, Condomínio Morro do Chapéu, Macacos, Condomínio Quintas do Morro, Reserva de Fechos e diversos outros paraísos que se encontram na região noroeste de Nova Lima/MG, contudo, nada foi feito até o presente.

E pasmem, a empresa Vale pretende realizar expansão da cava da Mina de Tamanduá, o que levou a Associação dos Proprietários do Pasárgada –ASPAS a notificar diversos órgãos ambientais responsáveis para que informem se a vida útil desta mina já venceu em 2016!

De que adianta trazer receitas para o Munícipio, Estado ou União, se violam Direitos Humanos, o Princípio Ambiental da Precaução e a legislação pertinente?

O risco de novo crime ambiental é iminente, já que a Vale continua explorando estas áreas sem qualquer limite de suportabilidade, podendo causar novamente diversos impactos ambientais e danos incalculáveis para toda a região acima mencionada.

A falta de sensibilidade de dano ou risco às pessoas e meio ambiente é tamanha, que sempre são tratorados pela ganância e evidente poder econômico de sua diretoria e, que aliás, fica toda na cidade do Rio de Janeiro, fazendo-se aqui representar por funcionários sem autonomia de decisão, mas cumprindo metas bem determinadas e com direito a bônus.

Conforme a bem posicionada manifestação Pública apresentada pela SME – Sociedade Mineira de Engenheiros, datada de 22 de janeiro de 2022: “Chuvas volumosas e intensas requerem níveis elevados de atenção e acompanhamento permanente, com avaliações em tempo real, assim como eficiente capacidade de mobilização de recursos de proteção e de salvamento e ágil e ampla campanha de informação e comunicação pública. É fundamental nestes casos haver uma atuação preventiva com preparação e capacitação nos âmbitos dos governos, das empresa e da sociedade de forma mais abrangente. Perdas dolorosas de vidas e bens podem ser reduzidas e mesmo evitadas com adoção de conhecimentos especializados no campo das engenharias, em destaque, a engenharia de recursos hídricos, da geotécnica e da geologia.”

 E finalizam: “Para a SME, pelas informações recebidas e avaliadas por nossos especialistas, no presente momento, estamos convictos de que a ausência de uma engenharia de qualidade é de fato contribuidora para o agravamento dos impactos advindos dos fenômenos hidrológicos adversos. Conhecer, prever, evitar ou reduzir os efeitos de eventos extremos são tarefas da gestão da engenharia, ferramenta imprescindível na construção de nosso futuro. Por isso, nossa manifestação, além de expressar nossa solidariedade, tem o produto de fazer um alerta para uma solução urgente e necessária em nosso país. É preciso reconquistar o papel da engenharia de qualidade, levá-la ao centro das decisões públicas e a sua valorização em nossa sociedade.”

Portanto, deixo aqui registrado minha preocupação, sentimento de impunidade e indignação pelos fatos que estão ocorrendo no estado de Minas Gerais, decorrentes da omissão e negligência das pessoas responsáveis pela exploração minerária de nosso tão castigado e maltratado meio ambiente, sem falar nos órgãos que expedem todo tipo de licenciamento requerido e não se preocupam em monitorar, fiscalizar, cobrar e fazer cumprir todo nosso ordenamento jurídico.

Nova Lima, 19 de janeiro de 2022.

Luiz Flávio Valle Bastos

Diretor de Meio Ambiente do Condomínio Morro do Chapéu

O sistema arcaico de trânsito em Campos dos Goytacazes reflete bem o tipo de governo que se tem

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Como já contei aqui neste blog, a partir de 21 de dezembro rodei mais de 4.000 km de estradas nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, e visitei cidades de porte menor em relação a Campos dos Goytacazes, incluindo as cidades de Telêmaco Borba Cascavel e Foz do Iguaçu. O que verifiquei nas cidades em que estive me confirmou a noção de que o trânsito em nossa cidade está amparado em um sistema arcaico de sinalização e de controle de velocidade, o que tem por consequência imediata o aumento do risco para todos os que se utilizam das vias de circulação, principalmente os ciclistas.

Por outro lado, há que se notar que não estou falando de cidades europeias, mas de cidades que estão bem aqui no Brasil,  sendo possuidoras de orçamentos municipais bem menores do que os do bilionário estoque de verbas públicas à disposição dos governantes campistas.  Cascaval, por exemplo, que possui uma população em torno de 300 mil habitantes detém um sistema de radares que impede cenas corriqueiras nas avenidas campistas.

radares-1-803x600Em 2021, Cascavel passou a ter mais de 50 radares em diferentes ruas e avenidas

De certa forma, o sistema arcaico de trânsito que existe por aqui é um reflexo da mentalidade de quem tem governado essa cidade nas últimas décadas, independente de qual seja a face, gênero e a faixa etária de quem senta na cadeira de prefeito. Mas mais do que isso, a ausência de qualquer cobrança pelas tais “entidades de classe” da sociedade civil para que haja investimentos públicos na modernização do sistema de trânsito também parece refletir de forma precisa a mentalidade de quem poderia fazer cobranças por melhorias coletivas e acaba aparecendo, por exemplo, para se manifestar contra a gratuidade na entrega de sacolinhas plásticas nos supermercados preços que são de corar a face (aliás, em minha cidade natal, a pequena Telêmaco Borba, o litro de leite pode ser adquirido por R$ 2,39 sem que o produto esteja próximo do vencimento!).

O problema é que enquanto escrevo essa postagem, a rua balança com a passagem em alta velocidade de mais um caminhão gigantesco vindo muito provavelmente do Porto do Açu.  Essa simbiose do atraso não poderia ser mais reveladora do estado de coisas em que vivemos. Enquanto isso, o cidadão campista fica na espera dos carnês do IPTU que certamente virão ainda mais “salgados” em 2022 apenas para continuar tentando sobreviver a um sistema arcaico de trânsito em que inexistem bons transportes públicos e sobram cenas de descumprimento da legislação.

No Porto do Açu é assim: saem agricultores e pescadores e entra a Siemens com suas termelétricas poluentes

Usinas a gás em vez de pequenos produtores e pescadores: Siemens, Siemens Energy, KfW-Ipex e o “superporto do Porto de Açu” na região norte do Rio de Janeiro

O “superporto do Porto de Açu” brasileiro, próximo a Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro, representa agravamento da crise climática, poluição ambiental com anúncio, desapropriação de terras e territórios sem indenização aos pequenos agricultores familiares e pesca – agricultores e pescadores, para um local em cujo terreno está sendo construído o complexo de usinas a gás Gás Natural Açu (GNA), nocivo ao clima, que também é propriedade da empresa alemã Siemens Energy, cujo financiamento também é fornecido pela Siemens Serviços Financeiros e garantia de crédito à exportação pelo governo federal KfW-Ipex-Bank.Onde está a conformidade com a responsabilidade climática e a devida diligência em direitos humanos por parte das empresas alemãs e das autoridades e ministérios alemães?

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Os pescadores também protestam contra a construção do “superporto” Porto de Açu. Foto: Marcos Pedlowski (cortesia)

Por Christian Russau para a “Kooperation Brasilien”

Quando uma multinacional se entusiasma com superlativos, todos os alarmes devem soar: “Com capacidade instalada de 3 GW, GNA I e GNA II são o maior projeto de usina a gás da América Latina, que pode abastecer até 14 milhões de residências com energia”, disse a Siemens em agosto 2020 ao anunciar a entrada de uma subsidiária da Chinese State Power Investment Corporation (SPIC) nos projetos de usinas a gás GNA I e GNA II do projeto Gás Natural Açu no “superporto Porto de Açu” brasileiro perto de Campos dos Goytacazes no norte do estado do Rio de Janeiro. É também claro que hoje em dia a referência a “projectos na área das energias renováveis” não deve faltar no mesmo parágrafo do comunicado de imprensa da empresa, afinal a terminologia “sustentabilidade”

GNA I e GNA II são as duas primeiras de um total de quatro torres de usinas a gás no local do “Super Porto Porto de Açu”, que inclui também um “terminal de GNL com capacidade total de 21 milhões de m3/dia”O gás para o complexo da usina será retirado do chamado Pré-Sal, situado vários milhares de metros abaixo da costa brasileira . “O valor total estimado dos investimentos planejados no complexo de gás e energia GNA é de cerca de US$ 5 bilhões”, gabou-se a Siemens em meados de 2020 .

Agora, no início de 2022, a estrutura de propriedade do “maior projeto de usina a gás da América Latina” mudou novamente, ainda mais para a Alemanha. Porque a Prumo Logística deixou o consórcio do complexo GNA com BP, SPIC, Siemens e Siemens Energy e vendeu sua participação em partes iguais para a BP e Siemens Energy, enquanto a Siemens transferiu toda a sua participação para a Siemens Energy, que foi desmembrada da controladora por meio de um IPO. Após a aprovação dos controladores brasileiros de concorrência do CADE em 31 de dezembro de 2021, apenas a aprovação do banco estadual de desenvolvimento social e desenvolvimento BNDES, que estava envolvido no projeto com a concessão de empréstimos de 1,7 bilhão de reais, estava pendente no início de janeiro. A BP e a Siemens Energy deterão, cada uma, 33,5% das ações do complexo de usinas a gás GNA e a SPIC 33%.

Além do IFC, que apóia o projeto com 288 milhões de dólares, a estatal KfW-Ipex, que, de acordo com um relatório da urgewald e da ajuda ambiental alemã, está cofinanciando o projeto GNA, também está envolvida por meio de de empréstimos “através de uma garantia de crédito à exportação com um volume de cobertura da categoria 5 (ou seja, superior a 200 milhões de euros)”, segundo Urgewald e Deutsche Umwelthilfe. De acordo com a imprensa, o valor exato da cobertura da garantia de exportação do KfW Ipex é exatamente os 1,76 bilhão de reais do banco estatal BNDES (ver IJGlobal, Edição 379, Verão 2020, p. 41). Urgewald e Deutsche Umwelthilfe criticaram acertadamente em setembro de 2021 que o “governo federal […] responsável pelas atividades da estatal KfW-Ipex […] por meio de garantias para a indústria de petróleo e gás [a] transição energética internacional ” — literalmente: “sabotado”. Um dos projetos “gravemente criticado pela Urgewald e pela Deutscher Umwelthilfe está no Brasil: o projeto GNL Gás Natural Açu no Complexo Industrial do Superporto do Açu”.

Trata-se de um daqueles projetos que, como suposta “tecnologia de ponte”, deve manter o suprimento de energia até então convencional, que dá continuidade à matriz energética fóssil com todas as suas consequências catastróficas para o clima e cuja retenção deve garantir os lucros borbulhantes das corporações. Agora, a transferência de ações da Siemens para a Siemens Energy não é apenas uma transação de direito de propriedade com uma mudança de capital na casa dos milhões, o que significa que, em vez da Siemens, apenas a Siemens Energy é agora o foco das críticas da sociedade civil e das críticas dos protecionistas climáticos , que chama pelo nome as causas e a responsabilidade da crise climática Porque a Siemens também precisa explicar qual é o lado potencialmente contínuo do financiamento através da Siemens Financial Services: porque ainda em 2020, foi dito que “a Siemens contribuirá com capital, tecnologia inovadora e sua experiência no gerenciamento de projetos semelhantes por meio de sua subsidiária financeira Siemens Financial Services e em estreita cooperação com a Siemens Energy”. De qualquer forma, a Siemens Financial Services ainda não anunciou que se retirará do financiamento do projeto.

E, por último, mas definitivamente não menos importante, a Siemens e a Siemens Energy têm que responder perguntas sobre sua responsabilidade conjunta em direitos humanos pela construção de toda a área do “superporto Porto de Açu” no norte do estado do Rio de Janeiro: na due diligence societária na Cadeia de Suprimentos conta também que a aquisição ou arrendamento e uso de área localizada em área portuária declarada como o “Superporto Porto de Açu” para construção de plantas industriais próprias – como é o caso da o projeto Gás Natural Açu – é cuidadosamente considerado que não há violações ambientais e não ocorreram violações de direitos humanos. No entanto, não é o que informa o professor universitário Marcos Pedlowski da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes no estado do Rio de Janeiro. O “superporto do Porto de Açu” expropriou as terras de centenas de famílias para construir o porto e, segundo o professor Marcos Pedlowski, “centenas de famílias que tiveram suas terras desapropriadas para construir essa área industrial em São João continuam sem receber compensação do Governo do Rio de Janeiro. Além disso, não se fala mais em salinização das águas continentais causada pelo transbordamento de água salgada das barragens construídas no Porto do Açu, nem se fala mais em destruição da Praia do Açu e o fechamento das áreas de pesca preferencial para os moradores do bairro V de São João da Barra.” Desta forma, o professor Pedlowski fala em “grilagem legal de terras” no caso do Porto de Açu.

O professor Pedlowski é duro com a Siemens: “A participação da Siemens no parque da usina a gás do porto do Açu é um bom exemplo de um padrão que prevalece nas atividades das empresas multinacionais no Brasil. As usinas a gás da GNA não são só muito poluente e geram energia cara, mas também contribuem para o não cumprimento das metas globais de emissões de gases de efeito estufa. Além disso, o histórico de abuso social e ambiental que caracteriza a construção do Porto do Açu deveria ter impedido a participação da Siemens em um empreendimento tão questionável. Mas a preocupação com o lucro parecia superar o compromisso com a boa governança corporativa e com a proteção do meio ambiente e das comunidades locais”,explicou Pedlowski.

A Siemens Energy, a Siemens e a estatal KfW-Ipex são, portanto, co-responsáveis ​​por aderir ao processamento convencional de energia fóssil, que está promovendo ainda mais a crise climática. Além disso, o projeto defende a poluição ambiental com anúncio e significa a desapropriação de terras e territórios sem indenização para os pequenos proprietários que ali exercem a agricultura familiar por um terreno em cujo terreno está sendo construído um complexo de usinas a gás prejudiciais ao clima, também de propriedade da é uma empresa alemã como a Siemens Energy, que também foi financiada pela Siemens Financial Services e a garantia de crédito à exportação pelo KfW-Ipex-Bank, de propriedade federal. Isso deve ter um fim.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Crise ambiental em Alter do Chão: águas de ‘Caribe amazônico’ ficam turvas em meio a alta no garimpo no Pará

alter do chão

Fotografia aérea feita em janeiro mostra águas barrentas do Tapajós em contato com o Lago Verde, em Alter do Chão. Por Erik Jennings Simões

Por João Fellet  da  BBC News Brasil em São Paulo

Quem visita o distrito paraense de Alter do Chão costuma se deleitar com as águas límpidas e azuladas do Tapajós, que lhe renderam o apelido de “Caribe amazônico”.

Mas quem passou o último Réveillon no distrito – um dos principais destinos turísticos da Amazônia – encontrou algo diferente: as águas que banhavam as praias de areia clara estavam turvas e barrentas.

O fenômeno alarmou moradores e agências de turismo, que temem prejuízos à principal atividade econômica do distrito e à saúde dos residentes.

Eles citam temores de que a mudança na água seja uma consequência do aumento do garimpo no curso médio do Tapajós, o maior polo de mineração ilegal no Brasil. O garimpo contamina os rios com mercúrio, que pode provocar doenças neurológicas.

Imagens de satélite mostram que nos últimos anos houve um crescimento vertiginoso do garimpo de ouro no Médio Tapajós, região que fica a algumas centenas de quilômetros de Alter do Chão.

‘Resíduos nocivos à saúde’

“O Tapajós está morrendo!”, protestou no Instagram em janeiro a agência local de turismo Poraquê.

“Águas barrentas, cheias de resíduos nocivos à saúde, estão sendo despejadas sem piedade alguma”, completou a agência, atribuindo a lama à “mineração irregular de inúmeros garimpos ao longo do rio”.

Post no Instagram

Agências de turismo de Alter do Chão temem impactos no movimento de visitantes por causa da mudança no rio. CRÉDITO,REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

Outras entidades publicaram queixas semelhantes

Os primeiros alertas sobre a mudança na cor do rio foram feitos pelo médico Erik Jennings Simões e por Caetano Scannavino, coordenador da ONG Projeto Saúde e Alegria.

Foto aérea da orla de rio

Imagem aérea mostra que em dezembro o rio Tapajós já exibia águas turvas em em Alter do Chão. CRÉDITO,ERIK JENNINGS SIMÕES

Ambos moradores de Santarém, município que engloba Alter do Chão, eles publicaram nas redes sociais no fim de dezembro fotos aéreas que mostravam o Tapajós com águas turvas. As imagens foram feitas de avião por Simões.

Scannavino, que mora na região desde os anos 1980, diz à BBC que nas décadas passadas as águas do Tapajós em Alter do Chão costumavam ficar barrentas por alguns meses ao ano – mas raramente já em dezembro.

O fenômeno é associado ao período de chuvas mais intensas, normalmente entre janeiro e março, quando perde força e as águas voltam a ficar azuladas.

Mas Scannavino diz acreditar que o garimpo está reduzindo a “janela de águas claras” no rio e cita dados sobre a explosão na atividade no Médio Tapajós. Esse aumento, segundo ele, tem sido estimulado por declarações e iniciativas do governo Jair Bolsonaro simpáticas a garimpeiros.

Imagem de satélite

Imagem de satélite mostra encontro entre os rios Tapajós e Crepori em 1984, quando ainda não havia garimpo em grande escala na região. CRÉDITO,GOOGLE

Imagem de satélite

…e em 2020, após o garimpo ilegal criar várias cicatrizes na floresta, ampliando o despejo de lama no Tapajós. CRÉDITO,GOOGLE

Em dezembro, a ONG Greenpeace divulgou o resultado de um monitoramento em rios que cruzam as terras indígenas Munduruku e Sai Cinza e desaguam no Tapajós.

Segundo o levantamento, desde 2016, o garimpo ilegal destruiu 632 quilômetros de rios dentro desses territórios.

O Greenpeace diz que o impacto equivale ao causado pelo rompimento da barragem em Mariana (MG), em 2015, quando 633 quilômetros do rio Doce foram afetados.

O garimpo ilegal está presente no Médio Tapajós desde ao menos os anos 1980. Hoje, porém, a atividade se mecanizou: retroescavadeiras facilitam o revolvimento da terra à margem de rios, abrindo grandes cicatrizes na floresta.

As áreas revolvidas ficam expostas, sem qualquer vegetação. As chuvas então levam a argila do solo para os rios.

Rios de diferentes cores

Mas será que a mesma lama do garimpo estaria por trás das águas turvas do Tapajós em Alter do Chão, distrito que fica a algumas centenas de quilômetros de distância dos garimpos ilegais?

Para o geólogo André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), a mudança na cor das águas pode ter duas explicações.

Foto aérea de praia

Foto mostra águas azuladas do rio Tapajós que renderam a Alter do Chão apelido de “Caribe amazônico”. CRÉDITO,PREFEITURA DE SANTARÉM

Especialista em rios amazônicos, Sawakuchi afirma que há rios na região cujas águas são naturalmente barrentas (ou “brancas”, como se diz na região).

É o caso, por exemplo, do rio Amazonas, onde o próprio Tapajós deságua 30 quilômetros a leste de Alter do Chão.

Mas ele diz que todos os rios naturalmente barrentos da região nascem na cordilheira dos Andes, em áreas de relevo acidentado e pouca cobertura florestal. Quando chove nas cabeceiras desses rios, a argila do solo escorre para as águas, deixando-as turvas.

Há ainda rios amazônicos com águas naturalmente escuras, como o Negro, coloração que se deve à grande quantidade de matéria orgânica que eles acessam nas cheias.

Por fim, há os rios de águas naturalmente claras, que costumam nascer em áreas menos acidentadas, com solo arenoso e pouca argila.

É o caso do Tapajós e de seus afluentes, como o Jamanxim, o Crepori e o Ratão.

Hoje, no entanto, vários desses afluentes apresentam águas turvas o ano todo por causa do garimpo, diz Sawakuchi. O Tapajós também se torna mais turvo nos pontos de contato com esses rios.

Mas o geógrafo afirma que a lama do garimpo tende a decantar no leito do Tapajós antes de chegar a Alter do Chão.

Imagem de satélite

Encontro do Tapajós com o Amazonas quando os dois rios estão com as colorações habituais. CRÉDITO,GOOGLE

Essa lama só poderia chegar a Alter do Chão, diz ele, se houvesse uma diferença entre as vazões do Tapajós e do Amazonas que permitisse à água do Tapajós avançar mais intensamente rumo ao Amazonas.

Por outro lado, um desequilíbrio das vazões em favor do Amazonas poderia fazer com que a água naturalmente barrenta do Amazonas avançasse até Alter do Chão – o que também explicaria a mudança na cor do rio.

“Quando o Amazonas está enchendo, ele invade o Tapajós. Essa invasão começa no período chuvoso (novembro) e pode ser mais ou menos intensa, dependendo da vazão do Amazonas”, diz Sawakuchi.

Neste ano, tanto o Amazonas quanto o Tapajós estão com níveis superiores às suas médias históricas.

Por isso, segundo Sawakuchi, a melhor maneira de determinar a causa da água barrenta no Tapajós em Alter do Chão seria analisar o conteúdo dessa água. Essa análise conseguiria distinguir a argila oriunda do Amazonas da lama proveniente de garimpo, diz o geólogo.

Imagem de satélite

Imagem de satélite mostra águas turvas causadas pelo garimpo no rio Jamanxim desaguando no Tapajós em dezembro de 2021. 

Não há notícias por ora de que alguma instituição ou entidade de governo esteja realizando essa análise.

Mercúrio no sangue

Ainda que a lama do garimpo não esteja chegando a Alter do Chão, uma pesquisa da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) indica que a população de Santarém apresenta altos níveis de mercúrio no sangue – o que pode ser um impacto da mineração ilegal no Tapajós.

Homem em barco no rio Tapajós
O ribeirinho Djalma Moreira Lima mostra água barrenta do rio Tapajós nas proximidades de Santarém, em janeiro. CRÉDITO,DJALMA MOREIRA LIMA/ARQUIVO PESSOAL

Coordenada pela bióloga Heloísa Meneses, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Ufopa, a pesquisa revelou que 80% dos moradores de Santarém têm nível de mercúrio no sangue acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

O estudo já analisou amostras sanguíneas de cerca de 500 pessoas, com idade entre 18 e 80 anos.

Os resultados foram parecidos com os detectados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em um estudo com moradores do Médio Tapajós – esta, sim, uma região diretamente impactada pelo garimpo.

O mercúrio é usado para facilitar a aglutinação do ouro e, levado aos rios, pode contaminar microrganismos e peixes.

Outras possíveis fontes da substância, segundo a pesquisadora, são o desmatamento e as queimadas, que podem “ativar” o mercúrio inorgânico depositado no solo ou fundo dos rios, permitindo sua absorção pela cadeia alimentar.

A população é impactada pela substância principalmente por meio do consumo de peixes contaminados, segundo Meneses. E peixes contaminados numa região de garimpo podem se deslocar vários quilômetros até serem capturados e consumidos – o que põe em risco também moradores de regiões distantes dos pontos de contaminação.

Ela afirma que o mercúrio causa danos ao sistema nervoso central e, em grande quantidade, pode levar à morte. A substância também prejudica coração, rins e fígado, e pode contaminar bebês através da placenta.

Dependência do rio

Para muitos ribeirinhos que vivem à margem do Tapajós, no entanto, deixar de comer peixe não é uma opção.

Morador da comunidade Suruacá, que fica na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, a poucas horas de barco de Alter do Chão, Djalma Moreira Lima diz à BBC que os peixes são a principal fonte de proteína dos moradores locais.

“A nossa subsistência é peixe, mandioca, milho, feijão. A gente sobrevive desses alimentos”, afirma.

Lima diz que o Tapajós tinha águas claras quando ele chegou à região, em 1984.

“Você conseguia enxergar a até dois metros de profundidade. Tinha abundância de peixes, não precisava ir muito longe pra pescar”, diz.

Hoje, porém, afirma que há menos peixes e que o rio ficou “mais seco”. Segundo ele, a “terra que vem do garimpo” se assentou no leito e reduziu a profundidade das águas.

Ele afirma que em setembro, mês de menor vazão do rio, alguns barcos chegam a encalhar – o que não acontecia no passado.

Ele conta que, nos pontos de maior profundidade, o Tapajós costumava ser “quase preto, negro, um rio em que você gostava de tomar banho”, mas diz que hoje se notam “vários pontos brancos” nas águas.

“É como leite no café”, descreve.

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Este texto foi publicado originalmente pela BBC News Brasil [Aqui!].