Bolsonaro e Zé Trovão, quem diria, uma telenovela legitimamente mexicana

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Tenho lido e ouvido incontáveis análises sobre o cenário criado pelas manifestações convocadas pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 7 de setembro e seu desdobramento mais óbvio, o misto de greve e locaute liderada pelo auto proclamado líder caminhoneiro (não sei por quê, mas lembrei aqui do auto proclamado presidente venezuelano Juan Guaidó)  Marcos Antônio Pereira Gomes, mais conhecido como Zé Trovão.

É que o desdobramento acabou resultando em bloqueios de estradas que, indo além das bravatas de palanque, obrigaram um contrito presidente Jair Bolsonaro a fazer um pronunciamento claramente a contragosto via Whatsapp onde pediu a desmobilização da categoria em nome, pasmemos todos, dos mais pobres, apenas para ser vítima de uma paródia impiedosa do humorista Marcelo Adnet (ver vídeo abaixo).

Agora se sabe que Pereira Gomes (a.k.a Zé Trovão), para evitar ser preso pela Polícia Federal, tinha se mandado para o México, pátria de famosos novelões. E de lá Zé Trovão foi do céu ao purgatório, visto que pode notar o seu lento abandono por parte do presidente da república, algo que já tinha ocorrido com outras figuras que se arvoraram a ser as mãos que transformariam os discursos de Jair Bolsonaro em ações reais, apenas para serem deixados ao léu.

Eu diria que, ao contrário de muitos analistas engalonados, eu modesto vejo que o presidente Bolsonaro acabou sendo enredado na teia que ele mesmo criou, pois agora se arrisca a perder o apoio de um grupo com conhecida capacidade de circulação não apenas de bens e mercadorias, mas também de conteúdos produzidos para acirrar a disputa política no Brasil. Esse desdobramento, convenhamos, promete abrir mais capítulos na telenovela mexicana em que acabamos enfiados nas últimas semanas.

Finalmente, vamos se daqui a pouco não aparece a Ana Raio para tentar salvar o Zé Trovão. É que tudo indica que se depender de Bolsonaro, Zé Trovão vai tomar o raio.

Quem ainda se surpreende com a existência de pessoas de extrema-direita nunca estudou a história brasileira

extrema direita

Uma das consequências mais comuns do pós atos pró-governo Bolsonaro é o uso das redes sociais e grupos de Whatsapp para as pessoas demonstrarem sua indignação e estupefação (sentimento mais frequente) em relação À existência de um segmento pequeno, mas não desprezível, da população brasileira que abraça o ideário de extrema-direita do presidente da república e sua entourage familiar.

Aos que sejam possuídos pelo sentimento de estupefação, sugiro respeitosamente que comecem a ler livros sobre a formação histórica do Brasil, a partir dos olhares de Caio Prado Junior, Nelson Werneck Sodré e Florestan Fernandes. É que se não entendermos minimamente como se deu a evolução da formação política do Brasil, continuaremos sendo surpreendidos sem nenhuma razão pelos atos bolsonaristas.

O fato inescapável é que a história brasileira é assentada sobre o uso da violência extrema por uma minoria privilegiada contra a maioria, inicialmente os povos originários e depois os africanos escravizados. Além disso,  ao longo de 521 anos de história, nunca houve uma ruptura com os alicerces da sociedade escravocrata que deu origem ao Brasil independente.

Por fim, eu insisto que não há motivo para surpresa, mas seguiremos sendo surpresos se ignorarmos os elementos estruturais que explicam a existência dessa minoria que se caracteriza pelo desprezo completo pela construção de uma sociedade menos desigual e menos injusta. E, me perdoem os que veem nele uma espécie de candidato a “Führer” brasileiro, mas Jair Bolsonaro é apenas a face da hora dos membros de uma extrema-direita que possui completa ojeriza à maioria do povo brasileiro.

Se intenção dos atos bolsonaristas deste 7 de Setembro era mostrar força, terminaram por revelar isolamento e fragilidade

brasil hoje

Salvo algum acontecimento trágico ao longo deste 7 de Setembro, os atos promovidos preparados pelos segmentos que orbitam em torno do presidente Jair Bolsonaro foram desenhados para mostrar força e disposição para enfrentar um quadro político extremamente negativo, mas, em minha opinião, terminam por revelar isolamento e fragilidade. As cenas caóticas ocorridas na noite de ontem na entrada da Esplanada dos Ministérios (ver vídeo abaixo) são mais uma demonstração de permissividade da Polícia Militar e do governador do Distrito Federal (que teria ido passar o feriado no seu estado natal do Piauí)  do que força da militância bolsonarista. É que se fossem professores fazendo o que os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, a resposta teria sido, digamos, mais firme.

Mas o que efetivamente Jair Bolsonaro sai ganhando se o que tivermos hoje em Brasília e em outras capitais brasileiras for a presença de pessoas brancas (uma grande parte composta por idosos) e que só mostram valentia porque sabem que não serão duramente reprimidas pelas forças policiais?

Aliás, há que se lembrar que o militante bolsonarista típico está acostumado a que o Estado exerça a violência em seu nome, de modo a garantir a persistência de um padrão de forte desigualdade econômica e social.  Assim, se essa for a base social com que Jair Bolsonaro pretende se manter no poder, se o jogo que vivemos fosse de pôquer, a mão dele seria claramente fraca.

Além disso, ainda que sejamos quase que um simulacro de regime democrático, esses atos não vão aumentar o apoio político dentro do congresso nacional ou, tampouco, vão parar as investigações policiais que estão cada vez mais próximas dos filhos de Jair Bolsonaro.

A mídia corporativa já até noticiou que entidades representativas de caminhoneiros entrarão com processos judiciais contra o presidente Jair Bolsonaro por buscar associar a categoria aos seus devaneios antidemocráticos, demonstrando a diminuição de sua base política.  Mas no caso dos caminhoneiros, esta falta de apoio já estava evidente após a entrada de um poucos caminhões estalando de novos na região da Esplanada dos Ministérios na noite de ontem.

Por outro lado, as análises aqui postas podem se mostrar precoces, caso algum tipo de invasão ocorra nas dependências do Congresso Nacional ou do Supremo Tribunal Federal. É que uma invasão acontecer, a situação política vai assumir outro ritmo, sem que isso signifique nada de bom para Jair Bolsonaro.

Cenas da 25a. edição do “Grito dos Excluídos”

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Apesar das dificuldades criadas pela pandemia da COVID-19 para a ocorrência de aglomerações humanas (que não seja aquelas vistas nas praias cariocas e paulistas, quer dizer), hoje ocorreu mais uma edição do “Grito dos Excluídos” que é realizado pelo Brasil afora desde 1995 (ver imagens abaixo).

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Essa ação organizada por movimentos que contaram com a participação de ativistas e lideranças políticas é uma clara sinalização de que há em curso a construção de uma forte oposição às políticas ultraneoliberais do governo Bolsonaro/Guedes, o que deverá ficar mais evidente após a pandemia da COVID-19.

Jair Bolsonaro, um mestre predigistador, em (en) cena no 7 de Setembro da COVID-19

Neste dia 7 de Setembro, com o Brasil tendo ultrapassado 126 mil mortos por COVID-19, o presidente Jair Bolsonaro pôs novamente o seu show na Esplanada dos Ministérios, com direito a caminhada sem máscara com crianças.  Mas ele e sua equipe também abusaram dos ângulos fechados para mostrar o encontro, onde também não portava máscara, com um punhado pequeno de apoiadores sob a desculpa de celebrar o dia da Independência.

Mas as imagens abaixo mostram que esse encontro não passou de mais um truque de ilusão, pois o que no ângulo parecia massivo, do alto se revelou uma reunião de poucos, ainda que apaixonados apoiadores.

bolso 2 tempos

O problema para o presidente Jair Bolsonaro é que com o preço de 5 Kg de arroz ultrapassando R$ 40,00 na maior parte do Brasil, ele precisará mais do que truques de mágica para continuar governando sob risco de sair de cena de forma inglória.

E não nos esqueçamos que no ritmo que anda o Brasil ainda conviverá com a COVID-19 até que haja a aplicação em massa de uma vacina que ainda está por vir. Até lá continuaremos contando os mortos e ouvindo a negação cada vez mais insustentável de que a COVID-19 não passa de uma “gripezinha”.