Estudo mostra que uso de agrotóxicos afetou sistema imunológico de agricultores gaúchos

The food scientist checks the potato for chemicals and pesticides. Study quality of soil and crop. Growing organic vegetables. Eco-friendly products. Pomology. Agriculture and farming. GMO test.

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Um estudo que acaba de ser publicado pela revista Environmental Science and Pollution Research traz resultados preocupantes sobre os impactos trazidos um coquetel de agrotóxicos sobre o sistema imunológico dos agricultores familiares que o utilizam.  Um questionário foi elaborado para coletar dados como informações sociodemográficas dos participantes, hábitos e condições de saúde, dados ocupacionais e de manejo de pesticidas e percepção de risco. Um aspecto inovador da pesquisa foi o uso de biomarcadores para estabelecer potenciais mudanças no sistema imunológico dos agricultores em função da exposição intensiva e continuada a agrotóxicos altamente tóxicos.

O artigo intitulado “Exposição ocupacional de trabalhadores rurais a agrotóxicos em região produtora de hortaliças do Brasil” é de autoria de pesquisadores ligados a três instituições de ensino superior gaúchas conduziram o estudo na principal área de produção de batata do Rio Grande do Sul e detectaram o uso de  agrotóxicos pertencentes a grupos químicos como piretróides (inseticidas), triazóis e etileno-bis-ditiocarbamatos (fungicidas) e bipiridílios (herbicidas) (ver figura abaixo).

rs potato

Os agrotóxicos identificados como sendo os mais utilizados na área estudada já foram documentados na literatura científica como estando associados ao surgimento de várias doenças por meio da exposição cumulativa devido à sua neurotoxicidade e sua capacidade de induzir o estresse oxidativo. No caso especíico do herbicida Paraquat, o mesmo pode participar ativamente dos mecanismos de indução do estresse oxidativo por meio do consumo de NADP, o que aumenta consideravelmente a concentração de ROS, precursores de lipoperoxidação e níveis de malondialdeído (MDA), conhecidos por causar distúrbios no metabolismo celular . Outros estudos experimentais também sugeriram que piretróides sintéticos e etileno-bis-ditiocarbamatos podem atuar como desreguladores endócrinos  e os etileno-bis-ditiocarbamatos também podem levar à toxicidade crônica da tireóide. Finalmente, os fungicidas triazólicos têm efeitos de interferência hormonal e, acima de tudo, são altamente tóxicos para os humanos devido à clastogênese (i.e., mutação gênica).

É interessante notar que mais de 100 agrotóxicos (na verdade, o site da ANVISA mostra que o total oficial chega a 124) estão autorizados para uso apenas nessa cultura em todo o território brasileiro.

As mudanças observadas no organismo dos agricultores incluíram o aumento dos níveis de TBARS e da proteína carbonilada, e a diminuição do nível de GSH. Também foi observada uma diminuição da atividade enzimática de BuChE, SOD, CAT, GR e GPx, bem como expressão irregular dos biomarcadores imunológicos IL-8 e IL-10. Os autores apontam que todos esses sinais indicam uma a perda iminente da função dos mecanismos de defesa, tanto antioxidantes quanto imunológicos, que podem desencadear efeitos adversos no sistema imunológico desses indivíduos.

Os autores concluíram que os agricultores familiares estudados estão expostos a múltiplos agrotóxicos e podem apresentar alterações bioquímicas e imunológicas em seus organismos.  Porém,  foi observado a presença de um alto desconhecimento e baixa percepção dos riscos à saúde causados ​​pelos agrotóxicos, bem como a falta de orientação para o manuseio correto dos agrotóxicos e, principalmente, o uso inadequado de EPIs. Tais aspectos indicam que estes agricultores familiares vivem em alto grau de vulnerabilidade, não só pela possibilidade de desenvolver doenças crônicas associadas à intoxicação, mas também pela maior probabilidade de sofrer acidentes de trabalho, como intoxicações agudas.

Conflito agrário no Porto do Açu: até hoje faltavam os presos políticos, agora não mais

A criação deste blog em meados de 2011 foi bastante motivada pelo escabroso processo de desapropriações promulgadas pelo (des) governo de Sérgio Cabral em prol do conglomerado de empresas pré-operacionais do ex-bilionário Eike Batista.  Durante o auge daquele rumoroso processo não faltaram cenas de agricultores sendo submetidos a situação constrangedoras nas mãos de policiais militares que davam apoioao aos oficiais de justiça encarregados de cumprir os mandados de imissão de posse (ver imagem abaixo de um desses casos).

PRISÃO AÇU

Entretanto, as situações constrangedoras e prisões que ocorreram no período que marcou o auge das desapropriações não tiveram a mesma envergadura que marca a prisão dos agricultores Vilson  e Vitor Almeida e do militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), David Wigg Mendonça. É que diferente do período, os três foram mantidos presos, mesmo após a finalização da reintegração de posse decidida pelo juiz Paulo Maurício Simão Filho da 1a. Vara Cível de São João da Barra.

Esseas prisões têm uma clara conotação política no sentido de intimidar e conter a revolta existente no V Distrito de São João da Barra contra os abusos cometidos contra centenas de famílias de agricultors pobres. Nesse sentido,  temos a primeira instância de prisões políticas no âmbito desse processo inconcluso de tomada de terras para fins até agora meramente especulativos.

Chamo a atenção em particular para o caso do Sr. Vilson Almeida (imagem abaixo) que é o real proprietário da área que foi reintegrada no dia de ontem sob a força de numerosa guarnição militar e com a presença ostensiva de seguranças privados de empresa contratada pela atual controladora do Porto do Açu, a Prumo Logística Global. É que o Sr. Vilson Almeida é uma pessoa bastante respeitada pela comunidade, e sua prisão certamente aumentará o grau de inconformismo já existente em relação às desapropriações promovidas pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (Codin) para beneficiar inicialmente Eike Batista e agora o fundo de “private equity” EIG Global Partners.

VILSON

Estas prisões foram tão emblemáticas que estão alcançando uma repercussão em nível nacional, o que não deixa de ser mais um ineditismo no conflito agrário que vem marcando a implantação do Porto do Açu [Aqui!,  Aqui!Aqui! e Aqui!].

Uma coisa que sempre me intriga é sobre como reagiriam empresas multinacionais, cujos sistema de governança corporativa vedam a interação com empreendimentos marcados pelo tipo de conflito social ocorrendo no Porto do Açu, se fossem convidados a vir investir neste empreendimento. Pelo pouco que sei dessa seara, simplesmente não viriam. Se isto for mesmo o caso, é provável que estas prisões políticas acabem se transformando num imenso tiro pela culatra por parte de quem as idealizou. A ver!

Conflito agrário do Porto do Açu: juiz indefere pedido de reintegração e marca audiência de conciliação

Num desdobramento que eu considero histórico, o juiz Paulo Maurício Simão Filho indeferiu o pedido de reintegração de posse movido pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (Codin) e pelas empresas Grussai Siderúrgica Açu e Porto do Açu Operações S/A contra agricultores do V Distrito de São João da Barra (Aqui!  e Aqui!) (ver íntegra da decisão abaixo).

A decisão em sí é de extremo valor porque o juiz Paulo Maurício Simão Filho pontua uma série de elementos que serve para colocar em xeque não apenas a necessidade da reintegração em caráter de urgência, mas como o próprio processo de expropriação de terras que foi realizado pelo  ex (des) governador Sérgio Cabral Filho em prol do ex-bilionário Eike Batista, ambos hoje hóspedes do complexo prisional de Bangu.

Em termos de elementos mais candentes a serem ainda resolvidos pelos peticionários do processo de reitegração estão  a necessidade de que apresentem em audiência, o “uso efetivo e potencial para o empreendimento efetivamente instalado na área reocupada pelos agricultores, bem como “a necessidade de apresentar um croqui da área e sua distância até o local onde instalado o Porto do Açú“. Além disso, o juiz Paulo Maurício Simão Filho determinou aos peticionários que apresentem “plano objetivo de exploração da área desapropriada“. 

Essas determinações são um verdadeiro desafio, eu diria quase impossível de ser cumprido. Por que? Basta visualizar as imagens abaixo da área para se verificar que passados mais de 6 anos da realização da expropriação da propriedade, nada foi feito para comprovar a necessidade da área para construção do empreendimento. Além disso, provar que existem planos de objetivos de uso, além de deixar o capim crescer, me parece ainda mais inviável.

Como essa decisão pode ainda ser agravada, pode ser que tenhamos uma mudança em relação à realização da audiência de conciliação determinada pelo juiz Paulo Maurício Simão Filho. Mas entendo que dado o inteiro teor de sua decisão e a promoção realizada pelo Ministério Público Estadual, as chances da decisão ser agravada são pequenas.

Ponto para a legítima luta dos agricultores do V Distrito de São João da Barra que apenas querem de volta o que é seu por direito.

Agricultura orgânica: uma necessidade para as futuras gerações que é negada aos brasileiros todos os dias

Estando em Paris por uns dias, tive hoje a oportunidade de visitar uma das muitas feiras livres que ocorrem na cidade ao longo da semana, onde se vende todo tipo de alimento, inclusive orgânicos. Essa opção pela agricultura orgânica não é apenas um modismo como muitos podem sugerir, pois decorre do aumento da conhecimento científico que é assimilado por parcelas da população de que a agricultura da “Revolução Verde” está criando uma série de doenças com as quais ainda teremos muitas consequências nefastas para as atuais e futuras gerações.20150912_11291420150912_112925

Agora, uma coisa que não se pode deixar de notar é que enquanto nos países centrais há uma claro avanço na demanda por alimentos saudáveis, o Brasil continua aprofundando a opção pelo uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo para sustentar a agricultura ligada ao latifúndio agroexportador.

E no plano regional, não posso deixar de lamentar que haja tão pouco apoio público à agricultura familiar para que essa pudesse se concentrar na construção de uma agricultura que possa produzir alimentos saudáveis. Aliás, se tomarmos o exemplo do tratamento dado aos agricultores do V Distrito, tem governante que acha que comida é algo que surge do nada.