Ogronegócio: Marina Silva usa audiência para tirar a máscara de modernidade do latifúndio agro-exportador

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A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, prestou um grande serviço para o Brasil ao usar ao utilizar a expressão “ogronegócio” para explicar as recentes decisões anti-ambientais tomadas pelo congresso nacional sob impulso da chamada bancada ruralista, também conhecida como Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).  Ainda que não tenha não tenha cunhado o termo, ela nos brindou com o uso dessa definição perfeita do latifúndio agro-exportador em uma audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados no último dia 24/5.

Ainda que Marina Silva tenha tentado contemporarizar ao afirmar que só uma parte do latifúndio agro-exportador age como “ogronegócio”, a verdade é que raros são raros os exemplos de grandes produtores rurais que adotam práticas sustentáveis. A imensa maioria gosta mesmo é desmatamento e agrotóxicos em suas propriedades, onde frequentemente ainda se encontra a prática hedionda do trabalho escravo. Por isso, não há nada disso de “agro”, pois o negócio desse pessoal é mesmo o “ogronegócio”.

E ainda há que se enfatizar que o “ogronegócio”  não sobreviveria sem os polpudos subsídios governamentais que chegam todos os anos para alimentar uma pauta de exportação que acaba servindo como ração animal em outras partes do mundo. Produzir alimentos mesmo é com a agricultura familiar que nem uso os mesmos métdos, nem, tampouco, recebe os bilhões de reais em subsídios que são dados anualmente para o “ogronegócio” continuar sua forma desastrosa de agricultura.

UE envia grandes quantidades de agrotóxicos proibidos por matar abelhas para países mais pobres, revelam documentos

Uma nova investigação mostra pela primeira vez a escala total do comércio de produtos químicos neonicotinóides da UE, rotulada como uma ameaça global à biodiversidade e à segurança alimentar

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Por Crispin Dowler (Unearthed) / Laurent Gaberell (Public Eye)

A União Européia (UE) está exportando mais de 10.000 toneladas de agrotóxicos neonicotinóides “matadores de abelhas” por ano para os países mais pobres, apesar de ter proibido o uso desses produtos químicos em seus próprios campos para proteger os polinizadores.

Essa é a principal descoberta de uma nova investigação da Unearthed and Public Eye, que revela pela primeira vez a escala total do comércio contínuo da Europa de agrotóxicos ‘neônicos’ proibidos.

Documentos obtidos sob as leis de liberdade de informação mostram que em 2021 as empresas da UE emitiram planos para exportar mais de 13.200 toneladas de inseticidas proibidos contendo cerca de 2.930 toneladas dos ingredientes ativos neonicotinóides thiamethoxam, imidacloprid ou clotianidina.

Esta é a primeira vez que foi possível rastrear um ano inteiro dessas exportações desde que a UE proibiu todo o uso externo desses produtos químicos em suas próprias fazendas em 2018.

Cientistas e ativistas descreveram a escala do comércio como “espantosa” e pediram o fim imediato das exportações “inaceitáveis ​​e imorais” da UE de pesticidas proibidos para uso na UE.

A Unearthed e a Public Eye identificaram 17 empresas envolvidas na exportação de neônicos proibidos da UE, sendo de longe o maior exportador a Syngenta, gigante chinesa de agrotóxicos com sede na Suíça. As exportações planejadas pelas subsidiárias da Syngenta representaram mais de três quartos do total da UE e incluíram uma exportação para o Brasil de inseticida suficiente para pulverizar toda a superfície da Nova Zelândia. 

A maior parte das exportações de neônicos proibidos da UE – 86% em peso – foi destinada a países de baixa ou média renda (LMICs), onde as agências da ONU dizem que o uso perigoso de agrotóxicos tende a representar os maiores riscos.

De longe, o maior desses importadores foi o Brasil, um país que abriga até 20% da biodiversidade restante do mundo . Mas as empresas também emitiram planos para exportar para dezenas de outros países de baixa e média renda, incluindo Ucrânia, Indonésia, África do Sul e Argentina.

“A humanidade depende do equilíbrio ecológico, da manutenção da biodiversidade e da saúde das pessoas em todos os países”, disse Karen Friedrich, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituto de pesquisa em ciência, tecnologia e saúde do Brasil. “Portanto, além de injusta, a exportação de agrotóxicos proibidos em seu território é imprudente, porque o prejuízo também será sentido na União Europeia.”

Na Argentina, um dos cinco principais destinos das exportações neônicas proibidas da UE, os apicultores estimam que perderam 30% de suas colméias na última década. A Sociedade Argentina de Apicultores (SADA, de suas iniciais em espanhol) pediu à UE que “interrompa imediatamente a produção desses produtos químicos altamente perigosos”.

“Consideramos um ato de agressão, de ecocídio e uma violação dos direitos humanos vender substâncias tóxicas e altamente perigosas para a saúde humana e insetos polinizadores”, afirmou.

O secretário da SADA, Pedro Kaufmann, disse ao Unearthed e ao Public Eye. Os neonicotinoides, acrescentou, são uma “séria ameaça à nossa segurança alimentar” que estão “devastando a população mundial de polinizadores” e causando danos ambientais “de uma magnitude ainda difícil de compreender”.

©hpgruesen / Pixabay

Declínio mundial

Mais de três quartos dos principais tipos de culturas alimentares do mundo dependem de polinizadores, principalmente insetos. Este ano, os cientistas publicaram um estudo estimando que a perda global de populações de polinizadores já está causando cerca de meio milhão de mortes prematuras anualmente, reduzindo o fornecimento de alimentos saudáveis.

A própria UE considera que os neônicos representam uma ameaça tão grave à biodiversidade e à segurança alimentar que acaba de aprovar uma lei que proibirá a importação de alimentos que contenham apenas os menores vestígios detectáveis ​​de tiametoxam ou clotianidina. Essa lei, aprovada em fevereiro, diz que há “um corpo substancial de evidências mostrando que substâncias ativas que são neonicotinóides, como clotianidina e tiametoxam, desempenham um papel importante no declínio de abelhas e outros polinizadores em todo o mundo”.

Por se tratar de uma “preocupação internacional”, continua, a UE precisa tomar medidas para proteger os polinizadores em todo o mundo dos riscos desses produtos químicos: “Preservar a população de polinizadores apenas dentro da [UE] seria insuficiente para reverter o declínio mundial de polinizadores populações e seus efeitos sobre a biodiversidade, produção agrícola e segurança alimentar”.

Apesar de sua posição, a UE continua a enviar milhares de toneladas desses mesmos neônicos proibidos para o exterior a cada ano.

De acordo com a legislação atual da UE, quando o uso de um produto químico é proibido devido ao risco que representa para a saúde ou o meio ambiente, as empresas permanecem livres para fabricá-lo e enviá-lo para países com regulamentações mais permissivas.

A Comissão Europeia lançou este mês uma consulta sobre possíveis medidas para garantir que “produtos químicos perigosos proibidos na União Europeia” não sejam mais “produzidos para exportação”.

Ao lançar a consulta , o comissário de meio ambiente Virginijus Sinkevičius disse que a UE “não seria consistente em sua ambição de um ambiente livre de tóxicos se produtos químicos perigosos que não são permitidos para uso na UE ainda pudessem ser produzidos aqui e depois exportados”. Esses produtos químicos, acrescentou, “podem causar os mesmos danos à saúde e ao meio ambiente, independentemente de onde sejam usados”.

A Comissão se comprometeu em 2020 a apresentar propostas concretas para acabar com essa prática, logo após a publicação de uma investigação anterior da Unearthed e da Public Eye sobre as exportações proibidas de pesticidas.

No entanto, a estratégia enfrenta forte oposição do lobby químico , e os ativistas temem que as propostas cheguem tarde demais para serem transformadas em lei antes das próximas eleições europeias em 2024. Também não está claro qual será o escopo das propostas da Comissão.

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Eurodeputados verdes em um die-in de abelhas e apicultores em frente ao Parlamento Europeu em Bruxelas (2014).

A investigação da Unearthed and Public Eye identificou mais de uma dúzia de empresas diferentes que exportam neônicos proibidos da UE, incluindo as gigantes multinacionais de pesticidas Syngenta, Bayer e BASF. Aqueles que comentaram esta história disseram acreditar que seus produtos eram seguros para as abelhas quando usados ​​como pretendido, que os pesticidas eram vitais para proteger o rendimento das colheitas e que, embora esses neônicos tenham sido proibidos na UE, eles permaneceram licenciados em muitos países ao redor do mundo.

Alguns também disseram que a proibição da exportação de pesticidas proibidos seria “contraproducente” ou argumentaram que os países deveriam ser livres para tomar suas próprias decisões sobre quais produtos químicos são adequados para seus próprios agricultores.

“Em nossa opinião, os países devem decidir por si mesmos e soberanamente quais produtos de proteção de cultivos são necessários para sua agricultura local, em vez de impor uma proibição unilateral do comércio”, disse um porta-voz da gigante agroquímica alemã BASF. “Acreditamos que uma proibição de exportação não ajuda aqueles que se destina a proteger.”

Ele argumentou que a falta de pesticidas “cuidadosamente testados” nos países importadores poderia levar a “colheitas inseguras” para os agricultores. Por outro lado, ele acrescentou que se a Europa proibisse essas exportações, os agricultores dos países importadores poderiam simplesmente substituí-los por “produtos iguais ou similares” produzidos em outros lugares com “padrões de segurança mais baixos”.

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Ativistas em países importadores responderam que uma proibição de exportação europeia enviaria um “sinal muito importante”, criando pressão para que outras nações exportadoras seguissem o exemplo. Eles também argumentaram que os países importadores do Sul Global geralmente não estavam em uma posição forte para avaliar e gerenciar os perigos de pesticidas perigosos.

“Infelizmente, os LMICs muitas vezes carecem de recursos para avaliar e promulgar regulamentos para proibir esses pesticidas”, disse Sarojeni Regnam, diretor executivo do grupo de campanha Pesticide Action Network Asia Pacific. “Ou mesmo que sejam banidos, eles não têm a capacidade de monitorar e aplicar essas proibições. Esses pesticidas perigosos são usados ​​principalmente por agricultores e trabalhadores agrícolas em condições de pobreza e [que têm] falta de consciência de seus perigos”.

‘Colonialismo químico’

A Unearthed and Public Eye descobriu que a Syngenta notificou exportações de mais de 10.400 toneladas de inseticidas à base de tiametoxam da UE em 2021, para 61 países diferentes.

No entanto, mais da metade desse peso veio de uma única exportação planejada para o Brasil de 5,9 milhões de litros do agrotóxico de grande sucesso da empresa Engeo Pleno S  o suficiente para pulverizar toda a superfície da Nova Zelândia. Uma investigação anterior da Unearthed e da Public Eye descobriu que os inseticidas à base de tiametoxam eram de longe os mais vendidos da Syngenta no Brasil, com vendas superiores a US$ 200 milhões em 2018.

O Brasil abriga algumas das áreas de maior biodiversidade do mundo, mas enormes plantações de soja, milho e cana-de-açúcar voltadas para a exportação o transformaram no maior mercado mundial de pesticidas altamente perigosos.

“Enquanto o colonialismo clássico foi conduzido por meio da violência física, como desmatamento, expulsão de povos indígenas e assim por diante, agora estamos diante de uma forma mais cruel e perversa de colonialismo”, disse Larissa Bombardi, professora de geografia da Universidade de São Paulo. e especialista no uso de agrotóxicos no Brasil. “Porque esse colonialismo químico é invisível, silencioso e se espalhou em nossos solos, em nossos corpos, em nossas águas.”

Ela acrescentou que as abelhas estão morrendo no Brasil, e isso indica que “outros polinizadores também estão morrendo”: “Essa é uma das principais ameaças à nossa biodiversidade”.

Durante um período de cinco anos até o final de 2017, os apicultores que responderam a uma pesquisa online relataram a perda de 19.296 colônias e ninhos em todo o Brasil, representando a morte de mais de um bilhão de abelhas. Em 2019, a BBC relatou a morte de mais de 500 milhões de abelhas no Brasil em apenas três meses, com pesquisadores culpando a exposição a neonicotinoides e ao inseticida fipronil. 

Um estudo científico publicado no início deste ano descobriu que as espécies nativas de abelhas sem ferrão do Brasil podem ser ainda mais sensíveis ao tiametoxam do que as abelhas produtoras de mel.

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Um silo de soja em Tibagi, Paraná (Brasil). O Brasil foi o principal destino das exportações da UE de neonicotinoides proibidos em 2021

Um porta-voz da Syngenta disse: “Nossos produtos são seguros e eficazes quando usados ​​conforme pretendido. Onde quer que operemos, fazemos isso em total conformidade com as leis e regulamentos locais.”

Ele acrescentou: “Embora alguns de nossos produtos possam não estar registrados para uso na UE, eles são avaliados quanto à segurança, registrados e permitidos nos países onde foram aprovados para importação, refletindo as diferentes condições climáticas, pressão de pragas e doenças e agricultores ‘ precisar.”

Sexta extinção em massa

Muitas das empresas que exportam produtos neônicos proibidos da UE disseram à Unearthed and Public Eye que acreditavam que seus produtos poderiam ser usados ​​sem riscos inaceitáveis ​​para as abelhas, e que diferentes países tinham diferentes climas e pragas, exigindo diferentes pesticidas.

Entre eles estava o gigante agroquímico alemão Bayer, o principal exportador da UE dos neonicotinóides clotianidina e imidaclopride. A Bayer notificou as exportações de produtos proibidos contendo esses produtos químicos para 51 países diferentes em 2021, incluindo Ucrânia, Indonésia, Guatemala, Togo e Quênia.

“A Bayer está comprometida com o uso seguro e sustentável de seus produtos e os neonicotinóides têm uma longa história de uso seguro se usados ​​de acordo com as instruções do rótulo”, disse um porta-voz da Bayer. “Eles estão entre as substâncias mais intensamente pesquisadas no mundo.”

Ele sugeriu que as diferentes “classificações de segurança” atribuídas a inseticidas em diferentes partes do mundo refletem “as necessidades locais dos agricultores” e acrescentou que a Bayer apóia “processos de aprovação que seguem altos padrões científicos”.

Mas especialistas científicos sobre o impacto dos pesticidas na biodiversidade rejeitaram a sugestão de que esses neônicos poderiam ser usados ​​com segurança. 

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A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação alertou que o declínio nas populações de abelhas e polinizadores ligados ao uso de pesticidas representa uma ameaça à segurança alimentar global.

Jean-Marc Bonmatin, especialista em exposição a pesticidas no Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica e vice-presidente da Força-Tarefa de Pesticidas Sistêmicos, disse que a ameaça representada pelos neonicotinóides aos polinizadores é “enorme”.

“É semelhante em intensidade à mudança climática, em termos de seus impactos, e está progredindo ainda mais rapidamente”, disse ele à Unearthed e ao Public Eye. O declínio dos polinizadores precisava ser abordado em “escala global”, sem esquecer que muitas vezes são “os países mais pobres os reservatórios mais ricos de biodiversidade”. “Embora existam muitas causas para o colapso dos polinizadores, os pesticidas têm uma grande parcela de responsabilidade – os neonicotinóides em particular. A questão não é mais listar todas as causas do declínio, mas agir com rapidez e força para limitar sua extensão”.

O professor de biologia da Universidade de Sussex, Dave Goulson, especialista em ecologia de insetos, disse que o mundo “já estava no sexto evento de extinção em massa, com espécies extintas em mais de 1.000 vezes a taxa natural”.

A menos que levemos esta crise a sério, acrescentou, “enfrentamos um colapso dos ecossistemas globais”.

Ele disse ao Unearthed and Public Eye que havia “muitas centenas de estudos científicos mostrando que os neonicotinóides ameaçam polinizadores e ecossistemas inteiros” e que era “absolutamente inaceitável e imoral” que a UE continuasse exportando neônicos proibidos para países mais pobres.

“Se os neonicotinóides são muito perigosos para usar na Europa, eles são muito perigosos para usar em qualquer lugar. Muitos desses países têm uma biodiversidade muito maior do que a Europa”.

Ele acrescentou que as quantidades de neônicos proibidos sendo exportados da UE eram “surpreendentes”. A Unearthed and Public Eye descobriu que os inseticidas agrícolas notificados para exportação da UE em 2021 continham cerca de 2.930 toneladas dos ingredientes ativos neônicos proibidos thiamethoxam, imidacloprid ou clotianidina. “O pico de uso de neonicotinoides no Reino Unido antes da proibição era de 110 toneladas por ano, o que foi suficiente para impactar borboletas e abelhas selvagens”, disse Goulson.

Planos para proibições

Atualmente, a principal lei da UE que regula a exportação de produtos químicos proibidos é o regulamento de “consentimento prévio informado”. De acordo com essa lei, as empresas da UE precisam emitir uma “notificação de exportação” para o país importador sempre que pretenderem exportar um produto que contenha pesticidas proibidos.

Esses documentos detalham a quantia que a empresa pretende enviar, os motivos pelos quais o produto é proibido na UE e seu uso pretendido no país de destino. 

O objetivo é permitir que as autoridades dos países importadores tomem uma decisão “informada” sobre se desejam aceitar a exportação.

As notificações de exportação não são um registro perfeito: se uma exportação for aprovada, a empresa fica livre para embarcar mais ou menos do que o declarado na notificação e, às vezes, a exportação não ocorre. Mas eles são a trilha de papel mais precisa que existe para o comércio da UE de pesticidas proibidos.

Os neônicos proibidos ficaram sujeitos às regras do PIC no final de 2020. Durante sete meses no ano passado, usando solicitações de liberdade de informação, Unearthed e Public Eye conseguiram obter todas as notificações emitidas na UE para exportações neônicas proibidas em 2021.

Este é o primeiro ano completo para o qual esses dados estão disponíveis.

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A investigação identificou 13 países diferentes em toda a UE que emitiram notificações de exportação para produtos neônicos proibidos em 2021, mas de longe os maiores exportadores por peso planejado foram Bélgica, França, Espanha e Alemanha. Outros países que desempenharam um papel significativo no comércio naquele ano foram Holanda, Áustria, Hungria, Grécia e Dinamarca.

Porta-vozes dos governos dos países exportadores, incluindo Bélgica, França, Alemanha, Holanda e Dinamarca, disseram à Unearthed que apoiavam a proibição da UE da produção de pesticidas proibidos para exportação.

“A aplicação europeia da proibição de clotianidina, imidacloprida e tiametoxam foi um passo importante para a proteção dos polinizadores”, disse um porta-voz do ministério federal alemão de alimentação e agricultura. “No entanto, mais esforços serão necessários para cultivar de maneira mais conservadora no futuro.”

Alguns desses países já começaram a tomar medidas para reprimir essas exportações em nível nacional. Em 2022, a França se tornou o primeiro país da UE a impor uma proibição nacional à exportação de pesticidas proibidos. Uma investigação anterior da Unearthed and Public Eye descobriu que as exportações francesas de neonicotinóides caíram drasticamente em resposta, mas não foram totalmente interrompidas. A Bélgica e a Alemanha também estão no processo de instituir proibições de exportação para certos pesticidas proibidos, embora a proibição alemã se concentre naqueles pesticidas prejudiciais à saúde humana.

No entanto, outros países disseram ao Unearthed e ao Public Eye que o problema precisava ser resolvido em nível da UE, ou as empresas simplesmente seriam capazes de mudar suas exportações para outros estados membros em resposta às proibições nacionais. “Uma proibição nacional teria apenas um efeito limitado”, disse um porta-voz do ministério holandês de infraestrutura e gerenciamento de água. “Correria o risco de apenas mudar o porto de partida, em vez de encerrar a exportação como tal. “Portanto, a Holanda apoia fortemente medidas em toda a UE, pois tais medidas seriam muito mais eficazes.”

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No total, 17 empresas diferentes emitiram notificações de exportação de neônicos proibidos naquele ano, com o peso planejado totalizando 13.274 toneladas. O peso estimado dos princípios ativos neonicotinoides nessas exportações foi de 2.930 toneladas.

Cruzamos esses números com dados de exportação de resumo público, sempre que possível, para confirmar que eles se correlacionam em escala geral. A quantidade total de neônicos exportados da UE em 2021 foi maior do que a quantidade identificada em nossa investigação, principalmente porque nossa investigação se concentrou apenas em produtos exportados para fins agrícolas proibidos. Outros produtos neônicos são exportados para fins que ainda são legais na UE, como coleiras antipulgas imidacloprida. Excluímos essas notificações de exportação de nossos cálculos e nos concentramos apenas nas exportações de produtos proibidos de uso na UE.

As cinco principais empresas exportadoras foram responsáveis ​​por 95% das exportações de neônicos agrícolas em peso. De longe, a maior delas foi a Syngenta, que sozinha respondeu por 79%.

Outras empresas entre as cinco primeiras incluem as multinacionais alemãs Bayer e BASF, a empresa norte-americana de pesticidas Gowan e uma empresa holandesa chamada Broekman Logistics, que administra um depósito de produtos perigosos no porto de Roterdã.

Todas as exportações organizadas por Broekman, que não respondeu aos pedidos de comentários, eram produtos da Syngenta ou remessas de tiametoxam puro, o ingrediente ativo dos neônicos proibidos da Syngenta.

Um porta-voz de Gowan disse que não exportou nenhum neônico proibido da UE sob as licenças identificadas pela investigação da Unearthed e da Public Eye. Ele acrescentou: “Não acreditamos que a ciência ou os dados disponíveis apoiem a conclusão de que o imidaclopride ou outros neonicotinoides devam ser banidos”.

Unearthed e Public Eye ofereceram a empresas e países a oportunidade de fornecer dados precisos sobre a quantidade de neônicos proibidos que eles exportaram em 2021. A maioria se recusou a fazê-lo.

A Holanda confirmou que naquele ano enviou exportações agrícolas contendo um total de 1.695 toneladas do tiametoxam neônico proibido para países como Cuba, Zâmbia e Suíça. Isso foi mais que o dobro das exportações planejadas do país para aquele ano, de 644 toneladas. No entanto, uma exportação planejada para o Uzbequistão não ocorreu.

A Dinamarca notificou as exportações proibidas de inseticidas em 2021 contendo cerca de seis toneladas de imidaclopride. Um porta-voz do ministério do meio ambiente dinamarquês disse à Unearthed que o país embarcou mais do que o dobro dessa quantidade – 13,3 toneladas – para a Colômbia e Israel. No entanto, as exportações planejadas para o Equador e a Palestina não foram embarcadas.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pelo ONG Public Eye [Aqui!].

A marcha dos agrotóxicos continua no governo Lula: com novo ato, o total de liberações em 2023 é de 126

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No seu discurso da vitória o presidente Lula fez uma série de declarações de impacto, mas uma na qual prestei particular atenção foi a de iniciar uma transformação na agricultura brasileira no sentido da adoção de um modelo agroecológico que não mais previligiasse a dependência em venenos agrícolas como o que ocorreu no governo de Jair Bolsonaro.Passados quase cinco meses de governo, não vejo nenhum movimento consequente para iniciar um debate em torno de um novo modelo agrícola e, pior, a manutenção da política de aprovações de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo. 

No dia de hoje, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) publicou um novo ato contendo a liberações de mais 23 agrotóxicos do tipo “produto técnico”, 22 deles produzidos por empresas chinesas. Com isso, o grande total já é de 126, o que somado aos venenos liberados no governo Bolsonaro chega a impressionantes 2.156 em apenas 53 meses segundo os dados acumulados no “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski.

Em meio à manutenção da política de liberar venenos agrícolas, ainda tivemos em mais de uma ocasião, declarações do ministro da Agricultura Carlos Fávaro dando declarações caluniosas contra o MST que hoje responde pela oferta de alimentos livres de agrotóxicos, a começar pelo arroz do qual o movimento é hoje o maior produtor brasileiro em áreas livres de agrotóxicos.

Como já disse em mais de uma ocasião, a questão dos agrotóxicos é uma espécie de biruta que mostra para que campo o governo Lula está se inclinando. E neste momento a inclinação não é para a agricultura familiar livre de agrotóxicos, mas sim para o latifúndio agro-exportador que depende de venenos agrícolas que estão envenenando nossos campos e cidades.

Agrotóxicos: um “Atlas” global expõe o desastre sobre solos, água, ar e seres humanos

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Um Atlas mundial, publicado no dia 16 de maio, traz uma série de dados sobre esses produtos tóxicos. As mulheres são as vítimas insuspeitas do uso de agrotóxicos em todo o mundo.

A reportagem é de Marie Astier, publicada por Reporterre 

Eles estão por toda parte e são invisíveis: na água, no ar e nos solos. Os efeitos nocivos dos agrotóxicos nos organismos vivos e na nossa saúde são conhecidos, mas o Atlas des Pesticides (Atlas dos Agrotóxicos), divulgado na terça-feira, 16 de maio na França, consegue nos surpreender. Publicado pela fundação alemã Heinrich Böll e pela La Fabrique Écologique, em colaboração com o coletivo de ONGs ambientais Nourrir e a associação Générations Futures, reúne em textos e gráficos uma série de dados sobre os agrotóxicos em nível mundial. É baseado em numerosos estudos científicos. Versões em inglês, alemão e italiano já foram lançadas em outras partes da Europa.

O documento é oportuno para identificar o fenômeno, enquanto um novo estudo acaba de lembrar que os agrotóxicos são os principais responsáveis pelo declínio das aves.

Reporterre mergulhou neste Atlas e destacou cinco fatos.

1 — O consumo mundial de agrotóxicos aumentou 80% desde 1990

A União Europeia gostaria de reduzir o consumo de agrotóxicos pela metade até 2030. Na França, o plano Écophyto tinha o mesmo objetivo. Mas tanto na França como na União Europeia, o consumo está estagnado em vez de cair. Em outras partes do mundo, alguns continentes concentram o aumento do consumo. Na América Latina, o consumo de agrotóxicos mais que dobrou (+119%) entre 1999 e 2020. No mesmo período, a África aumentou seu consumo em 67%.

A França permanece acima da média europeia em termos de uso de agrotóxicos. Atlas des Pesticides

A União Europeia afirma proibir os  agrotóxicos mais perigosos. No entanto, não impede de continuar a fabricá-los em seu solo e exportá-los. O Reino Unido, a Alemanha e a Itália são os três maiores exportadores desses agrotóxicos proibidos na Europa por serem muito perigosos. Eles são vendidos principalmente no Brasil, Ucrânia e África do Sul. Enquanto 195 agrotóxicos considerados “extremamente perigosos” pela ONG Pesticide Action Network são proibidos na União Europeia, apenas 20 são proibidos no Mali, 19 na Nigéria, 18 na Argentina. “É indigno”, sublinha Géraud Guibert, presidente da La Fabrique Écologique.

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2 – Quatro empresas controlam 70% do mercado global de agrotóxicos

A indústria de agrotóxicos está concentrada nas mãos de um punhado de empresas. Syngenta GroupBayerCorteva e BASF controlavam 70% do mercado global de agrotóxicos em 2018 (em comparação com 29% 25 anos antes). As mesmas detêm 57% do mercado de sementes.

O mercado de agrotóxicos cresce 4% ao ano desde 2015 e pode chegar a 130,7 bilhões de dólares (120 bilhões de euros) em 2023. Mas “a lucratividade do setor de agrotóxicos atualmente seria impossível sem o apoio público e a carga coletiva de impactos negativos”, estima o Atlas. Avalia que na França, em 2017, os lucros da indústria de agrotóxicos atingiram os 200 milhões de euros, mas que as despesas que geraram (despoluição das águas, tratamento das doenças que provocam, etc.) custaram 372 milhões de euros. Ou seja, praticamente o dobro.

3 – 80% dos solos europeus contaminados

“Na Europa, as análises mostraram que de 317 solos agrícolas testados, mais de 80% continham resíduos de agrotóxicos”, lembra o Atlas dos Agrotóxicos. O solo está contaminado e a água também. Também na União Europeia, “segundo um estudo da Agência Europeia do Ambiente (EEA), até um terço das estações europeias de monitoramento das águas superficiais apresentaram níveis de agrotóxicos superiores aos limiares nacionais entre 2013 e 2019”, acrescenta o Atlas. No ar, agrotóxicos foram encontrados a mais de 1.000 quilômetros de onde foram aplicados.

Os pesticidas estão em todas as partes. Atlas des Pesticides

4 – As mulheres são mais expostas aos perigos dos agrotóxicos

As mulheres, menos alfabetizadas no mundo, portanto menos capazes de ler rótulos e instruções de aplicação, são mais vulneráveis aos agrotóxicos, destaca o Atlas. Ele dá dois exemplos. No Nepal, 53% dos agricultores leem e entendem os rótulos, em comparação com 25% das agricultoras. Em Gana, 65% dos agricultores conhecem os  agrotóxicos proibidos, em comparação com 5% das agricultoras.

Ao nível da saúde, “o seu corpo é constituído por tecidos mais sensíveis aos hormônios” e, portanto, aos pesticidas desreguladores endócrinos. No entanto, as mulheres são parte da solução. “Nas zonas rurais dos países do Sul, (…) elas assumiram a luta contra os agrotóxicos”, indica o Atlas.

5 – Mudar o sistema agrícola seria mais barato

Conhecemos a solução para acabar com os agrotóxicos, mesmo que não seja simples. “É todo o sistema agrícola e alimentar que precisa ser mudado”, explica Mathilde Boitias, diretora da La Fabrique Écologique e coordenadora do Atlas. A agricultura orgânica é a única que garante a não utilização de agrotóxicos sintéticos. A União Europeia gostaria de triplicar o número de fazendas orgânicas até 2030. Isso custaria “1,85 bilhão de euros por ano, menos do que os custos sociais ligados aos pesticidas”, sublinha o Atlas.

A França é o país da União Europeia com maior área de plantação de orgânicos, à frente da Espanha e da Itália. 20% dos vinhedos, que consomem muitos agrotóxicos, são orgânicos. Mas se quisermos encorajar esta dinâmica “devemos colocar os meios”, insiste Géraud Guibert.

Na Europa, as populações de pássaros e borboletas, por exemplo, diminuíram mais de 30% desde 1990. Atlas des Pesticides

As últimas decisões do governo francês questionam sua capacidade de apoiar essa aspiração da sociedade de abandonar os agrotóxicos. A ajuda destinada pelo governo à agricultura orgânica em crise é insuficiente dependendo do setor. E o sucesso do orgânico provocou uma reação dos defensores da agroindústria. Um projeto de lei debatido no Senado no dia 16 de maio quer, em particular, colocar nas mãos do ministro da Agricultura uma série de poderes sobre a autorização ou retirada de agrotóxicos (atualmente sob a responsabilidade da ANSES, a Segurança Nacional da Saúde). “Seria um retrocesso terrível”, adverte Nadine Lauvergeat, delegada geral da organização Générations Futures.


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A versão em português deste texto foi inicialmente publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos [Aqui!].

Os custos sociais e ambientais por trás do sucesso do agronegócio em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso

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A onipresença do agronegócio em Lucas do Rio Verde. Foto: Mídia NINJA

Por Maria Vitória de Moura I Mídia Ninja

Lucas do Rio Verde, cidade com quase 68 mil habitantes, em Mato Grosso, possui mais de dois terços da sua área total, aproximadamente 270 mil hectares, destinada para o cultivo de soja e milho em monocultura. Segundo levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção do agronegócio representa mais de um terço de tudo que é produzido pelo município, tendo um dos maiores Produto Interno Bruto (PIB) do setor do agronegócio do Brasil e de Mato Grosso.

O que é visto pelo governo do estado e do município como uma vitória, acarreta em consequências desastrosas para a população, principalmente em relação ao grande uso de agrotóxicos nas monoculturas que pouco se distanciam dos moradores. Ao passar pela BR-163, que corta o município, não demora muito para avistar imensidões quilométricas de soja e maquinários pulverizando agrotóxicos no solo e no ar. As estruturas mais amplas do agro também são visíveis ao se deparar com o grande comércio de maquinário e outras ferramentas utilizadas pelo setor já nas entradas da cidade.

Porém, o “coração da maior região produtora de grãos do país”, como os setores do agro intitulam Lucas do Rio Verde, também pode e deve ser visto pelo outro lado das estatísticas. Entre fevereiro e junho de 2010, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) coletou amostras de leite materno de 62 mulheres, 3 delas da zona rural. A presença de agrotóxicos foi detectada em todas as amostras. Entre os agrotóxicos encontrados havia substâncias proibidas há mais de 20 anos no Brasil. O DDE, proibido em 1998 por causar infertilidade masculina e abortos espontâneos, foi o mais encontrado. Em algumas amostras havia a presença de até seis agrotóxicos.

De um lado o agronegócio e do outro uma cidade refém dos agrotóxicos

A bióloga Danielly Palma, autora do estudo, afirma que a contaminação ocorre principalmente pela ingestão de alimentos contaminados, mas também por inalação e contato com a pele. No ano anterior à pesquisa, em 2009, mais de 5 milhões de litros de agrotóxicos foram utilizados no município. Dados de 2014, apurados pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, apontam que naquela ano foram consumidos 120 litros de agrotóxicos por habitante em Lucas do Rio Verde, demostrando o alto índice nacional de consumo e destacando a gravidade ampliada em cidades de Mato Grosso.

Além da contaminação dos alimentos, incluindo aqueles cultivados para além dos setores do agronegócio, a pulverização aérea de agrotóxicos acaba por contaminar o entorno e a cidade de Lucas do Rio Verde. As chamadas “chuvas” de agrotóxico, frequentes nas monoculturas da região, levam partículas de veneno para a água, o solo e o ar.

Em março de 2006, a população do município observou que névoas de agrotóxicos oriundas de pulverizações aéreas danificaram hortaliças e plantas nas ruas e quintais da cidade. Com isso, o Sindicato de Trabalhadores Rurais e o Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFMT), em conjunto com a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE-MT), se juntaram na avaliação do risco ocupacional e ambiental das pulverizações, a fim de buscar medidas de mitigação, prevenção e controle.

O caso ficou conhecido como “acidente rural ampliado”, quando as consequências da chamada agricultura moderna ultrapassa seu local e foco, passando a atingir agressivamente a população, o meio ambiente local e a saúde coletiva. Com o estudo, destacou-se que as medidas de mitigação a curto prazo eram em grande medida ineficazes, era preciso um movimento social em massa para garantir mudanças extremas no método de cultivo em Lucas do Rio Verde.

Um dos maiores desafios encontrados foi justamente o orgulho do estado e do município em ocupar dentro do agronegócio não apenas um setor de referência, mas também de aparente prosperidade. Uma das maiores provas dessa barreira é o financiamento de pesquisas, pela própria prefeitura, batendo de frente com os dados de alerta de pesquisadores que estudam os malefícios do agro no município.

Durante sete anos, entre 2007 e 2014, pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) monitoraram Lucas do Rio Verde como estudo de caso para as consequências da utilização de agrotóxicos.

Os pesquisadores registraram pulverizações de agrotóxicos por avião e trator realizadas a menos de 10 metros de fontes de água potável, córregos, criação de animais e de residências, desrespeitando legislação estadual sobre pulverização aérea e terrestre. Foi verificada ainda a contaminação de resíduos de vários tipos de agrotóxicos em 83% dos 12 poços de água potável da cidade, incluindo em escolas. Amostras da água da chuva também alertaram para contaminação de 56%.

Em oposição aos dados científicos de duas grandes organizações brasileiras, a UFMT e a Fiocruz, a prefeitura de Lucas do Rio Verde encomendou aos laboratórios Ecolabor e Tasqa do Estado de São Paulo e Analítica de Cuiabá (MT) a análise da água no município. A pesquisa encomendada atestou a segurança da água e a prefeitura se vangloriou em seus meios de comunicação: “[as pesquisas] comprovam mais uma vez a qualidade da água consumida pela população de Lucas do Rio Verde”.

O coração do agronegócio está claramente doente. Mato Grosso, estado referência na produção de grãos não apenas em Lucas do Rio Verde, mas também em outras regiões igualmente afetadas pelas consequências do agro, sustenta um modelo que enriquece, mas concentra. Que produz, mas não alimenta. Lucas do Rio Verde é a imagem perfeita desse adoecimento.


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 Este texto foi inicialmente publicado pela “Mídia Ninja” [Aqui!].

Com agricultura viciada em venenos agrícolas, o brasileiro é envenenado todos os dias via a ingestão de água e alimentos

afogados em veneno

Venho acompanhando a problemática dos agrotóxicos há pelo menos duas décadas e o quadro está cada vez mais preocupante. Além de já termos evidências científicas acumuladas mostrando que os resíduos de agrotóxicos já estavam presentes nos solos e recursos hídricos, agora estão aparecendo cada vez mais estudos apontando a presença dessas substâncias no sangue e urina não apenas de quem trabalha diretamente com elas, mas também em quem os ingere via água e alimentos.

Uma dificuldade que agora passa a ser superada é a relação do aumento dos resíduos de agrotóxicos (sozinhos ou combinados) no corpo humano. E o que está surgindo é algo que deveria já ter ser tornado um problema crítico de saúde humana, visto que vários estudos já estão relacionando a incidência de doenças graves com o consumo de água e alimentos contaminados com resíduos de agrotóxicos. E quando se fala de doenças graves, estou falando não apenas de múltiplos tipos de câncer, mas também de doenças neurológicas e do sistema glandular.

No caso do Brasil a lentidão de tomada de posição por parte das autoridades sanitárias é agravada pelo modelo econômico que se tornou cada vez mais dependente da renda gerada pela agricultura de exportação, como é o caso da soja.  Essa dependência é agravada pelo poder político dos setores que se beneficiam do modelo agrícola, sejam eles latifundiários ou grandes corporações multinacionais que estão ligadas à  exportação ao longo da cadeia de produção e de comercialização.

Como já disse de forma repetida, a questão dos agrotóxicos se tornou uma espécie de pedra angular no debate sobre o modelo de desenvolvimento econômico que se propõe para o Brasil.  É que sem haver uma virada no modelo agrícola, o que teremos é cada vez mais a aplicação de venenos agrícolas banidos em outras partes do mundo por serem extremamente danosos à saúde humana e ao meio ambiente.

O problema é que mais uma vez temos um governo central que é prisioneiro da lógica que não se pode mexer com o poder dos latifundiários por causa da dependência que está criada com o modelo agrícola que eles representam.  Com isso, o debate sobre as características desse modelo, que vive às custas não apenas do dinheiro doado pelo Estado via generosos subsídios entregues na forma de créditos agrícolas que nunca são pagos, mas também do adoecimento geral da população, terá que vir de dentro da própria população e dos setores mais organizados de dentro dela.

Uma boa oportunidade para se fazer o devido enfrentamento contra esse modelo agrícola viciado em agrotóxicos é a luta contra a aprovação do Pacote do Veneno que se encontra neste momento em debate no Senado Federal. E como ele deve ser aprovado, essa batalha terá que continuar como parte de um poderoso movimento social, que pode ser iniciado com uma campanha imediata contra o uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo. Do contrário, o envenenamento diário cobrará um preço muito caro de todos nós.

Estudo publicado pela Frontiers in Public Health relaciona dieta contendo alimentos contaminados por agrotóxicos ao desenvolvimento de câncer no Brasil

agrotoxicos

A partir dos últimos dados publicados liberados em 2018 pelo “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos” (PARA), um grupo de pesquisadores de diferentes instituições públicas de ensino superior do Paraná e de Santa Catarina, do Instituto Nacional do Câncer e da Universidade de Montréal do Canadá produziram um estudo publicado na revista científica Frontiers in Public  Health que lança luz sobre o consumo de alimentos contaminados por diferentes tipos de agrotóxicos e sobre o risco de desenvolvimento de diferentes tipos de câncer associados diretamente à dieta alimentar dos brasileiros.

Uma das novidades deste estudo é que os pesquisadores não apenas identificaram o número de agrotóxicos presentes em cada alimento analisado , mas também apontaram os tipos de câncer que estão relacionados a cada um desses agrotóxicos. Além disso, o estudo aponta para a necessidade de que se leve em conta a interação que acaba ocorrendo no organismo dos indivíduos que consomem múltiplos tipos de agrotóxicos, cada um deles sendo potencial causador de diferentes formas de câncer (ver figura abaixo).

alimentos residuos

Os autores alertam para a gravidade do problema relacionado à exposição a alimentos contaminados por agrotóxicos e lembram que “aproximadamente 80% dos agrotóxicos autorizados no Brasil não são permitidos para uso em pelo menos três países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), incluindo países que têm a agricultura como atividade econômica essencial”.   O problema é que várias das principais empresas fabricantes dessas substâncias proibidas estão sediadas em países que são fornecedores diretos de agrotóxicos utilizados em larga escala pelo latifúndio agro-exportador no Brasil e na maior parte do chamado Sul Global.

Os autores argumentam ainda que a exposição a agrotóxicos no Brasil viola muitos direitos humanos da população, na medida em que o direito à vida é potencialmente violado quando os agrotóxicos contaminam os alimentos e a água para consumo humano. 

O que mostrará o PARA após quatro anos de liberou geral do governo Bolsonaro?

Há que se lembrar que o PARA ficou paralisado durante os quatro anos de governo de Jair Bolsonaro, o mesmo período em que foram liberados 2.030 agrotóxicos, muitos deles inclusos na lista de agrotóxicos banidos na União Europeia. Como nesse período também foram afrouxados os mecanismos de comando e controle, o que inevitavelmente deve ter aumentado o uso descontrolado de agrotóxicos, inclusive naquelas culturas produzidas para abastecer o mercado interno de frutas e legumes.

A questão é que muito certamente a próxima edição do PARA deverá trazer informações que confirmarão a extrapolação dos limites considerados seguros para a presença de resíduos de agrotóxicos nos alimentos consumidos pelos brasileiros. E com isso, como mostrado neste estudo, a chance de que as relações de sinergia entre os diferentes agrotóxicos presentes nos alimentos produzidos para alimentar os brasileiros também estejam mais aceleradas não é nada desprezível.

Rede Alerta Contra Desertos Verdes revela face nada amigável da Suzano Papel em cartilha

O que você precisa saber sobre a empresa Suzano Papel e Celulose

cartilha suzano

A Suzano é uma multinacional brasileira que planta eucalipto para produzir celulose. Ela é uma das principais empresas do setor no mundo.

A Suzano se tornou a maior empresa de plantações de eucalipto no Brasil ao comprar, em 2018, a Fibria, seu principal concorrente. A Fibria, por sua vez, resultou da fusão, em 2009, entre duas outras empresas: a Votorantim Celulose e Papel e a Aracruz Celulose. Desde o ano 2018, 50% da empresa Veracel Celulose também pertence a Suzano.

Como resultado, as plantações de eucalipto da Suzano ocupam hoje uma área imensa, inclusive diversos territórios que pertencem a povos e comunidades indígenas, quilombolas e camponesas, que foram invadidos por essas empresas.

A Suzano é responsável por graves danos sociais, ambientais e climáticos, incluindo desmatamento, poluição e escassez da água, e destruição de terras férteis que deveriam produzir alimentos, dentre outros.

Leia esta cartilha e conheça alguns fatos importantes sobre a Suzano, fatos muitas vezes invisíveis por trás da máquina de propaganda dessa megaempresa.

Boa leitura!

Clique aqui para baixar a cartilha


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Este texto foi originalmente publicado pela Rede Alerta contra Desertos Verdes [Aqui!].

Pesquisa conclui que faltam estudos sobre os efeitos de agrotóxicos sobre as florestas tropicais

plaguicidas-bosques-996x567O estudo dos efeitos dos inseticidas e herbicidas usados ​​na produção de banana também deve incluir os fungicidas, segundo o estudo. Crédito da imagem: Alliance of Bioversity International & CIAT/Flickr , bajo licencia Creative Commons (CC BY-NC-SA 2.0) .

Por Nicolás Bustamante Hernández

[BOGOTÁ] Os efeitos colaterais dos agrotóxicos em florestais tropciais e outros ecossistemas terrestres onde se encontram algumas plantações comerciais (ou florestais) não estão bem documentados pela literatura científica. Os estudos sobre agrotóxicos estão mais concentrados na agricultura, onde são bem conhecidas as sequelas negativas para os sistemas de água doce e os seres humanos, por exemplo.

Usando como exemplo a produção a grande escala de exportação de banana na Costa Rica , uma equipe internacional de cientistas revisou a literatura disponível, oferecendo um estado da arte sobre os efeitos dos agrotóxicos (incluídos inseticidas, fungicidas e herbicidas) em um cultivo tropical. Os resultados foram publicados na revista Environmental International .

Os autores mostram que se bem os agrotóxicos jogam um papel na diminuição da biodiversidade nas regiões temperadas (que serviram como modelo para estabelecer as regulamentações sobre o uso dessas substâncias a nível mundial), apenas há poucas pesquisas sobre esse problema nas trópicos, onde estas substâncias são mais utilizadas .

“A ideia é que esses agrotóxicos, especialmente quando são usados ​​por meio de aplicações aéreas, podem chegar até os fragmentos de bosques com alta biodiversidade e, potencialmente, ter um impacto total. O problema é que, até agora, isso não foi suficientemente estudado”, diz a SciDev.Net Carsten A. Brühl, um dos autores do estudo.

O estudoencontrou que, com os muito agrotóxicos sintéticos envolvidos na produção de banana, “a abordagem nos inseticidas, que revela os riscos aquáticos mais altos e, nos herbicidas, deve estender-se aos fungicidas, que se aplicam por via aérea em áreas mais grandes”.

“ “[…] estes agrotóxicos, especialmente quando são utilizados por meio de aplicações aéreas, podem chegar até os fragmentos de bosques com alta biodiversidade e, potencialmente, ter um impacto total.  O problema é que, até agora, isto não foi suficientemente estudado ”.

Carsten A. Brühl, professor de Ecologia Comunitária e Ecotoxicologia – Instituto de Ciências Ambientais da Universidade de Koblenz y Landau, Alemanha

Brühl, professor de Ecologia Comunitária e Ecotoxicologia no Instituto de Ciências Ambientais da Universidade de Koblenz e Landau (Alemanha), sinaliza que geralmente se assume que os inseticidas apresentam um alto risco.

“Mas é muito provável que o uso contínuo de fungicidas nas bananeiras também tenha um grande impacto, quando são aplicados regularmente – por exemplo, todas as semanas – também podem afetar outros microrganismos. Portanto, os fungicidas também devem estar no centro de atenção” seguro.

Ainda que a pesquisa está centrada na Costa Rica, e não são oferecidos dados sobre outros lugares da América Latina, Brühl acredita que a situação poderia ser semelhante em outras regiões e com outros tipos de cultivos, já que a regulamentação dos agrotóxicos se baseia em cenários da União Européia e dos Estados Unidos, e não se referem ao contexto tropical no qual são usados.

Silvia Restrepo, professora titular da Universidad de los Andes, especialista na área de fitopatologia e que desenvolveu ampla investigação em doenças da mandioca e de cultivos da família Solanaceae, afirma que na atualidade existe uma preocupação séria sobre o uso de estes produtos químicos em diferentes tipos de cultivos. A prova disso seria o fato de que existe uma ampla literatura sobre o tema.

“Se falamos de palavras-chave como ‘agrotóxicos’ e ‘América’ em uma base de dados como o Google Scholar , aparecem mais de 17 mil artigos ou livros e capítulos de livros. Hoje em dia está se financiando projetos para acompanhar vários sistemas na América do Sul para a redução do uso de agrotóxicos”, disse Restrepo em conversa telefónica com SciDev.Net .

Sobre as conclusões da investigação, relacionadas com os efeitos sobre os ecosistemas terrestres , Restrepo –que não participou da revisão – reconhece que essas são preocupações compartilhadas pela comunidade científica dedicada aos estudos agrícolas.

Restrepo citou o caso da Colômbia, onde, disse que “”Não apenas os ecossistemas terrestres causam preocupação, mas na maioria das vezes os agricultores não têm equipamentos de proteção individual para aplicar esses produtos químicos”.”.

“Muitas vezes os vi aplicando agrotóxicos com suas roupas normais, mesmo de bermuda e com as crianças brincando na beira da lavoura. Também encontramos muitas análises sobre a contaminação que esses produtos causam. Pesquisas realizadas pela Universidad de los Andes investigaram o efeito de contaminantes no DNA humano”, afirma Restrepo..

Por sua parte, Brühl faz um chamado para que os países das regiões tropicais não utilizem agrotóxicos proibidos na União Européia ou nos Estados Unidos. As razões −explica- são os efeitos potenciais na saúde humana, que “são os mesmos em todos os lugares”.

“Em alguns cultivos tropicais o uso deagrotóxicos é enorme. Atualmente, a União Européia tem como objetivo reduzir o uso de agrotóxicos em 50% até 2030, e isso também é contemplado no Acordo de Montreal. Por isso, fica muito trabalho a fazer ser feito para se ter uma agricultura com um menor uso de agrotóxicos”, assinala.

Link para o artigo na Environmental International


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net e está publicado [Aqui!]

Novo estudo comprova impactos devastadores do Glifosato sobre populações de abelhas nativas

Jatai bee of the species Tetragonisca angustula

Abelhas Jataí da espécie Tetragonisca angustula

Um estudo de autoria de um grupo de pesquisadores brasileiros ligados à Universidade Federal da Bahia (UFBA)e à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) que acaba de ser publicado na revista Ecotoxicology revela os impactos do herbicida glifosato sobre a abelha nativa Tetragonisca angustula (Jataí). 

Segundo o grupo liderado pelo professor Vinícius Cunha Gonzalez,  do Laboratório de Bioquímica e Biofísica do Instituto Multidisciplinar em Saúde, Universidade Federal da Bahia  do campus de Vitória da Conquista, os experimentos realizados detectaram que o contato das abelhas Jatai com o glifosato resultaram em morte, alterações motoras (diminuição da velocidade e tremores), autolimpeza excessiva e desorientação (voltar à luz e parar).  Em outras palavras, o glifosato mostrou ter um efeito devastador sobre esse grupo de abelhas nativas, mesmo em doses baixas.

Além disso, os pesquisadores alertaram que “embora não tenhamos testado os efeitos da polinização, podemos inferir de nossos resultados que esta formulação pode afetar negativamente a atividade de polinização de T. angustula“. Em outras palavras, o uso do glifosato está provavelmente afetando a capacidade desses polinizadores de alcançarem a sua melhor performance, quando não morrem de forma imediata pelo contato com esse herbicida que simplesmente é o agrotóxico mais vendido em todo o planeta.

A importância deste estudo é ainda maior quando se considera que o declínio das populações de abelhas diminui os serviços de polinização, danificando plantas e a biodiversidade agrícola, sendo importante notar que os agrotóxicos são um dos principais responsáveis por tal declínio.