Investigação na madrugada

agrotoxicos

Como não encontra dados sobre a contaminação das águas e do solo brasileiros por pesticidas, Jean Remy Guimarães decidiu, em uma noite insone, investigar relatórios franceses sobre o tema. Veja o que ele descobriu.

 Por Jean Remy Davée Guimarães*

Segundo os folhetos de promoção de pesticidas, eles são eficientes, claro, mas também seletivos, e ainda têm o bom gosto de permanecer nos locais onde são aplicados, por terem baixa mobilidade. E mais: caso acabem indo parar onde não devem, não haveria problema, porque eles têm baixa toxicidade. Afinal, são produtos de tecnologia de ponta, aprovados por autoridades nacionais e internacionais, usados em dezenas de países – e há centenas de estudos comprovando sua eficiência e segurança. Uma maravilha!

Já dissecamos aqui, em penoso exercício, as entranhas do processo de avaliação e autorização de pesticidas em órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), cujas deliberações norteiam as decisões dos países membros, que aprovam se a OMS aprovar. Sabemos que os pesticidas não são terríveis apenas contra os insetos e outras supostas pragas devido ao grande número de intoxicações letais e subletais em agricultores. Ouvimos sempre que esses ‘acidentes’ acontecem devido à falta de cuidado na aplicação dos produtos. Que povinho ignorante e teimoso, não é mesmo?

Mas, como a maioria da população vive em cidades e não socializa com agricultores, está mais preocupada com a eventual contaminação dos alimentos que chegam à sua mesa. A cada ano, os relatórios da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre os níveis de pesticidas em alimentos no país justificam e renovam esta preocupação, já que são tristemente repetitivos – o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos (Para) costuma indicar o pimentão, o morango e o pepino como os alimentos com maior número de amostras contaminadas por agrotóxico.  Em 2010, por exemplo, 90% das amostras de pimentão, 63% das de morango e 58% das de pepino tinham resíduos de agrotóxicos acima do permitido, ou continham agrotóxicos não autorizados para aquele cultivo, ou juntavam os dois predicados. Tomate, alface e abacaxi também frequentam as listas dos mais contaminados.

Ouviremos novamente que isto se deve à falta de cuidado dos agricultores e à pouca fiscalização por parte do governo. Irei dormir aliviado, já que os dois problemas têm solução. Epa, mas… se têm solução, por que seguem sendo problema? Pronto, insônia garantida. Ok, se os agricultores e o governo tomarem vergonha, haverá menos resíduos de pesticidas na comida. E, se pararmos de usar pesticidas, não haverá mais resíduo dos mesmos na comida.

Mas… e os pesticidas que já estão na água, no solo, no ar, em sedimentos, em animais e plantas, não voltarão a contaminar nossos cultivos agora supostamente orgânicos?

Será? Mas… e os pesticidas que já estão na água, no solo, no ar, em sedimentos, em animais e plantas, não voltarão a contaminar nossos cultivos agora supostamente orgânicos? Quem sabe já dormi e não percebi, é sonho ou pesadelo, já que os pesticidas ficam quietinhos no lugar de aplicação, coisa que eu também devia fazer para pegar no sono em vez de procurar piolho em pedra. Piolho? Inseticida nele.
 

Descobrindo (a falta de) dados

A estas alturas, já saí da cama e caí na rede. Em poucos cliques, coleciono vários trabalhos acadêmicos sobre níveis de pesticidas diversos em água de rio, água subterrânea, solo e sedimento em diferentes pontos do país. É um pepino ou um abacaxi? Há como descascá-lo? Quem vai cuidar disso, e como? Quanto vai custar fazer algo a respeito, quanto custará deixar para lá?

Agora que acordei de vez, me pergunto: se há relatórios oficiais anuais sobre pesticidas em alimentos no país, deve haver algo parecido sobre pesticidas no ambiente, certo? Claro, o Brasil é o maior consumidor de pesticidas do mundo, imagina se não vai haver. E, assim, descobri um método infalível de pegar no sono, que foi buscar por esta informação nos sites do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama, da Embrapa. Achei fragmentos, notas, referências, links para conteúdo externo ou um ou outro estudo, mas nada sistemático, muito menos de abrangência nacional. E anual? Fala sério…
 

O caso francês

Mas o pior estava por vir. A dúvida tira o sono, mas a inveja tira mais ainda. Buscando em outros países o equivalente do relatório que meu próprio país me nega, topei com este cruel link francês (a França, de novo…) ao buscar por “pesticides + eau” no site do Ministério do Meio Ambiente, da Energia e do Mar daquele país. São seis documentos completos sobre a distribuição geográfica dos níveis de pesticidas em água de rio e água superficial, a distribuição dos pontos com níveis acima das normas, listas e gráficos com os pesticidas mais encontrados e seus produtos de degradação, links para download (que funciona) de mapas em PDF, planilhas em Excel. Imagine o mapa de um país de área próxima a de um único estado do Brasil, São Paulo, em que são plotados dados de mais de 2.200 pontos de coleta. Considere, ainda, que esses dados são atualizados a cada dois ou três anos. É muita humilhação para um cidadão de um país que está ferozmente empenhado no desmonte da legislação ambiental árdua e timidamente conquistada nas últimas décadas.

Mas chega de autoflagelação, vamos a alguns dos interessantes dados do relatório em questão.

Em 2013, 21,6% das amostras de água subterrânea estavam fora das normas nacionais para pesticidas. Oitenta e cinco compostos de pesticidas ultrapassaram as normas mais de uma vez e 14 ultrapassaram mais de dez vezes. Apenas 30% das amostras não apresentaram níveis detectáveis de pesticidas. A maioria dos compostos detectados em águas subterrâneas foram herbicidas e fungicidas de uso agrícola e/ou seus produtos de degradação. Já em territórios ultramarinos como a Martinica, metade das amostras estavam fora das normas – neste caso, por herança maldita do pesado uso de pesticidas nos cultivos de banana na ilha. Imagino que, ali, os que podem devem ser grandes consumidores de água mineral Vittel e Vichy, importadas da metrópole.

Na Martinica, o relatório revela ainda teores acima dos limites mesmo para pesticidas já proibidos há anos ou mesmo décadas, tais como dieldrin, proibido em 1994, e chlordecona e atrazina, proibidas em 2003.

Já nos cursos d´água da França, os pesticidas mais detectados são o AMPA, produto de degradação do glifosato, presente em 56% das amostras, e o próprio glifosato, registrado em 38% das amostras, seguidos dos diversos produtos de degradação da persistentíssima atrazina, banida há mais de 13 anos.

Se há tanto e tantos pesticidas em água de rio e água subterrânea, eu esperaria que também estivessem presentes na água de torneira. Mas isso é outro relatório, no site de outro ministério, e fica para outro dia.

Jean Remy Davée Guimarães, é professor e pesquisador do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/4885/n/investigacao_na_madrugada

Proibido uso de agrotóxicos com Parationa Metílica

Ingrediente ativo de agrotóxicos, a Parationa Metílica está proibida no Brasil a partir de 1º de setembro de 2016.

A utilização da Parationa Metílica está proibida no Brasil. A determinação foi publicada nesta segunda-feira (29/8), no Diário Oficial da União (DOU).

Na edição do Diário Oficial da União, a Resolução 2.297 determina o cancelamento dos informes de avaliação toxicológica de todos os produtos agrotóxicos a base do ingrediente ativo Parationa Metílica desde o dia 1º de setembro deste ano. Portanto, com a publicação da resolução a utilização da Parationa Metílica está proibida no Brasil desde então.

 A proibição se deve à conclusão da Anvisa de que o ingrediente ativo se enquadra nos seguintes critérios proibitivos de registro previstos na legislação brasileira:

  • É mutagênico;
  • Causa danos ao sistema reprodutor;
  • É mais perigoso para o homem do que demonstrado em testes com animais de laboratório;
  • Possui indícios de causar distúrbios hormonais.

A substância teve sua retirada programada do mercado brasileiro segundo os critérios dispostos na Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 56/2015. A norma determinou que, a partir de 1º de junho de 2016, os agrotóxicos a base de Parationa Metílica não poderiam mais ser comercializados.

A RDC estabeleceu que, a partir de 1º de setembro de 2016, as empresas responsáveis pelos produtos deveriam iniciar o recolhimento dos estoques remanescentes em poder dos agricultores em um prazo máximo de 30 dias, não podendo se estender por mais de 90 dias.

De acordo com a decisão tomada pela Anvisa, a monografia da Parationa Metílica será mantida até 31 de dezembro de 2017, apenas para fins de monitoramento de seus resíduos em alimentos.

FONTE: http://portal.anvisa.gov.br/web/guest/noticias/-/asset_publisher/FXrpx9qY7FbU/content/proibido-uso-de-agrotoxicos-com-parationa-metilica/219201

BBC Brasil produz matéria sobre possível epidemia de câncer causada por agrotóxicos

‘Epidemia de câncer’? Alto índice de agricultores gaúchos doentes põe agrotóxicos em xeque

Agricultor aplicando pesticida THINKSTOCK
Falta da proteção necessária é um dos principais problemas

O agricultor Atílio Marques da Rosa, de 76 anos, andava de moto quando sentiu uma forte tontura e caiu na frente de casa em Braga, uma cidadezinha de menos de 4 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul.

O agricultor Atílio Marques da Rosa, de 76 anos, andava de moto quando sentiu uma forte tontura e caiu na frente de casa em Braga, uma cidadezinha de menos de 4 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul.

“A tontura reapareceu depois, e os exames mostraram o câncer”, conta o filho Osmar Marques da Rosa, de 55 anos, que também é agricultor.

Seu Atílio foi diagnosticado há um ano com um tumor na cabeça, localizado entre o cérebro e os olhos. Por causa da doença, já não trabalha em sua pequena propriedade, na qual produzia milho e mandioca.

Para ele, o câncer tem origem: o contato com agrotóxicos, produtos químicos usados para matar insetos ou plantas dos quais o Brasil é líder mundial em consumo desde 2009.

“Meu pai acusa muito esse negócio de veneno. Ele nunca usou, mas as fazendas vizinhas sempre pulverizavam a soja com avião e tudo”, diz Osmar.

O noroeste gaúcho, onde seu Atílio mora, é campeão nacional no uso de agrotóxicos, segundo um mapa do Laboratório de Geografia Agrária da USP, elaborado a partir de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Para especialistas que lidam com o problema localmente, não há dúvidas sobre a relação entre o veneno e a doença.

“Diversos estudos apontam a relação do uso de agrotóxicos com o câncer”, diz o oncologista Fábio Franke, coordenador do Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) do Hospital de Caridade de Ijuí, que atende 120 municípios da região.

Fábio Franke, coordenador do Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) do Hospital de Caridade de Ijuí
DIOGO ZANATTA/BBC BRASIL
Oncologista Fábio Franke vê relação direta entre agrotóxicos e câncer

Um dos principais problemas é que boa parte dos trabalhadores não segue as instruções técnicas para o manejo das substâncias.

“Nós sempre perguntamos se usam proteção, se usam equipamento. Mas atendemos principalmente pessoas carentes. Da renda deles não sobra para comprar máscaras, luvas, óculos. Eles ficam expostos”, diz Emília Barcelos Nascimento, voluntária da Liga Feminina de Combate ao Câncer de Ijuí.

Anderson Scheifler, assistente social da Associação de Apoio a Pessoas com Câncer da cidade (Aapecan), corrobora: “Temos como relato de vida dessas pessoas um histórico de utilização excessiva de defensivos agrícolas e, na maioria das vezes, sem uso de proteção”.

‘Alarmante epidemia’

Um estudo realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) comparou o número de mortes por câncer da microrregião de Ijuí com as registradas no Estado e no país entre 1979 e 2003 e constatou que a taxa de mortalidade local supera tanto a gaúcha, que já é alta, como a nacional.

De acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), o Rio Grande do Sul é o Estado com a maior taxa de mortalidade pela doença. Em 2013, foram 186,11 homens e 140,54 mulheres mortos para cada grupo de 100 mil habitantes de cada sexo.

O índice é bem superior ao registrado pelos segundos colocados, Paraná (137,60 homens) e Rio de Janeiro (118,89 mulheres).

O Estado também é líder na estimativa de novos casos de câncer neste ano, também elaborada pelo Inca – 588,45 homens e 451,89 mulheres para cada 100 mil pessoas de cada sexo.

Em 2014, 17,5 mil pessoas morreram de câncer em terras gaúchas – no país todo, foram 195 mil óbitos.

Lavoura de cana-de-açúcar em Ijuí, no Rio Grande do Sul
DIOGO ZANATTA/BBC BRASIL
Especialistas ligam uso de agrotóxicos à alta incidência de câncer no RS

Anualmente, cerca de 3,6 mil novos pacientes são atendidos na unidade coordenada por Franke. Se incluídos os antigos, são 23 mil atendimentos. Destes, 22 mil são bancados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) – os cofres públicos desembolsam cerca de R$ 12 milhões por ano para os tratamentos.

Segundo o oncologista, a maioria dos doentes vem da área rural – mas o problema pode ser ainda maior, já que os malefícios dos agrotóxicos não ocorrem apenas por exposição direta pelo trabalho no campo, mas também via alimentação, contaminação da água e ar.

“Se esses números fossem de pacientes de dengue ou mesmo uma simples gripe, não tenho dúvida de que a situação seria tratada como a mais alarmante epidemia, com decreto de calamidade pública e tudo. Mas é câncer. Há um silêncio estranho em torno dessa realidade”, afirma o promotor Nilton Kasctin do Santos, do Ministério Público da cidade de Catuípe.

“Milhares de pessoas estão morrendo de câncer por causa dos agrotóxicos”, acrescenta ele, que atua no combate aos produtos.

Procurado pela BBC Brasil, o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), que representa os fabricantes de agrotóxicos, encaminhou o questionamento para a Andef (Associação Nacional de Defesa Vegetal), que responde basicamente pelas mesmas empresas.

Em nota, a Andef afirma que “toda substância química, sintetizada em laboratório ou mesmo aquelas encontradas na natureza, pode ser considerada um agente tóxico” e que os riscos à saúde dependem “das condições de exposição, que incluem: a dose (quantidade de ingestão ou contato), o tempo, a frequência etc.”.

O texto afirma ainda que “o setor de defensivos agrícolas apresenta o grau de regulamentação mais rígido do mundo”.

Salto no consumo
Aplicação de pesticida em plantação de cana-de-açúcar em Minas Gerais
THINKSTOCK
Mais de 1,1 mil pessoas morreram por intoxicação com agrotóxico no país em 8 anos

A comercialização de agrotóxicos aumentou 155% em dez anos no Brasil, apontam os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS), estudo elaborado pelo IBGE no ano passado – entre 2002 e 2012, o uso saltou de 2,7 quilos por hectare para 6,9 quilos por hectare.

O número é preocupante, especialmente porque 64,1% dos venenos aplicados em 2012 foram considerados como perigosos e 27,7% muito perigosos, aponta o IBGE.

O Inca é um dos órgãos que se posicionam oficialmente “contra as atuais práticas de uso de agrotóxicos no Brasil” e “ressalta seus riscos à saúde, em especial nas causas do câncer”.

Como solução, recomenda o fim da pulverização aérea dos venenos, o fim da isenção fiscal para a comercialização dos produtos e o incentivo à agricultura orgânica, que não usa agrotóxico para o cultivo de alimentos.

Márcia Sarpa Campos Mello, pesquisadora do instituto e uma das autoras do “Dossiê Abrasco – Os impactos dos Agrotóxicos na Saúde”, ressalta que o agrotóxico mais usado no Brasil, o glifosato – vendido com o nome de Roundup e fabricado pela Monsanto – é proibido em toda a Europa.

Segundo ela, o glifosato está relacionado aos cânceres de mama e próstata, além de linfoma e outras mutações genéticas.

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que 80% dos casos de câncer são atribuídos à exposição de agentes químicos. Se os agrotóxicos também são esses agentes, o que já está comprovado, temos que diminuir ou banir completamente esses produtos”, defende.

Aplicação de pesticida em plantação de soja no Mato Grosso do Sul
THINKSTOCK
Fabricante afirma que glifosato é seguro para a saúde

Procurada, a Monsanto afirma que “todos os usos de produtos registrados à base de glifosato são seguros para a saúde e o meio ambiente, o que é comprovado por um dos maiores bancos de dados científicos já compilados sobre um produto agrícola”.

A empresa diz ainda tratar-se de “um dos herbicidas mais usados no mundo, por mais de 40 anos e em mais de 160 países”, e que “nenhuma associação do glifosato com essas doenças é apoiada por testes de toxicologia, experimentação ou observações”.

Três vezes mais

Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o brasileiro consome até 12 litros de agrotóxico por ano.

A bióloga Francesca Werner Ferreira, da Aipan (Associação Ijuiense de Proteção ao Ambiente Natural) e professora da Unijuí (Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul), alerta que a situação é ainda pior no noroeste gaúcho, onde o volume consumido pode ser três vezes maior.

Ela conta que produtores da região têm abusado das substâncias para secar culturas fora de época da colheita e, assim, aumentar a produção. É o caso do trigo, que recebe doses extras de glifosato, 2,4-D, um dos componentes do “agente laranja”, usado como arma química durante a Guerra do Vietnã, e paraquat.

Lavoura de cana-de-açúcar em Ijuí, no Rio Grande do Sul
DIOGO ZANATTA/BBC BRASIL
A agricultura é uma das atividades mais importantes para a economia do noroeste gaúcho

Segundo o promotor Nilton Kasctin do Santos, este último causa necrose nos rins e morte das células do pulmão, que terminam em asfixia sem que haja a possibilidade de aplicação de oxigênio, pois isso potencializaria os efeitos da substância.

“Nada disso é invenção de palpiteiro, de ambientalista de esquerda ou de algum cientista maluco que nunca tomou sol. Também não é invenção de algum inimigo do agronegócio. Sabe quem diz tudo isso sobre o paraquat? O próprio fabricante. Está na bula, no rótulo”, alerta o promotor.

No último ano, 52 pessoas morreram por intoxicação por paraquat em terras gaúchas, segundo o Centro de Informação Toxicológica do Estado.

No Brasil, 1.186 mortes foram causadas por intoxicação por agrotóxico de 2007 a 2014, segundo a coordenadora do Laboratório de Geografia Agrária da USP, Larissa Bombardi.

A estimativa é que para cada registro de intoxicação existam outros 50 casos não notificados, afirma ela. A pesquisa da professora aponta ainda que 300 bebês de zero a um ano de idade sofreram intoxicação no mesmo período.

A Syngenta, fabricante do paraquat, não se manifestou sobre os casos de intoxicação e afirmou endossar o posicionamento da Andef.

FONTE: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37041324

Estudo britânico liga sumiço de abelhas ao uso de pesticida

Analisando dados sobre 62 espécies ao longo de 18 anos, cientistas concluem que os insetos que se alimentam em plantações tratadas com substância têm mais chances de sofrer declínio populacional

File photo of a bee leaving a Cirsium Trevors "Blue Wonder" thistle in the Well Child fresh garden at the Chelsea Flower Show in London

Por Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

Abelhas selvagens têm mais chance de sofrer declínio populacional quando buscam alimentos em plantações cujas sementes foram tratadas com inseticidas neonicotinoides, os mais utilizados no mercado mundial. A conclusão é de um estudo britânico publicado nesta terça-feira, 16, na revista científica Nature Communications.

O estudo utilizou dados de levantamentos sobre 62 espécies de abelhas em plantações de colza do Reino Unido, realizados ao longo de 18 anos, e ligou o declínio das populações de abelhas no país à escalada do uso de pesticidas neonitocinoides nesse período. 

Segundo os autores, o estudo reforça as conclusões das pesquisas de pequena escala feitas até agora e que identificaram os efeitos negativos dos neonicotinoides nas abelhas. Para cinco espécies, a pesquisa concluiu que os neonitocinoides foram responsáveis por pelo menos 20% das extinções locais.

O autor principal do estudo, Ben Wookcock, do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, afirmou, no entanto, que o uso desses pesticidas provavelmente não é a única explicação para o declínio global das populações de abelhas. 

“Embora tenhamos descoberto evidências de que o uso de neonitocinoides é um fator fundamental para o declínio das populações de abelhas, é improvável que eles estejam agindo de forma isolada em relação a outras pressões ambientais. Abelhas selvagens têm sofrido declínio em escala global, que pode estar ligado também à perda e fragmentação de hábitats, a doenças, às mudanças climáticas e outros inseticidas”, disse Wookcock.

Diversos estudos já apontavam que o uso desse tipo de inseticida pode ser nocivo para as abelhas, mas a maior parte deles havia testado apenas os efeitos a curto prazo. O uso da dos neonicotinoides foi parcialmente banido pela Comissão Europeia em 2013, com o apoio da maior parte dos países da União Europeia. O Reino Unido votou contra a proibição.

Foto: Heather Lowther / Centre for Ecology & Hydrology – UK
Estudo britânico liga sumiço de abelhas ao uso de pesticidaDeclínio das populações de abelhas foi três vezes maior entre as espécies que se alimentam regularmente da colza

Os neonicotinoides foram licenciados para uso como pesticidas no Reino Unido em 2002. Em 2011, o uso dessa classe de pesticidas havia crescido 83% nas plantações britânicas de colza. O grupo de cientistas examinou as mudanças na ocorrência das 62 espécies de abelhas em plantações de colza da Inglaterra entre 1994 e 2011, período que permitiu comparar a situação dos insetos antes e depois da introdução do uso comercial do pesticida em larga escala.

Três vezes mais impacto

Segundo o estudo, o declínio das populações de abelhas foi três vezes maior entre as espécies que se alimentam regularmente da colza – como a Bombus terrestris, conhecida no Brasil como mamangaba – em comparação com as espécies que buscam alimento em plantas florestais. De acordo com os autores, isso indica que a colza tem um papel importante para a exposição das abelhas aos neonicotinoides.

Os pesticidas neonicotinoides podem ser aplicados diretamente às sementes antes da plantação. O composto ativo se expressa de forma sistêmica ao longo do crescimento da planta, o que faz com que ele possa ser ingerido pelos insetos quando eles se alimentam do néctar e do pólen das plantas que receberam o pesticida.

“Por produzir flores, a colza é uma planta benéfica para insetos polinizadores. Esse benefício no entanto, parece se mais que anulado pelo efeito das sementes tratadas com neonicotinoides para uma ampla gama de abelhas selvagens”, afirmou Wookcock.

FONTE: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-britanico-liga-sumico-de-abelhas-ao-uso-de-pesticida,10000069958

Defensoria Pública realiza audiência pública sobre os riscos dos agrotóxicos em São Paulo

Nos próximos dias 29 e 30 de Agosto, a Ouvidoria Geral da Defensoria Pública Pública de São Paulo realizará uma audiência pública para discutir os riscos da exposição a agrotóxicos  sobre a saúde humana e  o ambiente.

Essa é uma atividade de especial importância, não apenas porque São Paulo é um dos líderes nacionais no consumo destas substâncias, mas como também passamos por um processo de pressão para facilitar ainda mais o uso de agrotóxicos no território brasileiro, inclusive para produtos banidos em outras partes do  mundo.

Para maiores detalhes sobre como a audiência irá funcionar, basta clicar (Aqui!)

Abaixo o cartaz com a programação completa e ifnormações sobre local onde o evento ocorrerá.

agrotoxicos

Agrotóxicos deixam rastro de câncer e morte pelo interior de São Paulo

Estado consome 4% da produção mundial e índices de doenças e mortes bem acima das médias estaduais

Redação/Rede Brasil Atual
Agrotóxicos usados na monocultura da cana em SP elevam índices de adoecimento entre os agricultores e toda a população - Créditos: Arquivo Portal Brasil
Agrotóxicos usados na monocultura da cana em SP elevam índices de adoecimento entre os agricultores e toda a população / Arquivo Portal Brasil

Cidades médias e pequenas do interior do estado de São Paulo, localizadas em meio a grandes extensões de terra com monocultura da cana e banana, entre outras, apresentam taxas de incidência de malformações congênitas e diversos tipos de câncer acima da média estadual.

Em Ribeirão Corrente, na região de Franca, o índice de malformações é 26 casos para grupos de 100 mil nascidos vivos – mais de três vezes maior que a do estado, que é de 8.2. Em Sandovalina, na região do Pontal do Paranapanema, onde há ocupação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o índice é 21. Na cidade de São Paulo, totalmente urbanizada, a taxa é de 9.5.

“Em Franca, uma mulher que engravida tem 50% a mais de chances de ter um filho com malformação do que uma moradora de Cubatão, por exemplo. E nem precisa ser agricultura. Está comprovado por estudos que em 70% dos casos de malformação congênita as causas são ambientais”, diz o defensor público Marcelo Novaes, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo em Santo André, no ABC Paulista.

A incidência de câncer também é alta na zona rural. Em Bento de Abreu, na região de Araçatuba, há 18 óbitos por câncer cerebral para cada 100 mil habitantes. A taxa estadual é 6.6. “Essas cidades pequenas são fronteira entre o urbano e rural. Você sai da igreja matriz e já está numa plantação de cana, onde há pulverização aérea ou por tratores”, diz o defensor.

Ainda segundo ele, as taxa de mortes causadas por câncer de fígado é de 6.94 por 100 mil pessoas no estado, de 7.43 na capital paulista e de 20 em Turmalina, na região de São José do Rio Preto. Quase três vezes mais. “Sãocidades pequenas, com menos de 20 mil habitantes. Temos uma tragédia no interior paulista. As pessoas estão morrendo pelo veneno. Se antes se fazia excursão para o Paraguai, para compra de muamba, ou para Aparecida, para rezar na catedral, hoje se faz aos centros oncológicos”, compara.

Novaes se baseia no Observatório de Saúde Ambiental, uma plataforma de dados completos sobre utilização de agrotóxicos no estado, os tipos, as regiões, as culturas onde são empregados, bem como grupos populacionais afetados por doenças reconhecidamente desencadeadas pela exposição a esses produtos. O site interativo, que permite a criação de mapas em que é possível visualizar a distribuição das informações sobre o território paulista, foi desenvolvido por professores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

“O mapa mostra o rastro de câncer em cidades em torno da via Anhanguera afora. Basta checar”, aponta Novaes, destacando que a Secretaria Estadual de Saúde, porém, nega todas essas evidências.

Conforme ressaltou ainda, o problema das pequenas cidades de São Paulo se repete no Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Paraná e outros estados com grandes áreas onde o agronegócio se instalou. Por isso, conforme acredita, agrotóxicos não deve ser tema limitado aos ambientalistas, e sim de conselhos tutelares, de defesa dos direitos da pessoa com deficiência, das mulheres e de toda a sociedade. “Precisamos fazer uma análise conjuntural desse projeto assassino que está em gestão em nosso país”, alerta.

Sistema excludente

Para Marcelo Novaes, a realidade dos agrotóxicos constitui a espinha dorsal de um “sistema excludente e prospectório da vida e da natureza”. E o avanço de projetos nocivos como o PL do Veneno, o PL 3.200/15, ocorre numa perspectiva não de mudanças, mas de retrocessos. “No arcabouço jurídico, há o direito dos códigos que conversa com os poderosos e o direito da prática que oprime os oprimidos, ou seja, a população. A engenharia disso é o ilegal que para os poderoso passa a ser legal”, diz.

“É por isso que são autorizados o corte de árvores centenárias, num prejuízo ambiental irreversível, sem um plano de manejo. É por isso que a mineradora Samarco matou um rio, as praias e continua com todo o vazamento; que há falta água em São Paulo enquanto a Sabesp paga dividendos aos acionistas, que o Código Florestal tão discutido com a sociedade está sendo esculachado aqui em São Paulo, fora a privatização de áreas florestais, que permite a extração de madeira. E a população se vê diante da ameaça crescente dos agrotóxicos”, aponta.

“O ilegal passa a ser legal e há apropriação do bem público pelo privado num processo de mudança das regras do jogo em pleno jogo. É como se, num jogo de xadrez, o cavalo passasse a ser movimentado como se fosse um bispo, uma torre. A gente vai ter de encarar isso.”

Marcelo Novaes participou da audiência pública promovida ontem (12), em São Paulo, pelo mandato do deputado federal Nilto Tatto (PT-SP). O parlamentar integra a comissão especial da Câmara que analisa o PL 3.200/2015.

FONTE: https://www.brasildefato.com.br/2016/08/13/agrotoxicos-deixam-rastro-de-malformacoes-cancer-e-morte-pelo-interior-de-sao-paulo/

Agrotóxicos ameaçam colônias de aves da Antártica

BIRD

Estudo identifica contaminantes orgânicos no sangue de petréis-gigantes (Foto: Colônia de petréis gigantes na ilha Elefante, no arquipélago das Shetland do Sul, na Península Antártica/Fernanda Imperatrice Colabuono)

Peter Moon | Agência FAPESP 

Pesquisadores confirmaram a presença de contaminantes orgânicos no sangue de petréis-gigantes do sul de diversas colônias na Península Antártica. Estudos de carcaças e outros tecidos já tinham dado sinais da contaminação, agora confirmados a partir de amostras de sangue em que foi detectada a presença de diversas substâncias nocivas, entre as quais o DDT, pesticida banido nos Estados Unidos em 1972, quando se constatou que seu uso ameaçava a sobrevivência de diversas espécies de aves de rapina.

A pesquisa foi realizada pela bióloga Fernanda Imperatrice Colabuono, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). Ela estudou os animais das colônias de petréis-gigantes das ilhas Elefante e Livingston, no arquipélago das Shetland do Sul, na Península Antártica, com bolsa de pós-doutorado e bolsa de estágio de pesquisa no exterior da FAPESP.

A pesquisa teve apoio também da Universidade do Vale do Rio dos Sinos e do National Institute of Standards and Technology dos Estados Unidos, com o apoio logístico do Programa Antártico Brasileiro.

O petrel-gigante-do-sul (Macronectes giganteus) é um animal magnífico e um importante predador de topo no Atlântico Sul e Oceano Austral. Com envergadura de asas de cerca de 2 metros, é uma das maiores aves voadoras do planeta, menor apenas que o albatroz e o condor. São também longevos. Petréis-gigantes podem viver mais de 50 anos. Passam a vida nos céus dos mares do Sul do planeta, à procura de comida.

Na época do acasalamento, durante o verão antártico, os petréis-gigantes retornam à mesma colônia onde nasceram. Para os biólogos, essa é uma vantagem para o estudo da espécie. Uma vez identificado e marcado, um indivíduo pode ter sua vida estudada por vários anos.

Nos verões antárticos de 2011/2012 e 2012/2013, Colabuono coletou amostras de sangue de 113 indivíduos e constatou a presença de contaminantes orgânicos como bifenilos policlorados (PCBs), hexaclorobenzeno (HCB), pentaclorobenzeno (PeCB), diclorodifeniltricloroetano (DDTs) e derivados, o pesticida clordano (banido nos Estados Unidos em 1988) e o formicida Mirex (banido nos Estados Unidos em 1978 e recentemente no Brasil).

Segundo Colabuono, todos esses poluentes orgânicos são persistentes no meio ambiente, têm ação cancerígena, causam disfunção hormonal e problemas reprodutivos. Os resultados foram publicados num artigo em Environmental Pollution.

Colabuono afirma que, comparado aos níveis de contaminação nas aves do hemisfério norte, os níveis de contaminação detectados nas colônias de petreis na Península Antártica ainda são baixos. O objetivo agora é monitorá-los no longo prazo, para se “ter um indicativo da tendência de aumento ou decréscimo desses contaminantes ao longo dos anos no ambiente em que estas aves vivem”, diz a bióloga.

Cadeia de contaminação

O DDT é transportado pelo ar e pela chuva. Uma vez em rios e lagos, se acumula na cadeia alimentar. Os insetos contaminados são comidos por peixes e estes por outros predadores. Em cada patamar da cadeia alimentar o nível de acúmulo de DDT nos tecidos aumenta.

Seus efeitos nocivos se tornam mais visíveis quando se atinge o ápice da cadeia, nos predadores de topo. O petrel-gigante é um deles. Ele se alimenta de peixes, lulas e até de carcaças de outras aves. Ou seja, no trajeto de uma longa vida, ao comer centenas de quilos de peixes contaminados, a quantidade de contaminantes nos tecidos do petrel sempre aumenta.

Foi o que aconteceu nos Estados Unidos com os falcões-peregrinos e os condores da Califórnia. Nos anos 1960, suas populações começaram a declinar dramaticamente. Os condores chegaram a contar apenas umas poucas centenas de indivíduos. Estavam a um passo da completa extinção.

Foi quando se descobriu o papel do DDT naquela tragédia. Ao se acumular no corpo das fêmeas adultas, o DDT era repassado à casca de seus ovos, que se tornavam finas e frágeis, partindo com grande frequência. A reprodução da espécie estava ameaçada. Em 1972, a produção, comercialização e o uso do DDT foram banidos nos Estados Unidos. Com o tempo, as populações de falcões e condores começaram a se recuperar.

O Brasil é atualmente o maior consumidor mundial de agrotóxicos. O uso proibido do DDT foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apenas em 2009 – mas, como ele persiste no meio ambiente, sua presença ainda é detectada nos tecidos de animais como o petrel. A preocupação de Colabuono em acompanhar a vida de seus petréis-gigantes tem fundamento.

O artigo de Fernanda I. Colabuono, Stacy S. Vander Pol, Kevin M. Huncik, Satie Taniguchi, Maria V. Petry, John R. Kucklick, Rosalinda C. Montone, Persistent organic pollutants in blood samples of Southern Giant Petrels (Macronectes giganteus) from the South Shetland Islands, Antarctica, publicado em Environmental Pollution, pode ser acessado no endereço http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116304298. 

FONTE: http://agencia.fapesp.br/agrotoxicos_ameacam_colonias_de_aves_da_antartica_/23668/

Seminário discute impactos à saúde do uso intensivo de agrotóxicos no MS

Constatação foi feita no Seminário “Os Impactos dos Agrotóxicos na Sociedade Saúde, Trabalho e Meio Ambiente - Foto: Divulgação assessoria
CINCO CIDADES DE MS ESTÃO ENTRE AS IMPACTADAS POR AGROTÓXICOS CANCERÍGENOS CHAPADÃO É UMA DELAS

Dourados, Chapadão do Sul, Maracaju, Bandeirantes e São Gabriel do Oeste aparecem entre as cidades brasileiras onde o agronegócio causa impactos nocivos à saúde dos trabalhadores e da população por conta do uso intenso de agrotóxicos, apontados por pesquisadores em todo mundo como principal causa da proliferação do câncer. A constatação foi feita no Seminário “Os Impactos dos Agrotóxicos na Sociedade Saúde, Trabalho e Meio Ambiente”, que aconteceu ontem (17), na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul.

Segundo o especialista, pesquisador Doutor Wanderlei Antonio Pignati, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), pesquisas confirmam que a doença está ligada à utilização do agrotóxico nas lavouras. Ele citou as cidades de Lucas do Rio Verde (MT), Rio Verde de Goiás e os municípios sul-mato-grossenses como áreas de risco. “Dourados é grande produtor de algodão com 24 a 30 litros de agrotóxicos por hectare está mergulhado dentro da plantação. Chapadão do Sul também está mergulhado, São Gabriel do Oeste, Bandeirantes e Maracaju, onde todos os córregos e todas as nascentes vão levar a água que vão parar no Pantanal”.

Pignati explica que junto com pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) foram feitos cruzamentos que confirmaram onde há maior incidência da doença é exatamente os locais com maior produção agrícola e maior uso de agrotóxicos.

Pignati adverte que informações apontam contaminação da água potável em MS e MT. “Criança que mora perto da lavoura vai pior na escola, há também  problemas neurológicos e também distúrbios endócrinos”. Ele citou problemas na tireóide, doenças como diabetes, depressão, suicídios e malformação”.

No Brasil, a Fiocruz aguarda financiamento para pesquisas nas áreas da vigilância e saúde. Faltam investimentos no Programa de Analise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimento (Para).

DESAFIOS

O impacto na saúde pública, segundo o pesquisador Luiz Claudio Meirelles, traz comprometimento das futuras gerações. “Impacta sofrimento das pessoas e também impacta o Sistema Único de Saúde (SUS) que tem que tratar essas pessoas. Não existem laboratórios a nível estadual, não tem estrutura para ter conhecimento dos registros. O trabalhador vai adoecendo e não tem atendimento devido. A falta de informações de banco de dados dificulta debate e políticas públicas”, disse Meirelles.

NÃO EXISTE SEGURANÇA

A professora Doutora e pesquisadora do INCA (Instituo Nacional do Câncer), Marcia Sarpa de Campos Mello foi categórica ao afirmar que “não existem limites seguros de exposição”. Ela defende uma força maior do Estado na fiscalização, nos investimentos em pesquisas e prevenção, pois diante do perigo “há um alto potencial de prevenção”.

Segundo ela, Desde 2008, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxico do mundo. Em 2012 o Brasil usou em suas lavouras 1 milhão de litros e  MS ocupa o 8º lugar no País.Ela citou como produtos ainda utilizados e que precisam ser tirados do mercado o Malationa; Diazinona; Glifosato  e 2 -4D. “O Glifozado e o 2- 4 D são apontados como extremamente nocivos pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer”.

A pesquisadora cita a diminuição do sistema imunológico, o nascimentos de crianças com malformação congênita, toxicidade reprodutiva, infertilidade, abortos, mutação (agrotóxicos imitam os hormônios) e o câncer como a segunda causa de morte no mundo como consequências do uso do agrotóxico”. A estimativa feita em 2015 pelo INCA mas que pode ser usado também este ano é de que no Brasil somente em um ano serão detectados  576 mil novos casos de câncer”. “O câncer é um conjunto de manifestações patológicas, doenças celulares invadem outros tecidos e apenas 20% dos casos estão associados a hereditariedade 80% a fatores ambientais”. 

Após Michel Temer autorizar aspersão aérea de agrotóxicos em cidades brasileiras, pesquisa da Uenf avança no controle biológico do Aedes Aegypti

Fonte: ASCOM/Uenf

Quatro dias atrás postei aqui neste blog a informação de que o presidente interino Michel Temer, atendendo as demandas dos fabricantes de agrotóxicos e da bancada ruralista, sancionou o Decreto Lei No. 13.301/ 2016 (Aqui!) que autoriza a pulvarerização aérea de agrotóxicos em cidades brasileiras de ampliar o combate ao mosquito Aedes aegypti.

Pois bem, nesta 5a. feira (07/07), a Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (ASCOM/Uenf) noticiou o desenvolvimento de um método natural de controle do mosquito Aedes aegypti, baseado no ataque de um fungo entomopatogênico (que naturalmente parasita insetos), e que foi criado num processo de cooperação internacional entre um grupo de pesquisa liderado pelo professor Richard Ian Samuels, do Laboratório de Entomologia e Fitopatologia (LEF) do Centro Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA) com cientistas da Universidade de Swansea que se localiza no País de Gales  (Aqui!).

No informe da ASCOM/Uenf é oferecida uma informação impressionante sobre as barreiras que tiveram de ser superadas para a pesquisa poder avançar. É que o trabalho de campo, que vinha sendo feito há cinco anos em São João da Barra, teve que ser transferido para Campos por conta da falta de recursos da Uenf!

Essa é uma informação alvissareira por dois motivos. O primeiro é que apesar de toda a política de desmanche que o (des) governo do Rio de Janeiro vem impondo sobre a Uenf, seus professores e estudantes continuam oferecendo avanços significativos no conhecimento científico, incluindo na área crítica que é o controle de vetores de doenças como o mosquito Aedes aegypti. A segunda boa informação é que o controle biológico poderá ser uma ferramenta mais eficiente e segura do que a oferecida pelo uso de agrotóxicos.

Sul 21: Legislação ambiental está sob forte ataque no Brasil, adverte promotor

sul 21

Audiência Pública Os Agrotóxicos e a (in)segurança alimentar. Foto: Guilherme Santos/Sul21

O Brasil vive um momento crítico também na questão ambiental. A legislação ambiental do país vem sendo atacada fortemente no Congresso Nacional, inclusive com projetos que acabam com a exigência do licenciamento ambiental. O alerta foi feito nesta quarta-feira (8) pelo promotor Daniel Martini, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, durante a audiência pública “Os agrotóxicos e a (in) segurança alimentar”, realizada no Teatro Dante Barone, da Assembleia Legislativa gaúcha. Martini citou como exemplo desse ataque a PEC 65, aprovada recentemente na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, que elimina por completo o licenciamento ambiental em obras públicas.

A reportagem é de Marco Weissheimer, publicada por Sul21

Além das já tradicionais propostas para “modernizar” e “agilizar” a legislação ambiental, tramitam também projetos propondo a mudança da designação de agrotóxicos para “defensivos fitossanitários”, o fim da rotulagem de transgênicos, a retirada de atribuições da Anvisa e do Ibama para fiscalizar esse setor, e a liberação da pulverização aérea em áreas urbanas, entre outros.

No campo fático, acrescentou o promotor, essa realidade não é diferente. “Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, vemos o uso de agrotóxicos não permitidos para determinadas lavouras, como flagramos recentemente com o uso do fungicida Mertin 400 em lavouras de arroz”. Esse produto é proibido para uso em lavoura de arroz irrigado por ser persistente no meio ambiente e altamente tóxico para organismos aquáticos. O Brasil, lembrou Martini, é o campeão mundial no consumo de agrotóxicos, com uma média de 5 litros/ano por habitante. No Rio Grande do Sul, esse consumo chega a 8 litros/ano por habitante. Cerca de 70% dos alimentos consumidos in natura pela população estão contaminados por agrotóxicos e outras substâncias. “O uso de agrotóxicos no Rio Grande do Sul é absolutamente indiscriminado e o poder público é totalmente ineficiente na fiscalização”, assinalou ainda o promotor.

Diante deste cenário, o Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, constituído por 51 entidades, decidiu ampliar o debate sobre o tema e promover também algumas ações de fiscalização. O Fórum, em si, não tem poder de polícia, mas reúne diversas entidades que têm e elas se uniram para realizar uma série de ações que resultaram em interdição de lavouras e aeronaves de pulverização, bem como na apreensão de produtos manuseados ilegalmente ou mesmo contrabandeados. Daniel Martini relatou o resultado de uma semana de operações: 22,5 mil quilos e 1.164 litros de agrotóxicos em situação irregular; 3.500 quilos e 180 litros de agrotóxicos contrabandeados; 35 aeronaves suspensas e R$ 1.125.000,00 em multas aplicadas.

No dia 16 de maio deste ano, informou ainda o promotor, a Promotoria do Meio Ambiente da bacia do Gravataíencaminhou recomendação à Secretaria Estadual do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) solicitando a criação de uma zona de exclusão de pulverização aérea na bacia do rio Gravataí. No dia 20 de maio, disse Martini, a Fepam acatou a recomendação e determinou uma zona de exclusão para pulverização aérea em toda a área do Banhado Grande. “Mas nós seguimos enfrentando muita dificuldade para trabalhar”, ressaltou o promotor. “Não temos um laboratório que nos atenda. Estamos submetidos a um processo, talvez irreversível, que está nos conduzindo a uma situação de insegurança alimentar”, concluiu.

Noedi Rodrigues da Silva, procurador do Ministério Público do Trabalho, afirmou que o panorama envolvendo o uso de agrotóxicos não tem se alterado muito e chamou a atenção para alguns números que preocupam. “Cerca de 70% dos alimentos que consumimos estão, de algum modo, contaminados por agrotóxicos. Um terço disso é de contaminações por agrotóxicos que sequer são permitidos no Brasil”. Na Europa, observou o procurador, está terminando o prazo para o uso de glifosato (30 de junho) e as autoridades da União Europeia vêm dando sinais de que não pretendem renová-lo.

Presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Leonardo Melgarejo também advertiu sobre as ameaças que pairam sobre a legislação ambiental. “O Rio Grande do Sul tem a legislação ambiental mais avançada do país, mas essa legislação também está sob ameaça.

Duas subcomissões da Assembleia Legislativa estão debatendo a ‘modernização’ da legislação estadual com objetivo de adequá-la à legislação federal, que é mais atrasada que a nossa”. Melgarejo citou ainda os projetos do deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP), propondo o fim da rotulagem de produtos contendo transgênicos, e do deputado federal Covati Filho (PP) que propõe que os agrotóxicos passem a ser chamados de “defensivos fitossanitários”.

Na mesma linha, o deputado estadual Edegar Pretto (PT) destacou que a lei gaúcha dos agrotóxicos, aprovada em 1982, volta e meia é atacada por representantes do modelo agrícola de uso intensivo de agrotóxicos. Segundo essa lei, nenhum agrotóxico proibido em seu país de origem pode ser utilizado no Rio Grande do Sul. Citando a proposta deCovati Filho, propondo a mudança da denominação dos agrotóxicos, o deputado ironizou: “Daqui a pouco vão querer que a gente chame os agrotóxicos de remédio das plantas”. Edegar Pretto é autor de projetos que proíbem, no Rio Grande do Sul, a fabricação, uso e comercialização do agrotóxico Diclorofenoxiacético (2,4-D), a pulverização aérea de agrotóxicos, e que estabelece a obrigatoriedade de indicação expressa sobre o uso de agrotóxicos nos produtos alimentares.

Ana Paula Carvalho de Medeiros, Procuradora da República e coordenadora do Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, citou outra proposta do projeto do deputado Covati Filho, o PL 3200/2015 que retira atribuições da Anvisa e do Ibama no processo de liberação de agrotóxicos, concentrando esse processo no Ministério da Agricultura. A coordenadora do Fórum apontou ainda os problemas envolvendo a pulverização de agrotóxicos. “O poder público tem sido completamente omisso no caso da pulverização terrestre. Na área, a legislação até estabelece alguns limites, mas a fiscalização é altamente insuficiente”, assinalou, informando que o Fórum vem trabalhando em uma proposta para um sistema de monitoramento eletrônico das aeronaves, a exemplo do que ocorre com embarcações pesqueiras.

A toxicologista Karen Friedrich, da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontou um problema nos testes realizados pela indústria para avaliar a presença de agrotóxicos em alimentos. Esses testes analisam apenas um produto, não levando em conta as misturas com outras substâncias que também podem estar presentes nos alimentos. A pesquisadora citou o caso de um teste realizado com pimentões que apontou a presença de quatro agrotóxicos diferentes, três deles com efeitos muito semelhantes. Karen Friedrich questionou o que acontecerá se forem liberadas as sementes transgênicas resistentes, ao mesmo tempo, ao glifosato e ao 2,4 D, um dos componentes do agente laranja. “Já temos pesquisas apontando o glifosato como provável cancerígeno e o 2,4 D como possível cancerígeno. O que podemos esperar da combinação desses dois produtos?”

Ainda no terreno dos retrocessos normativos, a toxicologista alertou para a emenda apresentada pelo deputado federalValdir Colatto (PMDB/SC) à MP 712/2016, que prevê uma série de ações de controle de criadouros do mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zika. A emenda que autoriza a pulverização aérea de venenos nas cidades já foi aprovada no Congresso Nacional e está nas mãos de Michel Temer. Caso seja sancionada, estará autorizada, por exemplo, a pulverização aérea de Malation em áreas urbanas, um organofosforado já apontado também como provável cancerígeno. “A pulverização terrestre via fumacê não é eficaz, está desenvolvendo resistência nos mosquitos e fazendo os trabalhadores adoecerem. Essa emenda prevê que os aviões pulverizariam áreas urbanas a uma altura de 40 metros, o que provocaria uma dispersão muito maior que a da pulverização agrícola, quando os aviões voam rente ao solo”, assinalou a pesquisadora.

Representando o Conselho Estadual da Saúde, Ana Vals chamou a atenção para o problema das subnotificações dos casos de intoxicação por agrotóxicos. Ela lembrou que o artigo 269 do Código Penal define como crime o fato de um médico deixar de denunciar à autoridade pública uma doença cuja notificação é compulsória, o que inclui os casos de contaminação por agrotóxicos. No Rio Grande do Sul, a estimativa é de que menos de 2% dos casos de contaminação por agrotóxicos são notificados. “A subnotificação só interessa a quem quer vender veneno. Quando não há notificação, não há investigação e o paciente é maltratado duas vezes”, afirmou.

Ana Vals defendeu, por fim, o cumprimento da proposta aprovada pela 7ª Conferência Estadual da Saúde, realizada em setembro de 2005, que prevê a agilização dos processos de reavaliação dos registros e cadastros de agrotóxicos, visando à proibição de agrotóxicos perigosos, além de investigar os danos causados por essas substâncias ao meio ambiente e às pessoas, entre outras medidas. Além disso, defendeu que os processos de investigação de casos de corrupção no Brasil entrem também no tema dos agrotóxicos, analisando em especial a relação de deputados estaduais e federais com as indústrias multinacionais que controlam esse setor.

FONTE: http://www.sul21.com.br/jornal/legislacao-ambiental-esta-sob-forte-ataque-no-brasil-adverte-promotor/