Satélites da Nasa mostram alta de queimadas junto ao desmatamento

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Por Gustavo Faleiros

Incêndios na Amazônia cresceram 38% este ano. Sete das cidades com mais incêndios também estão na lista daquelas com maior desmatamento. Foto: Imagem do satélite Terra tirada no dia 13 de agosto na região da Transamazônica (sul do Amazonas e Pará)

Apesar das críticas recebidas pela admistração Jair Bolsonaro, os dados do desmatamento do INPE não são os únicos a mostrarem o avanço do corte raso na Amazônia e no Cerrado. Os satélites da Nasa registraram um crescimento de 65% de queimadas no Brasil desde o início de 2019 em comparação com o mesmo período de 2018. Esta alta ocorre principalmente nas regiões Norte e Centro Oeste.

Existe uma relação direta entre o aumento de queimadas e o crescimento do desmatamento. Entre os 10 municípios que registraram maiores queimadas em 2019, sete também estão na lista dos municípios com o maior número de alertas de desmatamento. Os outros três munícipios da lista pertencem ao bioma Cerrado.

Fonte: Programa de Monitoramento de Queimadas e Terra Brasilis – DETER – INPE Descarregar estes dados

Amazônia representa 50,5% dos focos de calor. O Cerrado, 39,1%. A maioria dos estados da Amazônia Legal tem queimadas acima da média histórica. O Acre e o Amazonas declararam situação de emergência por conta das vastas regiões atingidas por fumaça.

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  Fonte: INPE – Satélite de Referência – Aqua/Tarde Descarregar estes dados

Os dados, que são atualizados diariamente, somam 63,3 mil  focos de calor até o dia 14 de agosto . Esse é o mais alto número de queimadas dos últimos sete anos no primeiro semestre. Focos de calor são indicadores de incêndios e são captados pelo satélite Aqua, da agência espacial americana. (Veja mapa em tempo real acima clicando no View Map)

Queimadas ao longo da BR 163, na região central do Pará, afetam unidade de conservação, em especial a Floresta Nacional do Jamanxin. Imagem de 13 de agosto capturada pelo satélite Terra da Nasa.

Em entrevista ao InfoAmazonia, o pesquisador Alberto Setzer, coordenador do Programa de Monitoramento de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), observa que o ano 2019 já acumula um total de focos de calor próximo ao de 2016. Sua avaliação é que ao fim do ano, 2019 possivelmente será igual ou ultrapasse a medida de três anos atrás. Ele explica que a correlação entre queimada e desmatamento é verificada ao longo dos anos, já que sempre se observa qua nos locais onde há aumento do desmatamento existe também uma alta de focos de calor.

“Nos locais em que existe fumaça nas imagens de satélite, não há outra fonte se não o desmatamento”, diz Setzer do INPE.

Onde está queimando mais

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Imagem obtida pelo satélite Terra, da NASA, de Apuí, sul do Amazonas, no último dia 13 de agosto

Apuí no Amazonas é o campeão de queimadas de todo o Brasil. O local representa mais do que nenhum outro município a nova fronteira do desmatamento. Nos dados mais atuais do desmatamento, o sistema Prodes mostra Apuí como o oitavo entre os maiores desmatadores em toda a Amazônia. Entre 2017 e 2018, o crescimento do corte raso em Apuí foi de 161%. O sul do Amazonas, especialmente no entrocamento na Transamazônica (BR-230) e rodovia Porto Velho-Manaus (BR 319) tem sofrido o processo de Rondonização na última década, onde madeireiras do estado ao Sul passaram a migrar para regiões ainda pouco exploradas. A promessa de pavimentação das rodovias amazônicas desde o governo Temer e, agora, reforçada por Bolsonaro impulsiona a especulação por terras públicas. Leia reportagem especial sobre a Rondonização

O número de queimadas em 2019 ainda está abaixo da média, que é gerada pelo INPE a partir de série histórica iniciada em 1998. No entanto, o inevitável crescimento em relação a 2018 confirma uma tendência de alta nas queimadas que vem ocorrendo nos últimos cinco anos. A perspectiva “não é das mais animadoras”, diz Setzer, pois o clima seco deste ano deve acelerar as queimas em agosto e setembro, historicamente os piores meses. As previsão climática emitida em Julho pelo INPE para estes próximos três meses indica precipitação entre 40 a 50% abaixo do normal nas partes centrais e norte da Amazônia

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site InfoAmazonia [Aqui!].

Governo do Amazonas declara emergência por causa do desmatamento e excesso de queimadas

queimadasAmpliação do desmatamento e excesso de queimadas forçam o governo do Amazonas a decretar emergência por 6 meses.

O site UOL publicou hoje (09/08) uma matéria assinada pela jornalista Rosiene Carvalho dando conta que o governo do estado do Amazonas resolveu decretar uma espécie de emergência climática por causa do excesso de desmatamento e focos de incêndio no território do maior estado amazônico brasileiro (ver imagem abaixo).

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Essa decisão de decretar emergência por causa do excesso de desmatamento e focos de incêndio do governo do Amazonas será válido por 6 meses, segundo informa a matéria.  A situação que levou à decretação desta emergência é tida como particularmente grave pelo governo estadual, na medida em que “dados divulgados pelo governo, 1.699 focos de calor foram registrados no Amazonas no primeiro semestre deste ano. A maioria deles (80%) só em julho, período em que há diminuição das chuvas.”

Ainda segundo informa a matéria, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas (Seam) considerou a decretação desta emergência necessária na medida em “função do aumento “exponencial” dos registros dos focos de incêndio em julho.” A Seam informou ainda que “não há previsão no momento de qualquer tipo de pedido de auxílio do governo federal” (Uma medida sábia na medida em que nenhuma ajuda viria, mesmo se fosse solicitada!).

Interessante notar que a Seam informou que “nenhum foco de calor foi registrado em terras indígenas ou unidades de conservação (UC) gerenciadas pelo estado” (do Amazonas)!“.

 E agora Ricardo Salles?

Diante da emergência decretada pelo governo do estado do Amazonas, o qual poderá ser ainda seguido por outros governos estaduais da bacia Amazônica, fica a pergunta: o que fará o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salless, diante da constatação de que a situação chegou a um ponto tão grave que um ente federativo decretou emergência por causa do excesso de desmatamento e incêndios?

Como já apontei várias vezes aqui neste blog, as tentativas de ocultar a situação catastrófica que está sendo criada na Amazônia brasileira com a permissão tácita de desmatamentos em larga escala e ações de degradação por parte de madeireiros e garimpeiros ilegais não seria facilmente encoberta, pois é difícil tampar o sol com a peneira.

A postura de demitir o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o físico Ricardo Galvão), pode ter servido para distrair a atenção por alguns dias, mas essa notícia vinda do Amazonas torna toda a lambança criada pelo governo Bolsonaro em torno dos dados de desmatamento uma completa inutilidade.

E como também já tenho escrito aqui, o tempo para o governo brasileiro brincar de vilão climático poderá bem mais curto do que antecipam seus membros. O fato é que os governos das economias centrais terão de agir sob pressão de suas populações para conter o caos climático que o desmatamento da Amazônia acelerará. E aí já se pode antecipar para onde a corda irá arrebentar. 

Unidades de conservação como a nova fronteira do desmatamento na Amazônia brasileira

Em 2005 eu e um grupo de colegas publicamos um artigo na respeitada revista “Environmental Conservation” em que apontávamos o fato de que as unidades de conservação  (UCs) existentes no estado de Rondônia estavam se transformando numa nova fronteira do desmatamento que as colocaria sob sério risco de extinção (Aqui!).

Como um dos idealizadores do artigo acreditava que estávamos dando uma importante contribuição para soar um alarme em torno dos riscos a que estavam expostos diferentes tipos de unidades em função da pressão crescente representada pela ação ilegal de madeireiros, mineradores e, ainda, grileiros de terras.

No entanto, o artigo acabou não tendo a repercussão esperada na comunidade científica, pois muitos pesquisadores atuando principalmente na região Amazônica decidiram adotar um modelo de ciência que eu rotulo de “normativa” onde as evidências empíricas são trocadas por visões pré-estabelecidas de como a realidade deveria operar. Em função disso, ao longo da última década ficou disseminada  a ideia equivocada de que os problemas em torno das unidades conservação e da proteção aos biomas que eles resguardam estava guarantida por um modelo de governança onde a ação contínua dos órgãos de fiscalização era substituída por “acordo de cavalheiros” que deixavam as UCs incólumes.

Em Dezembro de 2015 tive a oportunidade de contestar essa visão de que tudo estava “dominado” na Amazônia com a simples demarcação de UCs e o estabelecimento de mecanismos de governança numa reunião científica realizada no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.  Afirmei então que a noção de que o desmatamento estava “domado” na Amazônia brasileira era mais um  exemplo “wishful thinking” do que um dado da realidade. Lembro ainda no intervalo do café de um colega que me disse ter gostado da minha apresentação, mas que minha fala tinha sido “um tanto forte”.  Em outras palavras, eu tinha pegado pesado demais, e logo ali no INPE, o órgão oficial dos cálculos do desmatamento no Brasil.

Pois bem, hoje (18/03) o jornal “O ESTADO DE SÃO PAULO” está publicando uma excelente matéria assinada pela jornalista Giovana Girardi sob o título “Desmatamento cresce em Unidades de Conservação no meio da Amazônia” onde fica demonstrado que o que prevíamos em 2005 para Rondônia está ocorrendo também em outros estados amazônicos, especialmente no Pará (Aqui!).

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O que fica explícito na matéria é que depois de anos de ação mais subliminar durante o período dos governos Lula e Dilma Rousseff, os agentes responsáveis pelo processo de desmatamento decidiram aproveitar o clima de “desregulamentação” predominante no governo “de facto” de Michel Temer para tentar extrair rapidamente a maior quantidade de recursos das áreas sob proteção.  E, convenhamos, jogando no lixo qualquer pudor que possa haver em relação às reações mundiais sobre o retorno de fortes taxas anuais de desmatamento na Amazônia.

A síntese dessa novela é tragicamente simples: estamos diante de uma nova corrida em que está predominando as formas mais degradantes de extração de riquezas que marcam as economias de fronteira. Também, pudera, como mostrou essa semana o Instituto Socioambiental no caso de uma UC no estado do Amazonas, os saqueadores, ou seus representantes, estão presentes até no Senado Federal (Aqui!).

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Finalmente,  voltando ao artigo de 2005, um dos benefícios da ciência é que ela pode nos fornecer bons modelos de previsão do futuro, os quais resistem até às visões normativas que eventualmente sejam sobrepostas à realidade empírica. E nessa hora podemos separar o joio do trigo, o que nos possibilita caminhar de forma mais sólida nas buscas de soluções.  E no caso das UCs na Amazônia, o problema é que precisamos caminhar rápida. Do contrário, no ritmo que vai, não vai sobrar nada para ser protegido.

ISA: Mineradoras, latifundiários e senador seriam beneficiados por redução de reservas no Amazonas

Levantamento inédito do ISA mostra que grandes interesses econômicos podem sair ganhando com proposta de políticos amazonenses

Por Instituto Socioambiental

Diferentemente do que dizem políticos do Amazonas, existem grandes interesses econômicos por trás da proposta de reduzir a área para conservação, na região de Apuí, no sul do Estado. É o que revela um levantamento inédito do Programa de Monitoramento de Áreas Protegidas do ISA (veja o mapa abaixo e acesse a nota técnica ).

Parlamentares, prefeitos e a Federação de Agricultura e Pecuária do Amazonas (FAEA) insistem que a implantação de Unidades de Conservação (UCs) na região vai expulsar principalmente pequenos agricultores. Se a ideia de retalhar essas áreas sair do papel, um projeto hidrelétrico do senador Ivo Cassol (PP-RO), mineradoras nacionais e estrangeiras, latifundiários e, provavelmente, grileiros de terra podem ser beneficiados.

Mapa com todos os interesses sobre as UCs

Em fevereiro, o ISA noticiou que um movimento encabeçado pela bancada amazonense no Congresso articulava com a Casa Civil a elaboração de um projeto de lei para extinguir a Área de Proteção Ambiental (APA) de Campos de Manicoré, diminuir o Parque Nacional (Parna) do Acari, a Reserva Biológica (Rebio) de Manicoré, as florestas nacionais (Flonas) de Urupadi e Aripuanã, todas criadas em maio de 2016.

A área protegida total cairia de 2,6 milhões de hectares para 1,6 milhão de hectares, um decréscimo de 65%. O território perdido para a conservação, de 1 milhão de hectares, equivale à metade do estado de Sergipe (saiba mais).

Pressão

Na semana passada, os políticos amazonenses reuniram-se com o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho. A conversa resultou na instituição de um grupo de trabalho, com técnicos do governo e representantes dos parlamentares, para analisar o caso. No início de abril, os dois lados tentarão chegar a um acordo num novo encontro. Pego de surpresa pelas articulações com outra pasta, Sarney resiste à ideia, mas a pressão é muito forte.

Cachoeira do Rio Camaiu, no Parque Nacional do Acari

Os técnicos do Ministério do Meio Ambiente (MMA) explicam que o desenho final das UCs deixou de fora delas estradas, vários empreendimentos e ocupações consideradas legítimas. Lembram também que, com exceção da Rebio, as reservas permitem atividades econômicas, como a produção agropecuária, mineração, manejo florestal e turismo.

“Ninguém está criando UCs em cima de uma ocupação antiga. Ouvimos muito esse discurso. Não é isso”, afirma a secretária de Biodiversidade e Florestas do MMA na época em que as unidades foram instituídas, Ana Cristina Barros. Ela conta que as negociações com o governo e políticos amazonenses, população local e outros ministérios foram exaustivas. O MMA teria cedido em vários pontos.

O senador Omar Aziz (PSD-AM) discorda e diz que as tratativas foram atropeladas. Para ele, a decretação das UCs, no último dia de mandato de Dilma Rousseff, teria sido uma represália aos parlamentares do Amazonas que votaram pelo impeachment. Aziz reafirma que os principais prejudicados com as UCs seriam pequenos produtores rurais instalados na região há décadas. “Não existe grande agricultor no Amazonas. Não temos grandes plantações”, diz.

“Esse movimento não é um fato isolado, mas faz parte de uma estratégia com várias frentes, operada por setores do agronegócio, mineração e produção de energia, para fragilizar o Sistema Nacional de UCs”, denuncia a coordenadora de Política e Direito do ISA, Adriana Ramos. “Considerando a atual retomada do desmatamento, essa proposta demonstra falta de responsabilidade e compromisso com a conservação. O governo federal deveria ser o principal interessado em fortalecer seu principal instrumento de combate ao desflorestamento, que é a criação de UCs, conforme reconhece a nova versão do próprio Plano de Combate ao Desmatamento na Amazônia”, completa.

Ivo Cassol

Se o território atual do Parna for mantido, Ivo Cassol perderá, logo de cara, pelo menos R$ 1,2 milhão, gasto no estudo de inventário hidrelétrico do Rio Acari, que corta a área. A usina prevista foi estimada em até R$ 700 milhões. Conforme a legislação, os parques não permitem empreendimentos ou atividades econômicas em seu interior, a não ser o turismo.

O parlamentar lembra que o estudo foi apresentado pela primeira vez em 2012, antes da decretação das reservas ambientais. De acordo com ele, sua empresa, a Eletrossol, reapresentou à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) o inventário, em fevereiro deste ano, nove meses após a criação do parque, para não perder automaticamente esse investimento inicial. Caso o governo resolva diminuir a UC, autorize a barragem e outra empresa ganhe a concessão da hidrelétrica, ela será obrigada a ressarcir a Eletrossol.

Cachoeira no Rio Acari, onde está prevista usina hidrelétrica

O senador minimiza seu interesse no empreendimento porque a Aneel, ao analisar o caso, teria recomendado um projeto com potencial de geração de 140 MW, enquanto a Eletrossol explora hoje apenas usinas de até 30 MW. O desenho proposto pelos parlamentares amazonenses, no entanto, exclui cirurgicamente todo o leito do Rio Acari no parque nacional.

Cassol defende a proposta de redução das reservas, mas nega que esteja participando das negociações para viabilizá-la. “É melhor uma redução sem litígio do que se criar expectativas e deixarmos esse povo abandonado”, afirma, referindo-se às comunidades locais.

Mineração

Mapa de interesses minerários

O levantamento do ISA mostra que há 205 pedidos e autorizações de pesquisa e exploração protocolados no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) cujos polígonos estão sobrepostos às UCs. Desse total, mais da metade incide sobre os trechos que os políticos pretendem desproteger. Os processos têm como alvo a exploração de vários minérios, mas a imensa maioria visa a extração de ouro.

O caso que chama mais atenção é o do Parna do Acari. O desenho proposto pelos parlamentares e a Casa Civil exclui de seu território quase com exatidão os polígonos dos 49 processos minerários sobrepostos ao parque (veja o mapa). Entre os interessados, estão pessoas físicas, cooperativas de garimpeiros, pequenas e médias mineradoras, algumas de capital estrangeiro. A BBX do Brasil é subsidiária da australiana BBX Minerals e a BMIX está vinculada à norte-americana Brazil Minerals Inc., por exemplo.

Daniel Geyerhahn Garcia e Luiz Fernando Lacerda Silva deram entrada a 32 desses processos minerários. Eles detêm sobretudo permissões de lavra garimpeira. Nos documentos de criação das UCs, os dois são identificados como representantes da empresa Goldmen Group.

Garcia esteve na reunião no MMA. Depois de seu encerramento, defendeu a redução do Parna ou sua transformação numa Flona, que permite a mineração, para técnicos do ministério. Ele informou que suas autorizações foram concedidas antes da criação das reservas e que tem a licença ambiental de operação concedida pelo governo do Amazonas para começar o empreendimento. Garcia disse que só daria entrevistas depois da nova reunião marcada por Sarney Filho.

Em um ofício encaminhado, em maio de 2015, ao Instituto Chico Mendes de Conservação de Biodiversidade (ICMBio) e anexado ao processo de criação das UCs, Garcia adverte que até então gastara R$ 2 milhões com pesquisas e burocracia para tirar do papel seu negócio. A BBX teria investido R$ 2,6 milhões. Um parecer de Garcia também anexado à papelada menciona que a mineração envolve “altos investimentos na região para a extração de cobre e ouro em uma área com potencial de ser uma mina de classe mundial”. O documento diz ainda que “Apuí se tornará no (sic) Carajás de ouro e cobre do Amazonas, desde que haja condições de se continuar a fazer pesquisa mineral na região”.

Latifúndios gigantescos

Mapa dos CAR sobrpostos às UCs

O levantamento do ISA sobre os Cadastros Ambientais Rurais (CARs) registrados na região mostra que latifundiários e, provavelmente, grileiros podem ser beneficiados pela redução das UCs, ao contrário do que defendem os parlamentares.

Conforme a análise, existem 162 áreas cadastradas incidentes sobre as cinco reservas, dos quais 134 estão sobrepostas a trechos com propostas de exclusão. A área média dos imóveis nesses trechos é de 6,2 mil hectares, ou seja, terras que, se não forem protegidas, poderão ser desmatadas e transformadas em latifúndios gigantescos.

Previsto pelo Código Florestal de 2012, o CAR pretende viabilizar a regularização ambiental das propriedades rurais por meio do registro das áreas desmatadas e das que devem ser reflorestadas. Ele é uma arma importante no combate ao desmatamento ilegal. De acordo com a Lei, o cadastro é autodeclaratório, feito pela internet e não tem nenhum valor para fins de regularização fundiária.

Em regiões com conflitos de terras, como a Amazônia, no entanto, o CAR tem sido usado por grileiros para tentar comprovar a posse da terra. A chance de que isso esteja acontecendo no sul do Amazonas é muito grande, segundo especialistas e técnicos do governo ouvidos pela reportagem. E não só pelo tamanho das áreas cadastradas.

Entre os 11 maiores CARs registrados sobrepostos às UCs, três deles foram feitos após 12/5/2015, quando elas foram decretadas. O maior foi feito em outubro, quase cinco meses depois, e tem inimagináveis 250 mil hectares, o equivalente a mais de uma vez e meia a extensão da cidade de São Paulo. O cadastro sobrepõe-se ao Parna do Acari e à Estação Ecológica do Alto Maués, além das flonas de Urupadi e de Pau Rosa. Os outros dois cadastros têm 70 mil hectares e 20 mil hectares.

O registro do CAR numa área protegida federal é outro indício de que se trata de uma tentativa de grilagem – talvez motivada pela expectativa de desproteção da terra. Outro argumento a favor das UCs é justamente o de que toda a região foi avaliada pelo Programa Terra Legal durante dois anos. Em 2014, três milhões de hectares foram identificados como terras federais e destinados ao MMA. Daí a criação das reservas.

“Querem oficializar a grilagem. Isso abre um precedente seríssimo para as outras regiões. Não tem explicação, não tem cabimento”, disse a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, em entrevista ao Observatório do Clima.

O presidente da FAEA, Muni Lourenço Silva Júnior, considera que, ao transferir as terras para o MMA, o governo federal desconsiderou processos de regularização em andamento. “A grande parcela, quase absoluta, do universo desses produtores, dessas famílias rurais existentes na região não se confunde com grileiros. Pelo contrário, são pessoas que boa parte delas tem protocolos na mão de pedidos de regularização junto ao Terra Legal, mas que não foram concluídos até o momento por motivos alheios à vontade desse cidadão”, conclui.

FONTE: https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/mineradoras-latifundiarios-e-senador-seriam-beneficiados-por-reducao-de-reservas-no-amazonas

Operação liberta 50 pessoas em situação de escravidão em garimpo ilegal, no AM

Operação realizada pela Polícia Federal, Exército e Ibama desmantelou exploração ilegal de ouro no garimpo Filão dos Abacaxis.

Girlene Medeiros – DEZ Minutos /

Garimpo foi destruído em um local a 150 km de Maués.Foto: Divulgação/Polícia Federal

Manaus Uma operação conjunta, realizada na quinta-feira (17) e sexta-feira (18), entre Polícia Federal (PF), Exército Brasileiro e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), desarticulou uma organização criminosa que fazia lavagem de dinheiro, decorrente de exploração ilegal de ouro, no garimpo Filão dos Abacaxis, no meio da Floresta Amazônica, em um local a 150 km de Maués (distante 276 km de Manaus). Pelo menos, 50 pessoas trabalhavam em situação análoga a trabalho escravo. As informações são da delegada Anelise Koerich, chefe substituta da delegacia ambiental da PF.  

Segundo a delegada, um homem, natural do estado de Santa Catarina (SC) e de identidade não divulgada, foi preso. Outros dois sócios da organização são do Amazonas e estão sendo procurados pela PF. Um quarto associado ao grupo criminoso também está sendo investigado. 

De acordo com a delegada Anelise, da PF, foram encontrados, pelo menos, 50 trabalhadores em situação semelhante a trabalho escravo. “Eles estavam há mais de seis meses sem receber e não tinham como sair de lá. Como é uma área de difícil acesso, só podiam sair com a ajuda do proprietário do garimpo”, explicou a delegada, mencionando que parte dos trabalhadores são de Manaus e Nova Olinda do Norte (distante 135 de Manaus).

200kg de ouro extraídos de garimpo

O garimpo tem 70 hectares (o equivalente a 70 campos de futebol) e está localizado em uma das principais áreas fonte de ouro no Amazonas atualmente, de acordo com a delegada da PF. A organização criminosa estava sendo investigada, desde 2012, após denúncia feita à PF.

A delegada acredita que, desde essa época, a organização criminosa extraiu mais de 200 quilos de ouro do garimpo, o que equivale a mais de R$ 27 milhões do patrimônio da União apossado pelos criminosos. Segundo Anelise, eles usavam uma empresa mineradora, de nome não divulgado, para lavar o dinheiro.

“Bloqueamos R$ 30 milhões nas contas bancárias dos envolvidos. São 15 investigados. Os criminosos atuavam em parceria com a empresa, mas não podemos passar mais detalhes de como faziam a lavagem do dinheiro, porque as investigações estão em segredo de justiça”, afirmou a delegada. De acordo com a assessoria de imprensa da PF, foi verificada movimentação de R$ 12 milhões, em menos de um ano, na conta bancária de uma das secretárias da empresa mineradora investigada. 

Explosão para destruir garimpo

O sócio do grupo explorador ilegal do ouro que foi preso também possui empresas de maquinários pesados e transporte de carga em Santa Catarina. De acordo com a investigação da PF, a empresa mineradora tem sede em Manaus e filiais fantasmas em SC. O preso foi levado ao Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), no km 8 da BR-174 (Manaus-Boa Vista). A prisão foi decretada pela 7ª Vara Federal do Amazonas. 

Segundo a delegada Anelise, o garimpo possuía alojamentos bem estruturados que, juntamente com os maquinários, foram explodidos. O tenente-coronel Fábio Costa, do 4º Batalhão de Aviação do Exército (Bavex), explicou que 100 kg de explosivos foram utilizados para destruir o garimpo, maquinários e duas pistas de pouso, de 60 metros de extensão. “Vai ser bem difícil algum helicóptero conseguir aterrissar no local”, garantiu Costa. 

De acordo com a fiscal do Ibama, Tatiane Leite, a exploração ilegal do ouro provocou a supressão da vegetação local e assoreamento dos córregos e contaminação do Rio Urupadi, próximo à Bacia do Rio Tapajós. “Foi detectada presença de mercúrio e cianeto. A recuperação do local será muito lenta e é possível que, em algum momento, a água contaminada seja captada para a comunidade perto do garimpo”, afirmou a fiscal do Ibama, acrescentando que o órgão fará análise do solo local para verificar detalhadamente os impactos.

FONTE: http://new.d24am.com/noticias/amazonas/operacao-liberta-50-pessoas-situacao-escravidao-garimpo-ilegal/140252