Com o Brasil transformado em pária ambiental, grande capital pede mudança de rumos para evitar boicotes

bolsonaroCampanha de boicote a produtos comerciais oriundos do Brasil que é promovida na Alemanha já atingiu mais de 380 mil assinaturas, colocando pressão nas redes de supermercado que compram carne produzida na Amazônia

Desde 2016 venho apontando para o fato de que os retrocessos que estavam sendo impostos à governança ambiental e às estruturas de comando e controle existentes para diminuir o saque das riquezas naturais amazônicas iriam transformar o Brasil em um pária na comunidade global.  Talvez por eu ser apenas um professor de uma pequena universidade localizada no interior do Rio de Janeiro, os meus alertas sempre ficaram restritos aos leitores deste blog.   Lembro que no dia 15 de agosto de 2016, escrevi uma postagem intitulada “Quem ganha se o Brasil virar um pária ambiental? A resposta é óbvia, os de sempre“, sem que eu tivesse nenhum intuito de jogar o papel de oráculo, mas onde sugeri a possibilidade de que ocorre um boicote aos produtos brasileiros por causa dos retrocessos ambientais que estavam ocorrendo.

Erro
Este vídeo não existe

Em 2019 o Brasil recebeu o nada lustroso prêmio de “Fóssil do Ano”  dueante a COP 24 realizada em Madrid.  A “distinção” é oferecida por organizações ambientais aos países que menos contribuíram para um acordo na Conferência do Clima das Nações Unidas. 

Enquanto isso, testemunhei o quase completo silêncio da mídia corporativa brasileira, salvo alguns heróicos jornalistas que continuaram fazendo trabalhos mostrando o avanço da degradação e do desmatamento, sobre a desconstrução de um sistema de proteção ambiental que foi iniciado no governo militar de Emílio Garrastazu Médici. Pois bem, agora que grandes fundos de investimentos e governos nacionais estão agindo para bloquear investimentos e compra de commodities parece que “the hell broke loose” (ou em bom português,  o inferno se soltou).

É que a partir da reunião realizada pelo vice-presidente Hamilton com representantes do grande capital nacional e internacional que atuam no Brasil, três grandes veículos da mídia corporativa brasileira (i.e., Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O Globo) publicaram matérias que sinalizam o desespero expresso pelos representantes das corporações em relação à reação que está ocorrendo contra a transformação do Brasil em um pária ambiental, especialmente no tocante à destruição dos ambientes amazônicos (ver imagens abaixo).

A reação inicial do governo Bolsonaro, explicitado pelas respostas oferecidas pelo vice-presidente Hamilton Mourão, tem sido dúbia. É que, por um lado, Mourão diz que a crise causada pela destruição da Amazônia advém da falta de conhecimento dos estrangeiros sobre a região e, por outro, que as ações que ele vem tomando para conter o avanço do desmatamento já surtiram efeito, mas só serão corretamente visualizados em 2021 quando os números foram fechados.

Mas há mais do que dubiedade no governo Bolsonaro em relação ao que efetivamente está ocorrendo na Amazônia. É que enquanto o vice-presidente apresenta uma fachada que simula entendimento acerca das preocupações explicitadas pelos representantes do grande capital, inclusive os do agronegócio exportador, Ricardo Salles continua abrindo a porteira para que Tereza Cristina possa passar a boiada. Isso fica claro no vídeo promocional, muito bem feito por sinal, que foi preparado para mostrar uma realidade idílica sobre a relação entre produção agrícola e proteção ambiental no Brasil (ver abaixo).

Esse vídeo, que obviamente poderá enganar os incautos ou os predispostos a serem enganados, é uma demonstração inequívoca de que o governo Bolsonaro não pretende mudar uma vírgula do que está sendo feito na Amazônia.  Mas desde já, é também óbvio que a circulação dele servirá apenas para irritar quem acompanha a situação ambiental no Brasil a partir, por exemplo, de evidências sólidas apontando o contrário, e que podem ser facilmente acessadas nas melhores publicações científicas. E dentre os que acessam essas informações estão inclusos os CEOs dos mesmos fundos de investimento que estão ameaçando retirar todos os seus investimentos do Brasil.

Em outras palavras, se o governo Bolsonaro tentar insistir em negar o óbvio ululante, e que será tornado ainda mais óbvio quando o pico da estação das queimadas for alcançado em 2020, o mais provável que o rótulo de pária ambiental seja ainda mais impresso na testa das commodities brasileiras, o que demandará ainda mais tempo e conversa para mudar o cenário. E como Ricardo Salles já perdeu toda e qualquer credibilidade para convencer os parceiros comerciais e financeiros do Brasil de que estão enganados, a primeira coisa que teria de ser feita seria o presidente Jair Bolsonaro demitir um dos seus ministros favoritos. Coisa que Bolsonaro só fará se as ameaças de retaliações contra o Brasil saírem do plano do discurso para a ação concreta, o que implicaria em perdas bilionárias para a economia brasileira.

Mas que ninguém se engane: seja lá por quais motivos forem, o Brasil já é considerado um pária ambiental até pelos grandes especuladores financeiros que comandam a economia globalizada.  E mudar isso não será tão fácil quanto foi chegar ao que ponto que chegamos.

 

Enquanto a boiada passa, governo Bolsonaro apresenta versão “para inglês ver” do agronegócio predatório

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina-1024x585Dupla bem azeitada: enquanto Ricardo Salles deixa a porteira escancarada, Tereza Cristina continua passando a boiada.

Diga o que se disser da ministra Tereza Cristina, também conhecida como a musa do Veneno, ninguém pode dizer que ela não é uma pessoa que comanda o ministério da Agricultura do governo Bolsonaro com o devido grau de criatividade, no melhor estilo do mascate que vende gelo para esquimó.

Vejam abaixo, por exemplo, o vídeo produzido pelo Ministério da Agricultura em língua inglesa para vender uma imagem de responsabilidade ambiental e de alta inovação tecnológica da setor agropecuário brasileiro.

Erro
Este vídeo não existe

Se não soubéssemos do números recordes de desmatamento que estão ocorrendo em todos os biomas florestais brasileiros e da enxurrada de agrotóxicos altamente venenosos que foram liberados sob a batuta de Tereza Cristina, as imagens lúdicas e potencialmente inebriantes que são mostrados no vídeo fariam até os mais aguerridos dos críticos vacilarem por um momento.

O problema é que nós e o resto do mundo sabemos que essa vídeo pago pelo dinheiro público apresenta uma versão para lá de fantasiosa da realidade, e que brevemente os rolos de fumaça que subirão na Amazônia brasileira tratarão de mostrar a distância entre a propaganda e a realidade.

Mas vá lá. se algum incauto caia na conversa e resolva investir em uma agricultura que só existe nos estúdios que produziram a miragem acima, Tereza Cristina e sua equipe poderão continuar passando a boiada pela porteira que Ricardo Salles deixou aberta.

Mourão falha e desmatamento mantém viés de alta na Amazônia

Dados confirmam recorde para junho e a maior área acumulada em alertas para o período fiscal desde 2008

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Área desmatada de 1.022 ha na APA Triunfo do Xingu, na cidade de São Félix do Xingu, no Pará, com alerta de desmatamento do Deter detectado entre agosto de 2019 a junho de 2020

Por Karen Mota para o Greenpeace

São Paulo, 10 de julho, de 2020 – O desmatamento segue alcançando níveis alarmantes na floresta Amazônica, é o que comprova os dados do sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje. Os dados apontam alertas de desmatamento em uma área de 1.034 km² para junho, um aumento de 11% em relação ao mesmo mês do ano passado (935km²) e representam o pior junho desde 2007. Apesar dos números crescentes, o governo federal segue ineficaz em lidar com o problema, dando assim, prosseguimento à sua política antiambiental que fragilizou órgãos de fiscalização, como Ibama e ICMBio, enquanto prevê uma grande quantidade de recursos para operações militares ineficazes, sob comando do vice-presidente Hamilton Mourão.

A opção do governo em não adotar um plano concreto para impedir o desmatamento e as queimadas na Amazônia, além de colocar vidas em risco, também aumenta dramaticamente a vulnerabilidade econômica do Brasil. Isto é cada vez mais visível na relutância de alguns países europeus a acordos comerciais com o Brasil, e nas cartas enviadas ao governo brasileiro por representantes de países, investidores e empresas internacionais pedindo ações concretas para a defesa da maior floresta tropical do planeta.

A reação do governo às pressões é esconder o problema atrás de uma cortina feita de campanha publicitária, viagens e ações de fachada. “Mitigar e reverter os danos causados por esta política anti-ambiental à floresta e à imagem do país exigirá muito mais: precisamos de resultados concretos, e para isso será necessário um plano robusto para conter tamanha destruição, na linha do que foi o PPCDAM – a começar por ações de comando e controle em caráter permanente e executadas por órgãos competentes e bem aparelhados. Este é um caminho – já conhecido – que este governo insiste em ignorar”, afirma Cristiane Mazzetti, da campanha de Amazônia do Greenpeace. “Os números crescentes estampam a verdade, se enganam aqueles que aceitarem o que foi apresentado pelo governo até então como uma garantia de mudança de cenário”, completa.

A destruição avança com velocidade assustadora até mesmo em áreas protegidas (Unidades de Conservação e Terras Indígenas). Cerca de 67% do garimpo realizado na Amazônia no mês de junho ocorreu dentro dessas áreas. Foram desmatados 387 hectares para realização de garimpo em Terras Indígenas e 1.021 hectares em Unidades de Conservação somente no mês de junho. “Em meio a pior pandemia do século, nem mesmo o desastre ambiental de 2019 e a repercussão internacional do descaso do governo brasileiro com seu maior patrimônio natural e com os povos indígenas, parecem ser o bastante para fazer com que medidas concretas e inteligentes sejam tomadas para combater o crime na floresta”, avalia Cristiane.

imagens amazoniaApui, Amazonas Rodovia Transamazônica. À esquerda área em 28/03/2020 e à direita estado da área em 16/06/2020.

O Deter aponta a tendência da taxa oficial de desmatamento (Prodes), mesmo sem o último mês do chamado “ano fiscal do desmatamento”, medido entre os meses de agosto e julho, a área com alertas já soma 7.540km² (agosto de 2019-junho de 2020) 10% de crescimento em comparação com o ano anterior fechado (6.844km² entre agosto de 2018 e junho 2019), é o maior acumulado para o período fiscal desde 2008. Como resultado já esperado deste cenário, a taxa oficial do desmatamento, que ultrapassou os 10.000 km² em 2019, tende a ser ainda maior em 2020. “Não temos mais tempo a perder, os dados estão evidenciando o rastro do fogo, é urgente a adoção de ações verdadeiramente eficazes para garantir a integridade da floresta e a vida daqueles que nela residem”, completa Cristiane.

Governo Bolsonaro alimenta a “grande mentira verde” sobre a Amazônia, mas não tem como parar a ciência

bbc great green lieDesmatamento é apenas um dos vetores na destruição dos ecossistemas amazônicos

No 13 de fevereiro, a rede BBC publicou uma interessante matéria assinada pela jornalista Camilla Costa e que foi intitulada “A grande mentira verde’: como a destruição da Amazônia vai além do desmatamento“. Nesta matéria, muito bem escrita por sinal, Camilla Costa apresentou dados importantes para desmistificar a alegação fantasiosa de que a Amazônia brasileira ainda possui algo em torno de 80% de suas florestas intactas. Nessa matéria foram ouvidos pesquisadores com larga experiência nos processos de alteração da paisagem amazônica, os quais explicaram que o desmatamento é apenas um dos vetores. Aliás, se alguém tiver interesse em entender, por exemplo, a extensão das alterações causadas por atividades de extração de madeira, sugiro a leitura do artigo científico em que sou um dos co-autores, publicado em 2010 pela Remote Sensing.

Mas ainda que outros governos tenham se valido da “grande mentira verde”, o governo Bolsonaro está se esmerando no uso da fantasia de que 80% das florestas amazônicas ainda estão intactas para ver se é possível tampar, digamos, a fumaça com a peneira. Assim, apenas nas últimas 24 horas tivemos declarações estapafúrdias do vice-presidente Hamilton Mourão e do ministro das Comunicações, Fábio Faria (PSD/RN) centradas na repetição ad infinitum da grande mentira verde.

A primeira menção tem que ser feita ao vice-presidente Hamilton Mourão que tenta responder à crescentes pressões para a adoção de medidas de contenção do avanço desenfreado do desmatamento na Amazônia. Em matéria publicada pelo site UOL, é informado que Hamilton Mourão participou ontem de uma reunião com representantes de fundos estrangeiros, quando teria comparado as cobranças feitas para proteção dos ecossistemas amazônicos a uma conversa de bêbados, pois os dados do desmatamento de 2020 só ficarão disponíveis em 2021, e até lá cada um vai dizer o que quiser.  E usando um subterfúgio decorrente da “grande mentira verde”,  Hamilton Mourão teria apelado para a alegação de que a Amazônia é grande demais para ser corretamente entendida por estrangeiros.

Já o ministro das Comunicações, Fábio Faria, em entrevista à rede CNN Brasil, também usou a metáfora do tamanho da Amazônia para diminuir os impactos do desmatamento, e se serviu do argumento da “grande mentira verde” para sugerir que a ênfase na dimensão dos desmatamentos serve apenas para encobrir que se pode voar a Amazônia por 3 horas e enxergar grandes extensões de Mata Atlântica (se não acreditar, veja o vídeo abaixo).

Apesar de haver uma distância entre as falas, já que o ministro da Comunicação mostra completa ignorância sobre o tipo de vegetação que cobre a Amazônia, a verde é que tanto Fábio Faria quanto Hamilton Mourão estão insistindo no uso de uma versão fantasiosa sobre o grau de perturbação ambiental que já causa alterações ambientais significativas na Amazônia brasileira, as quais terão impactos não apenas sobre os padrões climáticos regionais, mas também globais.

Como já mencionei recentemente, existem estudos em processos de avaliação para publicação em revistas científicas altamente valorizadas pela comunidade científica que irão acabar de uma vez por todas com a “grande mentira verde”. E ao contrário do que esperam Hamilton Mourão e Fábio Faria ao veicular seu negacionismo amazônico, governos estrangeiros e grandes fundos de investimento irão se pautar suas relações comerciais e financeiras com o Brasil com base no que estes estudos vão mostrar. Em outras palavras,  o prazo de validade da “grande mentira verde” para permitir o avanço da destruição dos ecossistemas amazônicos está com os dias contados. 

Relatório alerta o Congresso dos EUA para erosão da democracia e precarização da proteção ambiental no Brasil

trump bolsonaroDocumento aponta que nem a proximidade entre Donald Trump e Jair Bolsonaro apaga problemas potenciais para boas relações entre os EUA e o Brasil

Um documento intitulado “Brazil_ Background and U.S. Relations” que foi preparado pelo Congressional Research Service, corpo técnico que assessora o congresso dos EUA, apresenta uma avaliação sobre as relações políticas, econômicas e de cooperação com o Brasil em tintas que diferem em grande parte da imagem otimista que o governo Bolsonaro, pelas vozes de Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo, o chanceler que considera as mudanças climáticas um complô marxista) , sempre tenta apresentar.

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Assinado por Peter J. Mayer, especialista em assuntos para a América Latina, o documento cobre uma série de áreas, incluindo o papel do governo Bolsonaro e a situação da democracia brasileira, a situação de descontrole da pandemia da COVID-19, o  avanço explosivo do desmatamento na Amazônia, e ainda a incapacidade do Brasil de atender as metas do Acordo Climático de Paris.

Em cada uma das grandes áreas abordadas no relatório preparado por Peter Mayer, o que emerge é uma análise crítica da situação da governabilidade do Brasil e da aparente incapacidade do governo Bolsonaro em cumprir metas que retirem o nosso país do processo recessivo em que se encontra há pelo menos quatro anos, e da deterioração dos processos de governança democrática, e também do desmanche das estruturas de comando e controle que impediam o avanço da devastação na Amazônia brasileira. Um elemento ilustrativo é o gráfico abaixo mostrando a evolução do desmatamento na Amazônia Legal.

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No tocante às relações diplomáticas entre os EUA e o Brasil, o relatório indica que a aparente melhora causada pela proximidade entre os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro seja vista com cuidado, visto que há a possibilidade de que “o padrão histórico dos EUA-Brasil nas quais expectativas aumentadas dão lugar a decepções e desconfianças mútuas” possa ser repetido.

Por outro lado,  aponta para a “erosão da democracia, dos direitos humanos e da proteção ambiental” que estão ocorrendo sob a égide do governo Bolsonaro como elementos que colocam dúvidas sobre a estabilidade das relações dos EUA com o Brasil.

Um detalhe citado   diversas vezes e que, por isso, é importante para se entender as reais prioridades dos EUA em sua relação com o nosso país, se refere às inevitáveis tensões que decorrem das intensas relações comerciais do Brasil com a China, apontadas como elemento que pode concretamente descarrilar a boa convivência brasileiras-estadunidenses.

A situação descrita no relatório Congressional Research Service pode piorar ainda mais caso Donald Trump não seja reeleito, já que os democratas recentemente apresentaram seu programa para combater as mudanças climáticas que, se for aplicado, implicaria em cumprimento de metas que afetariam diretamente as decisões do Brasil, já que os EUA passariam a adotar uma plataforma muito mais próxima do que está sendo postulado na União Europeia. 

Sentindo o caldo entornar, grandes corporações demandam que o governo Bolsonaro faça mudança de rumos na área ambiental

amazoniaO avanço do desgaste da imagem do Brasil por causa da aceleração do desmatamento na Amazônia provoca carta inédita de representantes do grande capital ao governo Bolsonaro

Sentindo que as labaredas que brevemente vão arder na Amazônia brasileira têm o potencial de, desculpem-me a metáfora, queimar a sua picanha, dirigente de 38 empresas e quatro entidades setoriais (ver lista na imagem abaixo) fizeram publicar uma carta no jornal Valor Econômico onde pedem providências inéditas ao governo Bolsonaro, na figura do vice-presidente e general da reserva Hamilton Mourão, para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia brasileira.

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A carta deixa clara a preocupação com o iminente isolamento do Brasil em face da política de “passada boiada” que está instalada na área ambiental, onde o improbo ministro (ou seria anti-ministro?) Ricardo Salles vem realizando um amplo desmanche da governança ambiental criada a partir da criação de Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema) pelo governo de outro general, no caso Emílio Garrastazu Médici, bem como das estruturas de comando e controle que impediam o avanço acelerado do desmatamento e outras formas de degradação na Amazônia brasileira.

Em termos de propostas objetivas, o documento apresenta linhas bastante coerentes com aquilo que já foi explicitado em conferências multilaterais e até em documentos oficiais firmados por outras administrações federais brasileiras (ver imagem abaixo).

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O problema é que a não ser que haja uma mudança radical na forma de governar de Jair Bolsonaro (o que me parece difícil), não bastará cortar a cabeça (metaforicamente dizer) de Ricardo Salles para que as propostas apresentadas pelos representantes do grande capital brasileiro e internacional sejam transformadas em políticas públicas. 

A verdade é que afora as visões ultrapassadas em termos de equilíbrio entre desenvolvimento econômico e conservação da natureza que são compartilhadas por várias cabeças estreladas do governo Bolsonaro,  existem as alianças políticas paroquiais entre o presidente Jair Bolsonaro e vários segmentos que estão hoje na linha de frente do saque de recursos madeireiros e de minérios (principalmente o ouro) na Amazônia brasileira.

Como alguém que estuda a Amazônia há quase três décadas e tem uma longa quilometragem nas estradas empoeiradas e esburacadas em Rondônia, não creio que haja a possibilidade de qualquer mudança dentro do governo Bolsonaro até que as ameaças que estão sendo feitas pelos grandes fundos de investimento globais e grandes corporações que atuam na produção de carne sejam transformadas em ações concretas.

Entretanto, a carta publicada hoje pelo Valor Econômico certamente terá o efeito de acelerar a fritura de Ricardo Salles. Até que ponto isto resultará na adoção das propostas feitas pelo representantes do grande capital é que fica a ser observado. 

Dois pontos a mais: 1) a pressão que agora está se tornando evidente por parte dos representantes do grande capital nacional e global não é nada perto do que acontecerá quando começarem os grandes incêndios que ocorreram em poucas semanas na Amazônia, e 2) estudos que certamente estão em fase de finalização para publicação por grandes revistas científicas vão mostrar um quadro ainda mais grave do que o normalmente aceito em termos de alterações ambientais na Amazônia brasileira. Quando estes artigos começarem a ser publicados, haverá um aumento ainda maior das pressões por ações objetivas por parte do governo Bolsonaro.

Por isso tudo, é só uma questão de tempo até que as commodities agrícolas, florestais e minerais do Brasil passem a sofrer duras barreiras comerciais, especialmente na União Europeia. E aqui não se trata de futurologia, mas de uma previsão científica amparada naquilo que já estabelecido na literatura e pelo que eu sei do que brevemente será publicado.  Assim, é muito provável que a carta de hoje seja a primeira de uma lista.

Amazônia perdeu mais de 930 km2 de floresta em junho

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Os números mais recentes do sistema DETER de monitoramento do desmatamento na Amazônia reforçam a percepção de que os próximos meses serão difíceis para a floresta.

De 1º a 25 de junho, o sistema do INPE registrou perda florestal de 933 km2, um montante similar ao observado nos 30 dias de junho de 2019, quando 935 km2 foram desmatados. Se o ritmo de desmatamento tiver sido o mesmo nos cinco últimos dias de junho passado, o total do mês pode chegar a 1.119 km2 de desmatamento, 20% acima do observado em junho de 2019.

Os dados agregados também preocupam. De agosto de 2019 até agora, o acumulado de desmate na Amazônia é de 7.438 km2, 62% acima do observado no mesmo período no ano passado. Nos últimos 12 meses, 9.693 km2 de floresta foram devastados, 87% acima do observado nos 12 meses anteriores.

Considerando que julho é o mês no qual o desmatamento costuma saltar na Amazônia, o DETER pode fechar o período atual de análise (agosto/19 a julho/20) em 9.880 km2. Para comparação, o DETER apontou 6.844 km2 de desmatamento entre agosto de 2018 a julho de 2019; já o sistema PRODES, que faz o acompanhamento mais qualificado do desmatamento, com dados totalizados, indicou supressão vegetal em mais de 10 mil km2 para o mesmo período. Mantida a mesma proporção, o PRODES pode mostrar quase 15 mil km2 de desmatamento neste ano.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Amazônia sofre com aumento explosivo de queimadas

Amazônia registra maior número de focos de queimadas na  dos últimos 13 anos para o mês de junho

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Por Karen Mota para o Greenpeace

São Paulo, 1º de julho, de 2020: Apesar dos volumosos recursos gastos em operações militares, as queimadas na Amazônia já surgem com força. Em junho de 2020, foram registrados 2.248 focos de calor no bioma Amazônia. Esse é o maior número de focos para o mês desde 2007, e representa um aumento de 19,57% em relação ao registrado em junho de 2019 (1.880).

queimadas amazoniaValores fechados para os meses de junho entre 2007-2020 (Fonte: Inpe Queimadas)

 

Além disso, imagens de satélite mostraram uma série de grandes polígonos desmatados nos últimos meses, áreas que vêm sendo ignoradas pelas ações do governo brasileiro e do Conselho Nacional da Amazônia, liderado pelo vice-presidente Hamilton Mourão. Cerca de um mês depois do decreto (10.341/2020), que autoriza o emprego das Forças Armadas na Garantia da Lei e da Ordem (GLO), ao custo mensal de R$ 60 milhões de reais, o equivalente a quase 80% do orçamento anual de fiscalização do Ibama, a resposta aos mais altos índices de desmatamento dos últimos anos continua inócua.

[Veja as imagens de satélite aqui]

“As queimadas contribuem simultaneamente para as crises globais do clima, da biodiversidade e com a catástrofe sanitária na região. O Brasil precisará fazer mais, muito mais, se quiser detê-las, fortalecendo os órgãos de controle, com planos permanentes e metas claras, e não de operações pontuais e custosas”, comenta Rômulo Batista, da campanha e Amazônia do Greenpeace.

Com o início da temporada seca e com o período de queimadas criminosas batendo à porta, o quadro que vem se desenhando é catastrófico em muitos sentidos. Seja pela quantidade de árvores que vão tombar por conta dos incêndios, que pode levar à morte animais e colocar em risco nossa biodiversidade, seja pelo agravamento da vulnerabilidade das populações da Amazônia à COVID-19. “É difícil nutrir esperança de que a catástrofe ambiental que vimos no ano passado, marcada por uma série de queimadas criminosas, seja menor em 2020. Afinal, a contenção do colapso está nas mãos de um governo que joga contra o meio ambiente e vem se mostrando incapaz de combater a destruição do maior patrimônio de todos os brasileiros, a Amazônia”, completa Rômulo.

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Karen Mota, Assessoria de Imprensa Greenpeace,  imprensa.br@greenpeace.org

ONG acusa envolvimento do grupo francês Casino em desmatamento no Brasil e na Colômbia

Segundo relatório da ONG Envol vert, a empresa, que promove a imagem de um distribuidor responsável, não controla suficientemente a origem da carne que comercializa.

barbara veigaA pecuária é a principal causa de desmatamento no Brasil. BARBARA VEIGA

Por Martine Valo para o jornal Le Monde

As imagens da Amazônia em chamas, em agosto de 2019, comoveram o mundo inteiro. A história deste ecossistema único sacrificado em benefício dos interesses fundiários pode ocorrer no outro lado do Atlântico, mas está conectada a um grupo varejista francês, o Casino, de acordo com o relatório Envol vert, que será publicado na terça-feira, 30 de junho . Esta associação francesa foi apoiar organizações na América do Sul, incluindo jornalistas e pesquisadores do coletivo Reporter Brasil, que investigaram no local por um ano.

Madeira, soja, cacau e óleo de palma são as principais causas de desmatamento desenfreado no planeta. No Brasil, campeão mundial, é a carne bovina, criada principalmente por sua carne, que é a principal responsável por ela. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) considera que a Amazônia perdeu 10.123 km2 em 2019, 44% a mais que em 2018, e a devastação acelera em 2020. A destruição das savanas do Cerrado também está avançando.

Nesses dois lugares altos da biodiversidade planetária, os incêndios florestais, cuja temporada começa hoje, aumentaram 71% em 2019 em comparação com o ano anterior. Uma vez exploradas as madeiras valiosas, os rebanhos ganham novas pastagens, que ocupam de maneira particularmente extensa: 1,31 cabeça por hectare (ha) em média no Brasil, 0,6 na Colômbia. Sua expansão é espetacular na Colômbia, desde a assinatura da paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) em 2016 , e no Brasil, segundo maior exportador do mundo, que teve 158 milhões de animais em 1994, 214 milhões de hoje.

43% do mercado colombiano

“Este sistema agrícola é de fato um legado de colonização: é uma questão de ocupar o máximo de espaço possível para afirmar que essa parcela da Amazônia é sua”, analisa Boris Patentreger, membro da Envol vert , que coordenou a investigação no local. É uma forma de especulação de terras, pois pode ser vendida a um bom preço. “ E a distribuição em massa seria parcialmente responsável por sua relutância em melhorar a rastreabilidade de seu suprimento, principalmente na Colômbia”, afirmou o relatório.

No entanto, o cassino está bem presente nos dois países, onde o consumo nacional de carne bovina é importante. O grupo ocupa 15% do mercado no Brasil, com sua subsidiária Grupo Pão Açúcar (GPA) e suas marcas Assai e Extra; 43% na Colômbia, com Exito. Ele gera 47% de sua receita total lá. Na França, a empresa, de propriedade da Rallye, possui uma série de marcas como Monoprix, Franprix, Leader Price, Spar, mas também Naturalia, e destaca a imagem de um distribuidor responsável. A Envol vert e seus parceiros culpam ainda mais o distribuidor por suas deficiências no controle da origem do gado.

Referindo-se à lei de 2017 sobre o dever de vigilância das grandes empresas francesas em relação a seus fornecedores, as ONGs acreditam que o grupo não deve delegar essa responsabilidade nos matadouros que os entregam. Entre os últimos, alguns assinaram compromissos para combater o desmatamento com o governo ou com ONGs como o Greenpeace, mas eles não têm necessariamente os meios para alcançar suas ambições. Como resultado, algumas lojas comercializam carne de fazendas que acabam engordando animais de outras fazendas, que continuam a operar ilegalmente e queimar lotes na Amazônia, segundo o relatório. Essas atividades comerciais corresponderiam a 56.000 hectares destruídos em 2019 nos dois países, segundo estimativas dos autores.

O Casino respondeu à associação, assegurando que ela  combate ativamente o desmatamento associado à criação de gado no Brasil e na Colômbia.  E garante que sua subsidiária GPA envolva uma base experimental no projeto piloto de uma ferramenta de rastreabilidade chamada Visipec. “Estamos fortalecendo nossas políticas para controlar todas as nossas cadeias de suprimentos complexas no Brasil e continuaremos”, assegura Le Monde Matthieu Riché, diretor de CSR do grupo Casino. No contexto geopolítico local, as empresas devem ser ainda mais vigilantes. “

“Clareamento de vacas”

Insuficiente, responderam os pesquisadores que testaram 131 produtos vendidos em dez lojas estabelecidas em sete cidades do Brasil, em especial Belém e Manaus. Eles procuraram subir a cadeia a montante de dois importantes matadouros da empresa JBS, localizada no Mato Grosso, tomando o cuidado de não se limitar a entregas diretas de gado. Eles multiplicaram suas pesquisas dos números de produtos congelados, interrogaram bancos de dados sobre transporte de animais, referências cadastrais, listas negras do governo brasileiro nas quais aparecem os operadores condenados por trabalho forçado e vítimas de ‘meio Ambiente. Finalmente, eles consultaram os alertas de desmatamento dos sistemas de vigilância por satélite das ONGs.

O relatório detalha o caso de quatro grandes fazendas localizadas na Amazônia ou no Cerrado. Uma delas, a fazenda Ellus, no Mato Grosso, totalizou mais de 2.400 ha queimados em 2019 – como mostra imagens da NASA – incluindo 1.962 ha em áreas de preservação permanente não exploráveis, de acordo com a lei. Outro exemplo é o de uma fazenda condenada em várias ocasiões a pesadas multas e atingida por um embargo por ter desmatado mais de 1.100 ha. Este último contorna o problema da “lavagem de vacas”, ou seja, transferindo os rebanhos para uma de suas propriedades alugadas para outro agricultor.

Por fim, há a questão da fazenda JR, de 168 ha no Estado do Pará, ainda na Amazônia, dos quais 14 ha invadem o território indígena Apyterewa. O Casino compromete-se a analisar esses quatro casos.

fecho

Este artigo foi originalmente publicado em francês pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Quem é o bandido?

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Por Lúcio Flávio Pinto*

A quem o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, queria favorecer quando sugeriu ao presidente Jair Bolsonaro aproveitar que as atenções gerais do país, em especial da imprensa, estavam concentradas na epidemia do coronavírus para simplificar a legislação ambiental?

Salles adotou uma linguagem tão crua e direta que causou espanto ao ministro da Saúde, Nelson Teich, seu vizinho na mesa de reunião, que acolheu todo governo Bolsonaro na famosa reunião de 22 de abril.

Provavelmente por achar que se tratava de um encontro fechado, a ser mantido sob sigilo (quebrado por decisão do Supremo Tribunal Federal, que exigiu a entrega do vídeo pelo Palácio do Planalto), Salles – só menos agressivo na sua intervenção no agora ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub – disse, literalmente:

“Precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de Covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando as normas”.

O ministro paulista não estava atendendo ao grande capital internacional. Nesta semana, em carta aberta ao Brasil, os representantes de 29 investidores globais manifestaram sua preocupação com a política ambiental do país e sobre os direitos humanos, sobretudo dos nativos e indígenas. Esses empresários detêm 3,7 trilhões de dólares em ativos administrados ao redor do mundo. É valor equivalente a todo PIB brasileiro, que deverá encolher –– de 4% a 8% – neste ano por causa da pandemia do coronavírus.

O crescente desmatamento nos últimos anos, combinado com informações sobre o desmantelamento de políticas ambientais, de direitos humanos e de agências de fiscalização “estão criando incerteza generalizada sobre as condições para investir ou prestar serviços financeiros ao Brasil”, diz a carta.

Uma preocupação específica imediata é com o projeto de lei 2.663, que legaliza ocupações em áreas públicas, sobretudo na Amazônia. Os investidores temem o aumento de riscos para a reputação dos seus clientes. “Por isso, instamos o governo do Brasil a demonstrar um compromisso claro com a eliminação do desmatamento e a proteção dos direitos dos povos indígenas”.

“Políticas robustas para a redução do desmatamento e proteção dos direitos humanos são soluções-chave para gerenciar esses riscos e contribuir para mercados financeiros eficientes e sustentáveis no longo prazo”, acrescenta o documento.

Ele sugere que, se, a eliminação desse risco, os empresários podem sair do Brasil, num momento em que, no mundo inteiro, há uma busca ansiosa por investimentos na forma de capital de risco. Já o Brasil, segundo o Banco Central, perdeu mais capital estrangeiro durante a pandemia do que a média observada em países emergentes.

O relaxamento contínuo e acelerado das medidas de proteção à natureza e ao habitante da Amazônia, desde o início do governo Bolsonaro, já haviam provocado, sem setembro do ano passado, iniciativa semelhante de 230 fundos, representando investidores num total de 16 trilhões de dólares (mais de 30 vezes o PIB nacional).

Se o ministro não é porta-voz dos maiores capitalistas do mundo, que parecem vê-lo como inimigo, quem Ricardo Salles defende e procura favorecer com suas polêmicas iniciativas? A resposta parece óbvia, mas exige algumas reflexões mais profundas, que considerem os propósitos e resultados da ação do governo e dos capitais externos a região nela aplicados.

A doutrina de segurança nacional, na sua manifestação mais explícita, a partir de 1964, mas sempre ativa, sob outra roupagem geopolítica, desde a ocupação da Amazônia pelos europeus (15 mil ou 20 mil anos depois da primeira presença humana na imensa bacia hidrográfica), sempre considerou os estrangeiros uma ameaça à integridade da região.

Os portugueses, os europeus que por mais tempo nela exerceram o seu domínio, a mantiveram sob mão militar forte, combatendo – e vencendo – espanhóis, ingleses, holandeses e franceses. Tentaram manter a Amazônia sob seu controle quando o Brasil se tornou uma nação independente.

Só admitiram a perda do Norte do país quando a maior revolta popular, a cabanagem lhes tirou o controle político, que ainda mantinham, à custa de muito sangue. Estima-se que 20 a 30% da população (então de 150 mil pessoas) tenham morrido nos ferozes combates. Hoje, seriam algo como 5 milhões de mortos.

O governo brasileiro continuou a encarar a possibilidade de nações estrangeiras se valerem da extensão da Amazônia e da sua baixa densidade demográfica para aventuras de conquista, sobretudo por países com problemas de superpopulação. No século XIX surgiu um projeto de transferir para a Amazônia 2 milhões de negros americanos, atacando dessa forma o problema racial dos Estados Unidos. Mas era uma iniciativa isolada de um visionária, o tenente da marinha Matthew Maury. A Casa Branca não o endossava. A migração foi pequena.

Recentemente, nos anos 1990, falou-se tanto em planos americanos de invadir a Amazônia que o governo brasileiro instituiu o Sivam e o Sipam (sistemas de vigilância), projetos que combinavam geopolítica com tecnologia para melhor conhecer e proteger a Amazônia de atividades ilegais ou predatórias.

O foco da preocupação continuava se concentrando em governos estrangeiros, apesar das claras provas de que o tamanho do Brasil (físico, humano e econômico) era antídoto natural a esse tipo de empreitada. Derrotado num país muito menor, como o Vietnam, os EUA se envolveriam numa complicação monumental, sem saída previsível.

Concentrada em ameaças internacionais permanentes, a ação do governo nacional para garantir a integridade da Amazônia acabou tendo efeito mais nocivo do que os problemas para os quais deveria ser a solução. A ocupação humana valia por si, por preencher os “espaços vazios”, independentemente da forma de uso dos recursos naturais.

Os efeitos sociais, culturais e ecológicos negativos sempre foram considerados um preço necessário para que brasileiros se espalhassem pelas margens dos rios, pelas fronteiras internacionais e tivessem acesso às áreas até então isoladas, que se tornaram acessíveis pela abertura de estradas, os instrumentos mais eficientes de destruição da natureza.

O Banco Mundial acabou se tornando uma espécie de consciência crítica desse “modelo” de ocupação acelerada, caótica e conflituosa. Foi o BIRD que impôs a inclusão de um capítulo de cuidados com o meio ambiente no Polonoroeste, que levou a devastação a Mato Grosso, Rondônia e Acre. Foi também o banco multilateral que exigiu um capítulo sobre os índios no projeto Grande Carajás, que possibilitou a exploração da maior província mineral do planeta.

Logo depois do golpe militar de 1964, uma CPI na Câmara Federal, relatada pelo deputado e brigadeiro Haroldo Veloso, que era de extrema direita, provocou escândalo ao revelar a profundidade da penetração de estrangeiros na propriedade de terras. Hoje, o capital estrangeiro fundiário é mínimo.

As grandes empresas preferem controlar o circuito internacional das mercadorias produzidas pela Amazônia, quando não é aconselhável, rentável ou simplesmente viável o controle nominal das empresas que geram esses bens. Se precisam dessa participação, nada na legislação as impede de obtê-la se aceitam seu enquadramento nas regras em vigor, que são, em regra, permissíveis.

Como a mais valia relativa do capital, relacionada à imagem e à capacidade de se explicar em situações embaraçosas (como os acidentes com as mineradoras em Minas Gerais), se tornou importante num mundo cada vez mais preocupado com a natureza, elas se comportam como os grupos de investidores se manifestou.

Os empresários brasileiros fazem o mesmo, com a mesma ênfase e frequência, ou é pensando nesses capitães do mato que o ministro Ricardo Salles usou a simbologia da boiada para burlar as regras de proteção à Amazônia?

fecho

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Acesse o novo site do jornalista aqui www.lucioflaviopinto.com.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo site Amazônia Real [Aqui!].