Governo Bolsonaro alimenta a “grande mentira verde” sobre a Amazônia, mas não tem como parar a ciência

bbc great green lieDesmatamento é apenas um dos vetores na destruição dos ecossistemas amazônicos

No 13 de fevereiro, a rede BBC publicou uma interessante matéria assinada pela jornalista Camilla Costa e que foi intitulada “A grande mentira verde’: como a destruição da Amazônia vai além do desmatamento“. Nesta matéria, muito bem escrita por sinal, Camilla Costa apresentou dados importantes para desmistificar a alegação fantasiosa de que a Amazônia brasileira ainda possui algo em torno de 80% de suas florestas intactas. Nessa matéria foram ouvidos pesquisadores com larga experiência nos processos de alteração da paisagem amazônica, os quais explicaram que o desmatamento é apenas um dos vetores. Aliás, se alguém tiver interesse em entender, por exemplo, a extensão das alterações causadas por atividades de extração de madeira, sugiro a leitura do artigo científico em que sou um dos co-autores, publicado em 2010 pela Remote Sensing.

Mas ainda que outros governos tenham se valido da “grande mentira verde”, o governo Bolsonaro está se esmerando no uso da fantasia de que 80% das florestas amazônicas ainda estão intactas para ver se é possível tampar, digamos, a fumaça com a peneira. Assim, apenas nas últimas 24 horas tivemos declarações estapafúrdias do vice-presidente Hamilton Mourão e do ministro das Comunicações, Fábio Faria (PSD/RN) centradas na repetição ad infinitum da grande mentira verde.

A primeira menção tem que ser feita ao vice-presidente Hamilton Mourão que tenta responder à crescentes pressões para a adoção de medidas de contenção do avanço desenfreado do desmatamento na Amazônia. Em matéria publicada pelo site UOL, é informado que Hamilton Mourão participou ontem de uma reunião com representantes de fundos estrangeiros, quando teria comparado as cobranças feitas para proteção dos ecossistemas amazônicos a uma conversa de bêbados, pois os dados do desmatamento de 2020 só ficarão disponíveis em 2021, e até lá cada um vai dizer o que quiser.  E usando um subterfúgio decorrente da “grande mentira verde”,  Hamilton Mourão teria apelado para a alegação de que a Amazônia é grande demais para ser corretamente entendida por estrangeiros.

Já o ministro das Comunicações, Fábio Faria, em entrevista à rede CNN Brasil, também usou a metáfora do tamanho da Amazônia para diminuir os impactos do desmatamento, e se serviu do argumento da “grande mentira verde” para sugerir que a ênfase na dimensão dos desmatamentos serve apenas para encobrir que se pode voar a Amazônia por 3 horas e enxergar grandes extensões de Mata Atlântica (se não acreditar, veja o vídeo abaixo).

Apesar de haver uma distância entre as falas, já que o ministro da Comunicação mostra completa ignorância sobre o tipo de vegetação que cobre a Amazônia, a verde é que tanto Fábio Faria quanto Hamilton Mourão estão insistindo no uso de uma versão fantasiosa sobre o grau de perturbação ambiental que já causa alterações ambientais significativas na Amazônia brasileira, as quais terão impactos não apenas sobre os padrões climáticos regionais, mas também globais.

Como já mencionei recentemente, existem estudos em processos de avaliação para publicação em revistas científicas altamente valorizadas pela comunidade científica que irão acabar de uma vez por todas com a “grande mentira verde”. E ao contrário do que esperam Hamilton Mourão e Fábio Faria ao veicular seu negacionismo amazônico, governos estrangeiros e grandes fundos de investimento irão se pautar suas relações comerciais e financeiras com o Brasil com base no que estes estudos vão mostrar. Em outras palavras,  o prazo de validade da “grande mentira verde” para permitir o avanço da destruição dos ecossistemas amazônicos está com os dias contados. 

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