Sentindo o caldo entornar, grandes corporações demandam que o governo Bolsonaro faça mudança de rumos na área ambiental

amazoniaO avanço do desgaste da imagem do Brasil por causa da aceleração do desmatamento na Amazônia provoca carta inédita de representantes do grande capital ao governo Bolsonaro

Sentindo que as labaredas que brevemente vão arder na Amazônia brasileira têm o potencial de, desculpem-me a metáfora, queimar a sua picanha, dirigente de 38 empresas e quatro entidades setoriais (ver lista na imagem abaixo) fizeram publicar uma carta no jornal Valor Econômico onde pedem providências inéditas ao governo Bolsonaro, na figura do vice-presidente e general da reserva Hamilton Mourão, para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia brasileira.

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A carta deixa clara a preocupação com o iminente isolamento do Brasil em face da política de “passada boiada” que está instalada na área ambiental, onde o improbo ministro (ou seria anti-ministro?) Ricardo Salles vem realizando um amplo desmanche da governança ambiental criada a partir da criação de Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema) pelo governo de outro general, no caso Emílio Garrastazu Médici, bem como das estruturas de comando e controle que impediam o avanço acelerado do desmatamento e outras formas de degradação na Amazônia brasileira.

Em termos de propostas objetivas, o documento apresenta linhas bastante coerentes com aquilo que já foi explicitado em conferências multilaterais e até em documentos oficiais firmados por outras administrações federais brasileiras (ver imagem abaixo).

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O problema é que a não ser que haja uma mudança radical na forma de governar de Jair Bolsonaro (o que me parece difícil), não bastará cortar a cabeça (metaforicamente dizer) de Ricardo Salles para que as propostas apresentadas pelos representantes do grande capital brasileiro e internacional sejam transformadas em políticas públicas. 

A verdade é que afora as visões ultrapassadas em termos de equilíbrio entre desenvolvimento econômico e conservação da natureza que são compartilhadas por várias cabeças estreladas do governo Bolsonaro,  existem as alianças políticas paroquiais entre o presidente Jair Bolsonaro e vários segmentos que estão hoje na linha de frente do saque de recursos madeireiros e de minérios (principalmente o ouro) na Amazônia brasileira.

Como alguém que estuda a Amazônia há quase três décadas e tem uma longa quilometragem nas estradas empoeiradas e esburacadas em Rondônia, não creio que haja a possibilidade de qualquer mudança dentro do governo Bolsonaro até que as ameaças que estão sendo feitas pelos grandes fundos de investimento globais e grandes corporações que atuam na produção de carne sejam transformadas em ações concretas.

Entretanto, a carta publicada hoje pelo Valor Econômico certamente terá o efeito de acelerar a fritura de Ricardo Salles. Até que ponto isto resultará na adoção das propostas feitas pelo representantes do grande capital é que fica a ser observado. 

Dois pontos a mais: 1) a pressão que agora está se tornando evidente por parte dos representantes do grande capital nacional e global não é nada perto do que acontecerá quando começarem os grandes incêndios que ocorreram em poucas semanas na Amazônia, e 2) estudos que certamente estão em fase de finalização para publicação por grandes revistas científicas vão mostrar um quadro ainda mais grave do que o normalmente aceito em termos de alterações ambientais na Amazônia brasileira. Quando estes artigos começarem a ser publicados, haverá um aumento ainda maior das pressões por ações objetivas por parte do governo Bolsonaro.

Por isso tudo, é só uma questão de tempo até que as commodities agrícolas, florestais e minerais do Brasil passem a sofrer duras barreiras comerciais, especialmente na União Europeia. E aqui não se trata de futurologia, mas de uma previsão científica amparada naquilo que já estabelecido na literatura e pelo que eu sei do que brevemente será publicado.  Assim, é muito provável que a carta de hoje seja a primeira de uma lista.

Um pensamento sobre “Sentindo o caldo entornar, grandes corporações demandam que o governo Bolsonaro faça mudança de rumos na área ambiental

  1. […] “Sentindo o caldo entornar, grandes corporações demandam que o governo Bolsonaro faça mudan…, Marcos Pedlowski, Blog do Pedlowski) […]

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