A floresta tropical como presa

Madeireiros e fazendeiros continuam a penetrar na floresta tropical e a devastar mais áreas do que nunca. O presidente Bolsonaro até quer legalizar a apropriação de terras griladas – também às custas dos povos indígenas.

serraria humaitáMais de duas vezes mais áreas desmatadas do que em 2019: serraria perto da cidade de Humaitá, no sul do estado do Amazonas.  (Foto: Ueslei Marcelino / Reuters)

Não se sabe muito sobre os Ituna-Itatá. A comunidade indígena vive em auto-isolamento voluntário nas profundezas da floresta amazônica brasileira. Quantas pessoas pertencem ao grupo étnico é amplamente desconhecido; você nem sabe o que os Ituna-Itatá se chamam. Com todas essas ambiguidades, uma coisa é certa: o habitat de Ituna-Itatá está sob séria ameaça.

A área em que vivem é de 142.000 hectares. Floresta intocada até onde os olhos podem ver, pelo menos é essa a teoria, afinal a Terra Indígena Ituna-Itatá está protegida. Pessoas de fora só podem entrar na área com uma permissão especial. No entanto, a realidade é diferente. Imagens da organização ambientalista Greenpeace mostram florestas em chamas e fumaça sobre as copas das árvores. O Greenpeace documentou a destruição com voos e mapas. Somente no ano passado, 12.000 hectares de floresta foram destruídos. Isso faz de Ituna-Itatá um triste recordista como a área indígena mais destruída no Brasil em 2019, mas também um exemplo particularmente drástico de um desastre natural causado pelo homem.

A situação da floresta amazônica tem sido difícil nos últimos anos, mas a situação piorou novamente após a crise mundial da coroa. Enquanto a atenção do mundo está focada no combate ao vírus que se espalha, lenhadores, garimpeiros e fazendeiros estão penetrando mais profundamente na floresta amazônica. Em janeiro, fevereiro, março e abril deste ano,  imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) documentaram a limpeza de cerca de 1.200 km2 de floresta. Mais do que nunca, desde que a coleta de dados começou em 2015 e um aumento de mais de 50% em comparação a 2019; também foi um ano ruim para a  floresta tropical .

Desde que assumiu o cargo no início do ano passado, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, fez pouco para impedir a destruição. Ele vê um tesouro na Amazônia que deve finalmente ser criado. O político de extrema direita deseja usar a região economicamente, especialmente para a poderosa indústria agrícola. Bolsonaro também deve sua ascensão aos barões da carne e soja, agora ele deve retribuir o favor, com novas áreas para gado e campos. Além disso, os operadores de minas desejam os tesouros que estão adormecidos sob as raízes dos gigantes da selva.

Leis de proteção ambiental têm sido continuamente enfraquecidas por Bolsonaro e seu gabinete, e agências de proteção enfraquecidas. As conseqüências dessa política logo se tornaram aparentes: milhares de hectares de floresta pegaram fogo em meados do ano passado, densas nuvens de fumaça escureceram até cidades distantes como São Paulo. O mundo ficou assustado. Porque a floresta amazônica é enorme, mas também extremamente frágil. Se a floresta continuar sendo cortada, todo o ecossistema poderá tombar, a floresta se tornará uma savana – com consequências imprevisíveis para toda a humanidade.

O coronavírus pode acabar com grupos inteiros de povos indígenas

Ambientalistas, pesquisadores e políticos, portanto, deram o alarme. Houve protestos contra os incêndios e até boicotes aos produtos brasileiros. O presidente Bolsonaro relutou em agir. Ele proibiu por 60 dias a queima de áreas florestais na floresta tropical e enviou tropas, com sucesso, a limpeza diminuiu, as chamas se apagaram. Mas assim que os soldados voltaram para o quartel, os madeireiros e fazendeiros começaram tudo de novo, sem diminuir.

O governo brasileiro reagiu no início deste ano. No início desta semana, ela ordenou tropas para proteger a floresta na região amazônica. Ao mesmo tempo, no entanto, toda uma série de leis e iniciativas devem ser aprovadas que representam uma ameaça maciça à floresta e às pessoas que vivem nela. Um projeto visa permitir que as empresas explorem minerais e extraiam petróleo nas regiões indianas sem que os povos que vivem lá tenham uma opinião maior. Ao mesmo tempo, a autoridade do estado para a proteção dos povos indígenas introduziu novos regulamentos que facilitam a obtenção de títulos legais para ocupantes de terras em áreas indígenas. E, finalmente, há a “MP 910”, um decreto emitido por Bolsonaro em dezembro que fornece uma espécie de anistia para piratas na Amazônia. Embora uma continuação tenha sido removida da agenda do Congresso brasileiro nesta semana após muitos protestos, Bolsonaro continuará tentando converter o decreto em lei. Porque o momento é favorável. Quem está interessado na legalização de pastagens e campos ocupados ilegalmente em tempos de pandemia?

O Brasil  foi o primeiro país da América Latina a ser diagnosticado com COVID-19. Para não enfraquecer a economia, o governo ainda não emitiu uma quarentena em todo o país, Jair Bolsonaro descreveu o vírus como uma gripe e chamou os governadores, que impuseram toque de recolher como assassinos de emprego. A situação agora é dramática, atualmente existem quase 180.000 casos registrados oficialmente e mais de 12.000 pessoas já morreram. O patógeno está se espalhando cada vez mais rápido e há muito tempo chegou à região amazônica. Lá ele atingiu principalmente a metrópole de Manaus, as pessoas mortas são enterradas em valas comuns, o sistema de saúde entrou em colapso, e há uma preocupação crescente de que a pandemia também possa levar à extinção em massa as comunidades indígenas de todo o Brasil.

Quando madeireiros e garimpeiros penetram cada vez mais profundamente em áreas como Ituna-Itatá, eles não trazem apenas motosserras e gasolina como aceleradores de incêndio, mas também patógenos como o coronavírus.  Esses patógenos podem se espalhar rapidamente em comunidades tradicionalmente coexistentes, e grupos e comunidades inteiros podem ser eliminados quando forasteiros levam a COVID-19 para suas áreas, diz Carolina Marçal, do Greenpeace. O governo brasileiro não apenas desviaria o olhar, como também facilitaria o trabalho de ladrões de terra, lenhadores e garimpeiros. “Bolsonaro é um criminoso e deve ser detido”, diz Marçal, para o bem do povo, mas também para o bem da floresta.

De fato, no final, foram principalmente os membros das comunidades tradicionais que protegeram a floresta com violência armada, mas também pressionando as autoridades a defender seus direitos especiais. Agora, no entanto, mais e mais pessoas estão se retirando cada vez mais fundo nas florestas por medo de infecção pelo coronavirus. Madeireiros e garimpeiros agora estão agindo livremente em muitas áreas. Eles não parecem temer o coronavirus, e há muito tempo perceberam que não precisam ter medo do governo, que deveria proteger as áreas indígenas e as que as florestas que existem nelas.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo jornal “Süddeutsche Zeitung” que está sediado na cidade de Munique [Aqui!]. 

Aumento do desmatamento e grilagem ameaçam indígenas isolados na TI Ituna-Itatá em meio a pandemia

Invasão da TI e pedidos de registro de CAR chegam a 94% do território, sendo um terço com mais de 1000 hectares

ituna itatáFoto: Fábio Nascimento / Greenpeace. Ituna – Sobrevoo pela Amazônia 2019 no estado do Pará

São Paulo, 11 de maio de 2020 – Enquanto muitos ficam em casa em respeito às medidas de isolamento social recomendadas pelos órgãos de saúde, invasores continuam destruindo a floresta amazônica e condenando ao extermínio aqueles que cuidam da biodiversidade e, por consequência, da saúde planetária. Um exemplo dessa destruição é o que ocorre na Terra Indígena (TI) Ituna-Itatá, como apontado em um estudo de caso divulgado hoje pelo Greenpeace.

Conhecida por ser a TI mais desmatada em 2019, segundo dados do PRODES, registrou entre agosto de 2018 e julho de 2019, impressionantes 119,9 Km² (equivalente a mais de 115 mil campos de futebol) desmatados, o que representa quase 30% do desmatamento de todas as terras indígenas na Amazônia neste período. Em 2020, a TI continua na triste liderança e a floresta continua sendo duramente desmatada, mesmo no período chuvoso, quando, em geral, o índice é bem menor ou inexistente. Somente nos quatro primeiros meses deste ano na Amazônia, já foram identificados 5.666 km² de desmatamento, contra 2.914 km² no mesmo período do ano passado, de acordo com o DETER/ PRODES, o que representa um aumento de 94%.

Com a presença comprovada de indígenas isolados, a TI foi interditada pela FUNAI, ou seja, é uma área sob restrição de ingresso, onde é proibida locomoção e permanência de pessoas estranhas aos quadros do órgão. Isso, no entanto, não ocorre na prática. Ao invés de ser demarcada, a região que constitui a terra indígena tem sido loteada para virar pasto para a pecuária.
“Ituna-Itatá é um caso emblemático da agenda anti indígena do governo Bolsonaro: se os grileiros forem vitoriosos e conseguirem evitar a identificação do grupo isolado e consequentemente a demarcação do território, será aberto um precedente capaz de promover o extermínio dos mais de 100 grupos sob a mesma condição no Brasil”, explica Adriana Charoux, da campanha de Amazônia do Greenpeace.

Após uma série de cruzamento de dados, o Greenpeace identificou que a Ituna-Itatá foi palco para triangulação de gado e lavagem de madeira. Embora protegida por lei, a TI tem 94% da área registrada por produtores no Cadastro Ambiental Rural (CAR), registros que têm sido utilizados também como instrumento de grilagem de terras públicas. O Greenpeace Brasil identificou que um terço desses CARs corresponde a áreas de mais de 1000 hectares, ou seja, os verdadeiros beneficiários dessas invasões são grandes proprietários e grileiros de terra, focados na especulação imobiliária.

Alguns desses cadastros está, inclusive, em nome de produtores que repassam animais para fornecedores diretos que comercializam animais com os maiores frigoríficos do país, sendo que alguns são signatários do compromisso Público com o Desmatamento Zero, como Marfrig, Frigol e JBS. Esse é o caso, por exemplo, dos 2 CARs registrados em nome de um pecuarista, em 2015, quatro anos depois da interdição da área, que comercializou animais para outra fazenda, que é fornecedora desses grandes frigoríficos. Ou seja, um gado que nasceu ou transitou após a cria em fazendas com desmatamento e no momento de seu abate é fornecido por uma fazenda “ficha limpa”, sem histórico de irregularidade, escondendo o rastro de destruição, ocultado por conta do ciclo final de fornecimento ter sido “lavado”. Isso acaba podendo contaminar toda a cadeia de abastecimento e chegando até a mesa do consumidor do Brasil e de outros países.

Outra irregularidade praticada na Ituna-Itatá é o licenciamento para o plano de manejo florestal concedido pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMAS-PA) para a extração de madeira. Em 2016, um fazendeiro conseguiu o licenciamento, sem que a SEMA constatasse a sobreposição com área interditada, mesmo que a licença tenha sido expedida cinco anos após a interdição da TI.

As ilegalidades identificadas em Ituna-Itatá ganham ar de legitimidade com as medidas recentes do governo, como a InstruçãNormativ0e a MedidProvisóri910/2019. “Já que a IN acaba por também reconhecer os limites de posses privadas em oposição aos direitos indígenas sobre territórios em processo de reconhecimento, e a MP 910 além de anistiar e facilitar a titulação de médias e grandes invasões até 2018, passa a mensagem aos que lucram invadindo terras que esse tipo de crime compensa, porque em algum momento novas invasões podem ser novamente regularizadas”, afirma Adriana.

“A situação da Ituna-Itatá é uma tradução extrema do quanto as declarações de Bolsonaro sobre o desejo de rever terras indígenas e de não demarcar novos territórios têm impulsionado uma onda de grilagem sob áreas chave para a sobrevivência de povos indígenas, para a preservação da floresta Amazônica, sua biodiversidade e para a contenção da emergência climática que já está afetando a população, particularmente os mais pobres”, finaliza Charoux.

Desmatamento em terras indígenas aumenta 59% durante a pandemia da Covid-19

Governo ignora dados do Deter, elabora pacote de ações para regularizar invasões de terras públicas e pode colocar MP da Grilagem em votação no Congresso

São Paulo, 6 de maio de 2020 – O desmatamento e a Covid-19 avançam sobre a floresta e os povos que vivem nela e dela com velocidade avassaladora e previsões catastróficas. Uma análise dos dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostra que nos quatro primeiros meses de 2020, os alertas de desmatamento em terras indígenas da Amazônia brasileira aumentaram 59%, em comparação ao mesmo período do ano passado. De acordo com os dados do Deter, os alertas de desmatamento em Terras Indígenas (TIs) chegou a 1.319 hectares nos quatro primeiros meses deste ano – o equivalente a 1.800 campos de futebol -, enquanto no mesmo período do ano passado esse número era de 827 hectares.

O mapa abaixo mostra como o desmatamento está atingindo as Terras Indígenas:

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Esses dados reforçam o alerta que madeireiros, grileiros e garimpeiros avançam de forma descontrolada na floresta, além de poderem ser a porta de entrada para que o vírus chegue nas comunidades. Na contramão da busca por soluções, temos presenciado o total descaso do governo que, até o momento, não tomou ações para proteger os povos indígenas e as florestas brasileiras e ainda aproveita o momento para promover a diminuição da fiscalização, com a exoneração de profissionais do Ibama , enfraquecendo, ainda mais, a fiscalização.

Além disto, promove, estímulos à invasão de terras indígenas ainda em processo de demarcação com a Instrução Normativa 09 da Funai e a Medida Provisória (MP) 910/2019 – que promete a regularização de terras públicas que tenham sido invadidas até 2018. A MP tem até o dia 19 de maio para ser votada para não caducar.

“Estamos testemunhando a pandemia se espalhar pela Amazônia de maneira bastante rápida, o que pode causar um outro genocídio indígena, enquanto o governo fecha os olhos para os que cometem crimes na floresta. Isso é inaceitável. Precisamos agir – com a urgência que se faz necessária – para cuidar de quem cuida da floresta. Diante da ausência do Estado vamos continuar exercendo um importante papel para manutenção do espaço democrático, prosseguiremos monitorando e denunciando, juntamente com parceiros, atividades que colocam em risco a saúde e o territórios dos povos indígenas”, informa Carolina Marçal, porta-voz da campanha de Florestas do Greenpeace Brasil.

Associação Nacional de Especialistas em Meio lança carta sobre momento dramático da gestão ambiental no Brasil

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A Associação Nacional da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA) acaba de lançar um documento público onde procura expor o que considera ser “um momento dramático que passa a gestão ambiental federal sob o governo Bolsonaro.

Entre os aspectos levantados no documento, a ASCEMA enfatiza o enfraquecimento progressivo dos órgãos ambientais, sem que sejam garantidas as condições
mínimas de trabalho para o bom cumprimento dos programas federais de proteção ambiental.  Além disso, o documento denuncia o que seriam “seguidas interferências na condução dos trabalhos realizados pelos órgãos ambientais federais e seus servidores” que, entre outras coisas teria resultado no “aumento do desmatamento ilegal da
Amazônia, atingindo patamares superiores aos de 10 anos atrás e redução drástica dos processos de punição por essas infrações“.

O documento da ASCEMA denuncia que o Ministério do Meio Ambiente, sob a direção do improbo Ricardo Salles, tem  promovido “as exonerações de diversos gestores do IBAMA e do ICMBio, substituindo-os por pessoas externas, sem conhecimento e experiência em meio ambiente“, e que “quando esses gestores não conseguem implantar a linha de trabalho que conduza ao enfraquecimento da fiscalização ambiental, também são substituídos, como no caso do Diretor  e Proteção Ambiental do IBAMA, exonerado em 14 de abril, após o excelente resultado de combate ao garimpo e desmatamento ilegal nas Terras Indígenas do Pará realizado pelos servidores do Instituto“.

A ASCEMA também aponta que Ricardo Salles impôs uma mordaça sobre o IBAMA e ICMBio no sentido de impedir a para divulgação das ações em prol da proteção ambiental, e que com isso cria ” cria dificuldades no combate aos crimes ambientais e corrompe os princípios da  publicidade e transparência“.

Ainda que já se soubesse que a ação do improbo Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente estivesse criando uma série de embaraços para a condução das medidas de “comando e controle” pelos agentes ambientais, esse documento da ASCEMA revela elementos particularmente graves sobre como tem se dado o desmanche da governança ambiental pelo governo Bolsonaro.

Quem desejar ler o documento da ASCEMA na íntegra, basta clicar Aqui!

O destino do Brasil como pária global no mundo pós-pandemia

bolsonaro pariaA combinação entre o desmanche da governança ambiental com o tratamento dado à pandemia da COVID-19 pelo governo Bolsonaro colocará o Brasil na posição de pária global

Venho há algum tempo insistindo na tese de que o Brasil, graças ao processo de desmantelamento da precária governança ambiental comandado pelo governo Bolsonaro, se encaminhava para se tornar um pária ambiental que, por causa disso, seria alienado dos principais fóruns e decisões políticas de alcance global. É que a estas alturas do campeonato e com o conhecimento científico acumulado, existe um certo acordo sobre a necessidade de se rever as formas de apropriação do ambiente natural. 

A eclosão da pandemia da COVID-19 acabou colocar ainda mais pressão para que práticas dominantes na produção e consumo em escala global.  É que qualquer um que se aventure a ultrapassar o limiar das “fake news” (notícias falsas) que, repercutem o negacionismo em relação à gravidade da pandemia, verá que já está explicitado a ligação entre a disseminação do “novo” coronavírus e a destruição de ecossistemas naturais para a implantação de grandes áreas de monoculturas e suas co-irmãs, as mega fazendas industriais.

coronavirusA forma do governo Bolsonaro tratar a pandemia da COVID-19 causa espanto no resto do mundo. E o pior da pandemia ainda nem começou….

A junção de uma mudança paradigmática entre os mecanismos dominantes de apropriação da Natureza com o reconhecimento de que a COVID-19 prosperou tão eficazmente justamente por causa da degradação ambiental deverá gerar uma pressão global para que acordos multilaterais sejam firmados para diminuir a velocidade da destruição de grandes ecossistemas naturais, como é o caso das florestas tropicais. Aliás, isto acabará ocorrendo também porque já se prognostica que a erradicação dessas florestas poderá contribuir para a ocorrência de pandemias ainda mais graves.

Um exemplo de como essa pressão irá ocorrer foi a recente  da Assembleia Geral de acionistas da mineradora Vale que decidiu retirar todos os pedidos para mineração em terras indígenas na Amazônia que se encontravam sob análise pela Agência Nacional de Mineração. Essa decisão decorreu da pressão externa, especialmente daqueles grupos conhecidos como “acionistas críticos”. Interessante lembrar que a empresa alemã Siemens já havia informado em agosto de 2019  que não venderia equipamentos para serem usados em áreas de mineração dentro de terras indígenas no Brasil.

Mas a condição de pária global a que o Brasil vinha se candidatando a ocupar deverá levar um empurrão adicional  para ser reconhecido como tal pela forma irresponsável com que o governo Bolsonaro vem tratando a pandemia da COVID-19.   Não é por acaso que grandes veículos da mídia internacional estão colocando o presidente Jair Bolsonaro na companhia nada ilustre de um pequeno número de governantes que negam a gravidade da pandemia (os outros três negacionistas do coronavírus são Gurbanguly Berdymukhamedov (do Turcomenistão), Daniel Ortega (da Nicarágua) e Alexander Lukashenko da Bielo-Rússia). Esse grupo de negacionistas recebeu o nada elogioso rótulo de “Aliança das Avestruzes” pelo Financial Times.

aliança das avestruzesJair Bolsonaro, Alexander Lukashenko, Daniel Ortega e Gurbanguly Berdymukhamedov, grupo de líderes negacionistas, que formam a “Aliança das Avestruzes”. Fonte: Financial Times

E o pior é que o final previsto para o período mais duro da pandemia da COVID-19 (para a maioria dos analistas isto ocorrerá no Brasil no final de junho) irá coincidir com o início de um grande de queimadas na Amazônia, a qual deverá superar os números recordes alcançados em 2019. Me arrisco a dizer que a combinação entre o gerenciamento desastroso que o governo Bolsonaro está dando à COVID-19 combinada com as imagens de grandes áreas em chamas na Amazônia será uma espécie de “last straw” (ou a gota que fará o balde transbordar) da falta de paciência de grandes investidores e agentes governamentais com o Brasil.  Por isso, mesmo pesando os grandes interesses econômicos envolvidos,  o primeiro acordo econômico que deverá ser bombardeado será o firmado entre o Mercosul e a União Europeia.  A estas alturas do campeonato, esse acordo é o que se chama em inglês de um “lame duck” (ou pato manco em português), que não terá muita chance de se tornar realidade.

Por isso tudo é que me arrisco a dizer que o Brasil sairá muito mais isolado econômica e politicamente do que entrou na pandemia.  A ver!

 

Em vitória da ciência, juíza suspende liberação da cana na Amazônia e no Pantanal

cana

Em uma vitória contra os esforços do governo Bolsonaro de permitir a expansão da monocultura da cana-de-açúcar na Amazônia e no Pantanal, a juíza federal Jaíza Pinto Praxe, da 7a. Vara Federal Ambiental e Agrária do Amazonas, suspendeu a vigência do Decreto 10.084/2019 de autoria do presidente Jair Bolsonaro, o qual revogou o Decreto 6.961/2009 que até impedia que isso acontecesse.

acp cana

A decisão da juíza Jaíza Pinto Fraxe atende a um pedido pelo Ministério Público Federal no Amazonas ajuizou uma ação civil pública contra a União para revogar o decreto presidencial que autorizou a plantação de cana-de-açúcar na Amazônia.  Em sua ação, o pediu que a Justiça Federal determinasse que não fosse editado novo decreto sobre o tema até que se demonstre, por meio de estudos técnicos e científicos, que a medida não compromete o dever de proteção do meio ambiente.

E aqui mora o detalhe em que a ciência brasileira mostra o seu valor.  É que a apuração do MPF foi iniciada a partir de representação do doutorando Lucas Ferrante, do Programa de Ecologia do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa),  que estava acompanhada de um publicação da revista Science, principal período científico do mundo em co-autoria com o respeitadíssimo pesquisador amazônico, Philip Fearnside.

Com base no artigo da Science, o MPF apontou para as evidências científicas de possíveis danos ambientais irreversíveis que podem ser causadas pela cultura da cana na Amazônia sobre a biodiversidade e os serviços ambientais prestados por ela, com impactos sobre o abastecimento de água e agricultura em várias regiões do país.

ferrante science

É interessante notar que no ano passado,  Lucas Ferrante também foi co-autor de outro artigo na Nature, outra das maiores publicações científicas do mundo, onde foram tratados os problemas que derivariam da implantação de plantas de biocombustíveis dentro da Amazônia.

Em um momento em que se sabe do avanço explosivo do desmatamento na Amazônia, a decisão da juíza Jaíza Pinto Fraxe é efetivamente uma boa notícia. E o melhor é que esta decisão está ancorada em pesquisa publicada em revista de excelência incontestável. Um belo exemplo de como a ciência pode servir aos interesses nacionais, mesmo contrariando os governantes de plantão.

Desmatamento em terras públicas da Amazônia explode e pode alimentar estação de fogo

Amazon BurntAumento de desmatamento em terras públicas deverá gerar uma estação de incêndios recorde.

Brasília, 22 de abril de 2020 – O desmatamento de 2020, somado ao que foi derrubado em 2019 e não queimou, pode alimentar uma nova estação intensa de fogo na Amazônia, especialmente em terras públicas que estão sob a guarda da União e dos Estados. Só no primeiro trimestre deste ano, 50% do desmatamento registrado pelo sistema Deter, do INPE, aconteceu nessas áreas.

O destaque fica por conta das florestas públicas ainda não destinadas, terras devolutas que são alvo de grilagem e que respondem por 15% da Amazônia. Entre janeiro e março, 33% da derrubada aconteceu nessa categoria fundiária nos três primeiros meses de 2020, mais do que em qualquer outra. No mesmo período de 2019, o índice era de 22%.

No geral, o desmatamento no primeiro trimestre deste ano foi 51% que o mesmo período do ano passado. “Quando a estação seca chegar à Amazônia, essas árvores derrubadas vão virar combustível para queimadas. Esse foi o ingrediente principal da temporada de fogo de 2019, uma história que pode se repetir em 2020 se nada for feito para impedir”, explica a pesquisadora Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Alencar é a principal autora de uma nota técnica que o instituto lança hoje, a terceira sobre queimadas na Amazônia. Neste documento, os autores reúnem as principais informações sobre a estação de fogo de 2019, que causou espanto em todo o planeta, e sinalizam os perigos à espreita.

O número de focos de calor registrados na região em 2019 foi 81% mais alto do que a média entre 2011 e 2018. A maior variação aconteceu nas florestas públicas não-destinadas: 37% a mais, outro importante indício de grilagem.

“Isso é roubo de patrimônio dos brasileiros, e deve ser resolvido com polícia”, diz o pesquisador Paulo Moutinho, do IPAM, um dos autores do estudo. “Essas áreas devem ser destinadas à conservação. São um importante ativo para a biodiversidade e para populações tradicionais sim, mas também para a economia brasileira, pois geram a chuva que alimenta plantações e hidrelétricas.”

Alimento para o fogo

A nota técnica ainda destaca que, no ano passado, a seca sozinha não explicou a alta das queimadas, a despeito do que sugeriu o governo federal na época, pois o volume médio de chuvas foi normal para o período. O elemento agudo foi o desmatamento crescente: os primeiros oito meses de 2019 apresentaram uma elevação de 92% da taxa em relação ao mesmo período de 2018, segundo dados do Deter. “A Amazônia é uma floresta úmida e não pega fogo naturalmente. O fogo ali tem dono, e ele se chama homem”, diz Alencar.

Já as ações de comando e controle contra as queimadas adotadas em agosto, especialmente dois decretos federais que proibiram o uso do fogo por dois meses e enviaram as Forças Armadas para a Amazônia, inibiram as queimadas. Tais ações controlaram o fósforo, mas não desligaram as motosserras. O desmatamento continuou crescendo nos quatro meses seguintes (2.758 Km2, segundo dados do Deter).

“A fiscalização do desmatamento na Amazônia é tão importante hoje quanto foi 20 anos atrás, quando o Brasil derrubava mais de 20.000 Km2 por ano de floresta. Não podemos chegar neste nível novamente”, afirma Moutinho. Os autores temem que, sem controle, a somatória das árvores no chão, se queimadas, encha novamente o ar de fumaça em 2020 – que, por sua vez, aumenta os casos de problemas respiratórios na população da Amazônia. Em tempos de COVID-19, são contornos de um cenário que ninguém deseja.

Leia a nota técnica: http://ipam.org.br/bibliotecas/amazonia-em-chamas-3-o-fogo-e-o-desmatamento-em-2019-e-o-que-vem-em-2020/

O rápido desmatamento da Amazônia brasileira poderá trazer a próxima pandemia

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Por  Thais Borges e  Sue Branford 

  • Quase 25.000 casos de COVID-19 foram confirmados no Brasil, com 1.378 mortes em 15 de abril, embora alguns especialistas digam que isso é uma subestimativa. Esses números continuam crescendo, mesmo quando o presidente Jair Bolsonaro minimiza a crise, chamando-a de “nada pior que uma gripe leve” e coloca a economia acima da saúde pública. 
  • Os cientistas alertam que a próxima pandemia emergente pode se originar na Amazônia brasileira se as políticas de Bolsonaro continuarem a aumentar as taxas de desmatamento da Amazônia cada vez mais. Os pesquisadores sabem há muito tempo que novas doenças geralmente surgem no nexo entre floresta e agronegócio, mineração e outro desenvolvimento humano.
  •  Uma maneira de o desmatamento levar ao surgimento de novas doenças é através do fogo, como os incêndios na Amazônia vistos em 2019. Após os incêndios, o habitat alterado geralmente oferece menos comida, alterando o comportamento dos animais, colocando a fauna em contato com comunidades humanas vizinhas, criando vetores para bactérias zoonóticas, vírus e parasitas.][
  • Agora, Bolsonaro está pressionando para abrir terras indígenas e unidades de conservação para mineração e agronegócio – políticas que beneficiam muito os grileiros. A escalada do desmatamento, agravada pelas mudanças climáticas, o aumento da seca e do fogo, aumentam o risco de surgimento de novas doenças, além de epidemias de doenças existentes, como a malária.

mong 1O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta os apoiadores durante uma visita a 10 de abril em um bairro de Brasília, a TV Globo capturou imagens enquanto o presidente limpava o nariz com a mão e depois apertava as mãos de admiradores, incluindo uma idosa usando uma máscara para se proteger contra o coronavírus. Imagem cortesia da TV Globo.

Desde que chegou ao Brasil, o COVID-19 dividiu o país. Um lado pede medidas estritas de isolamento social para conter o vírus, enquanto o outro diz que todos devem voltar ao trabalho agora, exceto os idosos e os mais vulneráveis.

Essas visões conflitantes são evidentes mesmo no coração do governo. O presidente Jair Bolsonaro, em uma recente transmissão na televisão, declarou que a histeria tomou conta do país por causa de uma doença que ele chama de “nada pior do que uma gripe leve”.  O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, contesta isso, dizendo aos brasileiros para ficar em casa.

A desinformação é abundante. Os rumores proliferam nas mídias sociais, particularmente no que diz respeito ao número de mortes, enquanto o governo desacredita a grande imprensa, enquanto tenta relatar a pandemia em rápido desenvolvimento e informar o público.

mong 2Ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta. Sua oposição às opiniões negligentes do presidente Bolsonaro sobre a seriedade da pandemia do COVID-19 pode colocar em risco o trabalho do ministro. Imagem cortesia da Agência Brasil.

Este cenário não é novo. Desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019, Bolsonaro e seu governo difamaram cientistas que tentavam alertar a população sobre os riscos do aquecimento global, ou críticos sobre o enfraquecimento das regulamentações e agências ambientais federais. No primeiro semestre de 2019, houve relatórios conflitantes dentro do próprio governo e entre cientistas e ONGs sobre a escala e a gravidade do desmatamento e, mais tarde no ano, sobre a extensão dos incêndios na Amazônia e sua estreita ligação com grandes desmatamentos.

No entanto, por trás de todo esse debate estridente, está ficando claro para os especialistas que o COVID-19 e o desmatamento na Amazônia poderiam estar ligados – ambos os produtos da devastação natural e humana provocada por uma invasão das florestas remanescentes do mundo através da rápida expansão de extração de madeira, extração mineral, agronegócio industrial e infraestrutura de transporte.

Mesmo que o surto de COVID-19 esteja possivelmente relacionado ao comércio de vida selvagem e à destruição da biodiversidade pela humanidade, os pesquisadores dizem que o momento crescente do desmatamento na Amazônia está criando condições para a erupção de futuras pandemias. De fato, há sinais de que isso já pode estar acontecendo. 

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Desmatamento ruge, arriscando o surgimento de novas doenças

Em 2019, o desmatamento na Amazônia brasileira atingiu seu nível mais alto em dez anos (9.762 quilômetros quadrados, ou 3.769 milhas quadradas). É importante ressaltar que, nas reservas indígenas protegidas, aumentou ainda mais rapidamente, expandindo-se 74% em 2019 sob Bolsonaro em comparação a 2018.  As taxas de desmatamento na Amazônia continuam aumentando em 2020, dobrando de agosto de 2019 a março de 2020, em comparação com o mesmo período de 2018-19.

Essas não são apenas más notícias para a vida selvagem e os povos indígenas. É sabido entre os cientistas que o grande desmatamento pode levar ao surgimento de novos vírus e bactérias perigosas contra os quais a humanidade tem pouca defesa, levando a epidemias e pandemias.

“Vertebrados selvagens, principalmente roedores, morcegos e primatas, abrigam patógenos que são novos no sistema imunológico humano e, se limparmos seu habitat e nos colocarmos em contato mais próximo com eles, podemos aumentar o risco de ocorrer um evento de transbordamento, introduzindo um novo patógeno”, disse Andy McDonald, ecologista especializada em doenças do Instituto de Geociências da Universidade da Califórnia.

mong 4As doenças infecciosas transmitidas por animais são uma “ameaça crescente e muito significativa para a saúde, segurança e economias globais”. Kate Jones. Imagem cortesia de UCL.

Kate Jones, diretora de Ecologia e Biodiversidade da University College London (UCL), que faz parte da London University, diz que os pesquisadores sabem há muito tempo que as doenças infecciosas transmitidas por animais são “uma ameaça crescente e muito significativa à saúde, segurança e economia globais”.  Em 2008, ela fazia parte de uma equipe de pesquisa que determinou que pelo menos 60% das 335 novas doenças que surgiram entre 1960 e 2004 tiveram origem em animais não humanos.

Um dos principais fatores dessa transferência de doenças de animais silvestres para humanos ocorre como resultado da perturbação do habitat – especialmente a perturbação das florestas tropicais.

“Aproximadamente um em cada três surtos de doenças novas e emergentes está relacionado a mudanças no uso da terra, como o desmatamento”, explicou Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos com sede em Nova York. Daszak foi o principal autor de um estudo intitulado “Emergência de doenças infecciosas e economia de paisagens alteradas“, publicado no ano passado. Esse documento observa que “as doenças causalmente ligadas ao uso da mudança de terra incluem doenças mortais como HIV / AIDS, Ebola e Zika”.   Pesquisas preliminares indicam que agora podemos adicionar a COVID-19 a essa lista – a pandemia mais devastadora que atingiu a humanidade desde a gripe de 1918-19  que matou mais de 50 milhões de pessoas.

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Uma maneira de o desmatamento levar ao surgimento de novas doenças é através do fogo. Em meados de agosto de 2019, um grupo de especialistas internacionais em doenças zoonóticas (doenças transmitidas de animais para seres humanos) se reuniu na Colômbia para analisar o impacto dos incêndios florestais em andamento na Amazônia. Em seu comunicado, eles alertaram: “A região amazônica do Brasil, endêmica de muitas doenças transmissíveis ou zoonóticas, após um incêndio florestal, pode desencadear uma seleção de sobrevivência e, com isso, alterar o habitat e os comportamentos de algumas espécies animais. Estes podem ser reservatórios de bactérias zoonóticas, vírus e parasitas.”.

Esse cenário de incêndio já ocorreu em outro lugar. Em 1988, grandes incêndios na Indonésia criaram condições que permitiram o surgimento do vírus Nipah, que tem uma taxa de morbidade entre 40% e 70%. Os pesquisadores acreditam que o início dos incêndios fez com que os morcegos fugissem de suas casas na floresta, buscando comida nos pomares. Em seguida, os porcos comiam a fruta que os morcegos mordiscavam, infectando-se com o vírus, infectando a população local, que começou a morrer de hemorragia cerebral. Espera-se que os incêndios na Amazônia piorem muito, pois o agronegócio a utiliza como uma ferramenta para limpar a floresta tropical e as mudanças climáticas intensificam a seca por lá.  

Febre segue-se a ruína ambiental 

De fato, já existem exemplos brasileiros de uma grande perturbação ambiental que provoca doenças. Um desses incidentes diz respeito ao rompimento da barragem de rejeitos de mineração de ferro de Mariana no rio Doce, no estado de Minas Gerais em 2015, que matou 19 pessoas e era considerado na época o desastre ambiental mais grave da história do Brasil.

A bióloga Márcia Chame, da Fiocruz, fundação especializada em ciência e tecnologia da saúde, acredita que um grande aumento nos casos de febre amarela em Minas Gerais em 2016-17, levando o governo estadual a decretar um estado de emergência, foi parcialmente o resultado do desastre que poluiu 500 milhas de rio até o Oceano Atlântico.

Chame argumenta que o rompimento da barragem, que levou a “uma avalanche de 2,2 bilhões de pés cúbicos de lama e resíduos de minas“, despejando o rio Doce, afetou gravemente os animais na bacia hidrográfica circundante, tornando-os menos resistentes a doenças.

“Uma mudança abrupta no meio ambiente terá impacto sobre os animais, incluindo macacos. Com o estresse do desastre e a falta de comida, eles se tornam mais suscetíveis a doenças, incluindo febre amarela.” Chame diz que muitos macacos na bacia do Doce adoeceram com febre amarela. Esses macacos foram então picados por mosquitos, que por sua vez morderam humanos, levando a doença às cidades da região. Segundo ela, os mosquitos – particularmente Haemagogus leucocelaenus e H. janthinomys – foram “conduzidos por modificações da paisagem, com fragmentos de florestas em áreas peri-urbanas, permitindo interação suficiente [entre macacos, mosquitos e pessoas] para produzir essa epidemia”.

mong 6A pesquisadora Márcia Chame traçou uma relação causal entre um desastre ambiental catastrófico de uma barragem de rejeitos de minas de ferro no rio Doce no Brasil e um grande surto de febre amarela no local. Imagem cortesia de Fiocruz.

Processos semelhantes podem muito bem estar em andamento na Amazônia, embora em sua maioria não sejam examinados e não sejam detectados. Um estudo publicado no ano passado, intitulado “Desenvolvimento, degradação ambiental e disseminação de doenças na Amazônia brasileira” concluiu que “pouca atenção está focada no surgimento e reemergência de doenças transmitidas por vetores que afetam diretamente a população local, com efeitos colaterais em outras áreas vizinhas”.  

“Sabe-se que distúrbios graves na floresta contribuem para a expansão de doenças conhecidas como a malária, diz Mcdonald”. “O principal vetor de mosquitos” na América Latina se sai muito bem em fragmentos de floresta recentemente limpos, nas margens da floresta remanescente (onde há mais água parada para reprodução, temperaturas mais altas que podem facilitar o desenvolvimento mais rápido do parasita do mosquito e da malária, como bem como aumentar as taxas de picadas em humanos).  

Com as pessoas instaladas nessas áreas limpas… isso pode aumentar a transmissão da malária. ” Comparando imagens de satélite e dados de saúde, MacDonald, juntamente com Erin Mordecai, da Universidade de Stanford, determinou que o desmatamento em toda a Bacia Amazônica ajudou a levar a um aumento significativo da malária. MacDonald disse ao Mongabay que a equipe de pesquisa calculou que em 2008 um aumento de 10% no desmatamento, ou seja, cerca de 1.600 quilômetros quadrados (618 milhas quadradas) de corte adicional de florestas, levou a um aumento de 3,3% na transmissão da malária. Isso representou 9.980 casos adicionais em toda a região. 

mong 7A floresta amazônica intacta tem muito menos probabilidade de lançar suas surpresas zoonóticas ao mundo. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay.

Bolsonaro abre caminho para mais desmatamento 

Em meio à crise do COVID-19, o Congresso brasileiro está pronto para votar, transformando uma Medida Provisória temporária de 120 dias decretada por Bolsonaro em dezembro de 2019 em lei permanente. A Medida Provisória (MP) 910, em vez de conter invasões ilegais de terra, recompensa os grileiros que derrubaram ilegalmente florestas em terras públicas na Amazônia antes de dezembro de 2018 – regularizando sua ocupação ilegal, permitindo a compra da propriedade a preços bastante reduzidos, afastando-a do público para privado. Essencialmente, a medida permite que os grileiros violem a lei e se safem dela. 

De acordo com uma nota técnica emitida pela organização sem fins lucrativos IMAZON, a MP poderia levar ao desmatamento de até 16.00 Km2 até 2027, uma área dez vezes maior que a área que levou a um desmatamento. aumento de quase dez mil novos casos de malária no estudo MacDonald. 

Sob os termos atuais do MP 910, as autoridades não são obrigadas a verificar a validade de qualquer reivindicação feita por um potencial proprietário de terras para propriedades com tamanho inferior a 2.500 ha- uma estipulação que supostamente beneficia pequenos agricultores. 

Mas os grileiros da Amazônia são extremamente hábeis em contornar esses limites regulatórios. Uma prática muito comum é utilizar laranjas (literalmente laranjas, mas com mais precisão, patetas). Os grandes proprietários de terras fazem com que parentes amigos ou funcionários registrem uma pequena parcela em seus nomes, evitando a supervisão federal. Mais tarde, os laranjas entregam a propriedade ao grileiro, às vezes em troca de um pequeno pagamento. 

Se um proprietário de terras emprega 20 laranjas, cada uma registrando um terreno de 2.500 hectares (6.166 acres), ele acaba com uma propriedade de 50.000 ha. Outra conseqüência preocupante é que os grileiros podem apreender terras ocupadas por comunidades indígenas que não possuem ações, como está acontecendo com o grupo indígena Sateré-Mawe no estado do Amazonas.  

mong 8Desmatamento mensal na Amazônia brasileira desde 2007. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay, dados fornecidos pelo INPE.

A MP 910 também permite que aqueles que já se beneficiaram com a regularização de terras públicas invadidas, mas que venderam essa propriedade, entrem na fila novamente solicitando um novo lote. Embora reconheça a necessidade de resolver a atual anarquia sobre a posse de terras na Amazônia, Suely Araujo, ex-presidente do IBAMA, a agência ambiental do governo, é crítica ao MP. “Com essa flexibilidade, e sem separar grandes proprietários de terras de pequenos, esta lei legaliza aqueles que vivem da invasão de terras, do desmatamento e da venda de terras públicas”, disse ela a Mongabay. 

Em 27 de março, o ministro Alexandre Moraes, membro do Supremo Tribunal Federal, o tribunal de última instância do Brasil, proferiu uma decisão preliminar por facilitar a aprovação das Medidas Provisórias. Embora a intenção seja acelerar medidas urgentes durante a crise do COVID-19, os ambientalistas temem que o lobby ruralista aproveite esse novo procedimento para avançar mais energicamente com sua agenda. “Se não houver uma decisão política de retirar a MP 910 das medidas a serem votadas, corremos o risco de um sério revés ambiental durante esta crise [da saúde]”, alertou Araújo. 

Mais riscos à frente

Enquanto as taxas brasileiras de desmatamento disparam e as leis de uso da terra na bacia amazônica são prejudicadas, os povos indígenas da América Latina estão tentando chamar a atenção para a gravidade da crise ambiental global, que eles acreditam ter causado o surto de COVID-19. “O coronavírus está dizendo ao mundo o que os povos indígenas vêm dizendo há milhares de anos – se não ajudarmos a proteger a biodiversidade e a natureza, enfrentaremos isso e ameaças ainda piores”, disse Levi Sucre Romero, indígena da Costa Rica em uma conferência de imprensa organizada pela Covering Climate Now na cidade de Nova York em meados de março.

 

mong 9“A cura para a próxima pandemia, e mesmo para esta, pode ser encontrada na biodiversidade em nossas terras indígenas.” – Dinamam Tuxá. Imagem cortesia de Dinamam Tuxá.

Outro líder indígena da reunião, Dinamam Tuxá, coordenador da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), foi igualmente veemente: “A cura para a próxima pandemia, e até para esta, pode ser encontrada na biodiversidade em nossas terras indígenas ”, argumentou. “É por isso que precisamos proteger nossas terras e direitos, porque o futuro da vida depende disso.” Em contrapartida, Bolsonaro está promovendo uma legislação no Congresso que permitirá mineração em larga escala, perfuração de petróleo e gás e agronegócio industrial nas reservas indígenas do Brasil, em grande parte sem a contribuição das pessoas que vivem lá. 

Os especialistas continuam avisando com urgência que mais pandemias estão por vir. “Não estou surpreso com o surto de coronavírus”, disse à Scientific American o ecologista Thomas Gillespie, professor associado do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Emory. “A maioria dos patógenos ainda não foi descoberta”. Estamos na ponta do iceberg. 

John Scott, chefe de risco de sustentabilidade do Zurich Insurance Group, referindo-se ao Ebola, SARS, MERS e outras epidemias recentes, oferece uma mensagem semelhante: “Os últimos 20 anos de surtos de doenças podem ser vistos como uma série de quase acidentes catástrofes, que levaram à complacência e não à crescente vigilância necessária para controlar os surtos. ” 

mong 10Jovens dançarinos mundurucus comemoram seu parentesco com a natureza na Amazônia brasileira. Os povos indígenas em todo o mundo alertam há muito tempo que a falta de respeito da natureza pela humanidade moderna levaria a uma tragédia horrível. A pandemia do COVID-19, dizem eles, prova sua opinião. Imagem de Mauricio Torres.

Mudança climática, desmatamento, pandemias sucessivas

 Os cientistas não se assustaram com a pandemia do COVID-19; eles estavam alertando o mundo sobre esse evento há décadas. Da mesma forma, muitos não se surpreenderão se a crise climática muito negligenciada atingir um ponto sem retorno, com impactos muito mais sérios para o mundo – incluindo a extinção maciça de árvores da Amazônia e grandes liberações de carbono desestabilizadoras da atmosfera, impulsionadas não apenas por políticas favoráveis para capturadores de terras, mas devido a um declínio drástico nas chuvas da Amazônia e a um aumento de incêndios. De fato, muitos dizem que essas múltiplas crises estão entrelaçadas.

Um grande desafio do mundo pós-COVID-19 exigirá que a civilização se recupere da recessão econômica (ou depressão) global que causa sem agravar ainda mais a crise climática por meio da conversão em massa de florestas em minas de ouro, zinco e bauxita ou fazendas de gado e plantações de soja. O perigo: se o desmatamento tropical continuar fora de controle, mal podemos nos recuperar de uma pandemia antes de sermos confrontados por outra.

A próxima praga pode surgir em quase qualquer lugar: na Amazônia cada vez mais perturbada, no Congo, na Indonésia ou mesmo muito além da zona tropical, no Ártico, onde o permafrost está derretendo rapidamente, possivelmente descongelando vírus desconhecidos e inativos que podem desencadear o próximo planeta. crise de saúde. Nesse sentido, o COVID-19 – por mais horríveis que sejam seus resultados – pode ser apenas um prenúncio de pandemias muito piores por vir.

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Esta reportagem foi publicada originalmente em inglês pelo site de notícias Mongabay [Aqui!].

 

No Brasil, a próxima pandemia virá na forma de fumaça

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O Brasil sofre neste momento com o crescimento da pandemia causada pelo coronavírus e as próximas semanas deverão ser marcadas por uma quantidade imensa de enterros e cremações, muito em parte pela omissão das forças políticas e instituições em face da postura negacionista que emana do presidente Jair Bolsonaro.

Mas que ninguém pense que o fim da atual pandemia nos permitirá respirar aliviados, pois as informações que nos chegam da Amazônia é que em 2020 será quebrado um recorde no número de áreas novas que passarão por um processo de corte raso das florestas nativas.

Se alguém tiver dúvida disso é só olhar com cuidado a animação abaixo que mostra valores bastante altos para desmatamento para os primeiros meses de 2020 em que ocorrem chuvas contínuas na maior parte da bacia Amazônica.

Antes que alguém pense que isto ocorre por meio de indivíduos que operam à margem da lei, eu diria que os grandes desmatadores amazônicos são normalmente dotados de grandes quantidades de capital que lhes permite comprar máquinas e ferramentas com as quais podem desmatar rapidamente grandes extensões de floresta.

Como o ciclo do desmatamento é seguido pelo das queimadas, a minha previsão é que passado o período chuvoso, o Brasil voltará às manchetes mundiais por causa das grandes extensões de terra que emitirão grossas camadas de fumaça, que anularão todos os ganhos eventuais que estão feitos com a redução das emissões urbano-industriais que vem acompanhando a evolução da COVID-19.

A minha suspeita é que um ambiente  de alta intolerância está sendo criado em muitos países contra o Brasil por causa da forma irresponsável que o presidente Jair Bolsonaro vem tratando da pandemia da COVID-19. Assim, quando as grandes queimadas começarem a revelar o avanço massivo da franja de desmatamento em áreas anteriormente praticamente livres da ação de madeireiros e garimpeiros, é bem provável que o nosso país sofra um isolamento ainda maior do que já está sofrendo. O resultado disso será o aumento da crise econômica e do desemprego.

 

Desmatamento explode na Amazônia e já é quase o dobro do anterior

Dados são do sistema de monitoramento do Inpe, órgão ligado ao governo federal; Pará tem uma das situações mais críticas

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A extração ilegal de madeira corre em ritmo acelerado na Amazônia, fazendo com que o volume do desmatamento acumulado de agosto de 2019 a março deste ano já chegue ao dobro do verificado no mesmo intervalo anterior, quando a derrubada recorde da floresta virou alerta global. Uma área superior a três vezes a cidade de São Paulo já foi abaixo neste período.

Os números são do próprio governo federal. O Estado fez um levantamento dos dados captados na região amazônica pelo Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), ferramenta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que serve para orientar ações de fiscalização contra o desmate. Foram checados os cortes feitos de agosto (mês que começa a medição oficial) até o 26 de março deste ano, data mais atual disponível pelo sistema.

Veja o texto na íntegra: O Estado de S. Paulo