O destino do Brasil como pária global no mundo pós-pandemia

bolsonaro pariaA combinação entre o desmanche da governança ambiental com o tratamento dado à pandemia da COVID-19 pelo governo Bolsonaro colocará o Brasil na posição de pária global

Venho há algum tempo insistindo na tese de que o Brasil, graças ao processo de desmantelamento da precária governança ambiental comandado pelo governo Bolsonaro, se encaminhava para se tornar um pária ambiental que, por causa disso, seria alienado dos principais fóruns e decisões políticas de alcance global. É que a estas alturas do campeonato e com o conhecimento científico acumulado, existe um certo acordo sobre a necessidade de se rever as formas de apropriação do ambiente natural. 

A eclosão da pandemia da COVID-19 acabou colocar ainda mais pressão para que práticas dominantes na produção e consumo em escala global.  É que qualquer um que se aventure a ultrapassar o limiar das “fake news” (notícias falsas) que, repercutem o negacionismo em relação à gravidade da pandemia, verá que já está explicitado a ligação entre a disseminação do “novo” coronavírus e a destruição de ecossistemas naturais para a implantação de grandes áreas de monoculturas e suas co-irmãs, as mega fazendas industriais.

coronavirusA forma do governo Bolsonaro tratar a pandemia da COVID-19 causa espanto no resto do mundo. E o pior da pandemia ainda nem começou….

A junção de uma mudança paradigmática entre os mecanismos dominantes de apropriação da Natureza com o reconhecimento de que a COVID-19 prosperou tão eficazmente justamente por causa da degradação ambiental deverá gerar uma pressão global para que acordos multilaterais sejam firmados para diminuir a velocidade da destruição de grandes ecossistemas naturais, como é o caso das florestas tropicais. Aliás, isto acabará ocorrendo também porque já se prognostica que a erradicação dessas florestas poderá contribuir para a ocorrência de pandemias ainda mais graves.

Um exemplo de como essa pressão irá ocorrer foi a recente  da Assembleia Geral de acionistas da mineradora Vale que decidiu retirar todos os pedidos para mineração em terras indígenas na Amazônia que se encontravam sob análise pela Agência Nacional de Mineração. Essa decisão decorreu da pressão externa, especialmente daqueles grupos conhecidos como “acionistas críticos”. Interessante lembrar que a empresa alemã Siemens já havia informado em agosto de 2019  que não venderia equipamentos para serem usados em áreas de mineração dentro de terras indígenas no Brasil.

Mas a condição de pária global a que o Brasil vinha se candidatando a ocupar deverá levar um empurrão adicional  para ser reconhecido como tal pela forma irresponsável com que o governo Bolsonaro vem tratando a pandemia da COVID-19.   Não é por acaso que grandes veículos da mídia internacional estão colocando o presidente Jair Bolsonaro na companhia nada ilustre de um pequeno número de governantes que negam a gravidade da pandemia (os outros três negacionistas do coronavírus são Gurbanguly Berdymukhamedov (do Turcomenistão), Daniel Ortega (da Nicarágua) e Alexander Lukashenko da Bielo-Rússia). Esse grupo de negacionistas recebeu o nada elogioso rótulo de “Aliança das Avestruzes” pelo Financial Times.

aliança das avestruzesJair Bolsonaro, Alexander Lukashenko, Daniel Ortega e Gurbanguly Berdymukhamedov, grupo de líderes negacionistas, que formam a “Aliança das Avestruzes”. Fonte: Financial Times

E o pior é que o final previsto para o período mais duro da pandemia da COVID-19 (para a maioria dos analistas isto ocorrerá no Brasil no final de junho) irá coincidir com o início de um grande de queimadas na Amazônia, a qual deverá superar os números recordes alcançados em 2019. Me arrisco a dizer que a combinação entre o gerenciamento desastroso que o governo Bolsonaro está dando à COVID-19 combinada com as imagens de grandes áreas em chamas na Amazônia será uma espécie de “last straw” (ou a gota que fará o balde transbordar) da falta de paciência de grandes investidores e agentes governamentais com o Brasil.  Por isso, mesmo pesando os grandes interesses econômicos envolvidos,  o primeiro acordo econômico que deverá ser bombardeado será o firmado entre o Mercosul e a União Europeia.  A estas alturas do campeonato, esse acordo é o que se chama em inglês de um “lame duck” (ou pato manco em português), que não terá muita chance de se tornar realidade.

Por isso tudo é que me arrisco a dizer que o Brasil sairá muito mais isolado econômica e politicamente do que entrou na pandemia.  A ver!

 

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