O Brasil na imprensa alemã (21/08): boicote comercial e outras possibilidades

No debate sobre aumento do desmatamento na Amazônia e a suspensão de repasses para projetos ambientais no Brasil, publicações da Alemanha propõem sanções econômicas para pressionar Bolsonaro e frear destruição florestal.

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Queimada na Amazônia: “Futuro desse ecossistema não pode depender apenas de Bolsonaro”

Der Spiegel – Chegou a hora de impor sanções contra o Brasil (17/08)

A Amazônia diz respeito a toda a humanidade. O desenvolvimento do clima do mundo depende da preservação da floresta tropical. Portanto, não devemos deixar a decisão sobre o futuro desse ecossistema apenas para o presidente extremista de direita do Brasil, Jair Bolsonaro. A Europa não deve assistir inerte enquanto um cético da ciência, movido por preconceitos e pelo ódio, sacrifica vastas áreas de selva em favor de pecuaristas e plantações de soja.

(…)

Chegou a hora de se pensar em sanções diplomáticas e econômicas contra o Brasil. Os produtos agrícolas brasileiros devem desaparecer dos supermercados da UE se não for possível comprovar que foram produzidos em condições ambientalmente justas. Os poderosos grandes fazendeiros, que apoiam decisivamente Bolsonaro, devem sentir que sua atitude tem um preço. Porque seu ídolo não só inflige danos imensuráveis a seu próprio país, mas ao mundo todo.

Die Zeit – Atingir onde mais dói (14/08)

Mas a questão crucial permanece: de que adianta cortar o dinheiro para a conservação da floresta de um parceiro que, de qualquer forma, não tem mesmo interesse na conservação da floresta – e ainda responde à pressão pública com ostensiva teimosia, ao invés de mostrar disposição em conversar?

Talvez seja mais promissor atingir o Brasil num ponto que mais dói: os interesses econômicos de seus exportadores, como, por exemplo, dos agricultores, que vendem soja e carne bovina em larga escala para metade do mundo. A União Europeia é um dos principais importadores e acaba de assinar um acordo de livre comércio com o Mercosul, o mercado comum sul-americano, como anunciado orgulhosamente pelos representantes dos Estados participantes na cúpula do G20 em Osaka. O Brasil é o maior membro do Mercosul.

É verdade que o acordo contém cláusulas sobre proteção climática e florestal. Mas, segundo se sabe até agora – por enquanto só existe uma versão preliminar do texto –, elas permanecem bastante gerais. Elas não estabelecem referências claras para medir se as partes cumprem suas promessas, nem definem sanções. E, para Bolsonaro, o papel tem paciência. De qualquer forma, desde a assinatura do acordo de livre comércio, nada indica que o governo brasileiro realmente esteja se esforçando em prol de políticas climáticas eficazes ou da proteção da Floresta Amazônica.

Se a UE deixasse claro que só importa produtos de soja e carne bovina que foram comprovadamente produzidos respeitando a proteção das florestas tropicais e que, de outra forma, paralisará as importações, isso seria um meio de pressão poderoso. Os agricultores brasileiros são – juntamente com os evangélicos e os militares – importantes apoiadores de seu presidente. Jair Bolsonaro dificilmente pode se dar ao luxo de irritá-los.

Frankfurter Allgemeine Zeitung – Briga de poder pela floresta tropical (20/08)

Para o presidente brasileiro, a Amazônia é uma “virgem”. Que agora está ameaçada. “Pervertidos” querem atacá-la, disse recentemente Jair Bolsonaro, se referindo à Europa. Os europeus, segundo ele, fingem proteger a Amazônia para explorá-la no futuro. “Eles acham que a Amazônia não pertence aos brasileiros.”

Bolsonaro recusa conselhos e avisos sobre como ele deve lidar com os cerca de 5,5 milhões de quilômetros quadrados de área florestal em seu país. Ele quer promover o desenvolvimento econômico da Amazônia sem ser perturbado. Suas palavras caem em terreno fértil no país, revivendo um velho medo dos brasileiros de que a floresta tropical possa cair em mãos de uma potência estrangeira ou ser colocada sob administração internacional. Isso vem do tempo da ditadura militar. Sob o medo de se perder o controle da Amazônia, na época, estradas foram cortadas através da floresta, e colonos foram enviados para a região. Massacres da população indígena se seguiram.

(…)

Em Berlim, impera um sentimento de insegurança. É difícil se saber com quais meios Bolsonaro pode ser convencido a mudar de atitude em relação ao tema Amazônia – se é que isso é possível. A mesma questão surge com relação ao acordo de livre comércio entre a UE e a cooperação sul-americana Mercosul. As negociações foram concluídas no início de julho, e o governo em Brasília celebrou o acordo como um sucesso revolucionário. No pacto, o país se compromete a implementar o Acordo de Paris sobre Mudança do Clima e combater o desmatamento. Os europeus podem tornar a conservação da floresta tropical uma condição para diminuir tarifas? Ou será que isso teria o efeito exatamente oposto sobre Bolsonaro? Naturalmente, existe também a preocupação de que o acordo crie um incentivo para desmatar mais terras florestais, a fim de aumentar a cota de exportação de soja, por exemplo. A França já anunciou que não ratificará o acordo se o Brasil não combater o desmatamento na Amazônia.

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Este material foi originalmente compilado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Jair Bolsonaro lança fake news sobre ONGs para esconder seus êxitos na destruição da Amazônia

fogo amazoniaAmazônia: Bolsonaro disse que organizações não-governamentais podem estar por trás das queimadas na região

Uma coisa que considero no mínimo curiosa é a tentativa do presidente Jair Bolsonaro de abrir mão de reconhecer o maior êxito de seu governo até agora que é o desmantelamento do sistema de proteção ambiental no Brasil. Confrontado com o sucesso de suas políticas anti-ambientais no avanço devastador da franja do desmatamento na Amazônia, o presidente do Brasil saiu-se com uma estrondosa “fake news” para tentar se esquivar do que imagens de satélite, vídeos e fotografias estão mostrando o mundo.

É que Jair Bolsonaro declarou que as queimadas devastadoras que estão ocorrendo na Amazônia não são de responsabilidade de invasores de terras públicas e latifundiários despreocupados com o meio ambiente, mas sim de ativistas de organizações não governamentais de proteção ao meio ambiente.

Quando solicitado a oferecer provas materiais de uma acusação tão grave, o presidente saiu pela costumeira tangente, afirmando que coisas desse tipo não possuem planos escritos, o que dispensaria a ele o ônus do oferecimento da prova.

É provável que Jair Bolsonaro ache que suas falas possam ser suficientes para dotar o segmento da população brasileiro que o apoia cegamente, bem como para municiar as milicias digitais que espalham suas “fake news”.  Tal crença é compreensível, pois até agora esse tipo de tática vem funcionando de forma eficiente e sem grande contestação no plano interno do Brasil.

O que Jair Bolsonaro não está certamente levando em conta é que as imagens da devastação em curso em boa parte da Amazônia estão circulando rapidamente pelo planeta inteiro neste momento. E é aí que o bicho pega, pois as relações comerciais que o Brasil possui, principalmente com a União Europeia, estão diretamente sob a dependência de acordos firmados pelo próprio governo brasileiro com a proteção da Amazônia e do combate ao desmatamento desenfreado.

Em outras palavras, o uso do “estilo Chacrinha” de comunicação pode até ser suficiente no plano interno, mas dificilmente resolverá ou sumirá com as pressões por um boicote internacional aos produtos agrícolas brasileiros. E é nesse contexto mais amplo que essa acusação sem base real contra as ONGs ambientalistas vai acabar acelerando a tomada de medidas contra o Brasil por governos estrangeiros que já estão sob imensa pressão para agir em prol da proteção das florestas amazônicas.

 

Estudo da USP refuta alegação de Ricardo Salles sobre o dia que virou noite em São Paulo

queimada mais frente friaCinzas das queimadas da Amazônia fizeram o dia virar noite em São Paulo. Mas para o ministro Ricardo Salles, isso seria  notícia falsa

Até o mais quimicamente desinformado habitante da região metropolitana de São Paulo foi capaz de estabelecer rapidamente uma ligação entre o fenômeno que transformou o dia em noite na última segunda-feira às queimadas da Amazônia.  Rapidamente o improbo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (do partido “Novo”) veio à público para negar de forma peremptória qualquer ligação entre os fatos, alegando que isso seria uma “notícia falsa“.

Pois bem, um problema para Ricardo Salles é que a nuvem negra virou chuva, o que possibilitou que pesquisadores do Instituto de Química da Universidade de São Paulo examinassem amostras da água que caiu sobre a capital paulista.  Entre os compostos detectados hidrocarbonetos que são excelentes marcadores de origem do material, o que confirmou cientificamente o que os paulistanos já sabiam. Segundo a professora e pesquisadora Pérola de Castro Vasconcellos, do Instituto de Química da USP, “entre os hidrocarbonetos encontrados está o reteno, que é um marcador de queimada.”

Água de chuva coletada na região metropolitana de São Paulo continham elementos químicos associados às queimadas na Amazônia.

Desta situação se depreendem duas constatações. A primeira é que temos diante de nós é o resultado direto do transporte de material particulado oriundo das queimadas que estão ocorrendo na Amazônia e no Centro Oeste. A segunda é que temos um mentiroso contumaz sentado na cadeira de ministro de Meio Ambiente, o qual não se nega a cumprir o papel deliberado de mentiroso para fazer prevalecer as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro.

O problema é saber como agir a partir dessas constatações, pois a situação que está se criando a partir do alastramento da franja de desmatamento (principalmente dentro de terras públicas da União, é preciso que se diga) possui implicações para além dos impactos regionais na Amazônia.  É que se for mantida a velocidade do desmatamento na Amazônia, os problemas que serão criados para o clima não apenas do centro sul brasileiro, mas de todo o planeta, serão imensos.  E nesse contexto, ter uma figura como Ricardo Salles como ministro do Meio Ambiente somente ampliará a catástrofe que nos espreita.

Amazônia em chamas: a supremacia da economia de fronteira e avanços tecnológicos explicam o tamanho do fogo

amazon fire(Photo: Mario Tama/Getty Images)

Enquanto milhares de imagens de fogo literalmente incineram a falsa polêmica levantada pelo presidente Jair Bolsonaro e por seu improbo ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cresce um misto de comoção e aturdimento de como podemos estar assistindo a tamanha destruição e em tal velocidade.

A pista para entender o que está ocorrendo pode estar em um relatório razoavelmente desconhecido no Brasil e que foi escrito por Michael E. Colby para o Banco Mundial onde ele apresenta sua tipologia para os diferentes paradigmas o manejo do ambiente em face do processo de desenvolvimento econômico. 

É que no continuum criado  por Colby aparece o que ele chamou de “Economia de Fronteira” onde o que predomina é uma visão da natureza como uma fonte infinita e aberta de recursos, de onde se pode tirar tudo sem que haja quaisquer preocupações com a sustentabilidade ambiental ou, ainda, com a distribuição dos  custos que essa forma desregulada de acesso inevitavelmente causa.

E me parece que é justamente a supremacia da “Economia de Fronteira” que estamos assistindo neste momento, o que tem sido viabilizado não apenas pelas políticas ambientais do governo Bolsonaro, mas pela presença de diversos clones de Jair Bolsonaro nos governos estaduais.  Essa combinação permitiu o desmanche das precárias estruturas de comando e controle que impediram nas últimas décadas que a “Economia de Fronteira” hoje hegemônica em relação a outras formas de exploração capitalista. Agora que esses controles sumiram, os agentes que só podem agir livremente em regimes econômicas da “Economia de Fronteira” estão agindo em sua plenitude, e com as repercussões devastadoras que estão emergindo nas redes sociais e mais pontualmente nas telas de TV.

Um aspecto que sempre merece esclarecimento é que os agentes (ou “drivers”) da “Economia de Fronteira” sempre estiveram presentes e agindo, e são relativamente conhecidos na literatura sobre as idas e vindas dos esforços de modernizar o Capitalismo na fronteira amazônica.  Entre os “drivers” clássicos estão os madeireiros, garimpeiros e grileiros de terras, latifundiários, bem como os agricultores sem terra descapitalizados. Além disso, as formas de interação entre esses agentes também foi fartamente ilustrada, pois apesar de existir certa autonomia entre eles, também sempre existiu formas de cooperação. Agindo junto ou sobre esses agentes sempre estiveram membros das elites políticas e econômicas que inicialmente ocuparam a Amazônia, e que historicamente ocuparam a direção dos governos estaduais e municipais. 

Outros agentes que começaram a estar presente com o avanço da fronteira que foi viabilizado pelos grandes projetos implantados na Amazônia pelo regime militar de 1964 foram as grandes corporações econômicas (i.e. bancos, mineradoras, montadoras de carros) a quem não apenas foi oferecida a oportunidade de operar em seus ramos específicos, mas também de serem grandes proprietárias de terra.  Apesar desses agentes econômicos representarem uma face mais moderna do Capitalismo, o fato é que dentro da Amazônia os mesmos sempre tenderam a operar dentro dos parâmetros da fronteira, e não raramente recorreram à violência extrema para impor seus interesses. Tudo dentro da melhor concepção da “Economia de Fronteira”.

Entender essa complexa combinação de agentes e seu comportamento de acesso ilimitado aos recursos naturais da Amazônia é o primeiro passo para entendermos o que está acontecendo neste momento. Entretanto, penso que algo mais precisa entrar na equação que é o avanço tecnológico das ferramentas de extração de recursos, bem como uma modificação nas formas de colaboração entre todos os agentes aqui citados.  A existência de máquinas e insumos que permitem que mais áreas sejam incorporadas à economia de fronteira tem o dom de potencializar a capacidade de destruição que cada um desses agentes possuía anteriormente.  Como também ocorreu uma modificação nas formas com que esses agentes agem, o mais provável é que estejam cooperando mais eficientemente em vez de estarem competindo entre si.  Um exemplo seria a ação combinada entre madeireiros e grandes proprietários de terra que agem de forma coordenada para remover os recursos madeireiros e abrir caminho para haja uma derrubada acelerada da vegetação desprovida de essenciais florestais de valor comercial.

O importante é que seja quem estiver colaborando com quem, o que temos como padrão neste momento é a capacidade de remover mais vegetação nativa e em um espaço muito menor do tempo em relação ao que ocorreu na década de 1970.  Tudo isso torna ineficaz o uso das taxas relativas e absolutas acumuladas na Amazônia para minimizar o que estamos assistindo em 2019. É que tudo indica que estamos diante de um novo regime de desmatamento cuja velocidade estamos apenas começando a ver. Como sou o co-autor de um artigo científico sobre o desmatamento no interior de unidades de conservação no estado de Rondônia onde ficou demonstrado que é preciso se verificar o comportamento longitudinal do desmatamento mesmo em face de taxas absolutas que parecem residuais,  o que mais me preocupa é que as taxas que estão sendo verificadas na Amazônia apontam para um cenário mais devastador e que se dará em tempo bem menor.

Ressalte-se que esse cenário se ajusta perfeitamente ao ideário ultraneoliberal que o ministro Paulo Guedes vem pregando, pois o que ele nos oferece como visão de economia é o que alguns rotulam de “anarco capitalismo” que é apenas uma nova roupagem para a “Economia de Fronteira”, pois o que se prega é a completa ausência do papel de intervenção do Estado a quem resta operar para que os indicadores de saúde econômica não espantem os especuladores internacionais que se refastelam com o dinheiro público. O problema é que ao Brasil e aos brasileiros restará um país que está torrando a sua biodiversidade em prol de uns trocados.

A Amazônia em chamas nas lentes de Araquém Alcântara

O catarinense Araquém Alcântaraque é um dos principais fotógrafos, da atualidade acaba de divulgar em sua página oficial da rede social Facebook uma série de imagens de sua recente visita ao círculo de fogo em que as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro estão transformando a Amazônia brasileira.

Estou tomando a liberdade de postar essa série de fotografias que mostram com riqueza de detalhes a destruição que está em curso neste momento na porção brasileira da bacia Amazônica. Disseminar essas imagens é uma das formas de desvelar o profundo crime ambiental que está sendo cometido contra os povos e a biodiversidade da Amazônia.

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As chamas que devoram a Amazônia são uma prova do êxito das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro

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O vídeo abaixo apresenta uma prova inegável do êxito das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro que transformaram boa parte da Amazônia brasileira em uma fogueira a céu aberto após a derrubada de milhares de hectares de floresta.

A informação é que este vídeo foi gravado em algum ponto da BR-364 no estado de Rondônia, mas poderia ser em muitos outros pontos da Amazônia onde hoje o fogo domina a paisagem.

A fumaça que já começa a cobrir boa parte da América do Sul somada às imagens de fogo que estão emergindo por todos os cantos nas redes sociais são atestados de que a inércia estabelecida pelo governo Bolsonaro para impedir a proteção de nossas florestas está sendo plenamente exitosa.

Fica apenas a pergunta do porquê da demissão do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o físico Ricardo Galvão, por causa da divulgação dos dados de desmatamento que agora estão se transformando am incêndios gigantescos.

A minha hipótese é que se esperava que com a demissão de Ricardo Galvão se esconderia a verdade inescondível. Faltou combinar com as redes sociais e seus milhões de informantes que não se curvam às vontades deste ou daquele governo.

A Amazônia queima enquanto o improbo Ricardo Salles está à toa na vida

fogo-amazoniaEnquanto as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro colocam tocam fogo na Amazônia, Ricardo Salles está à toa na vida.

Imagens de satélite estão mostrando que boa parte da América do Sul está sendo coberta por nuvens de fumaça vindas das milhares de queimadas que estão sendo acesas com a vegetação que está sendo tombada das florestas da Amazônia brasileira (ver exemplo abaixo).

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Não bastassem as imagens de satélite, relatos de diversas tragédias que estão alcançando aqueles que estão ficando literalmente do fogo cruzado começam a surgir na mídia alternativa, como foi o caso de um casal de idosos que morreu abraçado tentando escapar de um incêndio aparentemente criminoso que atingiu um assentamento de reforma agrária no município de Machadinho do Oeste em Rondônia.

Enquanto o fogo que se espalha por boa parte da Amazônia ceifa vidas e extermina a biodiversidade, o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se ocupa de fazer paródias em sua página oficial na rede social Twitter. Frise-se ainda que a paródia feita foi uma tentativa (tosca é preciso que se diga) de responder à informação que o improbo ministro está sendo investigado pelo Ministério Público Estadual de São Paulo por suposto enriquecimento ilícito entre 2012 e 2017,  período em que ele alternou suas pouca rentáveis atividades como advogado com cargos no governo tucano de Geraldo Alckmin.

Em mais essa mostra de inaptidão para ocupar um ministério chave para a manutenção do Brasil como um “player” não apenas no fornecimento de commodities agrícolas e minerais para os mercados globais, mas também nas políticas internacionais de mitigação das mudanças climáticas, como é o caso do Meio Ambiente (MMA), Ricardo Salles utilizou-se da canção “A banda” para tentar atacar (no caso a mídia corporativa) quem divulga os seus problemas com a justiça, realizando um ataque primário à Chico Buarque e ao jornalista Glenn Greenwald.

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Um conforto nesse tweet é que Ricardo Salles finalmente reconheceu publicamente e em veículo pessoal algo que já é sabido por todos, que é o fato dele “estar à toa na vida”. O problema é que a sua gestão desastrosa à frente do MMA, não apenas a Amazônia queima, como queimam pessoas e a rica biodiversidade que ela contém.

Quando a conta da presença do improbo ministro Ricardo Salles à frente do MMA finalmente chegar (e ela vai chegar), quem hoje ri com a situação criada por ele também vai chorar, como hoje chora quem está perdendo tudo para o fogo alimentada pela ação deliberada de destruir a governança ambiental e os mecanismos de comando e controle está destruindo.

Bolsonaro é ridicularizado na TV alemã

Em horário nobre, programa humorístico da principal rede de televisão pública da Alemanha satiriza o governo brasileiro, criticando suas políticas ambientais e agrícolas e o crescente desmatamento na Amazônia.

bolso bufaoPresidente brasileiro é o “bufão do agronegócio”, segundo humorístico

Borat, bobo da corte e protagonista do clássico de terror Massacre da serra elétrica – essas foram algumas das associações feitas ao presidente Jair Bolsonaro pelo programa humorístico alemão Extra 3, transmitido na noite de quinta-feira (15/08).

Atração de horário nobre da ARD, principal rede de televisão pública alemã, o programa satirizou por quase cinco minutos o governo do presidente brasileiro, criticando principalmente sua política ambiental e o desmatamento na Amazônia.

“Um sujeito que não pensa nem um pouco sobre sustentabilidade e emissão de CO2 é o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o ‘Trump do samba’. Mas alguns dizem também ‘o boçal de Ipanema'”, afirma o apresentador Christian Ehring, em frente a uma fotomontagem de Bolsonaro vestindo a sunga do personagem Borat, criado pelo humorista britânico Sacha Baron Cohen.

“Bolsonaro deixa a floresta tropical ser destruída para que gado possa pastar e para que possa ser plantada soja para produzir ração para o gado”, continua Ehring, após mencionar os mais recentes dados sobre desmatamento no Brasil e diante de outra montagem, dessa vez mostrando Bolsonaro com uma serra elétrica nas mãos.

“Desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, o desmatamento cresceu significativamente e pode continuar aumentando a longo prazo”, diz uma voz em off, após aparecer uma foto do líder brasileiro como um “bobo da corte do agronegócio”, segurando uma garrafa de pesticida.

O apresentador destaca ainda que o presidente “não se importa nem um pouco” com a suspensão de verbas para projetos ambientais anunciada pelo Ministério do Meio Ambiente alemão no fim de semana. “Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá tá precisando muito mais do que aqui”, afirmou Bolsonaro ao reagir com desprezo ao congelamento dos repasses.

Ehring também fala sobre o acordo comercial negociado entre a União Europeia e o Mercosul, chamando o pacto de um “romance destrutivo”. Atrás dele aparece uma fotomontagem retratando o presidente e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, como uma dançarina sentada em seus braços.

“Bolsonaro ainda demitiu o chefe do próprio instituto que registrou o desmatamento na floresta tropical”, ressalta o comediante, referindo-se à demissão de Ricardo Galvão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “E também nomeou a principal lobista da indústria agropecuária como ministra da Agricultura”, complementa.

Em seguida, ele apresenta um videoclipe da chamada Bolsonaro-Song, uma paródia da música Copacabana, sucesso nos anos 70 na voz do americano Barry Manilow. O vídeo intercala cenas de Bolsonaro com imagens de cortes de árvores e queimadas na Amazônia, além de atividade agrícola e pecuária.

massacre“O massacre da serra elétrica”: sátira associa líder brasileiro a filme de terror

Humorístico conhecido principalmente pela sátira política, o programa Extra 3 tem como alvos principais os dirigentes alemães. Mas líderes internacionais como o americano Donald Trump, o norte-coreano Kim Jong-un, o britânico Boris Johnson e o russo Vladimir Putin também são personagens recorrentes do programa.

Nem sempre a brincadeira é levada na esportiva pelos estadistas. Um dos mais recentes debates provocados pelo Extra 3 foi uma paródia musical com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, veiculada em março de 2016. O caso gerou um desconforto diplomático entre Berlim e Ancara, e o Ministério do Exterior turco chegou a convocar o embaixador alemão no país para explicações.

A controvérsia chegou ao ápice poucas semanas depois, com uma sátira a Erdogan apresentada em outro programa televisivo, dessa vez pelo humorista Jan Böhmermann. O imbróglio foi parar na Justiça e acabou ganhando as capas dos jornais como o “caso Böhmermann”.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

A devastação da Amazônia e os riscos crescentes do isolamento internacional do Brasil

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Múltiplas evidências apontam no sentido de que a porção brasileira da bacia Amazônica está experimentando uma retomada dos ritmos explosivos de desmatamento que marcaram a região durante os anos de 1970. Mas ao contrário do que aconteceu cinco décadas atrás, existem ferramentas de mensuração e publicização de formas predatórias de uso dos recursos naturais existentes na Amazônia.

As primeiras consequências da constatação do avanço explosivo da franja de desmatamento foram a demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) por ter cometido o “pecado” de não ter escondido os números do desmatamento. Depois e provavelmente como consequência disso, os governos da Alemanha e da Noruega resolveram suspender o envio de cerca de R$ 300 milhões que seriam investidos em projetos de conservação.

A resposta do governo brasileiro a partir do que vem dizendo o presidente Jair Bolsonaro é um misto de incompreensão e afronta. Uma das pérolas foi sugerir ao governo de Angela Merkel que utilize os recursos retidos na conservação de suas próprias florestas, aparentemente sem saber que a Alemanha é um dos países mais florestados do continente europeu. A resposta alemã veio na forma de um vídeo sarcástico publicado pela Embaixada da Alemanha em Brasília onde somos convidados a visitar os parques nacionais alemães onde a beleza natural se mistura com a eficiência de sua proteção.

O problema é que, por falta de um ministro de Relações Exteriores com um mínimo de capacidade de representar bem os interesses brasileiros,  não se está entendendo o real significado da suspensão do envio de, convenhamos, uma quantia que é pequena em relação ao montante da balança comercial que o Brasil possui com a União Europeia da qual a Alemanha é um dos principais membros.  Como já escrevi aqui, o que Alemanha e Noruega estão fazendo é iniciar um alerta não ao presidente Jair Bolsonaro, mas aos líderes do latifúndio agro-exportador para que contenham o ímpeto do governo federal no sentido de permitir o desmatamento desenfreado da Amazônia e do Cerrado.  E os pontos do relógio para que os donos do “agronegócio” ajam já começaram a girar.

E os pontos tenderão a girar mais rápido se aos grileiros, madeireiros e garimpeiros que continuem sua marcha de devastação sem serem incomodados. Não entender os motivos da diplomacia europeia para exigir a contenção do desmatamento na Amazônia levará em um primeiro momento ao que o ex-ministro e latifundiário da soja Blairo Maggi vaticinou como uma volta à estaca zero do agronegócio brasileiro. Depois disso virão outras consequências duras e que deverão em um amplo isolamento do Brasil no cenário internacional.  O caminho da transformação do Brasil em um pária internacional está sendo aberto nas florestas amazônicas.

Satélites da Nasa mostram alta de queimadas junto ao desmatamento

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Por Gustavo Faleiros

Incêndios na Amazônia cresceram 38% este ano. Sete das cidades com mais incêndios também estão na lista daquelas com maior desmatamento. Foto: Imagem do satélite Terra tirada no dia 13 de agosto na região da Transamazônica (sul do Amazonas e Pará)

Apesar das críticas recebidas pela admistração Jair Bolsonaro, os dados do desmatamento do INPE não são os únicos a mostrarem o avanço do corte raso na Amazônia e no Cerrado. Os satélites da Nasa registraram um crescimento de 65% de queimadas no Brasil desde o início de 2019 em comparação com o mesmo período de 2018. Esta alta ocorre principalmente nas regiões Norte e Centro Oeste.

Existe uma relação direta entre o aumento de queimadas e o crescimento do desmatamento. Entre os 10 municípios que registraram maiores queimadas em 2019, sete também estão na lista dos municípios com o maior número de alertas de desmatamento. Os outros três munícipios da lista pertencem ao bioma Cerrado.

Fonte: Programa de Monitoramento de Queimadas e Terra Brasilis – DETER – INPE Descarregar estes dados

Amazônia representa 50,5% dos focos de calor. O Cerrado, 39,1%. A maioria dos estados da Amazônia Legal tem queimadas acima da média histórica. O Acre e o Amazonas declararam situação de emergência por conta das vastas regiões atingidas por fumaça.

queimada por bioma

  Fonte: INPE – Satélite de Referência – Aqua/Tarde Descarregar estes dados

Os dados, que são atualizados diariamente, somam 63,3 mil  focos de calor até o dia 14 de agosto . Esse é o mais alto número de queimadas dos últimos sete anos no primeiro semestre. Focos de calor são indicadores de incêndios e são captados pelo satélite Aqua, da agência espacial americana. (Veja mapa em tempo real acima clicando no View Map)

Queimadas ao longo da BR 163, na região central do Pará, afetam unidade de conservação, em especial a Floresta Nacional do Jamanxin. Imagem de 13 de agosto capturada pelo satélite Terra da Nasa.

Em entrevista ao InfoAmazonia, o pesquisador Alberto Setzer, coordenador do Programa de Monitoramento de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), observa que o ano 2019 já acumula um total de focos de calor próximo ao de 2016. Sua avaliação é que ao fim do ano, 2019 possivelmente será igual ou ultrapasse a medida de três anos atrás. Ele explica que a correlação entre queimada e desmatamento é verificada ao longo dos anos, já que sempre se observa qua nos locais onde há aumento do desmatamento existe também uma alta de focos de calor.

“Nos locais em que existe fumaça nas imagens de satélite, não há outra fonte se não o desmatamento”, diz Setzer do INPE.

Onde está queimando mais

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Imagem obtida pelo satélite Terra, da NASA, de Apuí, sul do Amazonas, no último dia 13 de agosto

Apuí no Amazonas é o campeão de queimadas de todo o Brasil. O local representa mais do que nenhum outro município a nova fronteira do desmatamento. Nos dados mais atuais do desmatamento, o sistema Prodes mostra Apuí como o oitavo entre os maiores desmatadores em toda a Amazônia. Entre 2017 e 2018, o crescimento do corte raso em Apuí foi de 161%. O sul do Amazonas, especialmente no entrocamento na Transamazônica (BR-230) e rodovia Porto Velho-Manaus (BR 319) tem sofrido o processo de Rondonização na última década, onde madeireiras do estado ao Sul passaram a migrar para regiões ainda pouco exploradas. A promessa de pavimentação das rodovias amazônicas desde o governo Temer e, agora, reforçada por Bolsonaro impulsiona a especulação por terras públicas. Leia reportagem especial sobre a Rondonização

O número de queimadas em 2019 ainda está abaixo da média, que é gerada pelo INPE a partir de série histórica iniciada em 1998. No entanto, o inevitável crescimento em relação a 2018 confirma uma tendência de alta nas queimadas que vem ocorrendo nos últimos cinco anos. A perspectiva “não é das mais animadoras”, diz Setzer, pois o clima seco deste ano deve acelerar as queimas em agosto e setembro, historicamente os piores meses. As previsão climática emitida em Julho pelo INPE para estes próximos três meses indica precipitação entre 40 a 50% abaixo do normal nas partes centrais e norte da Amazônia

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site InfoAmazonia [Aqui!].